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Começa agora mais um "Ivensouré das Manhãs 360", Carla. E hoje, esta quinta-feira, está conosco o Luís Rosa. Sempre que o governo se prepara para vender imóveis do Estado, Álvaro Santos Pereira foi ao Parlamento, enquanto milhares de imigrantes se manifestavam junto à Assembleia da República. E Bruno Novali, momentos tensos, sobretudo quando André Ventura resolve aproximar-se da manifestação.

Sim, de forma deliberada, planeada para obter o efeito. Aquilo que se viu, aliás, acho que será consensual dizer que André Ventura até estava à espera que as coisas corressem um pouco pior, ou seja, na perspectiva dele, corressem um pouco melhor. O que André Ventura foi fazer ali?

Achas que foi uma provocação?

Óbvio. Acho que qualquer pessoa não acha, tem a certeza. André Ventura não foi lá para esclarecer, para dialogar com ninguém.

Para isso convocava, marcava uma audiência no Parlamento.

Se André Ventura tem tanta vontade de ser ouvido pelos imigrantes, por que não marca uma reunião com as associações que representam os imigrantes para falar, para mostrar quais são as suas ideias? Tudo aquilo que disse ontem, rodeado daquela trupe. Eu não sei se foi um golpe publicitário, foi um número de circo, mas percebe-se claramente qual foi o objetivo de André Ventura. E alguém que neste momento já tem a responsabilidade que André Ventura tem, insistir ainda nisto, eu já não compreendo. Funciona, claro que funciona, nós todos sabemos e temos dito isso a propósito de outras situações. Sabemos que estas coisas funcionam. Com André Ventura, provavelmente não funcionariam com nenhum outro líder político. Nenhum outro líder político se atreveria a ter os custos eleitorais políticos de uma manobra destas, mas parece que tudo isso joga a favor de André Ventura. Todos estes números reforçam esta imagem e ontem as coisas só não lhe correram melhor, de facto, porque não houve uma agressão direta e eu acho que André Ventura estava à espera disso. Há pouco o Miguel Pinheiro falava da Marinha Grande. O que ele estava à espera era de uma tensão que resvalasse depois para o confronto físico. Obviamente, era isso que estava à espera, ainda que o momento de Marinha Grande não tenha sido encenado. E ontem aquilo a que assistimos foi a uma encenação, aproveitando o facto de existir uma manifestação, tentar retirar dividendos políticos.

Ele é que foi ter com o potencial problema.

Claro.

Não foi ele o problema, foi ter com o problema. Primeiro não havia problema nenhum, que chatice.

E é que não havia justificação nenhuma. Aliás, depois André Ventura, aquilo não são argumentos, mas depois quando tentou explicar porque é que estava ali, só queria explicar e não o deixavam falar, estavam a acusá-lo, estavam a insultá-lo, de ser racista. E ele diz que está ali para defender, de alguma forma, a dignidade da Casa da Democracia. Não se admite ali uma manifestação. Nós já vimos ali, à porta da Casa da Democracia, manifestações, para usar um eufemismo, muito menos pacíficas do que a manifestação de ontem e por classes profissionais, algumas até com responsabilidades muito maiores do que o do grupo de imigrantes. Já vimos polícias, já vimos bombeiros manifestarem-se à porta da Casa da Democracia e curiosamente vimos André Ventura ir ter com esses manifestantes e só faltou liderá-los numa invasão à Casa da Democracia, cuja dignidade André Ventura diz querer proteger. Portanto, tudo ontem foi apenas mais um capítulo neste livro de golpes publicitários e de manobras midiáticas do Chega, de André Ventura, que eu acho que neste momento já não são desculpáveis. Quando é para dar as vistas a aparecer, quando não se tem a responsabilidade política que é dada também pelos votos que um partido e que o líder político tem, ainda se compreende. Mas neste momento, eu acho que André Ventura já está noutro patamar. Mas ele sabe, ao mesmo tempo, que é preciso continuar a dar estes bombons a alguma parte, uma parte do eleitorado do Chega que gosta disto. Não tenhamos a mínima dúvida, há uma parte do eleitorado do Chega que gosta disto, aliás, ansiava, tal como o próprio André Ventura, por este momento e por um momento de confronto ainda de maior tensão. E André Ventura serve-lhes isto, mas, para mim, o líder da oposição, alguém que já alcançou esse estatuto e tem essa responsabilidade política, não devia fazer aquilo. Aquilo que André Ventura ontem fez é indecente para um político. Não o devia ter feito. Hoje só posso dar um zero. André Ventura não merece mais do que isso.

Um zero para o líder do Chega e a forma como se juntou ou confrontou os manifestantes de ontem à tarde. Para hoje está marcado o primeiro de dois Conselhos de Ministros que se preparam para alienar patrimônio do Estado. José Manuel, imóveis do Estado. José Manuel, e é aqui que queres dar nota, uma boa nota?

A partir de sim, vamos ver o que acontece. Porque uma coisa é dizer que se quer vender, outra coisa é conseguir vender. E o que temos aqui em causa é uma intenção que nem sempre corre bem. Muitas vezes a ideia é pegar nos edifícios, e isso foi feito muitas vezes nesta área da habitação, que é pegar nos edifícios, dizer que se vai recuperar os edifícios e depois que se vai fazer habitação a rendas acessíveis, coisas desse gênero. A experiência que tivemos tem sido catastrófica

O custo de recuperação do edifício para habitação, quando ele foi construído para outro fim, é elevadíssimo. Mesmo quando ele foi usado para outros fins, é elevadíssimo. Um exemplo de uns imóveis que eram da Segurança Social e foram entregues à Câmara Municipal de Lisboa, levou imenso tempo, serão caríssimos e deram para duas ou três pessoas. Para duas ou três famílias, não teve efeito sistémico importante. Parece que neste pacote vai também o edifício do Ministério da Educação. Espero que seja para deitar abaixo.

Finalmente. Está a falar da 5 de Outubro.

Da 5 de Outubro, é o que diz o "Público".

Certo. Está há oito anos fechado.

Está há oito anos fechado. Era para fazer uma coisa que não dá para fazer lá dentro, que era uma residência universitária, edifícios que não têm valor arquitetónico, como é aquele caso. Como é o caso também do edifício do Conselho de Ministros. Espero que com esta intenção de venda venha a autorização para os deitar abaixo. Evidentemente que isso não depende só do governo, julgo que também dependerá da Câmara Municipal de Lisboa, que tem a total urbanística da cidade, mas deve ser assim que as coisas são feitas, porque é muito mais barato. É muito mais barato, é mais rápido, é menos complicado do que estar a tentar fazer obras de recuperação em edifícios que não vale a pena manter. Se me disserem que é num centro histórico, onde há uma determinada harmonia. Mas, por exemplo, na 5 de Outubro, aquilo até sai da harmonia da rua. É um edifício que sai um bocadinho daquilo que é o estilo daquela avenida. Vamos ver o que acontece. Eu acho que à partida vai-se na boa direção. Parece que com atraso, a notícia também dá a indicação de que faltarão 900 milhões de receitas e que também se vai à procura dessas receitas, porventura, já um pouco tarde, porque eu não sei quanto tempo é que isto vai levar a concretizar. Não se faz de um dia para o outro. Seja lá como for, vai-se na boa direção. Agora, aquilo que eu receio e aquilo que eu tenho visto muitas vezes acontecer, é que há uma diferença muito grande entre aquilo que se anuncia e aquilo que se concretiza. Portanto, se quiseres uma nota, eu posso dar já. Para já, é uma nota de expectativa. Um 12. É positivo, mas tem que se ver o resto.

Sim, mas não está mal.

É para ir ao oral. Nós demos só a nota.

É por aí também, Paulo, que olhas para este anúncio.

Isto chega muito tarde. E como o José Manuel acaba de dizer, uma coisa são os anúncios, outra coisa depois é a concretização. E basta até ir ao tal exemplo do tal edifício sede do Ministério da Educação, o ex-sede do Ministério da Educação, que está há oito anos fechado. E nós vimos todos, aqui há uns anos, António Costa, primeiro-ministro, a ir lá visitar, acho que não cortou fita nenhuma, mas no fundo a fazer um número para as televisões, a dizer: "Aqui vai ser feita uma residência estudantil para estudantes do ensino superior." Até hoje está fechado, basicamente. E este é provavelmente o maior exemplo da forma como o Estado vai gerindo o seu património imobiliário, que é: não sabe o que tem, não sabe onde tem, em que estado está. No meio de uma crise habitacional, sobretudo nas grandes cidades, mas este Estado, que não sabe do seu patrimônio imobiliário, todos os dias tem lições para dar a todos os proprietários. Sabe que as casas vazias têm que ser arrendadas e que os privados devem fazer assim, devem fazer assado e de vez em quando não se coíbe de ameaçar até expropriar. E isto tem que acabar de alguma maneira, o Estado tem que começar a dar o exemplo. Portanto, este passo, para já são intenções, esta venda de 10 imóveis do Estado é um bom passo, que venham mais. Em alguns casos, que se recuperem, que se destine esses imóveis para habitação, independentemente de serem recuperados ou demolidos e depois que seja construído naquele espaço, e que se ponha ordem de uma vez por todas no patrimônio imobiliário do Estado. Nós temos a Estamo, que é uma empresa pública dependente do Ministério das Finanças, temos o IHRU, Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana, com responsabilidades também no caso. Tanto um como o outro têm bolsas de imóveis, isto é, são donos de ativos que algumas entidades públicas lhes vão passando. No caso do IHRU, já recebeu há anos imóveis do Ministério da Defesa, por exemplo, o Hospital da Estrela, perto do Jardim da Estrela, em Lisboa, que está também fechado, em degradação, a cair há anos, sem que nada aconteça. E ao mesmo tempo, eu estive a ver agora no site da Estamo, só este ano já foram publicados, e isto deve ser uma pequena amostra, 34 anúncios de entidades públicas que estão à procura de imóveis para elas próprias arrendarem, porque precisam deles. Muitos na região de Lisboa, outros noutros pontos do país. De certeza que entre os imóveis que estão vazios do Estado, haveria muitos que podiam ser ocupados por estas entidades públicas que andam à procura de espaços para arrendar. E de certeza que depois vão arrendar a privados e pagar uma renda quando ao lado há um imóvel vazio do Estado. Enfim, que se ponha ordem nisto e que isto seja o primeiro passo, mas que se faça mesmo.

O José Manuel dá um 12.

Eu acompanho o 12. É aquela nota de: é um bom passo, mas é preciso continuar.

É preciso continuar, José Manuel. Muito bem. Luís Rosa, bom dia, o que achaste ontem da ida de Álvaro Santos Pereira ao Parlamento, este processo, antes de assumir o cargo de governador do Banco de Portugal?

Bom dia. Acho que foi uma audição muito interessante. Em primeiro lugar, porque Álvaro Santos Pereira mostrou que vai ser um governador muito diferente de Mário Centeno

Deu muitas indicações nesse sentido. Mostrou desde logo que defende um controle muito duro da inflação, logo mostra um pensamento diferente de Centeno. Na linguagem que a imprensa econômica internacional utiliza sobre o Conselho de Governadores do Banco Central Europeu, não será uma pomba, como é Centeno, mas sim um falcão. Eu acho que isso é positivo, não pelo pensamento de Álvaro Santos Pereira, mas é positivo porque diz desde logo, ao início, ao que vem, de forma transparente qual é o seu pensamento macroeconômico. Isso é muito importante, na minha opinião. A audição foi também marcada por uma ideia forte, que é ser independente do governo, seja ele qual for, e acima de tudo, não se revê no papel de quase líder da oposição que Mário Centeno teve ainda a desempenhar desde que praticamente tomou posse. Isso também é um sinal de diferença face a Centeno, que era manter relações cordiais com todos os governos. E deu vários recados ao ainda governador do Banco de Portugal. Isso mostra que também tem uma vontade de fazer diferente do que Mário Centeno tem feito. Desde logo quando disse que se estivesse no lugar de Mário Centeno, se iria embora e não ficaria no Banco de Portugal. "Eu não ficaria no banco após ser governador", disse Álvaro Santos Pereira. Isso pode significar que Santos Pereira não vai seguir uma péssima tradição do Banco de Portugal, que é quando o novo governador chega, coloca ex-governadores ou até ex-administradores como consultores seus a ganharem um salário milionário e praticamente não fazem nada. Eu espero que Álvaro Santos Pereira não faça isso com Mário Centeno e, acima de tudo, que reforme esta autêntica pouca-vergonha que é as nomeações para consultores, que eles praticamente não fazem nada e ganham, de facto, um salário elevadíssimo, acima de €10.000 por mês. É certo que Centeno pode ficar porque é quase do Banco de Portugal e pode voltar ao departamento de estudos, que tão mal tratou como governador, mas isso é uma decisão que Mário Centeno pode tomar, mas Álvaro Santos Pereira está a lhe dar um recado: "Não fique, saia". Também é importante essa ideia. E na nova sede do Banco de Portugal, que como sabes, Carla, foi uma investigação do Observador, que nós publicamos em julho, foi um assunto muito importante na audição. Mário Centeno vai ao Parlamento no dia 25 dar explicações sobre esta matéria. Álvaro Santos Pereira não se comprometeu e também não tinha de o fazer, porque ainda não conhece o tema a fundo, ainda não tomou posse, não chegou ao Banco de Portugal, não estudou o dossiê a fundo como deve fazer e como disse que iria fazer. Mas eu acho que deu vários sinais importantes. Em primeiro lugar, que a sede deve sempre avançar, seja qual for a localização, porque isso também é unânime, todos os serviços devem estar concentrados num só edifício, isso faz sentido. Isso foi uma decisão que foi tomada por Carlos Costa e, portanto, faz sentido que o Banco de Portugal execute essa ideia. Mas desde logo, isso foi uma grande crítica a Mário Centeno. Se tu quiseres, no nosso trabalho, havia ali vários pontos que nós escrutinamos e um deles era precisamente esse, era o fato de Mário Centeno ter assinado um contrato de promessa que compromete o Banco de Portugal, no mínimo, com 191,99 milhões de euros a dois meses do final do seu mandato. E Álvaro Santos Pereira diz que decisões estruturais não devem ser tomadas no final de mandatos. É uma crítica muito dura a Mário Centeno e isso inclui também as nomeações que Centeno fez do seu ex-chefe de gabinete e também da mulher de Ricardo Mourinho Félix para cargos no Banco de Portugal. Portanto, é uma forma de Álvaro Santos Pereira defender a transparência e, de certa forma, ele não disse esta palavra, sou eu que digo, criticar também algum nepotismo por parte de Mário Centeno. E diz que vai responder à auditoria da Inspeção-Geral de Finanças sobre esta matéria. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, abriu uma auditoria a este tema da nova sede. O Banco de Portugal podia não responder à IGF, porque os serviços jurídicos do Banco de Portugal entendem que não estão sob a tutela de IGF, devido às regras do Banco Central Europeu. Mas Santos Pereira diz que vai responder e eu espero que dê toda a documentação à IGF para que a IGF possa analisar o dossiê. Uma última nota para terminar, Carla, mesmo para fechar. Acho lamentável o comportamento que o Partido Socialista teve na audição, quando diz que por Santos Pereira ter utilizado a palavra bancarrota, quando o Partido Socialista levou o país para a bancarrota e só que chamou a Troika, o PS criticou Álvaro Santos Pereira por utilizar linguagem de tasca e do café. É lamentável este comportamento do Partido Socialista, quase como se fosse um partido radical, a utilizar linguagem verdadeiramente que não faz sentido, e o PS não está a perceber o que está a acontecer. É lamentável que o deputado Carlos Pereira, do Partido Socialista, utilizasse este tipo de linguagem. Parecia um deputado do Bloco de Esquerda, em vez do Partido Socialista. Lamentável.

A nota vai para quem então com todas estas novidades?

Vou dar a nota a Álvaro Santos Pereira e vou lhe dar um 16. Acho que Santos Pereira esteve muito bem, é um bom início e espero que concretize todas estas indicações.

Ora, o tema da audição de Álvaro Santos Pereira vai ser precisamente o do explicador desta manhã, já daqui a pouco. Quanto ao "Ivens ouré", regressa mais logo na tarde política.

Que agora tem uma versão alargada, começa a seguir ao jornal das 18h. Esta quinta-feira dou notas a Judite França, o Anselmo Crespo e o Nuno Gonçalo Poças. Assim que acabar o "Ivens ouré", chega o Alberto Gonçalves com a Ideias Feitas, que tem novo horário e começa às 18h50, na tarde política.