Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E o resto é história. É a terra a fumar. Incêndio em Poiava, ainda na zona dos Chiados. Falo por gosto, é que arde em mim de vermelho, troco de corpo, fogo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Atente.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. O ouvinte Francisco Fernandes estava a escutar atentamente o nosso episódio sobre os cinco momentos fundamentais da história de Portugal. Para quem quiser saber, é o episódio 260 de 3 de julho de 2024. E às tantas, ele afirma que ficou com uma ideia a remoer na sua cabeça, no momento em que referimos que a Batalha de Aljubarrota foi um momento fundamental para a construção e para a afirmação da identidade portuguesa. E a ideia que o Francisco Fernandes ficou a remoer foi esta: se foi ali em Aljubarrota que escapamos de ser apenas mais um reino ibérico, eventualmente absorvido por Castela, então, pergunta ele, o que aconteceu aos outros reinos ibéricos? Alguns deles, ele diz, até nossos primos, avós e tios, ali pelo lado de Afonso Henriques. E parece-me uma ideia muito bem remoída, Rui. A Península Ibérica teve imensos reinos ao longo da sua história, para além do português, só para nos limitarmos aos principais reinos cristãos: Reino de Castela, Reino de Leão, Reino de Navarra, Reino de Aragão, Reino de Galiza e também reinos menos conhecidos, como os de Valência ou de Maiorca, além ainda do reino islâmico de Granada. E não esgoto a quantidade de reinos que houve na Península Ibérica. A verdade é que todos eles acabaram unidos no país, menos um, a que hoje chamamos Espanha. Por que nós conseguimos manter a nossa independência e todos aqueles reinos não conseguiram? Foi sorte, Rui? Foi um acaso do destino? E já agora, explique-nos que reinos foram aqueles que acabaram absorvidos e depois desapareceram ou se fundiram na Espanha.
Os historiadores têm sempre a mania, para responder a perguntas, de ir para trás.
É preciso ir muito para trás?
Eu não quero ir muito para trás, mas neste caso até acho que vale a pena. Vou tentar ser breve.
Muito bem. Quão atrás é esse atrás?
Vamos começar por aquele momento entre o século V e o século VII. É atrás, é verdade. Depois de Cristo, em que a Península Ibérica parece estar unificada sob o poder dos reis visigodos, que têm capital em Toledo.
Já não havia romanos, não é? Portanto, visigodos.
Já não há romanos. Os visigodos, que entraram primeiro como auxiliares dos romanos em França, depois passaram à Península Ibérica, entretanto perderam o domínio que tinham em França e tornaram-se o poder dominante para cá dos Pirenéus, capital em Toledo. Eu estou a referir este, porque este reino dos visigodos ficou na imaginação política da Península Ibérica como este ideal de uma Península Ibérica unida.
Porque eles dominavam mesmo toda a Península Ibérica.
Não sabemos. A única coisa que tem é que em determinado momento não há notícia de outros poderes relevantes na Península Ibérica com estes reis visigodos.
Portanto, foram ali 200 anos até que apareceram os senhores do Norte de África.
Exatamente. No princípio do século VIII, em 711, exércitos muçulmanos, de árabes e de berberes, vindos do Norte de África, derrotam o último rei visigodo e depois vão conquistando a Península Ibérica. E aparentemente a Península Ibérica também nessa altura parece submetida a este poder muçulmano e aos califas de Damasco, no sentido que o califa em Damasco e mais tarde em Bagdá, era a autoridade sobre os emires que estavam na Península Ibérica. Mais tarde, depois também há um califa na Península Ibérica, em Córdoba, quando eles rompem com os califas de Damasco. Mas mais uma vez parece termos aqui a Península Ibérica, aparentemente com um poder só, neste caso, o poder visigodo. Primeiro visigodo e agora muçulmano.
Mas o muçulmano nunca conseguiu ser tão hegemônico como o visigodo.
Não sabemos quão unificada é que estava a Península Ibérica sob o poder dos reis visigodos. Mas sob o poder dos muçulmanos sabemos que não, quer dizer, que há uma parte da Península Ibérica, a do norte montanhoso da península. A Península Ibérica, aliás, é uma das regiões mais montanhosas do Mediterrâneo, um pouco também como a península Itálica e como a península dos Balcãs. Portanto, há muitas montanhas na Península Ibérica, há muitos vales, o que torna difícil, não é uma planície em que seja fácil a circulação, em que seja fácil estabelecer um domínio. O próprio relevo convida à fragmentação. E o poder muçulmano nunca chega, ou não se consolida, pelo menos, no norte montanhoso da península. O poder muçulmano é, sobretudo, um poder do sul, com capital em Córdoba. E percebe-se por quê, é onde estão as maiores cidades, as cidades integradas na economia do Mediterrâneo, o comércio mediterrânico, desde o tempo dos romanos e antes dos romanos. No norte é um mundo diferente, não há grandes cidades, a população está dispersa. Não é propriamente aquele mundo a que um poder cuja base está no Mediterrâneo esteja habituado. Os seus soldados, os seus mercadores, os seus administradores, não é propriamente ali que se sentem em casa naquela região. E portanto, no norte montanhoso há resistência ao poder muçulmano desde cedo. Em 722 É a data aceite. Portanto, poucos anos depois da entrada dos muçulmanos, há um nobre nas Astúrias chamado Pelágio, que derrota um exército muçulmano em Covadonga e nas crónicas cristãs isso fica como o primeiro momento de resistência contra os muçulmanos. Nós sabemos que depois, no princípio do século IX, cerca de 100 anos depois, estes resistentes ao poder muçulmano estavam aparentemente organizados ou pelo menos havia entre eles alguém, poderes que se começaram a chamar príncipes e depois reis. O Afonso II das Astúrias a partir do ano 891 começa a se intitular rei. Sabemos também que eles inicialmente eram eletivos, estes reis, e depois tornaram-se hereditários. A capital é em Oviedo e nós chamamos a isto o Reino das Astúrias. O reino cristão das Astúrias, a partir de 924, passa-se a chamar o Reino de Leão, porque a capital muda de Oviedo para Leão. O que eles exatamente representavam, este Reino das Astúrias, depois Reino do Leão, no norte da península Ibérica? É a resistência tradicional destas populações do norte montanhoso aos poderes do sul. Aliás, já os romanos tinham tido dificuldades em se estabelecer no norte da península. Sabemos também que o norte da península é quase a última região da península a ser cristianizada, só no século VI é que é cristianizada. Portanto, mais uma vez, é um ambiente completamente diferente. Não há grandes cidades, não é um ambiente do Mediterrâneo e são monges que começam a ir para o norte, a estabelecer lá pequenas comunidades.
O que estás a dizer é que o cristianismo não vem logo com os visigodos.
Não. O cristianismo vem com os romanos, mas demora a entrar no norte. Isto é, entra nas cidades do sul da península Ibérica e só depois no século VI, no tempo dos visigodos, é que começa a estabelecer-se no norte através de comunidades de monges que se começam a fixar naquelas vales e naquelas montanhas e a evangelizar a população local. No tempo dos romanos, já há este contraste entre um sul romanizado e cristianizado e um norte que está, na península Ibérica, menos romanizado e menos cristianizado.
Ok.
O que eu estou a dizer? Estou a dizer que aquela diferença que nós vemos quando os muçulmanos entram na península entre um sul islâmico e um norte cristão, é uma diferença que já existia antes entre um sul cristão e um norte pagão, digamos assim. Há sempre uma diferença entre o sul e o norte na península Ibérica. O norte acaba por se tornar, agora nestes tempos islâmicos da península Ibérica, depois um refúgio para nobres e sacerdotes cristãos, que vão saindo dos territórios controlados pelos poderes islâmicos para o norte e esses nobres e esses sacerdotes devem ter levado uma ideologia de reconquista. Isto é, eles convencem os reis das Astúrias a verem-se como herdeiros do reino visigodo. Muito provavelmente, regiões onde o poder visigótico era muito reduzido ou talvez não existente, começam a ver-se eles próprios como os herdeiros dos visigodos e com a ideia de que a missão deles é reconquistar, recuperar os territórios ocupados pelos muçulmanos no século VIII.
Tu dirias que essa era a missão dos reis da península a partir de certo ponto?
É a missão que no Reino das Astúrias e de Leão começa a tornar-se uma ideologia do poder real, digamos assim. Aliás, aquilo tem depois em alguns textos uma visão milenarista, porque a reconquista da península iria assinalar a segunda vinda de Cristo, eles estão convencidos disso. Há uma visão apocalíptica em relação à reconquista. É uma ideologia que dá legitimidade a estes reis e muito provavelmente lhes permite comandar e organizar aquilo que, na prática, são sobretudo pilhagem das cidades do sul islâmico. É aquilo que eles fazem regularmente, invadem o sul islâmico para pilhar as cidades e depois voltam outra vez para o norte, mas tudo isso com uma ideologia, com uma legitimidade ideológica.
Dá sempre jeito para unir as hostes.
Dá sempre jeito. O Reino das Astúrias torna-se importante por duas vias. Primeiro, pela descoberta das relíquias do apóstolo Santiago, em Compostela, na Galiza, que torna Santiago de Compostela um grande destino de peregrinação, rival de Roma e de Jerusalém. Isto é, de repente, no norte da península, há um dos grandes centros de peregrinação da Europa medieval.
E essa descoberta foi mesmo descoberta? Também não se sabe. Ou se foi criação também.
Alguma coisa eles descobriram, não se sabe exatamente.
Os arqueólogos da altura não tinham licenciatura. Ainda não estavam licenciados.
Enfim, as relíquias são muito importantes e de repente havia relíquias em Roma, Jerusalém e agora também ali. A partir do século IX, sabemos que o Rei das Astúrias é reconhecido pelo Papa de Roma e pelo imperador Carlos Magno. Aliás, a relação entre o Rei das Astúrias e Carlos Magno não é clara. Às vezes o Rei das Astúrias aparece como um vassalo do imperador De Carlos Magno, mas mais tarde também se vem a declarar imperador. Portanto, o que interessa aqui é que temos uma divisão da península entre o norte cristão e um sul muçulmano.
Mas esse norte cristão estava unido?
Esse é que é o ponto. A verdade é que em algumas crônicas, de repente, parece que sim, mas parece que sim porque só temos as crônicas oficiais que nos falam apenas daquilo que o rei das Astúrias faz ou não fez. Não nos fala da influência que podia ter em outras regiões, mas por vezes nos diz que o rei das Astúrias, além de combater contra os muçulmanos, tem de combater também contra povos que no norte não lhe estão submetidos, contra galegos, contra cantábricos, contra astures e, portanto, dá uma ideia de que não devia ser uma coisa fácil, mas de qualquer maneira as crônicas em determinada altura aparece o rei das Astúrias, o rei do Leão. O que acontece nos séculos XI e XII é que há uma fragmentação política total em toda a península. Há uma fragmentação no sul, onde o califado de Córdoba se dissolve em vários reinos, em vários emiratos. Não são reis, são emires, os cristãos é que lhes chamam reis. E no norte aparecem também vários reinos cristãos e todos em luta entre si, o que quer dizer que em determinada altura não é muçulmanos contra cristãos, é muçulmanos aliados a cristãos contra cristãos aliados a muçulmanos. Quer dizer, as guerras são todas feitas a partir de determinada altura com alianças entre o norte e o sul, as mais variadas. Nós sabemos que no sul a fragmentação deve-se a mudanças no poder central no Médio Oriente, da crises em Bagdade e em Damasco, quer dizer, rupturas do califado lá, que levam depois a rupturas também políticas na Península Ibérica, crises religiosas também no Islão, com novos movimentos islâmicos a surgir e divisões entre as cidades e os grandes clãs árabes e berberes que estão na Península Ibérica, tribos. Eles de repente entram em choque uns com os outros, dividem-se.
E essa própria fragmentação terá ajudado também na reconquista, não é?
Nem sempre, porque por vezes o norte também está tão dividido como o sul e não há grande vantagem. No norte, a que é que corresponde a divisão no norte? No norte corresponde em primeiro lugar ao terreno, isto é, este terreno montanhoso. Depois corresponde também a uma diversidade muito grande. Nós não estamos a falar da mesma população. As populações parecem divididas já no norte em comunidades separadas. Já na antiguidade os geógrafos romanos falam de vários povos nesta área do norte da península, a que dão diferentes nomes. Os asturienses, os cantabros, eles dizem, são povos diferentes.
Isso supõe línguas diferentes?
Não sabemos exatamente. Podem ser grupos étnicos diferentes ou podem ser apenas tribos ou clãs da mesma população. Sabemos uma coisa, que na Idade Média o latim começa a evoluir neste norte para maneiras de falar diferentes. Isto dá uma grande diversidade. Isto é, quando de repente começam a aparecer maneiras de falar muito diferentes, que vão dar origem depois a línguas diferentes. E nós sabemos o galego, o asturiano, o lionês, o castelhano, e há até quem não fale o latim no norte, como é os bascos. Isto dá a ideia de diversidade enorme daquele território.
A origem do basco não é latina?
Não é latina. Não sabemos a origem do basco até hoje. É uma língua não indo-europeia, penso que não faz parte de qualquer família de línguas conhecida. É uma língua que só existe no norte da Península Ibérica. Isto dá a ideia do isolamento do norte da Península Ibérica e também da diversidade. Isto é, nestes vales e nestas montanhas há comunidades que conseguiram desenvolver uma cultura própria, separar-se completamente dos outros na maneira de falar e nos costumes, etc. Repito, o rei das Astúrias não combate só os muçulmanos, frequentemente tem de combater também estas populações que não se querem submeter ao seu poder. Portanto, provavelmente nunca houve bem um reino das Astúrias unificado, nem um reino de Leão, mesmo quando ele se começou a separar.
E ainda tinhas as visitas dos famosos Vikings.
E ainda tínhamos de vez em quando, a partir de 844, expedições dos normandos, dos homens do norte, também conhecidos por Vikings, em que o rei das Astúrias também tem de os combater. A partir de determinada altura é muito claro que o rei das Astúrias deixou de ser o único rei conhecido no norte. E isso acontece por quê? Acontece, por um lado, porque os conflitos militares com os muçulmanos vão gerando nas fronteiras líderes militares com uma grande autonomia. Esses líderes podem ser nobres, aristocratas guerreiros, mas podem também estar sendo instituições, mosteiros, até concelhos, municípios, comunidades populares que se organizam para resistir ou para pilhar os muçulmanos mas sobretudo os nobres, muitos destes líderes nobres começam a desenvolver pretensões à realeza. E isto por quê? Porque uma grande parte deles tem parentesco com o rei das Astúrias, porque uma das estratégias dos reis das Astúrias para dominar aquele norte era fazer casamentos nas famílias locais. Isso revertia a favor do rei das Astúrias, porque permitia-lhe apelar a esses parentescos para receber apoio, mas também dava a esses locais a ideia de que também somos filhos de reis e num determinado momento em que não se percebe quem é que deve ser o rei, eu também posso ser. É assim que o filho do Conde Portucale, dom Afonso Henriques Se torna rei em grande medida. Por quê? Porque ele é neto do rei de Leão, Afonso VI. Ele é neto de um rei e, portanto, acha que também pode ser um rei. Como é o primo, também pode ser um rei. Além disso, há ainda o costume dos filhos dos reis partilharem o reino entre si, o que dá a ideia de que estes reinos eram patrimônios quase pessoais. Por exemplo, em 910, o Reino de Leão é dividido em três reinos pelos três filhos do rei Afonso III de Leão: o Reino da Galiza, o Reino de Leão e o Reino das Astúrias. Esta é a primeira vez, mas não é a única. Cem anos depois, 150 anos depois, aliás, em 1165, volta a acontecer, o Reino de Leão ser dividido outra vez. Portanto, isso dá um fator de desmultiplicação de reinos no norte. Muito provavelmente, o Reino das Astúrias, a ideia do reino cristão unificado no norte é provavelmente retórica de cronistas.
E ele não existiu realmente.
E há uma tendência para se fragmentar constantemente e para surgirem outros poderes no norte da península Ibérica.
Certo, e é desta forma fragmentada que vamos para intervalo. Até já. Seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Estamos unidos de novo, mas numa conversa muito fragmentada.
Muito fragmentada.
Se vai continuar a partir mais um bocadinho?
Vamos continuar a partir. Eu estava a falar dos fatores de divisão e de desmultiplicação de poderes de tipo monárquico no norte da península Ibérica e faltava referir um outro fator de desmultiplicação de reinos, que é os reinos cristãos também eles próprios, quando avançaram, quando integraram territórios muçulmanos, tendiam a criar autonomias. É o caso, por exemplo, do Reino de Valência, em 1238, e do Reino de Maiorca, em 1276. São ambos parte do Reino de Aragão, mas faziam parte de unidades políticas islâmicas que quando foram integradas no Reino de Aragão se mantiveram como reinos, como o Algarve, o Reino do Algarve no Reino de Portugal. O Reino de Valência e o Reino de Maiorca não são bem o caso do Reino do Algarve porque têm instituições diferentes do Reino de Aragão, portanto, são mesmo reinos. Aliás, o Reino de Maiorca até tem um período em que é independente do Reino de Aragão, mais uma vez porque o rei de Aragão divide o seu reino entre os filhos e o Reino de Maiorca coube a um dos filhos. O Reino de Aragão é composto também de reinos, como por exemplo, o Reino de Valência, o Reino de Maiorca. Eu não vou dar todos os detalhes da quantidade enorme de reinos no norte cristão. No sul então, no sul muçulmano, é muito difícil às vezes ter uma enumeração completa. São mais de 20 e tal reinos islâmicos que existem no sul. Isto é, imensos reinos.
E que usavam a palavra reino. Mas a palavra reino-
Não, não usavam a palavra rei. No sul não usavam. No norte usavam.
Mas a palavra reino pressupõe sempre a existência de um rei ou um reino pode não ter um rei e ser na mesma um reino?
Não, a maior parte do caso pressupunha um rex. A palavra árabe penso que é Malik. Eles não se intitulavam Malik, intitulavam-se Emir, isto é, condutores ou comandantes no sul. Eram tratados como reis pelos cristãos do norte. Às vezes também se intitulavam príncipes, por exemplo, no norte dos cristãos também se intitulavam príncipes ou condes. Os condes de Portugal, os condes de Castela. Os condes de Castela basicamente já eram, antes de haver o Reino de Castela, já eram uma força enorme, praticamente independente, mas continuavam a intitular-se condes de Castela durante algum tempo.
Ou seja, a afirmação da palavra rei queria dizer que havia uma coisa muito específica.
Não, rex queria dizer muito claramente um poder político que não reconhecia-
Hierarquia acima dela.
Sim. Quando houve um imperador da Espanha com Afonso VI e com Afonso VII, reis de Leão, que se intitularam imperadores. Por exemplo, Afonso Henriques, quando em 1143 é reconhecido o título de rei pelo seu primo Afonso VII, Afonso VII reivindicava o título de imperador da Espanha e portanto, provavelmente achava que Afonso Henriques sendo rei ainda continuava a ser dependente dele, embora Afonso Henriques não tivesse, não tinha essa leitura da relação. Mas enfim, não vou dar todos os detalhes. No século XIII, há nitidamente três reinos cristãos que começam a consolidar-se no norte e a expandir-se para sul. A ocidental, o Reino de Portugal, no centro da península, o Reino de Castela, que inclui o antigo Reino da Galiza e o antigo Reino de Leão, portanto, são parte do Reino de Castela, que é o maior de todos, o mais poderoso.
Que ainda é Galiza e Castela?
Acaba por ser o Reino de Castela.
Porque era o nome que nós aprendemos na escola.
Sim, é um determinado momento, mas depois é a coroa de Castela. Tem lá o leão e tem os castelos, mas começa a ser designado como a coroa de Castela. Durante algum tempo ainda foi dividido. Frequentemente um rei morria e os seus filhos partilhavam, um ficava com o Reino de Leão, o outro ficava com o Reino de Castela, mas a partir de determinada altura é o Reino de Castela. Portanto, inclui o Reino da Galiza e o Reino de Leão. E a oriente, perto dos Pirenéus, temos o Reino de Aragão, que vai incluir o Reino de Navarra Que corresponde mais ou menos ao País Basco. Aliás, também se estende para além dos Pirenéus, para a França, mas aqui estamos a falar da parte cá dos Pirenéus. O Reino de Aragão inclui o Reino de Navarra, inclui o Condado de Barcelona, que é a Catalunha, e além dos reinos de Valência e de Maiorca, que também fazem parte do Reino de Aragão. Quando nós chegamos, por exemplo, ao século XIV e o rei de Castela, Juan, casa com a filha do rei de Portugal, Dom Fernando, e em 1373 se propõe como rei de Portugal, há gente em Portugal que aceita o rei de Castela como rei de Portugal, mas há também já gente que resiste, porque diz que quer ter um rei natural, quer dizer, um rei do próprio reino. Portanto, quando chegamos ao século XIV, no caso português, já temos aqui uma ideia de separação em relação aos outros reinos ibéricos bastante grande, que leva a esta ideia de não aceitar um rei que através do seu casamento até tem uma pretensão muito legítima a ser rei de Portugal. Ele casou com a filha do rei anterior e, portanto, é ele agora o herdeiro. Mas não, há uma parte grande das cidades e da população e da aristocracia portuguesa que prefere um filho ilegítimo de um rei anterior a este rei, porque quer ter um rei que seja um rei natural e não quer ter um rei de Castela como rei de Portugal. E como é que se chegou a este ponto? Como é que se chegou a este ponto de estes reinos começarem a corresponder a identidades que nós hoje diríamos nacionais? De várias maneiras. Por um lado, os poderes políticos vivem de diferença. Portanto, todos estes reis da Península Ibérica, o rei de Aragão, o rei de Castela, o rei de Portugal, tenderam a acentuar as diferenças em relação a outros reinos na Península Ibérica. Por exemplo, um caso notório, a substituição do latim como língua escrita pela língua que é falada no território onde o rei predomina. Por exemplo, em Portugal, faz-se com o rei Dom Dinis, o latim é substituído por aquilo que se vem a chamar o português, isto é, a língua falada. Depois, leis próprias, isto é, cada rei emite leis diferentes das leis do vizinho para os seus vassalos.
Passa a haver uma ordenação jurídica diferente.
O que quer dizer que ser vassalo do rei de Portugal não é a mesma coisa que ser vassalo do rei de Castela. Tem-se outros estatutos, tem-se outras leis. E obviamente as populações começam a tomar consciência disto, isto é, começam a tomar consciência destas diferenças, que entre portugueses e castelhanos há diferença de língua.
E há diferença de leis.
E há uma diferença de leis também, de tradições jurídicas. Depois, os próprios reis têm alianças externas diferentes no contexto dos grandes conflitos europeus da Idade Média, por exemplo, durante a Guerra dos 100 Anos, entre os reis de França e os reis de Inglaterra, Portugal é aliado da Inglaterra, Castela aliado de França.
E isso tem graça porque a maior parte das vezes os aliados não coincidem. Ao longo da história. Um é para um lado e o outro é para o outro.
Não, isso é muito importante. Nitidamente, estes reinos da Península Ibérica tendem a aliar-se com potências no norte da Europa, aliar-se com a potência que não é aquela que está aliada com o vizinho. E provavelmente as potências do norte da Europa também escolhem aliados preferenciais. Isto é, os conflitos europeus geram também diferença na Península Ibérica. A Inglaterra e a França, dos mais próximos, os reis da Inglaterra e da França, nos seus conflitos tendem a aumentar também as diferenças na Península Ibérica, porque têm aliados diferentes na Península Ibérica. Depois, claro, a reconquista e, mais tarde, a expansão ultramarina corresponde para estes reinos a áreas diferentes de expansão. Aragão, por exemplo, o Reino de Aragão desenvolve a sua atividade no Mediterrâneo e os reis de Portugal e de Castela no Atlântico e em áreas separadas do Atlântico. Depois no século XV separam as áreas. O que quer dizer? Quer dizer que há também associados a estes reinos interesses diferentes. Portanto, quem se quer dedicar a atividades comerciais ou de exploração na área na costa ocidental de África, é com o rei de Portugal que tem que falar, não é com o rei de Castela. Começa a haver interesses muito diferentes.
Depois, além de uma língua, começa a surgir uma literatura própria.
É, no século XV e sobretudo no século XV e XVI, a cultura literária que já não é escrita em latim, mas na língua falada, começa a estar associada a identidades cultas inspiradas pelas tradições romanas de patriotismo, isto é, à ideia de que há uma nação, há uma pátria. Isso é muito nítido nos Lusíadas de Luís de Camões, publicado em 1572, em que Portugal é muito equiparado a Roma, às cidades da antiguidade como pátrias, como motivo de identificação para os seus naturais, para aqueles que nasceram em Portugal identificarem-se e sentirem e terem uma identificação exclusiva com aquele país. Isto é, de tal maneira que, por exemplo, Fernando de Magalhães, que desenvolve a sua atividade profissional de navegador ao serviço do rei de Espanha, é ali classificado como um português que foi um bocado desleal. A obrigação dos portugueses é servirem o reino de Portugal, servirem Portugal. Portanto, isto começa a desenvolver-se nos séculos XV e XVI por inspiração Da cultura latina do Renascimento.
Ok, mas isso funcionou para Portugal, por que não funcionou para Aragão?
Funcionou para Castela e para Aragão nesta altura, nos séculos XV e XVI. Há estes fatores de distinção.
E quando é que deixa de funcionar para Aragão?
É isso que vamos falar, mas antes disso, deixa eu dizer que também há outros fatores que contribuem para juntar e aproximar estes reinos. Aí dá a resposta em relação à questão de Aragão. Há fatores de unificação. A primeira é as alianças matrimoniais entre as famílias reais. Isso, por exemplo, Castela e Aragão se unem a partir do fim do século XV. Uma junção muito precoce das famílias reais, de maneira que o rei se torna o mesmo para o reino de Castela e o reino de Aragão. E depois, em 1580, se vai tornar também o caso para Portugal, quando Filipe II sucede ao Cardeal Dom Henrique como rei de Portugal. E em 1580, Portugal, Castela e Aragão têm o mesmo rei. Há um outro fator de unificação que é a necessidade do reino mais poderoso da Península Ibérica, que no século XVI é o reino de Castela, excluir outras influências da Península Ibérica. E a maneira de excluir outras influências políticas externas da Península Ibérica, influências francesas ou inglesas, é o rei de Castela tornar-se rei dos outros reinos, de maneira a impedir que o reino de Portugal se torne um fator de influência externa na própria Península Ibérica. E depois, claro, há a tradição da memória de uma suposta unidade peninsular da Hispânia romana e do reino visigótico, a ideia de que a Hispânia devia estar unida, que o estado natural era a unidade. Já vimos que não é o caso, é o contrário, o estado natural é a fragmentação, é a divisão, mas há essa unidade. Quando em 1580 Filipe II se torna rei de Portugal, depois de já ser rei de Castela e rei de Aragão, temos esta unificação da península, mas ao nível do rei. Isto ainda não condena Aragão, atenção. Aragão aqui ainda não está condenado. Por quê? Porque se mantêm reinos separados, com administrações separadas e línguas separadas. Por exemplo, Portugal não é ocupado pela Espanha. Os castelhanos não podem exercer cargos em Portugal, não há tropas castelhanas em Portugal, os castelhanos não podem entrar nos domínios ultramarinos da coroa de Portugal. As fronteiras continuam a existir, continua a haver governos separados. A única coisa que há é o mesmo rei para Aragão, para Castela e para Portugal, e no caso de Aragão, também o mesmo rei para Aragão, para Valência e para Maiorca. São reinos também com leis e costumes separados.
Só que no caso português, isso não perdura, não é?
Isto não perdura por quê? Não perdura devido às guerras em que a monarquia hispânica dos Habsburgos se envolve na Europa. Isso obriga os governos do centro de Castela a precisarem de cada vez mais recursos e a necessidade de levantar esses recursos leva-os a violar os estatutos separados dos vários reinos. Eles, por exemplo, também não tinham direito a levantar tropas em Portugal para ir combater nas guerras de Castela, mas começam a fazer isso e começam a pedir dinheiro para guerras que não têm a ver propriamente com o reino de Portugal, pela guerra, por exemplo, nos Países Baixos. Os Países Baixos fazem parte da coroa de Castela, revoltaram-se. O rei Filipe II, enquanto rei de Castela, tem lá operações para submeter os Países Baixos, aí de repente começa a dizer: "Bem, se calhar convinha meter dinheiro dos outros reinos." E os outros reinos ou os aristocratas dos outros reinos dizem: "Mas o que nós temos a ver com isso? Isso não é da coroa de Portugal, não é da coroa de Aragão, é da coroa de Castela que financia essas expedições militares." Mas ao mesmo tempo, Portugal é atingido indiretamente pelos conflitos com os Países Baixos que se separaram da coroa de Castela e de repente a coroa de Castela também tem de apoiar Portugal, por exemplo, no Brasil, contra os chamados holandeses. Faz sentido, de facto, Portugal participar na guerra. Esta situação em que a coroa de Castela, o governo central, o governo do maior estado desta monarquia composta de vários estados, começa a querer ir buscar recursos aos outros estados, leva esses estados a revoltar-se. O primeiro é em Aragão, na Catalunha, em junho de 1640, há uma revolta no antigo reino de Aragão contra Castela e em dezembro de 1640 é em Portugal. Portugal também se levanta, são revoltas contra a pressão administrativa e fiscal da monarquia e são revoltas apoiadas pela França. A França está em guerra com os reis de Castela e está interessada em fomentar revoltas na península Ibérica. Agora começa a sorte de Portugal.
A sorte para se manter independente.
Aqui é um bocado de sorte. Primeiro, porque o governo de Madrid, em 1640, não tem meios para reprimir ao mesmo tempo a revolta da Catalunha e a revolta de Portugal E dá prioridade à Catalunha.
É engraçado usar essa expressão Catalunha. Por que não se usa a expressão Reino de Aragão?
Porque ali a revolta era mesmo na Catalunha, o Reino de Aragão era muito maior e a parte que está em revolta é só da Catalunha. Portanto, aquilo é uma revolta catalã, digamos assim. Madrid dá prioridade à recuperação da Catalunha porque está na fronteira com a França. Aliás, a revolta da Catalunha é uma revolta em que eles não declaram a independência, declaram a união com a França e portanto aquilo metia a França diretamente na península ibérica para cá dos Pirenéus e isso o governo de Madrid não pode acontecer. Quando tenta recuperar Portugal, quando finalmente tem meios para se voltar para Portugal, que é em 1659, portanto quase 20 anos depois da revolta portuguesa, já é muito tarde. Portugal tinha se reforçado, estava pronto para resistir e a Espanha estava muito mais enfraquecida. Tinha perdido a guerra dos 30 Anos, tinha perdido a guerra com a França, estava muito mais desmoralizada e enfraquecida e portanto Portugal pôde resistir. E isto remete para o outro fator que explica por que o reino de Portugal não teve o destino de Aragão. Não passa por aquilo que depois o reino de Aragão vai passar a partir do princípio do século XVIII.
Conta-nos então.
É que Portugal nunca foi castelhanizado, como foi o reino de Aragão. Portugal esteve em união dinástica com o resto da península entre 1580 e 1640, quando a monarquia hispânica era composta de reinos independentes, com fronteiras, com leis, com línguas diferentes entre si. Foi nessa altura que Portugal fez parte da monarquia hispânica. A partir do princípio do século XVIII, a monarquia hispânica, a monarquia com capital em Madrid, muda completamente de natureza com o advento de uma nova dinastia, a dinastia dos Bourbons franceses. A Espanha passa a ter uma dinastia francesa em substituição dos Habsburgos, dos Áustrias, como se chama em Espanha, os Áustrias, Filipe II, Filipe III, Filipe IV, etc. O Filipe V, que é o primeiro rei Bourbon de Espanha, vem tentar tornar a monarquia espanhola numa monarquia parecida com a monarquia francesa, uma monarquia unificada segundo o modelo francês. Isso é conseguido entre 1707 e 1716 com os chamados Decretos de Nueva Planta. Uma refundação da monarquia. O que fazem esses decretos? Esses decretos basicamente extinguem os reinos de Aragão, de Valência, de Maiorca e o Principado da Catalunha. Esses Estados são extintos, são integrados na coroa de Castela, portanto tornam-se todos reino de Castela, com as mesmas leis, os mesmos impostos e com o castelhano como a única língua de governo e de justiça. Isto é uma revolução enorme no princípio do século XVIII em Espanha, que Portugal, como já não faz parte, obviamente, da monarquia hispânica, não é sujeito a isto. De repente é quando na Galiza, na Catalunha, no País Basco, de repente, quem quer ir a um tribunal tem que falar castelhano, porque só se fala castelhano nos tribunais. Na administração, só se fala castelhano. Ao contrário do que tinha acontecido até então, em que os procedimentos locais, os tribunais, a administração, era tudo feito nas línguas tradicionais das populações desses territórios. Há uma castelhanização e há também uma unificação das legislações, as pessoas passam a ser todas em Espanha iguais, deixa de haver fronteiras interiores, são abatidas as alfândegas que existiam entre os vários reinos, porque havia alfândegas, aquilo não estava unificado de maneira nenhuma. Claro, o objetivo de Filipe V e dos reis Bourbons é tentar com isto fazer da Espanha outra vez uma grande potência europeia, tornando-a unificada como o reino de França. Eles vêm de França, são reis franceses e sabem que a França tem aquela força, o rei de França tem, porque tem um acesso à população e aos territórios direto.
Também já fora fragmentado.
Enfim, deram um bocadinho, mas menos, e querem importar esse modelo.
O que tu estás a dizer é que se Dom Sebastião tivesse chegado com 100 anos de atraso, nós hoje provavelmente seríamos espanhóis se tivéssemos apanhado já os Bourbons.
Se tivéssemos apanhado Filipe V e os Bourbons, provavelmente teríamos sido sujeitos a uma castelhanização, como não fomos no tempo de Filipe II. Filipe II respeitou-
Três Felipes depois e éramos espanhóis.
Ou teria sido um pouco mais difícil. Teríamos estado sujeitos a um processo de aculturação com Castela a que não fomos no fim do século XVI, princípio do século XVII, em que se respeitava o reino de Portugal. Continua a haver reino de Portugal. O reino de Portugal não desapareceu entre 1580 e 1640. Não foi ocupado, não há dominação espanhola. Há um rei que é o mesmo, e é um rei que é filho de uma infanta portuguesa.
Tinha legitimidade. Nós já falamos disso aqui.
Filipe II. Segundo, durante esta época, enquanto o reino de Aragão está a ser castelhanizado, Portugal está a ser aportuguesado cada vez mais. Tem aliados Como a Inglaterra que ajuda à defesa e independência do país em 1762, em 1808, a Inglaterra é o maior parceiro comercial. Portanto, há um apoio grande exterior para a independência portuguesa. A elite portuguesa também tende a se separar um pouco da cultura peninsular, sobretudo no século XVIII, com uma ligação cada vez mais forte à França, com o francês a tornar-se uma segunda língua, em vez do castelhano. Isto é, de repente, as pessoas já não sabem, estão muito mais a par do que se passa em França no século XIX e depois isso torna-se absolutamente notório. Há um grande distanciamento em relação à Espanha e uma grande relação com a França. E depois no século XIX, quando vem o constitucionalismo, quando vem o nacionalismo moderno, enquanto em Espanha esse constitucionalismo e esse nacionalismo têm como foco a nação espanhola, a Espanha, em Portugal têm Portugal, claro.
Certo.
E enquanto os valencianos, os maiorquinos, os aragoneses, os catalães, os bascos e os galegos no século XIX são ensinados a ser patriotas espanhóis, a terem a Espanha como pátria, os portugueses também não passam por isso. Nessa altura, o constitucionalismo e o nacionalismo são portugueses. Portugal não só não é castelanizado, mas depois tem um movimento, um nacionalismo e uma constitucionalização, isto é, o estabelecimento de instituições representativas que têm como referência a nação portuguesa, enquanto no resto da península ibérica a referência é a nação espanhola.
Certo. Além disso, nessa altura, para citar a famosa frase do Estado Novo, Portugal já não é pequeno. Ou seja, Portugal já tinha um império.
E Portugal, pois, não é pequeno, já não era pequeno no século XVII e no século XVIII, tinha o Brasil até 1822 e depois no fim do século XIX tem um novo império em África, com uma extensão territorial que permite, no século XX, essa ideia de que não é um país pequeno. Quer dizer, pode ser um país pequeno.
Mas todo somado era muito maior que Espanha. Chega a uma certa altura.
Sim, é maior até do que a Europa Ocidental. Já agora, é um país grande. Aliás, com o Brasil também já era um país enorme.
Estava a comparar, a certa altura, as possessões portuguesas ficaram maiores do que as possessões espanholas. Tudo junto, geograficamente.
A Espanha perde o seu império entre 1812 e 1820 e tal, perde o seu império americano.
Certo.
E fica com muito pouca coisa. Fica com a ilha de Cuba e com as Filipinas, que também perde em 1898. Quando entramos no século XX, a Espanha tem ali umas possessões em Marrocos, mas nada se compara com o império colonial português. É verdade que no século XIX, e para terminar, sabemos que há processos de unificação em várias regiões da Europa. Há a unificação alemã e há a unificação italiana. Em Itália, nós podemos dizer: "Ah, mas eles falavam todos a mesma língua." Não falavam. Quer dizer, em Itália havia várias maneiras de falar italiano, de tal maneira que até eram tão diferentes entre si como o português e o castelhano. E também com tradições longas de reino. O reino das Duas Sílias, o chamado Reino de Nápoles, era um reino há muito tempo separado do Reino da Sardanha. Havia separações grandes que foram ultrapassadas em meados do século XIX, no processo de unificação que criou o Reino de Itália e no caso da Alemanha, que também com longa tradição de separação e até de conflitos entre vários Estados germânicos, criou o Império Alemão, ainda um império alemão composto de Estados com reis diferentes, mas com um imperador. Por que isso não aconteceu na península? Por que não há um processo de unificação na península? Isso é curioso. Em meados do século XIX, julga-se que isso pode acontecer na Península Ibérica também. Isto é, um processo de unificação também na Península Ibérica. Aliás, frequentemente protagonizado por Portugal, quer dizer, isto é, pelos reis portugueses poderem se tornar reis de Espanha, mas isso podemos falar noutro dia.
Noutro dia.
Noutro dia. Mas vamos só apenas referir por que isso não acontece. Não acontece porque há um veto, há uma potência que tem direito a veto, que é a Inglaterra. A Inglaterra não quer a unificação da península ibérica, trata Portugal mais do que um aliado, como uma base importante no continente europeu. Os espanhóis, nessa altura, começam a referir Portugal como o Gibraltar em ponto grande. Haveria Gibraltar pequeno e o Gibraltar maior. E sobretudo também da parte da Espanha. A Espanha no século XIX já começa a ter demasiados problemas com a Catalunha e com o País Basco. A Catalunha e o País Basco começam a tornar-se muito importantes em Espanha, porque são as grandes zonas de industrialização da Espanha no século XIX. E são também as grandes zonas de dissidência política, inicialmente com apoio a uma dinastia, a uma linha da família real dos Bourbon diferente, dos carlistas. Tornam-se zonas de carlismo e depois mais tarde vão se tornar zonas de nacionalismo, mas isso já bastante no século XX. O que isso queria dizer? Para governos em Madrid que já começam a ter imensos problemas na Catalunha e no País Basco, a ideia de ter mais um problema com Portugal era completa. Por exemplo, a correspondência diplomática britânica a esse respeito, andam sempre a correr rumores de unificação e a correspondência diplomática britânica é muito tranquila a esse respeito. Eles dizem: "No dia em que o governo de Madrid tentar integrar em Portugal, é o fim da Espanha, desfaz-se tudo." Porque eles não vão conseguir integrar, não têm uma relação entre as populações que permita uma integração fácil, as tradições são muito diferentes e, além disso, é nesse momento de contestação que vão levar também os catalães e os bascos a tentar separar-se também, portanto, está fora de questão. Portugal, a partir desse momento, no concerto europeu, começa a ser dado como um dado adquirido a independência portuguesa a partir do século XIX. Durante o século XX é muito claro, enquanto Espanha se torna também um dado, digamos, um Estado adquirido, Portugal também torna-se um Estado adquirido e deixa de haver ilusões sobre qualquer processo de unificação.
Muito bem. E assim termina mais este "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana com um novo tema. Até lá.