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As armas e os barcos.
E o resto é história.
É apenas fumaça. Do Incêndio e Palavra, ainda na zona dos Chiados.
Falo por gosto. Falo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura.
Não.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo ao 40º episódio de "E o Resto é História", com a dupla do costume, João Miguel Tavares e Rui Ramos. As perguntas dos nossos ouvintes têm abundado, tanto em quantidade como em qualidade, o que é um ótimo sinal para este programa. Rui, eu propunha que nesta época de quarentena continuemos a dedicar toda a nossa atenção aos nossos ouvintes e às perguntas que nos têm enviado. E já agora, eu gostava de recuperar a rubrica "Perguntas dos Miúdos Lá de Casa", que já não tínhamos há algum tempo, e agora que os miúdos estão mesmo muito lá por casa, parece-me uma boa altura para voltar a ela. Esta pergunta foi colocada pelo Miguel Aires, que tem apenas nove anos: quando e como se começaram a utilizar os apelidos em Portugal? E lá está, as perguntas dos miúdos são sempre as melhores e muitas vezes as mais difíceis. Portanto, aqui o senhor Tavares passa a pergunta ao senhor Ramos. Quando é que todos nós começamos a ter direito a um apelido?
Direito e dever de ter um apelido, uma vez que o Estado, neste momento, não nos admite apenas o nome próprio ou dois nomes próprios, espera também que tenhamos apelidos para nos identificar. Portanto, não é apenas uma liberdade ter apelidos, neste momento é também uma obrigação. Mas nem sempre foi assim. É uma história interessante e eu vou contá-la a partir dos estudos de três historiadores que trabalharam sobre este tema: a professora Iria Gonçalves para a Idade Média, o Nuno Gonçalo Monteiro, sobretudo em relação à época chamada moderna, séculos XVI, XVII e XVIII, e também o Carlos Bobone, que escreveu um livro recente, "Um Panorama Histórico dos Apelidos Portugueses". E obviamente, todos eles devem alguma coisa aos estudos do José Leite Vasconcelos, da Antroponímia Portuguesa. Nós há muito tempo, pelo menos desde o século XVIII, século XIX, que temos nomes que impressionam os outros europeus. Nos países do norte da Europa, é muito frequente as pessoas terem o nome próprio e terem um apelido, geralmente um apelido paterno. E os portugueses há muito tempo que têm vários nomes próprios, pelo menos dois, e por vezes sete ou oito apelidos, o que espantou sempre muito os europeus. Isto no fim do século XVIII e no século XIX. Curiosamente, isso não foi sempre assim. Quando recuamos para o princípio do reino de Portugal, na Idade Média, século XI, XII, era muito frequente as pessoas que aparecem na documentação aparecerem identificadas apenas com um nome só. Um nome com um só elemento, o nome próprio de batismo. E este era um costume germânico, um costume que tinha vindo com as chamadas invasões bárbaras a partir do século V e VI. E tinha esta razão de ser: as populações germânicas tinham uma enorme quantidade de nomes disponíveis, tinham muitos nomes. E eram estes nomes que predominavam naquela região que viria a ser depois o Reino de Portugal no século X e XI. Estava cheio de Sizenandes, Gundisalos, Atenagildos, Soeiros, Rodrigos. Os nomes romanos eram muito pouco usados já nesta altura.
O que tu dizes é que esses nomes próprios eram de uma variedade gigantesca.
Era tão grande, que era muito improvável que houvesse dois Sizenandes ou dois Gundisalos na mesma geração e na mesma localidade.
Pera lá. Mas isso significa que a minha família...
De haver um qualificativo qualquer para o distinguir de um outro Gundisalvo.
Tu sabes que na minha família, o meu irmão, o meu avô era o Romualdos e tinha Atilanos e outros tais, portanto isso significa que a minha família ainda é herdeira desses povos germânicos.
Muito bem.
De facto, não se encontram esses nomes por aí.
Não. Repara que estes nomes germânicos, com um só elemento, tinha sido uma ruptura em relação ao costume romano dos nomes com três elementos: o nome da pessoa, o nome da linhagem e o nome da família. Portanto, o primeiro estádio em que nós encontramos os nomes em Portugal é deste, nomes com um só elemento, com aquilo que nós chamaríamos um nome próprio. Agora, como é que isto mudou? E começou a mudar precisamente no momento da fundação do Reino de Portugal. Isto provavelmente terá a ver com um reforço da cristianização, que levou ao abandono destes nomes germânicos. E ao mesmo tempo que se abandonou estes nomes germânicos, por preferência por nomes, por exemplo, bíblicos, de santos, Pedro, João para homens ou Maria para mulheres, o que aconteceu foi que aquilo que os especialistas chamam o léxico onomástico, isto é, os nomes que estavam disponíveis para as pessoas usarem para batizar.
Diminuiu muito.
Diminuiu imenso. E portanto, passou a haver a necessidade para distinguir pessoas com o mesmo Nome próprio. Isto é, dois Pedros e dois Joões. Uns dos outros, a necessidade de haver outro elemento, o elemento a que nós vamos chamar apelido, para se distinguir. E o primeiro tipo de apelido que aparece indica, sobretudo, a filiação paterna. Isto é, indica de quem o indigido é filho. Por exemplo, o nosso primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques. Henriques indica que ele é filho do Conde Dom Henrique. Fernão Lopes indica que é Fernão, filho do Lopo. Lopo Fernandes indica que é Lopo, filho de Fernando. Portanto, é usado como aquilo que nós chamaríamos apelido genitivo do nome do pai, aquilo que se chama um patronímico, isto é, indica a filiação paterna. E por volta do século XII, na documentação que sobrevive dessa época, cerca de 60% dos indivíduos cujos nomes aparecem já têm este apelido.
Do nome do pai.
Isto é, do nome do pai. Isto não ficou por aqui, a história continua a evoluir. E a partir do século XIV, XV, o patronímico começa a ser ou abandonado, o segundo elemento do nome do indivíduo deixa de ser um patronímico, ou então começa a ser usado pura e simplesmente como um apelido. Isto é, alguém que se chama Fernando já não quer dizer que o pai se chame Fernando, como hoje. Alguém que se chama João Rodrigues, nós hoje não entendemos que o pai dele se chama Rodrigues. É um apelido, é aquilo que nós chamamos já um nome de família. E a partir do século XV multiplicam-se esses outros nomes derivados, sobretudo de qualificativos ou de alcunhas. Aqui há uma variante, portanto, enquanto o patronímico era sobretudo adotado pelo próprio indivíduo no seio do seu grupo familiar, isto é, indicava a filiação paterna, é muito provável que estes qualificativos e alcunhas derivem também daquilo que ele é chamado dentro da comunidade onde vive.
Eram os outros que atribuíam, não é?
É. E, portanto, o que nós temos então nestes elementos do nome? Temos estes qualificativos do nome próprio relativos a lugares, como por exemplo Valadares, Sousa, Melo, Abulim. Vão ser apelidos portugueses, mas originalmente referem-se a lugares. Portanto, quer dizer que o João de Sousa-
Quando diz lugares está a falar de quê? De aldeias?
De povoações.
Podem ser sítios geograficamente localizados.
É. Por exemplo, João de Melo quer dizer João que vem de Melo, de um sítio chamado Melo. Ou então indica profissões ou cargos, por exemplo, Monteiro, um caçador, ou objetos ligados a essa profissão e cargo. Correia, Machado, ou então indica também, portanto, é um sistema de alcunhas, características físicas ou morais do indivíduo, por vezes até no sentido pejorativo: calado, gago, ou então associadas a um animal: raposo, lobo. Aliás, isto é curioso, esse tipo de alcunhas que eu agora estou a referir, o calado, gago, raposo, lobo, é mais característico do sul do país e sobretudo das cidades, e desenvolve-se a partir do século XIII. Ora bem, quando nós chegamos aos séculos XIV, XV e XVI, essa combinação do nome próprio, por vezes ainda de patronímicos que ainda continuam a ser usados, e destes outros qualificativos, faz com que em Portugal, na Idade Média, já apareçam apelativos com três elementos. Mais de 40% da população, em algumas cidades do Sul, já têm estes nomes com três elementos. Podem perguntar onde é que estes nomes apareciam. Bem, apareciam em documentos como contratos, atos oficiais com a monarquia ou com a Igreja, porque só a partir do século XVI é que aparecem em registos paroquiais, porque é a partir então que o Concílio de Trento organiza, ou manda organizar, nas paróquias da Cristandade, livros onde os padres é suposto tomarem nota dos batismos, casamentos e óbitos, e aí começam a aparecer estes nomes. Mas reparem, isto não são nomes exatamente oficiais, não há os nossos nomes de registro civil, e sobretudo, não compunham ainda um apelido de família como o conhecemos agora. Os apelidos de família começam por ser, sobretudo, um costume aristocrático, ou mais exatamente fidalgo, a partir do século XIII. São os fidalgos, precisamente filhos de alguém, que se distinguem pela descendência de um certo antepassado, que tentam afixar nomes de família, geralmente de origens geográficas.
Também por um desejo de ascensão social.
Não, sobretudo para fixarem a sua identidade como uma casta, como um grupo. Portanto, passam a ser os de Sousa, os da Maia, os de Baião, os de Azevedo, os de Fonseca, os de Melo, os de Vasconcelos. Isto são tudo lugares geográficos, sítios de onde eles são originários. Por vezes são onde eles têm as suas terras, os seus feudos, as suas honras, a base do seu poder. Mas não são só os apelidos queQue são transmitidos à volta dos apelidos, há também as histórias associadas aos antepassados, como vemos nas narrativas dos livros de linhagens medievais e depois na heráldica associada aos nomes, portanto, aos brasões de armas que estão associados a determinados apelidos. Também acontece, dentro desta nobreza, devido à instituição chamada do morgadio, isto é, que reservava os bens de uma família nobre para o seu filho primogênito. Por vezes, os instituidores desses morgadios impunham que os morgados usassem os seus apelidos, isto é, os apelidos que eram os apelidos do instituidor, do fundador do morgadio. Ora bem, o que acontecia era que através dos casamentos entre as famílias fidalgas, o mesmo indivíduo podia acumular vários morgadios, isto é, ser morgado de várias descendências. E então começou a multiplicar, nos nomes das famílias fidalgas, começaram a multiplicar os apelidos relacionados com esses vários morgadios de que a mesma família acumulou. Isto sobretudo no século XVIII. E daí aqueles nomes com muitos, com cinco, seis, sete apelidos. Esta é uma memória linhagística, o apelido também conserva a memória das descendências, das linhagens, tem a ver com a identidade da nobreza e obviamente era fundamental porque dela dependia o acesso, não apenas ao estatuto nobre, isto é, poder ser imediatamente identificado como o filho de alguém, mas também a posições sociais. Há uma literatura muito grande, genealogias em que são fixados os nomes, as descendências, e são também, obviamente, digamos que aldrabados, permita-se a expressão. Isto é, há falsificações, isto é, indivíduos que tentam entroncar-se em famílias com prestígio e, portanto, passam a usurpar apelidos a que não têm direito e daí, a partir do século XVIII, uma certa vigilância sobre o uso de apelidos.
Mas não havia regras propriamente ditas sobre os apelidos, não é?
Não, o indivíduo podia escolher entre os apelidos da mãe e do pai ou dos quatro avós e usar os que quisesse, daqueles que lhe dava mais jeito. Geralmente iam escolher aqueles que tinham mais prestígio, mais sonoros, etc. Temos o caso famoso, no princípio do século XIX, um certo João Leitão da Silva, que podia ter ficado imortalizado como João Leitão da Silva, mas achou que João Leitão da Silva não era propriamente um grande nome literário e, portanto, fez uma arrumação dos seus nomes e tornou-se o João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett, com dois T, como ele sempre notou. Enfim, como Almeida Garrett provavelmente soa melhor do que Leitão da Silva.
Do que a obra de Leitão da Silva.
A obra de Leitão da Silva, quer dizer, o Frei Luís de Sousa de Leitão da Silva, provavelmente não era a mesma coisa de Almeida Garrett.
Não. E a joaninha não tinha os mesmos olhos, não.
Ora bem, não tinha os mesmos olhos verdes, salvo ver. Mas esta possibilidade de escolher apelidos faz com que, em famílias fidalgas, por vezes há irmãos, isto é, indivíduos que são irmãos, que não têm um único apelido comum. Isto é, têm muitos apelidos cada um deles, mas não têm um único apelido comum, porque cada um escolhia apelidos diferentes. Só a partir do século XIX é que se torna comum para os irmãos terem os mesmos apelidos. Aliás, havia até uma tradição anterior que se notava em que por vezes os apelidos paternos ficavam para os rapazes e os apelidos maternos para as raparigas. O nosso sistema de nomes pessoais é, portanto, muito recente. Data quase do século XX, quando o Estado, por exemplo, estabeleceu a ordem dos apelidos a usar pelos indivíduos. Primeiro o da mãe e depois o do pai, no fim. Nós temos aqui um costume peninsular, porque noutras sociedades europeias o costume é usar apenas o nome próprio e um apelido paterno, como em França ou Inglaterra, e é na Península Ibérica, em Portugal e em Espanha, que se tem esse hábito de usar o nome da mãe e o nome do pai, embora com ordens inversas em Portugal e em Espanha.
Rui, há uma pergunta de outro ouvinte, que é o Mário Negreiros, que de certa forma entronca nesta pergunta do Miguel Lares. E o Mário Negreiros perguntava-nos: é verdade que apelidos feitos de nomes de árvores de fruto, como Pereira, Figueira, etc, eram escolhidos por judeus novos cristãos e os feitos de cereais, como trigo, que é um dos apelidos do ouvinte, eram escolhidos por muçulmanos? Aliás, houve conversão forçada de muçulmanos, perguntava ele. Tu não és árvore, Rui, mas tens Ramos, não é? Há alguma verdade nisto ou é mais um daqueles mitos que abundam na nossa história?
Eu ouvi, por exemplo, em relação ao meu próprio apelido, que pode ter uma origem cristã nova por ser um nome religioso, como Trindade, Santos, Santana, Rosário, Quaresma, Nascimento, são nomes com origem religiosa. Mas em relação a esses nomes como Pereira, Figueira, esses nomes de plantas e de árvores tendem a entrar na antonomía por via geográfica, isto é, não são bem os nomes das árvores e das plantas, mas são nomes de lugares, de sítios, portanto, indicando origem geográfica. Oliveira Pereira remete para uma origem geográfica. Ora bem, será que isto definia um grupo especial, como por exemplo, os cristãos novos? Ora, nós temos que ter em atenção que uma das características portuguesas é não haver nomes distintos de certos grupos Já dizia o Cavaleiro de Oliveira, no século XVIII, e cito: "Não há um único apelido em Portugal que não pertença, simultaneamente, à fidalguia mais extrema e à gentalha mais baixa". Isto é, os nomes são partilhados democraticamente.
São muito democráticos. Obrigado.
Independente dos seus estatutos. Por exemplo, Silva, que é hoje um dos apelidos mais vulgares em Portugal, quase 10% das pessoas têm Silva no nome, era originalmente um apelido fidalgo. E isso pode ter tido origem no fato de muita gente adotar apelidos de casas fidalgas e até incluindo os escravos e os criados dessas casas que adaptavam os apelidos dos seus-
Dos senhores.
Dos seus senhores. Portanto, os nomes das famílias eram uma matéria em que as famílias e os indivíduos podiam manipular facilmente até ao século XIX, até à fixação com regras no chamado registo civil. E, portanto, é duvidoso que indivíduos e famílias adotassem apelidos que denotassem imediatamente uma desqualificação, como era o caso antes do século XIX de uma ascendência judaica ou muçulmana. Talvez fosse duvidoso alguém ter um nome que o denunciasse imediatamente como tendo essa ascendência.
Muito bem. Obrigado. Esta pergunta do Miguel Ares fez-nos viajar pela história de Portugal em busca dos apelidos. Foi uma conversa bem interessante. Termina assim esta primeira parte de "E o Resto é História". Voltamos já a seguir para a segunda parte. Até já.
O meu nome é Sara Antunes de Oliveira, sou editora de sociedade d'O Observador. Ainda no início de março, comecei a guardar notas de todos os trabalhos que o Observador estava a fazer sobre o novo coronavírus. Achei que um dia podia ser útil para recordar como trabalhamos e aquilo que escrevemos sobre a grande pandemia do século. Mas confesso que acabei por desistir, porque era impossível acompanhar o ritmo de uma redação que, ao longo destas semanas, tem feito centenas de artigos, especiais, entrevistas, explicadores e análises. Todos eles com um objetivo: responder às dúvidas dos nossos leitores e ouvintes com toda a informação decodificada. É por isso que não paramos. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante d'O Observador.
Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte do episódio número 40 de "E o Resto é História". O José Maria Sousa Soares, lá está, muitos apelidos e muitos nomes, escreveu-nos no domingo de Páscoa com esta dúvida: "Não sendo possível para muitos católicos participar fisicamente nas celebrações pascais, aproveito para perguntar, alguma vez na nossa história houve limitações semelhantes às atuais à participação nas missas?" E esta é de facto uma pergunta interessante, Rui, porque nós já falámos várias vezes neste programa sobre perseguições do Estado à Igreja, algumas delas bastante agressivas, mas essas proibições em Portugal alguma vez chegaram ao ponto de proibir a prática religiosa dominical?
Não tenho conhecimento da proibição em Portugal da prática religiosa numa dimensão como aconteceu, por exemplo, no fim do século XVIII, durante a Revolução Francesa, sobretudo durante aquela fase em que as autoridades revolucionárias decidiram promover a descristianização da França, durante aquele período do chamado Terror, em 1793 e 1794. Foi a época em que, por exemplo, a igreja de Notre Dame, em Paris, foi profanada, as estátuas foram destruídas e foi usada como um templo do culto ateu da razão. Portanto, foi transformada num templo da razão. Também houve o mesmo gênero de limitações muito violentas à prática religiosa na Rússia, durante a revolução e depois no regime bolchevista no princípio do século XX, ou mesmo em Espanha, durante a Segunda República e a Guerra Civil nos anos 30 do século XX, com ataques às igrejas e ao clero. Uma quantidade enorme de padres foram assassinados pelas tropas e pelas milícias republicanas depois de 1936. Em Portugal, há, de facto, restrições, houve restrições ao culto de três tipos. Primeiro, aquelas que resultaram do não reconhecimento pelo governo liberal, depois de 1834, de bispos e padres nomeados durante o governo Dom Miguel. Isso levou à ruptura das relações entre o governo português, o novo governo português liberal, com o Papa, relações que estiveram interrompidas até 1843, e até à existência em Portugal de uma espécie de cisma com duas igrejas. Uma igreja que era aquela em que os padres e os bispos reconheciam o governo liberal e, por vezes, tinham sido nomeados por esse governo liberal, e uma outra igreja, uma igreja clandestina, uma igreja legalista, digamos, às vezes com cerimônias nas serras. As pessoas iam para as serras para ouvir missa de padres que não eram os padres reconhecidos pelo governo. Portanto, esse foi um tipo de constrangimento da prática religiosa.
Mas isso durou muito tempo?
Até 1843, portanto, estamos a falar de uns seis, sete anos, até finalmente haver uma espécie de concordata entre o governo liberal e o Papa, que regularizou a situação. Depois, a outra fase é a fase do regime republicano, depois de 1910, e sobretudo depois de 1911, com a lei de separação da Igreja e do Estado, em que há limitações Ao culto católico, limitações legais da própria lei. Por exemplo, não se podem tocar os sinos, os padres não podem usar vestes que os identificam como padres, as chamadas vestes talares, não pode haver procissões na rua, a catequese também está limitada. E depois há todos os conflitos que esta situação da chamada separação propiciou sob o regime republicano. Há muitos padres presos, mais de uma centena, quase duas centenas em 1911, o que acabou por privar de assistência religiosa os seus paroquianos, quando eles estavam presos. E há também depois o que resulta da aplicação da lei de separação no que dizia respeito às chamadas associações cultuais, que eram organizações que deviam presidir às atividades das igrejas e também, por exemplo, recolher os donativos que depois seriam usados para remunerar o clero. Ora, estas associações cultuais não eram apenas organizações de fiéis, não estavam limitados aos fiéis, isto é, aos crentes, aos católicos. Estavam também abertas a quem quisesse, incluindo ateus. Em alguns casos, até eram compostas totalmente de cidadãos que propriamente não eram católicos e que estavam ali apenas para vigiar e para dificultar as atividades da Igreja e para fazer a vida negra ao padre. A Igreja resiste a essas associações cultuais e o governo ameaça que igrejas onde não haja associações cultuais seriam encerradas. Há um primeiro prazo para a constituição de associações cultuais até o fim de 1911 e depois até o fim de 1912. A verdade é que os católicos e o clero resistem imenso, isto é, as associações cultuais são muito poucas no país, as pessoas recusam-se a participar nessas associações. E acontece, por exemplo, em Lisboa, em junho de 1913, dentro dessa polêmica, algumas igrejas serem encerradas. A Igreja da Graça, a Igreja de São Vicente, a Igreja de Santa Engrácia, são encerradas ao culto. E há pânico entre os crentes em várias localidades do país sobre a possibilidade de deixarem ter acesso quer à missa, quer a outras cerimônias religiosas. Estou-me a lembrar de uma carta do António Sardinha, um escritor desta época, à namorada. Ele chega a Porto Alegre e descobre que as pessoas estão em massa a batizar os filhos na Sé Catedral, porque era já a única igreja que estaria aberta e que estaria em vésperas também de ser fechada. Portanto, esse é o ambiente que há, muito do choque entre estes governos, como os governos liberais em 1834 e os governos republicanos depois de 1911. Há muita retórica, muitas ameaças, muita controvérsia. A tendência é para tentar atingir compromissos. Em 1843, os liberais conseguem um acordo com a Igreja, com o Vaticano, no tempo do governo Costa Cabral. No caso da República, em 1918, com Sidónio Pais. Mas sim, há estes momentos de tensão e de sensação de perseguição pelos católicos, que não é apenas imaginária. Há mesmo perseguição. Basta pensar na reação das autoridades republicanas a partir de 1917 ao movimento de Fátima, o milagre de Fátima. As crianças videntes chegaram a estar presas e ameaçadas na prisão. A GNR tenta fazer uma espécie de cordão para impedir as peregrinações, isto é, as pessoas de chegarem ao lugar de Fátima. A primeira capelinha das aparições é destruída à bomba, etc. Há, de facto, correntes fortemente, não apenas anticlericais, mas até anticatólicas, num certo sentido, na medida em que são contrárias ao catolicismo tal como existia, mesmo que invocassem um catolicismo que não existia para justificar o combate que fazem ao que existia em Portugal e que está associado às revoluções liberais e republicanas. E talvez seja interessante perceber por quê. Por que liberais no século XIX, republicanos no século XX, tendem a ver a Igreja com esta desconfiança e mesmo hostilidade? Por várias razões. Em primeiro lugar, porque para muitos deles, a religião católica, tal como existia em Portugal, era sobretudo uma superstição e portanto devia ser tratada com desconfiança por quem era suposto representar o progresso, a modernidade. Portanto, devia olhar para este catolicismo com a devida desconfiança. Depois também porque o clero, e era o clero de uma religião oficial, como era o catolicismo em Portugal, o clero era identificado com os regimes anteriores às revoluções, quer à revolução liberal, quer à revolução republicana, e portanto havia uma suposição de que podia ser hostil ao novo regime, ao regime liberal na década de 1830, ao regime republicano na década de 1910, portanto também a tratar com uma certa hostilidade. Mas acima de tudo, porque pela maneira como liberais e republicanos viam a religião católica. Para eles, esta religião tinha sido a base do cimento social, da ligação entre as pessoas nos regimes anteriores, enquanto religião de Estado. E eles achavam que essa função era uma função importante, isto é, haver esse cimento. O que achavam que a religião católica Ou tal como existia em Portugal, não devia ser essa religião a desempenhar esse papel de cimento social, de base, solidariedade, ligação entre as pessoas. Um, porque é uma religião revelada, outros porque é uma religião corrompida pelo Vaticano, portanto podia ser substituída ou por um novo catolicismo, era a ideia do Alexandre Herculano no século XIX, um novo catolicismo que se parecia muito com as religiões protestantes, os cristianismos protestantes no norte da Europa, ou então substituí-la pura e simplesmente por um outro tipo de religião, já não uma religião revelada, mas uma religião civil, baseada na ciência e no culto da razão e da pátria. Esta era a ideia de muitos republicanos no princípio do século XX e que correspondia às tradições da Revolução Francesa no período de 1793, 94, quando também houve a ideia de substituir o catolicismo por cultos revolucionários, como o culto da razão.
Ou seja, sempre que há um desejo de revolução, a Igreja Católica sofre, não é?
Sofre, porque é vista sempre como um obstáculo a essa revolução. Isto é, é vista como um limite àquilo que a revolução quer atingir, que é uma refundação total do país, da sociedade, criar pessoas com mentalidades novas e obviamente olham sempre para a religião estabelecida, para o clero, como um obstáculo a ultrapassar.
E remetendo o culto para aquilo que é uma esfera privada.
Essa era a solução para impedir, era a alternativa a uma proibição pura e simples. Como as autoridades japonesas fizeram no século XVII, proibir o cristianismo, perseguir os padres, obrigar os cristãos a renunciar à religião. Isso nunca foi contemplado aqui em Portugal, mas houve essa ideia, que é muito aquela que subjaz à lei de separação, que é levar a que o culto católico se remeta para uma esfera privada sem qualquer relevância pública. Isto é, que seja algo que as pessoas pratiquem no segredo dos seus lares, da sua vida privada e que ninguém saiba, ninguém tenha conhecimento disso.
Olha, Rui, nós ainda temos cerca de seis minutos para uma última pergunta do ouvinte Rui Guedes. Ele pede para falarmos de um episódio ocorrido a 10 de julho de 1915 e que ficou conhecido como o Motim de Lamego, que parece ter causado nove mortes e 22 feridos no contexto de uma revolta. Eu não sei é se revolta será um termo abusivo. No Douro Vinhateiro, entre ali entre 1914 e 1915, por causa de um tratado de comércio luso-britânico, que foi assinado em 1914 e que permitia algo que comerciantes, industriais e agricultores do Douro consideravam inaceitável: que a designação Vinho do Porto pudesse ser usada em Inglaterra para qualquer vinho produzido em Portugal de forma indiscriminada. E este motim de Lamego é no fundo uma luta pelo estabelecimento de uma região demarcada e é hoje considerado um movimento fundamental para a marca Vinho do Porto. Os produtores durienses preferiam na altura, curiosamente, designá-lo por vinhos finos do Douro, já que efetivamente eles geograficamente não são propriamente do Porto. Mas hoje em dia nós conhecemos a expressão Vinho do Porto e esse Vinho do Porto reflete uma região demarcada, em boa parte, graças a esta revolta, em que, como diz Rui Guedes, a perceção que passou para a opinião pública foi a de heróis a defenderem a causa do Douro. O que tens tu a dizer sobre isto, Rui?
Os produtores do Vinho do Douro tiveram uma grande luta no século XIX e no século XX para assegurar o exclusivo da marca. É bom lembrar que o Vinho do Porto, depois da perda do comércio do Brasil com a abertura dos portos em 1808 e com a independência do novo império em 1822, o Vinho do Porto tornou-se a principal exportação portuguesa e uma das maiores, senão a maior fonte de riqueza comercial do país no século XIX. O mercado é sobretudo a Inglaterra, está muito concentrado, é um vinho produzido muito para o paladar inglês, digamos assim. É uma fonte de riqueza muito segura também, que tem este mercado bastante predisposto para o consumo. Mas nem tudo corre bem aos produtores do Vinho do Porto e não corre bem, por um lado, porque o cultivo da vinha no Douro é afetado nos meados do século XIX por várias pragas, sobretudo na década de 1870, pela chamada filoxera, que destrói muitas das vinhas, mas também pela concorrência de outros produtores nacionais. Ao longo do século XIX, o cultivo da vinha alastra no país e sobretudo no Sul, na Estremadura e no Ribatejo, que no fim do século XIX se torna este Sul o grande produtor de vinho em Portugal. Só que este vinho do Sul não tem grande prestígio. São vinhos maduros, para consumo corrente, de baixa qualidade e de consumo local. Como acontecia aliás às restantes produções de vinho no país. Por exemplo, o Vinho Verde do Minho era só consumido praticamente no Minho. Agora, os cultivadores de vinho no Sul e produtores de vinho têm uma produção que vai muito para além de qualquer consumo local. E eles querem escoar.
Querem escoar, mas não têm o prestígio.
Não têm o prestígio. Portanto, o que eles querem é Tentar usar a sua produção vinícola e acrescentá-la à produção de vinhos de prestígio. Acontece, por exemplo, na década de 1880, precisamente por causa da filoxera em França, que os franceses vêm buscar muito vinho ao sul do país para adicionar aos vinhos franceses. Portanto, muito vinho francês é feito com vinho português, digamos assim, no fim do século XIX. E a mesma coisa acontece com o vinho do Porto, em que, por exemplo, as aguardentes vêm muito do sul do país, no fim do século XIX e no princípio do século XX. Ora, os lavradores do Douro querem precisamente resistir à introdução das aguardentes do sul no Douro para a produção de vinho do Porto. E conseguem, em 1907, com o exclusivo da região demarcada. Isso, aliás, vai enfurecer os vinhateiros do sul, que nessa altura, estamos a falar nas vésperas da proclamação da República em 1910, se tornam republicanos, por exemplo, os Gerrelas.
Os Gerrelas tornam-se republicanos por causa do vinho?
Em grande medida, por causa daquele ambiente. Sim, mas não nesse sentido que tu podes estar a querer dar. Não tinha mau vinho. Eles não tinham mau vinho. Aliás, eles tinham mau vinho e queriam precisamente usá-lo para o valorizarem como componente de vinhos bons. E os governos, obviamente, antes de 1910, defendem os interesses dos lavradores do Douro. Os governos republicanos passam, precisamente pelo principal apoio dos governos republicanos, que é um apoio sobretudo em Lisboa e no sul, passam, obviamente, a favorecer mais os produtores do sul e enfrentam um descontentamento recorrente no norte, como o que dá origem a esse motim de julho de 1915, e o que também não deve ser alheio ao facto de, por exemplo, a monarquia em 1919 ter tido tantas adesões no norte quando foi restaurada no Porto pelo Paiva Couceiro, durante aquele episódio da monarquia do Norte. Provavelmente. Portanto, o vinho é um componente bastante importante das opções políticas dos portugueses nesta época, fim do século XIX, princípio do século XX.
Portanto, tu estás aqui a sugerir que as paixões políticas estavam muito relacionadas, como costumam estar, com razões económicas e que muitas dessas razões económicas entroncam na questão do vinho.
É, na questão do vinho, porque para quem em Portugal se dedicava à agricultura era difícil imaginar produções mais interessantes do que a da vinha. Portanto, era a grande tentação. Aliás, isto é logo desde o princípio do século XIX que há imensos relatórios e preocupações em relação à expansão da cultura da vinha, toda a gente anda a plantar vinha. Era mais rentável do que aquele outro tipo de produção, sobretudo com objetivo de comercialização, do que outro tipo de culturas. Os outros tipos de culturas eram mais limitados, a não ser que tivessem também regimes de proteções especiais, como acontecia ao trigo no Alentejo a partir também do fim do século XIX, quando começa a ter uma proteção alfandegária que faz subir os preços e torna-o uma cultura interessante para os lavradores. Mas até aí, a produção de vinho era uma cultura bem interessante. Só que depois havia excesso de produção e começava a haver problemas sobre onde é que se poderia colocar o vinho. Era isso que enfrentavam os produtores do sul e daí o muito pouco interesse que eles tinham em que houvesse regiões demarcadas e exclusivos no país.
Muito bem.
E daí também o ressentimento do Norte e sobretudo do Douro em relação às dificuldades que eram levantadas para afirmar esse exclusivo.
Certíssimo. Assim termina o 40º episódio de "E o Resto é História" e cá estaremos de novo para a semana. Sempre que quiser mandar perguntas, já sabe o endereço: historia@observador.pt. Até lá.
E o resto é história. É a pedra pomba!
Do incêndio em Coimbra ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Atente. Atente.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.