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Um drone com explosivos encontrados junto a um avião ucraniano no aeroporto de Leipzig, na Alemanha. Caças da NATO a abater drones que sobrevoam a Roménia, a Letónia e também, pela primeira vez, a Lituânia. O aeroporto do Luxemburgo esteve fechado quase durante uma noite. E no meio de tudo isto, Berlim culpa Moscovo, Macron fala numa guerra híbrida que se intensifica, o Kremlin vai negando. E agora temos mais um episódio nesta guerra dos drones. A CIA terá avisado Espanha, segundo o "El Mundo", França e Itália para possíveis ataques russos com drones ligeiros lançados a partir de cargueiros no Mediterrâneo. Vamos neste explicador tentar perceber que ameaça é esta, que agora visa países que estão mesmo aqui ao lado, Espanha, França e Itália. Eu sou Ricardo Conceição, comigo está a Judite de França. E Judite, quem é o nosso convidado?
Major-General João Vieira Borges, bem-vindo, obrigado pela disponibilidade. Segundo o "El Mundo", a CIA avisou Espanha, França e Itália de que a Rússia podia lançar drones a partir de cargueiros no Mediterrâneo. A notícia não tem confirmação oficial. A fonte pode não ser a CIA, pode ser os serviços secretos lituanos. Que peso é que se deve dar a uma informação destas?
Muito boa tarde. Deve-se ter em atenção, e com certeza que têm, todos os serviços de informações a nível europeu e em particular destes países que foram citados, a Espanha, a França e Itália, por razões diferentes, mas fundamentalmente por razões associadas, pelo menos é essa a interpretação, quer ao apoio à Ucrânia, quer também à instabilidade decorrente de eleições, em que a probabilidade de partidos de extrema-direita mais próximos de Moscovo ganharem essas mesmas eleições, criando assim instabilidade. Está aqui um levantamento de várias razões, mas em termos práticos, aquilo que pode acontecer, e como já foi referido a partir dos exemplos que deram há pouco, é provável que venha a acontecer. Agora, se isso é a modalidade mais perigosa para Moscovo, se isso é importante para Moscovo abrir uma segunda frente, porque algumas das situações são difíceis de detetar, outras, como Leipzig, que também foi falado há pouco, foi confirmado e portanto, aí não há grandes dúvidas, os serviços de informações europeus uniram-se, e isto é a consequência destas ações. Uniram-se e trocaram informações e conseguiram identificar os tais dois agentes russos que lançaram aqueles dois drones. Portanto, é uma modalidade que pode vir a acontecer. A credibilidade é uma credibilidade que no fundo é sustentada pela praxis, é isso que está a acontecer e pelos vistos é isso que vai acontecendo. Eu estava aqui a ver há pouco o atentado hoje. Atentado não, hoje foi o avistamento de um drone em Berlim, em que inclusivamente as partidas e chegadas estiveram suspensas. Eu estava a comparar com o do ano passado. Este ano já foram registados 28 avistamentos de drones, enquanto que em 2025, no total, tinham sido avistados oito. Portanto, isto é mesmo um indício de que efetivamente essa notícia é muito credível. Infelizmente para todos nós.
Aqui estamos a falar de um drone, não sei se a pronúncia correta é esta, é o Gerbera. É o mesmo modelo que foi abatido na Lituânia a 15 de setembro. Tem uma carga explosiva relativamente fraca, digamos, mas é o suficiente para fechar um aeroporto ou provocar um incêndio, provocar alguns estragos. Isto é também Moscovo, vou fazer aqui um paralelo, como uma criança mal-comportada que vai tentando testar a paciência dos pais e dos professores, ou seja, estes ataques de toca e foge para tentar perceber que nível de resposta ou até onde a Europa pode ir na resposta?
Sim, em parte, sim. Ou seja, aquilo que se pretende com este tipo de ações é fundamentalmente dividir a Europa nos seus posicionamentos relativamente a esta guerra. Portanto, é sobretudo um objetivo político, mas também um objetivo económico que, na sequência disso, vai prejudicar, com o encerramento sucessivo de aeroportos, a economia dos diversos países. Mas este é um instrumento que eu já tinha chamado a atenção há vários anos, que poderia ser utilizado por terroristas. Assim está a ser utilizado por um Estado terrorista. E, portanto, esta é uma modalidade que tem baixos custos e que pode vir a ter uma eficácia grande. Mas, por outro lado, a Rússia utiliza este instrumento dizendo que é legítima a ação. Primeiro desmente, mas depois diz que é legítimo qualquer tipo de ação relativamente aos países que apoiam a Ucrânia. Portanto, no fundo está a desmentir, mas depois a seguir vem dizer que qualquer ação, seja esta, seja de ciberguerra, é legítima. Ora bem, à mentira já estamos habituados. No dia antes da invasão Da Ucrânia, obviamente que a Rússia estava a desmentir exatamente aquilo que todos os serviços de informações já tinham comunicado.
E quando já tinha tropas ao longo de toda a fronteira.
Exato. A isso já estamos habituados do lado da Rússia. Mas este confronto entre uma imagem de que "não fomos nós" e a outra de que "temos toda a legitimidade para intervir em países que apoiam a Ucrânia", dá-nos a resposta. Agora, como fazer face a este tipo de ameaça? Em primeiro lugar, esta divulgação dos serviços de informações, que não é normal fazer divulgação deste tipo. E se a faz, é exatamente para preparar os dirigentes políticos no sentido de fazerem face a isso.
Para os pressionar também?
Exatamente, para os pressionar. Por outro lado, também pressiona a própria Rússia. Afinal, já descobriram a nossa estratégia. Mas por outro lado, também serve para que haja um trabalho muito mais coordenado entre os serviços de informações. Por outro lado, também que haja uma preparação específica das forças da NATO que estão junto da fronteira, sobretudo essas com a Rússia, para atuarem com maior prontidão. De maneira a que, obviamente, esta ameaça venha a constituir uma ameaça menor. Há ameaças certamente mais perigosas, como nós já ouvimos também, e sobretudo Medvedev vai dizendo. São outro tipo de ameaças, certamente com maiores consequências.
Essas são diárias, quase, de Medvedev. Mas senhor general, deixe-me só fazer uma pergunta na linha do que estamos agora a discutir. E até que ponto ou até onde é que a Europa vai tolerando isto?
A linha vermelha é a vida humana para a Europa. Eu já o disse e já o escrevi, enquanto não houver mortes, enquanto houver alguns danos que não sejam consideráveis, os políticos europeus, que têm sempre as eleições à porta, obviamente vão reagindo com palavras, vão reagindo com um grau de prontidão das forças e dos serviços de informação. A partir do momento em que está em causa a vida humana, os valores europeus não estão só nos políticos, estão no cidadão comum que não aceita a situação. E a partir do momento em que haja um incidente em que haja mortos, certamente que a postura política será necessariamente diferente, para além da militar, que obviamente já é de um grau de prontidão elevado. A situação é defensiva, porque a organização NATO é uma organização defensiva, e a postura é essa, mas é a vida humana que será, certamente, a linha vermelha. Esperemos não chegar aí.
Desde setembro de 2025, nenhum aliado invocou o artigo quarto, mesmo depois de um míssil russo ter caído dentro da Polônia em julho. Esta contenção é estratégica?
É sim, é estratégica. É uma contenção, porque nós temos duas dimensões, a dimensão política e a dimensão militar. A dimensão política vai até às linhas vermelhas. Por quê? Porque a utilização de uma resposta militar à Rússia pode originar uma Terceira Guerra Mundial. Pouco se fala, mas obviamente que a entrada na guerra, como nós temos visto com sucessivas acusações agora entre a Polônia e a Rússia. A entrada na guerra, nem que seja da Polônia, num dos países que tenha uma resposta direta e que não espere por resposta da NATO, obriga ao artigo quinto, independentemente da posição dos Estados Unidos. E é bom que a Rússia tenha consciência de que essa reação vai ter lugar. E julgo que isso também foi a mensagem transmitida pelo diretor da CIA, se não me engano, a 25 de agosto.
Mas senhor general, daquilo que nós temos visto, fazendo aqui muito de advogado do diabo ou de advogado de Moscovo, acha que a Europa vai mesmo reagir? É que dá sinais de tanta fraqueza neste domínio, tanto receio, tantas contas. Obviamente, ninguém quer lançar a Europa, não nos queremos lançar num conflito armado, não é isso.
Eu percebo a sua pergunta perfeitamente.
Mas há muitos sinais de fraqueza deste lado.
Não, eu não considero isso fraqueza, eu considero inteligência. Eu considero defesa dos valores europeus. Eu considero também, por outro lado, e é preciso pensarmos também do outro lado, a Rússia também não tem interesse em criar mais frentes de guerra.
Esperemos nós.
Isto tem outro tipo de objetivos que não abrir uma segunda frente de guerra e muito menos criar uma guerra com a Europa no seu conjunto e com a NATO em particular. Portanto, por isso todo este cuidado, isso faz parte do jogo estratégico. Agora é preciso que haja união dentro da Europa, que é isso que não quer a Rússia, no sentido de trabalhar inteligentemente de modo a conter a Rússia. Isto é importante, porque eu não acredito que a Rússia tenha a intenção de invadir seja quem for para além da Ucrânia. Neste momento, com estas condições, que a Rússia está há quatro anos e meio nas mesmas fronteiras, para bater um país que tem, se calhar, no terreno já menos de 20 milhões de habitantes, dos 44 milhões iniciais Certamente que teria muitas dificuldades e tem consciência disso, a criar uma guerra e bastaria a Polónia apoiar a Ucrânia. A Polónia, neste momento, é um dos países, na minha perspectiva, em termos de guerra convencional, que está mais bem preparado, até do que a própria França ou o Reino Unido e a própria Alemanha. A Polónia está mais bem preparada e bastaria a Polónia apoiar a Ucrânia. E daí as ameaças sucessivas. Não é por acaso que a Polónia responde a acusações de algumas pessoas de Moscovo. Porque é dissuasora só a Polónia em si, porque está preparada para a guerra. Volto atrás dizendo que não é fraqueza, é inteligência, é a voz forte da inteligência. Temos que ter consciência que podemos não estar completamente preparados na Europa no seu conjunto, mas os países que estão junto à fronteira estão preparados, quer militarmente, quer das suas populações. É evidente que Portugal, a Espanha, a França, os países mais afastados da fronteira da Rússia, não têm a percepção da ameaça russa. As suas populações não são populações que estejam preparadas para a adversidade, designadamente para a guerra. Digamos que a escola de cidadania não tem funcionado nestes países, porque foram muitos anos sem qualquer ameaça, foram muitos anos sem qualquer guerra, ao contrário daqueles países que estão na fronteira com a Rússia, onde a Rússia é permanentemente uma ameaça, independentemente da circunstância política.
Claro.
Na Roménia, um drone levou 83 minutos entre ser detetado e ser abatido. Isto revela um problema?
Revela um problema. Tocou numa ferida importante. Como sabem, eu sou de formação de antiaérea, fui comandante da antiaérea portuguesa e delegado mandado da antiaérea. A antiaérea tem sido dos vetores que têm sido mais trabalhados ao longo destes anos da guerra da Ucrânia, em função das novas ameaças, designadamente os drones. E quando falamos de drones, os drones que começaram a guerra na Ucrânia são completamente diferentes dos drones que hoje nós temos no teatro de operações. O causador de tudo isso chama-se inteligência artificial, por isso ela está no centro do debate hoje mesmo entre os dois grandes líderes mundiais. Os drones voando muito baixo, tendo uma imagem muito baixa, mesmo aquele que referiu há pouco, Gerbera, tem só 2,5 metros de envergadura. Obviamente que é muito difícil para os sistemas de detecção, e eu estou a falar de radares, e depois para os centros de comando darem ordem às armas. Por quê? Porque tem a ver com as características. Às vezes não é só a dimensão, é também a própria configuração dos drones, que são cada vez mais preparados para serem mais dificilmente detectados.
Mais furtivos, não é?
Exato, furtivos é a expressão que utilizamos para as aeronaves, também podemos usar aqui. Este é o jogo do gato e do rato em termos tecnológicos, faz com que neste momento haja um esforço enorme, não só da parte da antiaérea ou da defesa aérea no seu conjunto, mas depois também em coordenação com aquilo que é o espaço. Neste momento são todas as dimensões da guerra que estão presentes: terra, mar, ar, ciber e espaço. E o espaço, com tantos satélites, também vai ajudar na detecção deste tipo de aeronaves. E isto é um esforço enorme que tem sido feito. As pessoas falam nos sistemas de armas, mas não falam nos sistemas de detecção, comando e controlo.
A pergunta, senhor general, é se a capacidade antiaérea está a acompanhar ao mesmo ritmo o desenvolvimento.
Está.
Sim?
É uma boa pergunta, porque é algo que está sendo trabalhado.
Porque estes 80 minutos é quase um jogo de futebol.
Exatamente. Mas são 80 minutos porque estamos a falar de um drone que anda a velocidades de 150 km/h. Se falássemos de um míssil, obviamente que a situação era outra, mas o míssil seria mais facilmente detetado. Agora, a resposta à sua questão, a antiaérea está em processo de completa transformação. O mundo vai ver em breve que sistemas a laser com geradores de grande potência e capacidade de destruição, que ultrapassam as adversas condições atmosféricas, que era o grande problema dos sistemas a laser, era a dimensão da fonte geradora e era simultaneamente a adversidade, por causa dos lasers, tinham dificuldade em tempo adverso, caso com chuva, com muitas nuvens. Mas neste momento já temos sistemas que foram testados em dezembro. Naturalmente que Israel está sempre presente nesses testes.
Estamos a falar de raios laser, uma coisa desse tipo?
Claro. Será destruído mais facilmente, serão destruídos inclusivamente mísseis balísticos mais facilmente e com custos muito baixos. Isso vai obrigar o esforço do outro lado do sistema de armas. Mas aqui no meio tem que estar o sistema de detecção, que também, como eu estava a dizer, tem sofrido uma evolução considerável, os chamados radares, que depois têm informação não só decorrente do próprio sistema, mas também dos sistemas de satélite. E isto está a ser tudo trabalhado. A tecnologia avançou a uma velocidade enorme, em função, obviamente, também da introdução do instrumento tecnológico de inteligência artificial. E temos um mundo, em termos da arte da guerra, completamente diferente do que era há quatro anos atrás. Nesse aspecto, estamos melhor, e isso é importantíssimo para a Europa, fruto deste cenário, e para a Europa e para tudo o que é sistemas defensivos, de proteção de infraestruturas e de proteção das populações. Certamente que a Rússia não precisa muito disso nesta fase.
E para Portugal, Portugal tem capacidade antidrone própria?
Portugal não tem capacidade antidrone nem capacidade antiaérea, tem capacidade no seu conjunto de defesa aérea, em função, sobretudo das aeronaves. Está tudo integrado, temos sistemas de integração, mas em termos de antiaérea temos lacunas consideráveis. Curiosamente ou não, investimos recentemente em sistemas de defesa antiaérea de baixa altitude, dado que os sistemas que tínhamos não eram eficazes, eram sistemas antiquados, era simplesmente o sistema Stinger norte-americano, um sistema portátil. Não tínhamos sistemas de média altitude e muito menos de grande altitude. Esses sistemas são trabalhados no sentido de, em caso de ataque ao território nacional, serem fornecidos pela NATO, seja um Patriot ou seja um sistema Hawk norte-americano. Mas estamos a melhorar em termos de antiaérea com novos sistemas que estão neste momento em fase de instrução, sistemas muito eficazes também contra drones. Portanto, é um sistema de baixa altitude, não só para aeronaves, para helicópteros e sobretudo antidrone. É evidente que o drone também vai evoluindo rapidamente e obriga depois a melhorias dos sistemas. É isso que está a acontecer com a indústria de defesa, tem que dar garantias, tal como nós damos garantias no automóvel. As empresas também dão garantias de acompanhamento da evolução tecnológica. Às vezes basta mudar um chipzinho pequenino, de milímetros, de micrão, para alterar todas as capacidades do sistema de defesa também.
Senhor General João Vieira Borges, muito obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade e pela explicação que deu, ajuda-nos a perceber isto tudo um pouco melhor. Muito obrigado, senhor. Obrigado por ter estado neste "O Aplicador". Um abraço. Obrigado.
Muito bem.