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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

E hoje queremos falar sobre?

Já vou lá, mas não vou falar de habitação. Pela primeira vez esta semana.

Vais falar da paz e do pão?

Quase. Pela primeira vez esta semana não falo todo de habitação. Vou falar de consentimento e nem sequer vou falar daquelas formas tradicionais e mais ou menos universalmente, espero eu, aceites de consentimento, como consentimento entre duas ou mais pessoas adultas em matéria de relações sexuais. Isso já está mais ou menos estabelecido, pelo menos nas pessoas civilizadas. O pior é que pessoas, eu não sei se são menos civilizadas ou se são excessivamente civilizadas, decidiram levar o conceito mais longe e estender a necessidade de consentimento a outras matérias, onde, acho eu, ninguém estava a sentir especialmente a sua falta. Eu podia dar aqui dezenas de exemplos, mas por questões de logística, sobretudo de tempo, vou dar só três ou quatro. Um deles é o que se chama autonomia corporal infantil, porque nos últimos anos começou a generalizar-se a ideia, e que foi instigada por organizações de proteção de crianças e especialistas em parentalidade, de que as crianças não devem ser forçadas a abraçar ou a beijar familiares, incluindo até avós. O objetivo disto, pelos vistos, é ensinar a criança a ter autonomia sobre o seu próprio corpo, evitando que um dia tenham a noção de que são obrigadas a aceitar toques físicos indesejados. Outro caso de consentimento esquisito é que ele começa a ser requerido, pelos vistos, que eu também não sabia, quando se tiram fotografias na escola. Antigamente tiravam-se fotografias da turma ou de festas escolares, sem complicações. Hoje, salvo os telemóveis, e que os miúdos tiram lá entre eles, para coisas um bocadinho mais formais, que não são, no fundo, nada formais, mas já há escolas que exigem termos de consentimento assinados pelos encarregados de educação para fotografias, para vídeos, e sob pena da criança ter de ser apagada da imagem. Avançando no absurdo, temos o consentimento relativo a sementes e plantas históricas. Há museus de história natural pelo mundo fora, alguns jardins botânicos, que têm debatido a ética de ter colhido espécimes botânicos recolhidos em expedições em séculos anteriores, por falta de consentimento das populações indígenas nessa recolha. E até na nomeação dessas plantas. Pelos vistos, abusou-se quando se deu nome a essas plantas sem perguntar às pessoas que viviam nos sítios onde essas plantas crescem. Temos universidades e escolas médicas na Europa e na América do Norte que recolheram da exibição pública modelos anatómicos, esqueletos, cérebros, pedaços de corpos dos séculos anteriores, que estavam conservados em formol, alegando que os doadores originais não deram consentimento para uso educacional ilimitado, é este o termo, ou exibição contínua. E, portanto, vai-se subindo a parada na escala de consentimentos absurdos, até ao ponto em que achamos que já nada nos surpreende. Mas mesmo assim, há sempre alguma inovação que consegue surpreender. E eu estou a falar do que está a acontecer, isto foi notícia anteontem, na Escócia, em particular em Glasgow, onde alguns museus decidiram retirar da exposição pública não membros ou esqueletos conservados em formol do século passado ou de há dois séculos, mas múmias egípcias e outros restos mortais históricos bastante remotos, para dizer o mínimo, com base na falta de consentimento informado das pessoas falecidas. Isto juro que é verdade, parece uma daquelas anedotas. Não é.

Demos a notícia disso aqui ontem.

Exatamente, o Observador falou no assunto. Eu vi também no site. Isto começou com os museus, que são geridos por uma entidade municipal lá de Glasgow, uma tal Glasgow Life, que atualizaram as suas diretrizes éticas relativas ao tratamento e à exposição dos restos humanos. E eles alegam que, na ausência de consentimento explícito e informado por parte da pessoa falecida ou dos seus descendentes diretos, para se ter o corpo exposto ao público, a decisão mais respeitadora para com a dignidade dos mortos é retirar estes vestígios da vista pública. Entre as peças recolhidas que estavam em exibição pública, encontrou-se um sarcófago que continha os restos mortais de um padre egípcio, uma cabeça mumificada, uma mão mumificada e vários pedacinhos e vestígios humanos, normalmente também quase todos ligados ao Antigo Egito. Eu acho que toda a gente sabe que os antigos egípcios eram ótimos a mumificar pessoas. Se calhar, nem toda a gente sabe que, pelos vistos, eram muito fraquinhos a tratar dos seus testamentos vitais. E se já era complicado obter o consentimento das múmias enquanto ainda não eram múmias, quando já são múmias, e são múmias há milhares de anos, então é ainda mais difícil. E quando a múmia no mínimo é apenas uma mão, ou se calhar dois dedos, a coisa fica mais difícil ainda. E se a mão não for a mão que assinava documentos e consentimentos, fica praticamente impossível. E quanto a contactar os descendentes diretos de múmias da era dos faraós, também é capaz de ser complicado. Mesmo para terminar, Ricardo, a boa notícia é que daqui a uns séculos, com tantos consentimentos, com tantos cuidados, nenhum dos que agora estamos vivos vai ser exibido sem o devido consentimento. Em compensação, acho que a nossa época, em peso, daqui a dois, três, quatro, cinco séculos, se ainda cá estiver alguém, a nossa época vai ser estudada por resmas de psiquiatras. Isto se nessa altura houver psiquiatras que acreditem ou que sejam crédulos a ponto de acreditar que no século XXI existiram sociedades com tantas chalupas quanto as sociedades atuais.

Obrigado.

Bom fim de semana, Ricardo.

Com esta nota de otimismo, vamos para o fim de semana. Bom fim de semana, Alberto. Um abraço.

Obrigado, Ricardo. Igualmente.

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