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Em princípio, estamos a cerca de oito meses das eleições autárquicas, mas os nossos comentadores ou os nossos professores, como diz o Nelson, já estão a encontrar alguns vencedores. Ou será que não? Miguel Pinheiro, há pouco acabaste de dizer que te preparas para dar notas baixas. Quem é que escolheste? Alô, Miguel. O Miguel ainda está a pensar na nota que vai dar.

Peço imensa desculpa, mas eu neste pequeno intervalo, para evitar que vocês oiçam o som e a fúria de um jovem de 10 anos a ser afastado para as aulas virtuais, tirei aqui o som e depois esqueci-me de voltar a pôr. Já está tudo bem.

Então vamos pôr os dois professores a funcionar. O professor desse pequeno jovem já deve estar online. E tu, que notas tens?

Infelizmente, ainda não.

Ainda não.

Ainda não, infelizmente. Mas vai correr tudo bem.

Claro que sim.

Ontem nós tivemos alguns desenvolvimentos em Lisboa e também ouvimos Rui Moreira a falar sobre o Porto. Lisboa é um grande problema para o CDS, o Porto é um grande problema para o PSD. Nós agora olhando para trás, a quantidade de anos que já passaram em que o PSD tem o seu eleitorado no Porto absolutamente alinhado com Rui Moreira, isto é dramático para qualquer partido político. E não há nada que o PSD possa fazer, não vale a pena. Mal sabia Rui Rio o monstro que estava a criar quando incentivou Rui Moreira a avançar contra Luís Filipe Menezes, naquele longínquo ano, nem sequer sei em que ano. Já foi na Idade Média. E o PSD desde essa altura que perdeu o seu eleitorado no Porto e isto é um drama para um partido político. Temos que ver o que o Rui Rio vai fazer este ano no Porto. Mas enfim, insistindo a ir a votos contra Rui Moreira, vai ser outra vez devastidade, faz lembrar aquele sketch dos Monty Python, aquela luta entre dois cavaleiros, um já está sem braços e sem pernas e continua a dizer: "Estás com medo? Anda aqui que eu vou te mostrar como é que é." E em Lisboa, o CDS tem este drama de ter um resultado extraordinário que não vale de nada, tem 20% nas mãos, mas bem podia ter 2%, porque toda a gente sabe que o CDS não vale aquilo, e portanto vai ter que se pôr ao lado do PSD, aceitar o que quer que o PSD faça. O CDS e o PSD, aliás, têm aqui um jogo de espelho. O CDS esconde-se atrás do PSD em todo o país para que as pessoas não notem a sua fraqueza atual e o PSD vai esconder-se atrás do CDS para justificar eventuais alianças pós-eleitorais com o Chega. Por isso é que os dois partidos estão de mãos dadas, assim tão juntinhos nesta fase. Mas enfim, a direita está a cada uma com os seus problemas para estas eleições. Eu vou dar um 10 a Rui Rio e um 10 a Francisco Rodrigues dos Santos, porque estou ansioso para perceber se esta estratégia de se abraçarem muito juntinhos resulta ou não.

Dois 10 do Miguel Pinheiro a arrancar este vencedor é. Tens algum vencedor, José Manuel Fernandes?

Eu acho que neste momento, o único vencedor, por enquanto, é o Partido Socialista, porque está sentado a ver numas eleições autárquicas que lhe podiam, e ainda podem, pode ser que as coisas ainda mudem até lá, mas que tinham condições para correr mal. Isto é, o PS teve nas últimas eleições muito bons resultados, portanto, tem um número de Câmaras muito elevado e tem que defender muitos lugares. Já não está apenas no fim do primeiro mandato, tem muitos presidentes de câmara que já não estão no fim do primeiro mandato, estão no fim do segundo e alguns no fim do terceiro e têm que sair. Portanto, era uma boa altura para as oposições tentarem reconquistar algumas Câmaras. Para além disso, eu acho que as eleições autárquicas, em boa parte, não se vencem apenas por ter mais Câmaras e mais Juntas de Freguesia, como muitas vezes se diz, porque desse ponto de vista, a posição do PS é quase inexpugnável, tem uma vantagem tão grande, que dificilmente vai deixar de ser o primeiro partido autárquico português, mas vencem-se muito naquela noite eleitoral por quem consegue ganhar três ou quatro dos grandes municípios portugueses, sobretudo aqueles mais emblemáticos. E aí, a posição do PS já não é tão inexpugnável como isso, porque, na minha perspectiva pelo menos, acho que em Lisboa a posição do PS tem fragilidades. Fernando Medina não é António Costa. A candidatura de Fernando Medina, como se provou há quatro anos, quando o CDS conseguiu o resultado que conseguiu, é uma candidatura com fragilidades. Fernando Medina não é um grande presidente de câmara. Eu não moro em Lisboa, mas não acho que Fernando Medina seja um grande presidente de câmara, pelo contrário. Não é uma pessoa carismática, não é uma pessoa que tenha feito um trabalho, não é uma pessoa que saiba transmitir, não tem de forma nenhuma a ligação aos munícipes que tem Rui Moreira. E, portanto, é uma câmara que um bom candidato e uma boa campanha podiam reconquistar para o PSD e o CDS numa coligação. Portanto, com um bom candidato. É um desafio que Rui Rio, com inteligência, talvez conseguisse Ganhar, mas não se vê que esteja a agir, quer o CDS, quer o PSD, com inteligência. E por isso Medina, que podia ter pela frente um grande desafio, está tranquilo. E há mais câmaras onde eu acho que poderia haver situações parecidas e aquilo que é a grande notícia de reconquista e que só serve para no fim do dia o PSD poder dizer: "Eu tenho mais uma câmara", são as negociações com Isaltino Morais. Podemos ter Isaltino Morais de regresso ao PSD, para o PSD dizer que ganham mais uma câmara.

E o que vai também dar grande polêmica.

Fica com uma nódoa. O impoluto Rui Rio ficou com a nódoa de ser ele a candidatar Isaltino Morais à Câmara de Oeiras e essa está garantida na contabilidade do PSD a nível nacional. Vamos ver, por exemplo, o segundo município do país em número de habitantes, penso eu que continua a ser Sintra. Sintra eu acho que é outra câmara acessível, outra câmara que talvez fosse possível conquistar. Tudo indica que provavelmente vai voltar a ser o mesmo candidato. É um candidato muito trabalhador e muito formiguinha, que é Marco Almeida, que esteve quase a ganhar a câmara como candidato independente há oito anos, mas que perdeu terreno há quatro anos. Eu não sei se à terceira vai conseguir arrebatar a câmara ao atual presidente. Mas bastavam três ou quatro câmaras destas, Lisboa, Sintra, para eventualmente o PSD no Porto perceber que é a altura de fazer um acordo com Rui Moreira, para encontrar um caminho que fosse mais para, na noite das eleições, o PSD e o CDS poderem dizer: "Ganhámos." É dessas câmaras que se vai falar.

Qual é a razão para o PSD não ter um acordo com Rui Moreira? Qual é a razão de fundo para isso?

O Rui Moreira pode não querer.

A razão é muito simples: narizes. É o nariz do senhor doutor Rui Rio.

E é o facto de Rui Moreira não gostar do facto de o PSD ter aprovado as alterações à lei autárquica, que não permite que um movimento independente concorra às câmaras e juntas de freguesia ao mesmo tempo.

Mas isso já é uma consequência disto, não é?

Sim, mas ontem Rui Moreira voltou a frisar e atirou-se um pouquinho às goelas do Rui Rio.

E tem razão.

E tem razão, certo. Eu não sei é se isso não inviabilizará um entendimento. Sim, é sinistro, se inviabilizar, para ambas as partes. Atenção, para ambas as partes.

Não sei, o Rui Moreira não precisa do PSD para nada, já há muito tempo.

Não sei.

A questão central é essa. Não precisa.

Os parquímetros na cidade do Porto deixaram os portuenses muito chateados.

Um partido político que está consistentemente desalinhado com o seu eleitorado numa das principais cidades do país, é uma coisa um pouquinho dramática.

Certo. E este problema talvez seja resolúvel. O de Lisboa é que eu acho mais difícil de ser resolúvel do ponto de vista de não ser uma desgraça como foi há quatro anos.

Mas atenção, que em Lisboa a esquerda também tem um problema, porque a verdade é que Fernando Medina sobreviveu à boleia muito da esquerda dele, e por isso é que se mantém no poder. E vamos ver o que vai acontecer ao Bloco este ano em Lisboa. Já vimos que o eleitorado do Bloco é muito volátil.

E também não está muito agradado com o Bloco de Esquerda, mesmo em Lisboa.

Por isso também não vai ser fácil.

A esquerda pode ter um problema em Lisboa, mas de facto o maior problema será sempre para a direita. Ainda que na questão do CDS, eu não estou propriamente muito alinhada com a avaliação que o Miguel fez no bom, o mau e o vilão da posição de Assunção Cristas. Eu acho que Assunção Cristas nunca quis ser candidata a Lisboa. Aliás, quando nós vimos no início de janeiro a notícia de que o CDS estava a pensar sondar e a convocar os antigos presidentes para uma conversa sobre autárquicas, para sondar Assunção Cristas sobre Lisboa, no mesmo dia, isso era uma notícia do Expresso, a Cristas veio dizer que ainda era muito cedo para falar de autárquicas e que havia tempo para isso. E agora vem dizer que os contactos foram muito parcos. A mim o que me parece é que Assunção Cristas estava à espera de Adolfo Mesquita Nunes e esta é a estocada final. Francisco Rodrigues dos Santos sai do Conselho Nacional com uma linha de vida até às autárquicas e com esta posição de Assunção Cristas, percebe-se que essa linha de vida só vai mesmo durar até às autárquicas, porque será uma tragédia para o CDS, mesmo que o CDS consiga mais uma vitória de Pirro apoiando Rui Moreira, se Rui Moreira for candidato, reclamando os louros dessa vitória, como fez também em relação às presidenciais. Portanto, o que me parece é que toda a gente ganhou, menos Francisco Rodrigues dos Santos aqui nesta questão. Paulo Portas disse-lhe que não, Assunção Cristas disse-lhe que não, dando-lhe essa estocada final. Não vejo como é que é possível o PSD aceitar um candidato do CDS e Cristas também põe essa pressão Em Francisco Rodrigo dos Santos dizendo que o acordo com o PSD é que quem ficou à frente nas últimas é que escolhe o candidato e dá exemplos disso. Mas eu não vejo como é que Rui Rio vai aceitar outro candidato do CDS que não fosse Paulo Portas ou Assunção Cristas. Portanto, acho mesmo que vai ser um passeio no parque para Fernando Medina, mesmo que haja um problema para o resto da esquerda.

Paulo Ferreira, também é na reconfiguração da direita que olhas quando perspetivamos as eleições autárquicas?

Claro, e são eleições importantes, as autárquicas. Nós tendemos a pensar que são, e são de facto muito personalizadas, como é evidente, onde os independentes entram com alguma facilidade e ganham câmaras importantes, basta olhar para o Porto agora ou para Oeiras. Mas também são importantes em termos partidários e políticos. Até pelo calendário em que ocorrem, mais ou menos a meio dos mandatos das legislativas, são uma espécie das midterm elections, salvaguardando as devidas diferenças e proporções, basicamente. Mas também não podemos esquecer-nos que, por cá, as autárquicas, embora sejam eleições separadas, já derrubaram governos. Há 20 anos, talvez.

Já houve pântanos.

Já houve pântanos, exatamente. Essa célebre noite em que Guterres anuncia a sua demissão do governo, porque receava um pântano depois de uma derrota eleitoral.

E líderes da oposição.

Exatamente. Passos Coelho, sem dúvida. Já tivemos em Lisboa um candidato que era o líder do PS na altura, Jorge Sampaio, e que depois dali passou para uma candidatura presidencial. Portanto, não são aquelas 308 eleições separadas que nós dizemos, muito personalizadas e por aí fora. Têm uma leitura importante em termos nacionais. E o que vemos agora, de facto, temos um governo socialista que quando formos a votos para as autárquicas, se forem em outubro, está com seis anos de mandato, está com uma crise pandémica, que é uma crise económica também. Portanto, é sempre um momento de avaliação. É um governo minoritário, para todos os efeitos. E o que nós vemos, de facto, é a absoluta incapacidade de recrutamento da direita neste momento, sobretudo o PSD. Já aqui falámos há pouco de Paulo Portas e de Assunção Cristas, do lado do CDS, mas também os nomes do PSD que têm surgido, Carlos Moedas, Miguel Poiares Maduro, ontem o Observador disse que não estava para aí virado. E portanto, estamos aqui a oito meses. O PSD devia de facto estar num momento crescente de conseguir nomes, caras de pessoas competentes, influentes, sobretudo para as câmaras mais simbólicas, e a de Lisboa é obviamente a mais simbólica. Ou por falta de entendimento com o CDS, por falta de haver uma estratégia, porque depois há esta pressão que a Sara falou agora, de Assunção Cristas a colocar no CDS a pressão de ser o nome deles, porque de facto ela teve 20% há quatro anos, contra o quê? 11% de Teresa Leal Coelho, cerca de metade.

Sim, 11,2% salvo erro. E vamos ver o efeito que vai ter no PSD e no CDS, mas penso que sobretudo aqui quem pode vir a sofrer é o PSD, a deserção de autarcas ou sobretudo de vereadores para o Chega e depois de votantes.

Achas que mesmo nas autárquicas isso pode acontecer?

Acho que vai acontecer de certeza absoluta. Acho que vai haver aquelas guerras típicas nas concelhias de "eu quero ser candidato" e depois as concelhias querem outro candidato e portanto é preciso um partido para acolher as candidaturas e o partido óbvio neste momento não é um PPM qualquer da vida como era antigamente, ou um partido desses, ou uma candidatura independente que dá muito trabalho montar, é ir pelo Chega. Nós já temos muitos presidentes de câmaras independentes que têm que andar a recolher assinaturas, têm que andar a fazer isto, aquilo e aqueloutro. Agora é mais fácil muitas dessas pessoas irem candidatar-se pelo Chega. E depois há, como nós acabamos de ver, muitas regiões do país onde o Chega pode não só estragar as contas a presidentes que já lá estão ou a eventuais candidatos a presidentes, como ir buscar vereadores e eventualmente provocar surpresas. Eu não tirava completamente aqui, apesar de achar muito difícil que o Chega eleja presidentes de câmara.

Mas pode fazer alguma mossa em algumas autarquias.

Presidentes de junta poderá talvez eleger, mas pode fazer mossa.

Há muito em jogo.

Pode fazer mossa.

Vamos só fazer aqui uma síntese.

Deixa-me só deixar a nota.

Claro que sim, era por aí que eu ia. Muito bem, vale então. Quem é que queria falar?

É por aí, Carla. Eu focaria aqui então em Lisboa, que é o caso mais visível, e com este estado de coisas, o vencedor neste momento é Fernando Medina, porque corre o risco, entre aspas, de ver nisto um passeio numa corrida que deveria ser difícil se do outro lado houvesse um candidato ou uma candidata à altura e portanto Fernando Medina neste momento leva um 14. Carla, sem querer abusar da tua paciência e do teu relógio.

Eu tenho toda a paciência. Diz.

E da nossa, Paulo.

Da vossa que já estão aí. Vocês já tiraram os auscultadores, fartos de ouvir. Só uma palavra sobre a questão que deve ser discutida já, que é do adiamento ou não das eleições. O Miguel Cunheiro já há pouco falou disso. Vamos chegar ao mesmo ponto que aconteceu nas presidenciais. Agora ainda falta muito tempo. Qual é a pressa de discutir agora eleições autárquicas? E lá para agosto, setembro, esperemos que não, mas poderemos correr o risco de estar a pensar que não era a melhor altura para fazer as eleições.

E a justificação do PS não cabe na cabeça de ninguém. A justificação para dizer que não se pensa em adiar.

Ou até junho.

Que o Rui Rio está a fazer isso porque no fundo aquilo que ele está a dizer é que não tem ainda os candidatos fechados. Portanto, dá-lhe jeito adiar.

Judite, vamos então também à tua nota e ao teu vencedor?

Vamos à minha nota e ao meu vencedor. Eu vou dar nota ao Rui Moreira, porque acho que ter encostado o Rui Rio às cordas ontem foi uma boa estratégia e, portanto, dou aqui um 13 ao Rui Moreira. Não dou mais por causa dos parquímetros, devo dizer.

Ficas maçada com os parquímetros.

Ó Carla, deixa-me só deixar uma coisa aqui só pra memória futura. Pode ser? Para depois passarem isto e eu me arrepender mil vezes. Mas com todo este pessimismo, só dizer que Ricardo Baptista Leite parece que pode ser um bom candidato, se o PSD o conseguir convencer, pode ser um bom candidato em Lisboa.

Certamente.

Se tiver o apoio do CDS, se a Iniciativa Liberal fizer um bom resultado e for retirar alguns votantes ao Bloco de Esquerda, porque entra também muito ali. E, portanto, pode ser. Eu não fecharia já o obituário político em Lisboa de Fernando Medina.

Não és assim tão triunfante nas vitórias anunciadas de Medina ou de Rui Moreira.

Ainda há uma janela.

Ainda há janela e ainda há oito meses, em princípio. José Manuel Fernandes, tu não deste pontuação ainda.

Eu não dei pontuação ao PS. Bem, o PS leva um 11, porque ganha por falta de comparência, não merece mais do que isso.

E sobre Baptista Leite?

Sobre Baptista Leite, que é dos nomes que têm aparecido no PSD nos últimos tempos, é dos mais promissores e portanto acho que tem claramente hipóteses. Se bem que eu nunca o tinha visto em campanha, mas é uma pessoa, ainda por cima é um rosto da saúde, o que não é mau agora nos tempos que correm.

Aqui fica também esta nota para Ricardo Baptista Leite. Sara Nunes Oliveira, queres mudar o tom da intervenção e queres mudar de assunto para o teu vencedor?

Tinha aqui, na verdade, uma nota, para além desta discussão das autárquicas, tinha uma nota positiva. Talvez um 13, que é uma ótima nota, mas que é um 13 de incentivo pra continuar a melhorar.

Já percebeste o registo.

Só não quero que achem que eu tiro certo pro 18. Mas tenho um aviso. A Ministra da Saúde ontem claramente mostrou que ouviu os especialistas e os peritos. Nós na terça-feira ouvimos Manuel Carmo Gomes ser muito claro em relação à necessidade de alargar os critérios de testagem. Deu exemplos, aliás, internacionais, como os da Dinamarca, que mostram que testar mais, testar bem, pode resultar em menos casos, porque se controlam as transmissões dos assintomáticos, um dos grandes problemas. Logo no dia seguinte, ontem de manhã, a ministra anunciou que tinha pedido o alargamento dos critérios, os testes gratuitos e tudo isso. E horas depois a DGS alargou de facto os critérios. Nós até agora temos visto grandes problemas na relação entre políticos e decisores, ou porque as informações são contraditórias, ou porque há falta de decisão para decidir, ou porque as decisões que acabam por ser tomadas são contrárias à opinião dos técnicos. Já vimos de tudo ao longo deste quase um ano. E finalmente há aqui uma ação clara. Agora, isto não é só pedir à DGS e alargar os critérios no papel. É preciso, de facto, depois ter capacidade e testar mais. E eu não vejo muito bem como é que isso vai acontecer, porque para testar todos os contactos é preciso conhecer todos os contactos, e isso continua a não acontecer. Ontem foi revelado o relatório da administração interna do estado de emergência entre 8 e 15 de janeiro, a semana antes do confinamento. E esse relatório revela que na região de Lisboa e Vale do Tejo, nessa semana foram detectados 23 mil novos casos em Lisboa, mas só foram feitos 15 mil inquéritos epidemiológicos, os tais inquéritos que servem precisamente para encontrar os contactos dessas pessoas, pra depois, agora pelas novas regras, testá-los a todos. E se nós não estamos a encontrar os contactos, não vamos testar as pessoas certas. E os especialistas também são muito claros em relação a isso. Não é testar toda e qualquer pessoa como aconteceu no Natal. É testar, alargar a malha ou apertar a malha, se quiserem, pra testar todos os contactos ou todas as pessoas que tenham sintomas. Pra ter os contactos, é preciso saber quem eles são. E se não houver uma melhoria clara na capacidade de fazer os inquéritos epidemiológicos, nós também não vamos lá.

E, portanto, este teu 13 é mesmo pra ministra da Saúde.

É.

Será a nota mais elevada que Marta Temido já teve nesta rubrica.

A sério? Porque é de incentivo. Sabem quando ali no segundo período os professores optam por dar assim uma nota de incentivo pra ver se no terceiro nós vamos lá?

Eu diria mesmo que é a única positiva, é a primeira positiva que a ministra tem aqui.

É capaz.

É porque eu acho que foi um bom exemplo e acho que mais vale tarde do que nunca.

Entendes que a ministra ouviu mesmo Manuel Carmo Gomes na segunda-feira?

Eu acho que não há grande alternativa pensar nisso, porque aquilo que Marta Temido vai dizer ao Parlamento ontem de manhã, em algumas partes e sobretudo na questão da testagem, é papel químico daquilo que foi defendido por Manuel Carmo Gomes. E não foi a única a fazê-lo, também já percebemos. Não, leu bastante bem a opinião. E não foi a única a fazer esse atenção. Quando Marcelo Rebelo de Sousa vem agora pedir uma ordem, regras claras no desconfinamento, também está a ouvir Manuel Carmo Gomes. Porque foi também isso que defendeu Manuel Carmo Gomes, e até na questão das escolas, na reunião do Infarmed. E portanto, é pena que tenha sido na última intervenção de Manuel Carmo Gomes nas reuniões do Infarmed, que depois se veja tanta ação tão clara replicando-se de facto essa opinião dos peritos.

E já viste como os nossos políticos são eficazes? Há aqui um especialista que disse uma coisa espetacular. Disse uma coisa tão espetacular que vamos mudar toda a nossa estratégia imediatamente e toda a gente está de acordo. Ministra da Saúde, primeiro-ministro, presidente da República, veem a luz com as palavras deste especialista. O que é que fazem? Deixam-no ir embora. Ok. O que está a acontecer? Vamos deixá-lo ir embora. É brilhante.

Manuel Carmo Gomes é ministro da Saúde, não é?

Mas qual era a tua sugestão? Que eles tirassem todo o trabalho a Manuel Carmo Gomes pra ele se poder concentrar nisto, era isso?

Claro.

Sabes que ainda há escolha individual. Se Manuel Carmo Gomes prefere concentrar-se no resto, tem direito de o fazer.

Deixando essa mensagem.

Em pandemia, não há escolhas individuais.

É suspender a democracia durante os mesinhos, é isso?

É arranjar uma forma de as pessoas se sentirem confortáveis a trabalhar nisto e a dedicarem-se a isto. E não parece que esteja a ser feito um grande esforço para convencer Manuel Carmo Gomes a rever a sua posição.

Deixa-me aproveitar agora.

O meu ponto é só que houve pelo menos alguma ação, e daí o meu 13. Não foi um 20, não sejam assim. E daí o meu 13, mas com este aviso: não basta ficar pelo alargamento dos critérios. É preciso garantir que há condições para fazer isto.

É uma nota de segundo período para incentivar o aluno. Aproveito também a vossa paciência para dizer que esta questão da testagem e da nova estratégia, que aparentemente está a ser seguida ou vai passar a ser seguida pelas autoridades de saúde, vai estar em destaque já daqui a pouco no Explicador. Temos um médico que tem pedido muito e defendido muito essa testagem em massa, António Ferreira. Vamos estar também com o ex-bastonário da Ordem dos Médicos, dono de uma das maiores redes de laboratórios do país, Germano de Sousa, para perceber se há, de facto, condições para se avançar com pés e cabeça para essa estratégia. O Vencedor volta já amanhã.