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Apoiantes de Flávio Bolsonaro contra os de Lula da Silva. Na tarde desta quarta-feira, na Praça Sáenz Peña, várias pessoas erguem bandeiras e distribuem autocolantes aos transeuntes. Naquele centro bastante movimentado do norte do Rio de Janeiro, na Tijuca, a quatro dias das eleições, tentam ganhar-se votos num local com especial simbolismo para o filho mais velho de Jair Bolsonaro. Foi ali que ele, afinal, passou parte da infância e da adolescência.
Perto da Praça Sáenz Peña está o 1.º Batalhão de Polícia do Exército, usado pela ditadura militar para interrogar presos políticos. “O berço da Polícia do Exército no Brasil”, lê-se nas paredes brancas gravadas a letras verdes. Junto ao portão de entrada, um homem armado vigia quem passa. Enquanto antigo capitão do Exército, o pai de Flávio Bolsonaro nunca serviu ali. Quando se mudou para a Tijuca com a mulher — de quem mais tarde se divorciaria — e os três filhos, no final dos anos 80, já estava focado na conquista de cargos políticos, com a carreira militar em segundo plano.
Foi nesse ambiente bastante politizado que cresceu Flávio Bolsonaro. Na banca perto da Praça Sáenz Peña, junto de uma tenda do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) improvisada em que se distribuíam autocolantes com o rosto de Lula da Silva, está Carlos da Silva. Com pais portugueses, o jornalista explica ao Observador a dinâmica política da Tijuca e da vizinha Vila Isabel. “Eram muito de direita e estiveram associados a militares”. Uma tendência que, ressalvou, se inverteu nas últimas duas eleições, em que Lula da Silva venceu. “Até ganhámos na primeira volta nestas eleições, apesar de ter sido renhido.”
▲ 1.º Batalhão de Polícia do Exército
José Carlos Duarte
Apesar de atualmente se ter registado uma viragem à esquerda, o candidato à presidência cresceu num ambiente conservador e marcado pela transição democrática brasileira. Andou numa igreja evangélica perto da praça. Nas ruas, fruto da proximidade com a Praça Sáenz Peña, manteve contacto com vários militares, muitos dos quais atualmente reformados. Um deles foi Jorge Amaral, que serviu enquanto sargento no 1.º Batalhão de Polícia do Exército. O homem alto e de constituição bem robusta tem um autocolante do 22 — número da candidatura de Flávio Bolsonaro — na camisola.
Num pequeno mercado perto da Praça Sáenz Peña, Jorge Amaral conta ao Observador que vive ali há quase 50 anos. Nunca conheceu pessoalmente nenhum membro da família de Bolsonaro, mas é fã dos dois. “São as pessoas certas que vão trazer este país de volta aos trilhos”. O antigo militar vê em Flávio Bolsonaro um “homem confiável”. “Ele é um pouco mais moderado do que o pai. Mas é um homem à direita, também”, interpreta. A dias de os brasileiros irem votar, há uma questão que ainda não está totalmente clara para muitos eleitores: quem é, na verdade, Flávio Bolsonaro?
Há muitos que apontam que é mais moderado. Outros que dizem que é um “lobo em pele de cordeiro”, que pensam (para o bem e para o mal) que vai ser uma fotocópia do pai. Flávio Bolsonaro mantém-se intencionalmente ambíguo na sua postura — tem sido mesmo uma estratégia nesta campanha eleitoral — e até nas intenções se chegar ao Palácio do Planalto. Mas uma coisa é certa: não falta experiência política ao atual senador de 45 anos. Desde que tinha 21 anos que anda no mundo da política — sendo, na altura, um dos deputados estaduais mais jovens a ser eleito no Rio de Janeiro.
▲ Flávio Bolsonaro começou na política aos 21 anos
ISAAC FONTANA/EPA
As “festas” no condomínio privado, o jovem político e a suposta moderação
“Flávio morava ali naquele prédio castanho.” Antônio Damas, um dos moradores do bairro de Vila Isabel (vizinho da Tijuca e muito perto da Praça Sáenz Peña), aponta ao Observador o condomínio privado onde morou Flávio Bolsonaro. Era o número 71 da Rua Dona Maria. Com um porteiro à porta e arame farpado, o edifício destaca-se pela opulência, numa envolvência mais modesta e com edifícios mais velhos. À porta, veem-se carros com vidros escuros que entram para o complexo.
Durante os anos em que viveu em Vila Isabel, o primogénito dividia casa com os pais — Jair e Rogéria Bolsonaro, que se separaram num divórcio conturbado no final dos anos 90 — e com os dois irmãos mais novos, Eduardo e Carlos, que mais tarde também ingressariam na política. Foi no Condomínio do Edifício Sáenz Peña, na Rua Dona Maria, que a família acompanhou os primeiros passos da carreira de deputado federal do antigo chefe de Estado, Jair, que se estreou na política de Brasília em 1990.
Flávio Bolsonaro vivia uma vida confortável de classe média-alta: estudou num colégio privado e tirou depois o curso de técnico de eletrónica na Escola Técnica Rezende Rammel, a cerca de sete quilómetros da Tijuca. Nos tempos livres, como relatou a Folha de S.Paulo em 2019, frequentava e organizava festas com os irmãos, que envolveriam consumo de álcool e até o uso de drogas, algo que o clã Bolsonaro sempre negou. Questionado sobre essas festas, Antônio Damas fecha-se em copas: “Havia festas, sim, mas não posso contar mais nada”.
▲ O condomínio privado onde viveu Flávio Bolsonaro
Frequentou mais tarde a Universidade Candido Mendes, onde tirou o curso de Direito. Ainda nem tinha o diploma na mão e já estava a dar os primeiros passos no mundo da política enquanto deputado estadual no Rio de Janeiro. “O homem nunca trabalhou. Não sabe o que é a vida real. Esteve sempre fechado em gabinetes de política. Foi o pai que o colocou lá”, critica Carlos da Silva, exaltando-se: “Se chegar a Presidente do Brasil, este homem não vai ter experiência alguma. É um produto do nepotismo”.
Nesta tarde de muitas nuvens e chuva miudinha, a escassos metros de Carlos da Silva, está José Amorim. Perante a guerra de bandeiras partidárias separadas por uma passadeira na Praça Sáenz Peña, vangloria-se, enquanto entrega autocolantes: “Nós temos mais adesão do que eles”. O homem de óculos de sol, que trabalha como segurança, recusa a ideia de que Flávio Bolsonaro esteja impreparado para o cargo: “Ele sempre esteve na política, não é? Sabe bem o que faz, é senador. É uma cara nova, também, estamos cansados do Lula. Está a governar o Brasil desde que eu tinha 25 anos”.
O candidato à presidência estreou-se com 21 anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde cumpriu quatro mandatos como deputado estadual. Em 2016, disputou as eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro, ficando em quarto lugar na primeira volta, com cerca de 14% dos votos. Dois anos mais tarde, em 2018, na mesma eleição em que o pai conquistou a presidência, Flávio Bolsonaro foi eleito senador, cargo que ocupa ainda atualmente.
▲ Em ação de campanha na Tijuca, José Amorim defende Flávio Bolsonaro das críticas de que sempre foi político
José Carlos Duarte
Entre todos os irmãos, Flávio Bolsonaro sempre teve a fama de ser o mais pragmático. Com um tom mais agressivo e hostil para com os adversários, Eduardo copia muitas vezes o estilo intempestivo do pai. Encontra-se, aliás, atualmente nos Estados Unidos, para onde foi viver após ser alvo de investigações na Justiça brasileira. Foi condenado pelo crime de coação, ligado à investigação de que o pai foi alvo por tentativa de golpe de Estado, e pode vir a ser extraditado. Já Carlos, ainda que bastante mais discreto, adota uma retórica dura nas redes sociais.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
“[Flávio] é mais moderado, sim”, corrobora Jorge Amaral. “Acho que o Presidente Jair Bolsonaro era mais frontal e direto, enquanto o Flávio é mais suave e mais realista no estilo. Por um lado, isso ajudou, não é? A imprensa não o critica tanto”, frisa. “É uma vantagem, na minha opinião. Eu acredito que ele defende o que o pai defende, mas a forma de se expressar, de dar a sua opinião, é distinta”, destrinça, numa conversa com o Observador já quase ao entardecer.
Já é de noite na Praça Sáenz Peña quando dezenas de pessoas vestidas de vermelho se reúnem. Trazem grandes bandeiras vermelhas e gritam: “Imperialismo americano, não!”. O Partido da Causa Operária está a realizar uma manifestação contra a influência dos Estados Unidos no continente sul-americano. “Yankees, go home!”, é outro dos gritos de ordem dos manifestantes, alguns dos quais trazem bandeiras palestinianas.
▲ Manifestação contra o imperalismo norte-americano na Tijuca
Uma das participantes dessa manifestação é Rebeca Heringer. Com uma máscara negra a tapar-lhe o rosto, a socióloga de 35 anos, também moradora da Tijuca e que se considera de “esquerda anticapitalista”, tem um discurso crítico em relação a Flávio Bolsonaro: “Esse homem é um lobo em pele de cordeiro, na minha opinião. Eu acho que é pior do que o pai, sabe? Ao menos, com o pai, sabíamos sempre quem ele era e as políticas de destruição que ia tomar. Agora com o Flávio… A mim ele não me engana, não. Eu sei que ele quer transformar o Brasil num quintal do Presidente Trump”.
Rebeca Heringer acredita que é uma “estratégia da extrema-direita” para suavizar a imagem do bolsonarismo: “Eles querem fazer passar o Flávio como o candidato bonitinho e perfeitinho. Estão a tentar normalizar a sua imagem. Flávio não grita, não briga como o pai. Mas todos sabemos que ele é defensor das milícias, é corrupto e vai tentar destruir o nosso Estado-providência”.
Rachadinhas e elogios aos “progressos” na ditadura militar: as polémicas de Flávio Bolsonaro
O centro comercial está quase vazio na quinta-feira à tarde. No Via Parque Shopping, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a afluência é baixa. É um centro comercial de classe média, sem lojas de luxo — tem marcas populares e relativamente acessíveis como O Boticário, a Melissa ou a Wink. Uma das poucas que tem alguns clientes no interior é a Kopenhagen, uma conhecida rede de chocolatarias espalhada por todo o Brasil. À porta, destaca-se uma referência a uma edição especial de chocolates dos Smurfs, além de várias cadeiras onde algumas pessoas se sentam a trabalhar ou a conversar.
▲ A pequena loja da Kopenhagen do Via Parque Shopping, na Barra da Tijuca
José Carlos Duarte
A pequena loja no Via Parque Shopping esteve no centro de dois grandes escândalos da carreira de Flávio Bolsonaro. Esta franquia da Kopenhagen era detida por uma empresa do atual candidato à presidência e sua mulher, Fernanda — a Bolsotini Chocolates e Café. O Ministério Público (MP) investigou-a por suspeitas de lavagem de dinheiro, no âmbito de um alegado esquema designado por “rachadinhas”: o senador foi acusado de simular vendas e lucros desproporcionais na chocolataria para legalizar fundos de origem ilegal oriundos de gabinetes políticos.
O inquérito criminal aberto a Flávio Bolsonaro acabaria por ser arquivado, tendo sido as provas recolhidas pelo Ministério Público rejeitadas. O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal determinaram que houve irregularidades na forma como as provas foram obtidas, não havendo uma base legal para a investigação. Mais tarde, Flávio Bolsonaro acabou por vender a franquia da Kopenhagen.
A própria origem dessa investigação na chocolataria do centro comercial remontava ao designado “caso Queiroz”. O Ministério Público detetou movimentações financeiras atípicas na conta bancária de Fabrício Queiroz, antigo motorista e assessor de Flávio Bolsonaro. Chegavam aos 1,2 milhões de reais (cerca de 211 mil euros), sendo que as transferências tinham origem em homens próximos do atual candidato presidencial.
▲ Fabricio Queiroz e Flávio Bolsonaro
Instagram de Fabricio Queiroz
As autoridades suspeitavam que Fabrício Queiroz atuava como uma espécie de testa de ferro num esquema ilegal de recolha de salários dos funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro. Mais tarde, esses fundos teriam servido para a compra de imóveis e da própria franquia da Kopenhagen no centro comercial carioca. Tal como o processo principal, as investigações derivadas do caso Queiroz acabaram também por ser arquivadas.
Na manifestação contra o imperialismo norte-americano, Rebeca Heringer está convencida de que Flávio Bolsonaro foi “culpado nesses processos”, mesmo tendo sido arquivados. “Ele sempre foi um safado”, opina a socióloga. “Tal como o pai, está sempre a tentar enriquecer de forma ilegal”, considera.
Em contrapartida, José Amorim iliba o candidato à presidência de quaisquer responsabilidades nos processos. “Ele não foi culpado. Nunca foi preso. Essa coisa das rachadinhas foi apenas para o prejudicar”, defende, atacando depois Lula da Silva: “O único candidato que foi preso foi Lula da Silva, não Flávio Bolsonaro. Isso é factual. O que não é factual é essa coisa da rachadinha”.
Outro dos assuntos que tem motivado várias críticas ao candidato presidencial prende-se com a alegada relação de Flávio Bolsonaro com a rede de trocas de favores montada pelo empresário Daniel Vorcaro, no âmbito do caso Master. O senador pediu ao banqueiro financiamento para a realização de um documentário sobre o pai, tendo admitido que manteve contactos com o empresário caído em desgraça, embora rejeite qualquer outro tipo de envolvimento.
Para além destes supostos casos de corrupção, Flávio Bolsonaro é acusado pelos detratores de suavizar a imagem da ditadura militar. Na Tijuca, num bairro com um passado marcado pelo conservadorismo, o 1.º Batalhão de Polícia do Exército servia como um centro para onde os opositores ao regime eram enviados. “Lá, havia tortura”, denuncia ao Observador Carlos da Silva. “Eu fui preso aos 20 anos pelos militares, mas nunca fui para lá. Felizmente fui para outro sítio, onde apenas fui interrogado e fiquei preso durante algum tempo.”
Na Tijuca, funcionava o Destacamento de Operações de Informação — Centro de Operações de Defesa Interna, localizado onde atualmente se encontra o 1.º Batalhão de Polícia do Exército. Durante a ditadura militar, em particular entre o final dos anos 1960 e o regime de João Figueiredo entre 1979 e 1985, foi o principal centro de interrogatórios e tortura para presos políticos no Rio de Janeiro. Nascido em 1981, Flávio Bolsonaro ainda era muito jovem nos últimos anos da ditadura e ainda nem morava na zona — mas já fez comentários polémicos que revelam alguma nostalgia por esse tempo.
▲ Carlos da Silva lembra tortura que houve no atual 1.º Batalhão de Polícia do Exército durante a ditadura militar
José Carlos Duarte
Em 2004, quando ainda era um jovem deputado estadual, declarou na Assembleia Municipal do Rio de Janeiro: “Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço económico, social e político que tivemos”. Anos mais tarde, no livro Mito ou Verdade — a biografia de Jair Bolsonaro escrita precisamente pelo filho mais velho —, Flávio escreveu na primeira pessoa, lamentando que os militares tenham sido “marginalizados” e não “tratados como heróis nacionais”.
O assunto trazido à conversa com Jorge Amaral não lhe agrada e mostra-se ligeiramente impaciente. O militar reformado afirma que as coisas nunca “foram simples”: “Houve alguma ingratidão, sim. Acho que somos olhados de lado. A esquerda sempre nos viu como inimigos, como pessoas que têm de ter vergonha do seu passado. Eu não tenho”, indica, visivelmente a controlar as palavras. “Não acho que a ditadura militar tenha sido perfeita. Mas não vamos culpar todos os militares pela ditadura”. “Não vou falar mais sobre este assunto consigo”, acaba por declarar ao Observador.
Na carreira de Flávio Bolsonaro, há outro tema polémico ao qual sempre esteve associado: a postura em relação às milícias. No Rio de Janeiro, onde grassa o tráfico de droga, estes grupos paramilitares — compostos maioritariamente por ex-polícias e agentes de segurança — exercem o controlo territorial de várias comunidades, impondo a ordem à margem do Estado, cobrando também taxas aos moradores e comerciantes locais pelo acesso a serviços básicos como água e eletricidade. Ora, ao longo da sua carreira, o senador e candidato chegou a mostrar alguma ambiguidade em relação à atuação destes grupos.
▲ Ligações a milícias sempre pesaram no perfil de Flávio Bolsonaro
AFP via Getty Images
Durante os tempos em que serviu como deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro chegou a prestar homenagens a figuras ligadas a estes grupos, incluindo Adriano da Nóbrega — que exerceu o controlo sobre a comunidade de Rio das Pedras, no oeste do Rio de Janeiro. Em sua defesa, quando questionado numa entrevista recente à Globo, o senador recordou que a atribuição da homenagem ocorreu “há mais de 20 anos”, numa altura em que Adriano da Nóbrega era ainda “um polícia reconhecido” pelas suas operações no terreno.
Para os apoiantes de Lula da Silva, Flávio Bolsonaro é frequentemente apelidado de “miliciano” — o atual Presidente chegou mesmo a dizer, no debate da passada semana, que quer “distância de miliciano”. Na opinião de Carlos da Silva, o candidato presidencial “defende criminosos”. “Toda a gente sabe que o Rio de Janeiro, na visão dele e do seu pai, era controlado pelas milícias”, acusa. “São homens que não têm respeito por ninguém e acham que a força resolve tudo”, afirma.
Por outro lado, Jorge Amaral refere que nunca viu “nenhuma prova” de que Flávio Bolsonaro defendesse a atuação das milícias. “Nunca fui a favor disso e ele também não é. Nunca tive nenhuma prova em contrário”, frisa. O antigo militar vê esse argumento apenas como uma “forma de os petistas ganharem votos e meterem medo aos outros”. “Flávio nunca sequer foi militar ou esteve na polícia. Não faz qualquer sentido”, argumenta.
▲ Flávio Bolsonaro é senador desde 2018
Bloomberg via Getty Images
De resto, enquanto senador, Flávio Bolsonaro nunca fez a defesa pública das milícias no Congresso. Em vez disso, envergou como bandeira temas na área da segurança e do crime: apresentou propostas para o combate ao crime organizado e para o agravamento das penas, sem nunca abandonar, contudo, uma certa postura de reserva relativamente à questão dos grupos paramilitares.
Flávio Bolsonaro. O herdeiro do bolsonarismo e a luta nos bastidores com a madrasta
Homem. Casado há 16 anos com Fernanda. Com duas filhas, Carolina e Luiza. Evangélico. Flávio Bolsonaro preenchia muitos dos requisitos para ser o candidato perfeito para herdar o movimento criado pelo pai, que está em prisão domiciliária após ter sido condenado a 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado. Aliás, durante a reta final da presidência de Jair Bolsonaro, o primogénito chegou a ser um dos principais conselheiros informais, numa altura em que o antigo chefe de Estado esteve debaixo de fogo pela descredibilização da doença e da vacinação.
Durante o debate da Band na semana passada, Flávio Bolsonaro admitiu, no entanto, que a gestão do pai em relação à pandemia “não foi a melhor”, mas desculpou-o por ser uma “coisa nova” que tinha aparecido. Uma estratégia para ganhar votos ou um mea culpa sincero? Não é bem claro. De qualquer forma, foi um indício de que, apesar de ser herdeiro do bolsonarismo, nem sempre está 100% alinhado com o pai.
▲ Jair e Flávio Bolsonaro
AFP/Getty Images
Para Jorge Amaral, não há grandes diferenças entre os dois políticos. “Acho que ele e o pai são muito parecidos. O estilo é diferente, sim. Mas defendem o mesmo: menos crime, mais segurança, uma economia mais forte, um Supremo que não faça bagunça”. “Eu acredito que Flávio Bolsonaro vai honrar o pai no cargo”, prevê, considerando que a forma para o fazer será conceder-lhe um indulto e anular a pena: “É o que ele merece. É um patriota”. O que aconteceu no 8 de janeiro? “Não foi legal, mas Bolsonaro não esteve diretamente envolvido”, desconsidera.
Herdar o movimento bolsonarista, ainda assim, não foi fácil. Nos bastidores, Flávio Bolsonaro superou uma presença também bastante próxima do pai: Michelle Bolsonaro. A madrasta nunca escondeu que desejava ser ela a chegar à presidência. No final de junho, expôs uma conversa telefónica que manteve com o enteado (que é mais velho do que ela) e que designou como uma “humilhação”: “Ele foi muito ríspido, desrespeitou-me e maltratou-me ao telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu tinha chegado ontem e não entendia nada de política”.
Em vez de uma resposta ríspida ou uma escalada do conflito com a madrasta, Flávio Bolsonaro manteve a cabeça fria. “Sou casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida. Jamais o faria com a esposa do meu próprio pai”, escreveu nas redes sociais, acrescentando que é “reconhecido pelo equilíbrio, educação e respeito com todos, até com meus adversários políticos”.
▲ Choque com Michelle Bolsonaro levou-o a liderar movimento
Joedson Alves/EPA
Flávio Bolsonaro reiterou um pedido de desculpas a Michelle Bolsonaro e elogiou-a pelo “cuidado com o pai”: “Entendo a angústia da Michelle ao ver o meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça”. O que é certo é que ele é que foi coroado candidato à presidência pelo Partido Liberal e superou a madrasta, que depois também fez questão de se publicamente reconciliar com o enteado, mesmo que mantenha alguma distância durante a campanha eleitoral. Este gesto de contenção talvez tenha sido definitivo para solidificar a sua liderança no seio do movimento bolsonarista — e para comprovar que era realmente um moderado.
Para Jorge Amaral, era Flávio Bolsonaro quem tinha de ser o sucessor do pai. “Acabou por ganhar logo na primeira volta, quando as sondagens diziam que ia ganhar o Lula.” Questionado sobre o papel de Michelle, o antigo militar desvalorizou: “Vamos ser honestos: é uma pessoa educada e até acredito que seja bem intencionada. Mas não tem experiência no cargo para ser Presidente. Flávio foi senador e é inteligente. Ela foi eleita agora para o Senado”.
Em relação aos dramas da família Bolsonaro, Rebeca Heringer suspira. Ao Observador, assinala que é tudo “embaraçoso de se assistir”. “Nem Flávio nem Michelle Bolsonaro têm qualificações para ser Presidente”, opina. “Um é filhinho do papá, a outra não tem quaisquer posições públicas. Enquanto mulher, deixou que o marido humilhasse muitas mulheres. E ninguém sabe o que defende. Acho que nem ela sabe”, atira.
Se for eleito Presidente, Flávio Bolsonaro tem bem clara a orientação que vai seguir, aplicando o que defendeu enquanto senador: promete o agravamento das penas, a redução da maioridade penal para os 16 anos e o alargamento do direito ao porte de arma para cidadãos cumpridores. Além disso, o candidato promete acabar com a reeleição presidencial e admite mesmo, em caso de vitória, promover uma revisão da Constituição brasileira.
Ao final da tarde, já sem luz natural e com o início da manifestação contra o imperialismo norte-americano, a guerra das bandeiras termina finalmente. Os bolsonaristas já lá não estão, enquanto alguns apoiantes de Lula da Silva continuam a agitá-las e a apelar ao voto. No antigo bairro conservador onde vivem ainda muitos militares, Flávio Bolsonaro deu os primeiros passos enquanto político. No domingo, saber-se-á se conseguirá levar as vivências da Tijuca e de Vila Isabel para o Palácio do Planalto.