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E o resto é história.
É a terra a fumar.
Incêndio e plava ainda na zona das Seixas. Quer transformar este país numa ditadura.
Atento.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a este episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Em setembro de 2025, nós dedicamos um programa aos assassinos da Beira, onde sugerimos que Portugal já teve o seu próprio faroeste com bandidos a cavalo. Na altura, na Beira eram mais mulas do que cavalos, o país sempre foi pobre e não se pode ter tudo.
Mas agora vamos ter cavalos.
Vamos ter cavalos?
Vamos ter cavalos. No Algarve vamos ter cavalos.
Na Beira eram mulas e no Algarve são cavalos.
Vamos ter cavalos.
Tens que me explicar esta discriminação. Mas na Beira, em cima de mulas, aterrorizavam as populações do interior, assaltavam os viajantes, e isto tudo na sequência dos conflitos provocados pelas guerras liberais. E nós logo nessa altura sugerimos que havia um outro bandido, não das Beiras, mas do Algarve, que merecia a nossa atenção, que era o famoso Remexido. E a verdade é que o ouvinte José Domingues deve nos ter ouvido. Ele é natural de São Bartolomeu de Messines, onde José Joaquim de Sousa Reis, o guerrilheiro Remexido, como ele lhe chama, viveu e constituiu família. Ele pede-nos para falarmos sobre este tema e enviou-nos até uma pergunta muito pessoal. Eu passo a citar: "Tenho 82 anos", diz o ouvinte, "e cheguei a ouvir do meu bisavô, nascido na serra algarvia por volta dos anos 1850, que por sua vez tinha ouvido do seu pai, que viveu o tempo em que o Remexido campeava com o seu terror pelas fragas da serra", o nosso ouvinte é um poeta, "que por aqueles tempos era comum um grupo de guerrilheiros, miguelistas ou liberais, bater à porta de uma das casas isoladas no meio da serra e fazer a aterrorizante pergunta: 'Quem vive?' Sendo que do lado de dentro tinham de responder ou Dom Miguel ou Dom Pedro e o pobre do camponês não podia esconder-se atrás de qualquer neutralidade. Ele tinha mesmo de responder com uma das escolhas, o que constituía uma verdadeira roleta russa. Se tinha a sorte de acertar, nada lhe acontecia", explica o nosso ouvinte, "porém, se escolhia o lado contrário, era logo ali fuzilado juntamente com a família. Eram sim aqueles tempos, segundo contava o meu bisavô." De facto, eram tempos animados. E daí o ouvinte José Domingues te pedir a ti, Rui, se terias a simpatia de satisfazer este seu pedido que ele te deixa e que de tanto interesse seria para todas as gentes do Algarve, visto que por toda a província se estendeu o terror do Remexido. Rui, isto passou-se mesmo assim? É que esta pergunta do quem vive, eu não tenho nenhum avô nem bisavô algarvio, mas eu também ouvi no meu Alentejo, que chegavam às casas e que as pessoas antes de abrirem a porta tinham que dizer.
Aliás, o Remexido também tem como área de atividade o Alentejo, o Baixo Alentejo.
Também subiu até ao Baixo Alentejo, mas não até ao meu Alentejo, que é em Portalegre.
Estiveram próximos, em Elvas.
Estiveram próximos. Até Elvas ainda tive algum avô a bater-lhe à porta. Mas a pergunta do quem vive existiu mesmo no século XIX, é um mito urbano, ou quer dizer, neste caso, seria um mito rural?
Um mito urbano sobre o quê? Sobre o mundo rural.
Exato. Quem é que foi este temível Remexido? Foi um bandido, foi um guerrilheiro, foi as duas coisas?
Vamos lá dizer.
Este do quem vive, do bater à porta.
O quem vive é muito provável que não seja totalmente exato e, portanto, seja daquelas histórias que as pessoas contavam de geração para geração.
Tu também ouviste.
Que também ouvi, no Alentejo.
Tu também és da minha zona.
Mas muito provavelmente não é verdade, porque no tempo do Remexido, nos anos 30 do século XIX, naquela zona, é muito provável que toda a gente soubesse quem estava de um lado e quem estava do outro. Quer dizer, não era preciso perguntar.
Era pessoal da terra.
As pessoas sabiam bem quem é que estava de um lado, quem estava do outro, mas já vamos falar disso a seguir. O Remexido ficou na galeria dos grandes bandidos nacionais, como o João Brandão de Milhões, que já falámos, ou os Marsais de Foz Côa, ou o José do Telhado, desse ainda não falámos.
Mas é toda aquela altura.
Sim, o José do Telhado é mais tardio. Mas como em relação ao João Brandão, de que já falámos, há dúvidas sobre o estatuto de bandido que lhe foi atribuído pelos seus adversários e sobretudo adversários políticos. Portanto, vamos discutir aqui se a ação do Remexido na serra algarvia entre 1832, 1833, sobretudo entre 1833 e 1838, deve ser entendida num outro contexto, que não é o da delinquência pura e simples, como bandoleiros, mas o das lutas políticas. E portanto, é uma questão política mais do que uma questão de criminalidade vulgar, digamos. Embora às vezes, como também vamos ver, a coisa não seja fácil de distinguir. Uma primeira nota sobre o José Joaquim de Sousa Reis, o famoso Remexido. Ele era um homem instruído, era um homem educado. Nasceu em 1796, em Estômbar, no concelho de Lagoa. Era filho de um lavrador, era sobrinho de um padre, um padre que ficou encarregado da educação dele e que o pôs a estudar no seminário de Faro
Chegou a ser um homem religioso?
Ele chegou a receber ordens menores e chegou a pregar em 1818 como alguém que iria ser um futuro sacerdote. E não por acaso, aliás, as suas proclamações, as proclamações que ele faz no tempo da guerrilha de 1836 e 1838 estão escritas num tom de sermão, com muitas referências bíblicas. Isto é, vê-se que é alguém que tem uma cultura de seminário, quer dizer, estudou latim, estudou filosofia, obviamente, estudou a Bíblia e os textos sagrados, teologia. Portanto, tem essas referências e até no processo dele, na transcrição das intervenções dele, vê-se que é uma pessoa educada que está a falar. Bem, ele acaba por deixar a carreira eclesiástica para casar com uma herdeira rica. Quem não? O tio padre opôs-se, o tio padre queria que o sobrinho fosse também padre e aparentemente, isto é uma das histórias também que se contavam, podia não ser verdade, mas a alcunha do Remexido ter-lhe sido dada pela mulher durante esta fase, por causa das diligências que ele teve de fazer para se conseguir casar contra a vontade do tio. Muito mexido, muito remexido para casar com a mulher e não tanto para lutar contra os liberais na década de 1830. Mas também quem não, mais uma vez, não se mexe muito para se casar com uma herdeira. Bem, ele por volta de 1820, tem 20 e poucos anos, está estabelecido em São Bartolomeu de Messines, no Conselho de Silves, como o nosso ouvinte notou. Ele é o quê? Ele nesta altura é administrador de propriedades, das propriedades da mulher e de um tio da mulher. E este tio da mulher era arrendatário dos dízimos da região, isto é, dos 10% que as pessoas pagavam à igreja ainda nesta época. E estes 10%, um imposto religioso, era arrendado, havia indivíduos que arrendavam esses impostos, cobravam esses impostos e depois entregavam uma parte à igreja e ficavam com uma parte para eles.
Era um cobrador desse dízimo.
E ele era um cobrador de dízimos. Isto é importante por quê? Isto é importante porque isso deve lhe ter dado acesso a muita gente. É uma pessoa que contacta com muita gente, é uma notabilidade, toda a gente devia saber quem ele era, contactavam com todos os proprietários locais para recolher os dízimos. E ele tem também já nesta altura, com 20 e tal anos, um papel aparentemente de um benemérito da zona. É um homem rico, promove a fundação de uma escola primária, consegue autorização para uma feira em São Bartolomeu de Messines, isso torna-se extraordinariamente popular na zona. É um homem, como diz numa biografia, uma biografia descreve-o como um homem eloquente e depois tem esta nota que eu acho extraordinariamente interessante. Diz que ele tinha as boas maneiras da antiga nobreza. Isto era um homem educado, extraordinariamente cortês. Isto é curioso, porque depois vai aparecer na propaganda liberal como indivíduo feroz e sanguinário, etc. Mas ele aqui é descrito como um homem extraordinariamente cortês, um homem bem-educado, um senhor, um cavalheiro abastado, importante, benemérito. Como é que ele acaba na guerrilha? Bem, ele no processo perante o tribunal militar, que o condenou à morte em 1838, dá uma explicação para isso. Não tem muito tempo para falar, mas ainda consegue explicar, depois o conselho militar corta-lhe a palavra, diz que não está interessado em ouvir aquilo. Aliás, eles só estavam interessados em fuzilá-lo, não queriam estar ali a perder tempo a ouvi-lo. Mas ele ainda tem tempo para dizer que a razão pela qual acabou por seguir o caminho que seguiu, é porque sempre obedeceu às autoridades constituídas. Obedeceu sempre ao governo que existia em Portugal. Teria sido nessa qualidade que em 1828, quando Dom Miguel é aclamado rei de Portugal, ele acata a autoridade de Dom Miguel. É o que ele diz, é por isso que ele está do lado de Dom Miguel. Isto não era bem verdade, apreenda, isto não deve ser bem verdade. Ele em 1838 não devia estar a contar a verdade, mas claro, estava-se a tentar defender e ele propriamente não estava a deixar um depoimento para a história. Por quê? Porque em outubro de 1826, dois anos antes da aclamação de Dom Miguel, tinha havido uma sublevação miguelista no Algarve e o Remexido já nessa altura tinha estado entre os sublevados. Ele é um militante do miguelismo e não apenas alguém que se limitava a obedecer a quem mandava. Quer dizer, ele em 1828, toma o partido de Dom Miguel, não apenas porque Dom Miguel tinha sido aclamado rei, mas porque ele era já um partidário de Dom Miguel antes de 1828. Ele em 1828 é nomeado alferes das ordenanças e em 1831 é nomeado capitão das ordenanças do Conselho de Silves. As ordenanças são as milícias populares armadas que existem em paralelo ao exército. Ele é capitão dessas ordenanças no Conselho de Silves. O capitão das ordenanças é um cargo importante, é dado a pessoas importantes das localidades, não é dado a um qualquer. Isto dá mais uma ideia de que ele é uma pessoa importante socialmente. Ora bem, em 24 de junho de 1833, estamos em plena guerra civil, começou no ano anterior com a entrada de um exército liberal no Porto e agora os liberais vindos do Porto desembarcam no Algarve, eles vêm por mar e desembarcam no Algarve. E nessa altura o Remexido entra na guerra Ele é capitão das ordenanças, está à frente de um corpo de 340 homens das ordenanças, um corpo ainda grande de tropa, e ele vai colaborar com o exército regular, o exército de Dom Miguel, na guerra contra o exército liberal no Algarve. E com sucesso, logo em julho de 1833, ele derrota e captura em São Marcos da Serra uma força liberal de reconhecimento, e torna-se, o Remexido, o comandante das forças não regulares miguelistas no Algarve ocidental. Depois há umas forças também no Algarve oriental, no Algarve ocidental, ele é o comandante destas forças irregulares que acompanham o exército das ordenanças, das milícias armadas que acompanham o exército miguelista para combater.
E ao longo desse tempo houve muitos embates no Algarve?
Há muitos, sim. No Algarve é dos sítios onde a guerra é mais violenta e dura mais tempo. É uma guerra que dura entre 1833 e 34. Converte-se numa espécie de guerra entre a serra, onde estão os miguelistas, e as povoações do litoral, onde estão os liberais. As povoações do litoral inicialmente caem nas mãos dos liberais. Os liberais têm a proteção da marinha, as cidades são próximas da costa ou são mesmo na costa. A serra fica nas mãos dos miguelistas, que passam a atuar à maneira de guerrilhas. Mas a partir de agosto de 1833, a maior parte do exército liberal sai em direção a Lisboa, a esquadra também sai para Lisboa, e a partir daí as forças miguelistas descem da serra e reocupam quase todo o Algarve, menos Faro, menos três povoações: Faro, Lagos e Olhão. E o Remexido conquista, ele pessoalmente, Portimão e Albufeira. São conquistas dele, é ele que as conquista à frente de grupos grandes, forças grandes, chegam a ter 2000, 3000 homens, são corpos grandes. Eram corpos que estavam associados ao exército, mas tinham uma dimensão de forças irregulares e também um bocado indisciplinadas. Há muita coisa que acontece de feio quando estas forças entram numa povoação em que os liberais tinham estado. Por exemplo, em Albufeira, os prisioneiros liberais são massacrados, são feitos prisioneiros e depois são massacrados. Há também queimas de cartórios, de repartições de finanças, as pessoas aproveitam para queimar para ver se perdem o registro dos impostos, que isto não era propriamente um exército, não devia fazer uma coisa desta. Há também muitos saques a casas, ou pelo menos os liberais queixam-se disso. Mas a verdade é que as tropas liberais comportam-se exatamente da mesma maneira. Por exemplo, um batalhão francês, os liberais têm muitas tropas estrangeiras com eles, um batalhão francês que está em Olhão nunca saía sem saquear e destruir as redondezas. Liberais e miguelistas comportam-se de uma maneira especial. Mas como disse, no Algarve, a guerra endurece muito. Enquanto no resto do país, a maior parte do conflito é entre exércitos regulares, o exército miguelista e o exército liberal, às vezes com voluntários de um lado e de outro, no Algarve há muitas tropas irregulares e há uma violência enorme entre 1833 e 1834, de tal maneira que, por exemplo, que em agosto de 1833, o governo liberal decide que todos os civis que forem apanhados com armas na mão devem ser imediatamente fuzilados, tal como os militares que os comandam. Isto é para precisamente dissuadir este tipo de tropas que o Remexido comandava e, por exemplo, sabemos que em Lagoa, em abril de 1834, os liberais fuzilaram 23 guerrilheiros de uma só vez. Quer dizer, foram fuzilamentos, e aliás, eram fuzilamentos em público, e depois os cadáveres eram expostos para impressionar as pessoas. A violência era grande ali no Algarve e claro, uns faziam isso uns aos outros, quer dizer, quando apanhavam prisioneiros faziam isso.
Vamos parar aqui, o final da nossa primeira parte chegou ao fim, mas regressamos já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar do mítico Remexido, o guerrilheiro/bandido que assolou o Algarve por altura das guerras liberais e também depois de já ela terem acabado, ainda continuou durante mais algum tempo. Rui, tu estavas a falar da violência que eram estes combates no Algarve.
Sim, no Algarve e o destaque que deu ao Remexido. Isto é em 1833, 34, ele torna-se uma figura conhecida, é louvado oficialmente pelo governo Dom Miguel, aliás, não apenas ele, mas também o filho dele, Manuel da Graça Reis, 14 anos, também é louvado, porque também está na guerrilha. Aos 14 anos está na guerrilha com o pai e também é louvado.
Hoje em dia nós deixamos ir sozinhos para a escola.
Hoje não pode. Naquela altura estavam na guerrilha. Quer dizer, naquela altura estavam na guerrilha, ninguém o ia buscar à guerrilha. Ele estava por lá. A ação dos guerrilheiros é importante, isto é, impede até 1834 os liberais de ocupar o Algarve. Em fevereiro de 1834, os liberais recebem reforços, começam a tentar reocupar, mas o Remexido mais uma vez derrota uma força liberal no Vale da Mata e recupera Silves. E a 24 de abril de 1834, em São Bartolomeu de Messines, o exército liberal, comandado pelo Visconde de Sá da Bandeira, é derrotado pelas forças miguelistas, forças miguelistas que são descritas na imprensa por compostas de toda a população camponesa do Algarve. Todos têm um grande apoio. Enfim, é exagero, obviamente. Têm um grande apoio na população local. E isto é importante por quê? É importante porque nós no fim de abril de 1834 e no princípio de maio Basicamente, a guerra já estava a acabar no resto do país para os miguelistas, já estavam derrotados. No Algarve, eles ainda estavam em vantagem. Isso explica também porque é que depois as represálias dos liberais contra os miguelistas no Algarve sejam maiores do que noutras regiões do país. Havia mais vinganças a ajustar do que noutras regiões em que aparece o exército liberal e toda a gente se rendeu e não há resistência. No Algarve, a população juntou-se ao exército miguelista e combateu contra os liberais. Portanto, a guerra no Algarve é particularmente violenta, pareceu a natureza de guerra de guerrilhas que não teve noutras regiões do país. Ora bem, em 1838, quando foi preso, o Remexido explica que em 1834, quando lhe disseram que o Dom Miguel tinha saído do país, que o exército miguelista se tinha rendido, a vontade dele tinha sido também de ir para casa e terminar as suas atividades de guerreiro. Ele quis deixar a atividade militar, aproveitar até a anistia que oficialmente tinha sido prometida aos miguelistas, mas que a perseguição das autoridades liberais tinha sido de tal ordem, tinha sido tão violenta, tinha causado tantas mortes de antigos miguelistas que, como ele diz, ele teve de se esconder na serra do Algarve, como um lobo, diz ele. Teve de ir para a serra. Ele diz que nunca teve intenções de voltar às guerrilhas, mas que não lhe deram outra oportunidade. Ele mandou o filho apresentar-se, esperando que o filho beneficiasse da anistia. O filho foi imediatamente preso e depois fugiu. A mulher dele foi presa também e foi açoitada em público, que é uma humilhação grande para alguém que era importante, uma família.
E isso sabe-se se é verdade?
Ele diz, e deve ser. As violências eram enormes, aliás, o número de assassinatos, já vamos falar disso, é grande. Portanto, ele diz que é isso que o leva a que em 1836, dois anos depois do fim da guerra civil, ele acabe por voltar à guerra. Ele diz, aliás, que a guerra que fez foi uma guerra de necessidade, para defender a vida dele e das dezenas de outros miguelistas que se lhe tinham juntado, porque sabiam que quem se apresentasse às autoridades liberais seria morto. Qual é a verdade disto? Sim, é verdade que houve perseguições, até porque os governos liberais abriram a possibilidade de indenizar quem tinha sido perseguido pelos miguelistas com os bens dos miguelistas. Isso obviamente criou um estímulo para toda a gente ir fazer queixa do vizinho, dizer que o perseguiu e obrigar depois o vizinho a fugir. Também terá havido muitas vinganças particulares, porque se havia bandos de guerrilhas miguelistas, havia também bandos de guerrilhas liberais, e estes bandos de guerrilhas liberais que tinham estado em luta contra os miguelistas, aproveitaram a vitória agora para ajustar contas. Por exemplo, os Brandões e os Marsais de Foscô eram guerrilhas liberais, que aterrorizaram os miguelistas depois de os liberais terem ganho. Aliás, segundo o jornal inglês, publicado em novembro de 1835, ele diz que num ano, 67 miguelistas tinham sido assassinados no Algarve, muitos deles às mãos das escoltas que os levavam presos. Eles tinham-se apresentado, tinham sido presos e depois as próprias escoltas militares, a pretexto que eles queriam fugir, tinham os matado na estrada.
Não era um tempo de grandes costumes.
E o Remexido sabia exatamente o que é que lhe iria acontecer. Ele em 1833, 34 tinha se tornado um chefe notório, muito conhecido como capitão de ordenanças e comandante de guerrilhas, e sabia também que não estava protegido pelo estatuto de militar profissional ou de membro da nobreza como outros miguelistas. Os miguelistas que fossem oficiais, coronéis e generais, e fossem membros da nobreza, esses eram mais ou menos protegidos pelas suas famílias, aliás, porque havia membros da família liberais, etc., que depois os protegiam e eram pessoas importantes. Agora, alguém como o Remexido e aquela plebe miguelista, aqueles que tinham sido oficiais inferiores e soldados, esses não tinham proteção, sabiam que estavam sujeitos a vinganças. Agora, a razão que o Remexido dá em 1838 para depois da guerra civil acabada, ter iniciado outra vez uma guerra de guerrilhas, por uma questão de necessidade, tem alguma razão de ser, mas não é uma razão completa. Há outra razão para ele ter voltado à guerra em 1836. É que o Remexido e os outros miguelistas aproveitaram os conflitos entre liberais, por exemplo, que deu origem à Revolução de Setembro de 1836, de que já aqui falámos, e depois a guerra civil entre cartistas e setembristas, entre liberais cartistas e liberais setembristas, em 1837, aproveitaram isso para tentarem provocar insurreições a favor de Dom Miguel, isto é, tentarem inverter o resultado da guerra civil. E aproveitaram também ainda uma outra coisa. A guerra civil tinha acabado em Portugal em 1834, mas continuou em Espanha Em Espanha também há uma guerra civil parecida com a de Portugal. Também há um tio que contesta uma sobrinha, que é o Infante Dom Carlos, que quer ser rei em vez da Infanta Isabel II. Em Portugal era o Dom Miguel em vez de Dona Maria II. E essa guerra em Espanha continua. E em 1836, a guerra aproxima-se da Andaluzia. Isto é, há um exército carlista, que é o equivalente aos miguelistas, que entra na Andaluzia. E isso deve ter animado os miguelistas do Algarve, com os carlistas tão perto, a sublevarem-se até para se juntarem forças com os carlistas.
D. Miguel estava com D. Carlos?
D. Miguel estava com o seu cunhado D. Carlos. Eles eram cunhados, os dois contra as sobrinhas. Há, em 1837, outras sublevações miguelistas em outras regiões do país. E há uma grande base para levantar forças miguelistas. Há todos aqueles que tinham sido perseguidos por vinganças, alguns deles tinham acabado de fugir, tinham se organizado em bandos, que depois viviam de extorsões, como na serra do Algarve, aos que tinham sido despedidos de empregos, empregos militares, empregos civis, empregos eclesiásticos ou que tinham sido desapropriados e que tinham razões também para querer tentar a sorte. Há muitos refratários ou desertores do exército. Há muitos soldados que fogem do exército devido a faltas de pagamento, os liberais não conseguem pagar a tropa toda, ou por causa dos castigos físicos. O exército está baseado num sistema de castigos físicos, chibatadas, às vezes 200 chibatadas para alguém que não fez a continência como devia, e coisa assim. Havia gente que fugia e que depois ficava na serra, etc. Havia, além disso, na serra do Algarve uma tradição de bandoleiros, isto é, de bandidos, que havia lá e que podiam ser tentados a juntarem-se a um grupo político para poder exercer a sua bandidagem. Havia também muitos jovens trabalhadores rurais que de vez em quando estavam desempregados. Há uma população no Alentejo e no Algarve, ao contrário do norte do país, já nesta altura, de trabalhadores sem terra, que andavam até alguns deles, nômades, à procura de trabalho ali e acolá, que são os chamados malteses, que eram já nesta altura, no caso do Alentejo. Eram pessoas que de repente se alguém vinha dizer: "Olha, junta-te a nós, vamos atacar ali aquela povoação", eram capazes de se juntar. E depois, claro, havia a população da serra. A serra algarvia, algumas fontes desta época calculam em cerca de 8 mil habitantes que a serra teria, e estes são habitantes que são um bocadinho diferentes da população do Algarve litoral, é uma população muito religiosa, eles andam todos com símbolos religiosos, são muito hostis às autoridades, é uma região de gente que está longe das vilas e cidades importantes e portanto desconfiada e hostil de quem vem de fora e que se vão identificar muito com os guerrilheiros. Eles dizem e chamam "a nossa gente". Aliás, os liberais dizem: "Bem, por que a guerrilha não acaba no Algarve? Porque a população da serra é toda guerrilheira." São todos guerrilheiros, há uma tradição de resistência às autoridades, ao Estado, etc. E juntam-se quando aparecem as guerrilhas. E depois, há uma outra condição para permitir este gênero de sublevações e a sua manutenção. É que muita gente tem armas e está armada. Isto é depois de uma guerra civil. As armas tinham sido distribuídas por um lado e por outro. Há muitas armas, há muitas munições. Aliás, as munições até são fáceis de arranjar para este gênero de armas. E depois tinha havido uma guerra civil em Portugal e ainda havia uma guerra civil em Espanha, portanto ainda havia armas a vir de Espanha.
E também havia cavalos, em vez de mulas. Tu ainda não explicaste por que havia cavalos e não mulas.
Já vou explicar. Mas além disso, também havia um espaço próprio, que é o espaço da serra algarvia, que é uma serra que vai de São Vicente ao Guadiana, portanto, atravessa todo o norte da província do Algarve, que permite o acesso a todo o litoral, a partir da serra é fácil chegar ao litoral e também é fácil escapar depois para a serra. E a norte da serra há os planaltos do Baixo Alentejo, que nesta altura são mais ou menos um deserto. São grandes charnecas, brenhas, 60% não está nem cultivado, nem habitado, é uma zona também em que é fácil as pessoas escaparem-se e perderem-se ali. Não há as estradas de hoje, é bom pensar nisso. Os caminhos tornam-se intransitáveis no mau tempo, depois de uma grande chuva, é difícil entrar na serra. E portanto, quem conhece a serra tem grandes vantagens sobre tropas que vêm do litoral e não conhecem a serra e estão a entrar na serra e com os guerrilheiros lá na serra. E a maior parte dos guerrilheiros que estão com o Remexido são, de facto, pelo menos aqueles de que temos indicação da naturalidade, são da serra ou da região limítrofe do Baixo Alentejo. Há muita gente também que vem do Baixo Alentejo e a maior parte deles, claro, são rapazes com esta vitalidade e são solteiros. É nitidamente este gênero de gente que se junta às guerrilhas. O que eles fazem? O que estes guerrilheiros sob o comando do Remexido fazem entre 1836 e 1838, que é quando o Remexido está ativo? Bem, a primeira iniciativa deles é 19 de julho de 1836. É a sua primeira ação, é um ataque à cadeia de Ourique, no Baixo Alentejo, do outro lado da serra, onde eles entram e conseguem libertar 18 presos miguelistas que lá estavam. Nessa altura, as autoridades calculam que eles sejam cerca de 30 a 40 homens, mas curiosamente, armados de espingardas com baioneta, isto é, armas de guerra. Eles têm armas de guerra. Isto é também uma explicação para os cavalos. Eles comportam-se como um corpo militar e têm cavalos, que é típico de um corpo militar. Não são bandidos, eles têm armas de guerra e têm também cavalos, montadas de guerra. A 23 de agosto, eles já têm 50 homens e organizam um ataque ao quartel de São Bartolomeu de Messines, onde matam 11 soldados liberais, incendeiam as instalações militares e a partir daí, o que eles fazem? A partir daí eles passam a partir da serra a ocupar temporariamente as povoações. Eles entram numa povoação, ocupam-na, são umas dezenas, às vezes umas centenas de homens armados, ocupam-na, fazem uma proclamação a favor de Dom Miguel, na praça principal, assaltam repartições oficiais e os estanques do tabaco, isto é, os lugares onde se vendia o tabaco. O tabaco era um monopólio, estava concessionado a uma empresa, eles atacam esses estanques do tabaco, não só para roubar o tabaco, mas para roubar o dinheiro que lá está. E depois fazem requisições de bens e de dinheiro. Por exemplo, de montadas, de selas, de roupa ou então de dinheiro. Isto é muito curioso, porque estas requisições são feitas de acordo com listas que eles levam previamente elaboradas, em que estão os nomes dos habitantes com a quantia que cada um deve dar à guerrilha. É quase uma cobrança de impostos. Eles fazem uma espécie de cobrança de impostos. Fulano de Tal tem que dar tanto, ciclano de Tal tem que dar tanto e toda a gente, à acautela, é melhor contribuir.
É melhor contribuir. E os liberais eram o quê? Apanhados e executados?
Sim, liberais notórios eram geralmente, como eles diziam, destinados ao barranco. No barranco eram fuzilados e atirados para o barranco. Ou então diziam também uma coisa: "Passem-lhe passaporte para a eternidade." Também é outra expressão. E também recrutam gente, há gente que se junta a eles nessa altura. Eles ocupam cerca, no primeiro ano, de 16 povoações onde fazem isto. Mas vão longe. Por exemplo, a 15 de dezembro de 1837, o Remexido já saiu do Algarve e vai ocupar Grândola.
Grândola? Isso é bastante acima.
Já na península de Setúbal. Dom Miguel está exilado nesta altura. Reconhece esta guerrilha, nomeia o Remexido governador do Algarve, ele que passa a ser governador do Algarve. É também promovido a brigadeiro e nomeado também comandante interino do Exército do Sul. O Exército do Sul é o exército miguelista do sul.
Que não existia, basicamente, que era ele.
É ele e mais umas centenas de indivíduos que estão com ele. Nitidamente a ideia do Remexido no fim de 1836 é reconstituir o exército miguelista no Algarve. Aliás, ele chama muitos oficiais, praças do exército para se juntar a ele. Geralmente dos oficiais superiores ninguém se junta. Toda a gente está bem, mas gente mais baixa, mais de baixas patentes, alguma junta-se a ele. E ele tenta mesmo reconstituir as antigas unidades militares. As forças do Remexido estão organizadas em regimento, tem o Regimento de Infantaria 2, tem o Regimento de Infantaria 14, tem o Regimento de Cavalaria 2, de Artilharia 2, estão organizados em regimentos. Os soldados são pagos como no exército regular, recebem prés. Por exemplo, em fevereiro de 1837, nós sabemos que ele tem 208 homens que recebem pré, que são pagos. Eles recebem dinheiro, além daquilo que vão extorquindo e roubando, recebem dinheiro de miguelistas de Lisboa e de Espanha, também lhes mandam dinheiro. De Espanha também vêm armas e munições. O objetivo dele é consolidar um foco de insurreição miguelista no Algarve em 1836, 37, a partir daí fazer alastrar a revolta pelo país. O Remexido aqui é uma espécie de Che Guevara dos anos 1830, é a mesma teoria do Che Guevara da década de 1960, o foco da guerrilha, criar um foco de guerrilha que depois vai alastrando nas zonas montanhosas ou de floresta, onde as tropas do governo têm mais dificuldade de acesso.
Pois, mas isso aí, já existe realmente uma organização que está muito acima do mero bandido, não é?
Estavas a dizer, é mesmo uma força muito organizada. Por exemplo, tem um arquivo.
Um arquivo?
Um arquivo, uma secretaria militar, como é chamada. Isto é, nós conhecemos uma grande parte da atividade do Remexido precisamente por essa secretaria militar, que é capturada depois pelos liberais, apreendida pelos liberais, e há toda a correspondência arquivada, toda a correspondência recebida por ele, a correspondência emitida por ele, através de ofícios. Ele comunica com os outros comandantes das tropas: "Vossa Senhoria, senhor capitão, faça o favor de se apresentar em tal com tantos soldados." Quer dizer que ele é oficial. Há listas dos membros do exército, todos. Tem os orçamentos, as despesas, os oficiais têm a obrigação de dizer quanto é que gastam, quanto é que apreenderam. E depois há um relatório das operações militares entre agosto de 1836 e junho de 1837. Há um relatório. Esse arquivo está hoje no arquivo histórico militar. E foi a base de um estudo importante de António do Canto Machado e de António Monteiro Cardoso, chamado "A Guerrilha do Remexido", publicado em 1981, e aliás, até tenho estado a seguir os dados que eles juntaram.
Não me digas que estás estudado.
Pois, como a maior parte das coisas interessantes. É um livro muito documentado, boa investigação E uma das fontes que eles usam é esta secretaria militar. Aliás, o livro tem um apêndice documental em que muitos destes ofícios e muitas destas correspondências do Remexido está reproduzido. Vale a pena e é uma leitura muito interessante. E repito, estou aqui a seguir muitos dos dados que eles recolheram. Toda a gente reconhece, nesta época, ao Remexido, grande capacidade militar, mesmo os inimigos. Ele é hábil, por exemplo, ele captura os correios terrestres, quem traz a correspondência de Lisboa para o Algarve, do Algarve para Lisboa, vai capturando e vai ficando com a correspondência militar e sabe o que os comandantes militares, quer em Lisboa, quer em Faro, estão a planear e a fazer, tem o conhecimento antecipado das operações. Ele conhece muito bem a serra. Acontece muitas vezes, de acordo com alguns depoimentos de comandantes militares, que eles julgando que estão a perseguir o Remexido, descobrem que o Remexido está a segui-los a eles, que é ao contrário, eles é que estão a ser perseguidos pelo Remexido. Agora, claro, também lhe atribuem grandes ferocidades, matar gente, de prender os cadáveres depois ao rabo dos cavalos e arrastá-los. Isto tudo parece até um bocado exagerado e de fontes clássicas, para dizer o indivíduo furioso, etc. Agora que há banditagem, aliás, o próprio Remexido no seu julgamento, nota que, e agora vou citá-lo: "Nesta divergência de governos", portanto, nestas guerras civis, ele diz: "O povo sempre se serve de pretextos para vinganças particulares e para roubar." Ele sabe que há sempre muita gente que se aproveita disto para matar alguém de quem não gosta ou para roubar a casa do contrário. Ele próprio aceita que há muita coisa que acontece. A guerrilha do Remexido tem esta componente de uma população das classes sociais mais baixas, da serra, mas penso que talvez seja exagerado ver esta guerra como uma espécie de conflito social entre a burguesia do litoral algarvio e os camponeses pobres da serra. Não estou muito convencido por esta abordagem social, acho que há sobretudo uma divisão geográfica, mas que tem uma explicação, que não é uma explicação social, isto é, uma guerrilha teria de se ocultar na serra, não se podia ocultar no litoral e logo acaba por enquadrar a população da serra.
Achas que não é uma luta de classes?
O Remexido não é um camponês pobre, não tem objetivos de justiça social, digamos assim, tem objetivos políticos de restaurar Dom Miguel, portanto, parece-me que há aqui, independentemente de se notarem essas divisões sociais, a guerra tem, sobretudo, um sentido político. Isto é uma guerra política. A campanha do Remexido entre 1836 e 1838 é uma campanha política. E as autoridades liberais tratam-na como tal e reagem com enorme violência. O exército liberal também mata e tortura imensa gente. O exército liberal também faz empréstimos forçados, isto é, também faz extorsões equivalentes às do Remexido quando entram nas povoações. E depois, quando se torna notório que são incapazes de dominar a guerrilha, começam a pensar em coisas medonhas. Por exemplo, uma das coisas em que pensam é deitar fogo à serra do Algarve toda, para enxotar os guerrilheiros.
Meu Deus.
Aliás, até a Câmara de Faro que propõe isso, em 1837, diz: "Por que não deitam fogo toda a serra para ver se eles saem de lá?", para os enxotar de lá. Em março de 1837, todas as garantias, os direitos dos cidadãos são suspensos no Algarve. As pessoas podem ser presas, etc., deixam de ter garantias. E todos os guerrilheiros passam a ser fuzilados quando são aprisionados, incluindo os menores de idade. Nós sabemos de guerrilheiros com 16 anos, até, que foram fuzilados pelas tropas do governo quando são capturados. E finalmente, a 2 de maio de 1838, as autoridades ordenaram a evacuação de toda a população das serras do Algarve, isto é, são obrigados a descer para o litoral, têm que trazer o gado todo, têm de destruir tudo o que é moinhos e todas as anhãs, de maneira a isolar os guerrilheiros. E as autoridades dizem, a partir dessa data, quem for encontrado na serra é tratado como um guerrilheiro. Aliás, a proclamação só diz é tratado como um guerrilheiro. Nós sabemos que os guerrilheiros são fuzilados, portanto, na prática, é dizer que quem for apanhado na serra depois da evacuação-
Isso são medidas drásticas.
Não é drástico, esta é uma política terra queimada, perante uma população que os liberais dizem que é muito religiosa, está muito identificada com Dom Miguel e está muito com os guerrilheiros e tem de ser tratada à bruta.
E a igreja no meio disso?
Uma parte da igreja, uma parte dos padres está com os liberais, são os padres liberais nomeados pelos liberais, e portanto esses aí os guerrilheiros quando os apanham, às vezes também os tratam mal. E depois há os outros sacerdotes que foram expulsos dos seus lugares por serem miguelistas e esses estão com os guerrilheiros. Aliás, há um guerrilheiro que é um padre, que é um padre das guerrilhas, o padre Marçal de Espada Salvério, que é um comandante das guerrilhas, também é um padre. Portanto, esta política de terra queimada é fundamental para a vitória do governo, eventualmente em 1838, 1839, porque vai dificultar a organização dos guerrilheiros, vai dificultar o abastecimento da guerrilha. E há muitos guerrilheiros que começam a desertar também por causa das dificuldades cada vez maiores que eles têm na serra. Porque as pessoas passam a ter medo de ter contacto com os guerrilheiros, até mesmo no baixo Alentejo. O Remexido é finalmente capturado a 28 de julho de 1838, no Sítio da Portela da Corte da Velha, ao pé de Mértola, depois de uma batalha que durou o dia inteiro, em que os guerrilheiros sofreram 56 mortes, portanto uma batalha grande. Ele é capturado, é levado para Faro, montado num burro, para o humilhar, com uma escolta de mil soldados, com medo. E em Faro é sujeito a um conselho de guerra no dia 1 de agosto de 1838. Um conselho de guerra de que nós temos a transcrição e que é uma farsa completa. Basicamente eles ouvem três ou quatro testemunhas que dizem: "Este senhor é o Remexido." "Sim, este senhor é o Remexido." "E eu vi-o matar este, matar aquele, matar aquele outro", etc. E depois, finalmente, dão-lhe a palavra a ele, ele diz: "É tudo mentira, não matei ninguém, vou explicar." "Não tem nada que explicar, já estamos fartos das suas explicações e, portanto, seja muito rápido." E basicamente é condenado à morte. Ele depois diz: "Mas posso apelar?" "Não pode apelar." "Mas podia apelar à clemência da rainha." Ele diz: "Não, não pode apelar à clemência da rainha. A sentença é para ser executada no prazo de 24 horas." Vai ser fuzilado já, passado pelas armas amanhã. Ele não tem advogado de defesa, não tem possibilidade de recorrer e aquilo basicamente é uma espécie de linchamento. Mas ele diz: "Bem, então pronto, já sei que vou morrer, quero dizer então que sou católico, que acredito profundamente nas coisas..." Depois faz aquela declaração da sua fé e diz que acredita no Dom Miguel, no senhor Dom Miguel como rei legítimo. Faz aquela coisa toda e é passado pelas armas, como disse. A guerrilha não acabou, porque o filho, Manuel da Graça Reis, tomou o comando da guerrilha, o filho sucede ao pai, e ele passa depois a atuar sobretudo no baixo Alentejo, porque começam a atuar sobretudo com grupos móveis a cavalo, grupos de 20 a 30 guerrilheiros. Sempre o mesmo sistema de atacar povoações, ocupar povoações, etc. Chegam a atacar povoações perto de Lisboa, Vendas Novas. No total, em 1838, 39, devem ser uns 400 homens. É muita gente a atacar. Tem uma ação no Alentejo, no Algarve. O governo tem de empenhar quase 5 mil soldados no Alentejo, com patrulhas móveis. E é só entre os anos de 1838 e 1839 que as autoridades se vão impondo através de reencontros em que vão liquidando os chefes da guerrilha a pouco e pouco, incluindo o filho do Remexido, Manuel da Graça Reis, que é ferido, depois ainda se mantém na guerrilha durante um ano, depois é capturado, muito ferido mesmo, já estava ferido há um ano, a ferida é incurável. O oficial que o prende pensa logo em fuzilá-lo, mesmo ferido, mesmo prostrado, diz que parece quase um esqueleto, mas depois diz: "Não, vou dar aqui uma ideia de clemência." Então mandam-no para o hospital, onde ele depois acaba por morrer no hospital. Isto é para dar uma ideia de clemência, para não o fuzilar em novo. A guerrilha é desfeita em 1839, como eu disse, pela morte dos seus chefes, incluindo o filho do Remexido, e ficou a história, e falta o filme.
Falta o filme. Faltam sempre os filmes. Não sei o que é que os nossos realizadores estão à espera. Isto é realmente uma história espantosa.
E aqui temos cavalos.
E aqui temos cavalos. Nem sequer é preciso ir para as mulas, embora as mulas tenham certo encanto. Temos cavalos e um burro.
E temos muitas fontes, aqui temos muita informação. Há muitas fontes nos arquivos militares, na imprensa, há muitas fontes sobre esta época e muitas descrições, e temos as palavras deles próprios, as proclamações, as cartas, as atas dos julgamentos, que há de muitos, atas de muitos julgamentos sumários e fuzilamentos, mas ouvimos aqueles guerrilheiros, às vezes rapazes de 22, 23 anos, as últimas palavras que eles têm perante os juízes que os vão condenar à morte, o que é que tem para dizer. É impressionante, às vezes, a eloquência deles, é uma coisa impressionante. Isto é a capacidade que eles têm de dizer coisas e até de afirmarem princípios políticos e coisas assim. Isto é uma parte da população que está politizada mesmo e que, neste caso aqui, estava com Dom Miguel e estava disponível para esta vida de guerrilhas, que não devia ser uma vida fácil. Porque na serra e nas campinas do baixo Alentejo, isto devia ser duro e perseguido sempre. Mas durou.
Bom, senhores argumentistas, produtores, realizadores, aqui têm ideias à borla, não sei do que é que estão à espera. Bom, os nossos ouvintes vão ter que esperar mais uma semana para um próximo episódio de "E o Resto é História?", mas lá estaremos. Até lá.
"E o Resto é História?" É apenas fumaça! Do incêntico atra ainda na zona dos Chiados. Aqui, todos aguardam o desenvolvimento das coisas. Quer transformar este país numa ditadura. Atenção, atenção. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.