Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É DJ e produtor, vem de Lisboa e começou por criar músicas no sótão de casa. Hoje pisa palcos nacionais e internacionais. Está no mundo da música há muitos anos e é também um dos fundadores dos Buraka Som Sistema. Em 2015 lançou-se a solo. É um dos nomes que mais está associado à música contemporânea portuguesa e hoje está conosco aqui na Rádio Observador. Chama-se João Barbosa, mas certeza que o conhece por Branco. Em 40 minutos.

Bem-vinda.

Bem-vindo.

Obrigado. Como estás?

Acertamos tudo aqui nesta introdução? Nada a apontar?

Espetacular.

Incrível. Começamos bem.

Vamos puxar.

Exato, podemos ir a mais.

A partir daqui é sempre a descer.

Olha, Branco, já vamos falar do teu percurso e perceber como é que chegaste aqui, mas antes gostava de perguntar uma coisa muito óbvia, que certamente já te perguntaram milhares de vezes: por que Branco?

Por que Branco? Por acaso não me perguntaram assim tantas vezes.

É sério? Eu achava que estava aqui a fazer a pergunta mega clichê.

Acho que foi um pouquinho na busca do nome artístico ou da personagem artística, que eu obviamente com 10 anos de estrada, com Buraka Som Sistema e tudo, acabava meio por não ligar muito a isso. Nunca tinha pensado assim muito na ideia de ter um nome artístico e fui tendo alguns, mas depois chateava-me e meio que nunca assumi muito nenhum assim à séria.

Quais é que eram? Acho que era...

Cheguei a me chamar Little John.

Little John.

Exato. Produzi umas coisas ainda com esse nome, mas nunca saiu assim nada oficial. Sinto que quando tive que ir à procura de um nome, eu pensei: "bem, acho que tem que ser alguma coisa que já esteja de alguma forma intimamente ligada a mim". E então fui ao meu próprio nome, João Pedro da Silva Branco Barbosa.

Ai, boa. Ok.

Buscar aí o Branco, que resolveu logo uma série dessa.

Claro que sim.

E o K é mais para o estilo.

Olha, foi um pouquinho da mesma maneira que em Buraka trocamos o C para K, foi um bocadinho a mesma.

Olha, cru bem.

Os meus bebês todos vão ter em vez de C vão ter K.

Vão ter K. Olha, puxando a fita atrás, numa entrevista disseste que tudo começou, pelo menos esta tua ligação com a música, no Liceu da Amadora, e que na altura recebeste um disco que te mudou a vida. Gostava de saber primeiro qual foi o disco e segundo, o que é que mudou esse momento em ti, também naquilo que querias para a tua vida?

Acho que o momento que eu estava a falar nessa conversa deve ter sido um disco, mas não necessariamente um disco de música.

Sim, não foi um álbum.

Na altura havia um pouco uns CD-ROMs.

Sim. Exato.

Havia um bocadinho, pelo menos no liceu, numa altura assim ainda meio arcaica de internet e de troca de ficheiros e coisas, o pessoal tinha muitos CDs com filmes, coisas, um bocado meio... E era meio engraçado porque iam passando de mão em mão. Ninguém podia ficar com aquilo mais de dois dias. Tu tinhas o teu direito, chegava a tua vez, levavas pra casa, copiavas os filmes todos que querias, copiavas as coisas todas. E havia o outro CD que era só com software, um monte de coisas, software pirateado, todo tipo. É melhor eu não falar aqui muito no assunto, senão-

Ainda arranjamos aqui problemas

...podem me mandar prender. Mas software pirateado, todo tipo, inclusivamente programas de produção de música, tipo Fruity Loops, Sonic Foundry Acid, esses softwares que havia na altura. E eu, pronto, assim que vi isso, foi exatamente o software que acabei por copiar para o computador lá, aquele computador familiar que havia lá em casa, no sótão, que era também o computador de trabalho e de estudo, etc, do pessoal todo. E nunca mais consegui largar o computador, porque acabei por descobrir um pouco essa ideia de produção, de construção, de loops, de ir atrás de música, de samplear, de produzir, etc. E foi um bocadinho aquele amor à primeira vista.

Sim, claro. Olhe, e o que é que tu ouvias na altura? E também pergunto se há alguma coisa que tu ouvias quando eras mais novo e que continuas a ouvir até hoje. Já assim temporal.

Venho de uma família onde se ouvia muita música e ouvíamos bastante música ao fim de semana. Aquela coisa de meu pai ligava a aparelhagem e ficávamos a ouvir música durante bastante tempo, mas nunca foi tanto uma pesquisa assim super musical, super profunda. Era um bocadinho uma coisa que estava a acontecer na altura. Aliás, até o meu pai era mais obcecado pela própria aparelhagem em si.

Do que propriamente os artistas.

Do que propriamente pela música que tocava ali. Então a busca era um bocadinho essa, muitas vezes, coisas que soassem bem, sempre quase essa coisa audiófilo, mas ainda ninguém tinha inventado o conceito de audiófilo, acho eu, mas já um pouquinho nessa direção. Então o que tocava era tipo solos de meia hora dos Dire Straits e coisas do gênero, era um bocado por aí. Não era nada assim que eu sinta que traga para aqui. Aquilo, se calhar, que sinto que se manteve na minha vida foi a diversidade musical e as fontes diferentes em que tanto se podia ouvir música brasileira, como Dire Straits, como ir almoçar à casa de um amigo e estava-se a ouvir uma coisa completamente diferente. Um bocadinho essa, acho que era assim o cheiro da Amadora nessa altura. E essa ideia de conseguir pensar na música com menos fronteiras e menos limites sempre foi uma coisa que esteve bastante presente na minha cabeça e que eu sempre valorizei, se calhar, é das coisas que se mantêm mais presentes em toda a minha vida.

Boa. Sim.

Olha, olhando para as tuas referências, nós sabemos que também teve um impacto grande na tua vida, uma viagem que fizeste à Índia com 20 anos. O que isso também despertou na tua ligação com a música e naquilo que querias fazer?

Olha, nessa altura estava a começar a produzir e já tinha este software pirateado lá no computador.

Levaste o CD.

Não, por acaso, não.

Já tinhas copiado.

Exato, já tinha copiado tudo, já estava tudo instalado, já estava tudo a rolar, já comprava revistas. Na altura havia assim umas revistas que explicavam um bocadinho os processos de produção, etc. Tipo Computer Music, havia uma revista portuguesa chamada Pro Música, na altura, também. Comprava isso tudo.

Quando a internet não era o primeiro recurso.

Exatamente. E essa viagem acabou por me marcar bastante, porque na altura também havia uns dispositivozinhos de ouvir música chamado Minidisc. O Minidisc tinha uma particularidade engraçada que era tipo uma cassete, mas digital, um pouquinho mais sofisticado e permitiam também gravar. E eu, antes dessa viagem, comprei um microfone e o que acabei por fazer durante a viagem foi andar para gravar os sons todos, o som do comboio, o som de uns miúdos a cantar, o som do não sei o quê. Não levei computador comigo, não conseguia produzir nada durante a viagem, obviamente, mas quando voltei a casa, acabei por ter um Minidisc cheio de informação e material, que foi se calhar das primeiras vezes que eu me sentei em frente ao computador para fazer música e senti que em vez de estar a usar uns sons que tinha ido buscar a um CD de uma revista ou o que quer que seja, estava a ir buscar sons de coisas que eu tinha vivido e estava a conseguir trazer, no fundo, aquilo que era a minha vida real e aquilo que era uma experiência que eu tinha acabado de passar de um mês num sítio incrível como a Índia e conseguir fazer beats com esse material. Isso mudou um bocadinho a forma de pensar em tudo, porque fez-me pensar que era exatamente isso que me dava prazer. Não era fazer música com coisas que já existiam, era procurar texturas, sons, coisas que me permitissem construir um universo que fosse realmente diferente, ser tão diferente, mas ao mesmo tempo real também, que fossem sons usuais da vida e coisas que eu tivesse vivido. E acho que o especial aí era ser coisas para onde eu colocasse também a minha experiência de vida e isso fazia com que eu fizesse sempre uma música diferente de toda a gente, porque ninguém tinha aqueles sons, ninguém tinha vivido aquilo, ninguém tinha passado por ali naquela altura. E essa identidade foi, se calhar, a coisa que mais me marcou para o resto da carreira.

Sim. Como é que era um desses dias de produção no sótão da tua casa? Tu disseste que partilhavas o computador com a família.

Sim.

Dividiam o tempo, acredito, nesse computador.

Normalmente eu tinha às tardes.

É? Tiravas a senha da tarde.

O meu pai ainda não tinha chegado do trabalho, eu assumia o turno da tarde, era sempre meu.

E como é que era isso? Pergunto como é que a tua família lidava com isto? Acho que o teu pai também usava o computador, como é que via o filho a ir produzir?

Eu acho que nem se pensava assim muito na altura.

Era só: "Está a fazer música, está a fazer a coisa dele".

Exato, está no computador.

Sim.

Não era muito uma coisa.

Mais como uma brincadeira, por exemplo?

Sim, sei lá, como estar a jogar um jogo.

Um hobby.

Exato, como estar na Nintendo, uma coisa assim do gênero, era um bocado a mesma coisa.

Pronto, mas depois deixou de ser um hobby.

Exato, depois chegou uma altura que deixou de ser um hobby.

Nós sabemos que as portas para um mundo mais, vamos dizer, profissional, abriram-se em Capadorique, onde tu tens o estúdio. Que portas é que se abriram também neste espaço? Ou seja, tu quando abres o estúdio em Capadorique, não abres só um espaço físico em Capadorique, abres também uma porta para todo o mundo. Como é que foi na altura?

Por acaso, foi uma oportunidade boa. Eu estava muito presente já como DJ, como produtor de alguns projetos, de algumas ideias, ainda uma coisa toda ainda num formato meio amador, mas já com alguns anos de experiência de produção, por assim dizer, de música criada. Muita coisa trabalhada, mas ainda nada editado, nada assim muito oficial. Então, mais ou menos em 2004, por aí, tive a oportunidade de encontrar um espaço e de meio que transformar num estúdio. E ao mesmo tempo que virou um estúdio, e foi uma coisa que fiz a meias com o Calaf, que depois me acompanhou também, obviamente, acabamos por criar um projeto nessa altura chamado One Week Project, porque estávamos tão felizes de ter montado o estúdio e tudo que acabamos por gravar um disco numa semana, por assim dizer.

Numa semana.

E chamamos-lhe One Week Project. Estávamos aborrecidos, era agosto, Lisboa, não se passava nada.

Quem nunca? Clássico.

E foi um pouquinho essa ideia quase de músico independente, não tinha propriamente editoras a baterem à porta, não tinha absolutamente nada. Estávamos ali sossegados, ninguém nos chateava. Tínhamos um espaço e usámos para transformar ali isso em algo criativo. Já era DJ, ia tocando essas músicas e teve o seu espaço, teve o seu momento. E depois, entre esse projeto em 2004 e depois chegar o início de Buraka Som Sistema em 2006, foram dois anos de muita criação, muita experiência, muito de construção de ideias e de personalidade artística e de ideias musicais, etc., até depois nos lembrarmos de fazer os Buraka Som Sistema.

Claro. E é precisamente por aí que vou pegar. Apareceu uma coisa chamada Buraka Som Sistema. O nome diz-te alguma coisa, certamente. Quando começaram, tinham noção que estavam a criar um projeto que ia ter tanto impacto?

Eu acho que nós desde o início, e foi engraçado, como éramos meio DJs, MCs, etc., o projeto começou antes de ser um grupo, era uma noite, em que nós tocávamos a música que depois veio a ser alguns já dos nossos temas originais, mas também a mistura dos universos que nós depois acabamos por misturar enquanto grupo. Mas enquanto essa noite, nós conseguimos logo observar que acima de tudo, o que estava a acontecer ali era que havia uma série de pessoas que se identificavam e que tinham crescido da mesma maneira que nós e que conseguiam olhar para as referências que nós estávamos a colocar ali em cima da mesa e dizer: "Ok, eu também cresci assim, eu também ouvi isto misturado com aquilo". E essa resposta quase identitária em que estávamos todos a celebrar a mesma coisa, tanto as pessoas que estavam no palco, como as pessoas que estavam no público a ouvir, apesar de praticamente não haver palco.

Sim, tudo ali ao mesmo nível.

Exato, estava tudo ao mesmo nível. Essa relação deu para sentir que realmente estávamos a dar voz a alguma coisa interessante e a uma coisa que muita gente tinha guardado e que nunca ninguém se tinha lembrado de verbalizar ou de colocar cá fora dessa forma.

É também algo que acabou por atravessar fronteiras. Eu, por exemplo, lembro-me de jogar, creio, FIFA 10 e estar na banda sonora do jogo. Já estamos a falar de uma coisa que atravessa fronteiras. Vocês também sentiam esse impacto fora de Portugal?

Sentíamos, principalmente porque acabávamos por viajar para os sítios para tocar.

Mas quando chegavam lá notavam que as pessoas?

Sim, só nos bookavam porque sabiam que nós vendíamos bilhetes. Nós não íamos, é um bocadinho aquela ideia.

Fazes um salto de fé do tipo: "Vamos marcar e a ver se corre bem".

Vamos lá ver se vamos ter alguém na plateia.

Digo isto um bocadinho porque por acaso até meio que às vezes as pessoas comentam nas fotografias, tipo: "Vem ao Brasil". Se me bookarem eu vou, claro. Mas fala com o teu promotor, com o teu primo, com alguém. Se alguém marcar o espetáculo, bora. Para dizer isso. Mas desde o início que sempre sentimos no projeto e muito nessa fase ainda embrionária, e daí também meio que aquela tentativa de afirmação do primeiro EP, "From Buraka to the World", já sentíamos que podia ser uma linguagem que era mais ou menos universal, talvez pelo lado do ritmo, pelo lado das coisas que estávamos a misturar, por sentirmos que outros artistas que estavam um pouquinho no mesmo plano que nós, como o Diplo, a M.I.A, etc., estarem a fazer esse som e estarem nos a contactar e estarmos a criar ali um bocadinho uma rede de artistas, sentimos que sim, que havia esse espaço e que inevitavelmente essas marcações iriam começar a acontecer. E então através, no fundo, desse mesmo estúdio e espaço em Campo de Ourique, onde tínhamos a casa mãe, acabamos por arranjar agenciamento internacional, management internacional e meio que criar quase como uma vida dupla do grupo, em que tanto estávamos presentes a nível nacional como a nível internacional.

E qual é a memória mais engraçada, mais fora da caixa, que te ficou desses tempos?

Foram 10 anos muito intensos.

Há muitas, não é?

Houve muita coisa fora da caixa e muita coisa engraçada. Lembro-me perfeitamente de ter tocado, nós tínhamos feito um concerto em Macau e depois tocávamos no dia a seguir em LA, mas quase que tocamos no mesmo dia, porque andámos para trás quase um dia inteiro. Foi super estranho, coisas assim desse tipo que acabavam por acontecer e às vezes era meio difícil de acompanhar tudo aquilo que estava a acontecer de uma forma consciente.

Sim. E que ferramentas é que tu levas destes anos de Buraka?

Acima de tudo, uma coisa muito interessante que o grupo sempre teve e que nós sempre tivemos, da qual eu sempre fiz parte, que é a música estar sempre em primeiro lugar e focarmo-nos sempre nisso. Pensarmos sempre que a música é o mais importante e as canções é que vão fazer tudo isto fazer sentido um tempo depois, o que quer que seja, e tentar olhar sempre para ela como uma coisa intemporal e que precisa mesmo da nossa atenção e da nossa dedicação e de criar realmente algo inovador e diferente. E acho que esse sentimento e essa ideia de tentar estar pelo menos um pouquinho à frente do tempo e tentar meio que perceber as dinâmicas e as coisas, foi uma coisa que eu acabei sempre por utilizar. E mesmo, obviamente, também gêneros musicais, também músicas, também tudo aquilo que nós mergulhámos esses anos todos acabam por ser influências que se mantêm comigo e que vou manter para a vida toda.

Claro que sim.

Pela mesma altura, criaste uma label, a Enxufada, e olhando para trás, como é que está o salto de estar a produzir no sotão, como estavas a dizer, para de repente criar aqui uma marca, uma label. Como é que olhas também para essa evolução?

Foi muito interessante, porque para nós, e isto é a verdade, nós mesmo a música que tínhamos do projeto, tentámos falar com editoras e ninguém entendeu, ninguém pegou. Então meio que tivemos de fazer nós com as mãos e com a nossa própria argamassa. Acabou por ser interessante porque construímos rapidamente uma audiência e depois passou a ser muito mais simples negociar com todas as pessoas que depois queriam, porque nós já tínhamos sempre os nossos direitos, sempre tivemos tudo e conseguimos negociar com quem tivemos que negociar. Então, nesse ponto de vista, foi sempre muito interessante sentir essa ideia de se nós precisamos de chegar mais longe, significa que temos que chamar mais pessoas e contratar mais pessoas e trabalhar. Sempre foi uma coisa muito repartida entre quase gestão, no sentido prático de uma empresa, misturado com ser artista e estar a tocar. Foi superinteressante. Acho que nos deu acima de tudo, e que eu ainda trago para hoje, que eu ainda uso hoje em dia, que é estar preparado para tudo. Eu sei todos os lados, todas as partes que se compõem, seja para criar um disco, seja para lançar um disco, e isso dá-me uma preparação interessante, principalmente num mundo em que hoje em dia vemos artistas que passam do zero ao 100 em seis meses e coisas do gênero, que eu acho que pode ser um bocadinho mais assustador.

Estás completo. Estás assente em todas as áreas, está tudo ótimo. Branco, vamos fazer aqui uma pequena pausa para atualizar as notícias. Hoje estamos à conversa com Branco, DJ e produtor português. Na segunda parte, vamos falar do seu percurso a solo e claro, de novos projetos. Até já.

Até já.

Segunda parte de Em 40 Minutos. Hoje estamos à conversa com o Branco Alba novamente. Bem-vindo.

Obrigado.

Na primeira parte falámos sobre como tudo começou, também da experiência com os Buraka. Agora vamos falar do teu percurso a solo. Lançaste em 2015 com o "Atlas". Gostava de perguntar quando ou o que te fez querer lançar a solo? Quando é que te apercebeste que querias?

O "Atlas" foi um disco meio especial, no sentido de que ainda estávamos com o grupo super ativo, estava tudo a acontecer. Inclusive, foi um disco que eu comecei a trabalhar em 2013. Chegaram a sair ainda alguns singles antes do álbum, que depois veio em 2015, mas o "Atlas" para mim era um exercício, talvez. Havia uma rede de estúdios na altura que eu queria utilizar e eles tinham estúdios por todo o mundo. Eu fiz uma proposta de: "Olhem, gostava de criar um projeto dentro dos vossos estúdios, vou com alguém que vai estar a filmar comigo o tempo todo e vou ocupar uma semana em cinco destes estúdios e nessa semana, todos os dias vou trabalhar com artistas diferentes e no fim vou fazer um disco disso tudo". Mais ou menos simples.

Simples.

Exato. Deram um ok, a coisa avançou e foi super interessante. O "Atlas" nasceu um bocadinho nisso. Ou seja, não foi ainda tanto uma afirmação de artista a solo. Não me sentia artista a solo, sentia-me um artista que fazia parte de um grupo e que dedicava grande parte do seu quotidiano nesse grupo, mas que criou um projeto à parte, que envolvia viajar, passear, conhecer alguns sítios e colaborar com alguns artistas e acabou por correr super bem. Eu acho que depois só uns anos mais tarde, no "Nosso", já em 2019, é que eu acabei por aí sim construir um disco enquanto artista e a pensá-lo, se calhar, enquanto artista que também já tinha feito alguns anos a tocar o disco "Atlas", Buraka tinha acabado em 2016, ou tínhamos parado em 2016, então aí sim, se calhar já com um statement maior de: "Ok, eu acho que isto sou eu".

Lançaste ainda uma versão alargada do disco de estreia. E nessa versão há uma música com a Mara Andrade, a "Reservado para Dois". Também acabou por ser um momento importante na tua carreira, principalmente enquanto produtor, não?

Sem dúvida. É uma canção que eu fico muito feliz de ter lançado. Ela não foi incluída no disco porque eu não estava feliz com o instrumental.

A sério?

Como é que é possível?

Ainda não era este.

Daí a versão alargada.

Uma versão diferente da versão anterior, eu senti que o instrumental ainda não estava lá.

Então foste aperfeiçoando.

E senti que a voz estava perfeita e eu ainda não estava a conseguir fazer um match perfeito de energias e de coisas.

Uma fusão.

E então precisei de uns mesinhos a mais e depois cheguei àquela versão. Porque obviamente, enquanto DJ, sempre tive muito interesse em lançar remixes e coisa, então essa versão extended do disco acabei por colocar também uma série de coisas que tinham ficado um bocado sem casa. E o "Reservado para Dois" era uma dessas coisas e ainda bem.

E continuas a ter essas demos sem casa, perdidas algures?

Tenho sempre.

Imensas.

Devia ter 500.

Há ali muitas coisas que ainda podem ser lançadas um dia, achas?

Acho que há bastantes coisas, sim. Se eu morrer, tenho lá discos rígidos suficientes para entreter o pessoal.

São aqueles títulos póstumos, não é?

Exato.

Olha, Branco, depois disso continuaste a fazer música. Em 2019, lanças outro álbum, o "Nosso", como já disseste, onde colaboraste com, por exemplo, o Malu Magalhães, Dino d'Santiago, imensa malta. Tu crias músicas já a pensar com quem queres colaborar ou simplesmente fazes a demo, o que seja, e se fluir uma colaboração, flui?

Sim. Talvez todas as opções são válidas. Acho que não há bem um caminho certo que eu tente fazer. Acima de tudo, eu acho que grande parte das colaborações e grande parte daquilo que eu faço, tento que seja o mais orgânico e o mais natural possível. Não sou muito de ficar a forçar colaborações, coisas ou a chatear. Acho que é uma coisa meio havendo interesse na minha música e na junção das duas coisas, eu estou on e faço. Gosto muito de criar a música no estúdio com as pessoas. Acho que fica sempre uma coisa mais especial, porque acho que é um compromisso em que os dois artistas, tanto eu como o vocalista ou a vocalista, saímos os dois da zona de conforto para nos encontrar algures a meio caminho. E eu acho que esse é um exercício super bonito, criativo e é se calhar das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, é passar uma tarde de escrita e de composição no estúdio com alguém.

E numa tarde consegues logo avançar com alguma coisa? Consegues adiantar uma ideia?

Numa tarde ou nasce ali alguma coisa com algum salzinho ou então dificilmente a coisa vai acontecer.

Certo. Tu tens uma sonoridade muito própria, aliás, as pessoas ouvem uma música e conseguem distinguir muitas vezes quando é que é o Branco a produzir ou não.

Boa. Isso é uma coisa que eu me esforço.

Claro.

Está a correr bem, estás a conseguir.

Obrigado.

Mas nesse sentido, pondo-te na terceira pessoa, ou seja, pondo assim mais distante, o que é que distingue uma música produzida pelo Branco?

Sem coisas técnicas, mas não vamos despeserar.

Certo. Eu não sou muito um músico técnico, se quiseres. Não percebo nada de progressões de acordes, nem de inversões, nem coisas do gênero. Consigo perceber, sim, se elas me soam bem ou mal.

Chamado de vaidade ou ouvido.

Claro, eu acho que o meu gosto acaba por ser se calhar um A coisa que mais acaba por pautar todos esses momentos criativos. Acho que, se calhar, muita dessa identidade está naquilo que eu gosto e naquilo que é o meu gosto. Mas além disso, uma coisa que eu tento sempre fazer, que eu acho que acaba por distinguir a minha música, eu nunca me identifico muito com música que é assinada por um produtor. Eu sou um produtor, eu faço o beat, não é a minha voz. Eu nunca me identifico muito com música a ser assinada por um produtor que não tenha um momento em que o produtor comunica diretamente com o público. E é aí que eu acabo por criar algum momento da música em que eu manipulo uma voz, faço alguma coisa. Imagina, se calhar não coisas técnicas, quase como o Santana, por exemplo, guitarrista clássico, assina músicas como Carlos Santana. Como é que nós sabemos que a música é dele? Porque ele tem sempre um solo que soa a Carlos Santana algures ali no meio. É um pouquinho nessa busca que eu muitas vezes acabo por ir criar um momento em que, independentemente de ter uma voz a cantar o tema e que obviamente eu tenho a noção que é o que as pessoas mais absorvem e mais agarram e que mais as faz se relacionar com aquela canção. Eu tento sempre também em determinado momento da música, contactar diretamente para os headphones da pessoa.

Sim, que o instrumental também está presente.

Que o instrumental fala e comunica. E essa, se calhar, pode ser também uma das características em que quando tu chegas a um momento e ouves alguma coisa manipulada, que está a falar um bocadinho mais alto que o resto tudo, seja tipo: "Isto deve ser Branco".

Juro que isso acontece. Tu já passaste por imensos palcos, esgotaste Capitólios, vais a imensos festivais, Boiler Rooms, mas também disponibilizas DJ sets no YouTube, que tenho a dizer que são incríveis, porque são sempre com paisagens. És tu, uma mesa de mistura, um drone.

Exato. Uma bateria de carro para dar energia àquilo tudo.

Pronto, não pode faltar, aparentemente. Há aqui um lado quase realizador, filmmaker dentro de ti, ou não?

Sim, eu andava com uma pessoa.

Mas essas ideias também partem de ti?

Sim. Eu acho que foi muito aquele escape da pandemia e daquela ideia de termos que eu acabo por ser uma pessoa bastante criativa, não há dia que eu não acorde e não me lembre de fazer coisas. E não havendo nada para fazer numa pandemia, vai ter que haver um escape, vai ter que sempre acontecer alguma coisa. E neste caso acabou por acontecer isso. Acabei por meio que agarrar na família, num iPad, numa coisa, no controlador, numa coluna, e andar um bocadinho pelo país a fazer pequenos DJ sets para o Instagram na altura e depois meio que perceber que se calhar estava ali alguma coisa interessante.

É assim que as pessoas passaram a dizer uma coisa muito boa, as pessoas gostam mesmo, pelo menos as pessoas com quem eu falo: "Os DJ sets do Branco no YouTube, estavas tu no meio da Serra da Estrela", algures em Guimarães.

Acho que mais uma vez foi uma coisa que tentei que fosse orgânica e realmente aproveitei muito para viajar o país nessa fase. E nesse processo ia gravando sets, ia pensando também um pouquinho naquilo que eu não sabia ainda, mas que depois acabou por vir a ser o meu disco a seguir, o "Obrigado", que foi muito criar música para essas paisagens, quase arquitetura sonora paisagística.

Falavas aqui em viajar pelo país, não só pelo país, também lá fora. Como é que tens sido recebido lá fora, no estrangeiro?

Olha, felizmente que tem corrido tudo super bem. Se calhar no estrangeiro acabo por tocar mais em clubes e em alguns festivais também. Eu acabo sempre por levar muito a minha música e tocar as minhas coisas. Acho que acaba por fazer sentido, porque o meu objetivo sempre é soar como mais ninguém soa. E sinto que é através da minha música que eu consigo fazer. É bom muitas vezes começar um DJ set num sítio onde só metade da sala está a perceber o que está a acontecer e acabar uma hora e meia depois e estar o pessoal todo meio em sintonia já. Isso para mim é super interessante. Também já aconteceu o contrário, começar só com metade da sala e depois a outra metade ir embora na mesma e eu continuar capaz com todas as pessoas.

E como é que tu lidas com isso?

É lidar.

É no tipo: "Bom, vou continuar".

É lidar. Felizmente não acontece assim tantas vezes. E por acaso já não acontece há algum tempo.

Ainda bem. E o ambiente em estúdio, como é que é? Tu há pouco disseste que quando fazes colaborações gostas que as pessoas estejam presentes, que não forças nada e que seja uma coisa orgânica, mas tu gostas de trabalhar mais sozinho ou com mais malta à volta?

Gosto de trabalhar com mais malta à volta. Sinto que, principalmente hoje em dia, cada vez mais me sinto bem a criar socialmente e com pessoas e porta aberta. Acho que é um exercício interessante, porque se tens coragem de ter pessoas e de estar a expor a música já nessa fase, quer dizer que estás realmente a fazer alguma coisa interessante, porque eu sinto um bocadinho que quando há alguma coisa que eu tenho vergonha ou que eu acho que não esteja ok, eu nem sequer vou fazer play nisso. Afasto a folder para o lado e digo: "Não, ok".

Lá vai para o arquivo outra vez.

Exato. Volta para o disco.

Pergunto também se tens algumas referências ou inspirações. Tu vais buscar um bocadinho de tudo, não é?

Olha, acho que me inspiro muito nas pessoas à minha volta, inspiro muito naquilo que eu senti, que foi a energia que eu recebi a crescer na Amadora e depois mais tarde em Lisboa, a ideia de que acabamos por viver numa cidade que acaba por ter uma personalidade e uma identidade cultural muito forte e muito marcada. É muito diferente, se calhar, daquilo que é o centro da Europa. E é aí que eu acabo por ir buscar muito do sumo que depois uso para as produções. Senti que enquanto este epicentro de cultura em português espalhada pelo mundo todo, este lugar que Lisboa ocupa no mundo, eu acho que aí está imenso conteúdo, imensa informação para fazer música para sempre, infinita.

Branco, vamos agora falar do teu novo disco, o "Soma". Como é que descreves este disco? Porque tem aqui algumas mensagens. Que mensagens é que

Gostavas de deixar, gostavas de somar alguma coisa com elas para o teu público?

Pegando um pouco no que estávamos a falar antes, o disco foi muito uma construção social. Começou quase como um encontro entre os meus beats e uma série de músicos, dos músicos que acho mais importantes daquilo que é o som de Lisboa, por assim dizer, João Gomes, Iury Oliveira, Jessica Pina, uma série de músicos incríveis que tocam com uma série de gente e que eu convidei para virem improvisar em cima dos meus beats. E aí, foi quase como conseguir ter toda essa informação e usar como se fosse um sample pack ou uma coisa que eu depois pudesse transformar e passar desse lado improvisado para uma estrutura pop musical normal. Isso foi um pouco o início e essa ideia, ou se calhar essa pluralidade e essa diversidade que se sente no instrumental e que depois eu continuei a estender ainda mais para os convidados vocais posteriormente, que eu acho que são, se calhar, a maior mensagem do disco. Esta soma de todas estas identidades, personalidades, pessoas e tudo aquilo que se ouve no disco.

Claro que sim. Este disco sai numa altura em que fazes 20 anos de carreira?

Sim.

20 anos de Buraka, de produção, de Branco, de tudo.

Sim.

Que balanço é que fazes destes 20 anos de produção?

Ainda não me fartei.

Bom sinal.

Acho que escolhi a profissão certa.

Imaginas-te a fazer mais alguma coisa?

Acho que não. Acho que sempre na música. Acho que de alguma forma, muitas vezes quando me perguntam quando é que eu soube que era isto que eu tinha que fazer, eu digo: "Olha, eu não soube, eu só não fazia era outra coisa nunca". E então é um bocadinho por aí.

Mas tiveste planos para outras coisas? Os miúdos às vezes têm essas-

Eu estudei Direito. Acabei por tirar o curso inteiro de Direito. Nunca exerci, nunca fiz sequer estágio, nunca fiz nada, mas acabei por tirar o curso. Mas não me veria, em verdade, nunca por aí. Quando eu penso nestes 20 anos, sinto que acima de tudo consegui sempre trazer música original, diferente, inovar, coisas novas e que eu me sinto bem com elas e acho que é muito importante olhar para trás e sentir que alguma intemporalidade da música, acho muito interessante ainda hoje em dia entrar numa discoteca ou num sítio e se calhar ouvir ainda um Calemba, Wega Wega, que nós produzimos em 2007. É muito interessante perceber que toda a mensagem e que toda a narrativa sempre foi a mesma, independentemente de ser aplicada a um projeto ou a outro projeto, e isso é talvez a coisa que eu mais levo e que mais orgulho, é mesmo essa ideia dessa subjugação, por assim dizer.

Claro que sim. Para este ano podemos esperar muitos concertos, principalmente concertos de apresentação do "Soma".

Muitos concertos, sem dúvida. O disco vai ser apresentado agora no Sonar Lisboa, num concerto domingo à tarde, porque vai ter que ser o primeiro. É o primeiro de bastantes, então tem que começar à tarde. Vou ter uma formação um bocadinho diferente. Até agora estava a apresentar mais como DJ, fazia um pouco um espetáculo audiovisual com alguns vídeos, mas no fundo aquilo que eu fazia era acima de tudo DJing, apesar de ser a minha própria música. E agora vou ter alguns músicos comigo em palco e isso então vai trazer uma dinâmica um bocadinho diferente e meio que uma renovação das músicas antigas e ao mesmo tempo também, como este disco tem muito mais músicos e muito mais coisas tocadas, também poder haver essa performance desses momentos em palco. Então vai ser o primeiro agora dia 24 de março e acho que vai ser muito bom.

Vai ser um ano cheio de concertos vossos.

Aos ensaios, acho que vai soar muito bem. Depois daí, Vodafone Paredes de Coura, também já queria ir há bastante tempo, uma série de festivais e concertos ainda por anunciar.

Bom, então vamos ficar à espera de mais datas. Branco, não temos mais tempo, 40 minutos passaram a correr.

Foi num instante.

Mas gostávamos de agradecer por ter estado aqui connosco hoje em "40 Minutos" na Rádio Observador. Obrigada.

Até à próxima. Até para a semana.