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Este é mais um Youvençorê. Lembro também que nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta terça-feira estão conosco a Filomena Martins e o Rui Pedro Antunes. Em dia de moção de censura, vamos ainda neste Youvençorê à educação e ao preço dos combustíveis, mas vamos começar pela questão política que marca o dia. Rui Pedro, começando por ti, a sondagem de ontem da CNN Portugal dá-nos alguns sinais do que, politicamente, a fase política que o país está a atravessar?
Sim, dá, sem dúvida. Em primeiro lugar, para começar por este ponto prévio, o facto de o partido do governo estar em terceiro não é bom. E as sondagens dizem muito pouco ou não dizem tanto, não havendo um ato eleitoral marcado, mas nunca é bom. Fazendo essa ressalva inicial. Depois, esta sondagem semanal, nestes moldes, será uma pressão permanente para o governo, quase a ser escrutinada à semana, o que obriga, além daquilo que este governo já se queixava e que o governo António Costa foi o primeiro a apanhar na fase final, mas que não existia tanto anteriormente, que tem a ver com os permanentes painéis de análise e serem cada vez mais espaços de comentários, que são espaços de escrutínio ao governo e que pelos vistos também irrita muito o primeiro-ministro e o governo, e era algo a que não estavam habituados. Dito isto, a sondagem não é absolutamente catastrófica para o governo. Por quê? No meio disto tudo, que é auge de Luís Neves, problemas nos exames nacionais, o custo de vida a níveis elevadíssimos, em particular o preço dos combustíveis, que depois por arrasto leva tudo, há 35% de pessoas que avaliam positivamente o governo.
Podem ser aqueles eleitores base da AD. Podem, são, talvez.
Mas ó Paulo.
Que se mantêm sempre ali.
Numa reeleição um ano depois, um voto é uma sondagem. Quem é que está a gostar do que o governo está a fazer? Quem é que está a gostar do trabalho que o Luís está a fazer?
Certo.
E esse voto foi 31,78 nas legislativas. Portanto, 35% a avaliar positivamente ao governo, a mim até me surpreende, no meio do auge deste furacão.
Eu percebo isso.
A mim também me surpreendeu.
Mas não é um valor assim tão alto. Não sei, não tenho o histórico.
O Mário Centeno ontem dizia que ninguém tinha, entre os líderes partidários, todos tinham pior taxa de aprovação que o Trump. Isso depois também tem muito a ver com as dinâmicas.
Lá está.
Se eu perguntar assim: "Olhe só, o senhor gosta do André Ventura?" Quem não gosta vai dizer que não gosta. Ou seja, também há muitas formas de colocar as questões e nós sabemos que há aqui algumas, não diria incongruências de quem vota, mas há aqui alguns sinais. Outra coisa interessante, 53% dos inquiridos dizem que a legislatura deve ficar até o fim. Ou seja, por muito que estejam desiludidos com o governo, querem que este governo vá até o fim.
É questão de princípio. Se reparares, muita oposição também diz isso.
Também diz isso, é verdade. Tirando o Chega, ninguém parece muito interessado em ir a votos. Depois, outra coisa bastante interessante é que apesar de tudo, Luís Neves, e tem uma nota muito negativa, até porque era dos mais populares nas últimas sondagens, mesmo assim fica atrás da Ministra da Saúde.
Atrás ou à frente, se quiseres.
Sim, atrás no sentido da popularidade.
Certo.
Portanto, está à frente naquilo que é a nota negativa. O que mostra que as pessoas nunca se desviam muito daquilo que consideram mais essencial, nomeadamente a saúde, embora haja aqui claramente, num dia de debate de moção de censura, em que o Ministro da Administração Interna é o principal alvo, naturalmente que haver uma taxa de rejeição tão grande deste ministro acaba por ser uma vitória.
Eu diria quase que é um bocado inevitável, quando tens um ministro nas notícias dois meses consecutivos, diariamente. A conta-gotas aparecer mais esta dúvida, mais aquela, mais este caso, mais aquele, e ela saber se explicar tão mal desde o início. Claramente, ele podia ter morto isto quase desde o início, não soube fazer. Eu diria que é quase inevitável, em termos da opinião pública, quando se responde a uma sondagem destas, não mostrar pelo menos um bocado de desconforto com aquela pessoa.
E, na verdade, a Ministra da Saúde implica mais no dia a dia das pessoas.
Claro, aí tens problemas, mas lá está, no caso da saúde, tens um problema grave, há muito tempo que não se resolve, que é o funcionamento do SNS. E as pessoas lidam com esse problema no dia a dia. No caso do Luís Neves, não tem sequer a ver com a prestação dele enquanto ministro. Tem a ver com os detalhes burocráticos, pode-se depois dar mais importância.
Mas são chinês.
Sim, não é necessário que aquilo tenha relevância criminal.
Ontem Mário Centeno dizia duas ou três coisas sobre isso. Classificava como coisas muito pequeninas, relativamente ao Luís Neves. Dizia que ele próprio tinha um carro apreendido quando era ministro das Finanças e, portanto, usou um carro nas mesmas condições e que, na verdade, substituir o ministro não servia de nada. E é Mário Centeno, enfim, à partida é insuspeito.
É fácil subscrever essas coisas todas.
Relativamente a isso. E outra coisa, só para terminar a análise, a sondagem daquilo que não é tão visível. Nós estamos aqui a ver que o governo tem 25,7% das intenções de voto, mas 35% faz uma avaliação positiva do governo. Ou seja, apesar disso, preferem votar noutro lado. E depois há um dado que não é público, pelo menos não é público para o comum dos mortais, e há alguns dados em que nos painéis de comentário, em particular havia um que estava o Alexandre Poço, o Rui Gomes da Silva, e depois tinha dois comentadores, um era o Miguel Pinheiro, o outro era Mafalda Anjos, em que os dois moderadores, quer a Carla Moita, quer o João Paulo Marinheiro, fazem questões, em particular ao Rui Gomes da Silva, em que dizem que André Ventura, na pergunta de escolha para PM, está em terceiro lugar e com apenas 21%. Eu não sei quem está em primeiro na escolha pra PM, se é o José Luís Carneiro, se é o Luís Montenegro, porque esses dados ainda não são públicos. Não sei se ainda serão, porque estas sondagens vão-se alongando. Mas isso também é relevante pra ver a big picture e pode ser mais relevante até para dizer que Luís Montenegro está pior, mas sabemos que não está pior na imagem pra primeiro-ministro do que está o líder do Chega. E esse dado era importante, como era importante outros dados que Mário Centeno deu, que também tinha um conhecimento mais abrangente dos dados da sondagem. Ele dizia que o PS não está a ganhar em Setúbal e isso é preocupante, porque não ganhando Setúbal, não ganhando o Sul, é difícil ganhar as eleições e, não tendo esses dados todos, é difícil fazer uma avaliação global.
Mas esse dado que tu dizes agora, que é a percentagem de pessoas que gostava de ver André Ventura primeiro-ministro é muito inferior, seis pontos talvez, seis pontos abaixo daquilo que é a intenção de voto no Chega, mostra que há uma percentagem importante de votos no Chega. Isso acontece nos partidos mais pequenos, que é voto de protesto. Isto é, eu voto neste partido porque acho que eles dizem coisas que eu gostava de dizer também, porque protestam com uma série de coisas. Agora, eu não gostava de ver a governar. Isso aí é questão da credibilidade depois de algumas propostas do Chega.
O voto de protesto pode ser, não havendo uma eleição marcada, um voto de protesto também muito conjuntural.
Claro.
E esse vai mais para o Chega. Por isso é que eu digo que é preciso olhar bem pra estes sinais.
É um bocadinho como na nossa vida, aquela pessoa é ótima pra ir para os copos, mas trabalhar com ela nem pensar.
Exato.
E há também outros dados dessa sondagem, por exemplo, a percentagem de portugueses que acha que o governo vai chegar ao fim da legislatura.
Ainda é superior àquela que defende que deve chegar ao fim.
Que deve chegar ou que quer que chegue ao fim. Esses também são dados relevantes, porque ultrapassam os 50%. É um pouco também a falta de alternativa. Não se gosta muito do governo como está a governar, mas se calhar o melhor é cumprir a legislatura toda.
Eu gostava de ver essa pergunta respondida, que acabaram os moderadores por revelar, para perceber se dos três, quem é que as pessoas preferem neste momento.
Qual é o primeiro. Se é o José Luís Carneiro ou Montenegro.
Sabemos que não é André Ventura, mas não sabemos o posicionamento dos outros dois. E a distância, já agora entre eles, pode também haver uma distância marginal.
Já agora, só uma nota que é mais técnica. Eu também ouvi ontem Mário Centeno a ir ao detalhe dos números, questão das distritais. Eu não sei até que ponto é que este instrumento, esta tracking poll, estamos a falar de 800 entrevistas, quatro vezes 200.
Se tem dimensão pra fazer.
Exatamente. Quando começas a dividir aquilo por distrito, por faixa etária, por fidelidade de voto ou por voto na última eleição, se calhar já entras numa fase em que estás a falar de 10 pessoas, oito pessoas, 15 pessoas, e a relevância basta uma pessoa ou duas.
Embora no caso de Setúbal, Porto, Braga e Lisboa, talvez seja mais ou menos credível, haja uma boa amostra.
Ou seja, os instrumentos são fantásticos, nós não podemos é abusar daquilo que tiramos deles.
Não querendo escamotear aquilo que, ou de alguma forma não dizer que isto é uma grande vitória pra AD, que não é. Só estava a alertar que a sondagem não é catastrófica, nem é muito boa pra ninguém, nem é muito má pra ninguém. Apesar de tudo, a pressão maior que cria é sobre o governo, hoje é um dia de moção de censura, e dá dados que de alguma forma não ajudem muito aquilo que é o papel que o governo vai ter hoje. A única coisa positiva também nesse aspeto é ver que o ministro das Finanças é o ministro mais popular.
Que é uma coisa extraordinária. Não é novo. Eu penso que Mário Centeno também já era.
Mário Centeno terá inaugurado essa perspectiva do ministro das Finanças ser o mais popular. É o Ronaldo das Finanças.
Mas é a vez de acabar com o mito de que os portugueses gostam de déficit, de dívida e não sei o quê. Não.
Até porque sentiram bem na pele quando a dívida pública se viu.
Exatamente.
E curiosamente, eu acho que na altura tinha a concorrência de Marta Temido, a ministra da Saúde, que também era muito popular.
Exatamente.
Sim. Com tudo isto, vamos avançar.
O que me parece mais relevante do ponto de vista em particular é que eu já sei que amanhã ou daqui a pouco, se der uma nota ao governo como a moção de censura vai ser aprovada, será positiva, porque não há forma de não sair bem disso. Mas neste momento, esta tracking poll, a pressão que cria sobre o governo é negativa e esses dados são negativos, independentemente daqueles parênteses todos que eu dei, portanto, vai um oito para o governo.
Filomena, hoje é de fato o dia do governo, mas não só, concretamente de Luís Neves, mas também de André Ventura.
Sim, claro. Eu começo pelo princípio, porque dispensando-me de recordar todos os episódios desta novela turca, agora são turcas. Daqui a pouco Luís Neves vai começar a responder aos deputados no Parlamento, depois à tarde, de certa maneira, será a segunda parte, com Luís Montenegro a responder por Luís Neves no debate da moção apresentada pelo Chega. Há sempre aqui uma ligação direta entre os dois momentos. Aquilo que Neves disser agora de manhã vai condicionar o debate da tarde. E eu acho que é tão importante aquilo que Neves vai dizer, como perceber como é que ele o vai dizer, porque se continuar a dar estas respostas insuficientes e exibir aquele registo do quero, posso e mando, talvez as coisas se compliquem, porque ele vai ter que perceber que hoje não é dia pra entrar no combate político Como um espadachim contra o populismo, como ele fez da última vez. Ele tem aqui uma oportunidade para mudar de registro, para ser substantivo, para responder concretamente, para reconhecer erros e para deixar a disputa partidária para quem tende a fazer. Não precisa de atacar a oposição, não precisa de dramatizar, não precisa sequer de convencer os deputados que é um excelente ministro e um combatente do crime. Ele precisa apenas de esclarecer os factos. Se ele fizer isso, e ele tem uma personalidade que não dá essa segurança, mas se o fizer, dará a Montenegro um argumento importante para esta tarde. O Montenegro pode dizer que o ministro veio ao Parlamento, respondeu, prestou contas e agora as investigações seguirão o seu caminho. Aquela frase feita. Se ele voltar a dar aquelas respostas e entrar em contradição ou regressar àquela linguagem desafiante, vai oferecer a André Ventura, poucas horas antes da moção, exatamente o material político de que Ventura precisa. Por isso eu acho que a audição desta manhã será, na prática, o primeiro ato do debate da tarde. Primeiro estará em julgamento político a capacidade de Neves se explicar, depois a decisão de Montenegro continuar a confiar nele. E é aqui que eu entro um bocadinho na minha posição. Acho que Luís Neves já não tem condições políticas para continuar como Ministro da Administração Interna. Digo condições políticas, não judiciais, essas logo se verá. Até porque admito que do ponto de vista técnico e da execução das políticas de segurança, o senhor Luís Neves possa estar até a fazer um trabalho melhor do que alguns dos seus antecessores. Mas é precisamente por ele estar a tutelar as polícias que a fasquia tem de ser especialmente elevada, porque um ministro, um MAI, não precisa apenas de competência, precisa de autoridade política e precisa de credibilidade. E é muito difícil exercer isso quando estão em curso várias investigações relacionadas com decisões tomadas enquanto ele dirigia uma das principais políticas do país. No entanto, não chego aqui à conclusão de André Ventura. Não creio que faça sentido derrubar agora o governo por causa de Luís Neves. Estamos agora às portas da discussão do orçamento. A Europa e o mundo estão como estão e Portugal tem usado e abusado destas eleições nos últimos anos. Portanto, provocar agora uma nova crise política por causa de um ministro, sem qualquer garantia sequer que venha aí um quadro parlamentar mais estável, seria absolutamente desproporcionado. Eu acho que é coerente defender simultaneamente duas coisas: que Luís Neves devia sair e que o governo não deve decair. E é precisamente esta distinção que tornará a votação desta tarde politicamente interessante. Eu acho que a moção de censura de André Ventura vai perder, claro, mas Ventura pode perder a votação e ganhar uma parte da batalha política, respondendo à tua pergunta diretamente. E convém fazer aqui uma distinção. Nem tudo tem corrido bem ao Chega, o partido tem tido dificuldades de implantação e organização, tem tido conflitos internos e tem até partido de eleitos autárquicos pelo caminho. Só que André Ventura tem esta capacidade evidente para escolher um assunto, simplificá-lo à forma dele e obrigar os adversários a discuti-lo no terreno que ele próprio define. E a comunicação corre-lhe quase sempre bem, à maneira dele, mas corre. E na véspera desta moção destinada a derrubar o governo, ontem Ventura avisou que continuará disponível para negociar com este mesmo governo, incluindo o próximo orçamento. A rutura total, diz ele, é com Neves, não é com o Executivo. É uma aparente contradição que ajuda a perceber o objetivo da moção. Talvez a vitória que o Ventura queira seja menos parlamentar e seja mais comunicacional. Ele já sabe, pelo sentido de voto, que não vai derrubar o governo, mas vai para o país: "Eu quis tirar Luís Neves, os outros protegeram-no. Eu censurei, PS, PSD e os partidos tradicionais entenderam-se." É aquela velha mensagem que quando chega o momento decisivo, são todos farinha do mesmo saco. É uma simplificação. Votar contra a queda de um governo não significa votar a favor da permanência do ministro, mas as mensagens políticas mais eficazes nem sempre são as mais rigorosas. Muitas vezes são simplesmente as mais fáceis de perceber. E é aqui também que eu continuo com dúvidas sobre a estratégia de Luís Montenegro. Não sei o que é que o governo, a AD ou o PSD têm verdadeiramente a ganhar prolongando esta situação, mas há um dado político que torna a pergunta ainda mais pertinente. Nesta tracking poll que estávamos a discutir, o PS surge à frente, o Chega aparece logo atrás e a AD cai para terceiro. Sabemos que esta sondagem é uma sondagem, mas a fotografia merece atenção, porque por um lado o PS, por outro o Chega, estão neste momento a deixar a AD para trás. E Montenegro pode mostrar esta tarde que não cede a André Ventura, pode derrotá-lo claramente no Parlamento, pode até sair do debate reforçado, mas amanhã de manhã vai permanecer uma pergunta muito simples: Luís Neves continua a ter a autoridade necessária para ser MAI? E se a resposta continuar a ser duvidosa, Montenegro terá ganho a moção, mas terá mantido o problema. E André Ventura terá perdido uma votação que politicamente nunca terá esperado ganhar, mas não vai largar este assunto. E o problema mantém-se. E é esta que é.
E então, por isso, as tuas notas ou a tua nota vai ser para quem, Filomena?
Vai ser para Montenegro e também vai ser baixinha. Vai ser um quatro rasinho para Montenegro e para Luís Neves vou esperar mais umas horinhas.
Sim, não falta muito para começar. Sim, e vais dar também aventura?
Aventura vou dar um bocadinho mais. Percebe-se que isto é mais comunicação do que outra coisa. E vou dar um nove para 10, mais reforçado.
Muito bem, aqui ficam atribuídas as notas.
Vai sair sempre a ganhar disto. E isso é mau, não é bom.
Um nove mais a puxar para o 10, por isso para o líder do Chega.
Ó Carla, não tivemos tempo de discutir, nem vamos ter a abstenção, a escolha da abstenção e não do voto contra, que também era uma discussão interessante, mas fica para um próximo.
Se calhar amanhã ainda se consegue discutir isto já depois da justificação que o Partido Socialista irá apresentar. Isso mesmo, uma abstenção violenta. É isso. Bruno, trazes aqui um outro tema, que pode estar ligado, se quisermos, e tem a ver com números da educação.
Os números da educação aqui analisados pela PortData, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e que são números que confirmam o que já outros relatórios tinham mostrado, que existe uma assimetria, uma desigualdade regional cada vez mais nítida, cada vez maior em Portugal, e não, ao contrário do que se poderia esperar, uma assimetria entre o litoral e o interior, mas entre o norte e o sul, o norte e o centro, em que os resultados dos alunos são consistentemente melhores, e depois a região de Lisboa e Vale do Tejo, a região de Setúbal e o Algarve também, onde os resultados têm sido também consistentemente piores. Ao longo destes últimos 14 anos, olhando aqui desde 2012, houve melhorias, por exemplo, ao nível dos resultados, quer no secundário, quer nos outros ciclos, por exemplo, com muito menos retenções. Mas se olharmos, por exemplo, para o secundário, os alunos do norte e centro conseguiram concluir o secundário nos três anos, ou seja, sem retenções, foram 81 e 80% dos alunos do norte e centro, e na Grande Lisboa o número é de 67%, ou seja, 33% dos alunos da Grande Lisboa chumbam no secundário, ou chumbaram no secundário, cerca de 29% na Península de Setúbal e 27% no Algarve. Ora isto demonstra aqui que existe, de facto, uma desigualdade regional. Nós habituamo-nos a esperar como indicadores ou previsores do sucesso a formação, a escolaridade dos pais, o nível socioeconômico, e claro que isso terá influência, mas pode estar a entrar aqui um outro elemento.
Que é onde é que tens aulas.
Onde é que tens aulas, qual a região onde fazes a tua formação escolar. E isto pode estar relacionado com a falta de professores ou a estabilidade do corpo docente. No caso das regiões do norte e centro, sabemos que há menos falta de professores nessas regiões, portanto, há uma maior estabilidade dos corpos docentes nas escolas e isso não significa que seja o elemento determinante, mas pode ser um dos elementos decisivos também a contribuir para estes números, porque existe aqui uma grande diferença que se tem vindo a aprofundar, uma crescente desigualdade entre os alunos das regiões norte e centro e do resto do país, nomeadamente da região da Grande Lisboa. Olhando também para os números de forma geral, existem neste momento atualmente mais de dois milhões de estudantes, que vão desde o pré-escolar ao ensino superior. Esperava-se uma diminuição com a quebra da taxa de natalidade, mas tem sido compensada pela entrada de-
De que se falava tanto no tempo de Maria de Lourdes Rodrigues.
Exatamente, que já quase há 20 anos.
É melhor não fazer contas.
Não irmos por aí, mas tem sido, de facto, compensada com a entrada de alunos estrangeiros ou que têm pelo menos um pai estrangeiro. Aliás, a natalidade em Portugal tem dependido muito da população estrangeira nos últimos anos e a entrada também, não só pelos nascimentos já em Portugal, mas também a entrada de cidadãos estrangeiros e das respectivas famílias. E quando se pensava que poderia haver até um agravamento da falta de professores, há aqui pelo menos um indicador positivo, que é o aumento do número de jovens inscritos em cursos de formação de professores. Ou seja, pode estar a haver aqui um reequilíbrio, um contrariar desta tendência da falta de professores nos próximos anos, e que vai ser necessário, porque havia também essa expectativa Com a quebra da taxa de natalidade, houvesse menos estudantes, o que também não se está a verificar, ou pelo menos a quebra não tem sido tão significativa quanto se esperava. E este indicador do aumento do número de jovens em curso de formação de professores pode ser positivo. Deste olhar sobre o estado geral da educação da Pordata, eu destacaria mesmo esta assimetria regional. É muito preocupante, o ministério e o ministro devem estar informados sobre estes dados, mas é preciso atacar, porque podemos estar aqui perante uma condenação para quem nasce numa determinada região do país, que vai, à partida, enfrentar muito mais dificuldades no seu percurso escolar se nada for feito para corrigir esta tendência.
A nota vai para quanto?
A nota vai para esta desigualdade. Não sabemos ao certo qual é que será o elemento a determinar esta desigualdade. Esta desigualdade, neste momento, existe e eu vou dar um seis.
Um seis. Paulo, um pedido ingrato. Nos poucos minutos que temos ainda, queres fazer uma referência à conferência de imprensa de ontem da ministra do Ambiente e da Energia?
Sim, Maria Graça Carvalho. Ontem, sabemos, houve um grande aumento dos combustíveis.
A ministra mais popular à par de Rui Ferreira.
É verdade. Houve um aumento grande dos combustíveis, houve buzinões, protestos, o que é absolutamente normal. O governo não é responsável por isto, mas obviamente que tem que lidar com o assunto. E às 18h30, os jornalistas foram convocados para uma conferência de imprensa surpresa, de urgência, se quisermos, da ministra do Ambiente e Energia, precisamente sobre o tema dos combustíveis. Bom, eu talvez tenha ficado influenciado por isso, pelo simbolismo de comunicação que isso representa, chamar às 18h30.
Para uma conferência às 19h.
Para uma conferência às 19h, logo meia hora depois, sobre este tema, só pode sair dali um anúncio importante.
Claro, e na véspera de uma moção de censura.
Exatamente, só pode sair um anúncio importante. Não, não saiu um anúncio importante. A ministra Maria da Graça Carvalho quis, antes de mais, responder ao PS e às afirmações de José Luís Carneiro, que têm dito nos últimos dias que o governo tem ganho não sei quantos milhões, centenas com isto. Já agora, só uma precisão de linguagem: não é o governo, é o Estado. Vamos ser rigorosos nestas coisas, não é este nem o outro governo, as receitas são do Estado. E ela foi desmontar isso, enfim, contas que são importantes de fazer, mas que não conseguimos verificar sem estar por dentro dos dados que os governos têm. E veio também explicar por que o governo não faz mais. Portanto, veio dizer que está tudo na mesma. Não houve nenhum anúncio. Eu confesso que fazer esse tipo de dato de comunicação para dizer: "Olha, está tudo na mesma e vamos aqui explicar por que não fazemos mais", enfim, tenho dúvidas sobre isso. Mas de qualquer maneira, saúdo o governo ter resistido à tentação de, de facto, perante uma subida destas do preço dos combustíveis, não avançar com medidas que seriam certamente muito populares, mas que seriam pouco acertadas em termos financeiros, que é tudo para todos. Acho que o governo deve, obviamente, apoiar setores como a agricultura, como os transportes, porque isso trava a contaminação de subida de preços a outros produtos, mas não deve, por exemplo, reduzir o IVA pra toda a gente, porque depois as famílias que mais precisam são beneficiadas, certo, mas depois há uma série delas que não precisa, que também são beneficiadas. Portanto, aí uma nota positiva para o governo por resistir a isso, que seriam 12, mas eu vou tirar aqui dois pontos. Por quê? Porque ontem também foi comunicado pelo grupo espanhol do Amancio Ortega, que tinha a posição de 13,7% do capital da REN, que eles já venderam ao Estado. O Estado não disse nada ainda e, sobretudo, não é publicado ainda. O governo tem obrigação de dizer quanto é que pagou pelos 13,7% da percentagem da REN que acaba de comprar aos espanhóis. Não o diz. Isso tem que ser obrigatoriamente público. E, portanto, tiro aqui dois pontos à Maria da Graça Carvalho ou ao governo, se quisermos, na gestão disso tudo e fica um 10.
Fica um 10. E o Vencedor regressa mais logo. Hoje temos várias edições, uma por volta da 13h30, depois da audição de Luís Neves, às 17h, para fazermos o ponto de situação à moção de censura, e uma última edição às 18h, para o balanço do dia no Parlamento.