Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E o vencedor é das manhãs 360. Até perto das 9:00 damos notas aos protagonistas da atualidade. E para isso, Carlos, nesta quinta-feira estão conosco a Filomena Martins e o José Manuel Fernandes. Política, futebol, produtividade, isto anda tudo ligado. E também é, José Manuel, pergunto a ti, uma inevitabilidade que quando muda um governo, mudam as classes dirigentes. Isto foi a propósito da notícia d'O Observador sobre as substituições no Instituto da Segurança Social. Como é que olhas para isto?
É uma questão de tempo.
Para acontecer.
Aquilo que vai acontecer é uma questão de tempo. É um clássico, acontece sempre. Nós, aliás, aqui há uns tempos atrás, era o primeiro-ministro António Costa, o Miguel Santos Carapatoso publicou um longo, uma análise da direção regional da Segurança Social, e contava também como é que na altura, mesmo com concursos, mesmo com CRESAP, mesmo com esse processo todo, no fim do dia ficaram todos socialistas. Praticamente todos. Havia um ou outro que não tinha ligações partidárias, mas era assim. E agora, mudou a maioria, está a mudar isto numa estrutura que, curiosamente, é organizada por distritos, que é uma coisa que os distritos já não existem. Supostamente, os distritos já acabaram. Eles ainda estão na Constituição, porque os distritos têm que existir até haver regiões. E como nós não temos regiões, tem que haver distritos. Mas os distritos nós pensamos que só existem para votar. São conhecidos com os círculos eleitorais. Já não há governadores civis, já não há essas estruturas assim, mas continua a haver uns resquícios e uns deles são as direções distritais da Segurança Social. E essas direções distritais são muito apetecidas pelos partidos. Por que os partidos dão tanta atenção a elas? Porque passam por elas, por exemplo, a distribuição de dinheiros pelas inúmeras IPSS. Não quer dizer que essa distribuição não obedeça a regras legais, mas é muito importante, porque, por exemplo, quando chega a altura das campanhas eleitorais, não há campanha eleitoral que não passe por um centro de segurança social com os candidatos a beijarem os velhinhos, ou então vai às creches para ver também beijinhos e coisas desse gênero. E portanto, essas estruturas de poder local são sequiosamente tomadas pelos partidos. É assim, e se quer se diga, eu só fico admirado, porque agora, de repente, um deputado do Partido Socialista estar muito chocado por isso estar a acontecer. Eu preferia que não acontecesse, mas para estes maus hábitos da democracia portuguesa, eu só posso dar um chumbo direto, um quatro. Não é nada que me surpreenda, mas é algo que me entristece, porque não devia funcionar assim. Enfim, falta saber como é que vão ser feitas as nomeações. E a nossa peça de hoje também não clarifica se as nomeações feitas pelo governo até agora são de militantes ou simpatizantes do partido do governo, ou se apenas foram afastamentos de militantes e simpatizantes do partido do anterior governo. Isso não é claro. Mas eu suspeito que no fim do dia vamos ficar mais ou menos como estávamos, só que em vez de rosinhas, ficamos laranjinhas.
Claro. José Manuel, mas depois admiramo-nos porque as coisas demoram muito tempo a acontecer, mesmo a vontade dos ministros. Não acontecem, é difícil executar. Se o governo acha que precisa de mudar os dirigentes para cumprir o seu programa e só está a fazê-lo agora dois anos depois, já é tempo perdido. Agora vão chegar os novos dirigentes alinhados com o programa do governo. Eu já estou a dar esta benesse do alinhamento com o programa do governo.
Eu não creio que neste caso da Segurança Social, isso seja sequer determinante. Há outras áreas em que se percebe que as estruturas da administração são muito relevantes para fazer funcionar as coisas.
Tivemos uma peça equiparável para as ULS, para a saúde, em que o resultado não foi o mesmo.
Nós passamos a vida nisto e depois as coisas ficam todas na mesma, porque entre arrumar a tralha e ir embora. Não, os que estão já sabem que estão a prazo, os que entram ainda vão demorar a entrar. E andamos nisto.
Paulo, vamos mudar então, fica este chumbo direto do José Manuel Fernandes. Tu traz aqui também umas contas que nos mostram que a produtividade em Portugal continua das mais baixas, mas caiu.
Caiu o ano passado. Caiu, atenção, comparada com a média da União Europeia. Caiu para 66,8% da média da União Europeia. Interrompeu aqui uma trajetória de convergência que durava há quatro anos, mas andamos nisto. Umas décimas para cima, umas décimas para baixo, estamos a dois terços da produtividade da União Europeia. Não, isto no fundo acaba por bater tudo certo. Nas últimas semanas e dias, sobretudo nos últimos dias mais próximos, andaram-nos a dizer que-
Paulo, isso significa que trabalhamos mais e produzimos menos.
Exatamente.
Porque a riqueza produzida não é dois terços. É provavelmente três quartos, não é?
Exatamente.
Quer dizer, trabalhamos mais e produzimos menos.
Produzimos menos em cada hora.
Para produzir três quartos daquilo que produz a União Europeia, precisamos de mais horas de trabalho.
Muito mais horas. É um bocadinho tipo os ratinhos naquelas rodinhas. Porque atenção, a economia o ano passado cresceu 1,9%. Já agora, que indicador é este? Este é o indicador que divide o Produto Interno Bruto em paridades do poder de compra, portanto aquilo que o país produz na totalidade num ano, pelo número total de horas trabalhadas. É basicamente isto, quanto é que por hora nós trabalhamos. Isso significa que por hora, aquilo que nós trabalhamos está mais afastado da média da União Europeia, aquilo que o José Manuel dizia, somos menos eficientes a trabalhar, a produzir em cada hora. Como a economia cresceu no ano passado, o país todo até produziu mais 1,9% em termos reais, significa que o número de horas trabalhadas para produzir este acréscimo foi muito mais do que 1,9%. Ou seja, estamos cada vez mais a trabalhar para aquecer, vamos pôr as coisas assim. Provavelmente, são estas explicações que Que são dadas é porque o acréscimo de produto é feito em setores menos eficientes, setores agrícolas, por exemplo, setores de baixo valor acrescentado e de baixos salários, em que as pessoas também são quase obrigadas a fazer horas extraordinárias para compor o rendimento ao fim do mês. Isto resulta em quê? Em muitas horas trabalhadas e num contributo para a economia nessas horas trabalhadas, que é menos eficiente em termos comparativos.
Call centers?
Também, se quisermos a esse nível, tudo que tem pouco valor acrescentado. Depois há muito também aquilo que nós sabemos em Portugal, que é o presentismo. E isso também é muito valorizado, estupidamente, por muitas chefias de empresas.
Ficar para lá da hora.
Valoriza-se o olhar para o espaço de trabalho, para o escritório e ver ali muita gente, independentemente daquelas pessoas estarem a produzir ou não. E, portanto, o importante aqui é estar presente e não estar a trabalhar. Tudo isto, e para fechar aqui o círculo, bate certo com aquilo que se andou para aí a dizer, dirigentes políticos todos, as marcas na publicidade também, as empresas, toda a gente de uma forma genérica, que andaram a dizer nas últimas semanas, em especial nos últimos dois ou três dias: é que a seleção é o símbolo da fibra de ser português e a seleção é a alma de ser português. E agora cito concretamente o presidente da República num discurso à seleção. Se a seleção ontem teve a prestação que teve, o país está alinhadíssimo em termos laborais e a economia com a seleção. Portanto, não temos aqui nada a estranhar, isto bate tudo certo depois.
Então que a nota dá?
Especialmente o Paulo está a falar de futebol.
Eu estou a falar de futebol, é verdade.
Isto acontecem coisas incríveis. Falta a tua nota, Paulo.
Falta a minha nota. Eu vou dar um seis a isto. Nós andamos aqui à volta dos 66,8%. Vou dar um seis. Continuamos aqui a marcar passo. Ou pior, o passo que marcamos em 2025 ainda foi mais pequeno.
Ainda foi mais pequeno. Filomena, isto pode mudar tudo agora com a discussão que estamos a ter sobre a reforma da lei laboral?
Eu gostava, mas eu também vou começar pelo futebol, se não se importam, porque ontem, já sabemos, Portugal empatou com o Congo e voltou a mostrar um problema que eu também acho que não é apenas futebolístico. E posso explicar, vou tentar ser mais concreta que o Paulo. A seleção tem posse de bola, circula, troca passes.
É o presentismo, Filomena. Eles estão lá.
Estão lá, eles criam aquela sensação de movimento, só que raramente saem do mesmo sítio, chegam pouco à baliza. Por exemplo, Cristiano Ronaldo está ali quase imóvel, parado, à espera. Os colegas procuram, até porque ele chama por eles. O jogo abranda e tudo parece depender de alguém que já não se mexe como antes, porque ele não se mexe como antes. E isto, de certa forma, é realmente uma imagem que serve para o país. Luís Montenegro prometeu um governo reformista, se vocês ainda se lembram, mas um ano depois, as grandes reformas continuam no banco de suplentes. Na saúde, na educação, os problemas persistem. Na habitação, os resultados tardam e na reforma do Estado, fala-se muito e muda-se muito pouco.
Filomena, desculpa, mas de facto, se nem na seleção há uma reforma estrutural, sou espectador, tenta atirar o Ronaldo, não é? Nem isso consegue, pelos vistos.
Nada.
Como é que queres que as outras coisas funcionem no país?
Eu gostava que as outras pelo menos funcionassem. Há aqui muito passe para o lado também. Há pouca profundidade, ainda falando em termos de jargão futebolístico. Há pouco ataque e há, claro, poucas vitórias. E deixando o futebol agora, é por isso que, apesar de todas as reservas, eu achava que seria muito positivo ver finalmente a reforma laboral avançar. Portugal precisa dela há muitos anos. Temos uma economia, como tu dizias, Paulo, pouco produtiva, salários baixos, regras muito rígidas e empresas que se queixam e trabalhadores que também se queixam. E sabemos que reformar não é popular, mas governar também não é um concurso de popularidade, pelo menos não deveria ser isso. Montenegro está agora a descobrir aquilo que todos os primeiros-ministros acabam por descobrir, que é sem maioria, reformar implica negociar. E negociar implica engolir alguns sapos, às vezes grandes sapos. Quando percebeu que José Luís Carneiro não embarcaria nesta operação, sobretudo depois do código laboral não ter tido consenso da UGT na concertação social, Montenegro mudou de campo, encostou o PS à esquerda. Ontem, no debate, ainda piscou o olho ao LIVRE, procurou envolver a iniciativa liberal, mas acabou sentado à mesa com André Ventura, o que não é fácil. E é o mesmo André Ventura com quem ele disse que não haveria entendimentos. Agora há reuniões sucessivas, há conversas noite dentro, há troca de propostas e parece que há um acordo, que será hoje debatido e amanhã votado, que parece mais próximo do que muitos imaginavam. E a política tem destas ironias, porque o homem que prometeu distância do Chega pode acabar por fazer com ele a sua primeira grande reforma. Eu pelo menos espero que faça. Claro que ninguém vai levar tudo para casa. O governo já disse que não aceita baixar a idade da reforma. Ventura percebeu, acho eu, que dificilmente terá esta vitória, mas pode conseguir alguns compromissos para o futuro, pode conseguir ganhos nos turnos, nas férias, na parentalidade, pequenas vitórias também na prestação social única. Aqui até surge a parte mais divertida, porque Montenegro acusa Ventura de ter um trafo comunista e não deixa de ter graça e alguma razão, porque o líder do Chega aparece agora a defender as reformas mais cedo, mais férias, mais proteção social e mais direitos laborais. E o problema de Ventura é estar entalado entre dois eleitorados, o eleitorado popular, que lhe dá votos, e o eleitorado empresarial, que exige contas certas. E nem sempre os dois caminham na mesma direção, estes eleitorados. Mas de fato, a principal novidade talvez até seja outra, que é que o alvo principal de Montenegro já nem é a Ventura, é o PS. E ontem ficou claro, o primeiro-ministro passou mais tempo a atacar José Luís Carneiro do que André Ventura. O PS é agora o partido do bloqueio, da resistência, do não, pelo menos na narrativa do governo. E se a reforma laboral passar, Montenegro apresentará o resultado como prova de que quem quis reformar, encontrou parceiros. Quem não quis, ficou na bancada. É tal como no futebol, a diferença raramente está na posse de bola, está na vontade de atacar, na vontade de arriscar ganhar. E Portugal anda há demasiado tempo, sobretudo na economia, a jogar para o empate. E vamos ver se esta reforma é finalmente o remate à baliza, um gol, ou se é apenas mais uma troca de passes ali no meio-campo. Eu gostava que não fosse. Gostava que nós jogássemos de uma vez que fosse para ganhar, a sério.
Queres dar a tua nota já, Filomena, com isto tudo?
Acho que para a seleção e para este jogo de Rodriguinhos no meio-campo, é claramente uma nota zero. Se isto for para avançar, eu pelo menos subo um bocadinho a nota, será a primeira grande reforma que precisamos, mesmo muito negociada. Eu mesmo assim consigo lhe dar um 10.
Ora bem, isto é um momento muito importante aqui na história do Vencedor.
Aponte. Está data?
Já está registado. 18 de junho. Vamos ter que aguardar para perceber o que acontece no Parlamento relativamente a esta matéria, mas há conclusões políticas que se tirarão, Bruno.
Sim, porque estamos a chegar aqui à bifurcação.
Um dia o governo teria que escolher.
Ora aí está. Diz a Bíblia, isto para sair das analogias futebolísticas, que não se pode servir a dois amos, mas não diz nada sobre ter dois criados. E o PSD, o governo, queria viver com estes dois criados, em que ora recorria a um, ora recorria a outro, mas chega uma altura em que um diz: "Mas eu quero exclusividade". E isso não depende só de uma decisão definitiva do governo, do governo eleger o seu parceiro preferencial. É determinado pelas escolhas que se vão fazendo ao longo do tempo. Ora, se o governo se aproximar do Chega, neste caso, para a aprovação da reforma laboral, isso acaba por ser uma escolha, mesmo que não seja uma escolha explícita dizer: "Este é o nosso parceiro preferencial", acaba por ser uma escolha implícita. É com o Chega que o governo conta para aprovar o orçamento, aquilo que é importante, aquilo que é determinante. Poderá haver algum entendimento com o PS para aprovação de outras medidas, não digo que não, mas para aquilo que conta, é o Chega. Porque mesmo que o governo evite dizê-lo de uma forma clara, taxativa, "o Chega é o nosso parceiro preferencial", isso vai estar implícito nas escolhas e no acordo que venha a ser obtido. O governo optou pelo pisca-pisca até agora, tentando não se comprometer com nenhum dos outros dois partidos, dos principais partidos da oposição, mas não pode continuar na faixa do meio para sempre. Não por uma questão de eleger ou chega ao PS como o seu parceiro, ou quase como um outro elemento de uma coligação, mas porque as escolhas que se vão fazendo ao longo do percurso acabam por condicionar essa decisão. Nós sabíamos que isso ia acabar por acontecer, se não fosse agora, seria na votação do orçamento. Em algum momento, teria de haver um parceiro preferencial, mesmo que não tivesse esse título oficial. E isto liberta o PS para fazer a oposição. O Chega já trouxe para esta discussão algumas medidas no que eu acho que é um pouco aquela estratégia de negociação à Trump, que é trazer propostas que à partida dificilmente poderão ser aceites pelo governo, para depois baixar a exigência e chegar-se aqui a um consenso, mas não dando a ideia de que perdeu tudo ou que cedeu em toda a linha. E o governo é a mesma coisa, o governo vai ter de fazer aqui algumas cedências, porque não vai haver um acordo se um dos dois que entra nesse acordo ficar com a imagem de que teve de fazer uma cedência completa. Isso é válido tanto para o Chega como para o governo, como seria também para o PS. Mas a verdade é que estamos a chegar a este ponto decisivo em que os limites da estratégia do pisca-pisca ficam evidentes. Eu acho que o governo não esteve mal ao fazer essa opção. Acho que para um governo minoritário, de fato, o tentar negociar medida a medida, ora com um, ora com outro, acaba por ser até uma solução sensata, mas tem os seus limites. Toda a gente tem de reconhecer que tem esses limites. Estamos a chegar ao beco sem saída, ou pelo menos à bifurcação. Vai ter de escolher, mesmo que não queira dizer: "É este o nosso parceiro preferencial".
A nota, Bruno.
Eu vou dar um 10 também.
Um 10, é aquela nota.
Vai no meio da estrada.
A tua e a da Filomena são as melhores desta manhã. O Vencedor regressa mais logo na Tarde Política.
Numa versão alargada que começa a seguir ao jornal das 18h, esta quinta-feira dão notas José de França, Nuno Gonçalo Poças e o António Costa. Assim que acabar, chega o Alberto Gonçalves com a Ideias Feitas.