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Good Morning, Soré na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite de França, a Helena Garrido e a Raquel Abrucassis. Temos dois assuntos que se mantêm no topo da atualidade: os exames nacionais, por um lado, e o caso do ministro da Administração Interna, Luís Neves, por outro. Mas hoje, Raquel, tivemos um pequeno vislumbre sobre o novo aeroporto de Lisboa e é por aí que começamos. 2035 está tudo pronto.

Vou te só fazer uma correção, esse assunto está no topo da atualidade há 60 anos.

Sim, mais ou menos.

Graças a Deus, vão surgindo outros. Temos outros temas pra falar, porque há 60 anos que estamos nisso. Eu trago esse tema porque há 60 anos que andamos a falar disso. Quando António Costa ganhou com maioria absoluta, o primeiro ato que teve foi chamar Luís Montenegro ao seu gabinete. Acho que era Luís Montenegro, ou ainda era Rui Rio. Enfim, o líder do PSD, num gesto magnânimo, porque não precisava dele pra nada, do líder do PSD, na altura, para tomar uma decisão, mas para que tudo fosse conforme e não houvesse mais atrasos para tomarem uma decisão sobre a localização do aeroporto. Isto foi em 2022. Hoje tivemos a enésima apresentação, que tem o título pomposo de "Expansão e Modernização do Sistema Aeroportuário Nacional: Ligar Portugal ao Mundo", e nós pensamos: "Pronto, vão pôr a primeira pedra." Nada.

Teve até um vídeo.

As obras começam, vamos ver, em 2029. Estamos em 2026. A decisão foi tomada em 2022, esta última, e a perspectiva é que em 2035, portanto, 13 anos depois desta épica reunião entre António Costa e já não sei se Rui Rio, ou se Luís Montenegro.

Tenho a ideia que foi com o Montenegro.

Sim. Portanto, 13 anos depois, há a expectativa de que possamos ter um aeroporto em Alcochete. Eu queria só aqui dizer que, no entretanto, já se começa a fazer aquele debate do costume sobre se Alcochete é mesmo a boa localização ou não é melhor ali ao lado, no Montijo, ou em outro sítio qualquer. E, portanto, enquanto não houver uma covinha feita, um tijolo posto, qualquer coisa, há sempre a hipótese de mudar e de voltarmos tudo ao princípio. E provavelmente, isto são os prazos legais obrigatórios dos parceiros ambientais e todas estas coisas. Mas a verdade é que isto é o retrato do nosso país. E eu já não vou falar dos 60 anos, estou só a falar de 13 anos depois de uma decisão tomada por largo consenso político. Treze anos depois, na melhor das hipóteses, nós vamos ter o novo aeroporto de Lisboa. E o que é que nós sabemos sobre o que é que vai acontecer daqui a 13 anos? Se calhar, se ainda precisamos de aeroporto, se este aeroporto não rebentou já, se já passou a moda e afinal já não temos os voos e achamos que já não é preciso fazer um aeroporto. Enfim, quando nós falamos de burocracia e falamos da lentidão dos processos, eu acho que este é o paradigma máximo daquilo que é a nossa situação. Vou só comparar com o tema da habitação. Como é que nós queremos resolver o problema da habitação, se nós não temos capacidade de construir rapidamente, porque os prazos todos que são necessários. É verdade que um prédio não é a mesma coisa que um aeroporto, mas enfim, não demora 13 anos, demora cinco ou seis pra ser autorizado. E assim não vamos lá. Depois há estas expectativas de que isto vai custar entre sete e oito mil milhões. Todos sabemos que isto vai sair o dobro. E portanto, quem olha pra isto, e não é muito entendido nestes prazos legais, que é o meu caso, fica a pensar que de fato não há solução.

Estou te sentindo muito pessimista.

Não há solução pra problemas básicos do nosso país.

Helena, mas estás assim então-

Também, claro.

Também?

Aliás, eu juntava isto, juntava o aeroporto às pontes que se anunciaram também. Pontes, vamos ter uma nova ponte Chelas-Barreiro para fazer a ligação do aeroporto a Lisboa em 20 minutos.

Vai ser 20 minutos ferroviária.

Ferroviária, mas é preciso fazer a ponte. Há troços Chelas comprometidos há 30 anos que não se podem mexer por causa dessa travessia. E ligação com a alta velocidade. Depois também se falou do famoso túnel, tudo coisas que se falam. Como se lembram ou lembrarão, Chelas-Barreiro era pra ser a ponte em vez da Ponte Vasco da Gama. O túnel foi referido pela primeira vez por Jorge Coelho e hoje estivemos o dia a nadar na maionese. Nós basicamente estamos em 2026, promete-se que em 2035 temos um novo aeroporto a funcionar, com uma ponte nova ferroviária, com uma ligação em shuttle dali da zona de Alcochete, onde está o aeroporto, até Lisboa em 20 minutos, e vamos ter também, aparentemente, um túnel, e são nove anos Para fazer isto tudo com o quê? Autorizações diversas, planos de financiamento, autorizações de impacto ambiental, estudos de impacto ambiental, planos de financiamento, concessões que têm de ser renegociadas, nomeadamente com a Lusoponte, porque tudo indica que o governo quer fazer uma megaconcessão incluindo todas estas pontes. Está-se mesmo a ver que isto é viável. Juntemos a isto a falta de mão de obra para a construção.

E a Vinci vai pagar isto alegremente.

Não, a Vinci vai pagar o aeroporto. Depois, como é que se chega lá, já é um outro problema que deverá custar 4, 5 mil milhões de euros, depende das estimativas. O Observador tem vários textos de Ana Suspiro, uns mais antigos em que estimam 4 mil milhões de euros, outros mais recentes em que estima 5 mil milhões de euros para as duas pontes.

E essa é para 2024, que já foi há dois anos. Portanto, isto é já para preparar o terreno para que nada disto vai bater certo.

Uma coisa é certa: é preciso chegar ao aeroporto. Não se pode construir só o aeroporto. Eu diria que estamos aqui perante uma situação que me faz lembrar tempos passados, nomeadamente Jorge Coelho, que era um político brilhante e quando se via apertado anunciava pontes.

Normalmente repetidas.

Exatamente. Ele foi o primeiro a anunciar que se ia fazer a ponte Chelas-Barreiro e o túnel também. E eu não sei se hoje também não assistimos um bocadinho a uma história semelhante, até porque nós temos o ministro das Infraestruturas também sob pressão, agora um bocadinho aliviada, por causa da famosa construção na parede do Hotel Hilton, que o Ministério Público identifica irregularidades no licenciamento do hotel, que inclusivamente ilumina uma estrada. Mas vamos esperar, porque na prática eu diria que vale mais concentrarem-se no novo aeroporto e nos acessos ao novo aeroporto e pararem de anunciar coisas impossíveis.

Judite, tu foste inundada por um raio de esperança ou também estás...?

Não. E tinha lido, segundo o ministro Pinto Luz, que estava preparado para a crítica fácil e para os velhos do Restelo que querem imobilismo.

Pronto, estamos descobertos. É que é impressionante como é que estes políticos não têm a noção do ridículo. Eu não estou aqui a querer duvidar que ele vai fazer tudo para cumprir estes prazos, mas é que isto é tão ridículo para quem ouve isto lá em casa.

Nove anos para fazer um aeroporto.

E é o maior aeroporto sempre, nunca visto um investimento assim.

Sim, eu concordo com a Raquel e concordo com a Helena. Acho que esta ideia de arrancar com a construção só em 2029, porquê daqui a três anos? É preciso esperar três anos para construir o aeroporto?

As autorizações de impacto ambiental.

Isso demora tanto tempo? Então se calhar é preciso agilizar essas licenças.

Sob pena de estar aqui com uma incorreção, pelo que percebi, depois de concluído, ainda vai demorar dois anos a abrir.

Sim, mas não abre logo.

Não, e há aí umas dúvidas sobre se 2035 é a data correta ainda.

A data correta de término da construção.

Não, 35 teoricamente, que está nos papéis do governo, é a data em que abre. Ora bem, deixa-me cá ver.

Abertura prevista para 35.

Sim, 35.

35. Bom, vamos ver. Se abrir em 35 não é mau já.

Trinta e três fica tempo dois anos para as autorizações todas.

Mas lá está, se for 35 não é mau, vamos aceitar. 2035 não é mau.

Nove anos é brilhante, eu diria.

Estou-vos a sentir muito pessimistas.

Sim, de facto, este tema do aeroporto são as obras de Santa Engrácia, só que nem sequer começam.

Essas demoraram pouco mais de 300 anos.

Mas começaram. Nunca mais acabaram. Aqui nem começam.

Isto já chegou a um ponto tal que eu acho que neste momento é: façam e não façam mais conferências de imprensa, não façam mais anúncios, porque isto ninguém leva isto a sério.

Aquela nota que estava farta daquela, como é que se chama? Constrúome.

Exato, era o Alqueva. O Alqueva também foi assim, foi uma telenovela. Constrúome porra, devia.

Exato. Eu estava a tentar.

Eu estava a evitar.

É o que vocês não queriam e, portanto, atirei-me eu para fora de pé.

Raquel Abecasis, senhoras e senhores.

É um bom título para o vencedor desta tarde.

Isso é. Na internet acho que não há problema.

Sim.

E na rádio também não ouvem.

Não sei, Helena.

Veremos mais daqui a uns minutos.

Sabes que eles incomodam com tudo e mais alguma coisa. Isto é muito difícil, Helena.

A vida é difícil. É mais difícil do que fazer aeroportos.

Sim. Não, mas é mais rápido. Bom, vamos a notas para o novo aeroporto.

Para o novo aeroporto de 2035.

2035?

É quando vai abrir, pronto, faz um 2035.

Confesso que estou desejoso por aquele comboio Lisboa-Alcochete em 20 minutos.

Eu também.

Acho isso incrível.

Espero que seja verdade.

É que não é bem Alcochete, acho que é Benavente, lá para aquele lado.

E Lisboa-Madrid em menos de três horas.

Hoje nem isso existe.

Eu não sei se vocês já fizeram essa experiência. Eu tive essa experiência uma vez na vida e jurei para nunca mais repetir, de ir de Lisboa a Madrid de comboio.

Eu fiz Interrail nos anos 80 e foi ótimo, adorei. Isso agora não existe, essa possibilidade.

Eu detestei, foi mesmo muito mau.

Mas também fizeste Lisboa-Madrid?

Fiz. No comboio noturno.

No que havia, no seu expresso.

Sim.

Não gostaste.

Não. Lamento, Helena. E era um jovem idealista nessa altura.

Também era jovem.

Era um jovem idealista. Ainda acreditava que havia solução para o mundo. Raquel, as tuas duas notas.

Olha, eu dou um zero ao imobilismo deste país.

Helena, tu deste nota, não.

Eu dou um zero. Acho que com papas e bolos se enganam os tolos. Vamos lá fazer o aeroporto e a ponte, pelo menos.

Judite França, começamos pelos exames nacionais.

Podemos começar, se não encontrarmos mais nenhum erro. Só em Geografia já vão três. E há pouco estávamos a ouvir um presidente do STOP a dizer que há ansiedade entre os alunos à conta destes problemas todos que têm acontecido. Eu acredito que sim, eu acredito que pais e alunos estejam preocupados, porque todos os dias aparece alguma coisa. Ainda há pouco ouvia uma mãe dizer: "Agora houve mais um erro no exame de Geografia, então a minha filha já mudou a nota, já passou de X para Y com esses dois erros que foram encontrados." Isto não é vida. Eu acho que há um outro problema que vai acontecer, que é o calendário de acesso ao ensino superior, e eu acho que o calendário devia ser alterado, e devia ser alterado já, porque os que passam pra época especial, exatamente porque sofreram problemas que lhes são completamente alheios no decorrer dos exames, vão estar relegados para concorrer na dita segunda fase.

Mas isso estariam sempre.

Mas para a segunda fase de exames só se pode candidatar na época especial. Estou a falar de setembro. Não é deles a culpa. A culpa é dos erros, do suspenso.

São as vítimas dos erros. Em princípio, sim, mas os erros serão sempre corrigidos. Sim, porque teriam que concorrer agora.

Exatamente. E, portanto, o problema é que na segunda fase há menos vagas.

Isto para cursos que estão ali muito em cima.

Exatamente.

É uma questão.

Eu acho que alterar o calendário garantia igualdade. E depois temos um outro problema, que é não sabermos se esta segunda época vai correr bem ou se não vai correr bem.

E se não correr bem, o ministro Fernando Alexandre.

Pois não sei qual será a alternativa, porque, de facto, se não correr bem esta segunda época de exames, esta segunda chamada, então vai ser muito problemático para Fernando Alexandre. Acho que aí o ministro fica mesmo na corda bamba. E acho, sinceramente, que Luís Montenegro não tem nenhuma vontade de substituir Fernando Alexandre, porque é uma forma de dizer: "Eu atiro os meus ministros para fazerem as ditas reformas e depois não os amparo quando as reformas correm mal." Portanto, eu acho, sinceramente, que Luís Montenegro não quer de todo fazer isso. Mas se esta segunda chamada voltar a correr mal como correu a primeira, aí não sei se o primeiro-ministro não terá que fazer alguma coisa.

Raquel.

Pois, eu estou de acordo com a Judite. Isto, de facto, correu mal, continua sem correr bem. Também estou de acordo que se nesta segunda fase, com todas as garantias que Fernando Alexandre está a dar publicamente de que desta vez as coisas vão correr bem, não se vão repetir os mesmos erros. Se isso não acontecer, eu tenho pena de dizer isto, e digo sempre, mas acho que quebra-se totalmente a confiança, como diz a educação, naquilo que é mais essencial na educação, que é a confiança na avaliação. E sobretudo na avaliação, numa fase em que os alunos estão a concorrer a outra fase de ensino, ao ensino superior. E, portanto, estou de acordo. Há um ponto, no entanto, que eu, até pelo que disse no primeiro tema deste Vencedor É, gostava aqui de dizer. Eu estou de acordo que isto não correu bem, que esta situação não é a situação ideal nem para as famílias nem para estes jovens, mas acho que esta ideia de vitimizar as crianças ou os jovens, que já não são crianças, e falar que estão com ansiedade e coitadinhos que não conseguem ultrapassar a ansiedade e o que vai acontecer, não é a mensagem que eu acho que se deva passar a ninguém e muito menos àqueles que nós esperamos que sejam o nosso futuro. Porque eu acho que é por causa deste tipo de vitimizações, de justificações, de desculpas que se encontram para tudo e de ansiedades e traumas psicológicos que se inventam para todas as situações, que este país não anda pra frente, porque simplesmente não estamos a educar uma geração pra enfrentar desafios. Isto é um desafio, é um imprevisto Quem tem 17 ou 18 anos, e eu também sei do que falo, não estou a dizer que não haja miúdos que tenham situações particulares, mas a maior parte das pessoas com 17 e 18 anos estão na idade de ouro pra enfrentarem dificuldades e aprenderem a superá-las e a andar pra frente. Portanto, esta coisa de alimentar a ansiedade dos alunos coitadinhos não me parece o discurso ideal. Não acho que isso desculpe o ministro e o que correu mal nesta situação. Até admito, e como mãe, porque já disse aqui também que estou nesta situação, tenho uma filha nesta situação, graças a Deus, as coisas correram bem na primeira avaliação. Até admito que eu estive um bocadinho ansiosa, mas não acho que isso deva passar pra quem tem que enfrentar esta situação e é por isso que eu acho que nós somos um povo pouco preparado pra ultrapassar obstáculos a todos os níveis. Se pudermos falar do futebol, que é a mesma coisa, andamos agora todos contentes porque perdemos com os vencedores. Quer dizer, há sempre um discurso em Portugal que é muito poucochinho e que nos conduz e nos leva pra muito poucochinho.

Helena.

Ainda bem que a Raquel falou disso, porque era exatamente o meu tema. Pode parecer um bocadinho ao lado, eu subscrevendo tudo o que foi dito, obviamente que isto correu mal, o ministro avaliou mal os riscos, não tinha um plano de contingência para o caso disto correr da pior maneira possível como acabou por correr. Tudo isso é verdade. Agora, também me parece que estes exames revelaram um país, eu confesso que não me espanta, porque como dou aulas na faculdade, tenho vindo a identificar este tipo de problemas. Revelou um país de ansiosos, de pais ansiosos, de filhos ansiosos.

Pais ansiosos, isso é garantido.

Hoje o Francisco José Viegas escrevia um artigo no Correio da Manhã, a dizer que uma das coisas que mais o impressionou foi a quantidade de pais que estavam a ver as pautas. Mas o que é feito dos miúdos? E é preciso ir ver as pautas. Já se sabe que nós íamos ver as pautas porque era um momento de festa, encontrávamos os colegas, íamos ver as notas dos outros.

Só ter uma desculpa pra sair à noite e ver as notas já era bom.

Ora bem, estás a ver? Ainda mais essa à noite.

Nós não tínhamos, as notas saíam em horas normais.

Aquilo saía de dia.

Era uma chatice.

Não podíamos sair à noite. Não se consegue perceber. Nós hoje já identificamos, aliás, tem havido testemunhos de professores, de pais de alunos, universitários, a enviar e-mails pros professores. Nós não podemos ter os jovens assim, não podemos. E não podemos estar a dizer, eu concordo inteiramente com a Raquel. É verdade, o ministro não esteve bem. Obviamente que se dispensava este problema, até por causa da credibilidade que o sistema de avaliação tem de ter, mas também transformar isto num processo de ansiedade. É preciso parar e os pais têm responsabilidades nisto. Não podem pressionar tanto os miúdos. E aos 18, 19 anos, ninguém põe em causa a sua vida.

Vamos também olhar para Luís Neves e pra situação do ministro da Administração Interna, Judite?

Sim, eu acho que esta notícia do Observador, que dá conta de que a PJ abriu um inquérito que foi validado pelo Ministério Público, mas depois a PGR diz que o inquérito pertence ao DIAP de Lisboa e é o DIAP que o vai investigar e não há delegação num órgão de polícia criminal a investigação, ou seja, não se delega na PJ a parte da investigação, eu acho que diz bastante daquilo que se pode esperar. Primeiro, eu percebo que se estamos a falar de um ex-diretor nacional da PJ que pode ser visado no inquérito, talvez o melhor não é ser investigado por aqueles que dirigiu ainda há muito pouco tempo. Mas podemos ter outras leituras ainda mais complicadas, que é a leitura de será que o procurador-geral da República tem receio de que a investigação feita no seio da PJ não seja a mais lícita, tendo em conta todos os uns uns que se ouvem de que, afinal de contas, parece que há um ajuste de contas dentro da própria judiciária, que é uma coisa que se tem falado. Será que esse é o receio do procurador-geral da República? Não sei, não sabemos. Não há nenhuma justificação nas respostas que são dadas ao Observador, não há nenhuma justificação por que não é a PJ, ou a PSP, ou um órgão de polícia criminal a investigar esta questão. É só dito que, por agora, fica com o DIAP de Lisboa. E eu acho que isto deve ter uma leitura e não quero ajudar a parte, como é que se diz?

Conspiratória.

Conspirativa. Não quero ajudar a parte conspirativa. Dito isto, cheira-me aqui que há mais do que uma razão para que não se faça aquilo que normalmente se faz, que é ter a investigação na PJ.

Helena?

Eu diria que é a altura de recordar Pedro Passos Coelho. Em fevereiro, Pedro Passos Coelho disse: seguramente que o primeiro-ministro acho-

Foi uma voz contra.

Exatamente. Disse O primeiro-ministro, com certeza, ao convidar o diretor da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna, teve a melhor das intenções, não tenho dúvida disso, mas o precedente é grave. Não se pode passar um diretor da PJ para Ministro da Administração Interna. É verdade que ele fez estas críticas e juntou também o Mário Centeno, que passou diretamente de Ministro das Finanças para Governador do Banco de Portugal. Aquilo a que estamos a assistir neste momento, que isto já está a atingir um novo patamar, que já não é a casa, é que estamos a afetar a credibilidade de uma instituição. Na sequência de termos ido buscar um alto funcionário do Estado para ministro. E embora Pedro Passos Coelho não tenha chamado a atenção para isso, penso que é um bom ensinamento percebermos que cada pessoa tem de estar a desempenhar a sua função. Um diretor da PJ tem de ser uma pessoa distanciada, isenta, tem de dar essas garantias todas, a partir do momento que passa a ministro, está empenhado em prioridades de um governo, de um determinado partido. E expõe-se àquele escrutínio que os políticos se expõem facilmente. Eu não acredito que o Luís Neves alguma vez tenha pensado em ser ministro e aquilo a que estamos a assistir é a riscos de danos na imagem da Polícia Judiciária. Pois, em relação a quem investiga ou não, quem participa ou não na investigação, eu acho bem que a Polícia Judiciária não investigue em causa própria, independentemente das interpretações que se façam. Acho que é o básico dos básicos, acho que descredibilizaria completamente a investigação. Eu recordo-me, não me lembro qual era o caso, mas um destes casos mediáticos em que foi a PSP que substituiu a Polícia Judiciária e houve, aliás, muitos comentários sobre a falta de confiança que o Ministério Público tinha e, portanto, criou toda aquela operação com a PSP sem dar conta disso à Polícia Judiciária. E portanto, se nessa altura eu até posso achar que era estranho, agora não acho que seja estranho. Acho muito bem que, de facto, não seja a Polícia Judiciária a participar. Quer dizer, se quiserem fazer uma auditoria interna, tudo bem, como todas as instituições fazem. Mas numa investigação pública, acho que tratando-se da Polícia Judiciária, para o bem ou para o mal, para perceber também de onde é que vêm estas notícias e como é que elas surgiram, porque todos sabemos que isso é o que corre nos bastidores, que há aqui ajustes de contas internos, quer para se chegar a uma conclusão, não se correr o risco de haver uma polícia a querer defender o seu ex-diretor-geral e, portanto, parece-me muito bem que isso seja assim. Quanto à posição, eu percebo o que a Helena disse e o recordar. Eu lembro-me do Pedro Passos Coelho ter dito isso. Isto, de facto, coloca em causa a Polícia Judiciária, mas a minha questão é: se ele não fosse ministro da Administração Interna e continuasse a ser diretor nacional da Polícia Judiciária e estas histórias surgissem, estaria na mesma colocada em causa a credibilidade da instituição. E tenho dúvidas que isso não estivesse para acontecer, tanto quanto sei, estaria para acontecer, mesmo se ele se tivesse mantido como diretor nacional da Polícia Judiciária. Em relação ao governo, isto de facto faz parte do escrutínio atual dos ministros. Eu já aqui há uma semana desvalorizei um pouco os casos, mas acho que de facto começam a surgir histórias que já não são casinhos, são coisas pelo menos que revelam desleixo, uma total desatenção. Quer dizer, nós a partir de agora pensamos assim: bem, mas agora há apreensões e o que é que acontece às coisas? Nunca foi uma preocupação que nós tivéssemos e há muitas apreensões, e grandes, em Portugal. E portanto, acho que a coisa começa a tomar outros contornos.

E amanhã mais "O Vencedor É", nas manhãs 360, depois das 08h30, amanhã com o Rui Pedro Antunes e a Helena Matos, que se juntam ao Jamail Fernandes e ao Bruno Vieira Amaral.