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E o "Vence Doré" na Rádio Observador, agora com Judite França, Anselmo Crespo e Nuno Gonçalo Poças. Temos de falar sobre a situação no Partido Socialista depois das eleições autárquicas. O PS anda à procura de uma reflexão interna, à procura de caminhos. E também temos hoje notícia de uma central de comunicação que o governo está a criar para uma nova tentativa de centralizar a informação e controlar a informação que vai saindo do governo. Vamos começar pelo Partido Socialista. Anselmo Crespo, começamos talvez por Ricardo Leão. Deixa-me fazer-te a pergunta assim: o PS retira algum ensinamento da vitória de Ricardo Leão em Loures?

Vou responder-te com um desejo. Boa tarde, antes de mais. O meu desejo é que sim. Não porque seja do PS, mas porque acho que o PS é um partido fundador da democracia, muito importante no nosso sistema político e, portanto, acho que era fundamental que o PS retirasse algum ensinamento. Aquilo que eu intuo é que não. E este não, não tem sequer a ver com o próprio líder do Partido Socialista, com José Luís Carneiro, tem a ver com aquilo que tem sido uma sucessão de declarações públicas de vários socialistas nos últimos dias, depois do resultado das eleições autárquicas, o último dos quais ainda há uns minutos, aqui João Costa na Rádio Observador, em que não parece que o partido, pelo menos aqueles que são mais audíveis, e o partido é muito grande e tem muita gente, esteja propriamente a tirar ilações sobre o caso de Loures, mas mais do que o caso de Loures, porque eu também separo aquilo que foi o episódio da demolição das barracas, daquilo que Ricardo Leão disse esta semana aqui na Rádio Observador sobre a classe média, sobre a necessidade do Partido Socialista mudar a bússola, estou a citá-lo. Não parece que a maior parte dos intervenientes do Partido Socialista estejam muito convencidos de que é preciso mudar a bússola. Pelo menos eu não vejo esses sinais. E como do lado do líder do Partido Socialista, ele fez questão de se rodear numa espécie de ato magnânimo de todos aqueles que vinham trás e que trouxeram o Partido Socialista até ao estado em que está, e não rompeu de todo em todo com esse passado, eu não intuo que isto vá correr muito bem para o Partido Socialista. Não sei se me faço entender. Porque o problema do Partido Socialista não é apenas estar deslocado da realidade e descolado da vida das pessoas e afastado cada vez mais da vida das pessoas. Nós nas últimas legislativas debatemos muito o eleitorado jovem que não votava no Partido Socialista. Nestas eleições autárquicas, é o eleitorado jovem, o eleitorado urbano, a classe trabalhadora, a classe média, quem é que está a votar no Partido Socialista? A minha questão para o Partido Socialista é: quem é que está com o Partido Socialista? E termino com isto, que é: parte do erro fundamental que eu vejo nestas vozes todas que eu tenho ouvido nos últimos dias, passa por achar que o problema do Partido Socialista é não conseguir uma coligação ainda mais alargada à esquerda. Repara.

Com a CDU?

Sim, no caso das autárquicas, com a CDU, no caso de outras eleições quaisquer, a grande teoria é a esquerda tem que se unir e o Partido Socialista tem que ser o grande motor da esquerda. Ora, eu acho exatamente o contrário. Eu acho exatamente o contrário, no momento em que claramente há um deslocar do eleitorado do centro, da esquerda, obviamente, mas sobretudo do centro para a extrema-direita, para uma das pontas do espectro político. E esse partido, que é o Chega, está claramente a tentar polarizar a sociedade. Então a estratégia do Partido Socialista é colocar-se no outro lado da trincheira? É isso o melhor que o Partido Socialista tem para dizer ao país? É que objetivamente os portugueses passam a ter duas trincheiras por onde escolher? E deixa o centro a quem?

Sendo que a liderança do Partido Socialista não se coaduna com essa ideia de trincheira.

E aí entramos em José Luís Carneiro, que não é esse perfil, nunca foi, mas que tem aqui uma decisão difícil para tomar, que é: se olharmos para a comissão política de José Luís Carneiro, estão lá todos. Todos os nostálgicos da geringonça estão lá. E eu percebo, foi um período, para esses dirigentes do Partido Socialista, foi um período que eles recordam com orgulho. Agora, há uma coisa que me parece óbvia, que é: António Costa, é verdade que deixou o país a crescer, mas deixou uma economia muito pouco produtiva. É verdade que deixou as contas públicas, os cofres do Ministério das Finanças, quando lá chegou Luís Montenegro, estavam forrados a dinheiro. Mas deixou uma classe média absolutamente dizimada por impostos. Empresas, jovens, classe média, aqueles que de fato fazem a economia funcionar, estão basicamente esmagados, como diria Sérgio Sousa Pinto, com o Estado sentado em cima, permanentemente. E depois, ainda tens o próprio Partido Socialista completamente reduzido a pó. O que António Costa deixou foi terra queimada dentro do Partido Socialista. Eu não estou a dizer que ele fez de propósito, mas que foi esse o resultado, foi. Depois da maioria absoluta, que cai de forma inesperada como caiu, o Partido Socialista ainda se aguentou ali naqueles três meses ou quatro meses a seguir com Pedro Nuno Santos, que tem um resultado quase de empate em que A maior parte dos eleitores ainda estava na dúvida se o candidato era Pedro Nuno Santos ou se era António Costa, ou seja, ainda beneficiou muito da imagem de António Costa, e um ano depois foi reduzido ao resultado mais humilhante da história. Se perante isto, ainda há dentro do Partido Socialista quem ache que a melhor estratégia é mesmo coligar-se com o Bloco de Esquerda, que é uma inexistência, e com o PCP, que está quase a desaparecer, e com o Livre, então boa sorte com essa estratégia.

Nuno Gonçalo Passos, achas que o PS está a aprender alguma lição ou não?

Eu acho que o PS, em regra, tem grandes dificuldades em aprender lições e perceber aquilo que lhe aconteceu em determinadas alturas. Mesmo a geringonça eu acho que tem uma fama maior do que aquela que merece. Muito provavelmente, o António Costa desfiou o primeiro governo da geringonça numa altura em que o país tinha recuperado da bancarrota, o desemprego estava a crescer, o emprego estava a subir, o crescimento económico estava a aumentar, gradualmente desde 2014, mas em 2015 as condições eram essas. As condições de financiamento externo eram muito melhores. Havia o quantitative easing e portanto havia uma série de condições de acesso aos mercados que também não tinham existido nos anos anteriores. E na verdade, aquilo foram seis anos de reversões e distribuição, com o acordo semi tácito que era: nós ao mesmo tempo que vamos fazer estas coisas, vamos estrangular o investimento público, vamos deixar de investir nos serviços. E ao fim daqueles oito anos, eu acho que o balanço ainda está por fazer, porque a geringonça lá está e continua a ter mais fama do que nós tivemos proveito dela. Mas os nostálgicos, de facto, como dizia o Anselmo, continuam por aí. E José Luís Carneiro, de facto, também não tem a vida muito facilitada, tal como também não teve António José Seguro entre 2011 e 2015. O primeiro filme do Leonel Vieira chama-se "A Sombra dos Abutres". Eram dois tipos perfeitamente normais, apolíticos, etc., que às tantas são perseguidos pela polícia política do antigo regime. Eu acho que é mais ou menos isso que vai acontecer a José Luís Carneiro, tal como aconteceu a António José Seguro. Há sempre alguém, o fiel escudeiro, a guarda pretoriana do PS, que normalmente faz questão de arrumar com essa conversa. Mas eu acho que, de facto, os resultados, e nós falámos aqui sobre isso domingo à noite, sobretudo os resultados de Lisboa comparados com os de Loures, acho que são muito evidentes. De facto, nota-se em Lisboa, o presidente de câmara que estava sob pressão, sobretudo desde a questão do elevador da Glória. Supostamente, Lisboa era uma cidade onde ninguém conseguia viver, há lixo por todo lado, este presidente é uma nódoa, ninguém gosta dele. Eu acho que até o seu próprio eleitorado mais ou menos fiel também não ia votar nele com grande convicção. Mas a verdade é que Carlos Moedas teve uma votação superior à que teve há quatro anos. O PS com o Bloco, com o Livre e com o PAN conseguiu baixar a votação. O PC manteve-se e, na verdade, eu acho que também está a fazer uma escolha inteligente, que é fazer prova da sua própria vida, indo a eleições sozinho.

Vários dirigentes do PS, e o Anselmo referiu, atiram claramente culpas para a CDU, para o facto da CDU não ter estado em Lisboa.

Pois, mas a questão é: será que se a CDU se tivesse unido àquela coligação, o resultado teria sido a soma que nós agora podemos fazer? O todo pode não ser igual à soma das partes.

Eu digo isto porque não há um mea-culpa, a culpa é mais da CDU.

A resposta é assim, exato. Mas é isso, eu acho que o PS, como o PSD, são partidos muito portugueses, porque são partidos grandes, e agora o Chega também. Atirar a responsabilidade para cima dos outros também é uma coisa muito portuguesa.

A culpa é deles.

Exatamente. Mas o PS em Loures, além do extraordinário resultado que teve contra muitas das previsões.

Desculpa, e com o Chega em segundo.

Com o Chega em segundo.

Esse resultado é ainda mais extraordinário, tendo em conta que o Chega dá um salto em Loures monumental.

Certo. E o PC cai bastante, sobretudo para aquilo que já teve noutros tempos. Mas na Junta de Freguesia de Camarat, Oings e Apelação, que é a freguesia das barracas, aquela coisa das demolições, etc., e que o Ricardo Leão andava ali a gerar grande estrago naquilo. O PS teve 5227 votos, portanto são 40% dos votos. O Chega fica em segundo com 29,26, o PSD com 11,59, o PC com 11,23 e o Bloco de Esquerda, o Livre e o PAN coligados tiveram 264 votos. Era aquilo que dizia o Anselmo, o PS tem que escolher: ou quer estar com o Bloco, com o Livre e com o PAN, ou quer estar consigo próprio, sendo que o PS terá que ser outra coisa daquilo que tem sido nos últimos anos. Mas se quiserem continuar como estão.

Vamos deixar ainda o Duarte Crato para a segunda parte do "O Vencedor é", mas Judite, temos falado aqui na tarde política com vários dirigentes socialistas e passa um bocadinho esta ideia de que a vitória de Ricardo Leão parece que não faz cair nenhuma ficha no PS.

Não sei, eu sou mais otimista, se calhar, e acho que mais cedo ou mais tarde essa ficha vai cair, porque prova-se à evidência, pelos resultados, que Ricardo Leão está certo no diagnóstico que tem feito. Pode-se concordar ou não se concordar, mas as pessoas que moram ali reveem-se naquilo que Ricardo Leão diz e faz. Nós podemos não gostar e podemos discordar dessas pessoas, mas são elas que votam e está decidido. E eu acho que se Ricardo Leão servir para repensar o PS, é bom, porque vocês recordam-se quando, depois do descalabro das eleições legislativas e no período em que se posicionava um novo líder e em que não apareceu mais ninguém, a não ser José Luís Carneiro.

Desculpa, eu avalia a expressão para não aparecer mais ninguém.

putativamente poderia aparecer, dizia que era preciso repensar o caminho, repensar o rumo e que não devíamos ir a correr para novas eleições internas. Está agora uma ótima altura para fazer essa reflexão interna e para pensar naquilo que correu mal nas legislativas e nas autárquicas. E portanto, se é preciso empurrar o PS a fazer essa reflexão e se é um autarca que o consegue, eu não vejo nada de mal nisso, até acho que é muito positivo. É o autarca do concelho mais populoso que o PS conseguiu nestas eleições e portanto acho muito útil que o PS repense as suas prioridades. Citaste há pouco o que Ricardo Leão disse aqui à Rádio Observador, que diz que a classe média foi completamente esquecida, esmagada, e isso é uma evidência. João Costa disse-nos ainda há pouco exatamente o mesmo, que concorda com isso, mas depois não concorda com o caminho que Ricardo Leão decidiu trilhar. Eu acho que não se pode concordar com uma coisa e não se concordar com outra. Ou então é preciso uma terceira alternativa, que eu não estou a ver, e pode existir. E acho que essa alternativa, então, que se apresente agora e que faça essa reflexão interna. Desculpa, só para terminar. Há só um problema nas reflexões internas muito ideológicas e intelectuais, que é a falta de adesão à realidade no terreno, que eu acho que é uma coisa que os autarcas têm como ninguém.

Ia só dizer uma coisa na sequência do que a Judite estava a dizer, que é: Ricardo Leão diz uma outra coisa aqui na entrevista à Rádio Observador, que é: a justiça social não pode ser só para alguns. E eu agora vinha ouvir João Costa a caminho daqui e ele falava da questão do humanismo, que aquilo que o separava de Ricardo Leão é a questão do humanismo. Eu tenho uma dúvida existencial quando se usa esta cartada do humanismo, mas nós só somos humanistas para uns? Ou seja, o humanismo é só para uns, não é para todos? Se há uma questão de injustiça social que existe. Eu decido ser humanista com uns, mas decido não ser humanista com os outros. Portanto, eu acho que o PS tem mesmo que repensar toda a sua linha de atuação e sair lá da sua torre de marfim, onde está lá ideologicamente a pensar como é que o partido pode ser ainda mais humanista, quando depois na realidade, cá embaixo, há uma população que está literalmente dividida entre o nós e o eles, os que cumprem e os que não cumprem.

Aí eu acho que é a vantagem de José Luís Carneiro, que também foi presidente de câmara de Baião. Talvez também tenha uma maior adesão à realidade e esse conhecimento do terreno.

Vamos pegar no que disse Duarte Cordeiro. Estamos na expectativa sobre o que dirá daqui a pouco na Vista e Suave. A entrevista começa mais ou menos daqui a uma hora. Anselmo, Duarte Cordeiro classifica o resultado eleitoral do PS nestas eleições autárquicas como uma derrota inequívoca.

Sim, não diria o mesmo se estivesse na direção do líder do Partido Socialista, tal como Pedro Nuno Santos não disse o mesmo quando teve as suas derrotas. Ainda assim, acho que é uma derrota, como é óbvio, mas objetivamente, o Partido Socialista sai destas eleições autárquicas de pé, ao contrário das últimas, onde saiu basicamente no chão. E, portanto, eu acho que o Partido Socialista devia se dedicar menos a tentar classificar se isto é uma derrota ou uma vitória, se é mais ou menos humilhante, se é mais digna ou menos digna. Acho que deve olhar para estes resultados, perceber que o ponto de partida objetivamente não era bom e o ponto de partida aqui não é necessariamente as últimas eleições legislativas. O ponto de partida aqui é o Partido Socialista tinha tido uma vitória esmagadora em 2021 e portanto seria muito difícil repetir esse resultado, por um lado. Por outro lado, mais de uma centena de autarcas que estavam em fim de mandato, mais de metade dessa centena de autarcas eram do Partido Socialista. Portanto, todos os desafios aqui indicavam, tudo confluía para que o Partido Socialista não pudesse repetir, pelo menos, o resultado que tinha tido há quatro anos. Depois a dúvida era se ganhava o número de câmaras suficientes para ter a Associação Nacional de Municípios ou não. Estou um bocadinho como Rui Moreira, acho que dizia no outro dia, completamente irrelevante quem é que tem a Associação Nacional de Municípios e essa contagem. Acho que é, de todas as análises, a menos relevante que se pode fazer numas autárquicas.

Mas o PS sempre usou isso como bitola, não é?

Sim, claro, nós é que somos o presidente da junta. E acho que há duas leituras que o Partido Socialista devia estar a fazer, em vez de estar entretido aqui a atirar de um lado e do outro da trincheira: "Não, perdemos. Não, não foi uma derrota assim tão grande. Não, mas ganhamos." Que é a perda de eleitorado urbano, por um lado, e sobretudo, por outro lado, o Partido Socialista devia estar a olhar para o que correu mal em Lisboa e Porto, sobretudo em Lisboa. É porque em Lisboa, pegando outra vez no que o Nuno dizia há bocadinho, em Lisboa, não só não é líquido que se o PCP tivesse ido naquele comboio, o Partido Socialista tinha ganho a Câmara de Lisboa, como eu digo mais, o grande problema em Lisboa tem a ver com o perfil da candidata escolhida para Lisboa, não tem a ver com estar lá o PCP ou não estar lá o PCP. Provavelmente, se lá estivesse o PCP, o número de votos que o PCP teve não seria transferível para essa coligação. E, portanto, o que eu sinto é que há aqui, primeiro adentro do Partido Socialista, muita gente não gosta do estilo do José Luís Carneiro, até gosta dele pessoalmente, não gosta do estilo do José Luís Carneiro. Foram muitos esses mais próximos de António Costa que depois das últimas eleições legislativas, naquilo que a Judite estava a lembrar há pouco, vieram dizer Que não havia debate interno, que o José Luís Carneiro estava com muita pressa. Vieram criticar a pressa com que José Luís Carneiro se apresentou e depois acabaram por recuar e ninguém se chegar à frente. José Luís Carneiro tentou fazer a síntese disso, tentou unir o partido e provavelmente no próximo Congresso do Partido Socialista nós vamos ver essa tentativa outra vez. Eu percebo a intenção. O que temo é que José Luís Carneiro esteja a tentar ser a única pessoa no mundo que consegue andar entre os pingos da chuva sem se molhar e acabe mesmo por se molhar nesse seu esforço de unir o partido.

O meu pai, no início do mandato do José Luís Carneiro, uma vez mandou uma mensagem a dizer que tinha acabado de ver uma entrevista dele a uma televisão qualquer e mandou uma mensagem a dizer qualquer coisa assim: "Estive a ver o José Luís Carneiro, parece-me um tipo ponderado, equilibrado, que sabe ao que vem, que sabe o que diz. Não entusiasma especialmente, mas de resto fiquei bastante convencido. Portanto, é provável que não dure muito tempo." Eu acho que é mais ou menos isso que lhe está a acontecer. O PS ganhou Faro, ganhou Évora, ganhou Coimbra, ganhou Viseu, ganhou Bragança, esteve a um passinho de ganhar Braga.

Não esteve muito longe de ganhar o Porto, também.

Não esteve, apesar de tudo, muito longe de ganhar o Porto, é verdade. Tem um resultado que eu acho bastante simpático para o resultado das autárquicas, e mesmo considerando as últimas autárquicas e que o Anselmo estava a dizer, muitos mandatos em final dos 12 anos, muita gente a sair, etc. Acho que não é um resultado nada humilhante, é bastante digno. Se quisermos pôr isto aqui só em termos de vitórias e derrotas, claro, é derrotado, não ganhou, não ficou em primeiro. Não tem não só a presidência da Associação Nacional de Municípios, mas também dessa grande instituição que é a ANAFRE. Nunca esquecer que a Associação Nacional de Freguesias também é uma coisa bastante importante e que nunca é utilizada como argumento retórico.

Se olhares para esses conselhos que falaste e alguns eram conselhos sociais-democratas e alguns eram conselhos sociais-

Históricos.

Exatamente. Ganhou Viseu, não é?

Sim, e curiosamente ganhou Viseu num sítio onde o candidato do PS até dizia que não havia linhas vermelhas para nenhum partido. Isso também é um dado curioso, que já agora também podia ser útil. Mas o PS está um pouco uma espécie de fungo H da bicharada. Se eu fosse militante do PS e tivesse que lhes dizer qualquer coisa, provavelmente isto vai fazer ao contrário, porque o que eu tenho para dizer não será nem ouvido, nem seguido.

Acho.

Acho. Mas provavelmente o meu conselho seria que o PS precisa de mais carneiro e menos cordeiro, e mais leão e menos leitão.

Pronto. Isso dá um título incrível. Bom, vamos a notas. Notas para o PS, Anselmo. Temos que mudar de tema.

Eu para já dou um nove ao PS, porque eu não vejo o partido propriamente a fazer o que tem que ser feito, mas dou um nove dando o benefício da dúvida.

Nuno.

Eu dou um 11 ao PS, apesar de tudo, acho que as coisas não correram nada mal.

Teve um sufo menos.

É um sufo menos, sim.

Eu vou subir a nota, eu dou um 12.

Um 12, ok.

Um 12, porque acho que objetivamente estarem a pensar sobre o assunto já é bom.

E agora vamos à Central de Comunicação do Governo.

Isso é o que nós chamamos, não é? Nós chamamos Central de Comunicação.

Nova tentativa. Terceira tentativa.

Para quem não se recorda, Central de Comunicação é uma coisa de Santana Lopes. Tinha esse nome, é de 2004. Eu fui à procura de notícias sobre esse tempo, porque não me lembrava de alguns detalhes. Ia custar 2 milhões de euros, isto em 2004. Atenção, era caro.

Caro.

Era caro. Ia ficar na dependência de um ministro. Na altura foi vetado por Jorge Sampaio, que achou que era um desperdício de dinheiro. E de facto ia ser, porque o governo também não ia durar muito tempo.

Certo.

Atenção, aquele governo tinha tantos problemas de comunicação, não sei se uma central resolveria ou se não resolveria. Mas eu confesso que quando vi esta notícia, e isto vai se chamar Secretaria-Geral Adjunta para a Comunicação Institucional, não me pareceu mal. Ou seja, não me pareceu mal que haja, de alguma forma, uma coordenação mais técnica, porque aquilo que se pode ler da nossa notícia, a coordenação política vai continuar nos gabinetes dos ministros. A parte da coordenação política da assessoria e a central de comunicação fica encarregada de dar os melhores meios técnicos possíveis aos governantes. Também não me parece mal, porque há governantes que precisam de ajuda.

O quê, microfones?

Não. Por exemplo, saídas técnicas. Saídas técnicas não há propriamente uma equipa que faça essa saída, a não ser para o primeiro-ministro. É uma coisa importante preparar o terreno para onde vai um ministro, por exemplo, e há vários casos desses, se atrapalham completamente a falar aos jornalistas, não conseguem passar a mensagem. Isto não me parece mal, está na dependência da Secretaria-Geral do Governo. Essa própria estrutura era para concentrar vários organismos da administração pública, dependentes do Executivo. À partida, sem saber muito mais do que isto, parece-me bem.

Anselmo Sobre a central de comunicação, eu não tenho nada contra. Acho, aliás, que quanto mais profissional for a comunicação de um governo ou de uma empresa, do que for, melhor. Eu só achei que, provavelmente desde Santana Lopes, os governos cometem sempre o mesmo erro, que é tentar profissionalizar a comunicação bem, mas não perceber que a parte da comunicação política é normalmente o que estraga a parte profissional da comunicação. E esta central de comunicação, ou agência para comunicação, o que seja, para já parece-me começar bem, porque tem uma pessoa que eu respeito muito e que admiro muito e que nem sequer se pode dizer que seja propriamente uma nomeação partidária, que é o Daniel do Rosário, que vem com muita experiência, teve muitos anos na Comissão Europeia.

É isso.

Foi porta-voz de comissários europeus, portanto, tem um mundo que eu acho que pode ser muito útil.

Foi jornalista na Renascença, no Expresso.

Foi jornalista na Renascença, no Expresso, mas depois, quando entregou a carteira, esteve muito tempo como porta-voz da Comissão Europeia.

E vai trazer, pelo menos é o que dizem, trazer essa experiência da Comissão Europeia, que é um serviço muitíssimo organizado.

Mas só aqui nós vemos logo uma diferença, que é na Comissão Europeia, os porta-vozes falam, dão conferências de imprensa, falam de facto em nome dos comissários, não é sempre o comissário que está a dar a cara. E se em Portugal foi tentado ali durante o governo de Pedro Passos Coelho, com aqueles briefings diários inventados pelo Pedro Lomba.

Foi o próprio secretário de Estado, Pedro Lomba.

Mas queria fazer uma coisa tipo Casa Branca, que era um briefing diário.

Um briefing diário.

Durou dois dias.

Durou dois dias, correu terrivelmente mal. Por quê? Mais uma vez.

Não foram bem inventados pelo Pedro Lomba, mas por isso podemos falar.

Tu contas essa história. Por que aquilo corre mal? É preciso ter capacidade política e de comunicação. E, portanto, eu acho lindamente que o governo monte isto. Eu não achei mal quando o governo do António Costa montou aquilo, achei que as expectativas que foram criadas não correspondiam minimamente àquilo que de facto aquela organização gerida pelo João Cepeda acabou por ir fazer, porque o João Cepeda basicamente o que estava a tratar era da imagem, dos backdrops, do microfone, da press box, e toda a gente achou que o João Cepeda ia coordenar uma megaestrutura de informação e de comunicação, o que não era o caso.

Nem esta será.

Nem esta será. Portanto, mais uma vez, a incapacidade de comunicar até as coisas boas, começa nos próprios responsáveis políticos. E eu acho que por muito profissional que seja uma estrutura destas, é melhor ela existir do que não existir, se os ministros não perceberem que ser ministro implica saber comunicar, os ministros vão sempre estragar isto.

Eu sou um bocado conservador nestas coisas.

Tu és conservador, ponto.

Às vezes.

Entendi.

Eu sou muito volátil. Mas eu acho que estas coisas normalmente quando funcionam bem, não são anunciadas. Funcionam. Quer dizer, são trabalhadas internamente, etc.

Mas estas têm que ser anunciadas porque faz parte da secretaria-geral.

Certo, agora é anunciado porque é um organismo próprio dentro da Secretaria-Geral.

Como há outros, aliás.

Sim. Mas eu acho lindamente que o governo faça aquilo que quiser, o que quer comunicar, comunique. Eu acho que eles falam todos demais. O governo esse do Santana Lopes, as coisas não correram muito bem, de facto, e depois aquilo acabou logo. Mas a partir de 2005 havia um governo que comunicava lindamente e estava tudo centralizado. E nunca ninguém quis saber, não foram feitos grandes anúncios, até pelo contrário, havia coisas que vinham sabe-se lá de onde e que eram perfeitamente comunicadas como pessoas a correr pelos Prados. Está um bocado igual ao litro, na verdade. Não te aquece nem te arrefece.

Não.

Então isso é o quê? É um 10?

É um 10, sim. É uma coisa neutra, absolutamente neutral.

Anselmo, tens nota?

Eu guardo um 12. 12 porque acho que é um bom princípio, vamos ver.

Sim, eu também. Vou no 12. Acho que...

Pode ter um mau fim.

Pode ter um mau fim.

Mas precisamos de mais pormenores.

Depois damos um quatro.

Exato. Depois baixamos a nota no próximo exame.

A ver vamos. E amanhã há mais "E o vencedor é..." é logo pela fresca, depois das 08h30 da manhã.