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E o Vencedor É, o Ascenso de França e o Anselmo Crespo. Bem-vindos. Bom ano.

Bom ano?

Bom ano.

Até quando é que uma pessoa diz bom ano?

É até dia 6 de janeiro.

É até dia 3 de janeiro.

Podes dizer boas festas.

Eu gosto muito de dizer bom ano.

É o meu padrão, até dia 6, bom ano.

Nós variamos.

Sim. Vamos falar sobre o debate das rádios desta manhã. Ainda vamos tentar ir à mensagem de Ano Novo, muito curtinha, do Presidente da República ontem à noite. Vamos começar pelo debate das rádios. Estiveste colado à telefonia, Anselmo?

Estive, à telefonia, ao telemóvel, enquanto andava de carro, de todas as formas e feitios. Estive. E eu gostei do debate. Normalmente eu gosto muito do debate das rádios. Notei uma diferença face a outros debates. Tipicamente este debate das rádios, seja em presidenciais, legislativas, seja que tipo de eleição for, tem uma característica que é puxar por temas que os outros debates das televisões não puxaram. Aliás, um dos defeitos que eu acho que os debates das televisões têm é repetirem muitos temas.

São muito presos à atualidade.

Sim, mas se a atualidade não variar grande coisa. Se for preciso andamos dois meses a falar de código laboral e ouvir os mesmos protagonistas a falar de código laboral, só mudam de estação de televisão. E normalmente o debate das rádios tem essa característica de puxar por temas que os candidatos ainda não falaram. Eu não senti tanto isso neste debate, com exceção provavelmente da Justiça, onde eu acho que se foi mais longe. Já se tinha falado de justiça noutros debates, mas acho que o debate foi mais esclarecedor hoje na área da Justiça do que tinha sido nas televisões.

No caso da missão de paz na Ucrânia também.

No caso da missão de paz da Ucrânia também. Mas mais do que isso, este debate, o formato do debate em si, que não é perfeito, nenhum formato é perfeito, tem essa característica de permitir a quem está a ouvir, e eu acho que quem está a ouvir tem mesmo que querer estar a ouvir, porque são duas horas. Portanto, provavelmente há pessoas que ouvem só durante 15 minutos, há outras que ouvem durante meia hora. A data em que isto acontece também não é particularmente brilhante, no sentido em que ainda há muita gente que ainda não voltou ao trabalho. Aquilo que normalmente nós designamos por drive time na rádio não se aplica propriamente ainda a este dia 2 de janeiro. Mas estou a dizer isto porque eu acho que o modelo permite que os candidatos possam explanar com alguma tranquilidade as suas posições sobre as várias matérias. E como todos são confrontados com as mesmas matérias, aquilo dá para quem está a ouvir ter uma ideia clara das diferenças entre eles. Por que eu faço este introdutório todo? Porque eu acho que este formato beneficiou, por exemplo, dois candidatos que estavam claramente prejudicados nos frente a frente das televisões. Falo de Cotrim Figueiredo e falo de Henrique Gouveia e Melo, a quem não correu bem, manifestamente. Acho que isso é mais ou menos consensual, tirando para os apoiantes deles, que foram os dois que tiveram piores prestações durante os debates televisivos e que hoje eu acho que foram quem extraiu o melhor deste formato das rádios. Ao contrário, por exemplo, de Marques Mendes ou de António José Seguro, que eu achei que estava muito apagado. Marques Mendes, que também passou mais ou menos ao lado deste debate. Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo, para mim, se tivesse que designar já que isto é o Vencedor É, foram os vencedores do debate de hoje.

Bem dito.

Eu, por acaso, quando se fala de vencedores, fazia só um, fazia Cotrim Figueiredo, porque acho que Henrique Gouveia e Melo tem sempre aquele problema de titubear bastante na forma como fala.

Isso nas posições dele.

Sim. E portanto, eu acho que isso em termos de rádio não é o melhor. Quem eu acho que perdeu muito neste debate, por ser na rádio, foi André Ventura, porque teve muito pouca oportunidade de interromper os outros candidatos.

E ele tentou.

Tentou, mas objetivamente, os moderadores fizeram-lhe ver com muita clareza que em rádio, se todos estiverem a falar ao mesmo tempo, ninguém entende rigorosamente nada. E portanto, eu acho que era de esperar que o debate da rádio fosse mais substantivo do que os debates a dois. Acho que isso é mais ou menos normal, até porque os debates a dois só têm meia hora. E o frente a frente transforma-se sempre, normalmente, em discussão exaltada, dificilmente se chega a questões de fundo. Acho que no debate das rádios tiveram a oportunidade de dizer o que pensam sobre variados assuntos e a questão da Ucrânia eu acho que foi muito importante, porque deixou à vista que Gouveia e Melo não quer sequer participar numa missão de paz, pelo menos no formato em que os outros candidatos acreditam que possa ser uma boa solução para a intervenção de Portugal na manutenção de paz na Ucrânia. E eu achei isso surpreendente, sinceramente. Acho que depois, olhando para aqueles que tinham que se destacar e não conseguiram destacar-se, António José Seguro não se conseguiu destacar, e Luís Marques Mendes parece-me muito apagado, não sei se ainda está a sofrer dos efeitos.

Pensei nisso, ainda está a recuperar da pancada.

Está a acusar o toque, é isso?

Acho que ainda sente que passou por um rolo compressor naquele debate.

Está magoado ainda.

Acho que está ferido, sinceramente. E portanto, acho que teve uma prestação muito apagada. Ele tem normalmente uns rasgos e com pouco rasgo, se tivesse que dizer.

Queria ouvir-vos sobre isto em relação a Marques Mendes, que tem muita experiência de televisão, mas a fazer comentário, ou seja, onde tem o seu tempo, aquele espaço é dele. Na rádio, muitas vezes as conversas têm que ser mais curtas, mais incisivas. Pode ter saído um pouquinho prejudicado, porque cada vez que eu via Marques Mendes, ele dizia: "Agora, sobre isso três pontos, sobre isso quatro pontos."

O Ricardo Araújo Pereira foi o primeiro a apanhar esse tique de Marques Mendes e de facto, agora nós se calhar até reparamos todos mais nisso à conta disso. Mas sim, eu acho que há ali um vício do comentário, que é o tentar ser explicativo em relação às suas posições. "Eu acho isto e vou agora explicar em três pontos porque é que acho isto." Mas eu acho que é mais do que isso, que Marques Mendes tem, se quiserem, para ser mais fácil, a lição muito bem estudada sobre todos os assuntos. Primeiro, porque anda nisto há muitos anos. E em segundo lugar, porque tem um partido político. É mais fácil ter uma posição coerente sobre as várias matérias do que, por exemplo, para Henrique Gouveia e Melo, que à segunda é uma coisa, à terça já é outra e à quarta pode ser outra completamente diferente. E neste debate em concreto, eu também acho que Marques Mendes sobressai menos porque não tem nada de novo para dizer sobre nenhuma das matérias. Nós já o ouvimos dizer tudo aquilo. Em parte, nós sabemos que quando entramos em períodos de campanhas eleitorais, uma das estratégias mais frequentes dos candidatos, por muito maçador que seja para os jornalistas que os ouvem todos os dias, é repetir tudo ad nauseam, porque a repetição ajuda a deixar uma ideia clara na cabeça das pessoas. Mas eu acho que nem esse efeito ele conseguiu hoje no debate, porque ele tentou ser demasiado explicativo sobre tudo e aquilo que ele estava a dizer, ele já tinha dito sobre todas aquelas matérias ao longo dos últimos meses, até porque Marques Mendes não começou nos debates das televisões, começou muito antes. Para já não falar do tempo do comentário. Eu acho que nada disso o favoreceu, mas eu, para além disso tudo, estou com a Judite. Eu sinto que ele ainda está um bocadinho debilitado das últimas duas semanas. Não sei se é falta de confiança.

Acho que animicamente deve ter sido complicado lidar com aquilo, não é?

Sim, isto não foi fácil. Talvez a saída do debate, eu ouvi Gouveia e Melo a tentar claramente virar a página, basicamente só lhe faltou dizer: "Eu vou deixar de implicar com Marques Mendes." Talvez isso ajude a que a campanha, de facto, não seja sobre estes casos e casinhos e seja mais sobre o país. Eu ouvi algumas críticas de pessoas a dizer: "Bom, isto devia ter sido mais sobre, foi muito sobre política e foi menos sobre o país." Eu quero acreditar que quando se está a debater política, está-se a debater o país.

E sobre as questões do país, acho que será difícil encontrar grandes diferenças entre aquilo que desejam para o país e para os portugueses.

Ou mesmo não conseguir perceber. Quer dizer, é o Presidente da República. É importante nós sabermos o que é que o Presidente da República pensa sobre saúde, educação, justiça, todas as áreas da governação, mas ele não vai governar. Ele quanto muito vai tentar influenciar. E eu até acho que essas matérias, por exemplo, é mais relevante para o eleitorado, para os candidatos mais desconhecidos, para Gouveia e Melo, até se quiserem para Cotrim Figueiredo, para Jorge Pinto, do que propriamente para António José Seguro, que já foi secretário-geral do partido, para Marques Mendes, que já foi presidente do PSD, ou até para António Filipe, que representa um partido sobre o qual nós sabemos basicamente todas as posições que tem sobre todas as matérias. É, para mim, mais relevante saber qual é a linha de pensamento destes candidatos, se estiverem em Belém, perante situações concretas, perante um chumbo do orçamento, como foi longamente e bem debatido hoje. Não saiu de lá nada de novo, de facto, mas eu consegui perceber melhor a linha de raciocínio. E também por isso, e termino com isto, é que eu dizia que acho que Gouveia e Melo saiu beneficiado hoje, porque ele hoje conseguiu, de alguma forma, nas várias matérias, consolidar um bocadinho melhor aquelas que são as suas posições. Porque precisamente por aquilo que tu dizias, como ele não tem propriamente o dom da oratória, é um bocadinho, desculpem a expressão, galholho a falar, embrulha-se ali um bocadinho.

Galholho é muito bom.

Nunca tinha ouvido.

E ele hoje, apesar de tudo, parecia muito mais confiante. Acho que ele deve ter levado ali uma injeção de adrenalina depois daquele debate com Marques Mendes. Estava mais confiante, estava mais afirmativo, não deixando de estar um bocadinho incoerente, sobretudo na questão da Ucrânia, é de uma incoerência absoluta. E há bocadinho ouvia Rodrigo Adão da Fonseca a dizer que nós tínhamos percebido todos mal e que afinal Gouveia e Melo não disse o que nós achamos que ele disse.

Judite, vamos às tuas notas para o debate.

Eu vou dar uma nota genérica ao debate e não a cada um dos candidatos. Isso já fiz hoje. Portanto, vou dar um 16 ao debate das rádios, porque eu, que ouvi só na rádio, fiz questão de não ver.

É assim mesmo.

Faço sempre questão de não ver. Acho que foi ok. É preciso ter paciência para ouvir duas horas de debate, mas acho que foi muito enriquecedor do ponto de vista de perceber exatamente o que é que pensam sobre cada determinada matéria. E isso agrada-me.

E a tua nota, João?

Olha, eu vou dar uma nota pela negativa, porque não tive tempo para falar disso e aproveito a nota para o fazer. Vou dar um sete a Jorge Pinto, a Catarina Martins e a António Filipe, mas sobretudo a Jorge Pinto, que sobre a história da desistência ou não, eu fiquei com a clara sensação de que Jorge Pinto deixou a porta escancarada para desistir. E, portanto, tudo aquilo a determinada altura-

Não é capaz de o afirmar com convicção.

Não só não é capaz, como está completamente atrapalhado perante a pergunta, já quase que se irrita de lhe fazerem a pergunta. Catarina Martins dizia que era quase um insulto, e eu dizia: "Mas como assim um insulto?"

Catarina Martins foi taxativa.

Acho que esta estratégia destes partidos à esquerda, quer dizer, eu estou a meter aqui António Filipe, apesar de eu achar que o PCP nisto é um bocadinho mais coerente, para o bem e para o mal, mas toda esta estratégia à esquerda pode ser desastrosa, não para estes candidatos em si, mas para a esquerda no seu todo.

E vamos ainda à mensagem de Ano Novo do Presidente da República, cinco minutos de Eça de Queiroz.

Quem nunca?

Eu ia dizer que quem não percebeu, que terá sido a esmagadora maioria das pessoas.

Quem viu.

Certo, mas de quem viu e que estava na hora do jantar, teve dificuldade em perceber que o presidente da República estava a citar um excerto da "Ilustre Casa de Ramires", que aliás é um belíssimo livro de Eça de Queiroz, mas que não é nem facilmente legível, ou seja, é para ser lido, não é para ser dito. Isso é a primeira coisa. E a segunda coisa é: é preciso reler o discurso para perceber onde estão as pequenas mensagens enviadas para este ou para aquele ator político. E eu acho que para um último discurso, uma última mensagem de Ano Novo, o presidente da República não aproveitou a sua oportunidade.

Ele prometeu neutralidade, praticamente à prova de bala.

Agora, se vamos falar sobre a neutralidade, vamos ter que olhar para a mensagem de desleixo, trapalhadas, fogachos e dizer que nós estamos sempre à espera de um milagre. Bom, não foi propriamente muito isento.

Marcelo? Eu acho que ele quis ser tão neutro que neutralizou por completo a sua própria mensagem, aquilo não foi uma mensagem para os portugueses, aquilo foi uma mensagem para a classe política, para a elite política. Portanto, eu duvido, como a Judite, tirando a última frase do é preciso mais saúde, mais educação, mais justiça, mais não sei o quê. Tirando essa frase, e o futuro há de ser melhor do que o passado ou coisa que o valha, o resto era basicamente uma mensagem de Ano Novo para a elite política, o que não fecha, de facto, com chave de ouro esta presidência de Marcelo. Ontem o Miguel Pinheiro dizia uma coisa com a qual eu concordo: este mandato do Marcelo já acabou há algum tempo, mas que tem muito a ver com o perfil de Marcelo, que é ele não resiste. E eu acho que ele não resistiu a mandar uns recadinhos para a elite política.

Este é daqueles discursos que só se percebe nas entrelinhas.

Mesmo assim, cada um enfia a cara por onde quiser.

Exato. Sim, é muito livre nesse aspecto, mas de facto é um belíssimo texto. Para já, o presidente da República não é um declamador. Portanto, tem alguma dificuldade em ler aquele texto de forma que ele se compreenda. E depois, de facto, é Eça de Queiroz, quer dizer, o presidente está a falar para todos os portugueses na mensagem de Ano Novo e escolhe citar durante mais de metade do discurso Eça de Queiroz? Eu acho, de facto, que falou para a elite, não falou para todos os portugueses.

É caso para dizer que mal por mal, mas vou citar Cristiano Ronaldo, que assim toda a gente percebe.

Exato.

Vamos a notas?

Eu não queria dar uma nota ao Presidente da República, portanto vou dar um 20 à escolha do texto, porque eu gosto muito da "Ilustre Casa de Ramires".

Dás 20 ao texto?

Dou 20 a Eça de Queiroz.

Se esta é a escolha...

A escolha de Eça de Queiroz quanto a Eça de Queiroz, não ao discurso do presidente.

Só para clarificar.

E se sim, ia dar uma nota muito má, e não quero, porque é a última mensagem.

Eu vou dar um 10, que é mais ou menos semelhante aos 50% ou 50 e qualquer coisa por cento que Marcelo tem neste momento de taxa de aprovação entre o eleitorado. Eu acho que é a imagem com que ele sai agora deste segundo mandato. Amanhã há mais "Vencedor", versão fim de semana, às 10:30 da manhã.