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Ilveç Toré, na Rádio Observador, com o José de França, Helena Garrido e o Nuno Gonçalo Poças. Estamos ainda a viver as horas seguintes à passagem de uma tempestade destruidora que afetou sobretudo a zona centro. A resposta dada pelas autoridades de proteção civil e políticas está já a ser alvo de críticas e de dúvidas. Hoje a oposição criticou o que chamou de lentidão do governo. Nuno, o governo foi lento a reagir?
Estas coisas são sempre difíceis e temo sempre falar aqui um bocadinho em cima destes acontecimentos, porque sei que a questão não é fácil, mas preocupa-me um bocadinho, ainda por cima tendo em conta que nós estamos sempre a falar disto recorrentemente, sempre que acontece algum desastre natural. Fica sempre uma sombra de dúvida, porque nós vivemos em zona sísmica e imaginar que um dia pode acontecer uma coisa desse gênero e que as coisas se podem repetir, mas numa escala ainda maior do que esta, torna-se um bocadinho assustador. Os relatos que eu fui tendo, até de muita gente, amigos, família próxima, que têm familiares, muita gente que vive ali naquela zona, Marrazes, Bataias, São Pedro de Moel, Marinha Grande, etc, é de alguma sensação de abandono. Ou seja, falta de comunicações, não há Estado em lado nenhum, ninguém consegue falar com ninguém. Havia muita gente, civis, a tirar postes da frente das casas porque as pessoas não conseguiam sair. Portanto, andavam vizinhos a ajudar vizinhos a fazer coisas pesadíssimas que não seria suposto. Preocupa-me um bocadinho, talvez aqui do ponto de vista mais político, não sei muito bem como é que hei de adjetivar isto, mas tudo aquilo que tem envolvido a senhora ministra da Administração Interna, que eu acho que de facto não tem propriamente grande habilidade para lidar com este tipo de coisas.
Ainda não a ouvimos, não é?
Pois.
Apesar dos convites.
E era um sinal importante que se podia dar. O cenário que eu acho que fica no meio disto é de facto esse, que parece que nós vamos andando de calamidade em calamidade e desastre em desastre. O ano passado tivemos o apagão e enfim, estas coisas vão sucedendo e os problemas mantêm-se quase sempre. Ontem acho que estava no carro e ouvi talvez o Pedro Jorge Castro que tinha ido a um quartel dos bombeiros, porque era o único sítio onde havia internet.
Estava, sim. Em Leiria.
E alguém, já não sei se foi ele ou se foi outra pessoa qualquer, que tinha mencionado que havia esquadras da polícia que estavam sem geradores.
Sim, foi o próprio.
Foi o Anselmo.
Sim, mas ouvimos isso na descrição do presidente da Câmara de Leiria, que estava a pedir geradores para acudir, por exemplo, aos lares e quem pudesse emprestar. E um dos locais que disse, e também à esquadra ou à PSP, ou seja, a PSP não tinha gerador em Leiria.
Exato. Isto menos de um ano depois do apagão.
Da capital de distrito.
Sim, menos de um ano depois do apagão e nós continuamos mais ou menos assim. É uma sensação um bocadinho de frustração. Perceber que, no fundo, é esperar que isto tudo passe, resolve-se, nunca mais se fala sobre isso, depois para a próxima logo se vê. Dizemos que estamos todos aqui muito empáticos e muito solidários uns com os outros e tal, e um abraço aí às populações, e depois logo se vê. Neste caso, não é o tema mais importante neste momento, mas há muita coisa para voltar: escolas, telecomunicações, abastecimento de combustíveis, energia, etc. Estava a pensar nisto quando vinha para cá, que daqui a pouco mais de uma semana há eleições.
E não sei se há condições.
E não sei se há condições e, portanto, o Estado mais uma vez também vai ter aqui mais um problema para resolver. Não sei se será um bocadinho bicudo.
Helena. Vou já avisar que te vou cortar a palavra aqui a meio, mas podemos ainda. Podes começar.
Posso começar. Eu começava subscrevendo o que disse o Nuno. Nós temos de perceber de uma vez por todas se estamos a fazer bem ou se não estamos, se a preparação foi eficaz, se não foi eficaz. Hoje no debate no Parlamento há acusações não concretizadas com nenhum exemplo dos partidos da oposição, mas a pergunta aqui é se a proteção civil poderia ter feito mais do que aquilo que fez. Ela avisou, mas de facto agora já não chega avisar. Tem de se dizer que é preciso prevenir, tomar algumas medidas. Nós já estamos um bocadinho como aquilo que vemos nos Estados Unidos e, portanto, se calhar é preciso as pessoas tomarem mais medidas do que apenas ficarem em casa. E depois diria que esta reação também me parece muito lenta e aqui eu percebo a complexidade da situação, mas acho que a Redes tinha a obrigação de fazer muito mais do que aquilo que está a fazer, nomeadamente em matéria de comunicação.
Já tentámos 100 vezes falar com o presidente da Redes e hoje, isso está descrito pelo Pedro Jorge Castro, que está em Leiria, que tentou falar com o secretário de Estado da Energia Que se escapuliu, acho que é a melhor forma de o descrever.
Será que não conseguem compreender que não estão a falar com jornalistas? Estão a falar com pessoas que neste momento estão ansiosas, que não têm meios de comunicação, que os meios que têm são a rádio. Por isso é que nos dizem: "Temos de ter um kit com uma rádio."
Não têm luz para o frigorífico, alguns não têm luz para a placa, para fazer a comida.
Sim, já agora, é um bom exemplo de como não devemos ter tudo ligado à eletricidade.
Não ter os ovos todos no mesmo cesto. Não confundir com campanhas presidenciais.
Não confundir. Mas esse aspeto, penso que não têm noção, nem o presidente da E-Redes, com a responsabilidade que tem, de que não é só enviar comunicados a dizer: "Olha, não sabemos quando é que isto vai estar recuperado." É preciso falar com as populações e não só baixar a ansiedade, como também dar-lhes um horizonte para que elas se organizem. As pessoas têm de organizar a vida delas, têm de perceber se precisam de mais ou se precisam de menos tempo para organizar a vida delas. Isso é que é fundamental e o secretário de Estado, por exemplo, podia ter feito esse papel.
Estamos com Judite França, Helena Garrido e o Nuno Gonçalves Poças. Marcelo Rebelo de Sousa lembrava aquela que tem sido a regra que adotou depois dos incêndios de Pedrógão, com base num relatório que foi produzido na altura, em que o relatório dizia que as altas individualidades, o primeiro-ministro, o presidente da República, deviam ficar afastados dos teatros de operações num primeiro momento para não ir atrapalhar quem está no terreno. Helena, os candidatos presidenciais tiveram dois tipos de atitude diferente. António José Seguro foi ao terreno quase incógnito, mandou uma mensagem ao presidente da Câmara de Leiria e depois fez saber que tinha ido e que poderá voltar. Já André Ventura foi esta tarde acompanhado dos jornalistas, no âmbito da caravana eleitoral. Alguém melhor do que o outro neste modelo?
Os dois mal.
Os dois mal.
Os dois mal. André Ventura devia ter respeitado aquela orientação muito bem lembrada pelo presidente da República, convinha que se lembrassem disso, porque a situação é de facto muito complexa e obviamente que André Ventura esteve pior. António José Seguro teve a atitude um bocadinho de sonso. Eu vou incógnito, mas depois conto a toda a gente que estive lá. E por isso não pode dizer que não está a usar, como em geral a classe política diz, e António José Seguro não foi exceção, que não está a usar a tragédia para fazer campanha eleitoral. No universo destas, obviamente que Ventura esteve pior porque nem sequer levou em consideração, e são alertas que têm vindo, essas conclusões a que se chegou na altura dos incêndios. No domínio destas reações todas, Ricardo, gostava também ainda de juntar o pedido inusitado do deputado do LIVRE, Jorge Pinto, e ex-candidato presidencial, que no meio daquilo que nós estamos a viver, ele diz que o Estado tem de garantir um kit de emergência em casa de cada português. Não vai haver dinheiro para nós fazermos frente àquilo que se passou. Ainda temos de garantir um kit, em vez de ele contribuir para que as pessoas também, olhando para o que se passou, elas próprias olhem para a sua casa e vejam se têm um kit de emergência.
Judite, ainda não te ouvimos neste assunto.
Não, mas eu vou só te recordar aqui da Helena em relação a António José Seguro. Eu acho que fez bem em ter ido ao local inteirar-se das questões e acho que faz sentido depois disso dizer que lá foi, porque senão estávamos todos aqui a criticar António José Seguro por não ter feito menção à situação, por não ter ido lá com ou sem jornalistas. E, portanto, eu acho que foi a melhor opção entre as opções. Eu acho que esta é a melhor opção.
Não ir era a opção. E dizer porque é que não ia, como fez o presidente.
Mas não ir parece que há desinteresse, não é? Não sei, a mim dava-me a ideia de que não ir parece desinteresse.
Posso desempatar empatando?
Claro.
Podes. Que tal ir devagarinho? Não.
Se calhar foi.
Enviar um emissário.
Exato. Também acho que há aí um contexto muito próprio, porque ele também vive no distrito e, portanto, é natural que até tenha ali alguma proximidade.
Conheça os presidentes de junta.
E conheça os presidentes de câmara, aquelas coisas todas. E que até conheça a zona propriamente dita, e muitas daquelas localidades. Mas eu acho que, por princípio, representantes políticos ou candidatos se devem manter afastados, embora quem tenha responsabilidade política direta sobre aquilo tenha naturalmente que acompanhar onde deve acompanhar.
Tem que lá ir ver.
Para fazer como o primeiro-ministro.
Mas no momento certo, ou seja, em conjugação com as autoridades, etc. Aquelas coisas todas, aquilo tem um protocolo. Mas há aqui uma parte que também nos cabe, quase de vigilância disto, que é: nós depois também não podemos é achar que não devem ir e se eles vão criticá-los por ir e se não forem criticá-los por não irem. Ou seja, acho que há aqui um ponto mais ou menos intermédio, que eu acho que por regra não devem ir Mas a ir, como um morador qualquer. Vamos imaginar que aquilo era na rodovia.
Podia fazer o que fez o presidente e dizer: "Não, não fui por causa disto."
Certo, mas depois seria criticado na mesma. O Marcelo agora já não é criticado porque já está de saída e já ninguém quer saber se ele vai ou não. Também já foi a todo lado e, portanto, agora já não há mão.
Já está cansado.
Eu digo que vai.
Claro, e bem, é normal que vá. Eu lembro que nós todos olhámos para aquele momento em que estava o Luís Montenegro dentro de uma barcaça.
É verdade.
E foi ridículo. Mas também quando não se vai, depois pedem: "Onde é que eles andam?" Há aqui um ponto mais ou menos equilibrado e nós também temos que ser justos e equilibrados nessa avaliação.
Sinto que o Montenegro, ainda há pouco o Miguel Pinheiro recordava isso, não concorda com essa avaliação. Acha que um primeiro-ministro deve ir ao terreno e deve lá estar.
Sim, o André Ventura foi apagar um incêndio da última vez.
É verdade, com um ramo.
Com os raminhos.
Eu, se não fosse ele.
Se não fosse ele, aquele incêndio.
Se não fosse ele.
Deixe-me só dar aqui uma nota muito breve em relação ao governo, porque eu acho sinceramente que o primeiro-ministro ontem, tirando ir à Proteção Civil, não foi a mais lado nenhum. E hoje apareceu, finalmente. Acho que demorou muito tempo para decretar o estado de calamidade. Acho que se isto não merece estado de calamidade, então o que é que merece? Acho que uma tragédia destas devia ser atacada logo desde o início com o estado de calamidade e acho que já o devia ter feito ontem, porque já havia noção da destruição. Ele próprio já tinha noção da destruição, porque não tendo estado no terreno, tem quem lhe conte. E portanto, ele próprio já tinha noção da destruição e eu acho que devia ter agido mais rapidamente aí. Se na prevenção eu acho que fizeram aquilo que era possível, no pós podiam ter feito mais e podiam ter feito mais rápido.
E há notas?
Isto é muito ingrato.
Eu vou dar um 12 a Luís Montenegro por lá ter ido hoje.
Uhum.
E eu também posso dar um 12 para melhorarem a nota, por favor, porque é preciso perceber que há as alterações climáticas, que isto mudou, que se calhar a Proteção Civil tem de se revisitar.
Nuno?
Sim, eu dou muitas vezes esta nota, que é o 10 de expectativa.
Dás muitas vezes o 10?
10 de expectativa.
A nossa emissão em FM em Leiria também foi prejudicada pelo mau tempo. Também estamos a tentar, com todo o afinco, resolver o problema para conseguir chegar nas melhores condições a quem nos ouve em Leiria. Para já, só é possível uma escuta online, mas também não há internet. Enfim, não está a ser fácil. Ainda temos aqui, Nuno, três minutos para uma boa história, que nos é trazida pela revista Sábado. Então, afinal há tachos do CHEGA em Lisboa?
Pois, parece que sim. Em Lisboa e em Albufeira também, há uma irmã.
É imobilidade.
A irmã em Albufeira é imobilidade.
Estamos a falar da nomeação da namorada do candidato.
Sim.
A namorada do candidato à Câmara, agora vereador, Bruno Mascarenhas, também é filha de um senhor do CHEGA, que também acabou de licenciar em Direito e que agora já é jurista, também na Câmara.
Uhum. E houve uma vereadora que acabou por bater com a porta, até porque tinha portas fechadas.
Não conseguia entrar no seu próprio gabinete.
Sim. Portanto, é caso para dizer que no CHEGA há um problema de portas.
Não giratórias.
Não giratórias.
Calma.
Era esse ponto que eu queria aqui trazer, de facto, porque isto sempre me pareceu bastante isto, que é um partido igual aos outros. E portanto, toda aquela retórica dos tachos.
Mas é o partido que ia arear os tachos e limpar tudo isto.
Ariou, só que... Ariou.
Ariar, ariou.
Ariar, ariou.
Já sabe, isto não é um programa sobre música sertaneja. Estamos a falar de política.
Mas o resumo disto aqui eu acho que pode ser este: o CHEGA não veio para derrubar o sistema, não é o antissistema. Aquilo é um grupo de pessoas que não teve lugar e não teve direito a isto quando estava nos outros partidos. E que, na verdade, aquilo que quer é só aceder àquilo a que todos os outros normalmente tinham. E portanto, aquilo quando se diz desta política dos 50 anos e não sei o quê, e que não pode ser, e que temos que limpar Portugal, é limpar pra depois pôr uma sujeira, também falando aqui um sertanejo, pra pôr uma sujeira diferente, é tirar areia por cotão.
Mas achas que foram um pouco cafajestes?
Foram um pouco cafajestes.
Já é a segunda vez que o Ricardo Conceição consegue dizer cafajestes.
Não posso dizer bobeiras? Bobagem?
Disse também, foi a primeira vez. Deixa-me só dar aqui uma nota, que uma das pessoas que foi nomeada é cabeleireira.
Sim, também é esse o caso.
Nada contra, mas...
Não, mas foi nomeada pra área dos espaços verdes.
Se for a Maria José Valério, pode fazer algum sentido.
Coitadinha, já faleceu.
Eu sei que já.
Para os mais novos, uma grande cantora, cantou e imortalizou a marcha do Sporting e tinha uma madeixa verde no cabelo.
É verdade. E só pra concluir. É sobre tudo isso, não só reconhece nas pessoas qualificações profissionais, porque podem ir buscar as pessoas aos partidos, mas elas terem qualificações profissionais. A verdade é que aparecem sempre como o grande arauto da moral e dos bons costumes e depois fazem exatamente o mesmo que os outros.
E amanhã há mais, e o vencedor é... Tu querias dar uma nota?
Dou um 20 ao CHEGA, porque finalmente, parabéns, estão a conseguir.
Um 20 pelos tachos. E o Vencedor É regressa amanhã, nas manhãs 360, depois das 08h30.