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E o vencedor é na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e também nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, Raquel Abecasis e o Anselmo Crespo. Bem-vindos. Começamos pelas nomeações para os hospitais, nomeações com cartão partidário. Este é um daqueles temas, Raquel, que quem vem a seguir parece que nunca consegue ser melhor do que o governo anterior. É sempre uma troca direta.
Infelizmente, é uma notícia que não é notícia. Lamento dizer que hoje dedicaram imenso tempo a fazer uma notícia que não é notícia para nenhum português. Mas revela o que eu acho que talvez o mais grave problema da nossa democracia com 50 anos, que é o problema dos boys. Ele está identificado, pelo menos do ponto de vista verbal, desde o tempo de António Guterres, que tomou posse como primeiro-ministro em 95, acho eu. Já lá vão 20 e tal anos e já havia um problema com os boys identificado.
Já lá vão 30 anos.
Trinta anos identificado, nomeado e até esta ameaça de que não haveria lugares para os boys, mas afinal houve no seu governo e continua a haver desde aí. Eu acho que vale a pena dizer que eu pessoalmente, mas muitos de nós temos batido muito em Passos Coelho nos últimos tempos. Mas acho que ele foi talvez o único primeiro-ministro nestes anos todos que tentou pôr aqui um travão quando em 2011 pensou, delineou e fundou a CRESAP, que era supostamente um organismo independente para fazer uma triagem das pessoas que tinham acesso a este tipo de cargos.
Era é o tempo verbal correto.
Era, exatamente, porque à boa moda portuguesa encontraram-se todas as modalidades e mais algumas de contornar aquele processo, fazendo de conta que ele não estava a ser contornado, com truques como pôr pessoas em lugar de substituição o tempo suficiente para ganharem experiência e poderem ganhar a qualquer outro candidato rival, fazendo formulações das competências para o lugar de acordo com a pessoa que se quer nomear. Estes são só alguns dos mais conhecidos. A imaginação nestas coisas é ilimitada e deve haver muito mais formas de contornar aquilo que deveria ser um processo transparente e o mais independente possível na escolha para este tipo de lugares. O que é que se pode fazer? Eu não diria que era acabar com a CRESAP, mas acho que talvez olhar para todas estas formas de contornar e transformar aquilo efetivamente ou tentar limpar a estrutura de forma que este tipo de expedientes não possam ser usados e tentar voltar às origens e arranjar uma forma, de facto, de escolher as pessoas mais competentes para os lugares. No caso da saúde, eu há bocado estava a ouvir o Xavier Barreto, que é aliás presidente da associação de uma classe profissional que eu não percebo por que não são eles a ocupar aqueles lugares. A classe profissional é administradores hospitalares. Se existe uma carreira de administradores hospitalares, eu não percebo por que se vão buscar pessoas que não são administradores hospitalares para administrarem hospitais. Parece-me que é mais ou menos evidente.
Tu tiras-te um cadinho.
A gente não vai buscar historiadores para dirigirem uma obra pública, este tipo de coisas. Eu acho que esta história reúne em si tudo o que há de pior na política nacional e na forma de gerir a coisa pública que os vários governos têm e que depois se sentem autojustificados porque o governo anterior fez o mesmo. Portanto, deixa-me cá fazer eu também. E pronto, e não se me oferece dizer mais nada. Isto é mau demais para ser verdade.
Cá estarás daqui a quatro anos para uma nova história.
Exatamente. Não, eu tenho esperança.
Estás a achar que são quatro anos.
Podia ser uma boa reforma para Luís Montenegro olhar para a CRESAP e tentar resolver ali o problema.
Judite, esta questão da confiança política justifica por si só todas estas mudanças?
Não, até porque estamos a falar em gestão hospitalar. O Xavier Barreto falava disso. Ter cartão de militante, como ele diz, não é cadastro. Ter cartão de militante e ter uma carreira na área e, por exemplo, nesta lista que o Observador publicou, há exatamente o caso de pessoas que têm uma carreira na administração hospitalar e que têm o cartão de militante. E aí a escolha, de facto, por ter cartão de militante não deve ser não escolhido. Isso não faz sentido. O problema são os outros nomes. Por exemplo, o Carlos Mateus Gomes, que tinha perdido a corrida à Câmara de Arraiolos e três semanas depois era presidente da ULS do Alentejo Central. E há mais, há vários casos que dispensam currículos ou ignoram completamente a experiência hospitalar e que chegam a esses cargos. E depois, de facto, é difícil crer que o Serviço Nacional de Saúde seja bem gerido por pessoas que não são nem gestores profissionais, nem conhecem a área e normalmente acumulam as duas coisas.
E são responsáveis pelo simples facto de aceitarem um lugar dessesDemostra que são pessoas totalmente irresponsáveis.
Vamos falar de uma pessoa que também aceitou um cargo para o qual claramente não estava habilitada e o admite.
Mas ao menos admitiu.
Admitiu, mas não devia ter aceitado sequer. Já lá vamos a isso. Mas a questão de dever um carimbo e um crivo para isto, que é o da CReSAP, que aprovou favoravelmente todas as 18 nomeações que estão aqui em causa. A CReSAP devia ser o filtro, e aparentemente não é, pelo contrário. A CReSAP é um problema também. Dizer que passou na CReSAP não quer dizer nada hoje em dia. Eu olho para as declarações da Ana Paula Martins, que diz que o PSD não manda nas nomeações e depois diz que o PS tem pouca moralidade para criticar. Isso até pode ser verdade, a questão não é essa. A questão é que isso não muda o essencial. Portanto, a expressão "jobs for the boys" transformou-se num método de gestão do Serviço Nacional de Saúde. Quando estava a pensar nisto, acho que o grande vencedor aqui é o cartão de militante. Ter cartão de militante, de facto, é o que é preciso.
Anselmo, este seria um bom assunto para pôr, por exemplo, no pacto para a saúde, que podia gerar consenso interpartidário.
Seria um bom assunto, mas a minha recomendação era que se fizesse também um pacto para todos os setores do Estado, não sei se já deram por isso, mas isto não está a acontecer só na saúde. Na Segurança Social está a acontecer exatamente a mesma coisa. Em Leiria, no Centro Distrital de Segurança Social de Leiria, acabou de ser nomeado Fernando Tinta Ferreira. É de que partido? Por coincidência, é do PSD. Foi o quê até agora? Por acaso até 2021, presidente da Câmara das Caldas da Rainha. Substituiu quem? João Paulo Pedrosa, que é o quê? Do Partido Socialista. E foi o quê até agora? Diretor do Centro Distrital de Segurança Social de Leiria. No Porto, o atual diretor do Centro Distrital de Segurança Social do Porto, por acaso é de que partido? Do Partido Socialista. O que o governo já lhe disse? Que não vai continuar. E não vai continuar até quando? Até o fim do mandato, que acaba daqui a dois anos. Portanto, vai receber uma indenização pelos dois anos que lhe faltam completar. Está para ser nomeado o novo diretor para o Centro Distrital do Porto. Portanto, a minha recomendação é que se faça um pacto para todos os ministérios e que se meta em todos esses pactos que o critério para se nomear alguém seja o critério da qualificação das pessoas para esse cargo e não seja o critério do cartão de militante.
Deixa-me só dizer uma coisa. Há lugares que eu acredito que tenham que ser de confiança política.
Sim, mas estes não.
Mas não é o caso. É o caso em que é preciso competência e não confiança política.
Vamos ao tema da confiança política. Eu percebo o critério da confiança política, mas a confiança política por si só não nos garante qualificação da pessoa para ocupar o cargo.
E nem é o caso.
A ministra da Administração Interna, da qual vamos falar daqui a pouco, em princípio, tinha a confiança política do primeiro-ministro. Percebia alguma coisa da Administração Interna? Não. O governo pode ter toda a confiança política em mim para gerir pescas. Eu percebo alguma coisa de pescas? Não. Então, se calhar, em princípio, não faz sentido nomear-me só porque confiam em mim politicamente.
E também há sempre o debate sobre se a confiança política tem que ir até às estruturas intermédias, que às vezes são mais técnicas.
Essa é a questão.
Além disso. No caso da Segurança Social, eu acho que o critério da confiança política ainda pode fazer algum sentido. No caso de administrar um hospital ou uma unidade de saúde. É administrar. Aquilo é uma empresa, só que é pública. Tem recursos humanos, tem fornecedores, tem escalas, tem horários, aquilo é administrar. A competência tem que ser de administração. Precisam de perceber todos de saúde? Não. Os CEOs das várias empresas não são todos especialistas, há CEOs que vão da energia para o resto. O CEO da Media Capital vem do setor da energia. É um mau CEO por causa disso? Não, mas é um administrador, é um gestor, é alguém que sabe todos juntos gerir. Não é o caso. Portanto, nós temos que parar e, sobretudo, não vale a pena estar com perinhos quentes, porque o que se está a passar e o que o governo e a ministra estão a fazer, lamento dizê-lo com todas as letras, é uma farsa. E não é este governo ou o PSD em particular, o Partido Socialista fez rigorosamente a mesma coisa. E mais, isto leva a um desperdício de dinheiros públicos, porque as pessoas que estão a sair dos cargos antes do fim dos mandatos, o caso da Segurança Social é um deles, recebem indenizações. E bem. Vamos só fazer aqui um pequeno raciocínio. Claro, ter cartão de militante do PSD não é um impedimento para ser nomeado para qualquer cargo. Toda a gente acho que concorda com este princípio. Mas agora vamos só partir deste pressuposto: não há ninguém fora do universo dos militantes do PSD, não há ninguém no país, ninguém capaz de gerir um hospital. Os únicos competentes no país para gerir um hospital são os que têm cartão de militante do PSD ou, se quiserem, são os que têm cartão de militante do PS. Portanto, um desgraçado de um ótimo gestor que seja da Iniciativa Liberal, não pode ser. Ou que seja do Bloco de Esquerda, também não pode ser.Portanto, vamos parar de fingir que isto tem alguma racionalidade. E já agora, vamos também parar de fingir que a CReSAP serve para alguma coisa. Já serviu no início, com João Bim.
Sim, e era bastante apertada.
Talvez por isso João Bim não teve um futuro brilhante pela frente. Ficou Bim, mas não foi brilhante, porque objetivamente João Bim tentou levar aquilo a sério e a partir do momento em que deixou de ter condições políticas para levar aquilo a sério, também deixou de poder ocupar o cargo que ocupava.
Mas o que eu quero dizer é que eu acho que a solução não é acabar com a ideia de uma CReSAP que funciona.
Claro que não. Agora, não vale a pena termos a CReSAP só para o governo poder dizer: "Isto foi à CReSAP e passou. Olhe, está aqui este senhor, é candidato único." E dava do mesmo jeito que passasse. E já agora, uma última nota. A ministra da Saúde, como presumo que a ministra da Segurança Social, na verdade, é só coresponsável, porque eu tenho a certeza, e eu sei o que estou a dizer, que não foi a ministra que escolheu um único destes administradores. Tenho a certeza.
Há uma enorme pressão partidária.
Como é evidente. Mas querem me fazer acreditar que a ministra da Segurança Social conhece este senhor que vai dirigir o Centro Distrital de Leiria? Sério? E que acha que ele é brilhante a gerir centros distritais de segurança social? Querem me fazer acreditar que a ministra da Saúde conhecia o currículo, o percurso, as capacidades de liderança e de gestão de todas as nomeações que fez? Eu lamento imenso, eu não acredito. E eu acho que é muito difícil de acreditar quando, por coincidência, todas as nomeações que a ministra fez não são de pessoas simpatizantes do PSD, são de militantes, pessoas com cartão, pessoas que têm um percurso partidário. E, portanto, não vale a pena andarmos aqui com floreados, sendo que a citação que tu fizeste da ministra tem muita graça, porque ela é contraditória em termos, que é: ela recusa a ideia de que o critério seja o cartão do militante e depois diz: "Mas o PSD não tem moral para nos criticar."
Sim.
Vá lá, então, em que ficamos?
O que ela diz é que o PSD não manda, que é curiosamente a frase que está errada. O PSD é que manda. Não é ela, sequer, nesse caso. É o PSD que tem mandado os nomes para serem escolhidos, claramente.
Eu percebo, quando tu fores ministro, tens tanta coisa com o que te preocupar. Imagina alguém que antes de ser ministro diz assim: "Muito bem, eu aceito numa condição, as escolhas são feitas por mim e não pelo partido." Não é ministro.
Fecho.
É uma guerra que não compensa comprar.
Não compras a guerra.
Sim, mas há um tema que eu acho que devia ser ao contrário, devia-se perceber muito bem quais são os cargos que têm que ser nomeados politicamente, porque eu acho que estes cargos todos, bastava que fossem à CReSAP e não acabassem no gabinete do ministro ou do secretário de Estado, provavelmente muitas destas coisas não aconteciam.
Nós sabemos como é que isto funciona. Por que estas pessoas são colocadas nestes sítios? Porque estas pessoas são importantes nos aparelhos partidários, elas daram ou venceram muitas eleições, mas deram ao Montenegro a chegar a primeiro-ministro. E portanto, há ali muito favor para pagar.
Quem queira resolver é impedir que estes cargos sejam alvo de nomeação política, não tem que ser.
Nós não vamos ter tempo para resolver também o problema, mas ia pedir as notas antes de terminarmos esta nossa primeira parte, Raquel.
Olha, eu dou um...
Não sei se queres dar à CReSAP, se ao governo.
Não é ao governo, é ao estado a que isto chegou, eu dou um dois.
Ao sistema, um, dois ao sistema.
Eu, na lógica do "no jobs for the boys", dou um zero. No.
Eu vou dar o cartão de militante e o cartão de militante merece um 20 aqui, porque é o que serve para tudo.
É o garante. A ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, deu uma entrevista à Antena Um, onde falou sobre a saída do governo. Diz que perdeu autoridade para continuar no cargo. Judite França, isso foi perceptível até antes da própria demissão?
Assustei-me agora. Essa Judite França. Eu acho que sim, eu acho que foi perceptível, mas deixa-me só começar pela distinção que a própria faz nesta entrevista à Antena Um, que eu acho que é bastante lúcida, que é o poder é a capacidade de fazer obedecer, a autoridade é a capacidade de ser obedecida por adesão. E Maria Lúcia Amaral percebeu que não tinha a segunda. E de fato, não tinha. E eu acho que, objetivamente, estamos habituados a ver muitos ministros agarrados à cadeira e, portanto, Maria Lúcia Amaral tem aqui essa vantagem de não estar agarrada à cadeira e ao fim de oito meses perceber que não tinha conhecimentos para estar na área. A dada altura, explica na entrevista que estava preparada para fazer política na dimensão serena de identificar problemas e ponderar respostas. E diz mesmo que o que lhe escapou foi o contingente, o imprevisível, o não pensável, ou seja, incêndios, tempestades.
Mostrou que era uma poeta nessa entrevista.
Agora, a pasta chama-se Administração Interna, é de fato o ministério do contingente, onde a única coisa que é previsível é o imprevisível.
Pode induzir em erro, Administração Interna, pode te embaralhar.
É o mesmo que aceitar que os bombeiros não vão contar com fogo, não faz sentido. Os oito meses de Maria Lúcia Amaral ficaram marcados pelas duas catástrofes que ela própria admite não ter sabido gerir.Eu acho que houve aqui uma saída honesta, reconhecer que não se tem autoridade e tirar daí a consequência é raro e portanto eu acho que isso merece registo. Eu acho que só não devia ter precisado entrar para descobrir isto. Eu acho que objetivamente um ministro não tem tempo para estudar no cargo e, portanto, tem que ter algum conhecimento antes de entrar.
Anselmo.
Eu tenho que confessar que eu fui muito crítico da ministra, naturalmente, era mais do que evidente.
Foste contribuinte para esta perda de autoridade.
Não me tenho assim tão boa conta. Mas não no dia da nomeação, não é? Porque na altura da nomeação eu lembro-me que o comentário geral foi: "Pode ser uma boa escolha." Mas eu, para ter esta sinceridade e esta forma de estar na vida de Maria Lúcia Amaral, eu não consigo não gostar dela. Eu não tenho memória de um ex-governante ter vindo assumir publicamente uma coisa destas.
Não tens memória porque nunca houve.
Eu estava a ouvir.
Não sei, por acaso tenho que tentar puxar pela cabeça. Não tenho a certeza.
E diz que não se arrepende.
Pronto, mas eu acho que depois disto falta a segunda parte, para fecharmos isto, falta a segunda parte, que é falta o primeiro-ministro assumir que teve um erro de casting, porque a responsabilidade é obviamente em primeira instância de Maria Lúcia Amaral ter aceitado um cargo para o qual manifestamente não estava preparada. Mas eu também acho que quem está na função de primeiro-ministro, se calhar tem que ser um bocadinho mais criterioso a escolher as pessoas e a estudar e a tentar saber, de facto, o perfil que está a trazer para o governo. Sobretudo porque Luís Montenegro é reincidente nos erros de casting na administração interna. À terceira, vamos ver se foi de vez. Em princípio, até agora, parece ter melhorado substancialmente. Mas Margarida Velasco foi outro desastre ambulante naquele ministério e a seguir Luís Montenegro claramente não aprende a lição com Margarida Velasco e vai buscar Maria Lúcia Amaral, que é também uma falha. E quando estou a colocar isto também no primeiro-ministro, obviamente o primeiro-ministro, em princípio, tem um staff, tem equipa, tem pessoas que podem fazer um trabalho preparatório para escolher ministros. E acho que na primeira parte falámos aqui de casting para vários cargos públicos, casting para membro do governo, se calhar devia exigir outro tipo de critérios. Maria Lúcia Amaral claramente não nasceu para muita coisa. Eu acho que o problema não foi só a administração interna, eu acho que ela não tinha perfil para ser ministra, porque lhe falta uma dimensão, que é desde logo a dimensão da comunicação ou da capacidade de comunicação, que ela não tem, manifestamente. E isso é muito relevante, porque nós quando olhamos para um líder, neste caso um ministro é um líder, não é o número um, mas é o número dois, nós queremos sentir alguma confiança no que ele está a dizer. Nós queremos confiar e acreditar no que está a dizer.
Sobretudo com estas áreas.
Ela dá o exemplo dos incêndios e da tempestade Cristina. E os aeroportos? A ministra foi ao Parlamento dizer: "O sistema pifou."
De falta de honestidade, não se pode acusar.
Eu não consigo deixar de gostar dela.
Claro.
E de simpatizar e de empatizar, até pela sinceridade que ela teve. Mas isso não retira o facto de nós, eu pelo menos, ter a sensação de que quem nos governa ou de que a forma como isto é governado é tudo um bocadinho amador. Não dá para achar que isto é muito profissional, quer em quem escolhe, quer nas pessoas que aceitam. É quase como se ser ministro seja uma coisa que fica bem no currículo. Já foi ministro, pronto. Depois daqui a uns anos já nem se lembra porque é que deixou de ser. O que importa é que já foi.
E há até quem diga que ser ex-ministro é melhor do que ser ministro.
E confirma-se no caso de Maria Lúcia Amaral, está com outra cara, claramente.
Ela deve assinar por baixo.
Raquel, não sei se queres dar só alguma pirada sobre este tema.
Não, concordo com quase tudo. Só acrescento uma coisa: tenho pena que uma pessoa com a carreira de Maria Lúcia Amaral tenha manchado a sua carreira, e ela não é caso único, por esta vertigem de querer ser ministro, que eu até acredito, porque eu acho que os primeiros-ministros têm um problema de recrutamento, porque quem eventualmente tem capacidades e até algum jeito para cumprir este jeito e experiência e conhecimento para cumprir estas missões, muitas vezes não está disponível.
E sem maioria absoluta, então.
É, e quem acaba por aceitar estas funções são pessoas, Maria Lúcia Amaral tem uma carreira de serviço público, portanto não tem a questão dos ordenados e de largar a empresa X, Y ou Z. Portanto, aquilo é um ato de generosidade. Tem duas coisas, tem por um lado o lado da generosidade, por outro lado, e eu acho que este atual ministro também é um pouco a mesma coisa, eu diria que veria mais este ministro num governo do Partido Socialista do que num governo da AD, e ele acaba por aceitar este lugar com o governo da AD, vamos ver se vai correr bem, tenho algumas dúvidas do ponto de vista político, não tanto do ponto de vista das suas funções enquanto ministro, mas há um outro exemplo de uma pessoa que tinha uma carreira brilhanteQue aliás deu uma entrevista há pouco tempo aqui ao Observador. Eu não me lembro agora do nome dele, mas que foi o homem que António Costa escolheu para fazer o documento do PRR.
Costa e Silva.
Costa e Silva, que eu acho também manchou a sua carreira no governo com uma falta de-
Mas esse foi mesmo por abnegação e sentido de serviço público.
Já estava na reforma, portanto, já não custava muito. Mas quer dizer, para quê?
Eu acho que por acaso ainda estava na Partex na altura. Não estava?
Não, já tinha saído.
Notas para esta, não sei se querem dar à ministra, à ex-ministra, aliás, se ao primeiro-ministro.
A sinceridade da ministra dou um 18. Aprendam.
Eu alinho. Esta honestidade desarmante merece uma nota alta, de facto.
Raquel, tu queres também falar-nos das cerimónias do 10 de Junho, do Dia de Portugal? É também as primeiras que são lideradas por António José Seguro nos Açores. Aliás, assinala-se hoje três meses de mandato, tomou posse a 9 de março. O que é que se pode esperar desta-
Já disseste quase tudo.
Só faltam as notas.
É isso. Eu acho que António José Seguro cumpriu de forma bem comportada estes primeiros três meses de mandato. Acho que vai ter um teste amanhã com as cerimónias de 10 de junho. O discurso do Presidente da República no 10 de Junho costuma ser um discurso que marca. Há dois, o do 10 de junho e o do 5 de outubro, são os dois grandes momentos políticos do Presidente da República. O 25 de Abril também.
Tem sido, pelo menos.
Mas é diluído em muitos outros discursos. E aqui são dois momentos em que o Presidente da República pontua sem governos e sem outros partidos da oposição, etc. Acho que ele foi corajoso em ter escolhido, neste momento da história, a Ilha Terceira e as Lajes para fazer as comemorações do 10 de junho.
Mas a lógica é interessante, não é? A lógica da soberania.
Sim, mas exige que o discurso seja consentâneo com isso. E eu, neste momento, vejo como muito difícil e do que conheço de António José Seguro, não o vejo com clareza de discurso suficiente para fazer um discurso que marque nesta coincidência histórica com os compromissos que Portugal tem, com tudo o que está em jogo ou que ele possa colocar em risco com alguma palavra fora do contexto. E, portanto, estou com muita curiosidade de perceber o que é que vai acontecer amanhã e acho que estes três meses ficarão também marcados por aquilo que for o discurso de António José Seguro amanhã. Acho que houve uma boa escolha para comissário, já agora.
Ótima escolha.
É uma ótima escolha. Miguel Mouzinho das Neves é dos melhores analistas e especialistas.
E alguém com uma posição crítica.
Em relação a Donald Trump e aos Estados Unidos.
Exatamente.
E que vive na Terceira.
E que vive na Terceira e agora ele deixou de dar aulas na Católica, portanto, acho que agora fica mesmo lá, já de vez.
Anselmo, não sei se só o Seguro é que-
Agora ficou uma pra fazer umas cracas. Sobre o 10 de junho, eu hoje ouvi António José Seguro, para não estar a repetir o que disse a Raquel. Eu também acho que a escolha da Ilha Terceira, dos Açores e da Ilha Terceira, em particular, é uma ótima escolha. Tenho muita curiosidade para perceber como é que António José Seguro vai fazer aquele jogo de cintura no discurso de amanhã. Mas hoje ouvi António José Seguro fazer uma espécie de minibalanço do seu curto mandato, com algum autoelogio.
Já bebe leite pelo biberão.
Exatamente. Sabes que eu tenho um de seis meses em casa. Portanto, eu agora acompanho.
Já está nos biberões.
Já tem dois dentes. Não, mas eu achei curioso, porque este fim de semana, no Vencedor, precisamente aqui, eu elogiava este início de mandato de António José Seguro, nomeadamente um discurso que ele fez na semana passada a propósito da forma como Portugal trata os mais idosos e os pensionistas. E ele hoje faz uma espécie de autoelogio a dizer: "Eu acho que tenho conseguido manter aqui bem o equilíbrio e os pesos e contrapesos". E eu, apesar do autoelogio, eu achar que nunca fica bem em causa própria, acho que tem razão, porque até agora, naquilo que tem sido a postura pública e o uso da palavra que Seguro tem feito até o momento, parece-me que tem sido muito equilibrado, muito inteligente e sobretudo muito direcionado. Ou seja, não anda a disparar em todas as direções. Nós estávamos um bocadinho habituados a isso com Marcelo Rebelo de Sousa.
Ia dizer, perda de relações.
Exatamente, que havia muita informação, excesso de informação e, portanto, perdia-se muita coisa pelo caminho.
Dá aqui uma nota curiosa neste 10 de junho. Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu à tentação de participar.
De andar aos beijinhos. Não, ia andar aos beijinhos hoje.
E vai estar na Terceira.
Já está. Andou, aliás, a rivalizar hoje com António José Seguro, em ruas diferentes, mas andava António José Seguro a cumprimentar pessoas numas ruas e Marcelo Rebelo de Sousa a cumprimentar pessoas noutras.
Como dizia o repórter que nós temos no local, de forma muito singela, andava a medir o pulso à população.
Mas pronto, isto para dizer que acho que António José Seguro chega a este 10 de junho com um bom arranque de mandato. É verdade que ele ainda está no chamado estado de graça, mas não é menos verdade que este início de mandato também tinha muito para correr mal e eu não acho que lhe tenha estado a correr mal até agora. Acho que o 25 de Abril lhe correu bem. Acho que as intervenções que ele tem feito genericamente têm-lhe estado a correr bem. Acho que daqui a uns tempos vamos poder aferir verdadeiramente qual é o poder da palavra de António José Seguro. Ou seja, ele está a pôr um caderno de encargos tão grande a ele próprio em cima da mesa, que só daqui a algum tempo é que nós vamos perceber verdadeiramente que poder é que a palavra de António José Seguro tem, quer a pública, quer a que ele usa em privado nas reuniões com o primeiro-ministro.
Judite, só para terminar.
Eu acho, sinceramente, que António José Seguro, sobretudo no discurso que o Anselmo falava agora da questão do envelhecimento, encontrou o registo certo. Acho que já no 25 de Abril tinha feito um bom discurso, sem dúvida, mas neste tipo de intervenção, e eu acho que já tem estado muito disponível para abraçar algumas causas, não está disponível para os jornalistas, isso já se percebeu, que tem uma postura completamente diferente e que eu não acho nada má para um presidente da República e conhecendo António José Seguro, também não vai mudar. Portanto, era isto e vai ser isto. O que, claro, quando fala, traz mais peso à palavra do presidente e eu acho que isso é fundamental. Estou muito curiosa para perceber como é que vai ser este discurso 10 de junho, para conseguir esse tal golpe de cintura entre a ideia da soberania e a ideia da relação com os Estados Unidos.
Veremos então, cá estaremos para a semana. Para a semana, não, depois do feriado, para pontuar também a intervenção de António José Seguro no seu primeiro Dia de Portugal enquanto presidente da República. Judite de França, Anselmo Crespo e Raquel Pissis, obrigado pela vossa participação neste "E o Vencedor É". Bom feriado.
Bom feriado.