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E o Vencedor é na Rádio Observador com Judite França, Raquel Lucas e Alexandre Borges. Está eleito o novo presidente da República, António José Seguro, que toma posse daqui a um mês, a 9 de março. A esta hora, na hora em que estamos a emitir este E o Vencedor É, ainda está em Belém, reunido com Marcelo Rebelo de Sousa, com o presidente da República. Ventura conseguiu 33% dos votos, 1 milhão e 700 mil. Seguro bateu todos os recordes ao ser eleito com o maior número de votos para um presidente, quase três milhões e meio, e os brancos e nulos mais do que duplicaram da primeira para a segunda volta. Só ontem foram mais de 270 mil. Raquel Lucas, algum destes dados, números das presidenciais de ontem, te surpreenderam?

Para dizer a verdade, o que me surpreendeu mais foi o facto da abstenção não só não ter aumentado, como até ligeiramente ter diminuído. Porque parece que independentemente das circunstâncias difíceis em que grande parte do país vive, o que o eleitorado ontem disse foi que, e grande parte desse eleitorado, eu diria uma grande fatia desse eleitorado de direita, é que André Ventura não é o líder da direita em Portugal. E apesar de ser uma segunda volta, apesar dos candidatos não serem particularmente entusiasmantes, apesar de à partida já se saber quem iria ganhar este segundo sufrágio, a verdade é que as pessoas quiseram mesmo ir dizer que preferiu António José Seguro a André Ventura. E é verdade que André Ventura sobe cerca de 300 mil votos em relação à primeira volta. Mas não chega a 400 mil.

Mais ou menos.

Sim, talvez ainda com o que falta por contar. Mas isso fica muito aquém das expectativas que o próprio tinha. E aliás, eu acho que isso se percebe na declaração de ontem à noite de André Ventura, em que basta olhar pra cara dele pra perceber que é outra pessoa muito diferente daquela que estamos habituados a ver nos discursos no final das noites eleitorais.

E há aquele pormenor, é um pormenor que vale o que vale, que pela primeira vez em muitas noites eleitorais, entrou pela garagem, não entrou pela porta.

É. E a missa acabou mais tarde também, eu reparei nisso.

Acabou muito tarde, sim.

Acabou muito tarde a missa ontem, não sei o que aconteceu. E portanto, eu acho que a grande leitura destas eleições é que dois terços do país não considera que André Ventura pudesse ser presidente da República e que sequer pudesse chegar ao fim da votação podendo reclamar pra si o título de líder da direita. Há uns votos que ele cresce, também seria difícil, sendo só duas pessoas a concorrerem, e não sendo António José Seguro o candidato mais entusiasmante pra uma grande fatia do eleitorado à direita, mal seria que não tivesse crescido. Mas acho que o crescimento que teve, tendo em conta, mais uma vez volto ao início, o facto da abstenção não ter crescido, acho que o crescimento que ele teve não lhe permite tirar as conclusões que ele quereria tirar no fim desta noite.

Alexandre, que contas é que fazes ou que números é que te surpreenderam ontem?

Concordo totalmente com a Raquel. Isto é, 24 horas depois, as coisas já parecem mais ou menos normais e é sempre muito fácil falar depois do jogo, de facto, mas o grande dado foi feliz, foi ver a quantidade de gente que foi votar e como, em todas as circunstâncias descritas pela Raquel, políticas, climatéricas, mas sobretudo o quanto isso materializa, acho eu, uma parte importante do que estava em jogo ontem. Isto é, não era, de facto, o debate esquerda-direita que Ventura tentou encenar ou corporizar, digamos, posicionar no início da segunda volta, foi o debate que acabou por personificar, porque era o esperado, que era o sistema contra o antissistema. E portanto, no reverso da medalha disto que a Raquel diz de Ventura não se tornou o líder da direita coisa nenhuma, porque a direita vale 70% no Parlamento e não os 33% que ele teve, portanto, era preciso explicar onde é que estavam os outros 37. Vale aquilo que decorre diretamente do seu discurso, quer ele queira, quer não, do discurso que ele faz. Quer dizer, juntaram-se todos contra mim, está o sistema todo, isto é não sei o quê. E efetivamente, há que dizer, é o sistema, é o sistema político-partidário em Portugal que todo apoiou Seguro. Os seguros da direita, os seguros da esquerda, os antigos presidentes vivos, toda a gente.

Seguro é eleito com os votos da direita.

Exatamente, como é lógico. E lá está, é com os da direita, fundamentalmente, e lá com os trocos do PC e com os trocos do Bloco. Portanto, albergou tudo isto. Efetivamente, albergou um sistema político-partidário que é aquele que André Ventura quer derrubar.

E achas que ele sentiu isso ontem?

Que André Ventura sentiu isso ontem? Penso que sentiu nos últimos dias. E a questão da baixa abstenção para aquilo que se podia esperar também representa isso. Nos últimos dias, André Ventura também andou a pedir que se adiassem as eleições porque as pessoas não tinham cabeça para votos. "Nós fomos obrigados a fazer isto", como se as eleições fossem a coisa mais importante do mundo. Já conversámos um bocadinho disto aqui ontem. As eleições são a coisa mais importante do mundo. São a coisa mais importante do mundo em democracia. E o que mais faltava era que as pessoas que já estão limitadas numa série de direitos da sua vida nas zonas mais afetadas também fossem impedidas disto. E mais, em Portugal não há obrigatoriedade, ninguém foi obrigado a ir votar. Do que se trata aqui é que as pessoas são livres de votar.

E quiseram ir votar.

E quiseram ir votar.

E ele apostava tudo na abstenção.

Exatamente, apostava tudo na abstenção, apostava tudo neste perfil.

E Seguro estava com receio da abstenção também.

Tal e qual. E apostava tudo nesta ideia de que: "Eu sou a voz do povo, eu é que compreendo o povo, eu é que lá estive, eu é que tive empatia junto destas pessoas. António José Seguro escondeu-se. Não me interessa o que a lei diz, a gente suspende aqui a Constituição porque este momento justifica e há coisas mais importantes do que isto." E afinal, não só houve a resposta geral que vemos nos resultados globais, como em concreto nas zonas mais afetadas, Seguro cresceu muito mais da primeira para a segunda volta do que Ventura. E terminaria esta parte dizendo isto: acho que como nos 50 anos que está a fazer da primeira assembleia-

Constituinte.

Exatamente, tivemos a constituinte em 75 e depois as primeiras eleições, a primeira Assembleia da República normal, falta-me agora o termo correto, em 76. Nos 50 anos disso e da Constituição, é interessante ver, parece-me que os portugueses continuam como nessa altura a votar de forma moderada. Tal como nessa altura escolheram a moderação, aqui também escolhem a moderação estes anos todos depois e isso, ao contrário do que é discurso do Chega, parece-me uma coisa muito boa.

Judite?

Concordo com tudo o que disseram, mas ia pegar por aí, só para ser um bocadinho diferente, porque eu acho que foi a vitória da moderação que ganhou. E quando António José Seguro foi tão criticado por não querer dizer que era socialista, eu acho que essas críticas foram exageradas, porque o facto de António José Seguro não se ter incompatibilizado com ninguém, ou seja, foi o mais transversal possível, e eu acho que este resultado, estes 3,5 milhões, mostram isso e mostram como conseguiu não afastar os eleitores de direita, exatamente porque não vincou esse socialismo, porque de outra forma eu acho que não teria conseguido. E portanto, começar com sondagens abaixo dos 5%. As primeiras sondagens davam-lhe abaixo dos 5%, quatro e tal.

É 4,7.

Não era o favorito para a segunda volta, nem pensar.

Várias vezes aqui-

Várias vezes aqui

...discutimos aqui a ideia de a esquerda não estar representada na segunda volta.

Não estar representada, e falávamos muito da fragmentação da esquerda, e falávamos muito pouco da fragmentação da direita. Várias vezes instamos os socialistas a perguntar por que não encontraram uma figura que fosse consensual.

Exatamente.

E acabou como o presidente com a maior votação da história. Portanto, isto é obra. É obra e é uma vitória pessoal, isso não haja qualquer tipo de dúvida. E acho que ao mesmo tempo, André Ventura conseguiu falhar na tal dicotomia do socialismo e não socialismo. Mostrou que não unifica o espaço não socialista. Continua a dizer que o fez, mas não conseguiu isso. Isso é evidente que não conseguiu. Uma parte substancial dessa direita prefere votar num socialista e esses votos estavam à solta, estavam disponíveis.

Eram 2,5 milhões de votos somando Marcos Mendes, Cotrim e Gouveia e Melo.

Estavam à solta da primeira volta para quem os quisesse agarrar e Ventura não conseguiu. António José Seguro foi buscar cerca de 80% desses votos e a história do socialismo não serviu. Não sabemos como é que se comporta este eleitorado do Chega em legislativas. Eu acho que isso é outra conversa e acho que as pessoas fazem diferença entre eleições, entre a eleição para um presidente da República, eleição para um primeiro-ministro ou eleição para um governo. Acho que são eleições muito diferentes. Não queria entrar na história do teto, mas falamos sempre do teto.

E a verdade é que o teto vai subindo. Portanto, também não é uma derrota.

Mas é assim, verdadeiramente, a grande vitória de André Ventura foi ter passado à segunda volta.

Sem dúvida.

E ele passa à segunda volta porque consegue, como nenhum outro candidato, fixar os votos que já tinha. Fixar, e mesmo assim ligeiramente abaixo.

Sim.

Ligeiramente abaixo. Eu continuo a dizer que este crescimento da primeira para a segunda volta é muito marginal. Quer dizer, compreende-se que no universo de 2,5 milhões de votos que estavam à solta, que há aqueles eleitores que, apesar de tudo, entre irem votar num socialista, que foi muito o discurso que foi feito, ou até com o conforto de saberem que o socialista iria ganhar, para que ele não tivesse assim uma vitória tão retumbante como acabou por ter, que tenham fugido para André Ventura.

O crescimento de votos que ele tem, claro, as próximas eleições dirão, mas não me parece que ele possa sequer reclamar que agora tem um teto de votos que não tinha. Acho que foi o que tentou dizer ontem à noite, sem grande entusiasmo, devo dizer, mas porque ele próprio não acredita nisso.

Já vamos continuar a conversa na segunda parte de "E o Vencedor É?", aqui na Rádio Observador. Arranca a segunda parte de "E o Vencedor É?", hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e a Raquel Abrucassís. Estamos também a esta hora de olhos postos no Palácio de Belém, onde António José Seguro está a ser recebido pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A reunião terá começado às 16h, são 18h30, duas horas e meia de reunião. Alexandre Borges, na qualidade de especialista em lanches, em palácios, achas que foi servido um sortido húngaro ou scones? O que é que tu achas?

Eu vou arriscar dizer que o sortido húngaro estaria lá caso o outro candidato tivesse vencido.

Muito simples.

Foi para o congelador.

Exatamente. Aqui não, espero que tenha havido-

Podem ser cavacas das Caldas

Umas cavacas, exatamente, parece mais adequado.

O que é que eles estão a falar tanto tempo?

Há tanto tempo, não é? Eu não sei, não consigo especular sobre isso.

Raquel, queres especular? Acho que é teu.

Eu acho que o professor Marcelo, que já está em phasing out, deve ter ocupado a primeira parte da reunião, que não sei se já acabou, a fazer a sua análise política sobre o que se passou e o que se vai passar.

Tens razão, ele perguntou e respondeu, não foi?

Sim, deve ter passado bastante tempo a fazer as suas leituras e as suas previsões. E eu acho, agora também falando a sério, que há aqui um tema. Há aqui um mês em que temos em convívio dois presidentes, um que ainda não saiu e outro que já está eleito, mas ainda não entrou. E como o país não para durante um mês, é preciso gerir com pinças, e eu diria que com Marcelo Rebelo de Sousa essa gestão é bastante difícil, não sei se tem que ser mesmo uns bisturis daqueles muito fininhos pra chegar àquelas pontes mais difíceis, como é que os dois vão coabitar ao longo deste mês sem haver aqui picardias, sem haver aqui tomadas de decisão que comprometam António José Seguro.

Seguro ontem dizia isso, que Marcelo é o presidente até dia 9 de março, daqui a um mês.

É verdade, mas há decisões que ao longo deste mês poderão ter que ser tomadas. Há pouco ouvia na SIC o Vítor Costa falar que no dia 1 de março, portanto poucos dias antes de António José Seguro tomar posse, acaba o mandato do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e que essa é uma decisão que vai ter que ser tomada ainda antes da tomada de posse. Mas enfim, esta é uma como várias. Em termos internacionais, por exemplo, não sei se haverá um Conselho Europeu daqui até lá a ter que tomar decisões importantes. Portanto, tudo isto vai ter que ir sendo gerido entre os dois e não acredito que estejam agora a fazer toda essa transição de pastas, mas acho que emoldurado pelas várias leituras que Marcelo Rebelo de Sousa estará a fazer, acho que também esses temas estarão em cima da mesa. E enfim, algumas dessas primeiras decisões, até de diplomas que Marcelo Rebelo de Sousa irá promulgar ou deixar para o seu sucessor, acho que tudo isso vai ter que ser agora tratado entre os dois palácios, não agora o de São Bento e o de Belém, mas o de Belém e o de Queluz. E enfim, tratando-se do presidente ainda em exercício, Marcelo Rebelo de Sousa, isso requer algum cuidado.

Sim, Judite.

Eu só queria dizer que eu acho que uma reunião de início de passagem de pasta, porque ela vai demorar ainda muito tempo, durar duas horas e meia não acho normal. Acho que se demorasse menos seria bastante estranho. E se demorasse uma hora é estranho.

Pois não.

Sendo que foi bastante depois, não foi no dia a seguir.

No dia a seguir, efetivamente, não deve ter sido o dia a seguir. Mas eu entendo uma coisa, entendo que Marcelo disse que era no dia a seguir e António José Seguro disse claramente que sim, e acho que faz sentido, porque estamos a viver um momento particularmente difícil no país. Portanto, acho que faz sentido que seja logo no dia a seguir e acho bem que o presidente eleito queira já mostrar trabalho. Acho bem.

Claro.

Não há tempo pra férias.

Vocês distraem-me com o sortido húngaro, que eu não consigo resistir a bolinhos, isso é uma desgraça.

Qual é o bolo típico de Penamacor?

Não deram notas, não faço ideia.

Temos que saber isso. Temos lá um repórter.

Ou das Caldas?

Das Caldas é as cavacas.

As cavacas é mesmo das Caldas, ok. Não era só a gracinha política do apoio recebido.

É de várias zonas.

Mas também tinha essa leitura.

Não, cavacas é Caldas. E notas? Ah, queres dar notas?

Mas vocês vêm para aqui...

Não, há notas, mas as notas puxam outra conversa.

Notas.

Eu vou dar uma boa nota a António José Seguro, porque eu acho que se tivesse que pensar num boneco, às vezes vêm-me à cabeça desenhos animados ou coisas do gênero.

Como é que isto vai acabar?

Exato.

Eu acho que é um bocadinho o patinho feio que se transformou no cisne.

É o herói improvável.

É o herói improvável e, portanto, vou lhe dar aqui um 17. Acho que é uma nota excelente.

Importas-te que eu me alongue nas notas ou não temos tempo?

Não, pode.

António José Seguro, um 18. De facto, dificilmente se podia sonhar com uma noite melhor. Quer dizer, sair daqui como o mais votado dos presidentes da história da democracia portuguesa é extraordinário. Depois, o dito sistema, que sobreviveu ao ataque e ao naufrágio, também merece um 16. Ventura, apesar dos pesares, e aproveitando para comentar uma coisinha que queria dizer no fim da primeira parte, a propósito do que dizia a Raquel, acho que apesar de tudo, vai com um 12, porque sendo um derrotado, é um derrotado que sai daqui com alguns prémios de consolação. Percebendo que a Raquel tem toda a razão quando diz: entre dois, de repente houve ali-- é claro que há gente que não tolera o Seguro ou o PS, nem à força.

Votar no PS nem morto.

Exatamente. Ou que não quer a ideia do mais do mesmo, ou que sabia que Seguro iria ganhar na mesma, portanto, como dizias, só não queria contribuir para uma vitória ainda maior. Ainda assim, há qualquer coisa que vai sempre mudando em André Ventura ao longo do tempo, que é a redução da sua taxa de rejeição, que é aquela ideia de que há uma coisa muito forte, sempre que havia, e ainda no início desta eleição havia 70, 71% que diziam: "Não, nós nunca votaremos Ventura." Cada vez esse número é menor.

O resultado eleitoral diz isso.

Mas tiveste mais de 300 mil pessoas que já votaram pela primeira vez em Ventura. Portanto, isso acho que é sempre uma questão a ter em atenção.

Eu não percebo essa coisa de votar uma primeira vez e é mais fácil da segunda. Não consigo entender.

É o peso da taxa de rejeição. Se eu digo: "Eu nunca votarei nesta pessoa." Ok, a vida depois prova outra coisa.

Como provou nesta eleição.

Mas estas eleições não foram um somatório de circunstâncias?

Mas percebes que é isto que vai acontecendo, e como os candidatos, como os partidos fazem isto e testam os seus candidatos nestas coisas, que é testes de rejeição com as pessoas, testes de reconhecimento. Quem é que tu achas que nunca irás gramar, digamos assim.

Provavelmente, se tivesses perguntado a alguém de direita, ela diria que nunca votaria num socialista. E acabou por votar.

Não é bem verdade. Tu tiveste o teste.

Estas eleições não foram um somatório de circunstâncias estranhas.

São.

António José Seguro, que foi um nome atirado por Pedro Nunes Santos e que toda a gente se riu na altura, vence. Tens o almirante que vai vencer à partida e a partir do momento em que começa a falar e a dar entrevistas, começa a perder e atira-se a Marques Mendes e atira-se a ele próprio também para o chão e liberta aquele espaço. Depois temos Cotrim, que aparece com uma força também na campanha importante e que depois tem aquela última semana de campanha horrível para ele e que pode ter custado uma passagem à segunda volta. Ou seja, tivemos tantas circunstâncias que não controlámos neste ano, que podemos ter chegado a este resultado que ninguém previa há um ano e meio. Há dois anos, se alguém dissesse que António José Seguro vai ser o presidente da República mais votado de sempre.

Mas se me permites, é exatamente essa a questão. E isso estava visto nas sondagens. Apesar de tudo, essa parte não é assim tão surpreendente. O resultado de António José Seguro é incrível, mas só é possível porque foi contra André Ventura. Todos os estudos mostravam isso. Se Seguro tivesse concorrido contra Cotrim ou contra Marques Mendes, ou mesmo contra Gouveia e Melo, não tinha tido 76%.

Se calhar, não tinha ganho.

Exatamente. É isso mesmo. Muitos não ganhavam.

Dava sempre como vitorioso.

Não dava. Na primeira volta não dava, quando não se via quem é que passava à segunda volta.

Na segunda volta.

O Seguro não ganhava a todos.

Não ganhava a todos, nem pouco mais ou menos.

Nem pensar.

Nem pensar, exatamente. Quem ganhava a todos era o Marques Mendes.

Era o Marques Mendes que ganhava a todos a certa altura, no início era o almirante Gouveia e Melo.

Exatamente. O Seguro ganhava ao Ventura, só, se não me engano.

E que durante muito tempo toda a gente disse: "Marques Mendes não cometeu ainda um único erro."

Tal e qual. E essa é a questão da taxa de rejeição.

Olha, os meus colegas são muito forretas. Eu vou dar um 20 a António José Seguro.

Soa mal, lá.

Melhor era impossível.

Devíamos ter aqui um daqueles botões dourados.

Melhor era impossível.

É crise de quê? Um botão para...?

Daqueles botões dourados, como há no Got Talent.

Podemos rodar a cadeira. Agora que temos vídeo.

Queira a confete.

Melhor era impossível. Eu, apesar do que disse, estou de acordo também com o Alexandre, também dou um 12 a André Ventura, porque acho que deu mais um passo no seu caminho e tem um caminho que está consolidado. Vamos ver até onde é que chega, mas queria dar aqui uma nota extra a alguém que curiosamente, ninguém falou aqui ainda, que é um 9 a Luís Montenegro e ao governo, porque estão mesmo a precisar de ir à oral e têm mesmo que passar na oral, porque senão chumbam. E acho que é suficientemente elucidativo o facto de estarmos aqui a falar há quase uma hora e ainda não se ter referido, numas eleições presidenciais, o governo e o primeiro-ministro. Que ontem, aliás, decidiu um bocadinho fora de tom falar tanto da governação.

E quanto tempo tinha ainda para governar.

Não, e sobre a governação.

Várias vezes para os próximos três anos e meio.

Alexandre, vamos aproveitar o tempo ainda que temos, porque hoje tivemos mais uma morte associada ao mau tempo. Tivemos esta tarde a oportunidade de ouvir dois autarcas, o autarca de Leiria já tinha falado antes, com esta queixa recorrente de ineficácia em relação da E-Redes na reposição de energia. Sabemos que a situação é muito complicada, deve ser muito difícil repor energia com cabos, torres, os terrenos são de tão difícil acesso, mas é impossível mascarar esta sensação de abandono que milhares de pessoas continuam a sentir nesta altura, abandono do Estado. E os autarcas aqui na conversa comigo e com o José de França foram muito francos nisso. Não sabem o que responder às pessoas, porque não têm uma resposta para dar. E isto é um pouco aflitivo.

Claro. Sim, é o Estado ao nível central ou das grandes infraestruturas. Apesar de tudo, o Estado felizmente também é, e é muito, o poder local, como se vê nisto, e esse tem feito o possível por estar perto. Mas sim, não percebendo nada tecnicamente do assunto e portanto só podendo imaginar a complexidade da questão, há um ponto que me faz mais impressão e que não me parece que fosse assim tão difícil de resolver, que é: pelas minhas contas, a pessoa que morreu esta manhã, e há também um ferido grave que estavam a tentar repor a rede elétrica ali, julgo que é a 16ª vítima mortal, certo? Pelo menos.

16.ª ou 17.ª.

Ou 15.ª. Ontem António José Seguro começava o seu discurso de presidente a falar em 15 vítimas.

Sim, exatamente.

Não sei se foi ele que se-- exato, mas tirei essa dúvida. De qualquer modo, 15 ou 16.

É um número muito elevado.

É um número muito elevado, sobretudo se tivermos em conta que só as seis primeiras é que foram vítimas diretas do temporal.

Exatamente.

Portanto, há seis pessoas que morrem no dia 28 de janeiro porque cai uma árvore em cima do carro ou o telhado da casa desaba, ou há uma senhora que é levada pela corrente de um ribeiro, uma senhora estrangeira. A estas seis pessoas, desde então, já morreram mais nove ou 10.

Em acidentes.

Em acidentes, a arranjarem o telhado, intoxicadas pelo monóxido de carbono do gerador que puseram dentro de casa, agora a tentar recuperar a instalação elétrica, no caso um técnico, não era um amador. No dia em que morreu a pessoa que morreu intoxicada, que tinha o gerador em casa, foram mais 15 pessoas hospitalizadas só no Hospital de Santo André e só nesse dia pelos mesmos motivos. Morreu uma, mas podiam ter morrido muitas mais. E os avisos só saem aos poucos. Isto é, hoje, depois de ter morrido este técnico, a Proteção Civil emitiu um aviso a dizer: "Não toquem nos cabos assim e assim."

Não, mas tem dito nos vários briefings. Essa questão dos cabos eu tenho ouvido sistematicamente nos vários briefings.

Por exemplo, os geradores, não. Os geradores foi uma coisa que só é depois que dizem: "Olha, não ponham os geradores dentro de casa, não façam assim, não façam assado." E estes avisos, se têm saído, deviam ser bastante mais.

Há dois briefings por dia da Proteção Civil, neste caso.

Pois. É muito estranho. É a maior tempestade registrada pelo IPMA, ventos de 200 km/h. Obviamente, tens uma desgraça também em Espanha e em Marrocos. Ou seja, é complicado culpar sempre as autoridades por estas coisas, pelo que se pode ou não pode fazer. Já sabemos todas as fragilidades do SIRESP, de como a rede elétrica e de comunicações deveria ou não estar enterrada e tudo isso. Mas isto dos avisos devia ser a parte fácil. Parece-me realmente estranho que já tenhamos quase o dobro das vítimas a lamentar no pós do que diretamente pelos efeitos da catástrofe.

E a pergunta que fica sempre e para a qual não temos resposta é: isto vai mudar alguma coisa definitivamente ou não na capacidade e na forma como se organizam na resposta? Porque também ouvimos aqui uma denúncia importante, que fica esta sensação que não se sabe bem quem é que manda no terreno, quem é que está a coordenar tudo isto, mesmo em situações de catástrofe. Bom, o "Ivençor" regressa amanhã, nas manhãs 360 depois das 08h30.