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Começa agora a nova edição do "Youven Sorega", que também pode acompanhar em direto através das nossas redes sociais ou site do Observador. E Carla, esta quarta-feira está também conosco o Miguel Pinheiro. Nesta manhã, olhamos para estratégias autárquicas e ingerências parlamentares, mas também, inevitavelmente, para os exemplos que chegam do Bloco de Esquerda e do Chega. Paulo, aqui a teoria e a prática entraram em conflito.
Entraram em conflito, e não deixa de ser caricato ou irônico, se quisermos, que as revelações aconteçam, por acaso, no mesmo dia. O partido Bloco de Esquerda, o partido mais à esquerda do arco parlamentar, que anda sempre com a defesa dos direitos dos trabalhadores na boca, anda sempre a gritar contra o chamado capitalismo selvagem ou economia de cassino, porque uma empresa reduz postos de trabalho quando as coisas correm menos bem ou quando perde um negócio, ou anda a lutar pelos direitos dos trabalhadores. Percebemos agora que quando a crise bateu à porta do Bloco de Esquerda, e essa crise chama-se perda de uma boa parte da subvenção do Estado, porque o resultado eleitoral foi pior do que aquele que tinha sido nas eleições legislativas anteriores. Acontece, é evidente. Eu também acho que o Bloco de Esquerda devia fazer alguma coisa para gerir o partido, como é evidente. Não se perde metade da receita ou uma boa parte da receita e se fica de braços cruzados. É o que acontece em muitas empresas, porque vem uma crise, porque a concorrência fez melhor do que elas, porque há ciclos de negócios que são assim, há produtos que passam de moda.
Porque se perde uma cota de mercado.
Perde-se uma cota de mercado.
Foi o que aconteceu.
Perde-se receita, perde-se vendas e, portanto, há que reduzir estrutura. Acontece muitas vezes. Agora eu gostava de dizer que é que o Bloco de Esquerda vai pra porta do próprio Bloco gritar. Neste caso, estamos a falar de quatro mães, duas a amamentar, que foram despedidas. O Bloco já veio, de alguma forma, contraditar aquilo que pode ser contraditado nisto, nomeadamente com acusações de que houve empregos entregues a namorados.
Sim, e isso não será verdade. E uma das funcionárias envolvidas até terá desmentido isso. Mas eu acho que a defesa que o Bloco de Esquerda fez, em certos aspectos, ainda foi pior ao tentar justificar.
Tenta justificar, ainda por cima com argumentos desses.
E para além da queixa à ERC.
E faz a queixa à ERC, claro. Depois, o Bloco também há de ter aqui um tic que o PCP também tem, quando há uma notícia crítica para os partidos, é sempre um ataque político. Também é um ataque político ao Chega, agora estas notícias de que Miguel Ruda foi constituído arguido por rolas rolas. Também é um ataque político isto, ou não?
Tem consequências políticas. Isso é outra coisa.
Sem querer comparar os dois casos, obviamente, eu acho que aquilo que se passa com o Bloco é mais grave do que o que se passa com Miguel Arruda. Esse é um ato isolado de uma pessoa que aparentemente comete crimes, de furto.
Sim, não é uma decisão do partido.
Aqui é uma prática do partido, institucional. O partido decidiu, quando teve que reduzir 30 pessoas. É curioso como o Bloco também escreve isto. O Bloco diz que quando teve que reduzir estrutura, escreve o seguinte: "Reduziu a cerca de metade a sua rede de sedes e a sua estrutura profissional em aproximadamente 30 pessoas."
É um downgrade.
Estrutura profissional. É, um dia destes são eles chamar colaboradores. Também não têm trabalhadores, têm colaboradores. Basicamente, partidos que utilizam de uma forma excessiva uma aparente superioridade moral nestes casos, quando lhes acontece isto, depois ficam sem chão, de alguma maneira.
Não é muito diferente do que já aconteceu em outras ocasiões com o PCP, por exemplo.
Quando tem conflitos sobre age com alguém, é caso deles.
E quando justifica também os baixos salários, porque é assim, gostávamos de pagar mais. Então o porquê das críticas tão violentas aos salários baixos que se praticam. É verdade, quando se é patrão, se vê as coisas de outra maneira.
Há um ponto que acho um pouquinho diferente. Não vou defender o PCP, mas acho que apesar de tudo, o PCP, os salários baixos que praticam e que pagam aos seus chamados funcionários, que é uma tradição antiga no partido há décadas, provavelmente tem quase 100 anos, não tem a ver exatamente com a mesma coisa. São voluntários, são pessoas que fazem aquilo voluntariamente, não é porque não possam ter outros empregos. Aí é um pouquinho diferente. Agora, há às vezes aspectos graves, houve casos no PCP que são, porventura, pelo menos tão graves como esses. Foram funcionários despedidos por terem divergências políticas. Que ainda por cima são, estamos a discutir, foi no tempo da Geringonça, um funcionário salvo erro do distrito de Setúbal.
E com bullying laboral a tipo sentado num gabinete sozinho com a secretária.
E eu lembro o primeiro despedimento coletivo que houve em Portugal, depois de anos de campanha do PCP contra os despedimentos coletivos, foi no Diário, que era o jornal, enfim, na altura ainda havia muitos jornais, diários em Portugal ligados a partidos, que era o jornal do PCP. Indiscutivelmente, era um jornal onde nas reuniões de redação ou da célula da redação, comparecia o próprio Álvaro Cunhal às vezes. Não estamos a falar de apenas um jornal simpatizante. Não, era organicamente do PCP, era impresso numa rotativa que tinha vindo da RDA. E depois quando aquilo começou a correr mesmo mal, despedimento coletivo. Os partidos aqui são, de facto, infelizmente, não sei onde é que estão as exceções.
A grande questão é o discurso que se tem. Que nos percebe que muitas vezes a realidade obriga as pessoas a fazer-
Nós muitas vezes queixamo-nos apenas do centrão. Mas eu, queixamo-nos do centrão, mas reparem. O Livre já teve as trapalhadas que teve por causa de arranjar Sistemas muito democráticos de escolha de candidatos e depois aquilo só deu crises. A Iniciativa Liberal, na última corrida interna que teve, acabou na saída do partido da pessoa que ficou em segundo lugar, de alguma forma marginalizada.
Carla Castro.
Carla Castro. Outros partidos mais pequenos, o CDS já nem falo, já nem comento tudo o que se passou com o CDS.
O PAN.
O PAN é outro caso inacreditável também, não só de tensões internas, demissões, golpes, tudo e mais alguma coisa. Inclusivamente, também uma coisa que tinha a ver com pagamento de funcionários, que vinham com dinheiros vindos de sítios de onde não deviam vir e coisas desse gênero.
E sobre o caso do deputado do Chega?
Já lá vou, mas sobre o Bloco ainda, muito rapidamente.
Sobre o caso do deputado do Chega, eu confesso que estou cheio de curiosidade de ver o resto da história. Eu imagino muitas coisas que valha a pena roubar. Agora, malas no aeroporto que a gente não sabe sequer o que lá vem dentro.
A surpresa pode ser o móbil do crime.
É tão caricato que até faz rir.
É como se fosse Natal sempre. Vais abrir e não sabes o que é que vais encontrar.
Sobre o Bloco ainda, eu fui ver as contas do Bloco de Esquerda, que estão depositadas na entidade de contas dos partidos. E de facto, em 2022 o Bloco teve prejuízos na casa dos €300.000. Mas no final desse ano tinha em caixa e depósitos bancários, portanto, à disposição do partido, quase €800.000. Em caixa, basicamente, dinheiro. E tinha acumulado lucros já de dois milhões e meio, desde que tem atividade e que tem contas. E no ano seguinte, 2023, o Bloco já teve lucros de €34.000. Isto para rebater aquele argumento de que quando há lucros, as empresas, as entidades ou as instituições, se têm lucros, têm que pagar mais ou não podem fazer despedimentos. Não, o Bloco despede enquanto tem lucros, enquanto acumula lucros, enquanto tem quase €800.000 no fecho de um ano, 2022, em caixa.
Aqui o problema é não estar à altura da fasquia que impõe aos outros. Isso é a questão.
Obviamente. O Chega é tão caricato. Ainda por cima o tipo de crime que é imputado, que nos deixa quase sem palavras.
Então vamos dar números em vez de palavras. Que nota dás, Paulo?
Eu dou quatro a ambos, precisamente porque são dois partidos que, por razões diferentes, mordem a língua. André Ventura já veio tentar justificar, mas vamos ver o que é que o Chega faz e vamos ver se agora o Chega aplica internamente a métrica que costuma aplicar a outros setores da sociedade, que é olhar pra sua bancada e dizer: "São todos criminosos". Basicamente. Porque há um criminoso, são todos criminosos. Vamos ver se é essa a métrica.
Um quatro então para Bloco de Esquerda e Chega. José Manuel, também dás a mesma pontuação aos dois partidos?
Acho que sim, acho que vou pôr quatro. Quatro é o meu chumbo direto, podia pôr quatro, pôr três, pôr dois, pôr zero. Acima disso é impossível pensar noutra nota.
Não há uma forma positiva.
Não há uma forma positiva de olhar pra esta matéria. Talvez um quatro somando a nota dos dois. Pronto, fica assim.
Assim fica então, chumbados estes dois partidos. E o PSD, Bruno, clarificou ontem a estratégia eleitoral. Não é não.
Sim, para as autárquicas. E isto também, de alguma forma, se relaciona com este caso do Chega. Todos nós nos perguntávamos antes das eleições legislativas e perante a possibilidade do Chega eleger muitos deputados, como acabou por acontecer, onde é que ia buscar nomes, onde é que ia buscar pessoas, quem é que seriam estes 50 deputados? Está aqui uma das respostas, são deputados como Miguel Arruda. E agora, em relação às autárquicas, e nós já vimos também muitos tesourinhos deprimentes das últimas autárquicas de candidatos pelo Chega, porque não há massa crítica no partido e é preciso ir buscar quem estiver disponível para se candidatar pelo partido. E o PSD aqui faz muito bem em recusar à partida e tomando a iniciativa, coligações eleitorais com o Chega, porque não só corre o risco de apanhar com alguns candidatos bizarros pelo caminho, como também fica muito dependente.
Gosto muito do teu termo bizarro.
Alguns, se bem te lembras, José Manuel.
Eu diria que é um termo generoso, quase eufemismo, bizarro alguns deles.
E se te bem te lembras, sim, nalguns casos era um eufemismo, tendo em conta o nível dos candidatos. Mas o PSD, se também ficasse refém ou se abrisse muito o flanco ao Chega, ficava à mercê de André Ventura, que nestas coisas, quando sente o fraco dos outros, rapidamente consegue virar o tabuleiro e assumir o protagonismo. E o PSD ficava numa situação de fragilidade, onde quer que isso acontecesse ou onde admitisse coligações eleitorais. Curiosamente, este tema, esta discussão foi levantada por Cristóvão Norte, que é o deputado do PSD, presidente da distrital de Faro, que é um distrito onde o Chega tem muita força, onde obteve os melhores resultados nas legislativas e onde prevê obter os melhores resultados, provavelmente até conquistar alguma câmara nas autárquicas. E Cristóvão Norte não defende essas coligações, mas foi ele que lançou o tema para que se definisse logo à partida se o PSD deve ou não entrar nestas coligações eleitorais. Quanto a mim, a decisão é boa, porque toma a iniciativa de recusar uma vez mais essas coligações, mesmo quando aparentemente teria alguma coisa a ganhar, ou seja, onde aparentemente juntando-se ao Chega, conquistaria mais câmaras. Mas conquistar mais câmaras e depois ficar
À mercê do Chega seria um erro estratégico. E aqui acho que o PSD uma vez mais está bem, que é continuar na senda do não é não.
Só não olhar para a Madeira ou para os Açores, o critério pode ser diferente.
Sim, no caso da Madeira e dos Açores, até foi depois de haver ali alguns entendimentos posteriores do Chega aprovar. Mas à partida, ou seja, com coligações pré-eleitorais, eu acho que o PSD não deve seguir por esse caminho, porque isso é ficar demasiado à mercê do Chega. Desde logo, é dar a iniciativa ao Chega e isso pode ter ganhos eleitorais imediatos, mas a médio, longo prazo, terá mais custos para o PSD. Eu acho que esta é a decisão óbvia, mais racional e que trará mais vantagens e mais ganhos a médio prazo para o PSD. Por isso vou dar um 16 ao PSD por esta aparente decisão, tudo leva a crer que será de não ter coligações pré-eleitorais com o Chega para as autárquicas.
E Miguel, agora vamos até ao Parlamento, até ao presidente da Assembleia da República, que tem uma posição muito clara sobre a questão da designação da comissão parlamentar sobre umas irmãs que o tribunal considera que não devem ser designadas como gémeas.
A posição é: "Ponham-se no vosso lugar." E é dirigida ao Supremo Tribunal Administrativo. Está aqui em causa o nome que foi dado à comissão de inquérito. A mãe das gémeas, quando foi ouvida, pediu para não usarem a designação gémeas e anunciou que ia recorrer ao tribunal para que se mudasse o nome da comissão. Há uma designação longa e há uma designação curta. Há uma designação que é muito longa das comissões de inquérito e depois para aquilo ser inteligível, utiliza-se uma designação curta. E aparentemente a mãe recorreu da designação curta, mas o tribunal, já que estava ali e não tinha mais nada para fazer, decidiu também pronunciar-se sobre a designação longa e proibiu o Parlamento de usar a expressão gémeas. Diz que está em causa uma violação arbitrária do direito ao bom nome, diz que está em causa o direito ao anonimato das crianças e diz também que houve, no mínimo, um desleixo arbitrário do dever de cuidado, no caso, um cuidado acrescido, por se tratar do direito à não identificação de duas menores. E aqui a Aar Branco pergunta, e eu junto-me a essa pergunta: mas a palavra gémeas identifica alguém? O nome de alguém, o anonimato de alguém é violado por se usar a palavra gémeas? Mas quais gémeas? Quantas gémeas há? Não se usa nenhum nome próprio. Eu nem sei qual é o nome das gémeas, portanto nem sequer vou dar aqui exemplos de nomes próprios de crianças que pudessem ser usados.
Sim, raramente o nome destas irmãs, das gémeas, tem sido publicado nos jornais.
Podes pensar, se calhar, nas gémeas da Enid Blyton.
Das telenovelas, a gêmea boa e a gêmea má. Nem vou atirar para o ar nenhum nome, mas gémeas, obviamente, não identifica ninguém. Mas mais ridículo fica isto quando vemos qual foi o nome que o Supremo Tribunal Administrativo decidiu impor ao Parlamento para esta comissão, porque o tribunal não se limitou a dizer: "Não usem esse nome." Não.
Sugeria.
Com certeza.
Estão no negócio do naming também.
Com certeza, mas então os juízes do Supremo Tribunal Administrativo também têm a sua criatividade. E então a sugestão é: Comissão Parlamentar de Inquérito para Verificação da Legalidade e da Conduta dos Responsáveis Políticos Alegadamente Envolvidos.
Estás a inventar.
Não estou a inventar.
É porque isso nem cabe no horário da ARTV.
Não estou a inventar, estou a citar uma notícia.
Continue.
Mas o mais importante ainda não veio aí. O mais importante vem a seguir. Então, Comissão Parlamentar de Inquérito para Verificação da Legalidade e da Conduta dos Responsáveis Políticos Alegadamente Envolvidos na Prestação de Cuidados de Saúde a duas crianças tratadas com o medicamento Zolgensma. A duas crianças.
A reformulação é essa?
Sim, é substituir gémeas por crianças.
E não sei se introduzir mais 50 palavras.
Não será pisar a linha?
Com bons vícios.
É retirar crianças e pôr cidadãos.
Pôr 50 palavras onde bastava uma.
Mas eu até acho que o título longo também era longo, o título original.
Também era, mas esse bate recordes.
Mas de que maneira é que crianças protege mais o anonimato do que gémeas?
Há mais crianças do que gémeas.
Há, mas será que podíamos pôr seres humanos?
Gémeas é um grupo que está incluído em crianças.
Seres vivos. E aí tinhas o reino animal e o reino vegetal.
Nós normalmente costumamos dizer à política o que é da política, à justiça o que é da justiça. Costumam ser os políticos que dizem isto, mas acho que Ficaria bem a estes juízes terem dito a mesma coisa. À política o que é da política, à justiça o que é da justiça. E não vamos ter a justiça a meter-se na designação que é dada a uma comissão de inquérito da Assembleia. Quer dizer, se alguém no Parlamento cometer um crime de difamação ou algum outro crime que esteja-
Se o próprio nome da comissão podia acontecer, que não é o caso de todo, podia acontecer que o próprio nome da comissão violasse alguma regra, alguma lei. Agora é só uma questão de bom gosto, se quisermos até.
Alguma lei. Sensibilidade e bom senso.
O tribunal de gosto estávamos feitos.
Não, e tem.
Alguns deviam querer ir para o.
E agora podemos ter juízes do STA a pronunciarem sobre títulos de jornais, a proporem títulos alternativos para jornais ou para noticiários de rádios, por exemplo. Enfim, pelo menos há algo de bom que sai daqui. Aguiar Branco não fez de conta que este assunto não lhe dizia respeito. Hoje o tema vai ser debatido no Parlamento e Aguiar Branco vai apoiar aqueles que pretendem recorrer desta decisão.
Em conferência de líderes, amanhã.
Exatamente. Espero que, de facto, o Parlamento recorra, porque isto não é aceitável, e espero que a justiça funcione. Na justiça é assim, há decisões, há recursos e depois desejavelmente alguém virá equilibrar as coisas a seguir. Espero que isso aconteça, porque isto não tem pés nem cabeça.
E por isso vais dar nota a Pedro Aguiar Branco, é isso?
Vou dar um 18 a Aguiar Branco.
E não é uma positiva.
É verdade.
Não é uma positiva, é uma grande positiva.
Atenção, isto aqui está quase, nem sei o que está a acontecer neste programa. Com notas destas, não vamos lá.
Upa, upa.
Upa, upa.
É melhor fechar já isto.
Aguiar Branco foi muito sensato, falou com muito bom senso sobre isto tudo e por isso merece este 18.
Vamos então terminar em alta, um 18 para o presidente da Assembleia da República, no final deste "O Vencedor É". Vamos ver como corre amanhã. Até lá.