Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o resto é história. É apenas pomba. Do incêndio e plavra ainda na zona do Chiado. Aqui porque declaramos o salvamento das pessoas. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Desde que Donald Trump regressou à presidência dos Estados Unidos da América e declarou que o Canadá deveria ser o 51º estado americano, a consequência foi esta: o mundo inteiro de repente começou a falar e a reparar no Canadá. E como os nossos ouvintes são, obviamente, cidadãos muito atentos, começaram a surgir pequenas perguntas sobre o país. Em tempos, o Bernardo Pimentel, que em 2023, ele é médico e esteve num estágio hospitalar em Ontário, tinha-nos enviado uma pergunta sobre o porquê de tantas diferenças estruturais entre o Canadá e os Estados Unidos. Ele referia que o Canadá era permeável ao setor privado, mas que na província onde ele trabalhava, os hospitais eram todos públicos. Dizia também que parte significativa da população era de origem imigrante, um em cada quatro. Alertava para que o catolicismo era a religião dominante, ao contrário dos Estados Unidos. E o Bernardo dizia ainda que tinha andado à procura de um restaurante de comida tradicional canadiana, mas que não tinha conseguido encontrar. Já o ouvinte Jorge Felipe Tavares enviou-nos recentemente três perguntas muito diretas sobre este tema. Pelo que vemos em séries televisivas, diz ele, a cultura do Canadá é bastante diferente da dos Estados Unidos. Qual a razão? Como tem conseguido preservar essa cultura? E estando junto ao colosso americano, por que não se tornou o Canadá um dos estados dos Estados Unidos da América? Rui, realmente, por que o Canadá é tão diferente do seu vizinho? E por que nunca foi anexado por ele? Se os americanos se expandiram para sul ao longo do século XIX, conquistando território ao México, como vimos, aliás, recentemente neste programa, a propósito da doutrina Monroe, por que nunca se expandiram para norte, invadindo o Canadá?

Bem, a verdade é que os americanos invadiram várias vezes o Canadá. As primeiras vezes, antes mesmo de serem ainda os Estados Unidos da América, e também conquistaram ao Canadá uma grande parte do seu território, como fizeram ao México. Portanto, a história do Canadá não é muito diferente da história do México. Se o Canadá não é hoje o 51º estado dos Estados Unidos, não é pelos americanos não terem tentado. E não terem tentado mesmo.

Tentaram foi mais intensamente antes do México.

Tentaram mesmo e conseguiram uma parte do Canadá, vamos falar disso.

Mas realmente é uma história que as pessoas não conhecem bem. Vamos a isso.

Vamos então falar um pouquinho da colonização europeia da América do Norte. E vamos começar no século XVIII. No século XVIII, a América do Norte está dividida em três áreas de expansão europeia. Os espanhóis reivindicavam o domínio sobre o que é hoje o México e sobre o que é hoje o sul e o oeste dos Estados Unidos, estados como o Texas ou a Califórnia. Os ingleses tinham as 13 colônias na costa leste e no meio estavam os franceses. Os franceses reivindicavam o território do que é hoje o Canadá e que ia até New Orleans, no Golfo do México, portanto, era a chamada Nova França. Era o meio dos Estados Unidos, o centro dos Estados Unidos.

Na nossa cabeça, antes de nós vermos os filmes do faroeste, em que no século XIX, os americanos vão por aquelas pradarias afora conquistar terreno, parecia que nenhum europeu lá tinha estado antes. E tu estás a dizer que estavam lá os franceses?

Estas áreas de expansão não significavam áreas de povoamento ou de ocupação. Havia núcleos de povoamento, podia haver alguns fortes com soldados, havia tratados com os índios. Portanto, estas áreas eram definidas desta maneira. Eram áreas em que espanhóis não toleravam franceses, franceses não toleravam ingleses, ingleses não toleravam espanhóis, nem franceses. Essas áreas a que estás a referir-te, daquilo que é o oeste americano, as grandes pradarias, não tinham sido ainda ocupadas ou reivindicadas por nenhum poder, nenhuma potência europeia. Eles ainda estavam um pouquinho longe, mas já tinham definido estas três áreas.

Um pouquinho como aconteceu em África, de certa forma.

Sim, também. A África, o interior, mesmo o litoral, a costa africana também estava muito pouco ocupada neste século XIX, até o fim, quase, do século XIX. Muito destas áreas de expansão eram definidas por alianças ou tratados com aqueles que eram os primeiros colonizadores da América, aqueles a quem os europeus chamavam índios. Depois chamam-se as primeiras nações, mas de facto eram os primeiros colonizadores que vieram do continente asiático, ocuparam a América do Norte e formavam tribos que estavam muito frequentemente em guerra umas com as outras e portanto acolhiam bem alianças com potências europeias que lhes forneciam armas e munições. Portanto, muito destas áreas de expansão europeia, destas potências europeias na América do Norte eram isso. Havia uns quantos colonos europeus, havia depois uns soldados e havia tribos de índios que estavam em alianças com esta potência europeia que se considerava em controle daquela área ou com supremacia sobre aquela área em relação às outras potências europeias. Uma nota ainda para percebermos o que depois aconteceu. Esta nota é extraordinariamente importante. É que quando olhamos para os mapas da expansão europeia na América do Norte no século XVIII, vemos estas extensões gigantes, quer dizer, a Nova França é uma coisa enorme, as 13 colônias, o império espanhol, são coisas enormes. Bem Nada disto valia o que valia uma pequena ilha nas Caraíbas. Isto é muito importante ter em atenção. As pequenas ilhas produtoras de açúcar das Caraíbas, como por exemplo, Saint-Domingue, o atual Haiti ou a Jamaica, que eram gotas d'água comparado com isto, valiam muito mais, imensamente mais. Não havia comparação. Eram nestas ilhas das Caraíbas que estavam os grandes interesses coloniais na América.

Por causa do preço do açúcar?

Por causa do açúcar. Não havia nada na América do Norte que valesse o que valia o açúcar. Por exemplo, no caso do Canadá francês, eram as peles de animais, que era o principal negócio. Não tinha nada a ver com a produção de açúcar. Portanto, as colônias europeias da América do Norte eram núcleos de comerciantes, de caçadores, ganadeiros, agricultores, que viviam bastante bem. E nós sabemos que viviam bastante bem, porque conhecemos as suas estaturas, as suas alturas. Eles eram descendentes de europeus, mas eram todos já mais altos do que as populações europeias de onde eles vinham. Era um sinal que tinham uma alimentação bastante melhor, mas viviam para tratar de si próprios. Não tinham grandes negócios como tinham as ilhas das Caraíbas. Essas eram onde estavam os grandes negócios.

O comércio era interno. Era o que estavas a dizer, essencialmente.

Sim, eram basicamente comunidades que já viviam sob si próprias, comerciando entre eles, cultivando coisas que trocavam e consumiam.

Mas o que era então essa Nova França?

A Nova França tinha se desenvolvido logo no século XVI. O rei de Castela reivindicava a América do Norte toda, mas não tinha conseguido impedir que franceses, holandeses e ingleses começassem lá a estabelecer. Os franceses, logo em meados do século XVI, já estavam estabelecidos na América do Norte e tinham formado dois núcleos importantes de povoamento. Um no Golfo do México, que é a Nova Orleães, naquilo que vem a ser agora o estado do Louisiana, e outra norte, no vale do rio São Lourenço, numa região a que os franceses começaram a chamar Canadá. E é curiosa esta localização no estuário de um rio, num vale do rio também, por quê? Porque antes dos caminhos de ferro, os rios eram as principais vias de penetração para o interior do continente americano. E era aqui que estava o povoamento, que era onde os barcos podiam chegar e trazer abastecimentos e levar a produção para troca. O Canadá era a região da Nova França mais povoada. Em meados do século XVIII, tinha 70 mil povoadores de origem europeia, era uma população relativamente importante. Na maior parte eram caçadores de peles. Às vezes nem eram caçadores de peles, compravam as peles aos índios ou trocavam com, vamos chamar índios só para facilitar, obviamente são as populações que já lá estavam antes dos europeus. Eram caçadores, madeireiros também e agricultores, gente que se dedicava à agricultura. No Canadá, eles não tinham uma economia de plantação e, portanto, a escravidão africana praticamente não existia. Ao contrário, por exemplo, do que acontecia em Nova Orleães. Nova Orleães tinha já uma economia de plantação, tinham experimentado lá açúcar, etc., havia muitos escravos em Nova Orleães, não no Canadá. E no Canadá, as principais povoações eram Montreal e o Quebec. Estamos a falar em meados do século XVIII, que é quando as coisas começam a mudar. Aquilo a que na Europa se chama a Guerra dos Sete Anos e que na América do Norte se chama as Guerras Francesas e dos Índios. Esta guerra dos sete anos, entre 1756 e 1763, opôs as grandes potências europeias, a França de um lado, a Inglaterra do outro, e depois as outras potências, umas aliadas à França, outras aliadas à Inglaterra, mas na América do Norte foi um confronto entre a Inglaterra e a França. A relação de forças na América do Norte já favorecia muito as 13 colônias inglesas. Estas tinham mais de 1 milhão de habitantes de origem europeia em 1750, portanto, 1 milhão de habitantes de origem europeia nas 13 colônias, comparado com 70 mil no Canadá. Além deste milhão de descendentes de europeus, ainda havia 300 mil escravos africanos também. Além disso, a Marinha Britânica tinha na zona 90 navios de guerra, a França só tinha 50, portanto, a Grã-Bretanha tinha uma grande capacidade para controlar os mares e dessa maneira controlar também o transporte de reforços, de munições e de abastecimentos para a América e, portanto, ter vantagem numa guerra na América. E uma das coisas que os britânicos fazem é invadir o Canadá francês.

E estás a falar de 1 milhão de pessoas nas colônias inglesas e no Canadá 70 mil.

setenta mil colônios franceses, 1 milhão de colônios ingleses.

Mas quando tu usas a expressão Canadá, nesse caso, quer dizer, quando nós falamos de Quebec, Montreal, são cidades que hoje em dia estão muito próximo da fronteira com os Estados Unidos da América Eram ainda núcleos muito localizados, porque o Canadá hoje é um país enorme.

Não, nesta altura nós estamos a falar do Canadá que estamos a falar é basicamente a zona do Quebec. É a zona do vale do rio São Lourenço. Aliás, nos próprios Estados Unidos, estamos a falar apenas das 13 colônias. Portanto, ainda não há a grande expansão para o ocidente que vai levar quer o Canadá, quer os Estados Unidos até ao Pacífico. Isso só vai acontecer no século XIX. Estamos no século XVIII.

E para norte, no caso do Canadá, também não.

E depois também para o grande norte. Aqui estamos a falar do rio São Lourenço, a terra do Labrador, entra para o Golfo da Terra Nova, entra por ali, depois entra pelo rio São Lourenço e vai dar à região dos Grandes Lagos. É este Canadá, este Quebec, que estamos a falar. Portanto, em 1759, dá-se a primeira invasão americana do Canadá. Eu estou a falar de uma invasão americana, é verdadeiramente o exército inglês, o exército britânico, conquista o Quebec em 1759. O exército britânico conquista o Quebec e Montreal, mas inclui muitas milícias americanas como apoio. É o exército profissional britânico, mas vem com milícias americanas, porque há muitos americanos que participam nesta invasão de 1759, que é a conquista de Montreal e do Quebec. Em 1763, no fim desta guerra dos sete anos, a França cede à Inglaterra as suas possessões no Canadá. O Canadá é cedido à Inglaterra, a Louisiana é cedida à Espanha, New Orleans é cedida à Espanha, o Quebec e Montreal são cedidos à Inglaterra. E por que os franceses fazem isso? Os franceses julgaram que não se saíram nada mal desta guerra. Por quê? Porque ficaram com as colônias das Antilhas. Sobretudo as ilhas de Saint-Domingue e de Guadalupe, que valiam mais do que o Canadá e a Louisiana, tudo junto. E ainda ficaram com os direitos de pesca na Terra Nova. Portanto, economicamente, a França não perdeu nada, ficou com as coisas muito valiosas. Aliás, a Inglaterra chegou a dizer que isto tinha sido um péssimo tratado. Deram-lhes o Canadá, para que servia o Canadá, ainda por cima com 70 mil colonos franceses, quando deviam ter ficado com as ilhas das Caraíbas, que era isso que os negociantes ingleses queriam. A Inglaterra fica com o Canadá, mas a razão por qual aceita o Canadá, em vez de tentar ficar com as ilhas das Caraíbas, é por uma questão de segurança das 13 colônias. Assim tira o exército francês e as forças francesas da América do Norte e a Inglaterra chama ao Canadá a província do Quebec. E era um território enorme. A província do Quebec era maior do que o Quebec francês. Fica um território muito grande porque vem da Terra Nova, do Labrador, depois vem pelo vale do rio São Lourenço até aos Grandes Lagos e passa para sul dos Grandes Lagos até ao rio Mississipi. Portanto, é um território bastante grande que fica a constituir a província do Quebec. A Inglaterra tem 13 colônias na costa leste, são colônias, e tem a província do Quebec. É esta que é constituída com aquele núcleo de colonização francesa.

Certo. De qualquer forma, só para recordar, estamos ainda antes da independência americana.

1763, muitos anos antes da independência americana, 13 anos antes da independência americana.

Sim, e o resto desta história vai ser depois de um pequeno intervalo. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a "E o Resto é História". Nós estamos a falar do Canadá e estamos a contar a história desse país que hoje em dia certos presidentes americanos gostariam que fosse uma colônia e estamos a tentar averiguar por que não, por que nunca foi. Nós achávamos que nunca foi por bom comportamento americano, mas entretanto o leitão-

Não, foi por não conseguirem mesmo.

Foi mesmo falta.

Por não terem conseguido.

Foi por fracasso.

Não foi por virtude.

Não foi por virtude. Então conta-nos lá. Ainda estamos antes da independência americana.

1763, a Inglaterra faz com o Quebec francês, a sua chamada província do Quebec, e a eliminação da França da América do Norte tem uma consequência fatal para o domínio inglês na América do Norte. É que tornou menos interessante para os colonos americanos a proteção que lhes dava a Marinha e o exército britânico. Uma vez que já não têm a França lá, não precisam dos ingleses para os protegerem contra os franceses.

Está falado das 13 colônias.

Exatamente. Para as 13 colônias da América, quando em 1775, o governo de Londres exige que eles paguem mais até pela sua própria defesa, isto é, para pagar a defesa que têm, esses colonos preferem revoltar-se, não pagar, porque já não têm ali a França, contra a qual precisavam da proteção da Inglaterra.

E não têm medo do Canadá.

Enfim, não é só que têm medo. Uma das primeiras decisões dos delegados das 13 colônias rebeldes em 1775, isto é, mesmo antes da declaração da independência dos Estados Unidos em 1776. Ainda estamos em 1775, quando eles se revoltam, formam o Congresso Continental, que é a reunião de delegados das 13 colônias, e uma das decisões que eles tomam é a conquista da província do Quebec É uma das coisas que eles acham que é fundamental para eles conquistarem a província do Quebec. Estamos a falar de 16 ou 17 anos que tinha havido a conquista do Quebec francês, portanto muitos americanos tinham participado nessa conquista, conheciam o Quebec, sabiam o que lá estava. Sabiam que os ingleses não tinham grandes forças militares no Quebec, tinham os fortes, mas sem grandes tropas. E depois julgaram que iriam ser recebidos pelos colonos franceses como libertadores, visto aos quais os franceses tinham estado sujeitos ao domínio britânico e agora estes rebeldes americanos iam lá chegar e dizer: "Vocês estão livres do domínio britânico, juntem-se a nós e vão ser livres como nós. Vamos formar aqui um novo país, um novo Estado, do qual vocês vão fazer parte."

Esse Quebec, apesar de ser inglês, nesta altura, de já ser inglês, estar sob o domínio inglês, nesta altura ainda era dominado pelos colonos franceses.

Não, a população, vamos já falar disso, a população é francesa. A população do Quebec é uma população francesa. É esta população francesa que os americanos estão à espera que se sinta libertada. E por isso, no verão de 1775, dois exércitos americanos partem por vias diferentes para libertar o Canadá.

E fazer dele o 14º Estado?

E fazer do Canadá, ainda não havia Estados, eram 13 colônias, mas juntar-se às 13 colônias como a 14ª colônia em rebelião contra a Inglaterra. E duas coisas acontecem. A primeira é uma questão logística. É que o Canadá, que é povoado pelos europeus, no vale do rio São Lourenço, é sobretudo acessível através do mar, dos rios e dos lagos. Por terra é extraordinariamente difícil lá chegar. É através de vastidões enormes, floresta e zonas desabitadas que é preciso lá chegar. Ora bem, a invasão americana faz-se por terra, o que faz com que os desgraçados dos exércitos americanos, quando chegam finalmente ao Canadá, estão completamente esgotados. A maior parte já tinham sido dizimados por doenças que tinham apanhado ao longo do caminho. Chegam a meio do inverno de 1775, 1776. De facto, as forças britânicas do Canadá não eram muito fortes e os americanos ainda conseguiram conquistar a cidade de Montreal e depois avançaram para pôr cerco à cidade do Quebec e aí foram derrotados miseravelmente e tiveram de retirar. Aquilo foi um desastre enorme, milhares de prisioneiros, correu tudo mal.

E isso enquanto estavam a lutar também contra os ingleses.

Enquanto estavam também a lutar em Boston, nas 13 colônias, sobretudo em Boston. Mas eles julgaram que isto era um bom projeto, mesmo enquanto ainda tinham de lidar com exércitos britânicos nas 13 colônias, conquistar a província do Quebec.

E esta estratégia é do próprio Washington?

O Washington aprovou esta aventura no Canadá, até porque eles tinham medo que o Canadá fosse usado para depois os atacarem pela retaguarda. Aquilo fazia sentido militar também. Agora, outra coisa que aconteceu aqui, além das dificuldades logísticas, é que os colonos franceses não se juntaram aos americanos. E por que os colonos franceses não receberam os americanos como libertadores? Basicamente, porque em 1763, a Inglaterra tinha sido incrivelmente generosa com os colonos franceses. A Inglaterra tinha deixado os colonos franceses manterem todas as suas propriedades, não os tinha expropriado. Tinha deixado que eles continuassem a usar a língua francesa. E isto é importante, porque no século 19, quando Nova Orleans passa para o domínio dos Estados Unidos, por venda da França, uma das coisas que o governador americano uns anos mais tarde vai fazer é proibir o uso da língua francesa e obrigar a falar inglês. Os ingleses no Canadá não fizeram isso. Deixaram os colonos franceses continuar a usar o francês nas escolas.

E a religião?

A religião, continuaram a praticar a religião católica livremente. A própria Igreja Católica no Canadá continuou a cobrar dízimos, e isto foi deixado, aliás, com grandes protestos dos protestantes em Inglaterra. Como era possível, um governo de um país protestante consentir que os papistas, como eles chamavam aos católicos, tivessem ali um domínio na América. E também incrivelmente importante, os colonos franceses continuaram submetidos às leis francesas, não às leis britânicas, mas às leis franceses. Exceto no direito criminal. O direito criminal é que passou a ser o britânico, mas o direito civil continuou a ser os franceses. Eles ficaram com os seus costumes, as suas leis. Eles estavam a ser incrivelmente bem tratados pelo governador.

Havia diferenças religiosas profundas entre uns e outros, de modo que a religião era muito importante.

Os colonos franceses, católicos, que estavam a ser muito tolerados e muito bem tratados pelos britânicos, temeram o protestantismo fanático das 13 colônias, porque se sabia que as 13 colônias inglesas da América do Norte eram centros de protestantismo bastante sectário.

E numa altura em que a presença das guerras religiosas ainda tinha muita presença.

Sim, ainda não se tinha completamente dissipado, tinham passado 100 anos, mas as coisas não se tinham dissipado. Além disso, a Inglaterra tinha-se tornado também um mercado importante para a madeira canadiana, portanto já tinham ali relações comerciais importantes. Ora, o que isso quer dizer? O Canadá, mesmo sob o domínio inglês, como as 13 colônias, nada tinha a ver com elas política e culturalmente. Era católico, seguia as leis francesas e não tinha também o tipo de instituições representativas das 13 colônias. As colônias governavam-se a si próprias. No Canadá, o governador inglês exercia funções como se fosse representante de um monarca absoluto. Tinha substituído o governador francês em todos os seus poderes e tratava ali, não havia o tipo de instituições representativas que havia na América britânica. Ou seja, no Quebec havia uma população com religião, leis, hábitos diferentes e que também não era suscetível ao discurso de liberdade inglesa dos americanos. Os americanos revoltaram-se em nome de uma tradição de liberdade, que era a liberdade inglesa, que vinha da Magna Carta, etc. Este discurso de liberdade não fazia sentido para os franceses do Quebec. Não era a tradição deles, a tradição deles era viver numa monarquia absoluta e tinham ali o representante de um rei, que por acaso até era o rei de uma monarquia parlamentar na Inglaterra, mas que ali estava como se fosse o representante de um monarca absoluto e que os respeitava em todas as suas costumes, leis, língua, religião e portanto estavam relativamente satisfeitos com a situação. E quando chegaram aquelas tropas, as milícias americanas a dizer: "Chegamos para vos libertar."

"Não, obrigado, estamos bem."

"Estamos bem e desconfiamos da vossa libertação, porque vocês vêm lá de baixo, aqueles fanáticos e aqueles sectários e isto vai acabar mal."

E depois de os americanos terem sido derrotados, deixaram os pobres dos rapazes do Quebec em paz enquanto faziam a sua guerra com os ingleses?

Sim, não tentaram outra vez, porque entretanto a guerra com os ingleses aumentou imenso e, além disso, os britânicos reforçaram imenso a presença militar no Canadá. Nós estamos a falar de uma guerra, esta primeira invasão é o inverno de 1775, 1776. Na primavera e no verão de 1776 chegaram imensos reforços, milhares de homens da marinha britânica ao Quebec e ocuparam militarmente. E tentaram, aliás, depois uma invasão dos Estados Unidos, como os americanos temiam, a partir da região dos Grandes Lagos. Há a guerra em 1783, a Inglaterra reconhece finalmente a independência das 13 colônias como Estados Unidos da América. E nesse momento a Inglaterra cede aos Estados Unidos uma grande parte da província do Quebec. Isto é, quase metade da província do Quebec, todo o território a sul dos Grandes Lagos, cerca de 780 mil quilômetros quadrados, o que duplicou imediatamente o tamanho dos Estados Unidos. Portanto, em 1783, ao ficarem com uma grande parte do Canadá, os Estados Unidos aumentaram de tamanho, ficaram o dobro do que eram.

Ou seja, aquela linha reta que nós hoje em dia conhecemos da parte Norte dos Estados Unidos da América.

Não, essa linha reta é do século XIX. Nós estamos a falar só da região dos Grandes Lagos.

Sim, mas é parte dessa linha, não é?

Sim, ali não é bem reta.

Não é reta, sim, mas é parte dessa linha. Por que os ingleses fizeram isso?

Isto não era um território povoado nem colonizado, aquilo que eles estavam a dar aos americanos. Eles ficaram com a parte colonizada, que era a do rio São Lourenço, onde estavam os colonos franceses.

É uma questão de mapa.

Entregaram essa parte da província do Quebec, que hoje corresponde a cinco estados americanos: Ohio, Indiana, Illinois, Michigan, Wisconsin. Isto é parte do Canadá, era parte do antigo Canadá britânico, que agora faz parte dos Estados Unidos. Houve aqui um tratamento mexicano.

A fronteira passou-se a fazer um contorno dos Grandes Lagos para baixo ficou americano.

Detroit, Chicago, faziam parte da província do Quebec, ou antes, não existiam ainda, com a importância que depois tiveram. Nós estamos a falar dos Estados Unidos antes do século XIX, antes dos arranha-céus, antes dessas coisas todas. Estamos a falar de um Estados Unidos de tribos, de indígenas americanos, madeireiros, caçadores.

Não os arranha-céus. Os arranha-céus não foram criados.

1783, mas os Estados Unidos não desistiram de ficar com o resto do Canadá.

Nem sequer. Lambazões.

Ficaram com metade, queriam a outra metade. E em junho de 1812, nós já falamos disso a propósito no episódio sobre a doutrina Monroe. Em junho de 1812, os Estados Unidos entraram em guerra com a Inglaterra, outra vez, por causa da imposição pela marinha britânica do bloqueio comercial à França. A Inglaterra está em guerra com a França na Europa, faz um bloqueio comercial à França, inclui os Estados Unidos, e os Estados Unidos ficam também bloqueados e não gostaram nada de ficar bloqueados. E reagiram a isso, decidiram declarar a guerra, mas o grande projeto americano por trás não era só libertarem a costa da marinha britânica, mas era a conquista do Canadá. Era isso que eles queriam, era conquistar o Canadá, porque julgavam que era fundamental tirar a Inglaterra, a última potência europeia que estava com força na América do Norte, tirarem-na da América do Norte. Reparem que isto é depois de os Estados Unidos terem adquirido a Luisiana À França e terem adquirido também a Flórida. Portanto, eles estão a tirar

Estás a falar de 1812, são 50 anos depois daquilo que tu estavas a descrever há bocado.

Da Guerra do Sévenos, etc. Ora bem, a província do Quebec agora tem uma demografia completamente diferente daquela que tinha em 1775. Por quê? Porque desde 1776 tinha adquirido uma grande massa de colonos que falavam inglês e eram protestantes e que se estabeleceram, sobretudo, nos territórios do oeste do Canadá, na atual província de Ontario, com capital em Toronto. Hoje é a maior cidade do Canadá, na altura ainda não era. E começou a surgir então um Canadá anglófono, que depois, aliás, no século 19, se tornaria a base industrial do Canadá, uma vez que o Quebec ficou bastante rural, digamos, uma zona mais rural do que esta zona anglófona do Canadá. Portanto, nesta altura são 50 mil falantes de inglês que estão no Canadá. O que é que acontecia? Na maioria, eles eram refugiados das 13 colônias, eram gente que tinha fugido dos Estados Unidos porque se tinham mantido fiéis à coroa britânica. Eram os chamados loyalists, os leais, aqueles que se tinham mantido leais à coroa britânica.

E existem ainda agora.

Sim, era muita gente. Aliás, era imensa gente. Nos Estados Unidos, muita gente manteve-se fiel, 50 mil fugiram, porque foram maltratados pelos americanos. Os outros americanos expropriaram-nos, portanto eles perderam as propriedades por se terem mantido fiéis à coroa britânica. Portanto, eles eram monárquicos, digamos assim, manteram-se fiéis ao rei. Tinham recebido propriedades no Canadá, foram compensados pela Coroa Britânica com propriedades no Canadá, e quando viram chegar uma invasão de republicanos americanos que os tinham expropriado nas 13 colônias, como é compreensível, não os receberam de braços abertos, nem disseram: "Ah, fantástico, vamos ser libertados". Não, pelo contrário, "estes são os nossos inimigos, vamos resistir". Portanto, a tentativa de conquista americana do Canadá em 1812 não correu muito melhor do que a de 1775. Houve três exércitos americanos a tentar entrar no Canadá e tiveram de enfrentar não apenas as tropas britânicas, inicialmente eram 6 mil homens, mas também as milícias locais francesas e também inglesas, isto é, dos falantes de inglês protestantes que também lutaram porque eram os inimigos deles das 13 colônias. E além disso, uma grande confederação de tribos índias aliadas aos ingleses, uma vez que os ingleses tradicionalmente apoiavam os índios contra o expansionismo dos colonos americanos. Aliás, era uma das razões também para a revolta americana em 1775, era o apoio que a Coroa Britânica dava aos indígenas americanos. Portanto, a guerra nestas regiões, grandes territórios mais ou menos desabitados, era muito difícil, como se vê pela desproporção entre mortes em combate e mortes por doença. Por exemplo, no exército americano, o exército americano teve 2200 mortes em combate e 5000 por doença. Era difícil lá. Portanto, os Estados Unidos também tinham dificuldades nas suas expedições fora do território americano, porque o exército americano era sobretudo milícias e as milícias não gostavam de combater fora dos seus estados. Portanto, geralmente tendiam a retirar quando as coisas não corriam bem, tendiam a voltar para casa.

Não tinham vocação expansionista.

E depois, mais uma vez, o domínio naval britânico foi decisivo para manter o Canadá, porque era muito mais fácil abastecer tropas em combate naquela zona através dos rios, através do mar, do que por terra. Bem, portanto, já percebemos que se o Canadá não é o 51º estado dos Estados Unidos não é por falta de tentativas e de vontade. O Canadá é hoje o segundo maior país do mundo em superfície e é também, curiosamente, um dos países menos povoados do mundo em relação à sua superfície. Tem 39, talvez 41 milhões de habitantes, para 9 milhões de quilômetros quadrados, uma coisa enorme. Tenho aqui uma conta curiosa: se Portugal tivesse a mesma densidade populacional do Canadá, teria 373 mil habitantes, em vez de 10 milhões. Basicamente, era um bocadinho de Lisboa. Metade da cidade de Lisboa estaria habitada e o resto era tudo um parque natural fantástico para se passear.

E a questão do modo de vida, como um dos nossos ouvintes descrevia, que realmente descreve um Canadá muito diferente da cultura americana.

Em relação a isso, só uma nota antes de fazer mais algumas considerações. É que também os Estados Unidos, os estados também são muito diferentes entre eles. Isto é, os estados da costa leste em relação aos estados do sul, em relação aos estados da costa oeste, se pensarmos na Califórnia, no Texas, Nova York, vemos que são mundos muito diferentes. Portanto, se o Canadá fizesse parte dos Estados Unidos, ia ser muito diferente do resto, como o resto é tudo diferente entre si. Mas enfim.

Mas apesar de tudo, concebes que haverá uma diversidade maior do Canadá do que entre os estados?

Há algumas diferenças. Geralmente as pessoas notam os serviços de saúde, como o nosso ouvinte reparou, um tipo de serviço de saúde mais parecido com o europeu. E há duas coisas que mantêm o Canadá separado dos Estados Unidos. O primeiro é a lealdade à monarquia britânica. Isto é, o Canadá nunca teve que se libertar. O Canadá tornou-se domínio O domínio não significa aquilo que nós pensamos que significa, significa um Estado autónomo, com governo próprio em 1867, ainda dentro do Império Britânico. O Canadá e a Austrália tornaram-se domínios, que é um estatuto que dava um governo próprio, e em 1926 tornaram-se totalmente independentes, no sentido em que o Parlamento de Londres perdeu o poder de legislar sobre o Canadá.

Mas ainda o teve até 1926.

Até 1926, em determinadas matérias só, já não em todas. Apenas algumas matérias, mas a partir de 1926, em 1931 perdeu em todas.

Mas para os mais distraídos que nos estão a ouvir, e há de haver algumas pessoas distraídas, a Rainha de Inglaterra é também chefe de Estado no Canadá.

Sim, o atual Rei de Inglaterra.

Ou a Rainha, peço desculpa.

Sim, durante anos nós tivemos a Rainha Isabel II.

Ainda não me consegui habituar.

Exato, não te conformas.

Ainda não estou conformado.

O Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte é o chefe de Estado do Canadá, tal como da Austrália. Eles eram reinos da Commonwealth, portanto são reinos da Commonwealth. Reparem, a base da autonomia do Canadá, por exemplo, em 1812, é o facto de ser uma população lealista, isto é, são leais à monarquia britânica, são leais ao rei. Isso é importante.

E ainda hoje é pacífico.

Sim, parece que sim. Haverá com certeza republicanos, como há na Austrália, etc. Mas essa é uma dimensão. A outra dimensão, uma dimensão da autonomia, de uma identidade separada, é a francofonia, de facto. Acentuada, aliás, depois pelo nacionalismo do Quebec, desde a década de 1960, até com movimentos separatistas, que fazem lembrar um pouco a situação da Catalunha e do País Basco em Espanha. Isto é, a tentar afirmar a língua francesa, a sua autonomia. Aliás, também há uma espécie de um separatismo anglófono nas províncias do oeste do Canadá, da British Columbia, da Alberta, Manitoba, mas esse é diferente. As províncias do oeste julgam que as províncias do leste as tratam mal, etc., portanto também há ali algum conflito.

Curiosamente, tu não tens isso nos Estados Unidos, não tens estados americanos a pedirem independência.

A pedirem independência, não, mas também factos do oeste e muito diferentes uns dos outros. Aliás, eles tiveram uma guerra civil em meados do século 19 pelas diferenças enormes, até de sociedade, que tinham. Agora, há duas tendências que podem, não necessariamente, mas talvez comprometer esse tipo de identidade própria que o Canadá tinha. A primeira é o crescimento da população com base numa política de imigração muito aberta. Hoje, 25%, quase um quarto da população do Canadá nasceu fora do Canadá. É a percentagem mais alta dos países do grupo do G7, das grandes economias. O Canadá é a que tem a maior percentagem de população nascida de fora do Canadá e julga-se que a continuar a atual política de imigração possa chegar a 34% em 2041. Por exemplo, em Toronto, metade dos residentes nasceram fora do Canadá. Estas coisas acabam por ter consequências em termos de identidades, daquele tipo de identidade. E depois há a crescente influência cultural dos Estados Unidos. Uma influência cultural sobre uma população em que 90% da população do Canadá vive num raio de 100 km da fronteira dos Estados Unidos, portanto, encostada mesmo aos Estados Unidos. Os media americana, a cultura americana tem um impacto muito grande. Portanto, veremos se a população do Canadá mantém esta identidade separada, própria, como tinha no fim do século 18 e no século 19, baseada no lealismo à Coroa Britânica e na francofonia, veremos se isso se mantém. Não sabemos se um serviço nacional de saúde tipo europeu chega para manter uma separação em relação aos Estados Unidos.

Certo. Muito bem. Assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá. E o resto é história. É a terra fumarda.

Do incêndio de Coimbra ainda na zona do Chio. Quer transformar este país numa ditadura. Atentos, atentos.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.