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Está no ar mais um "YouVensores". Já sabe que para além de nos ouvir aqui na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E Carla, esta terça-feira estão conosco a Helena Matos, o José Manuel Fernandes e também o Luís Rosa.
E esta manhã falamos nas dificuldades de acesso ao SNS, das condições das prisões e do voto de protesto na Câmara de Lisboa, mas vamos naturalmente também à campanha presidencial. José Manuel, começo contigo, o que é que destacas?
Eu queria começar por fazer uma correção a uma coisa que disse ontem. Eu ontem referi aquilo que considerei ser um post falso na rede social do André Ventura relativamente a uma sondagem que eu não encontrei publicada em lado nenhum. Depois o próprio André Ventura enviou-me essa sondagem. É uma sondagem encomendada pelo jornal do Chega, que é a Folha Nacional, que não foi publicada no jornal do Chega e que, segundo André Ventura, já foi depositada na ERC, ele mandou-me o papel também da ERC com esse depósito, mas não está no site da ERC, portanto eu não tinha forma de saber que a sondagem existia. Seja lá como for, é uma sondagem, na prática, encomendada por um partido. Portanto, a correção é que é uma sondagem que não é falsa, existe, mas não é uma sondagem igual às habituais. Dito isto, o tema das sondagens está muito complicado. Nós estamos a caminho de uma eleição com muito poucas sondagens, praticamente só temos a Tracking Poll no que respeita a sondagens encomendadas por órgãos de informação tradicionais.
Hoje vai sair uma, foi já anunciada, da Católica.
Da Católica. Pronto, é assim importante. Veremos o que aquela traz. No entanto, há o que temos que ter em consideração. As últimas sondagens nas últimas eleições acertaram mais ou menos nos resultados, exceto em 2022. 2022 foi a eleição em que António Costa obteve a maioria absoluta. Esse resultado foi basicamente na última semana. Tem-se falado muito nos erros da Tracking Poll da CNN nesse processo, mas a sondagem que se enganou mais não foi da Tracking Poll, foi uma da Aximage, que teve uns desvios muito bizarros a meio. Houve uma altura em que deu tudo ao contrário, inclusivamente o PSD a ganhar. A Aximage é a empresa que fez esta sondagem para o Chega, portanto isto está tudo mesmo baralhado. Dito isto, só este ponto, eu já agora aproveito e falo também do resto. Eu acho que nós temos tido uma campanha eleitoral muito condicionada pela evolução da Tracking Poll. A Tracking Poll é muito volátil, e tem dois problemas. As variações diárias são induzidas por apenas 200 respostas, o que é muito pouco, é uma amostra muito pequena, e muita gente bandeira em arco com pequenas variações de décimas que não têm praticamente nenhum significado estatístico. E por outro lado, a Tracking Poll corre o risco, na minha perspectiva, de estar a apanhar sobretudo pessoas que estão mais atentas à campanha do que os cidadãos comuns. E portanto, desse ponto de vista, são pessoas que porventura medem mais a temperatura e o entusiasmo dos candidatos. Eu estou naturalmente com alguma expectativa relativamente à sondagem de hoje, mas digo isto porque aquilo que aconteceu ontem com Cotrim, julgo que tem muito a ver com aquilo que de alguma forma resulta da Tracking Poll. De repente, ele passa do último lugar para segundo nos dois últimos dias.
Do último do pelotão da frente.
Do pelotão da frente, claro, dos cinco que estão à frente. Não estou a falar das lanternas vermelhas, que é um campeonato à parte. E isso entusiasmou muito. O que ele fez ontem, as pessoas só falaram de ser um tiro no pé. Eu acho que a questão é um bocadinho mais complicada em termos de análise política. Por que eu digo isto? Porque aquilo que Cotrim começou a querer dizer, e faz sentido do ponto de vista da sua estratégia, é que se os eleitores à direita querem derrotar António José Seguro, que aparece neste momento como o favorito a passar à segunda volta, então não votem em Ventura, votem em Cotrim. O que tem uma lógica, porque se passa à segunda volta Ventura e António José Seguro, é um candidato de esquerda que acaba por ser eleito presidente. Agora, este discurso tem uma consequência, é que não se pode hostilizar os eleitores do Chega. Porque no fundo também se está a falar para os eleitores do Chega. E eu creio que aquela facilidade com que André Ventura consegue mobilizar os seus próprios eleitores é também uma consequência da forma como os outros partidos, de uma forma genérica, e os outros candidatos, têm tratado quem vota no Chega, que são uma espécie de eleitores párias, que são tratados quase com nojo e em relação para os quais não se pode falar. É evidente que falando para eles se cria uma onda de choque, que foi aquilo que aconteceu ontem a Cotrim. Ele se tivesse ficado calado, teria evitado essa onda de choque, mas se tivesse dito que valia tudo Para derrotar Ventura, não conseguiu o seu objetivo. Criou uma espécie de quadratura de círculo pelo próprio e acabou por não sair bem dela, pelo menos na percepção mediática. Entre os eleitores, vamos ver, estamos à espera agora. O problema é que provavelmente as próximas sondagens não vão sequer apanhar o que aconteceu ontem. A sondagem que vai sair hoje não apanhou isso, é uma questão da agenda católica, porque o que é tradicional terá sido feito durante o fim de semana, portanto não apanhou o dia de ontem, o que aliás é normal. Para sair hoje, os dados tiveram que ser trabalhados durante o dia de ontem. Tracking poll vale o que vale, vamos continuar cheios de interrogações até o fim.
Mais uma razão para ouvir hoje o "Contra Corrente".
Atenção, mas acho que tudo isto é muito interessante, porque no fundo estamos a discutir como é que se trata o eleitorado de um partido. Por exemplo, ontem Marques Mendes reagiu a dizer: "Estava em causa a democracia". Vamos lá ver, Marques Mendes é o candidato do governo, o candidato do PSD, é o candidato do partido que faz acordos com o Chega. Então também não faz muito sentido esta reação, do ponto de vista puramente lógico. Mas é aquilo que fica bem na nuvem de fumo em que estamos envolvidos. Tudo isto é curioso de ver como é que no final, quem vai sair por cima e quem vai sair por baixo. Eu estou cheio de curiosidade.
E a tua nota vai ser qual? E a quem?
A minha nota tem que ir para Cotrim. Eu podia dar o chumbo direto, porque é o que parece de um dia que correu tão mal, mas primeiro sinto que moralmente não devia fazer isso por causa do golpe baixo que ele foi vítima relativamente àquela acusação de assédio, porque a forma como foi feito, sem sequer dar a cara publicamente. Nós não sabemos sequer o nome da senhora.
Já sabemos.
Até é sabido que é assessora do governo.
Sabemos que é assessora do governo.
Sim, mas o nome é conhecido.
É conhecido, sim.
Sim, é conhecido nas redes sociais.
As notícias provavelmente eram...
Ela não quis falar agora, não quis assumir publicamente, aparentemente. Seja lá como for, aquilo parece uma coisa que se era para falar, era para falar há dois anos, quando isso eventualmente começou a falar. Mas, por outro lado, também não sei qual é exatamente o efeito desta trapalhada de ontem. Portanto, vou dar uma nota baixa, mas não o meu habitual chumbo direto, vou dar um seis.
Um seis para João Cotrim de Figueiredo. Luís Rosa, foi um dia mau para o candidato.
Foi um dia terrível. Vou já começar pela questão da queixa da ex-assessora. Eu acho que é uma questão concreta que afeta a reputação do candidato e é uma questão concreta que diz muito ao eleitorado urbano da Iniciativa Liberal, nomeadamente ao eleitorado feminino. A questão é: se a questão se ficar apenas e só por aquilo que foi ontem conhecido, que é um problema circunstancial, sabemos quem é a pessoa, sabemos o que ela escreveu. Mas se ficar só por aqui, acho que o assunto morre. Se a questão tiver desenvolvimentos, ou seja, se a Inês Bichão conseguir provar aquelas frases, entre aspas, que citou na sua story no Instagram, eu diria que Cotrim de Figueiredo tem um problema seriamente em mãos. Vamos ver se a história se desenvolve ou não.
Luís, desculpa perguntar-te. Interessa-me porque eu tenho o "Contra Corrente" para tentar. Achas que ainda há tempo para haver história?
Se a Inês Bichão tem forma de provar as frases que citou entre aspas, se as frases foram ditas numa conversa entre os dois, ela não consegue provar. Se estas frases foram ditas de forma escrita, ela pode ter forma de provar, não sei.
Isto é sempre o problema nestes casos.
É o problema de sempre, é a palavra um contra o outro. Mas repara, se houver um SMS, vamos supor, é uma questão. Se não houver nada, depois é a palavra um contra o outro. Eu acho que a questão não tem mais desenvolvimentos. Vamos ver se acontece ou não, não sei.
Eu acho que faz alguma diferença o facto de sabermos o nome da pessoa. Esta pessoa, apesar de ter dito, parece num grupo privado ou para o perfil que está fechado, faz diferença sabermos quem é esta pessoa. Não se trata de uma acusação anônima, de um perfil anônimo nas redes sociais.
Até porque entretanto Cotrim de Figueiredo disse que ia ele sim processar.
Processar.
Logo aí há uma consequência que prolonga isto.
Se Cotrim de Figueiredo diz que vai processar a outra pessoa, pode sentir a tentação de provar aquilo que
Deixa eu ouvir o José Manuel.
Pelo que eu percebi, nós tentámos falar com a senhora e ela não quis falar conosco. Ou ela já falou com alguém?
Creio que ainda não falou com ninguém, não quis falar.
Ainda não falou com ninguém e nós na nossa peça tentamos, contactámos e a Inês Bichão não quis falar connosco.
Aliás, eu disse que não conhecia o nome porque na nossa peça não vi o nome dela, posso ter lido mal.
Eu creio que a nossa peça não tem o nome.
Não tem o nome, pois. Vocês estão a falar de um nome que é a primeira vez que estou a ouvir falar. Mas eu não estive a ouvir todos os noticiários de ontem.
O nome foi noticiado.
Sim.
Esta questão, em relação à questão da ex-assessora, só gostava de dizer isto, não há mais para dizer. Pode ser um problema simplesmente que morre aqui, ou não. Vamos ver. Agora, acho que o mais importante para mim, em termos políticos, é de facto a declaração que Cotrim de Figueiredo fez sobre André Ventura. Eu compreendo o spin de Cotrim de Figueiredo tentar seduzir o eleitorado do Chega, ou seja, votem em mim agora, como o José Manuel estava a dizer, seja numa hipotética segunda volta, mas eu acho que aquela declaração é uma rejeição total e absoluta da estratégia da Iniciativa Liberal desde a sua criação. A Iniciativa Liberal sempre rejeitou o Chega, que também a própria Iniciativa Liberal classifica de extrema-direita.
Aliás, e criticava até duramente o PSD por qualquer aproximação ao silêncio ou ao Chega.
A nova liderança da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, voltou a pôr em cima da mesa precisamente a rejeição de qualquer acordo com o Chega.
Até em autarquias.
Até em autarquias. Isto aqui eu acho que é muito interessante, porque nós já sabemos que o Cotrim Figueiredo vale mais que a Iniciativa Liberal. Cotrim Figueiredo, mesmo com esta declaração, está a mostrar que ele é a Iniciativa Liberal. Ele destrói a estratégia de toda a Iniciativa Liberal, até desta líder presente. Desautoriza completamente a líder da Iniciativa Liberal, que nós também já sabíamos que não tinha grande autonomia, mas agora ficamos a saber o extente absoluto que não tem. E tudo em nome da sua candidatura, do seu interesse pessoal. Além de colocar em causa o próprio Cotrim, Cotrim Figueiredo sempre foi tido como um dos grandes adversários do André Ventura. Pegando naquela frase que o José Manuel estava a dizer, que eu subscrevo e que eu concordo, que é: falar para os eleitores do CHEGA é legítimo politicamente, porque é importante conquistar aquele eleitorado. Eu até acho que nessas eleições, havia um candidato que tinha todas as condições para conquistar esse eleitorado, que era o Govinda Emil. O Govinda Emil desistiu de fazer isso logo no início. Na minha opinião, mal, porque acho que ele podia até estar muito melhor colocado neste momento nas sondagens do que está. Mas a questão é que no caso do Cotrim Figueiredo, não é questão de falar para os eleitores do CHEGA, é deixar de falar para o resto do eleitorado da direita que rejeitou o CHEGA. Por alguma razão, Ventura, numa segunda volta, contra qualquer candidato, tem pouco mais de 24, 25%. Ou seja, há uma parte muito substancial de direita que rejeita André Ventura e portanto, Cotrim Figueiredo também está a arriscar-se a perder uma parte deste eleitorado. Eu acho que foi um erro importante. Por último, só uma última nota que eu gostava de deixar, que é em relação à questão das sondagens. Cotrim Figueiredo está em alta desde há alguns dias, única e exclusivamente por causa da tracking poll da CNN. Não tem havido aqui nenhum contraditório em termos de sondagens. Nós vamos ter esse contraditório nos próximos dias. Já hoje, mas também noutros dias. Sondagem da Católica, sondagem da Intercampus e sondagem da Cônsul Marco. Estas três sondagens vamos ver que resultados terão. Eu estou a falar em termos hipotéticos. Se estas sondagens colocarem novamente Marcos Mendes numa posição de chegar à segunda volta e colocarem Cotrim Figueiredo numa posição mais para baixo, obviamente que esse momento Cotrim Figueiredo também fica posto em causa. Por alguma razão, ontem nós tivemos a presença de Alexandre Picoto, diretor da Pitagórica, na CVI, já a explicar como é que funciona a tracking poll, porque obviamente há a informação de que as próximas sondagens terão resultados muito diferentes da tracking poll. Vamos ver se terão ou não. Já havia aqui algum damage control, digamos assim, por parte da Pitagórica. E finalmente, eu digo-te uma coisa, eu acho que a candidatura de Cotrim Figueiredo, e isto era uma ideia que eu gostava de deixar, tem sido tão diferente daquilo que a Iniciativa Liberal tem feito, que eu acho que há aqui uma espécie de cheguização da Iniciativa Liberal. Não é só pela declaração de tentar seduzir o eleitorado Ventura, é pela própria postura que o Cotrim Figueiredo tem tido ao longo desta campanha. E não nos podemos esquecer que no que diz respeito à questão de uma campanha de insinuações, foi Cotrim Figueiredo que começou essa situação. Isso não é nada habitual na Iniciativa Liberal. Eu acho que esta candidatura de Cotrim Figueiredo vai deixar marcas, independentemente agora se ele chegar à segunda volta, vai deixar uma marca de alteração de correlação de forças na direita. Mas se ele não chegar à segunda volta, vai deixar marcas muito profundas na relação entre o PSD e a Iniciativa Liberal.
Que nota vai dar ao Cotrim Figueiredo nesta altura?
Eu dou uma nota muito perto da do José Manuel. Não costumo dar notas tão baixas, mas digo que correu muito mal, vou lhe dar um sete.
Um sete para o candidato João Cotrim Figueiredo, que de resto não faltará muito para retomar hoje as ações de campanha. Bruno, outros assuntos. Hoje é conhecido um estudo da Nova SBE a propósito do acesso ao SNS cada vez mais difícil.
Cada vez mais difícil e o acesso à saúde cada vez mais desigual, muito marcado pelas diferenças socioeconômicas, mais episódios de doença, sobretudo desde o período da pandemia, e mais episódios de doença nas camadas mais desfavorecidas da população. Isto tem a ver com estilos de vida, alimentação e a incapacidade do sistema no seu todo, e o SNS em particular, de providenciar um acompanhamento adequado, atempado a estas pessoas, que está ligado à falta de médicos de família. Em 2019, a probabilidade de se ter um médico de família no SNS era de 91%, agora baixou para os 79%. E isto quando 82% da população recorre exclusivamente ao SNS, é muito grave. Acabamos sempre por falar do SNS, porque o sistema está centrado no SNS. Quando o SNS deixa de dar resposta, não consegue dar este acompanhamento à maioria da população, isto afeta o todo da população, mas afeta em particular quem depende exclusivamente do SNS para ter acesso a cuidados de saúde, porque olhando para as restantes camadas da população, vemos quem tem uma situação econômica mais favorável, já tem ou começa a ter médico de família no privado. Esse valor aumentou para 15%, ou seja, de pessoas que têm médico de família no privado. Nós estamos constantemente a falar do problema das urgências, mas os problemas mais graves estão a montante.
Nos cuidados primários.
Os cuidados primários e que explicam este aumento dos episódios de doença que é bastante significativo e o facto de a probabilidade de pessoas com condições econômicas mais desfavoráveis, terem episódios de doença ser muito superior à da restante população. Enquanto este problema não se resolver, tudo depois vai desaguar no Serviço Nacional de Saúde, nas urgências. Nós olhamos para o problema da saúde de uma forma geral, como sistema nacional de saúde, e como é que se pode tentar colmatar as falhas do SNS, do qual dependem a maioria dos portugueses para ter acesso aos cuidados de saúde, ou então vamos andar sempre aqui com remendos e a tentar tapar buracos. Há outro dado deste inquérito que me parece bastante grave: é que em 2023, a possibilidade de não ter acesso a toda a medicação era de 41% e agora aumentou para 52%. Ou seja, pessoas que têm problemas de saúde, mas que não conseguem ter acesso, ou seja, não conseguem pagar a medicação de que necessitam. Uma vez mais, são as camadas mais desfavorecidas economicamente que sofrem com esta situação, o que agrava todos os problemas. Isto é uma bola de neve. Os estilos de vida que contribuem para episódios de doença, alimentação, falta de médicos de família, falta de um acompanhamento regular. Depois, mesmo quando as situações estão diagnosticadas, a falta de acesso à medicação, isto é uma bola de neve que de fato vai aumentando e que depois entope as urgências. Estamos sempre a falar das urgências como se fosse o maior problema. Não, o maior problema está a montante das urgências. Eu acho que os dados que são revelados por este inquérito da Nova SBE são bastante preocupantes e vou dar uma nota ao sistema, não só ao SNS, a todo o sistema de saúde em Portugal, que continua a penalizar as pessoas de mais fracos recursos económicos e a nota é um quatro.
Um quatro. O chumbo direto do José Manuel Fernandes vai para o sistema de saúde em Portugal. Helena, traz os dois temas, eles se relacionam?
Sim, relacionam-se, tem muito a ver com a desatenção crônica que nós temos em relação a alguns assuntos, versus uma espécie de um sobredimensionamento de outros. O que acontece? Os quatro vereadores do Partido Socialista vão entregar na Câmara Municipal de Lisboa, ou já entregaram, um voto de repúdio pela morte da cidadã norte-americana ao abrigo de uma intervenção da ICE, da Polícia de Controle de Imigração. Independentemente de tudo o que se possa discutir sobre aquela intervenção, se foi justificada, se não foi justificada, sobretudo se foi justificada naqueles termos, se anda lá a intervenção policial, faz parte da sua atividade, por assim dizer, das suas competências. Outra coisa são os moldes em que a intervenção decorreu, sobretudo o recurso ao uso da arma de fogo. É curioso, porque estamos a falar da Câmara Municipal de Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa e quatro vereadores acharam que seria adequado um voto por algo que aconteceu num estado dos Estados Unidos, com uma polícia num estado dos Estados Unidos. Ora, eu acho que nós temos uma espécie de trumpização das nossas vidas. Já temos aqui esta coisa de quando o Lousã se candidatou pelo Bloco de Esquerda porque o Trump tinha ganho as eleições. Mas curiosamente, isto é acompanhado, e agora aqui a largo do PS, a todos os outros partidos, mas aqui o PS até podia aproveitar para atacar o governo, criticar o governo, denunciar o que acontece em Portugal, não estou a falar com as intervenções policiais, mas estou a falar, por exemplo, com as prisões em Portugal, que até é diferente, porque não é em intervenções em que a polícia se vê confrontada ou não, fazer uma intervenção deste ou daquele modo. Não, são pessoas que estão privadas da sua liberdade e que estão entregues, desprovidas da sua liberdade, ao Estado português. E Portugal, por exemplo, não houve qualquer estranheza, ninguém perguntou nada. Aquele homem que foi detido preventivamente, porque partiu palomas televisões no Norte Shopping, não estou a questionar a razão de ser dele ficar detido preventivamente por causa disso. Mas esse homem, duas semanas depois, apareceu morto na cadeia em Custóias. Ter-se-á suicidado? O que é que aconteceu? E o que é que leva que um homem adulto, de repente apareça morto numa cadeia? Ele estava numa cela com outro preso, terá sido à hora do pequeno-almoço. Mas por quê? Mas matou-se. Há, aliás, um jornal em Portugal que segue mais ou menos isto que acontece nas cadeias, até quem dá mais atenção é o Jornal de Notícias, mas isto não teve qualquer impacto. E nem sequer teve impacto a notícia de que o Estado português não só pagou já um milhão e meio de euros em indenizações a reclusos detidos pelas condições desumanas em que estão detidos, como neste momento nós teremos qualquer coisa como 854 processos de pedido de indenização, que é certo que alguns desses pedidos pelo historial são arquivados, nem todos são considerados fundamentados, mas uma parte muito significativa tem fundamento, segue, e neste momento, nós teremos de passar a pagar a alguns presos mais ou menos mil euros por mês pelas más condições da sua detenção. É mais ou menos o valor.
Claro, e por que isso acontece? Porque não há nenhum partido que invista nas prisões, porque não é uma coisa que rende votos.
O que as pessoas aqui acham que rende votos, e é aí que eu quero chegar, é apresentar um voto de protesto por uma ação de uma polícia num estado dos Estados Unidos. Mas depois, já quando se chega aqui às nossas questões, isto não rende votos, não se fala. Nós, neste momento, temos os tais, que estão à espera de resolução, 854 pedidos de indenização Por causa das condições precárias nas cadeias portuguesas, nós já temos compensações, isto são declarações da ministra, por condenações do Estado português, outras porque o Estado português chegou a acordo com os presos e portanto, eu creio que se calhar temos de começar a deixar de estarmos a viver sobre esta obsessão Trump para tudo e mais alguma coisa, e vermos, por exemplo, o que está a acontecer em Portugal, não só com as nossas polícias, mas por exemplo, com as nossas prisões, que estão ali à nossa espera. E espero que o PS na Câmara Municipal de Lisboa prossiga nesta sua senda de preocupação com as questões policiais e, por exemplo, tente perceber a penitenciária de Lisboa.
Então e a nota? Vai para o PS de Lisboa?
Sim, claro. Quer dizer, tendo em conta o-
Vai ser um voto de confiança?
Como se sabe, eu não sou socialista, mas eu acho que o Partido Socialista faz muita falta a Portugal e vejo com grande inquietação esta bloqueização do Partido Socialista. Portanto, como todos os portugueses que acham que o Partido Socialista faz parte do regime, e é fundamental ao equilíbrio do regime, eu dou um oito ao Partido Socialista em Lisboa, porque acho que assim não vão lá.
Helena, oito foi a nota mais alta deste "E o Vencedor É".
É que eu quero que haja Partido Socialista, senhores.
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Numa versão alargada que começa a seguir ao jornal das 18h, esta terça-feira dão notas a Judite de França, o Alexandre Borges e o Anselmo Crespo. Assim que acabar o "E o Vencedor É", chega o Alberto Gonçalves com o "Ideias Feitas".