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"E o Vencedor É..." na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, o Anselmo Crespo e o António Costa. Hoje importa falar sobre o Ministro da Administração Interna, Luís Neves e também dos exames nacionais e do Ministro da Educação, Fernando Alexandre, que deu uma longa conferência de imprensa. António Costa, ficou tudo esclarecido? Podemos seguir viagem?

Infelizmente ainda não. A gravidade do que se passou é demasiada para que a entrega das notas, creio que os suspensos foram ultrapassados durante o dia de hoje. Era a parte final e este anúncio, que eu acho que está tudo positivo, uma saída, diria, aírosa. Mais do que aírosa, possível, tendo em conta os estragos que esta época especial para garantir uma equidade que fica sempre posta em causa, é preciso dizê-lo, porque os exames não são os mesmos, a forma como os professores, os classificadores não vão ser os mesmos nas mesmas circunstâncias. E, portanto, obviamente que fazer um terceiro exame para uma época especial é a solução possível menos má para aproximar a equidade. Apesar de tudo, eu acho que se entra aqui noutra fase. Eu creio que o ministro foi diligente nas explicações. Tinha que falar hoje, tinha que dizer alguma coisa hoje ao país sobre a situação. O que eu não gostei? Continuar a não assumir responsabilidades. Este pedir desculpas e depois dizer que as responsabilidades são de toda a gente, todos os processos. Houve o detalhe, eu percebo, o detalhe nas matrizes, os parâmetros das notas de físico-química, a digitalização que em alguns casos não correu bem. O que realmente fica são duas coisas que ainda não são claras e por isso é que eu acho que ainda não ficou tudo dito. O que vai dar a auditoria? E quando é que vamos saber o que vai acontecer? Isto é uma auditoria, porque temos a promessa agora de que a segunda fase vai correr bem. Veremos. É preciso aqui um grau de confiança grande, tendo em conta o que foi a primeira fase. Mas a auditoria vai ser muito importante para credibilizar um sistema que o ministro garante que vai manter-se. Eu tenho lido, e esse é o aspecto mais importante disto tudo nesta fase: entregues as notas, criada esta fase especial que apesar de tudo dá uma resposta possível, auditoria a este modelo e a este processo. Que o ministro, é curioso, veio dizer não corresponde ele próprio a uma reforma, o que eu acho interessante, porque esta tarde estamos aqui a discutir isso como se fosse uma grande reforma.

É uma alteração de processo, basicamente.

É um processo, sim. E o que é realmente importante neste processo é o final do processo. O final do processo não é provavelmente o fim em si mesmo, não é a digitalização das provas, é a forma de correção que mudou. Esse é que é o objetivo. Percebe-se que o ministro, eu já o disse aqui, eu se tivesse que dar notas ao ministro, dei várias vezes notas positivas ao ministro.

Isto é o "E o Vencedor É...".

Não vou dar, mas se tivesse que dar à política, eu dava uma nota muito positiva, mas eu tenho que continuar a dar uma nota negativa ao ministro pela gestão deste processo. Ora, o que eu tenho visto na praça pública e na discussão político-midiática? Quem gosta do ministro ou se revê na visão do ministro, como eu, tende a dizer que o ministro deve continuar em funções. E se passa exatamente o contrário, já lá vamos, ao ministro da Administração Interna. Quem não gosta do ministro e não gosta da visão do ministro, acha que o ministro se deve demitir já amanhã, de preferência, e entregar a pasta. Eu confesso que me coloco na posição intermédia, que não é a mais simples. É que eu partilho da visão do ministro, mas chumbo o ministro pela forma como ele foi pouco cauteloso, imprudente. Não foram as famílias que foram imprudentes neste processo, foi o ministro que foi imprudente neste processo, na decisão política e, portanto, eu continuo a dar-lhe um nove pela forma como aconteceu isto.

Mas vamos continuar a falar um pouco dos exames dites, a tua avaliação também.

Eu começo por achar que, a não ser que um aluno tenha completa certeza da nota que tirou, o melhor é pedir uma reapreciação. Eu parto desse princípio.

Primeiro uma correção a terceiros, nomeadamente é o que se faz.

Pegar no PDF e mostrar.

Entregar a professores, nomeadamente aos seus professores, para avaliarem.

Esse é o primeiro passo.

Eu acho que esse todos devem fazer, tendo em conta as notas que tiverem, mas por princípio devem fazer.

Sim, eu também acho. E acho que se o professor tiver alguma dúvida, na dúvida reapreciar, porque apesar de, falávamos isso há bocado, se a nota for inferior, só não pode chumbar. Ou seja, a nota só não pode ser nove, mas a nota pode ser inferior e aí o aluno não pode fazer nada, tem que ficar com a nota que for inferior.

E uma nota técnica, Judite, desculpe interromper. A correção e a reapreciação não é feita assim: imagina que há um professor, olha para aquilo, professor desse aluno e diz: "Este item um ou dois ou três, na minha avaliação está mal avaliado de acordo com os coordenadas e merecia ter mais."

E o aluno vai voluntariamente dizer: "Em cima do que fiz, vou ter esta." Há um terceiro risco, é que a reapreciação é de todo o teste.

Claro.

Não é só daquele sobre o qual o aluno legitimamente até pode ter razões. É sobre todas as perguntas.

Sim, não pode escolher.

Portanto, reaprecia aquilo que aquele professor diz que estará mal avaliado.

Faz uma avaliação global do teste.

Mas vai corrigir todos. E pode haver aspectos positivos, digamos, avaliação para cima numa pergunta.

E avaliação para baixo noutra.

E obviamente, como os itens, assim que são chamados, têm pesos diferentes, cada grupo tem pesos diferentes, pode até querer corrigir e recuperar ali umas décimas num e correr o risco de perder em perguntas que têm menor peso.

Isso sempre foi assim. A reapreciação é da prova inteira. Eu acho que quando o ministro hoje deu a garantia de que nenhum aluno será prejudicado, não devia ter mantido o calendário do acesso ao ensino superior. Devia ter alargado o calendário da sessão ao ensino superior, que arrancou hoje, porque com uma época, ainda por cima uma época especial de exames, para quem fica sem informação a tempo para decidir sobre o que há de fazer na segunda fase, mais razão existe para que esse período... Assumamos, este ano correu tudo mal. Então se correu tudo mal, vamos alargar prazos, e nomeadamente no acesso à faculdade, eu acho que era importante.

Até porque as vagas são diferentes da primeira fase e da segunda fase. Isso não é irrelevante.

Não é. Em princípio, na segunda fase terás notas mais baixas do que na primeira fase.

Mas muito menos vagas.

Mas muito menos vagas, esse é o problema.

Há cursos que não têm vagas nenhumas.

Sim. E, portanto, eu acho que o período devia ser alargado. E eu acho que o facto de existir esta época especial significa uma coisa: significa que os alunos foram prejudicados de alguma forma. Se há quem não tenha informação a tempo para decidir sobre a segunda fase, eu acho que isso já é um exemplo de desigualdade em relação aos outros que têm tempo para fazer isso. E, portanto, eu acho que essa decisão da época especial é boa se depois o período para a faculdade for aumentado. Em relação à taxa moderadora, nós temos ouvido os partidos, ainda há pouco ouvíamos aqui os partidos da oposição querem que a taxa moderadora deixe de existir. Atenção que os 25 € da reapreciação dos exames continuam a ser cobrados como eram antigamente, mas continuam a ser devolvidos se a nota for superior. Portanto, há esse parâmetro primeiro.

O que significa, desculpa, que todos os que se considerem prejudicados pelo processo ter corrido mal, se pedirem a reapreciação do exame, tiverem uma nota superior, não recebem os 25 €.

Recebem os 25 €. E eu percebo esta questão da taxa moderadora. Percebo, porque também não acho que houvesse uma corrida à reapreciação dos exames, exatamente por isto que estávamos a falar aqui. É preciso ter muita certeza de que o exame está mal corrigido para se avançar para essa hipótese.

Mas perante todos estes problemas não é de esperar uma avalanche?

Eu acredito que não, exatamente por causa desta questão, tu podes, de facto, ter uma nota inferior e portanto tens que pensar bem para pedires a reapreciação. Eu só digo que pedi a reapreciação e acho que vai existir mais pessoas a pedirem a reapreciação por tudo aquilo que aconteceu. Não acho que seja uma avalanche, exatamente porque há esse perigo de baixar a nota.

Vamos ao Anselmo também.

Queres que eu comece por onde? Pelo mitômetro nacional. Bom, eu gostava de falar duas coisas. A primeira, um debate recorrente a propósito desta questão dos exames que eu tenho ouvido na última semana e até durante o fim de semana sobre digitalizar ou não digitalizar. Faz-me um bocadinho de confusão, respeito o debate, obviamente, respeito todas as opiniões, mas faz-me um bocadinho de confusão este debate, porque me faz lembrar no passado recente, nas últimas décadas, várias evoluções que fomos tendo enquanto sociedade e vários debates que íamos tendo sobre a internet e as enciclopédias, por exemplo. É melhor pesquisar na internet ou é melhor ir a uma enciclopédia? Não, é muito melhor do que uma enciclopédia. Quer dizer, a evolução e muitas das pessoas que em tempos defenderam que não era a mesma coisa ler um livro em papel ou ler um livro num cubo ou no digital, muitas das pessoas que defenderam coisas no passado e que hoje em dia usam essas coisas e elas entraram no nosso dia a dia. E eu suspeito, é pelo menos a minha convicção, que este debate em torno da digitalização dos exames é uma coisa mais ou menos parecida, que agora há um grupo de pessoas que entende que os exames não deviam nunca ser digitalizados. Não é apenas porque este processo correu mal, é um erro digitalizar exames. E eu acho que aí é que está o debate de fundo em torno desta política.

É que ninguém discute, de facto, o processo de correção, ele próprio. Isto é, professores a corrigir vários itens em vez de corrigir um teste.

Que este processo correu mal é uma evidência. Acho que nem o próprio ministro acha que ele correu bem. Correu mal, ou se quisermos, correu muito mal. O que eu acho, e essa é a minha convicção, não vale a pena tentar parar o vento com as mãos. Acho que o debate é bom. Eu já ouvi os vários argumentos de quais são as vantagens de o digitalizar e sobretudo de ele ser corrigido de forma digital e quais são as vantagens de continuar a corrigi-lo em papel. Compreendo os argumentos de ambos os lados. Eu acho é que este é apenas um primeiro passo para um passo que provavelmente há de ser dado mais dia, menos dia, que é os exames passarem a ser feitos de forma digital, nem sequer ser preciso digitalizá-los.

Do início ao fim.

Do início ao fim. Já estivemos mais longe disso. Eu também já ouvi o argumento, ouve-se muita gente a dizer: "Não, porque os países do norte da Europa recuaram."

Estão a voltar atrás.

Isso é um mito. Para já não são os países, foi um país e foi a Suécia. Segundo, não tem a ver com este tema em concreto, tem a ver com o estudo, tem a ver com os manuais. E em terceiro lugar, estas generalizações, que na verdade criam percepções e mitos urbanos na cabeça das pessoas, acho que quem as ousa propagar são responsáveis políticos e responsáveis educativos, e já agora também dos sindicatos, deviam ter um bocadinho mais de cuidado.

Irresponsáveis ou irresponsáveis?

Irresponsáveis. Não vou tão longe. Não quero certices. Obrigado, já tenho que chegue. Bom, esse era um primeiro ponto. Enfim, não sou especialista em política educativa, acho que a digitalização em si mesma não me oferece nenhum problema. Agora, eu gostava de voltar à pergunta original que tu fizeste ao António, que está tudo esclarecido, e o António passou por isso também, que é o tema da auditoria. De todos os erros que houve e que nós sabemos, para além daqueles mais risíveis como os agrafos e os em cima dos QR codes, há um que me preocupa particularmente, que é o software. O ministro disse várias vezes que houve um problema de software. E é evidente, os relatos que nós ouvimos dos professores atiram todos para um problema de software. Isso preocupa-me precisamente pelo motivo que eu anunciava inicialmente, que é: nós estamos em 2026, na era da inteligência artificial. Nós fazemos hoje coisas absolutamente incríveis e incrivelmente mais complexas do que conseguir digitalizar exames e deixá-los disponíveis para os professores corrigirem. Eu acho que isto, posso estar enganado, tenho muita curiosidade em saber o que é que essa auditoria vai dar, se é que nós vamos saber o que é que ela vai dar e se é que algum de nós vai lembrar quando ela sair, que isso é tema, porque isso depois também é uma coisa muito comum. Mas faz-me muita aflição saber que em 2026, o Estado, seja uma entidade pública, esteja a trabalhar em outsourcing com uma privada, é completamente indiferente. O que me faz confusão é saber que eu tenho aqui no meu telemóvel ferramentas que não imaginei há 20 anos que ia ter.

Há cinco.

Há cinco, tens razão. Que todos os dias somos surpreendidos com a capacidade de inovação que existe e o Estado não consegue digitalizar exames e disponibilizá-los às pessoas porque tem um problema de software. Tudo o resto eu acho que está mais do que batido e eu concordo, o ministro provavelmente foi imprudente, não sei se ele foi mal aconselhado, não sei o que é que aconteceu, também gostava de saber isso.

Em tua opinião, isto não fica arrumado.

Não, não fica arrumado, desde logo por isto, que é o problema da confiança resulta deste problema fundamental.

Perde-se facilmente e demora muito tempo a ganhar.

Claro. Quer dizer, agora nós duvidamos, mas é um princípio de qualquer português, que é quando o Estado nos diz que uma coisa vai acontecer de uma determinada forma, nós em princípio sabemos que não vai ser dessa forma.

Vamos à tua nota, Anselmo. O António já deu a nota.

Vou pela positiva. Eu vou dar um 20 aos professores, aos pais e aos alunos que estão a passar por isto e vou dar sobretudo 20 àqueles professores e diretores de escolas que apesar destas dificuldades todas, cumpriram a missão deles com brio, porque eu acho que eles, na verdade, são os grandes heróis desta história.

Neste caso, é o teu 20.

Eu ia pela negativa, mas vou acompanhar o Anselmo. De facto, estar a trabalhar à noite e ao fim de semana, é preciso gostar-se muito da escola pública.

E dás também um 20, é isso?

Dou um 20 também.

Agora temos de falar do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Judite, compreende-se este silêncio?

Do ponto de vista do Luís Neves, compreende-se. Enquanto está tudo a cascar no ministro da Educação, não lhe acontece nada.

Enquanto o pau vai vaivém.

Exatamente. Como é que é?

Foge pelas costas.

Foge pelas costas, é isso, exatamente. E, portanto, está aqui a tentar passar pelos pingos da chuva, mas eu acho que este caso é muito diferente do caso do ministro da Educação.

Sem dúvida.

E a mim parece-me mais grave. E à medida que se conhecem os pormenores desta história, já estamos há dois ou três dias sem saber nada de novo, uma coisa até estranha, porque está habituada a ter uma novidade a cada dia. Mas percebe-se que enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária, tratou de algumas questões com muita leviandade e eu acho que isso fica claro. Enfim, de toda esta sucessão das questões das obras com o prestador de serviços da própria PJ, que eu acho que é o pecado original desta história, mas depois os pormenores do pagamento, as faturas que ainda ninguém viu, o tanque era uma piscina, o facto de estar em reserva natural, a empresa não ter alvará, enfim. E depois esta cereja no topo do bolo, que é o atrelado com amoníaco, apreendido pela PJ e que foi despachado para Barcelos, para o mesmo construtor. Tudo isto podia ser uma cena de ficção. Quando mete o atrelado com amoníaco já dava para um episódio de uma série de ficção. Acho que é muito difícil que o ministro continue vendo a credibilidade assim abalada

E acho que não deveria estar em silêncio, já deveria ter falado, já deveria ter apresentado as faturas, se é que acha que vale a pena fazer alguma coisa para continuar no lugar.

António, como é que te posicionas em relação ao Munique?

Olha, eu hoje de manhã estava ouvindo.

Fica o Munique é muito perigoso.

É muito perigoso, é verdade.

Sim. Estava a ouvir o Bom, Mau e o Vilão e comecei a ouvir o Miguel Pinheiro falar das declarações do ministro.

Também me assustei.

Da Administração Interna. E eu confesso: "O que se passou que eu não apanhei essas declarações?" Foi o que eu pensei nos primeiros cinco segundos.

É um brincalhão, o Miguel.

É um brincalhão. Mas de facto, o silêncio é mesmo ensurdecedor. E acho que obviamente que as coisas são de natureza muito diferente entre Fernando Alexandre e Luís Neves. Eu talvez arrisque uma explicação para este silêncio. É o próprio temer que apareçam notícias piores que aquelas que nós já conhecemos. Porque se não é o caso, obviamente o ministro deveria dar explicações e sanar as dúvidas que existem, que é preciso dizê-lo de forma clara, põem mesmo em causa a sua idoneidade e a confiança pessoal, que na verdade foi o que levaram. Isto de facto é uma ironia. Fernando Alexandre foi nomeado, indicado, escolhido pela sua competência técnica e acaba por falhar na gestão de um dossiê de facto difícil, mesmo com a visão, como eu volto a dizer, com a qual eu concordo. No caso Luís Neves, depois do que se passou na Administração Interna, foi também nomeado pela sua reputação e pelo que fez na PJ. E falha, isto é, expõe e perde a autoridade exatamente aí.

Não foi enquanto ministro.

Não foi enquanto ministro, não por uma decisão que correu mal, como no caso de Fernando Alexandre, que foi avançar com este processo. Foi exatamente no ponto crítico que levou à sua nomeação, à sua reputação, à sua integridade, à sua capacidade de liderança de uma instituição como a Polícia Judiciária. Luís Neves consegue fazer pior com este silêncio, é que está a pôr em causa a própria Polícia Judiciária e a forma como ela é gerida.

Há uma contaminação, não é?

Óbvia. E portanto, por um lado, não consigo compreender este silêncio, a não ser neste contexto. Não consigo. Mas depois também tenho que dizer que há aqui uma responsabilidade do primeiro-ministro que não pode ser ignorada. Os primeiros-ministros tendem a defender os seus ministros. É óbvio que se estão em funções, é porque o primeiro-ministro obviamente continua a confiar nos próprios ministros, se ainda não estavam. Mas é muito mau, e para o governo todo, quando o primeiro-ministro usa da mesma lógica de defesa para a ministra da Saúde, no caso das maternidades, para o ministro da Educação, no caso dos exames, e para o ministro da Administração Interna no caso em apreço, digamos assim.

Ou seja, não interessa o que é, a reação é sempre igual.

O que é que resulta daqui? É que para o primeiro-ministro o que interessa é proteger política e partidariamente o governo. E portanto, o que precisamos é não é de ter um ministro capaz, com autoridade, com capacidade para tomar decisões, no caso, para reformar a saúde ou a educação, se tem ou não condições e autoridade política, ou se tem idoneidade para ser ministro com as suspeitas que existem e incapacidade de mostrar. É preciso é defender o governo politicamente e obviamente partidariamente e defender o partido. Isso é terrível, é mesmo muito mau. Não serve para defender o ministro, porque não protege o ministro de nada. Porque o silêncio, aliás, também como eu dizia, se torna ensurdecedor, como prejudica os outros ministros, os que erraram, porque erraram do ponto de vista político, neste caso Fernando Alexandre, mas que obviamente têm uma dimensão de capacidade ou não, de autoridade ou não, mais do que legitimidade, de capacidade para fazer as reformas, obviamente diferente do que estamos aqui a discutir.

Marcello, também ficas surpreendido com o silêncio de Luís Neves?

Fico surpreendido, apesar de já não dever surpreender-me com estas coisas, porque eu acho que os políticos, sobretudo os do PSD e os do PS, neste caso Luís Neves, está a cumprir basicamente o que lhe mandaram fazer, seguramente, do ponto de vista da estratégia de comunicação ou da falta dela. Eu já não devia ficar surpreendido, porque andamos há anos nisto. António Costa teve uma maioria absoluta, passou os dois anos da maioria absoluta com casos e casinhos, uns mais graves, outros menos graves, e a estratégia foi sempre a mesma, sempre um desastre, acabou sempre mal, tirando, curiosamente, com João Galamba, em que basicamente António Costa conseguiu fazer ali um twist no final, mas à conta do Presidente da República, não exatamente porque salvou João Galamba do que quer que fosse. Mas a estratégia de comunicação é permanentemente um erro. Quer dizer, Luís Neves dá três entrevistas no mesmo dia e a única pergunta que ele sabia ou se ele não sabia, alguém à volta dele lhe devia ter dito, a única pergunta pra qual ele devia ter uma resposta era precisamente a pergunta pra qual ele não tinha uma resposta. Então pra que ele foi dar três entrevistas naquele dia? E na altura-

Queres recordar qual é a pergunta?

A pergunta era: onde é que estão as faturas? Vai mostrá-las? Vai mostrar os comprovativos de pagamento? E Luís Neves naquele dia não diz: "Eu estou a recolhê-las e apresentarei amanhã ou depois." Não, ele diz: "Logo se vê se é preciso."

Uma das expressões foi essa.

Logo vais.

Depois do E-fatura.

Mas isto para dizer o quê? Eu achei muita graça porque a Judite disse: "O caso Luís Neves para mim é mais grave que o do Ministério da Educação." E eu estava-me a rir, porque eu há uma semana dizia que o caso do Ministério da Educação, apesar de tudo, para mim é mais grave, impacta com a vida das pessoas, dos alunos, põe aqui uma série de coisas em causa. Eu agora também já acho que o caso do Luís Neves, politicamente, é mais grave. Não é que a educação não continue a impactar na vida das pessoas, mas politicamente, neste momento é mais grave do que o caso de Fernando Alexandre.

Porque felizmente, nesta fase, ainda não tivemos-

Não há incêndios

Não há incêndios. Esperemos não ter.

Mas é verdade, tens toda a razão.

E é preciso um ministro no terreno, não é? E é ele. Ou vai Luís Montenegro assumir essa pasta outra vez?

Não, porque Luís Montenegro-

Já não seria a primeira vez

Em princípio, Luís Montenegro está ocupado com a Festa do Pontal. Não se esqueçam disso. Já que anda toda a gente a sugerir séries ao governo, eu tenho uma série que eu também gostava de sugerir. Já é muito antiga, chama-se "Scandal". A personagem principal era a Olivia Pope, que é a Kerry Washington. E eu recomendava vivamente, não digo os ministros, mas os assessores do governo vissem a série e percebessem como é que perante uma crise, se desmonta essa crise e se comunica durante uma crise. Podemos tirar a parte romanceada dela se apaixonar lá pelo presidente dos Estados Unidos. Não é preciso essa parte.

Ninguém é preciso se apaixonar por ninguém.

Ninguém precisa de se apaixonar por ninguém, até porque isso pode gerar outra crise.

Exatamente.

Não creio que o caso mande isso.

Atenção, Luís Neves neste momento está num tanque, para usar a expressão dele, tão profundo que eu acho que cada minuto que passa em que Luís Neves não vem fazer uma de duas coisas: explicar, mas é bom que quando vier explicar, explique de facto tudo, ou então sair. Eu não vejo outro caminho. Ele mesmo explicando tudo, eu não tenho a certeza que ele mantenha condições políticas para se manter à frente do cargo, porque neste momento ele deixou alastrar, desculpem a metáfora, o incêndio de tal maneira que eu duvido que haja condições para ele se manter. Agora, se Luís Neves ou o primeiro-ministro, volto a dizer, eu acho que foi Miguel Pinheiro hoje de manhã que também dizia isso, que isto já não é um problema apenas de Luís Neves, isto é um problema do primeiro-ministro. Acham que se fizer de morto, isto passa? Ele está redondamente enganado. Eu não sei se repararam, mas a cartinha que o Chega mandou ao primeiro-ministro este fim de semana é basicamente o preparar da cama para vir aí uma moção de censura, não sei quando. Pode não ser já em setembro, mas que o Chega está a criar uma narrativa que o leve a apresentar uma moção de censura, isso parece-me bastante evidente.

E há este risco também de contaminar a credibilidade da própria Polícia Judiciária de que falava o António. Porque então, que diabo? A Judiciária atua assim? Há uma galera do outro lado.

E atenção que nós estamos a falar de alguém com um enorme prestígio, exatamente pelo seu trabalho dentro da Polícia Judiciária. Mas nota-se que há aqui, pelo menos em relação ao outro lado, eu não sei, vou dizer leviantado outra vez, porque não sei que expressão é que eu ia utilizar, irresponsabilidade. Não lembra o Careca? Mandar um atrelado cheio de amoníaco, que é a Marinha.

Eu gostava de dizer uma coisa: dizem que houve uma consulta a empresas para saber quem é que podia ficar com aquilo. Gostava de saber quais foram as empresas que foram consultadas.

Mas dizem? É porque o que eu li foi que o amigo Luís Neves se ofereceu.

Não, mas depois a informação oficiosa é que a PJ fez uma consulta a empresas e que esta empresa se ofereceu. Outra pergunta: será que também aqui não há contrato? Isto é, a PJ simplesmente entregou aquilo e não há um contrato.

Alguém que conheça, mais uma vez, ou uma empresa que conheça.

E vocês já repararam que da PJ está alguém a atirar o Luís Neves para debaixo do comboio?

Sim, claro.

É porque a PJ acha o quê? Que se atirar o Luís Neves para debaixo do comboio sai ilesa disto? A PJ é uma instituição, não é a pessoa que lá está neste momento. A PJ é uma instituição.

Ela própria também disse que punha cá fora uma investigação, uma auditoria.

Abriu uma investigação.

Uma investigação. Também convém que ela própria ponha cá fora a informação. Isto é, que não venha dizer muito rapidamente que vem aí uma auditoria.

E depois diga que é confidencial.

Anunciar auditorias não são as auditorias em si mesmo, são só os anúncios de auditorias.

Vamos às notas, António?

Eu dou um seis ao ministro, ou ainda disso.

Um cinco a Luís Neves.

A Celma.

Eu concordando com os deles, para ser original, dou um seis ao primeiro-ministro, porque eu acho que ele não está bem a ver o filme.

E amanhã há mais "E o Vencedor É", amanhã com o Luís Rosa, a Helena Matos, que se juntam ao João Manuel Fernandes e ao Bruno Vieira Amaral.