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Partimos para a análise e avaliação dos temas e protagonistas da atualidade com recurso a notas de 0 a 20. São hoje temas da edição da tarde de "O Vencedor É": a entrevista a Henrique Gouveia e Melo na SIC, a audição do novo governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, e o episódio ontem protagonizado por André Ventura durante a manifestação de imigrantes em frente à Assembleia da República. Se tempo tivermos, ainda vamos falar dos tempos da docência do Nuno Gonçalo Poças. São os temas escolhidos precisamente pelo Nuno Gonçalo Poças, pela Judite França e pelo Anselmo Crespo. Sejam muito bem-vindos. Anselmo, vou começar por ti e pela entrevista de Gouveia e Melo, em que o candidato do BE critica o que considera ser a partidarização das eleições presidenciais, define-se a este propósito como o único candidato verdadeiramente independente. É nesta declaração que queres pegar?

Sim, sobretudo na primeira parte da declaração, a segunda parte é menos surpreendente, por uma razão simples. Eu acho que há aqui um mistério que não ficou esclarecido nesta entrevista, que é o mistério do almoço em Torres Vedras, e não Torres Novas, como eu estou sempre a dizer.

Confirmado até por Gouveia e Melo.

Confirmado por Gouveia e Melo, e o mistério é este: Gouveia e Melo respondeu a esse almoço sem explicar pra que ele serviu. Ninguém acredita verdadeiramente que eles almoçaram só pra trocar uns cromos sobre política e tentar perceber em que estavam de acordo e não estavam de acordo. Objetivamente, aquele almoço só pode ter servido pra uma coisa, que era tentar convencer André Ventura a não avançar para Gouveia e Melo não ter que disputar o eleitorado que vai votar em André Ventura. O que é legítimo. Acho é que é bom que os eleitores tenham claro pra que aquilo almoço serviu e pra que isso serve. Mas já que André Ventura avançou, e é aí que eu acho que essa parte da declaração em que Gouveia e Melo diz que se assume e reafirma ao centro e um homem ao centro e muito longe do espectro eleitoral onde anda o Chega, é particularmente relevante. A única forma que Gouveia e Melo tem de ir à segunda volta e, já agora, ser presidente da República, mas sobretudo de ir à segunda volta, porque é isso que está em causa aqui, sobretudo com a quantidade de candidatos que existem, é secando o eleitorado do centro. E esse eleitorado do centro é o eleitorado que tipicamente anda entre o PS e o PSD. E, portanto, não há outra forma, não é indo buscar o eleitorado que exista à esquerda, que é cada vez menor, à esquerda do PS, e ir buscar o eleitorado que se deslocou pra direita com um candidato como André Ventura é particularmente difícil para Gouveia e Melo, como é evidente. Até porque essa é parte da estratégia de André Ventura assumidíssima, que é segurar o eleitorado que votou no Chega nas últimas eleições. E eu acho que isso explica depois a segunda parte da frase, que é: "Eu sou o único candidato verdadeiramente independente, não venho dos partidos", porque essa é a única forma que o Gouveia e Melo tem de se distinguir de António José Seguro e de Luís Marques Mendes. Curiosamente, o Luís Marques Mendes vai logo dizer uma coisa óbvia que é: "Não tem problema nenhum, eu posso ser um candidato do sistema, eu venho dos partidos." Agora, Gouveia e Melo tem, de fato, esse desafio. Eu continuo a achar que ele está muito bem posicionado para passar a uma segunda volta, mas eu não acho que sejam favas contadas, como foi no início, quando ainda ele não tinha apresentado a candidatura e já toda mundo assumia que o Gouveia e Melo ia ser o próximo presidente da República.

Estas sondagens assim o indiciam.

Pronto, precisamente por isto, porque ele precisa de ir buscar o eleitorado que vota no PS e no PSD. Quanto a esse encontro, ele pode não ter cumprido o primeiro objetivo. Agora eu vou especular. O primeiro objetivo parece-me evidente por aquilo que Gouveia e Melo disse, mas sobretudo por aquilo que ele não quis dizer, parece-me evidente que era tentar convencer André Ventura a não avançar. Mas eu acho que desse encontro pode ter saído, e veremos se a minha teoria da conspiração, e é só uma teoria da conspiração, se confirma, um acordo tácito, se lhe quisermos chamar assim, pra uma eventual segunda volta. É que eu tenho uma curiosidade: se André Ventura não for à segunda volta, o que ele faz? Que indicação de voto é que André Ventura vai dar numa segunda volta que seja entre Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou entre Henrique Gouveia e Melo e António José Seguro? O que André Ventura faz?

Eu acho que ele sabe que não vai ter esse problema.

Porque ele tá a assumir que vai à segunda volta.

Acho que sim.

Pronto. Mas pode acontecer.

Pode, claro que sim.

Em teoria, não somos nós que decidimos aqui o resultado das eleições. O que André Ventura faz? E eu vou só lembrar o que André Ventura disse na entrevista à CNN sobre Marques Mendes e sobre António José Seguro: "Só se eu estivesse maluco." Ele não disse o mesmo sobre Henrique Gouveia e Melo. E já agora também pra terminar, as críticas que André Ventura faz a Henrique Gouveia e Melo no lançamento da candidatura e o troco que Gouveia e Melo lhe dá esta semana, pronto, enfim, são críticas, é verdade. Mas vá lá, são festinhas. Eles estão a fazer festinhas um ao outro.

Achas que desse almoço pode ter saído também um eventual compromisso em caso de...

André Ventura iria almoçar com Marques Mendes? Iria almoçar com António José Seguro? Com Catarina Martins, acham que ia? Com António Filipe, também ia? Com Cotrim de Figueiredo, acham que ele ia? Eu acho que ele não ia almoçar com ninguém, com nenhum dos outros candidatos. E, portanto, veremos como é que as coisas decorrem. Eu também acho que há uma forte probabilidade de André Ventura ir a uma segunda volta, até porque eu acho que essa é a grande meta que ele tem nestas presidenciais. Qualquer coisa que não seja ir a uma segunda volta vai ser sempre lido como uma derrota, não por vontade nossa que estamos a comentar, mas porque foi o próprio André Ventura que colocou essa fasquia. Não que André Ventura sofra muito com derrotas. Ele também nas últimas presidenciais meteu como meta ficar à frente de Ana Gomes e depois não ficou, e não foi por causa disso que os elementos do Chega o castigaram de alguma forma ou ficaram desiludidos com ele. Mas essa foi a meta e a fasquia política que André Ventura colocou. E também tem graça que André Ventura, no lançamento da candidatura, coloca como fasquia

Passar à segunda volta, mas não coloca como fasquia ser presidente da República, por uma razão simples: porque ele não quer ser presidente da República.

Essa é a grande vitória dele, é conseguir ir à segunda volta e perder por pouco.

Claro.

Exato.

Portanto, acho que tudo isto é arriscado, mas também é curioso ao mesmo tempo. Acho que foi um almoço bem cozinhado.

Mas, Dita França, também queres analisar e avaliar esta entrevista de Enrico Gouveia e Melo com a TV Antena 1?

Sim, eu acho que a formulação para se mostrar fora do sistema, mas sem ser contra o sistema, foi uma boa formulação. Utilizou as expressões que eu apontei aqui, de que é independente, não tem fações, não tem condicionamentos e também não tem partidos. E mais expressões houvesse, teria usado, de certeza. E o argumento que vem daí dos partidos, porque de facto ele consegue meter todos os outros candidatos em caixinhas partidárias. Mesmo António José Seguro, que não quer estar dentro de uma caixa partidária, há de estar dentro dela. Portanto, é evidente que é fácil pôr todos dentro dessas caixas, nomeadamente André Ventura, e percebia-se que apesar das críticas não terem sido muito contundentes, Gouveia e Melo vinha com algumas preparadas para André Ventura. O que faz sentido, porque era preciso dar troco também depois daquela apresentação.

Notava-se que o media training tinha sido bom.

Tinha sido bom. Por acaso, também acho. Só acho que houve ali um momento em que o media training não foi tão bom, mas isso é preciso treinar, que é quando o Gouveia e Melo fica um bocado abespinhado com algumas perguntas. Fica um bocado irritado e isso notou-se e eu acho que é uma coisa que vai ter de trabalhar necessariamente, porque o jornalista vai lhe fazer 30 perguntas, 20 delas podem ser parecidas, exatamente sobre um tema que não queria muito falar, que era o tema do almoço, mas era inevitável que o tema do almoço fosse tema. E portanto, não pode ficar irritado, tem que manter serenamente o seu ar. Agora, esta questão de estar preparado para contra-atacar e falar naquilo que parece ser uma segunda volta das legislativas, eu achei que tinha sido bem apanhado, tinha sido uma frase bem pensada, porque de facto Gouveia e Melo é o único que não depende dos partidos e isso ele pode utilizar como uma espécie de coroa de glória. E se achar que isso é o que resulta junto do eleitorado, que eu acho que é o que Gouveia e Melo pensa, é que isso é o que mais resulta dentro do eleitorado, então, de facto, se acha que é superior a espaços partidários, aí temos que lhe conceder que de facto consegue andar nesse centrão entre o PS e o PSD. E também não lhe interessa ir muito para a direita, porque a direita está tomada. Agora vamos ver como é que corre a Gouveia e Melo os próximos passos e eu acho que isso está muito dependente também de André Ventura e eu acho que eles vão gostar de fazer este duo dinâmico do contra. Eu acho que eles vão gostar de fazer esse papel, que é o que lhes convém, digamos, ignorando olimpicamente todos os outros.

Todos os outros candidatos. Nuno Gonçalves, as notas desta entrevista de Gouveia e Melo.

Eu acho que, se calhar, outros candidatos podem até ter bastante a ganhar com isto, mas depende sempre de muita coisa. Eu tenho mais ou menos esta sensação desde o início. O Gouveia e Melo era um bom boneco, ou seja, era um bom produto vendável para uma eleição presidencial, sobretudo depois dos 10 anos de Marcelo. Enfim, nesta lógica de que normalmente o presidente que vem a seguir tem que ser de alguma maneira diferente do antecessor. As coisas não lhe começaram a correr muito bem a partir do lançamento oficial da candidatura e, portanto, quando era só uma ideia abstrata, sim, senhor. A partir do momento em que as coisas se tornaram mais concretas, tem vindo a cair um bocadinho e o lançamento da candidatura do André Ventura era natural e era expectável que acontecesse, mas mexeu com o jogo, isso é inegável. E se calhar aquilo que se retira ontem da entrevista de mais interessante, pelo menos para mim, é esta lógica de agora vamos tentar perceber quem é que é mais fora do sistema ou mais antissistema ou mais dentro do sistema. Mas isto é um tema que eu acho que vai ser importante até às eleições e todos, de alguma maneira, vão tentar explorá-lo. Não sei se o almirante Gouveia e Melo terá grande sorte com isto, porque, no fundo, até tem a ver com a descida das sondagens dele desde o momento da apresentação da candidatura. Eu acho que as pessoas percebem que alguém que pode dizer que não tem fação, não tem partido, não tem condicionamentos, ao que parece o homem não tem nada, mas no fundo, que é alguém que pairou, desceu dos céus e vem nos iluminar a todos porque sabe organizar filas e stocks. Mas quer dizer, o homem é apoiado financeiramente pelo dono de um dos maiores grupos de comunicação social do país. É apoiado em termos de comunicação e imagem por, aparentemente, um dos grandes assessores de imprensa, de comunicação, etc., que trabalhou para o governo, para vários líderes partidários. O mandatário da campanha é o Rui Rio A fila da frente daquela apresentação de candidatura era uma série de ex-dirigentes do PSD, do CDS, do PS. Aquilo é uma espécie do sistema, mas por outros meios. Havia uma banda punk antigamente, meio alternativa, que se chamava Renegados Bulikaim, e aquilo parece os renegados de qualquer coisa. Eles juntaram-se à volta ali daquela pessoa e falaram: "Nós vamos fazer dele presidente e está a surgir daqui qualquer coisa." Eu acho que o homem insuflou como uma rã na história. Insuflou e agora eu acho que as coisas vão desinsuflar aos poucos, um bocadinho, porque olhando bem para isto, acho que o Marcos Mendes fez lindamente. Se o Marcos Mendes aparecesse a dizer: "Não, eu também não sou do sistema. Também sou fora do sistema, também ninguém leva nada disto a sério." Mas, na verdade, olhando bem para isso, tirando aquelas candidaturas que se fala naturalmente menos e depois Catarina Martins, António Filipe, etc. Mas dos candidatos mainstream, vamos lhes chamar assim, se calhar, o candidato de quem o sistema menos gosta é o António José Seguro, nem sequer é o André Ventura. Também porque o André Ventura é muito interessante do ponto de vista mediático e gera audiências, é divertido, aquilo é entretenimento, de alguma maneira. O António José Seguro, de facto, o homem nem a oligarquia do próprio partido o consegue apoiar. Como é que se pode dizer que o António José Seguro é um homem do sistema? Por quê? Porque tem carreira política? Tem, mas pelo visto as pessoas não gostam muito dele. Esta disputa de quem é que é mais dentro ou fora, quem é que pode ser o tipo que aparece. Primeiro, eu acho que já toda a gente percebeu que isso é um critério importante e vai ser um fator eleitoral com relevância. Se calhar agora vamos andar aqui uns tempos, cada um a tentar afirmar-se de alguma maneira por essa via. Depois logo se verá, mas eu não olho para aquilo. O laserzinho foi bem escolhido pela sua imagem, parece uma farda, embora não estando fardado. Está tudo certo. Mas aquilo a gente espreme e não sai dali nada. Sai o Rui Rio, parece assim um pop-up. E no fundo é isso que faz saltar à vista das pessoas.

Vamos então às vossas notas para esta entrevista da Enrico Gouveia e Melo. Anselmo.

Eu vou dar, apesar de tudo, uma boa nota à entrevista, porque eu acho que a entrevista genericamente lhe correu bem, portanto eu vou dar um 12 à entrevista de Gouveia e Melo. Acho até que lhe correu melhor do que a primeira entrevista que ele dá à TVI. Sinceramente, ele estava mais solto. Na entrevista que dá à TVI, estava a falar para dentro, muito monocórdico, quase que adormecia toda a gente. Acho que ele fez quase tudo, tirando isto que a Judite dizia, que é irritar-se. Ele tem que aprender uma coisa, que é: ele pode não querer responder a uma pergunta, mas não pode impedir o jornalista de lhe fazer a pergunta. Portanto, ele só tem que encontrar a forma de responder o que ele quer responder, mas deixar que o jornalista não pode dizer: "Eu não vou responder a mais perguntas sobre esse assunto", porque isso é um problema dele, não é um problema meu.

Não é José Sócrates que fala.

Certo. Mas apesar de tudo, eu acho que genericamente a entrevista correu bem, aquilo não era uma entrevista, era um Ben-Hur, aquilo durou imenso tempo, mas 12.

Judite.

Eu ia dar um 13 a Gouveia e Melo, porque acho que de facto a entrevista correu-lhe bem.

Nuno.

Eu dou um 12 aos assessores.

Nuno, traz este vencedor a audição do novo governador do Banco de Portugal, várias declarações de Álvaro Santos Pereira que mereceram destaque na imprensa, boa parte com o destinatário, Mário Centeno.

Eu, se calhar, tinha que recuar aqui um bocadinho 14 anos, por causa daquilo que aconteceu hoje na audição. O Álvaro Santos Pereira foi alguém que apareceu, se calhar vou fazer aqui uma declaração de interesse. Eu não conheço o homem de lado nenhum, mas sempre tive muita simpatia por ele, pela pessoa pública e pela maneira como ele se comportava. Em 2011, mais ou menos há 14 anos, um jornalista qualquer que lhe perguntou se ele já estava habituado a ser tratado por "seu ministro". E ele disse no meio da rua: "Eu estou habituado a que as pessoas me chamem Álvaro." E isto na altura foi um bruá inacreditável. O professor Marcelo, ao domingo, resolveu perder bastantes minutos do seu tempo e do seu imenso intelecto por causa deste tema, porque aparentemente o Álvaro Santos Pereira foi a única pessoa em muitas décadas, imagino, que apareceu em Portugal, que estava habituado a que as pessoas o tratassem pelo nome. E, portanto, foi uma coisa muito inovadora. E não foi, ele esteve mais ou menos dois anos no governo, deixou bastante trabalho feito e bastante trabalho que não foi completado, numa altura complicada, bastante complicada. E nunca foi especialmente bem-amado, inclusive pela própria coligação, pelos partidos. E foi à vida dele. E foi à vida dele e não foi comentador televisivo, não foi parar a um lugar qualquer porque alguém o tinha nomeado. O homem pegou no currículo, enviou, foi fazer provas, entrevistas, aquelas coisas todas e conquistou um lugar numa instituição internacional, ainda por cima de prestígio. E tem estado na sua vida e agora, aparentemente, está na calha para ser governador do Banco de Portugal. E ao fim destes anos todos, eu estava a ver a peça do Observador sobre a audição e houve ali uma série de coisas que me fizeram lembrar outra vez aquele momento do Álvaro, o alienígena, em que alguém que lhe pergunta se fosse ele, a pergunta é: se fosse o Álvaro Santos Pereira, Mário Centeno ficava, ou seja, se você fosse Mário Centeno, ficaria agora ou não no Banco de Portugal, como muitos governadores já fizeram. Acho que só houve dois que aparentemente não o fizeram, Vítor Constâncio e o Carlos Costa, salvo erro. Pelo menos foi o que li na peça, que não ficaram naquele lugar de consultor do Conselho de Administração do Banco de Portugal, uma coisa remunerada da mesma forma e que nunca mais ninguém se lembra daquelas pessoas, mas continuam lá. E ele disse Cada um faz o que entende, mas se fosse eu não ficava. E eu olhei pra aquilo e pensei: "O homem vai ser torcido." Eu te expliquei que é capaz de não lhe correr muito bem. E depois houve outro episódio. Eu até tinha ouvido na rádio à tarde as declarações e por causa disso é que depois fui ver a peça toda. Por causa do deputado Carlos Pereira, do PS, que estava um bocado indignado porque achava que o Álvaro Santos Pereira não garantia condições de independência ao governador do Banco de Portugal. Porque aparentemente o Álvaro Santos Pereira falou da situação de bancarrota vivida em 2011, após vários anos de governação socialista marcada por corrupção e políticas públicas despesistas e irresponsáveis. E o deputado Carlos Pereira diz que não houve bancarrota, não houve um quadro de insolvência, houve uma assistência financeira. Um governador indigitado não deve e não pode usar este tipo de discurso que diz pertence mais à esfera das tascas e dos cafés, e não à Assembleia da República. E portanto, por isto não é independente, porque usou várias expressões carregadas de considerações de índole partidária. E isto parece-me outra vez aquela coisa do guerra é paz e o bom é mau, e isto no fundo é aquilo que nós quisermos. E portanto, o deputado Carlos Pereira, que viu o ministro das Finanças do governo do partido que ele apoiava ser indigitado governador do Banco de Portugal, achou que o Mário Centeno tinha condições de independência para exercer o cargo.

Saindo diretamente do governo.

Saindo diretamente do governo, sim. Mas o Álvaro Santos Pereira, que vem lá já nem sabemos bem de onde, que não foi militante de nenhum partido, foi ministro há 12 anos, a última vez, ou 13, não pode porque o homem acha que em 2011 nós estávamos na bancarrota e tinha havido políticas despesistas e atos de corrupção, que por acaso até estão a ser julgados. Isto encanta-me, porque acho tão maravilhoso. É sempre de uma lata especial. Parece-me um bocado aquela cena dos miúdos de 14 anos que vão roubar supermercados. Há ali um ar de inimputabilidade. Parece que é de fazer malandrice pela malandrice, porque no fundo ninguém vai fazer nada. O André Ventura faz mais ou menos a mesma coisa em muitas coisas também. E o deputado Carlos Pereira, que também já tem algum historial de coisas discutíveis, hoje teve este momento que eu achei muito querido, mas fiquei um bocado surpreendido. Eu vou dar uma nota positiva ao Álvaro Santos Pereira, porque acho que ele mais uma vez traz algo. O homem diz o que lhe apetece e eu acho que isso é bom, em geral. O Carlos Pereira também diz o que lhe apetece, só que normalmente não faz muito sentido, mas não lhe vou dar nota a ele.

Anselmo Crespo, foste surpreendido por algumas das declarações feitas por Álvaro Santos Pereira ontem durante a audição no Parlamento?

Não diria propriamente surpreendido, mas eu acho que nessa parte em que ele se refere a Mário Centeno, dizendo que se fosse ele não ficava, é claramente uma forma de pressão.

Condicionar.

E também me parece que não quer ser injusto.

Condicionar a quem quer.

Como é evidente, mas eu acho que faz parte desta guerrilha que o PSD e este PSD de Luís Montenegro, em concreto, tem com Mário Centeno, que já vem muito detrás, que levou, aliás, à não recondução de Mário Centeno. Pareceu-me que Álvaro Santos Pereira vestiu essa camisola e pôs-se do lado claramente do governo para tentar empurrar Mário Centeno pra fora do Banco de Portugal. E portanto, se queres saber, também não acho propriamente que passe uma boa primeira impressão, quando se está pra assumir um cargo, que a principal preocupação de quem vai assumir o cargo seja tentar escorraçar do Banco de Portugal a pessoa que lá estava antes.

Mas a resposta foi simples. A resposta é esta: se fosse eu não o faria, mas cada um faz o que quer.

De acordo.

É uma tentativa de condicionamento.

Sim, é uma tentativa. Tenta estabelecer ali um padrão de comportamento.

Está bem, mas se fosse eu faria.

Isso é certo. Até precisas consultor, ele não tem que ser consultor. Mário Centeno pode regressar ao departamento de estudos do Banco de Portugal, não tem que ser consultor.

Há mil formas de dar essa resposta. Isso é uma decisão de Mário Centeno, eu respeitarei qualquer que seja a decisão. Já não parecia uma tentativa de condicionamento. Certo? Eu só estou a tentar explicar que, do meu ponto de vista, a forma como o Álvaro Santos Pereira responde é claramente tentar condicionar a decisão de Mário Centeno. Mas é legítimo. Se me diz assim: eu acho que é uma boa primeira impressão pra alguém que vai assumir o cargo de governador. Não. Ainda por cima, porque eu acho que essa guerrilha entre o governo e Mário Centeno, e estas coisas: "Mário Centeno andou a fazer política". Pronto, já analisamos isso tudo. Mário Centeno já não foi reconduzido. Há de tomar uma decisão sobre a vida dele. Há um novo governador pra entrar. Vamos virar a página. Isto é daquelas coisas intestinas da política, que agora vão ficar sempre ali atravessadas. Eu não estou com isso a dizer que Mário Centeno não esteve mal em várias situações enquanto governador do Banco de Portugal e que fez política, de facto, e que foi pra lá daquilo que eu acho que é o papel do governador do Banco de Portugal. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Tem, tem.

Não. Está bem. O que eu estou a dizer é que eu estou-me a centrar em Álvaro Santos Pereira. O que eu estou a dizer é: se eu preferia que Álvaro Santos Pereira tivesse dado outra resposta, no sentido de não tornar aquela resposta notícia nacional como acabou por tornar. Tu próprio dizias, eu quando li que ele tinha dito isto, achei logo que ele ia levar nas orelhas e que ia ser muito criticado. Pelo contrário, até do que tenho ouvido, ele tem sido mais elogiado por ter dito isto do que criticado, ainda hoje de manhã aqui na Rádio Observador. Portanto, acho só que é desnecessário, acho que é daqueles temas que às pessoas não interessa rigorosamente nada, é uma coisa aqui da nossa bolha política e que o povo lá fora está perfeitamente a marimbar pra isso. Do mais, concordo com tudo o que o Nuno disse. Acho que Álvaro Santos Pereira tem mais do que currículo. Acho que Álvaro Santos Pereira fez um trabalho até muito invisível no governo. O Nuno estava a falar que ele era tão mal-amado, sobretudo pelo CDS, que odiava Álvaro Santos Pereira, que quando há a crise do irrevogável e depois o governo é refeito e Paulo Portas passa para vice-primeiro-ministro, uma das condições de Paulo Portas é ficar com o Ministério da Economia, que entrega a António Pires Lima. E a primeira coisa que essa remodelação tem foi um reforço de poder do ministro da Economia, porque, na verdade, Álvaro Santos Pereira não tinha os fundos comunitários, não tinha uma série de tutelas que dão poder político a um ministério ou não, podem dar ou podem retirar, se não existirem. E a primeira coisa que Paulo Portas fez foi negociar, na altura, um reforço de poder para o Ministério da Economia e para António Pires Lima, que se tornou um superministro, ao contrário de Álvaro Santos Pereira. Portanto, daqui pra frente, eu só acho é que uma instituição como o Banco de Portugal, que é tão importante, precisa também agora de alguma paz para depois podermos avaliar o desempenho de Álvaro Santos Pereira à frente do banco.

Judite.

Eu vou me repetir em relação a ontem, mas eu acho que a frontalidade é sempre muito refrescante e eu acho que Álvaro Santos Pereira mostra que é independente e que é transparente e que diz mais ou menos aquilo que pensa, com poucos punhos de renda. Isso é um facto.

Então vamos lá às vossas notas. Nuno.

Eu dou um 13 ao Álvaro Santos Pereira.

Anselmo?

Eu vou dar um 11, também não lhe dou uma nota negativa, porque eu acho que ele, tirando isto que eu apontei, não esteve particularmente mal e o 11 é um bocadinho de expectativa em relação ao que vai ser o mandato dele.

Judite Cordeiro.

Eu dei ontem, não quero dar outra vez, porque já não me lembro qual foi a que dei.

Está na lei, não podes dar duas vezes.

Não posso dar duas vezes.

Então, vamos aqui muito rapidamente. Nós temos dois minutos e meio, sensivelmente. O Anselmo ainda queria trazer aqui o tema de André Ventura, que ontem saiu do plenário na Assembleia da República para se deslocar até ao exterior, onde corria uma manifestação de imigrantes. Anselmo.

Vou tentar não me repetir em relação ao que já foi dito hoje de manhã, assumindo que os ouvintes da Rádio Observador são muito fiéis e portanto ouvem tudo. Mas é impossível uma pessoa olhar para aquilo e não pensar que André Ventura está claramente a tentar criar o tal momento Mário Soares da Marinha Grande das eleições de 86. Mas mais do que isso, que nada daquilo que aconteceu ontem, como noutras situações similares, como os vídeos a fingir que estava a pegar fogos, nada daquilo acrescenta rigorosamente nada ao debate político e àquilo que o país precisa. Tudo aquilo é uma encenação, tudo à volta de André Ventura é uma encenação. Depois nós todos, acho eu, concordamos que ele é um excelente ator, é um excelente comunicador, é uma pessoa inteligente. Todos nós concordamos sobre isso, mas quando esprememos, é impossível uma pessoa não pensar o que há ali. Se aquele homem quer, de facto, ser primeiro-ministro e tudo isto são estratégias para lá chegar, tudo isto são rampas de lançamento para lá chegar, eu acho que esta tentativa de ir à manifestação lhe correu particularmente mal. Conseguiu, ainda assim, aquele granel todo à volta dele e conseguiu sentir-se ameaçado e insultado, que era basicamente o que ele queria, era aparecer na televisão naquele contexto, idealmente alguém lhe desse um banano, mas ninguém lhe fez esse favor. Mas quando nós pensamos verdadeiramente no contributo que André Ventura e o Chega têm para dar ao país, esprememos e não sai uma gota. E portanto, acho que isso também representa muito a degradação da forma de fazer política.

Nuno, alguma coisa? Não. Judite, também não. Ficamos então por aqui na edição de hoje de "E o Vencedor é".