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Julvens Doré na Rádio Observador, com Judite França, Nuno Gonçalo Poças e Anselmo Crespo. Arrancamos pelas presidenciais, daí este semblante alegre com que estou, com este riso. A incerteza mantém-se, temos muitos indecisos e a Tracking Poll da CNN tem estado a baralhar as contas. Os protagonistas na frente da corrida vão quase que mudando ao dia, mas Seguro está na dianteira. Nuno Gonçalo Poças, achas que no atual momento em que estamos desta campanha das presidenciais é caso para citar Sócrates?

Qual?

"Só sei que nada sei".

Ah. Até me assustei.

Pensei que tinha sido mais surpreendente. Uma frase qualquer.

Eu sou muito previsível.

Ah, ok. Está bem. Sim, eu acho isso praticamente desde o início disto. Desde que estes candidatos foram fixados que a aposta é mais ou menos essa. É ali entre os 15 e os 20% para cinco e até dia 18 logo se vê. A minha aposta é esta desde o início e as coisas têm-se mantido.

A tua aposta é um daqueles cinco.

Um daqueles cinco. Além das minhas preferências, tenho as minhas apostas, mas acho que dois daqueles cinco vão passar à segunda volta.

E Seguro está a ser...

É caso de aritmética pura, não é?

Não, isto é análise de tom.

É de fino recorte.

Estou a tentar provocá-lo.

Não, vamos lá.

Pronto.

Eu só estou aqui novamente a trazer este ponto, porque há três meses, se calhar, era novidade.

Porque não estava lá Cotrim.

Sim, eu mesmo no início, não estava naquele lote dos cinco, estava um bocadinho mais afastado.

E eu sempre achei que ele de facto tinha possibilidades de subir.

Mas não estavas à espera que tivesse uma boleia tão grande.

A passadeira tem sido simpática. E na verdade, parece que estão todos mais ou menos a estender passadeiras uns aos outros. Isso tem sido um processo mais ou menos-

Excepto a Marques Mendes

...mais ou menos fascinante. Certo, é verdade. Pois é, realmente.

Não estou a ver ninguém a estender passadeiras a Marques Mendes.

Ninguém esteve.

Nem o governo.

Nem o governo, por enquanto. E António José Seguro só tem de fazer o que está a fazer, não fazer mais nada e dizendo umas coisas sem cometer erros. Eu acho que António José Seguro e João Cotrim Figueiredo provavelmente são quem tem de manter mais ou menos aquilo que têm vindo a fazer, enfim, em função de algumas coisas que vão acontecendo. Todos os restantes estão mais ou menos em queda. Ou seja, o André Ventura não disparou como eventualmente se poderia ter pensado que se distanciasse um bocadinho. Marques Mendes está em queda já há bastantes dias e Gouveia e Melo, desde o tempo do pré-lançamento da figura lá do alto da montanha, que vinha de barbas compridas e cajado explicar aqui à malta como é que se fazem as coisas, que tem sido uma queda brutal. E portanto, os outros dois estão... O Cotrim Figueiredo está a recuperar mais do que o António José Seguro, apesar de tudo. Tem estado mais ou menos ali dentro daquela casa, umas alturas mais para cima, outras mais para baixo. A única diferença, de facto, agora é que ele está a liderar a Tracking Poll. Mas de facto, quem teve a maior recuperação é o Cotrim Figueiredo. E finalmente, há também aqui outro fenómeno, que houve uma altura que não se percebia muito bem e que as próprias sondagens pareciam um bocadinho quase incompreensíveis. Agora, sim, percebe-se que há uns que para subir, outros tiveram que descer, porque houve uma altura que havia uns que subiam e ninguém percebia muito bem de onde é que aquilo vinha. E agora, finalmente, começas a perceber mais ou menos essa dinâmica eleitoral. Anselmo, com o avançar dos dias também a Tracking Poll vai ganhando consistência e amanhã ou depois poderemos já ter também dados mais certos sobre as tendências.

Sim, eu acho que a partir de sábado, domingo, sobretudo segunda-feira, começa a ser um bocadinho mais decisivo olhar para a Tracking Poll. Primeiro para percebermos se o atropelamento de Marques Mendes deu para ele sobreviver ou não. Essa é a grande questão. Entretanto, de facto, Marques Mendes está numa daquelas fases em que há dias em que de manhã à tarde não se pode sair à noite.

Exato.

É uma coisa dessas. Ele está numa dessas fases, quer dizer, nada lhe corre bem. Agora é a história da saúde, as mortes, a colagem ao governo, mas hoje houve buscas na Câmara de Setúbal e Maria das Dós Meira pode vir a ser constituída arguida com quem ele esteve ontem. Aos abraços. Reparem.

Mesmo azar.

É o cúmulo do azar. Eu ontem quando o vi ao lado de Maria das Dós Meira, lembrei-me imediatamente daquilo que mais marcou a liderança de Marques Mendes quando era o líder do PSD, que foi ter afastado um conjunto de autarcas por terem problemas com a justiça.

Incluindo Isabel Galriça Neto, que não lhe perdoa.

Sim, lembro-me de ter pensado: "Isto se calhar não foi muito boa ideia".

Ele agora pode dizer que continua a fazer o mesmo trabalho. Cada vez que vai ter com autarca...

É verdade. Mas bom, isto para dizer o quê? Sim, a Tracking Poll, eu acho que só a partir do fim de semana é que nós vamos ter uma noção mais exata das consequências que esta campanha está a ter para Marques Mendes, se há alguma recuperação possível ou não. O Nuno dizia aqui uma coisa que eu acho interessante e que me intriga muito nestas sondagens atuais, que é se o Chega tipicamente é sempre subestimado nas sondagens. E as sondagens, não apenas esta Tracking Poll da CNN, mas em geral, dão o resultado que dão a André Ventura Não estará ainda assim André Ventura a ser subestimado nas sondagens? É uma dúvida que eu tenho, porque quando olhamos para o resultado que ele tem, ele anda muito próximo, ainda hoje André Ventura dizia isso, daquilo que foi o resultado eleitoral do Chega nas últimas legislativas. Ele está a cerca de 85% de ter a mesma votação, pelo menos a avaliar pelas sondagens.

Eu continuo a achar que vai ser ele a ganhar a primeira volta.

Isso é uma hipótese. Não estou a dizer que é isso que vai acontecer. Eu estou aqui como o Nuno, que o Totobola só à segunda-feira, e agora já nem é à segunda-feira, uma pessoa tem que esperar pelo resto da semana. Mas eu tenho essa dúvida, que é se as sondagens ainda assim não estão a subestimar o resultado de André Ventura. E depois, eu acho que o maior beneficiário líquido, até agora, da guerra entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, não é Gouveia e Melo, é Cotrim Figueiredo, porque Gouveia e Melo tendo recuperado.

E Seguro, eventualmente.

E Seguro, sim. Seguro, apesar de tudo, está à frente, é verdade, está a subir, mas tem tido uma linha muito estável. Não é apenas desde que começou a tracking poll. Se fores a outubro, novembro, dezembro, Seguro anda mais ou menos ali umas décimas pra frente, umas décimas pra trás. Cotrim Figueiredo não, tem uma subida descomunal. E Gouveia e Melo recupera, mas longe de recuperar o resultado que tinha em setembro, por exemplo, onde tinha 22% na sondagem da Predagórica.

Consegue atingir em cheio a candidatura de Marques Mendes, mas ele também cai com Marques Mendes, não é?

Sim, por isso é que eu digo que eu acho que o maior beneficiário, objetivamente, é Cotrim, o segundo é Seguro, que até agora, até o início desta semana, bastava lhe estar quieto, bastava lhe fazer de morto, mas isso mudou com esta crise na saúde. Seguro já não está só a fazer de morto. Seguro está objetivamente a gerir bem, do ponto de vista político e de campanha, bem entendido, a gerir muito melhor do que qualquer outro candidato este tema. Porque se nós olharmos pra aquilo que têm sido as reações dos candidatos, Gouveia e Melo é claramente o líder da oposição. André Ventura está a fazer o que faz sempre, mas não exatamente igual. André Ventura começou a ser muito crítico com a ministra da Saúde, mas agora já está a atirar a Marcelo, que eu nem percebo qual é taticamente o objetivo de estar a atirar a Marcelo. E António José Seguro está a conseguir fazer o equilíbrio entre manter a pose institucional de: "Não, eu se for presidente da República, não posso estar aqui a pedir cabeças de ministros todos os dias", mas ao mesmo tempo a mostrar indignação com a situação. Depois, a seguir, podemos achar que é vazio o que ele diz, que o conteúdo em si não resolve nada. Mas do ponto de vista de gestão do tema, eu acho que ele é quem está a gerir melhor este tema.

Dito.

Eu lembro-me de uma expressão que António Costa utilizou quando António José Seguro ganhou as europeias, que é: Seguro só precisa de fazer poucochinho, porque como os outros estão a atirar lama uns aos outros e ficam numa campanha em que eu acho que é prejudicial pra Marques Mendes, mas é prejudicial pra Gouveia e Melo. Gouveia e Melo vai ficar com isto colado à pele. E não era a imagem que ele queria dar, não era a imagem da politiquice, bem pelo contrário. E não tem conseguido sair dela. Agora, Marques Mendes não pode culpar o governo, que é, como li no Observador, o chapéu da sua candidatura e, portanto, hoje decidiu atirar à direção executiva. Nos partidos, os votos não são dos partidos, com exceção do PCP, em que o voto do PCP é do PCP.

E mesmo assim, às vezes não chega.

Boa, Ricardo.

Mas se houver uma linha direta dada pelo Comitê Central, nenhum militante pensa em votar outra coisa. Mas nos outros partidos não é assim. E portanto, eu acho que é um pouco esticado que se imagine que aqueles que votaram AD queiram agora votar Marques Mendes. Eu acho que não é necessariamente assim, como aliás se tem visto pelas sondagens. E eu sinto Marques Mendes numa espécie de corda bamba a pensar: a última coisa que eu precisava era de ter o apoio do governo e acontecer isto ao governo. Quer dizer, até há dois dias estava tudo a correr tão bem e agora está a correr mal. Pois, mas é isso que acontece quando se quer o apoio de um governo. Arrisca-se com todas as polêmicas que entretanto acontecerem.

Desculpa, sabes quem é que me fez lembrar hoje a situação em que Marques Mendes está? Berta Cabral, quando se candidatou ao governo regional dos Açores. Passos Coelho era primeiro-ministro, estávamos no período duro da Troika, e eu fiz a campanha dela contra Vasco Cordeiro, que ela perdeu. E Berta Cabral passou os 15 dias de campanha a fazer exatamente o mesmo que Marques Mendes está a fazer. Curiosamente, Marques Mendes foi lá com Marcelo Rebelo de Sousa ajudá-la na campanha e tiveram a dar-lhe, na véspera do último dia de campanha, a fazer-lhe aconselhamento político. Sabem qual foi o conselho que eles lhe deram? Foi descole de Passos Coelho. E a Berta Cabral, na quinta-feira, antes de acabar a campanha, vem rebentar com uma decisão qualquer sobre pensões que Passos Coelho tinha tomado, porque começou a perceber a dois dias de acabar a campanha, que a estratégia não estava a funcionar. Foi Marques Mendes e Marcelo que lhe disseram pra ela fazer isso.

Mas vamos ver se Marques Mendes agora pensa nisto pra ele próprio. Porque não precisa de renunciar. Não pode renunciar isto três vezes, mas pode descolar um bocadinho. Descolar do governo.

Desculpem, até porque ele perde o capital que andou a conquistar durante 10 anos, que era o do independente. Que ele está a deitar borda fora.

Mas de facto não é fácil, porque há todo um histórico e as pessoas conhecem mais ou menos. E mesmo o histórico documentário também não era assim tão independente quanto isso e as pessoas também o sabem reconhecer. E depois também acho que se parte aqui de uma premissa um bocadinho errada, que é achar que o governo é a coisa mais popular que havia para alguém se agarrar a candidato à Presidência da República. O governo normalmente é um bocadinho tóxico. Não é uma cara bonita.

Sobretudo quando acontecem estas coisas. Mas eu acho que o tema dele não é ser popular. O tema dele é: houve X pessoas que votaram na AD nas últimas eleições.

Mas isso não é automático, os governos não têm a mesma popularidade todos os dias. Já não tinham muito em março, ganharam as eleições.

Mas se essas X pessoas votassem outra vez agora em Marques Mendes, ele passaria à segunda volta seguramente. Esse é o racional. O problema é que eu acho que ele está a levar esta estratégia longe demais.

Mas isso é continuar a olhar para isto como se a política fosse a mesma dos anos 90. Que este é o eleitorado do PSD, este é o do PS. Depois há aqui um que é um bocadinho flutuante. Não, não é nada disso, isso acabou.

Sim, isso já acabou. E vamos voltar ao tema na segunda parte de "E o Vencedor É?", em que vamos falar ainda sobre a situação no INEM e também o debate quinzenal desta tarde no Parlamento. Voltamos já a seguir. Segunda parte de "E o Vencedor É?", hoje com a Judite França, Anselmo Crespo e o Nuno Gonçalo Poças. Ficámos com notas por dar da primeira parte. Judite, vamos a notas? Eu vou dar a António José Seguro, porque acho que de facto a campanha lhe está a correr bem e vou lhe dar um 15. Anselmo?

Eu vou dar um seis neste momento a Marques Mendes. Eu acho que a campanha lhe está a correr mal e, portanto, fica com um seis.

Eu vou dar um 15 à campanha. À campanha? Sim, acho que está ótimo. Estás a gostar, tu? Está vivinha. Está interessante. Está. Bom, temos de voltar a falar da emergência médica, com três possíveis mortes devido à demora no socorro. O primeiro-ministro abriu o debate quinzenal desta tarde no Parlamento com promessas de mais 275 viaturas para o INEM, criação de cerca de 500 camas para acudir aos chamados casos de internamentos sociais. E no meio disto tudo, o primeiro-ministro revelou que segura a ministra da Saúde. Nuno Gonçalo Poças, queres começar pela ministra da Saúde ou pelos casos de que tivemos notícia de três possíveis alegadas mortes, eventualmente por demora no socorro?

Estes temas parecem sempre um bocadinho circulares. Nós meia volta vimos aqui e temos que falar de coisas deste género. Qualquer fenómeno que envolveu os serviços públicos de alguma maneira, que resultou numa atrapalhação da vida de alguém ou nestes casos em concreto, de mortes. E, portanto, eu acho que, e insisto sempre nesse tema, isto é demasiado grave e demasiado complexo para este tipo de politiquice de, no fundo, olhar para o ministro incumbente e achar que todos os problemas de gestão que os serviços públicos têm, são da responsabilidade daquela pessoa e como se a saída dela depois de repente significasse que tudo se irá resolver, e depois volta outra vez ao mesmo. Depois há um novo ministro da Saúde e depois volta a acontecer a mesma coisa. Grávidas a ter bebés nas ambulâncias é uma coisa que eu me lembro, eu não sou muito velho, mas também já não sou muito novo. Mas há 20 anos que eu me lembro de ouvir falar de coisas dessas. Isto é mais ou menos recorrente. E portanto, desse ponto de vista, eu acho que o governo tem alguma razão. Ou seja, há responsabilidades que têm que se imputar ao governo, porque é preciso resolver alguma coisa e o governo é que lá está para o fazer. Mas também não acho que se possa imputar a responsabilidade diretamente ao governo, como se tivesse havido uma alteração de política pública que conduzisse a isto automaticamente. E que nós saibamos, não há nada, as coisas estão mais ou menos na mesma como estavam no tempo de António Costa, nos últimos 10, 12 anos. Portanto, posto isso, acho que falta aqui um debate mais consistente sobre isto e por mais genérica que possa ser a abordagem, ela é necessária deste ponto de vista. E é por isso que eu acho que António José Seguro tem razão nesse ponto. Por mais genérico que se considere a forma como ele aborda o tema. É importante, de facto, que os partidos comecem a olhar para estes problemas e percebam que mais do que um problema de política pública, de grande opção, há um problema de gestão e há um problema de organização e de funcionamento.

Que não se resolveu com a direção executiva.

Há bocado estavas a falar da questão que o Marques Mendes também tinha apontado à direção executiva, e eu estava precisamente a pensar nisso, que a direção executiva serviu exatamente para isso. Ou seja, se é preciso apontar alguma coisa, aponta-se ao diretor executivo.

Era para resolver.

Não era, era para resolver os problemas do ministro e da viabilidade política dos governos. É mais fácil, atira-se aquele e aquele vai embora, ninguém desliga nenhum e não afeta e a responsabilidade não é nossa.

Agora deu jeito a Marques Mendes.

Exatamente. E portanto, deu jeito a Marques Mendes, dá jeito aos governos, foi por isso que António Costa o criou e é por isso também que eu acho que o Luís Montenegro, hoje o primeiro-ministro acabou por fazer aqui um número também. Por isso é que eu acho que isto no fundo é tudo um bocadinho costismo 2.0. Hoje há aqui um problema mediático relativamente a isto e portanto eu hoje ao debate quinzenal vou chegar lá e dizer: "Cai não sei quantas ambulâncias e tal", e isto fica resolvido. E amanhã não se fala mais nisso.

E isto chateia-me um bocado, porque é demasiado repetitivo, acontece sempre a mesma coisa. Há um problema, tem relevância mediática, toda a gente fala daquilo, toda a gente aponta o membro do governo, o primeiro-ministro, este ou o anterior, que é para resolver o problema, não resolve o problema. Vem e faz uma política de anúncios. Nós deixámos de ter políticas públicas, nós agora temos uma política de anúncios. Sempre que qualquer coisa acontece, anuncia-se e depois logo se vê. Sinceramente, acho que nem a oposição, nem o governo, eu não consigo resolver muito nisto.

Judite.

Olhando para o debate quinzenal, não me surpreendeu estar ancorado nas questões da saúde e acho que o facto do próprio primeiro-ministro ter aberto o tema para anunciar as viaturas para o INEM e as camas para unidades intermédias, são duas boas medidas, é inevitável considerá-las boas. Uma delas, tendo em conta que há 20% dos internados que são pessoas que não deviam estar ali porque precisam de uma resposta social e não de uma resposta hospitalar, provavelmente aquelas 400, 500 camas vão fazer diferença, de facto. Agora, tu tens razão, é uma reação a algo que aconteceu. E não é uma reação de uma reforma profunda. Atira-se mais viaturas e mais umas camas e ficamos por aqui.

É aquela conversa do: "Aumentámos o orçamento da saúde em não sei quantos milhões." E então? O que é que isso resolveu?

Nós podemos considerar que o Serviço Nacional de Saúde é irreformável. Podemos chegar a essa conclusão, porque de facto ninguém o consegue fazer. E das duas, uma: ou são todos muito incompetentes, que eu não quero crer que sejam todos incompetentes, e não tenho conhecimentos para perceber o que está a ser feito de errado, ou então, efetivamente aquilo é irreformável e devia começar-se a pensar em fazer um SNS ao lado.

Ou então discute-se a sério o modelo.

Ou discute-se o modelo, qualquer coisa que seja diferente do que foi feito até agora, porque o que foi feito até agora não resulta.

Anselmo.

Vou tentar pegar aqui nas ideias quer do Nuno, quer da Judite. Eu nunca pensei dizer isto e não faço isto muitas vezes, mas eu hoje vou citar Pedro Pinto e dizer que concordo com uma coisa que Pedro Pinto disse hoje no debate e que vai também um bocadinho ao encontro do que o Nuno disse.

É o líder da bancada parlamentar do Chega.

Do parlamentar do Chega. Que esta estratégia já gasta, como dizia o Nuno, de chegar ao Parlamento quando há um problema e dizer: "Ainda ontem aprovámos." vem de António Costa? Vem muito de trás de António Costa. Mas por que ainda ontem, se este problema existe ainda há 10 anos? E este problema existe ainda há 10 anos, não porque não está identificada a causa. A causa está identificada. E não é falta de ambulâncias, nem é falta de macas. O problema subjacente àquilo que está a acontecer, neste caso concreto, tem a ver com uma realidade social que nenhum governo conseguiu resolver até agora, que são pessoas que não têm para onde ir e que ficam já com alta hospitalar a ocupar camas nos hospitais. Não há nenhum motivo de saúde que as faça lá estar, mas como não têm para onde ir e o Estado não tem resposta social, e aqui já estamos a falar da Segurança Social e do Ministério da Segurança Social, já não estamos a falar do Ministério da Saúde. Como o Estado não tem resposta e como muitas vezes os lares, é triste dizer isto, mas os lares entre receber alguém que não vai pagar e receber alguém que vai pagar, preferem receber quem vai pagar. E, portanto, mais uma vez, o Estado tem que dar resposta a isto. É isso que faz com que depois não haja macas e é isso que faz com que não havendo macas, não há ambulâncias e não havendo ambulâncias, não há socorro a tempo e horas. Este problema não nasceu agora. Agora morreram três pessoas e toda a gente lamenta a morte de três pessoas. Mas na verdade, nos últimos anos, já terá ficado muito mais gente neste país sem assistência, exatamente por causa deste problema. E este problema, que dantes só se falava no Natal, se bem se lembram, nós falávamos muito disto no Natal, que era as pessoas que estavam nos hospitais e as famílias não os iam buscar e ficavam lá. Neste momento, já não é só no Natal, nem é só no internamento. É um problema que está a acontecer nas urgências. São pessoas que vão às urgências com problema de saúde, são tratadas, têm alta hospitalar e já nem sequer passam para o internamento. Ficam lá nas urgências. E para não ficarem a ocupar as urgências, são colocadas no internamento e, portanto, isto é um ciclo. E a minha questão é: como é que isto se resolve? Bom, primeiro, com vontade política, naturalmente, mas segundo, com peso político. O problema desta ministra da Saúde não sei se é um problema de competência, mas é claramente um problema de falta de autoridade política dentro do governo, como o problema da ministra da Segurança Social, nesta matéria, como noutras, como se percebe na reforma da lei laboral, é um problema de autoridade política, é um problema de, dentro do Conselho de Ministros, claramente não conseguirem fazer valer aquilo que possam querer fazer nas respetivas pastas. E já agora, parece-me também de coordenação entre ministérios. E portanto, Luís Montenegro, que agora apareceu com um punhado de soluções, ótimo, vêm mais ambulâncias, maravilhoso, vão encontrar 400 camas para colocar estas pessoas. Porreiro, não sei se chega, se calhar era melhor encontrar uma solução mais alargada, mas este problema já existia quando ele prometeu uma solução de seis meses para o SNS.

De seis meses, sim.

Eu vou fazer uma aposta: daqui a um ano alguém pode apontar e perguntar ao Luís Montenegro, aparentemente ainda primeiro-ministro, ou expectavelmente O que é feito daquelas 200 e não sei quantas ambulâncias que tinham sido encomendadas ainda ontem?

Eram 275 viaturas.

Viaturas. É o mesmo que aconteceu ao Hospital do Algarve. Já foi anunciado três vezes. Já lançaram tantas primeiras pedras do Hospital do Algarve que ele já devia estar todo construído.

São 63 ambulâncias e 34 VMER.

163. Eu acho que são 163.

É possível.

É, são 163. Estava a tomar notas durante o discurso. Veículos.

Viaturas.

São 63.

São 63? Então peço desculpa.

Pronto, então, afinal tomei boa nota. Já que falamos de notas e ainda temos aqui cinco minutos para o debate quinzenal, alguma apreciação sobre o debate quinzenal?

Não.

Isto foi mesmo sofrido.

Foi sofrida aquela hora.

Quem não está a ver no YouTube e só está a ouvir, foi mesmo caso dele.

Ojudite teve saudades dos debates mensais.

Por acaso tive. Foi muito aborrecido. E sinceramente, cada vez sinto mais isso, que cada um está ali a representar o papel que todos esperam que represente, sem trazer nada de novo ao debate. Isso não é importante, trazer nada de novo ao debate.

É performance.

É uma performance, sim. E fraquinha, diga-se de passagem, não é nada de especial. Os discursos também são fracos, queríamos intervenções um pouco mais cuidadas, pelo menos, mas nem isso. Tive que ver, e vi aquelas duas horas e meia, mas foi com sofrimento, devo dizer.

Nuno, viste?

Fui ouvindo umas coisas. Eu partilho isto, mas também acho que não é de agora.

Não, não é.

Os debates quinzenais normalmente serviam para-

Este episódio do "Eu Venço Dorê" está cheio de esperança.

Tenho sempre, senão não estava aqui. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra.

Exato.

E, portanto, a minha expectativa é sempre de ficar feliz por errar.

Mas também achaste fraquinho?

Achei, mas normalmente são. Mas a qualidade também, quando o produto é, a matéria-prima também não é grande coisa, os artistas não são bons, o espetáculo não é maravilhoso.

Anselmo.

Primeiro, nota prévia, toda a gente tinha razão, tu ouviste bem, o primeiro-ministro enganou-se, disse 63 no debate e veio posteriormente corrigir para 163. Mas toda a gente tinha razão. Dois, é extraordinário como no meio deste tema que está a marcar a atualidade, depois de terem morrido três pessoas e depois de dois anos deste governo a lidar com a crise da saúde, olha-se para este debate quinzenal e diz-se assim: "Luís Montenegro ganhou o debate." É extraordinário. Mas isto aconteceu durante os anos da gerigonça. Aconteceu exatamente a mesma coisa, que era tudo a desabar, o mundo a cair, António Costa chegava lá e toda a gente dizia: "António Costa ganhou isto." É extraordinário, porque isso diz muito da qualidade dos deputados e sobretudo dos partidos da oposição.

É costismo 2.0. Vamos a notas.

Ao debate?

A quem?

Ao debate.

Ao debate. Vamos dar à saúde?

Querem dar à saúde? Vamos dar à saúde.

Eu à saúde, dou-

Vocês aqui são sopranos. Eu sou um mero joguete nas vossas mãos.

Exato. Eu à saúde vou dar um dois.

Um dois.

À saúde em geral? À tua?

Não, à minha não. Quer dizer, a minha também não merecia grande nota, devo dizer.

Também tens andado a desventar.

Não, mas entre governo e oposição, eu dou cinco a cada um.

Cinco a cada um. Anselmo.

Eu dou um cinco ao imobilismo. Também podia ser um cinco ao imobilismo do Estado para resolver os problemas da saúde e noutras áreas.

É com estas notas de otimismo que terminamos este "Eu Venço Dorê". Amanhã há novo "Eu Venço Doré" e por regra de manhã, eles também são muito otimistas. Às manhãs, 360, depois das 08h30, há nova edição do "Eu Venço Doré". A começar pelo José Manuel Fernandes.