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E o resto é história. É apenas fumaça. Do encento e palavra, ainda na zona do Chiado. Quem faz um filho fala por gosto. É sangue vermelho, troco do corpo, pouco de amor.

Quer transformar este país numa ditadura.

Não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao 37º episódio de "E o Resto é História", em tempo de quarentena e com a epidemia à nossa volta. Rui, ainda estás em forma? Ainda não foste atacado pelo bicho?

Tanto quanto eu sei, não. Mas nós às vezes não sabemos. Por isso é que convém ter cuidado.

Mas não há gotículas na tua testa.

Só gotículas do esforço de preparar os programas, como é óbvio.

Muito bem. Bom, olha, eu proponho que desviemos um pouco a cabeça do coronavírus durante 40 minutos e desta vez falemos de outras coisas, aproveitando para responder às muitas perguntas dos nossos ouvintes que nos têm chegado. Acho que começamos todos a precisar de variar um pouco a conversa. E a primeira pergunta é do Fernando Menezes Lopes, e diz assim: "Numa fase em que falamos sobre a economia e sobre recessão, eu gostaria de saber se efetivamente houve um tempo das vacas gordas e se houve, foi quando? E como chegamos até este ponto em que temos uma dívida que é cerca de 122% do PIB?" Bom, eu diria que a forma como chegamos aqui, a esta casa dos 120% do PIB, é bastante conhecida. Trata-se de uma acumulação dívida já dos governos democráticos, que se agravou com a entrada no euro, sobretudo a partir de 2002, e atingiu o seu ponto mais alto, o seu pico, na sequência da recessão internacional de 2008, 2009. E em Portugal, como todos sabemos, essa recessão bateu com muita força a partir, sobretudo, de 2010, 2011, e depois após a queda do governo de José Sócrates, a dívida pública disparou até à casa desses tais 120% do PIB. Agora, a pergunta sobre o tempo das vacas gordas é muito pertinente. Será que tivemos verdadeiramente vacas gordas ao longo da história de Portugal, Rui? Alguma época em que o nosso desenvolvimento econômico tenha sido tão poderoso que a nossa riqueza fez inveja ao mundo. Isso existe?

Acho que seria interessante lembrar quando é que essa distinção entre vacas gordas e vacas magras foi introduzida na política portuguesa.

A expressão mesmo?

A expressão mesmo. E foi introduzida por Marcelo Caetano, chefe do governo, numa conversa em família na RTP em 1973. Ele avisou os portugueses para que tinham vivido até então numa época de vacas gordas e iria começar uma época de vacas magras. Portanto, isto introduziu a ideia de que havia este contraste entre épocas bem definidas, umas de prosperidade, aparentemente sem problemas, e depois outras de dificuldade e com problemas. E quando nós olhamos para esse ano, o ano de 1973, quando Marcelo Caetano falou de vacas magras e de vacas gordas, aparentemente faz sentido, porque esse ano foi, não apenas para Portugal, mas para todos os países da Europa Ocidental e até mesmo, digamos também do Ocidente, incluindo os Estados Unidos, um ano que separou os anos do pós-guerra, os anos de crescimento que seguiram à Segunda Guerra Mundial, recuperação das economias, reconstrução, aliás, no caso da Europa, de reconstrução das economias, depois das destruições da guerra, portanto, esses anos de crescimento, de aparente prosperidade, e depois os anos de dificuldades dos anos 70, princípios dos anos 80, que é anos de inflação e de desemprego. A separação é feita pelo chamado choque do petróleo de 1973, isto é, aquela subida enorme dos preços do petróleo no contexto de uma guerra entre Israel e os países árabes, a guerra de outubro de 1973, pôs toda a gente em filas nas bombas de gasolina a tentar encher o depósito dos carros, foi o fim da energia barata, da energia de origem fóssil barata, e teria separado, portanto, essas duas épocas. Uma época de aparente prosperidade, sem problemas da época das dificuldades, das vacas magras, das vacas gordas.

Sendo que depois com a revolução também o emagrecimento da vaca agravou-se.

No caso de Portugal, temos também a revolução do 25 de abril de 1974, que introduz no país um nível de despesas públicas que já existia em outros países da Europa Ocidental, onde também já estava a causar problemas, e que aqui evoluiu, enfim, também com as políticas revolucionárias de 74, 75, com uma recessão em 1975, uma das maiores recessões da história portuguesa, e três anos depois, em 1978, o primeiro programa de assistência financeira negociado com o Fundo Monetário Internacional. Portanto, a questão é saber, então há esta separação, isto é, há épocas de vacas magras e há épocas de vacas gordas, e é possível distinguir esses tempos.

Os anos 60 em Portugal foram de vacas gordas, no sentido em que houve um crescimento muito assinalável da economia.

Ora bem, nos anos 60 em Portugal houve, de facto, taxas de crescimento que talvez tenham sido as maiores da história portuguesa. Antes de 1973, nós chegamos a ter taxas anuais de crescimento da economia a rondar os 10%. Portugal foi um dos países que nessa altura, antes de 1973, mais Cresceu no mundo, cuja economia mais cresceu no mundo. Mas, e este é um mas muito importante, a verdade é que nesta época em que a economia portuguesa cresceu imenso, vivia-se pior em Portugal. Por quê? Porque se estava ainda num nível inferior de desenvolvimento do que se viveu durante as vacas magras, por exemplo, mais recentemente, durante a chamada recessão e a crise financeira que se seguiu a 2010, 2011. Os anos 60, estes anos de grande crescimento da economia, a economia, de fato, cresceu, o país industrializou-se, urbanizou-se, a sociedade mudou, portanto, foram anos de grande prosperidade econômica, mas também foram anos de grande imigração, foi a grande imigração pra França.

Aliás, obviamente a imigração ajudou esse crescimento, com as remessas dos imigrantes que chegavam a Portugal.

Sim, não foi a base do crescimento, mas as pessoas viviam suficientemente mal para se sentirem na necessidade de imigrar a um nível maior do que imigraram entre 2011 e 2015, durante os anos do ajustamento recentes, em que voltou a haver imigração. A imigração de 2011 a 2015 não se compara àquela imigração dos anos 60, que ainda por cima era uma imigração de gente pobre, dos anos 60, isto é, que ia a salto pra França, para os bairros de lata de França e dedicar-se depois a ofícios humildes. Além disso, claro, podíamos também lembrar que os anos 60 eram anos de guerra em África e anos de ditadura. O Estado Novo só caiu em 1974, portanto ainda havia ditadura. Isto é que é o ponto principal. Isso dá a ideia da dificuldade de falar, em história, de vacas gordas e contrastá-las com as vacas magras. Já estamos a falar de uma época que o próprio Marcelo Caetano designou por vacas gordas e estamos a ver aqui muitas magrezas nestas vacas gordas.

Certo. Rui, mas de qualquer forma, a pergunta do Fernando, eu penso que não era apenas pra olhar pra história mais recente, mas olhar mais pro passado de Portugal. E portanto, sei lá, pras épocas dos descobrimentos, pra certa época do ouro do Brasil. Achas que mesmo nessas épocas, esta tua teoria de que as vacas gordas, na verdade, sempre coabitaram com as magras, também se aplica?

Deixa eu te só explicar mais uma coisa em relação aos anos 60 pra deixar isto bem claro. É óbvio que há crescimento econômico, é óbvio que entre 1960 e 1973, é quando Portugal, em 1960, adere à Associação Europeia de Comércio Livre, e portanto isso permitiu integrar Portugal no mercado europeu e deu à economia portuguesa oportunidades para crescer como nunca tinha crescido até então. E houve uma sociedade que se transformou, como eu disse há pouco, isto é, uma sociedade rural que se transformou numa sociedade industrial. É isso que gera essa grande dinâmica de crescimento. E sim, o crescimento econômico é a base do bem-estar, isso é, sem o crescimento econômico dos anos 60, não teria sido possível, por exemplo, a construção do Estado Social, tal como depois ela é construída nos anos 70. O que se passa aqui é quando esse crescimento está a decorrer, as pessoas, como é óbvio, ainda não beneficiam de todos os resultados desse crescimento. Isto é, esse crescimento só vai dar resultados a seguir.

Essa é a famosa frase do Luís Montenegro, que na altura foi tão usada, não é? Que é: "O país está melhor, mas a vida das pessoas não está melhor." "A vida das pessoas não está melhor, mas o país está melhor."

Há esse paradoxo. Bem, isso aí pode remeter pra outra coisa. Ele estava a falar das finanças públicas e de fato podemos atingir equilíbrios financeiros e, por vezes, à custa do bem-estar, à custa da prosperidade. Agora, em épocas anteriores da história, há quem veja épocas na história de Portugal de vacas gordas. Por exemplo, no século XVI, enquanto o país teve o monopólio do comércio marítimo pelo Atlântico das especiarias da Índia, quando Portugal dominou o exclusivo da rota do Cabo, no princípio do século XVIII, durante a exploração do ouro do Brasil, ou mesmo na segunda metade do século XIX, durante o chamado Fontismo, os governos do Fontes Pereira de Melo, quando houve grandes investimentos externos no país. Foi quando se construíram os comboios, as linhas férreas, uma grande parte das estradas, os telégrafos, enfim, também identificado como uma época de vacas gordas, digamos assim, por contraste com épocas anteriores e com épocas posteriores. Ora, o que é que temos também a dizer? Vamos tornar essa ideia também um pouquinho mais complicada. É que essas aparentes épocas de vacas gordas contiveram desastres vários, isto é, tiveram também elas próprias, essas épocas, anos de crise, tiveram pestes, epidemias, guerras, portanto, não foram totalmente fluídos. Isto é, damos como exemplo, a segunda metade do século XIX, os tais tempos do Fontes Pereira de Melo, do Fontismo. Houve crises financeiras graves em 1868 e em 1876, houve uma epidemia de febre amarela em 1857. Isto é, eu posso olhar para aquela época como uma época de vacas gordas, por contraste com a primeira metade do século XIX e depois até com o fim Do século XIX, quando as dificuldades pareceram mais impressionantes. Mas a verdade é que essa época, quando olho com pormenor, também teve todos estes momentos de dificuldade. Esse é um ponto. O outro ponto que valia a pena referir, até mesmo a propósito da segunda metade do século XIX, é que por vezes é a época das vacas gordas que prepara a época das vacas magras. Isto é, é na época das vacas gordas que se cria condições para as vacas se tornarem menos gordas e ficarem mais magras. Às vezes, porque as vacas gordas são apenas o aproveitamento de condições efêmeras de prosperidade, como acontece no fim do século XVIII, quando Napoleão decreta o chamado Bloqueio Continental em relação à Inglaterra, faz uma espécie de Brexit ao contrário, tenta tirar a Inglaterra do comércio europeu e, ao tirar a Inglaterra, dificulta também o acesso da Europa Ocidental aos produtos tropicais, isto é, do resto do mundo. E Portugal, que tenta manter uma posição neutral nesse fim do século XVIII, princípio do século XIX, torna-se o principal fornecedor de produtos tropicais à Europa. Enfim, o Brasil, mas é através de Portugal que o Brasil faz. E isso cria uma prosperidade enorme comercial a Portugal durante alguns anos. Mas era uma prosperidade obviamente efêmera, era um aproveitamento de condições muito localizadas. Por outro lado, às vezes as vacas gordas incentivam a comportamentos insustentáveis, isto é, julga-se que as vacas gordas vão continuar indefinidamente, que a prosperidade não vai acabar e que, portanto, se podem assumir compromissos à conta da prosperidade futura. É um pouco assim que podemos olhar para as despesas sociais dos anos 70, quando com base na industrialização dos anos 60, se pensou que se estava num processo que não iria haver interrupções e, portanto, que as vacas gordas iam manter-se sempre gordas a seguir, e acabou por se comer as vacas gordas.

E até podes aplicar isso também ao euro, não é? E à entrada do-

E um pouco também dessa maneira. Portanto, isto era só pra dizer que a separação entre épocas de vacas magras e vacas gordas é uma ideia que podemos discutir.

Achas que as vacas são sempre as mesmas, não é?

As vacas às vezes são sempre as mesmas. Exatamente.

Só vai variando o peso.

Exatamente.

Olha, Rui, o ouvinte André Rei enviou-nos um e-mail a dizer que recentemente viveu um ano em Angola e que tem, como tantos de nós, familiares próximos que lá viveram nos anos 60 do século passado. E daí que lhe tenha surgido esta curiosidade: como era a vida nas antigas colônias portuguesas no tempo da Primeira República até aos anos 50 do século XX? Ou seja, ali desde os anos 1910 até aos anos 1950. E de fato, quando nós olhamos à nossa volta, o que não faltam são livros sobre Angola da década de 60, fotografias até também sobre Angola, Moçambique, no final dos anos 50 e 60, mas antes disso os materiais disponíveis são muito limitados. E por que é assim? Como foi realmente a vida dessas pessoas nessa altura?

Os materiais disponíveis não são limitados à documentação. O que falta é outra coisa.

Eu digo é o material visual.

Não, faltam memórias de pessoas. E isso tem uma razão muito simples: é que havia muito menos portugueses a viver em África antes dos anos 50 do que nos anos 50 e 60. A maioria dos portugueses que passaram por África, na história de Portugal, passaram por África precisamente nos anos 50 e 60 do século XX, depois da Segunda Guerra Mundial e até à independência das colônias africanas em 1974, 75. E portanto, as memórias da vida portuguesa em África datam maciçamente desses anos e sobretudo até nos últimos anos mesmo da década de 60 e do princípio da década de 70. Nós já aqui falamos disso, quer dizer, sim, os portugueses chegaram àquilo que hoje é a costas de Angola e de Moçambique nos séculos XV e XVI, mas a colonização portuguesa, isto é, a ocupação desses territórios por portugueses e a acumulação de população europeia ou oriunda do Portugal europeu nesses territórios é muito mais recente, isto é, não é do século XV e XVI. É só no fim do século XIX que Angola e Moçambique adquirem as fronteiras que têm hoje e é só nas primeiras décadas do século XX que os territórios foram verdadeiramente ocupados. Portanto, em 1900, ainda há muito poucos portugueses em África. Estima-se que terá havido talvez cerca de 10 mil portugueses europeus em Angola, uns cinco mil em Moçambique, portanto, um total de 15 mil, é muito pouco. Portanto, Angola era sobretudo aquelas povoações costeiras e alguns postos e postos militares no interior. E uma grande parte destes portugueses que eu aqui estava a referir são portugueses que são militares, isto é, são militares que estão lá em operações de ocupação do território e de imposição da administração portuguesa às populações locais.

Não havia uma sociedade civil forte, não é?

Não, havia ainda aquilo que vai existir nos anos 60. Estas colônias africanas tinham valido sobretudo como entrepostos tráficos de escravos pro Brasil e quando acabou o comércio de escravos e depois acabou a escravatura, tornaram-se muito desinteressantes, isto é, tornaram sobretudo destino de deportados. Portanto, aqueles que eram impróprios para outros destinos. Era quase o equivalente a uma pena de morte, porque o fato de não existir lá muita população europeia tinha a ver com as doenças que havia naquela costa africana, era uma costa mortífera para os europeus, e portanto, não atraía pessoas. O que transformou estas colônias foram as guerras mundiais, foi a Primeira Guerra Mundial, 1914, 1918, e sobretudo a Segunda Guerra Mundial, 1939, 1945. Por quê? Porque criaram mercados para os produtos destas colônias portuguesas, tornaram-nos interessantes como espaços, não apenas para importação de produtos tropicais, a que se tornou mais difícil de aceder devido à disrupção do comércio, dos circuitos comerciais durante a guerra, mas também como destino de exportação para Portugal. E é entre esses anos 10, digamos assim, os anos da Primeira Guerra Mundial e os anos 50, que a população de origem europeia, sobretudo em Angola e Moçambique, se começa a tornar mais importante. Mas ainda não é a mesma população que vai existir nos anos 50 e 60. Esta população, isto é, estes portugueses que estão em África entre os anos 10 e os anos 50 do século XX, ainda são vistos como os africanistas, era a expressão que era usada para estes colonos. Africanistas, isto é, uma espécie de aventureiros, de gente do sertão, caçadores. Já não era bem assim, mas era assim ainda que eles eram imaginados. De fato, a maior parte são homens solteiros ainda, em busca de fortuna, ou funcionários de grandes companhias coloniais estrangeiras, como a Companhia de Moçambique, com capitais ingleses e que dominava Moçambique. Eles vão de barco ainda, que é a principal via de transporte para a África, e ficam lá ao longo dos anos. Portanto, isto é interessante, porque a vida nas colônias vista da metrópole ainda parece bastante primitiva. E ainda não são muitos. Nos anos 40, ainda há só 30 mil europeus em Angola, 17 mil em Moçambique e muito menos do que em outras colônias europeias de África. É, de fato, depois dos anos 50, com a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial e a expansão do comércio mundial, que criam mercados para os produtos de Angola e Moçambique, é a partir daí que há uma modificação da colonização portuguesa, isto é, não apenas aumenta imenso o número de colonos nos anos 50 e 60, mas são colonos que chegam com as famílias. O número de mulheres, por exemplo, agora que vai para África, é igual ao número de homens. Instalam-se nas cidades e fazem uma vida muito mais moderna e mais desafogada do que aquela que se fazia nas cidades europeias da época. E são muito mais, só para vos dar um número, vou falar só de Angola, há 172 mil europeus já em 1960, há 172 mil europeus, isto é, portugueses vindos da metrópole, em Angola, e são 335 mil em 1974.

Ou seja, uma duplicação em 15 anos.

Tem um nível de instrução superior aos imigrantes que vão para a França ou para a Alemanha nessa época. Portanto, é um mundo completamente diferente, é um mundo mais moderno, mais sofisticado do que quer a metrópole, quer obviamente os mundos da imigração portuguesa na Europa, e portanto, deixam memórias completamente diferentes, aquelas memórias que imagino que a maior parte dos antigos retornado ainda à África.

Uma memória paradisíaca.

Sim, é uma memória muito feliz e que se percebe o porquê.

Certo, muito obrigado. Rui, termina assim a primeira parte de "E o Resto é História". Voltamos já a seguir. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte do 37º episódio de "E o Resto é História". Abrimos esta segunda parte com uma pergunta do ouvinte Olindo Iglesias. E já sabe, se quiser enviar as suas perguntas, o endereço de e-mail é o do costume: historia@oobservador.pt. Agora que está aí fechado em casa, aproveite. E esta pergunta do Olindo centra-se na guerra civil em Portugal, no século XIX, entre os reis Dom Miguel e Dom Pedro. O ouvinte afirma, e parece-me com razão, que este é um tema que ainda hoje parece dividir muitos monárquicos em Portugal, pois há quem considere, ainda hoje, o rei Dom Miguel, o rei patriótico e o rei legítimo, enquanto o rei Dom Pedro é olhado quase como que um traidor. E deixa especificamente estas duas questões. A primeira: o rei Dom Miguel foi de fato um rei legítimo ou foi ele próprio um usurpador do trono de sua mulher, a rainha dona Maria? E dois, segunda pergunta: por que razão subsiste até os dias de hoje, em meios mais conservadores, esta ideia de que o rei Dom Miguel era o rei patriota e por que este ódio de estimação em relação ao Dom Pedro? São duas perguntas muito pertinentes, Rui, não é? Porque no meio monárquico isso ainda é uma coisa um bocado mal resolvida 200 anos depois.

Sim, embora hoje esteja mais atenuada, uma vez que o representante da Casa Real atualmente, o senhor Dom Duarte, é descendente tanto de Dom Miguel como de Dom Pedro. E, portanto, digamos que os dois ramos dos Braganças separados pela guerra civil de 1828 ou pela 34, de fato houve guerra civil em 1828 e depois entre 1832 e 34, mas podemos designar o período de 1828, 1834, esses dois ramos digamos que se voltaram a unir na pessoa do senhor Dom Duarte. Agora, a questão dinástica que houve em Portugal a partir da morte do rei Dom João VI em 1826, essa questão dinástica não tinha apenas a ver com as opiniões sobre quem era o rei legítimo de Portugal, isto é, se um irmão ou se outro, ou se o tio e a sobrinha. Tinha a ver com opções políticas fundamentais. Isso é talvez a primeira ideia que temos de ter. Dom Miguel, que em 1823 tinha chefiado a revolta contra A Constituição de 1822, Dom Miguel representava aqueles que queriam uma monarquia de acordo com a tradição histórica, isto é, um rei absoluto, um rei independente de outros poderes no Estado, era isso que significava um rei absoluto, e uma igreja católica tal como ela tinha estado organizada até então, com ordens religiosas, etc. Esses eram os chamados absolutistas. Eram estes que Dom Miguel representava. E o seu irmão Dom Pedro, que em 1826 tinha dado uma nova Constituição a Portugal, representava aqueles que queriam uma monarquia constitucional com um governo limitado pelo Parlamento, portanto, com o governo do rei limitado pelo Parlamento, e uma igreja reformada, por exemplo, sem as ordens religiosas, e eram os liberais. Estamos a falar não apenas de dois candidatos ao trono, como às vezes existia na Idade Média ou noutras épocas, mas duas correntes de pensamento político, ou de sensibilidade política, ou de cultura política, que confrontavam-se e tinham chefias dinásticas. Isto é, tinham-se refletido numa divisão da própria família real.

Olhando dos dias de hoje, Dom Pedro parece muito mais sexy do que Dom Miguel. Essa sexiness é justa ou injusta?

Na altura, o Dom Miguel pareceu bastante sexy a muita gente, e o Dom Pedro também a outros, mas o Dom Miguel, sobretudo. Ora bem, de onde é que vinha a questão dinástica? Porque, em princípio, não devia ter havido uma questão dinástica, porque as regras de sucessão ao trono eram muito claras, isto é, o filho mais velho, quando existia, sucedia ao pai. E o Dom João VI, quando morreu, deixou um filho mais velho, que era Dom Pedro, o príncipe real, o filho mais velho de Dom João VI e, portanto, o sucessor. Ora bem, de onde é que veio, portanto, a questão dinástica? Veio do seguinte: é que o Dom Pedro tinha ficado no Brasil quando a corte voltou para Portugal em 1821, e não só tinha ficado no Brasil, não tinha vindo para Portugal, como em 1822 liderou o movimento de independência do Brasil, isto é, de separação do Brasil em relação ao reino de Portugal, e tornou-se o primeiro imperador do Brasil. O Dom Pedro tornou-se o imperador Dom Pedro I do Brasil. Portanto, revoltou-se contra o pai, contra o rei Dom João VI.

E a acumular cargos nessa altura.

Sim, ainda não havia essa limitação orçamental. Os partidários de Dom Miguel argumentavam que o Dom Pedro tinha deixado de ser o herdeiro da coroa portuguesa porque tinha se revoltado contra o pai e tinha se tornado imperador do Brasil e, portanto, em 1826, devia ter sido o filho mais novo de Dom João VI, o Dom Miguel, a suceder a Dom Pedro. Ora bem, aqui havia um problema também: é que o Dom Pedro tinha se revoltado contra o pai, mas o Dom Miguel também se tinha revoltado contra o pai durante a Abrilada de 1824. E tanto se tinha revoltado contra o pai, isto é, tinha chefiado o movimento militar dirigido contra os liberais ou contra a influência liberal, mas verdadeiramente contra o Dom João VI, que então era o rei, que o movimento tinha falhado, da Abrilada de 1824, e ele tinha partido também pro exílio. Portanto, em 1826, o Dom Miguel também estava exilado. Os dois filhos de Dom João VI estavam na mesma situação de rebeldes contra o pai, contra o rei. E o que acontece é que a regência de uma irmã deles, a infanta dona Isabel Maria, depois da morte de Dom João VI, em 1826, opta por aclamar Dom Pedro, o imperador do Brasil, como rei de Portugal, isto é, como Dom Pedro IV. Agora, o Dom Pedro sabia duas coisas.

Nós temos que dedicar um programa inteiro só a estes movimentos e estes golpes e contragolpes entre 1820 e 1830.

É muito complicado.

É uma confusão. Estás a simplificar.

Estou a tentar simplificar para não tornar a coisa completamente impenetrável. O Dom Pedro sabia duas coisas, isto é, quando se tornou Dom Pedro IV. Sabia que não podia ser rei de Portugal, porque os brasileiros nunca aceitariam uma reunificação dinástica das duas monarquias, quer também porque a Inglaterra também não aceitaria essa reunificação. E, portanto, abdicou da coroa de Portugal na sua filha mais velha, a princesa dona Maria da Glória, que se tornou dona Maria II de Portugal. Mas o Dom Pedro sabia também outra coisa. Sabia, por exemplo, que o irmão, o infante Dom Miguel, tinha muita força política em Portugal. Isto é, enquanto líder do movimento absolutista. E, portanto, Dom Pedro concebe um plano engenhoso de tentar resolver este problema. Como já disse, dá uma Constituição a Portugal, a Carta Constitucional de 1826, portanto, torna Portugal uma monarquia constitucional, mas ao mesmo tempo, propõe o casamento de dona Maria com o infante Dom Miguel, isto é, da sobrinha com o tio, e nomeando Dom Miguel, a partir desse momento, lugar-tenente em Portugal. Portanto, Dom Miguel torna-se regente. Para todos os efeitos, torna-se o rei operacional, o rei em funções em Portugal.

Foi uma tentativa de compromisso.

É, os liberais tinham uma Constituição e os absolutistas tinham rei, portanto, em princípio, toda a gente deveria ter ficado contente. Como é óbvio, ninguém ficou contente. O resultado foi a guerra civil, em que a questão da legitimidade, isto é, de quem era o rei de Portugal, é uma questão muito discutida, há muitos panfletos e muitos ensaios e estudos sobre se é o Dom Miguel, se é dona Maria II, portanto, o Dom Pedro ou dona Maria II, quem é que é o rei legítimo. A questão é importante porque dá Uma certa força aos liberais, porque os liberais até 1826 tinham se confrontado com o rei, a monarquia, e era um partido que não tinha um candidato ao trono. E a partir de 1826, os liberais, que querem a monarquia constitucional em Portugal, têm também um candidato ao trono, quer dizer, um candidato que pode reivindicar a legitimidade como é a Dona Maria II. E, portanto, também se reivindicam como um partido legitimista, que era uma expressão usada pelos partidários de Dom Miguel. Isso dá uma certa força aos liberais. É muito provável que não tivesse havido nem guerra civil, nem os liberais tivessem, nos anos 30, conseguido tomar o poder em Portugal, se não tivessem o candidato Dona Maria II, e depois até o antigo príncipe real, antigo também já nessa altura imperador do Brasil, Dom Pedro, à sua frente. É verdade, a monarquia constitucional tinha a vantagem de representar o regime que se tornou dominante na Europa Ocidental depois da década de 1830, isto é, em França, em Espanha, na Inglaterra, eram monarquias constitucionais, mas o fato de em Portugal os proponentes da monarquia constitucional também terem um rei, neste caso, uma rainha, quer dizer, um candidato ao trono, foi também importante e levantou problemas ao Dom Miguel. Houve algumas potências europeias que em princípio, até estavam favoráveis às ideias de Dom Miguel, ao tipo de monarquia chamada absolutista do Dom Miguel, mas que hesitaram em apoiá-lo por causa dos problemas de legitimidade dinástica. Isto é outra história. A maneira como as monarquias europeias resolveram o problema das guerras napoleônicas e da Revolução Francesa foi reforçando a ideia do princípio da legitimidade dinástica e, portanto, que era um princípio que, em princípio, não era muito favorável a quem queria fazer novos Estados constitucionais na Europa. Mas neste caso, os liberais portugueses também o puderam utilizar. Aliás, como os liberais espanhóis, onde houve também uma luta entre um tio e uma sobrinha. Mas, portanto, a questão dinástica é uma questão importante, mas de fato a questão fundamental era sobre que tipo de regime, até mesmo que modo de vida é que viria em Portugal, um representante pela monarquia constitucional, pelo regime liberal, outro pela monarquia tradicional, pelo regime absolutista. E Dom Pedro e Dom Miguel, o choque entre eles não era apenas por serem os dois irmãos a quererem ser reis de Portugal, é porque representavam essas duas grandes propostas políticas.

Muito bom. Fica aqui a promessa que a gente um dia desses dedica uma atenção particular às décadas de 20 e 30, ali do século 19 e fazemos aí um programa especial.

São décadas muito importantes para perceber o Portugal contemporâneo, o Portugal dos dias de hoje.

Olha, então agora viajamos um bocadinho mais atrás, século XVI. Pergunta o ouvinte Ricardo Borges: "Gostaria, se possível, de saber um pouco mais acerca de uma personagem caricata da mitologia portuguesa, o sapateiro/profeta Bandarra". Felizmente, Rui, temos aqui ouvintes cheios de curiosidade. Quem foi então este Gonçalo Anes Bandarra, sapateiro de profissão e visionário, dizem alguns, que no século XVI escreveu umas trovas de que ainda hoje se fala, como se vê neste programa.

É verdade.

Já não são tão populares, mas houve uma altura, e não assim tão distante, que eram mesmo muito populares.

Eram. As chamadas Trovas do Bandarra são uma série de poesias em quadras, em que ele descreve sonhos, que são sonhos proféticos, isto é, coisas que vão acontecer. Esses sonhos são descritos de uma maneira suficientemente enigmática para, ao longo dos séculos, quem quis lá ver coisas, viu coisas. Atribuíram-lhe as mais variadas interpretações.

É possível que o coronavírus também lá esteja.

É muito provável que a epidemia deste ano de março de 2020 também esteja prevista nas trovas do Gonçalo Anes Bandarra, o sapateiro de Trancoso. Aquilo que sabemos do Bandarra, não sabemos muita coisa. Terá nascido no princípio do século XVI, por volta de 1500. Deve ter morrido depois de 1556, não sabemos bem. Tem uns problemas com a Inquisição, ele é condenado pela Inquisição nos anos 40, precisamente porque estes versos, estas trovas que ele fazia, são fundamentalmente baseadas em interpretações de textos bíblicos. E, portanto, havia uma dimensão assim um bocadinho herética, digamos, de ousadia aqui. Mas as trovas tornam-se, como já disseste, populares. Tornam-se populares durante a união dinástica de Portugal com Castela, depois de 1580. São usadas pelos chamados sebastianistas para prever um regresso de um rei que pode ser Dom Sebastião, isto é, o regresso de Dom Sebastião, que terá morrido quase certamente em 1578 na Batalha de Alcácer Quibir, no norte da África, mas muita gente acredita que o rei não morreu e que um dia voltará. O rei encoberto, um dia voltará. E depois de 1640, depois da restauração, quando Dom João IV se torna rei de Portugal, há também uma nova interpretação das Trovas do Bandarra, que faz do chamado rei encoberto, o próprio Dom João IV. Portanto, o Bandarra teria profetizado a ascensão do Duque de Bragança ao trono em 1640. Cem anos antes, o Bandarra teria previsto esses acontecimentos. Mas não apenas esse acontecimento, isto é, do Dom João IV se tornar rei Portugal. O que o Bandarra teria previsto, de acordo com estes seus leitores do século XVII, era que não apenas Dom João IV se tornaria rei de Portugal, mas o Dom João IV poderia vir a dar a Portugal um novo papel na história do mundo, que era o do chamado quinto império do mundo. Esse quinto império do mundo, depois do império assírio, do império persa, do império grego e do romano, mais uma vez é uma referência bíblica, este quinto império do mundo seria um império espiritual, um império que era a conversão de todo mundo ao cristianismo, e Portugal seria, nesta visão messiânica e providencialista da sua história, o agente dessa transformação espiritual do mundo.

O padre António Vieira, aliás, comprou essa tese, não é?

O padre António Vieira-

Comprou e alimentou.

O padre António Vieira, que é também o intérprete do Bandarra, escreve uma carta famosa, um texto sob a forma de carta, "As esperanças de Portugal, quinto império do mundo", em 1659, em que desenvolve precisamente esta ideia, e depois também num outro texto publicado já postumamente, "A história do futuro". Isto é uma história do futuro, é uma ideia curiosa, e que dá uma credibilidade ou uma popularidade ao Bandarra. O Bandarra é visto, nessa altura, como uma espécie de Nostradamus, o profeta do destino português, e os seus versos são vistos como antecipando esse Portugal que viria a ter um novo papel no mundo.

Sendo que Fernando Pessoa, já no século XX, acaba também por comprar esta ideia.

Em 1934, na mensagem, o Fernando Pessoa recupera tudo isto. E repare, o Bandarra, de alguma maneira, esta visão providencialista que assenta no Bandarra, esta visão providencialista da história de Portugal, tem tradições mais antigas ainda, porque a tradição do milagre de Ourique, isto é, do aparecimento de Cristo a Dom Afonso Henriques durante a batalha com os reis mouros, de que Camões fala nos Lusíadas, reparem que isso já dá a ideia do reino de Portugal como um reino eleito por Cristo para um papel qualquer na história do mundo. Agora, o lado mais interessante disto tem a ver com o facto de estarmos a falar no padre António Vieira, obviamente estamos a falar de um jesuíta, de um padre da corte, erudito, da corte de Dom João IV, mas no Gonçalo Nunes Bandarra, no princípio do século XVI, estamos a falar de um sapateiro, um sapateiro trancoso. E isto é muito curioso, quer dizer, porque é provável que neste milenarismo, este messianismo, esta ideia, esta expectativa de uma transformação do mundo, que seja uma corrente de sentimento, uma corrente cultural, possa existir uma espécie de misticismo das classes populares urbanas com alguma alfabetização, com alguns conhecimentos, quer dizer, como o Gonçalo Nunes Bandarra aparentemente tem da Bíblia, quer dizer, tem uns conhecimentos suficientes, tem um contacto suficiente com a Bíblia, ele pode ter sido um cristão novo, isto é, um judeu convertido e, portanto, ter também essas origens. E este milenarismo, que assenta, por um lado, numa crítica dos regimes instalados por falta de justiça. O Gonçalo Nunes Bandarra critica o clero, a fidalguia, os magistrados. Há esta crítica do que existe nos regimes. E, por outro lado, a ideia de que podemos estar na iminência de um acontecimento que vai mudar o mundo, que pode ser a vinda do Messias, que pode ser interpretado como o regresso do rei Dom Sebastião, depois de 1578. Tudo isto revela uma espécie de um milenarismo popular, isto é, um messianismo popular, uma insatisfação com o que existe e uma expectativa de um futuro melhor, que tem alguma coisa de herético. E, portanto, tanto o Gonçalo Nunes Bandarra, como depois o padre António Vieira têm problemas com a Inquisição. Aliás, o livro do Bandarra, das trovas do Bandarra, as profecias do Bandarra, é proibido em 1665 pela Inquisição e mais uma vez em 1768. E esta corrente, que às vezes se diz sebastianismo, por causa do papel que o Dom Sebastião teria nesta transformação do mundo, no advento do quinto império, mas podemos chamar de messianismo ou de milenarismo, esta corrente que tem esta dimensão religiosa até ao princípio do século XIX, ainda há sebastianistas no princípio do século XIX, durante as invasões francesas. Essa corrente, depois no século XX, vai ter uma dimensão revolucionária, secular, liberal e republicana, mas que também tem o mesmo princípio, isto é, crítica do que existe e a ideia de uma renovação quase apocalíptica do regime, do advento de um mundo novo. A ideia do fim do mundo que existe e o advento do mundo novo, que, por exemplo, está muito manifesta no movimento republicano, que também tem estas bases populares, isto é, de artesãos e operários urbanos, que tem até mesmo o culto dos líderes, isto é, o culto dos líderes republicanos, que também é um culto mais ou menos messiânico, do António de Almeida, do Afonso Costa, no princípio do século XX. Só para dizer mais uma nota: esta corrente messiânica não é especificamente portuguesa, há tradições milenaristas e apocalípticas noutros países, às vezes associadas também ao regresso de um rei encoberto. Por exemplo, a Inglaterra.

E o Nostradamus era francês.

Exato. A Inglaterra, durante a Revolução Puritana entre 1649 e 1660, no meado do século XVII, há também uma corrente ligada à quinta monarquia do mundo, uma seita protestante que também espera um apocalipse ou a vinda do Messias, até devido à proximidade do ano de 1666. 666, que é o número da besta. E, aliás, o padre António Vieira também tem uma série de raciocínios sobre este 1666. Em resumo, o sebastianismo ou este bandarrismo, digamos assim, não é um fenômeno exclusivamente português, é uma corrente da cultura europeia e acho eu que podemos ver essa corrente cultural em várias formas. Isto é, na forma religiosa tradicionalista antes do século XIX, mas também na forma de política moderna, secular, depois do século XIX, em formas liberais e republicanas.

Certíssimo. Ok, Rui, muito obrigado. Assim termina este episódio do Resta a História, com um pouquinho de apocalipse, mas com sorte, cá estaremos para a semana, porque o mundo ainda não acabou. Até lá.

E o resto é história.

É apenas fumaça do incêndio de Pedra, ainda na zona dos Chiados.

Quer transformar este país numa ditadura. Entende?

Não, entendo.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto