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Eu passei por stand-up comedy, foi uma experiência, mas não vou voltar.
Mas o que te fez mudar de opinião?
Não sei. Eu acho que esse período também foi um período difícil, porque foi o período, tu disseste isso na tua introdução, em que eu apareci mais como a mulher do Eduardo. Então foi um período em que toda mundo dizia que eu só fazia stand-up por causa do Eduardo. E eu escrevia as minhas próprias piadas, porque eu não gosto das piadas do Eduardo. E muitas vezes ouvia que era ele que me escrevia os textos. Não sei. Vocês já vão sair daqui quando eu estiver a chorar.
Por quê?
Não sei, são assuntos que me deixam triste, porque foi isso, foi um período-
Foi doloroso
...sim, em que eu ouvia muita coisa sobre isso. Eu estava em cima do palco, eu tentava fazer os outros rir, mas não estava feliz também.
E agora és feliz por trás das câmaras?
Agora estou muito feliz. Pronto, não consigo explicar, agora estou mesmo feliz.
Nasceu no frio da Covilhã, mas foi nas planícies de Elvas que aprendeu que a liberdade incomoda mais do que o silêncio. Durante anos, Portugal conheceu-a através de uma gargalhada sem filtros e de uma coragem quase desconfortável de se mostrar ao mundo tal como é. Muitos tentaram arrumá-la numa gaveta, a da rapariga engraçada, a figura das redes sociais, a de mulher de alguém, mas ela decidiu baralhar as cartas. Aos 30 anos trocou a zona de conforto dos estúdios da televisão pelos bancos da faculdade e um curso de cinema. Queria aprender a olhar, em vez de ser olhada. Ontem era a humorista que nos fazia esquecer os problemas, hoje é a cineasta que nos obriga a encará-los de frente. Foi escolhida entre centenas para dar voz a um projeto que celebra o olhar feminino no cinema português e esteve no Alentejo até há bem pouco tempo, a dirigir atores, a comandar luzes e a escrever o seu próprio destino. Hoje, no "Em 40 Minutos", tentamos perceber onde acaba a humorista e começa, já podemos dizer, a realizadora Joana Machado Madeira. Muito bem-vinda aqui ao "Em 40 Minutos".
Muito obrigada, que apresentação tão gira. Obrigada.
Uma pessoa com muitas camadas.
É verdade.
Já te conhecemos de diversas formas. O que te leva a esta aventura agora no cinema, realizar, porque nós já te conhecíamos de outra faceta mais humorística, como já disse aqui na introdução. Estava adormecido esse talento?
Olha, eu acho que sempre esteve cá dentro. Ou seja, eu vim do Alentejo aos 18 anos pra Lisboa com o sonho de querer comunicar, eu quero fazer coisas. Eu sempre senti que havia muita coisa dentro de mim e queria mandar cá pra fora. E como no Alentejo eu já fazia teatro, eu trabalhei na Rádio Elvas, eu fazia reportagens, portanto eu já fazia tudo. Já não havia mais nada pra fazer ali, vim-me embora pra Lisboa pra tentar descobrir mais coisas.
O que fazias na Rádio Elvas?
Tinha um programa que era o "Estúdio Aberto", que as pessoas ligavam pra lá, pediam música.
E era assim com ouvintes, muito bom. Isso é giro.
Era muito giro.
Era em que horário?
Era de manhã, das 9 às 10. Entretanto, já fiz mais rádio, já estive também na RFM. Mas no Alentejo eu senti que já estava a fazer tudo, então vim-me embora pra Lisboa. E sentia sempre que eu precisava de comunicar, porque tinha sempre muitas ideias e eu achava que se calhar era como atriz. Venho pra Escola de Teatro de Cascais, começo a trabalhar como atriz, mas havia uma coisa que não me deixava totalmente feliz. Imagina, davam-me um papel e eu chegava toda contente ao estúdio com o meu texto, mas cheia de ideias, porque eu não queria ser só aquela personagem, queria ter sempre talvez um lado mais cômico, queria ter mais alguma coisa.
Querias dar mais densidade ao teu papel.
Queria sempre mais alguma coisa. E sempre que eu chegava com ideias era: "Não, faz só esta fala. Não, vamos manter a personagem neutra". E eu sentia: assim eu não consigo. Percebem? Não consigo. Tudo que está aqui dentro de mim, não conseguia mandar cá pra fora. Mas fui fazendo, depois também estive como repórter no "Você na TV" com a Cristina e o Goucha, aí tinha muito mais liberdade.
Tiveste muita projeção aí também diante do público português.
Aí foi. Tive cinco anos com a rubrica da Joana e aí acho que foi quando o público me conheceu mais. Porque era o "Você na TV", na altura, vocês lembram-se. Cristina e Goucha era o grande programa. E aí eu tinha a liberdade total, eu corri Portugal de norte a sul, entrevistei toda a gente, eu fiz tudo, ia pras feiras, pros arraiais, e eu tinha a liberdade toda. E cada vez mais que eu ia fazendo papéis de atriz, não consigo explicar, mas mais qualquer coisa dentro de mim ficava mais triste. E do último papel que eu fiz, eu já não estava feliz ali.
Qual foi?
Foi no "Valor da Vida". Fazia a Carmen, que era uma secretária do Zé Fidalho. E eu já não me sentia feliz ali. Ou seja, eu ia, mas o meu coração já não estava a bater, e eu preciso que o meu coração esteja a bater. E entretanto, sempre gostei muito do cinema, todo o mundo do cinema me fascinava imenso. Imagina, eu estou a ver uma série, ou estou a ver um filme e se o cabelo do ator não está igual do mesmo plano pro outro plano, eu reparo logo. Sabes aquelas pequenas coisas que me reparam?
Tu és dessas, caça rácord. Caça falso rácord. Já estavas nesse papel, mesmo não estando.
Exatamente. E depois puxava a täxa: "Não, desculpa lá, mas o cabelo dela aqui está onde lado e aqui está esticado, não pode ser."
Isso só dá pra fazer em casa, no cinema a vida segue.
Exatamente. Ou seja, eu acho que estava cá dentro, mas eu ainda não sabia bem o que queria ser. E foi precisamente num anúncio de publicidade que eu fiz pra WellsQue foi com o realizador Francisco Néfo Durão. Eu era a atriz desse anúncio e ele chama-me para o lado dele e diz: "Joana, o que estás a achar deste plano?" Eu estava ao lado do realizador, do Francisco e pensei: "Espera, eu gosto disso." Eu depois até lhe comecei a dar ideias e ele gostou das minhas ideias. Mas se calhar, mais do que estar à frente das câmaras, eu gosto mais de estar atrás das câmaras. Já tinha tido a minha pequenina, a Carolina, estava com 31 anos, vou pra faculdade, fui me inscrever na ESOF, no curso de cinema, e aos 31 anos fui estudar cinema com uma turma de 19, 20 anos.
Reconheceram-te?
Reconheceram logo no primeiro dia.
Como é que foi esse primeiro dia de estar na faculdade com miúdos?
Logo no primeiro dia, eu era a mais velha do meu curso. Entrei, falei com toda a gente normalmente, fiquei lá no meu lugar e depois nós tínhamos que fazer um texto para as aulas de argumento e claro, por esta minha veia cómica, fui escrever sobre o nariz do Zé Fidalgo.
Já falamos duas vezes dele aqui.
Já, curiosamente.
Mas por quê?
Porque ele tinha feito aquela operação recente, que tinha sido ali naquela altura. Deu-me pra escrever sobre aquilo. E a turma achou logo toda muita graça e acho que foi aí também que eu me conquistei. Tanto que hoje sou amiga de todos. Eles ligam-me, eu ligo pra eles a toda hora. A minha primeira curta-metragem, a "Star", que venceu o melhor curta-metragem de produção portuguesa e melhor primeira obra de realizadora, foi feita com os meus colegas do curso de cinema. Portanto, criamos aqui uma amizade mentira. Mas sim, eles conheceram-me logo, não deu pra disfarçar muito.
Como é que dois criativos convivem em casa e fora dela, tu e o Eduardo Madeira, sempre a fervilhar novas ideias?
É verdade. Olha, mas há uma coisa que é: eu sou muito diferente do Eduardo. Imagina, o tipo de humor do Eduardo não é o meu tipo de humor. Portanto, muitas vezes ele faz coisas que ele acha muita graça, eu fico sempre: "Não sei se eu fazia assim desta maneira."
Claro, o Eduardo é mais físico, não é?
O Eduardo é mais físico, é aquele humor mais coisa. Eu gosto assim de outro tipo de humor.
Tu és mais humor de linguagem, ou não?
Acho que é mais humor de linguagem. Mas as pessoas normalmente fazem muitas vezes essa pergunta: "Então, lá em casa é só rir."
Não é?
É, também é só rir. Mas eu acho que a dinâmica familiar acaba por ser como todas as outras famílias. Ou seja, ali somos o pai e a mãe, é o marido e a mulher. Estamos sempre a ter ideias e sempre a apoiar-nos um ao outro, mas também não é assim uma loucura varrida, se calhar, como as pessoas pensam. É um bocado, mas também não é assim tanto.
Sendo os dois humoristas, se calhar é essa a ideia de que a vossa casa está sempre em alvoroço.
Está.
Há quem dizia: "Um manicómio." Tem dias.
E depois também já temos a nossa filha Leonor, que já faz teatro e cardada toda. E ela ainda por cima tem outra coisa que nem eu nem o Eduardo temos, que ela é musicais. Ela vai para o Filipe La Féria no verão e está lá duas semanas só a fazer teatro. Então a nossa casa é um musical do La Féria, sempre a cantar, a dançar. Portanto, é uma casa de gargalhadas e cantigas.
Muito bem. Olha, Joana, tu nasceste na Covilhã.
Certo.
Depois cresceste em Elvas. Portanto, podemos dizer que és uma filha da interioridade. Em que isso te moldou como pessoa e como profissional ligada ao mundo criativo, enfim, desde a comédia até agora ao cinema?
Sim. Na verdade, na Covilhã, eu nasci praticamente só lá. Depois fui logo viver no Alentejo. Ou seja, se tu me perguntares o que eu sinto.
Sentes-te covilhoa ou não?
Não, eu só acho sou alentejana.
É esse tipo de pessoa. Sentes-te mais alentejana, é isso?
Mais alentejana.
Ok.
Mais alentejana. Tanto que agora quando eu tive a oportunidade de fazer este filme do Contado por Mulheres, fomos logo pra Campo Maior, que é mesmo ao lado de Elvas, porque eu sinto-me muito bem ali. Gosto muito das pessoas. Não quer dizer que aqui em Lisboa as pessoas não sejam boas, porque também são boas, mas lá, imagina, nós fomos fazer a reperagem e estavam lá umas senhoras que eu queria muito que elas entrassem no filme e de repente já tinham uns bolinhos acabados de sair do forno pra minha equipe, pra nós, quentinhos, tinham licor. Percebes? Tu sentes-te sempre em casa ali.
Em Elvas.
Em Elvas, em Campo Maior também, que é mesmo ali ao lado. Portanto, eu sinto que sou alentejana, apesar de gostar muito da zona da Covilhã, mas sinto que sou alentejana e sinto que me trouxe, se calhar, este lado mais pitoresco, no sentido que eu gosto muito de estar ali, ouvir só as conversas, por exemplo, destas senhoras. Elas contaram a vida toda, que o filho foi pra Lisboa. Eu gosto muito de só ouvir as histórias das pessoas e elas têm todas muita graça.
Tens a paciência da Seara.
Exatamente. E é muito interessante estarmos só a ouvir as histórias delas e as preocupações delas. Isso é uma coisa que eu sinto sempre quando, por exemplo, só há pouco tempo é que eu perdi o número da minha vizinha de cima. Percebes? Aqui em Lisboa.
É que pediste.
É que pedi o número pra se acontecer alguma coisa eu ter o número dela.Toda a gente é como se fosse família.
Todos os anos.
No Alentejo eu sinto que é casa e aqui às vezes não sinto tanto isso. Acho que foi isso que o Alentejo me trouxe, foi sentir que todos nós podemos ser casa uns para os outros.
Tens mais paciência para chatices do dia a dia?
Sim.
Não ferves em pouca água.
Não, por acaso não. Achas que eu fervo?
Não, eu estou mesmo só a perguntar. Mediante a descrição que estás a fazer, pareces uma pessoa, no Alentejo diz-se que há mais tempo para tudo e para mais coisas, e tu estás a descrever isso mesmo. Pergunto se isso também se reflete nessa tua forma de ser.
Tenho muita calma, muita paciência. Até porque a minha filha mais nova, a Carolina, não sei se vocês viram, mas diagnosticamos há cerca de um ano que ela tem um transtorno do processamento sensorial, o que me exigiu ter o dobro da calma. O que é que isto significa? Significa que a Carolina não consegue regular as emoções como nós regulamos. Imagina, só o copo estar assim aqui, não estar assim aqui, pode fazer com que ela se irrite lá na cabeça dela e aquilo não dá para controlar, porque é a mesma coisa bioquímica do cérebro, ela não consegue controlar. E isso exigiu muito de mim começar a ter calma, começar a perceber que ela não está a fazer isto por mal. Isto não tem nada a ver com a educação, que foi uma coisa que eu pensei durante muito tempo, até eu ter o diagnóstico.
Achaste que estavas a fazer algo de errado.
Achei que estava a fazer algo de errado, que se calhar era mimada mais, se calhar não estou a dar educação da maneira certa. E muitas vezes ela chorava em sítios e eu via as pessoas: "Ah, mas ela está sempre a chorar." Eu senti muitas vezes que a culpa era minha. E o facto de agora ter um diagnóstico fez com que eu tenha obrigatoriamente que ter calma.
O que é que isso mudou na vossa rotina, até mesmo lá em casa?
Mudou bastante, porque nós já somos soberanamente espertos e calmos por natureza, mas tivemos que ainda ter muito mais calma. Imagina, às 08:00 estou a sair já atrasada, tenho que levar a Leonor, que está noutra escola, depois tenho que levar a Carolina e de repente a Carolina quer, às 08:00, ver um carreirinho de formigas a passar. E eu já estou superatrasada. Não posso atrasar, senão a mais velha leva falta de atraso. Mas eu tenho que parar e tenho que ver aquele carreirinho de formigas, porque para ela é importante e por alguma razão na cabeça dela, aquilo faz sentido. E depois outra coisa do transtorno dela é as costuras das meias. As costuras das meias têm que estar lá perfeitinhas. É uma coisa que ela não consegue controlar. E às vezes de manhã tu fazes as meias assim, a desfechar. Não dá, tens que parar, tens que ter calma, tens que pôr as costuras exatamente, porque senão ela vai chorar, o dia dela vai começar mal, eu vou me irritar, vou me zangar. Não vale a pena. Mais vale então termos calma, termos paciência, pôr as costuras lá da maneira que ela quer. E a vida assim é muito melhor, se tivermos mais calma. Portanto, sim, acho que não fervi em pouca água, nunca fervi e acho que com isto ainda me fez ter muito mais calma.
É uma pessoa mais paciente, é isso?
Mais paciente.
Muito bem. Falavas aqui desse episódio com a tua filha Carolina. Também viveste há pouco tempo, aliás, foi um vídeo bastante impactante, que foi partilhado nas redes sociais, da tua filha Leonor, sobre o bullying. Ver a tua filha expor uma ferida que é real para muitas crianças que passam por isso. Tu também passaste, de uma certa forma, por essa questão. Que impacto é que tem para ti? Como é que foi também ver esse vídeo pela primeira vez e ouvir as palavras da tua filha de uma forma tão lúcida daquilo que ela falava e da experiência dela enquanto pessoa que sofreu de bullying?
Foi difícil. Esta entrevista não é para pôr a chorar as pessoas, que eu não vi ninguém a chorar aqui. Foi muito difícil. Eu por acaso ainda hoje de manhã estava a falar com o Eduardo sobre isso. Eu acho que a Leonor vai ser artista. Ela adora teatro, ela vive para o teatro. Ela esteve no ensaio ontem até às 22:30, de um espetáculo que vai fazer, o "Anastásia", e hoje às 07:00 foi para Évora, para outro espetáculo que vai fazer em Évora.
Que idade é que tem?
12 anos. Ela vive para isto e não se cansa.
Já é artista.
E não se cansa. E ainda hoje o Eduardo estava a dizer que na verdade a história dos artistas, nós fomos ver todos a infância deles, eles não se encaixam ou são muito poucos os que conseguiram encaixar. E de facto, eu olho para a Leonor.
Encaixar naquilo que nós designamos como uma vida normal, é isso?
Exato. Todos eles na escola sempre se sentiram-
Outsiders.
Exatamente, que por algum motivo não encaixavam ali. E eu acho que a Leonor está a passar por isso. Também tenho que pensar sempre: imagina, a Leonor, as conversas que ela mais gosta ter, e ela tem 12 anos, volto a repetir, é discutir os figurinos do Filipe La Féria, é discutir os figurinos que foram usados no Carmen Miranda agora. De repente, ela está ao telefone com um amigo dela aqui do Politama, estão a discutir os figurinos da Paula Sá, que usou no Carmen Miranda. Percebes? Com 12 anos.
Leva a sério o trabalho.
Mas isto para dizer que às vezes não tenho a certeza se com 12 anos, se as outras crianças também têm este tipo de conversas. E às vezes penso assim: será que somos nós que também puxamos muito por ela? Porque ela gosta de outro tipo de músicas, estas músicas do TikTok não é o gênero dela. É mais artes. E o que é que eu sinto? Sinto que depois ela com as amigas da escola, digamos assim, não consegue ter este tipo de conversas das coisas que lhe interessam.
Não partilha os mesmos interesses.
Acaba por não partilhar os mesmos interesses.
Dizias que as crianças artistas são outsidersCrianças particulares. Sendo tu também artista, Joana, tu sentias-te, olhando para trás, eras uma criança também outsider em Elvas?
Sim, se calhar. Dentro daquilo que eu tinha, que eu já fazia o teatro, fazia tudo, senti que se calhar também olhavam assim dessa maneira para mim, mas se calhar como eu sou mais despachada, seguia a minha vida. A Leonor é muito mais sensível, sente muito mais as coisas. E de facto o que aconteceu foi isso. Na escola onde ela estava, por ela ter outro tipo de conversas, outro tipo de gostos, foi começada a ser posta mais de lado, ao ponto de, é aquilo que ela descreve, de não a incluírem nos grupos. Havia uma coisa no colégio que era o beach volley, ninguém a quis pôr na equipa. Eu tenho também um olhar muito crítico. Às vezes penso assim: "Será que é da minha filha?" Mas depois vejo os grupos do WhatsApp, investigo tudo e vejo que a Leonor também não é perfeita. Também tem a sua cabeça, tem os seus erros.
Todos têm.
Todos têm, mas consigo perceber que neste caso a culpa não era dela. Ela só quer estar feliz, só quer viver a vida dela feliz e fazer o seu teatro. Na turma estava a acontecer isto, mas depois em todos os grupos de teatro onde ela está inserida, ela estava bem. Portanto, isto era ali naquela turma, naquela escola. Entretanto, mudou de escola e agora está outra vez feliz. Já voltou a ser o musical da La Féria lá em casa.
O que aprendeste com essa experiência que aconteceu com ela também enquanto mãe? Porque tu já tinhas passado por isso, mas sendo um filho, a dor, entre aspas, é diferente, não é?
É diferente, porque é isso. Quando é conosco, a gente segue em frente, sei lá, tu segues a tua vida. Quando é com o filho e tu tens que o deixar lá, não consegues controlar se vão falar com ele, se lhe vão dizer alguma coisa, se ela vai chorar. É muito complicado. Como é que eu deixo ali a minha filha querida e saber que depois vai ouvir coisas que a vão magoar, que a vão deixar triste? Tens que lhe dar muito suporte em casa, tens que dar-lhe muita força. E eu acho que, sobretudo, é muito importante este suporte familiar. Isto é uma coisa, mas isto não define nada ao resto, nem define que eu gosto mais de ti. Toda a gente vai continuar a gostar de ti. Isto é uma situação específica que nós vamos conseguir ultrapassar todos juntos. E se não estás bem aqui, vais estar bem noutro sítio. Ela até conta aquela história do relógio no fim, não sei se vale a pena repetir.
Sim.
É a história do relógio que é: há um senhor que recebe um relógio do avô e vai a uma ourivesaria e dão-lhe 100€. Vai a uma feira e dão-lhe 5€. E vai a uma loja de antiguidades e dão-lhe 1000€. O problema não era o relógio, o problema era o sítio onde tu estavas. E de facto, a Leonor, neste caso, supondo que é o relógio, neste sítio não estão a dar valor, acham que tu não és boa menina. Então vamos mostrar que não, que tu és boa menina.
E ter esta lucidez para alguém com 12 anos também é, de facto, impressionante. Esse vídeo, aliás, foi muito replicado na altura. Há uma grande lucidez daquilo que aconteceu e o facto de ela também ter reconhecido tudo isso. Vamos fazer aqui uma curta pausa, Joana Machado Madeira, já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Até já. De regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Joana Machado Madeira. Estou aqui muito curioso, porque nós já vamos falar sobre este teu novo projeto, que já nos adiantaste que vamos poder ver em 2027. Mas queria te perguntar: tens saudades de subir a um palco e ser humorista?
Olha, não tenho.
Não tens?
Não tenho. Não tenho, porque era giro, mas eu sou divertida e gosto muito de dizer piadas, mas eu acho que não tinha muito jeito para estar em cima de um palco a dizer piadas. Eu ficava muito nervosa. Eu tenho que te dizer uma coisa, eu estou muito feliz agora atrás das câmaras. E acho que já dificilmente vou voltar para a frente das câmaras.
Mesmo como atriz?
Não digo que não, porque como atriz, não digo que não, porque agora até estou no ar com o "Bairro do Humor", nas quartas-feiras na RTP. Mas vai ser muito difícil. Eu passei por standup comedy, foi uma experiência, mas não vou voltar.
Mas o que te fez mudar de opinião? Porque tu tens muita graça naturalmente e as pessoas reconhecem isso. Era a questão de ter tudo muito pensado?
Não sei. Eu acho que esse período também foi um período difícil, porque foi o período, tu disseste isso na tua introdução, em que eu apareci mais como se calhar a mulher do Eduardo, e então foi um período em que se calhar toda a gente dizia que eu só fazia standup por causa do Eduardo. E eu escrevia as minhas próprias piadas, porque eu não gosto das piadas do Eduardo. E muitas vezes ouvia que era ele que me escrevia os textos. Não sei. Vocês já vão sair daqui quando eu estiver a chorar.
Por quê?
Que tu achas que eu não sei, assuntos que me faz ficar triste.
Mas ficas triste por quê?
Porque foi isso, foi um período-
Foi doloroso?
Sim, em que eu ouvi muita coisa sobre isso. Eu estava em cima do palco, eu tentava fazer os outros rir, mas não estava feliz também.
E agora és feliz por trás das câmaras?
Agora estou muito feliz.
O que é que mais gostas na nobre arte de realizar filmes, Joana?
Olha, eu gosto de tudo. Aliás, deixa-me só dizer. A Tina do guarda-roupa, não sei se sabes quem é. Ela já me vestiu imensas vezes em imensos projetos. Espera aí, tenho que pegar aquilo.
Fica à vontade.
Ela já me conhece há muitos anos, desde que eu comecei. E ela é que fez agora este projeto do Contado por Mulheres. Ela já me conheceu como humorista, como atriz, como tudo. E agora viu-me como realizadora pela primeira vez e ela disse: "Eu nunca te vi tão feliz". Não consigo explicar, agora estou mesmo feliz. Porquê?
Mas percebe-se isso da forma como tu falas da realização disto que estamos a falar agora, ou seja, a tua aura está-
Sim, fica mais bonita. Comecemos pelo guião. A Pandora Cunha Telles da O CUBAR deu-nos a premissa. Eu acho que posso contar, acho que não há problema. Eu vou contar.
Tu é que sabes.
A premissa é: um reality show com ex-casais. E depois pediu ao José Pinto Carneiro e a mim para desenvolvermos o guião. Claro que o José Pinto Carneiro é que é argumentista, escreveu os diálogos todos, mas eu comecei logo a pensar nas personagens. E cada personagem que vai estar no filme é toda pensada por mim.
Podes adiantar as personagens? Quem vai estar contigo, os atores?
Os atores, eu acho que sim, nós já tiramos alguns pontos. Vou ter o Rui Porto Nunes, Carolina Loureiro, Nuno Lurdes, João Maria, Bernardo Lobo Faría, Diana Sousa Lara e Rita Salema. Todas as histórias foram pensadas por mim. Ou seja, eu é que pensei em cada casal, o que cada um trazia consigo, o que cada um sentia em relação ao outro. E só esse processo de eu estar a criar, de eu estar a imaginar, de tar tudo, eu adoro isso. Depois temos o guião. Começamos a tratar então de contratar os atores, tudo. Começo a pensar: como é que vou filmar isto? E eu queria filmar mesmo à cinema bonitinho, que é o meu primeiro filme. Eu tinha que mostrar tudo o que ele valia.
Panorâmicas, travelings, enquadramentos bonitos.
Ir assim nas costas do ator, depois virar. Criar tudo isso. Depois, convencer o meu diretor de fotografia, que foi o Cristiano Santos, tive muita sorte, porque ele percebeu perfeitamente tudo o que estava na minha cabeça, todas as minhas ideias. E agora fui fazer um plano ator e vamos filmá-lo no espelho, e ele alinhou em tudo, em todas as minhas ideias. Filmar, e agora estou na fase da edição e ver tudo desde o primeiro dia, tudo realizado, gosto muito mais.
Gostas de ver nascer esse filho, não é?
Tudo.
Gostas da parte da edição?
Gosto da parte da edição.
Há realizadores que detestam a parte da edição.
Pois é, mas eu estive lá, ainda hoje estive lá o dia todo, estou com o Pedro Ribeiro, que foi o editor também do "Rabo de Peixe", e então estive lá com ele. "Não, vamos pôr isto antes, vamos pôr isto depois, aqui cortamos logo". Porque eu acho que sendo realizadora, eu sinto que consigo fazer mais com que as pessoas sintam coisas. Enquanto atriz, eu sentia: estou só a dizer um texto, não consigo fazer nada.
Porque na realização tu trabalhas várias linguagens. Trabalhas o texto, a interpretação dos atores, o ritmo da edição.
Exatamente, estive sempre a ajudá-los, a dirigi-los. Aqui faz mais uma pausa, aqui faz mais não sei o quê. Claro que dei-lhes a liberdade total.
No fundo, Joana, eu acho que tu gostas é de ser chefe.
Sim, de mandar.
Mandona.
De mandar naquilo tudo.
É humano, não é?
Atenção, não sinto que tenha esse perfil de mandona, porque sinto que durante toda a rodagem estive sempre muito atenta, porque era uma equipa também muito experiente, a tudo o que eles me queriam ensinar e estive sempre a ouvir, mesmo os atores, dei-lhes a liberdade total de fazerem o que quisessem, dentro da personagem que tínhamos combinado nos ensaios, mas dei-lhes sempre a liberdade total de eles fazerem. E toda a equipa, que sempre ouvi e às vezes filmava e gostava de ir perguntar aos que estavam lá com mais experiência: "O que é que achaste? Achas que está bom? Vou repetir". Ou seja, sinto que não é bem mandona, porque eu gostei sempre de ouvir. Ouvi sempre o meu diretor de fotografia, sempre o meu assistente de realização, para ter a certeza que-
Nós estamos a brincar contigo. Mandona é uma forma de aligeirar as coisas. Mas olha, na realização há algum tipo de cinema que te inspire mais, Joana?
Eu sou muito fã do Sorrentino. Sou muito fã do Sorrentino. E entretanto, agora vi uma série que eu fiquei apaixonada, que é do Eduardo De Angelis, que é baseada no livro da Elena Ferrante, "A Vida Mentirosa dos Adultos". Já viste essa série?
Não.
É filmada em Nápoles, que eu fiquei completamente apaixonada. Até já mandei uma mensagem para o realizador.
A sério?
E ele respondeu.
Respondeu?
Respondeu.
Mas acho que é uma mensagem a dizer o quê?
A dar os parabéns. Estava completamente apaixonada, porque ele faz uma coisa que faz imensos travelings nas costas dos atores. E eu inspirei-me nisso e tenho uma cena toda de dois personagens, que é uma cena superimportante, que é eles decidem não ficar juntos. Eu só estou a filmá-los de costas, baseada neste realizador, do Eduardo De Angelis, porque acho que é superinteressante. Normalmente estamos habituados àqueles planos que vemos a cara dos atores. Mas acho que pode ser como se nós estivéssemos a ouvir a conversa, mas não estamos lá.
É surpreender, no fundo, não é?
É muito interessante. E então estive sempre a fazer, como ele chamava, brincadeiras com a câmera. E eu estive lá na edição. Porque é muito importante tudo, mas a edição também é muito importante, porque na edição é que nós depois vamos conseguir fazer com que o público fique . É aquele suspense todo da edição. E então eu estive lá também.
E é na edição que se vê se a captação foi bem feita ou não, não é?
É verdade.
É o momento da verdade.
É o momento da verdade, exatamente. Deixa-me só fazer mais uma pergunta, que é quando é que sai o filme? É 2027, é isso?
2027. Este é o projeto "Contado por Mulheres", da Ukbar, com a RTP, e são 20 realizadoras, 20 mulheres a realizar. E o meu foi o primeiro. Meu filme foi o primeiro a ser filmado desta segunda temporada do "Contado por Mulheres".
Não quer dizer que seja o primeiro a estrear.
Não quer dizer que seja o primeiro a estrear, isso depois vai depender da RTP, penso eu. Mas sei que começaram ontem já a filmar o segundo filme e agora vão continuar a filmar e em 2027 estreia.
Ok, muito bem. Já tens aí algum plano na manga para mais filmes, para próximos projetos no cenário do cinema?
João, já mandei.
Queremos revelações.
Já tenho mais duas ideias, com mais duas produtoras, de ideias que há da minha cabeça e as duas disseram que sim. Agora vamos ver.
Boa, muito bem. Agora não sei se repararam, mas veio a alentejana Joana e disse assim: "Ideias que há da minha cabeça."
Pois é, o Eduardo diz que quando eu estou muito feliz é quando sai a alentejana. É quando volta a alentejana.
Tu estás nesta nova função, vamos dizer assim, a dar os primeiros passos sólidos. Quando bate o síndrome da impostora à porta, o que é que fazes? E se ele bate, pode não bater.
Várias vezes eu estava lá e eu pensei assim: "Meu Deus!" sobretudo no primeiro dia. Eu acho que sobretudo no primeiro dia eu pensei assim: "Meu Deus, e se eu não sei o que eu estou a fazer? E se eu não sei, se de repente eu venho com as minhas ideias todas, tenho a equipa toda, uma equipa de 35 pessoas, é uma grande responsabilidade, mais sete atores, e se de repente está tudo mal, tudo o que eu pensei, todas as minhas ideias estão todas mal?" Uma vez já fiquei aflita, mas depois pensei: "Eu vou ter que confiar, porque sou eu que estou aqui e está toda a gente a confiar em mim." E confiei. E ao longo do tempo, tinha lá muita gente experiente. A produção é da Ukbar. Muita gente vinha do "Rabo de Peixe", e muita gente da equipa me foi durante a semana dando os parabéns e disse-me: "Joana, tu vinhas com o trabalho de casa muito bem feito. Às vezes nós estamos com realizadores, seja com muita experiência, com muito nome, que não sabem bem o que é que querem e tu sabias exatamente o que é que tu querias, tinhas os planos todos definidos, em que posições é que querias os atores, tinhas o trabalho de casa todo bem feito." E muita gente me veio dar os parabéns, por isso eu fiquei: "Ok, ainda bem que eu confiei."
Choraste.
Chorei.
Então não, já percebemos que a Joana, não me leves a mal, é uma chorona.
Sou. Estou sempre a chorar. Não, quer dizer, não estou sempre a chorar. Choro enfim.
És uma mulher sensível.
Eu não sei se isto tem a ver com os signos, há quem diga que sim, de ser gêmeos.
Qual é o teu signo, se puderes dizer?
Tanto riem como choram, mas é bom, é viver a vida.
É isso, exatamente. Eras tu que gritavas: "Ação?"
Não, eu só gravei, foi na última cena do filme, fui eu que bati a claquete e gritei o "Ação", porque era a minha última cena.
Muito bem.
Normalmente, depois no cinema é o assistente de realização que faz isso.
Mas tu fizeste questão de ser a última.
A última cena, bati a claquete e disse: "Ação."
Muito bem. E aí bateu aquela coisa: "Meu Deus, isto agora é outro campeonato."
É outro campeonato. Mas estou mesmo ansiosa que saia. Ou seja, eu já vi, mas agora quero muito que as pessoas vejam. Eu já vi o primeiro corte com a minha filha, a mais velha, a Leonor.
Ela é muito crítica?
É.
Ela para criticar os figurinos.
Sim.
É porque tem sempre uma opinião muito vincada, não é?
E a opinião dela é muito importante, porque ela também gosta muito de ver séries, é fã também de várias séries, e a opinião dela é muito importante, e ela gostou. O público mais difícil é o de casa, eu acho isso. E se a minha filha gostou, acho que já está a meio caminho andado para correr bem.
Joana, viver do cinema em Portugal é difícil. Tu vês-te a viver do cinema ou não?
É assim, neste momento, que eu comecei, estou a começar agora no mundo do cinema e, como te disse, já tive mais duas ideias, já apresentei a duas produtoras e duas produtoras gostaram da ideia e estamos a trabalhar para issoEu sei que é difícil, mas eu quero acreditar que vou conseguir. É como agora quando eu cheguei ao primeiro dia de rodagens, que eu também senti: "Meu Deus, e se agora eu falho?" Mas acreditei, e as outras pessoas conseguiram ver que o meu trabalho estava bom. Se eu não for acreditar que vou conseguir, então mais vale desistir já. Eu acho que em tudo na vida nós temos sempre que acreditar. Eu também vim de Elvas pra Lisboa, tinha 20 € no bolso e ninguém acreditou em Elvas que eu ia conseguir fazer nada em Lisboa. Achavam todos que eu ia voltar. E agora estou aqui, passados já quase 20 anos. Porque às vezes pode parecer um clichê, mas eu acho que é muito importante nós acreditarmos sempre dentro da nossa cabeça que vamos conseguir.
Do que tu orgulhas mais neste teu percurso, daquilo que já alcançaste, já fizeste muitas coisas diferentes, do que tu orgulhas mais neste teu caminho?
Sinceramente, eu acho que é ter ido estudar cinema. Tenho pena de não ter ido logo por este caminho, mas naquela altura dos meus 18, 19 anos, com a informação que eu tinha, com aquilo que eu conseguia, achava que era a escola de Teatro de Cascais e achava que era ser atriz. Tenho pena de não ter percebido mais cedo que podia ser feliz aqui, no cinema.
Mas também te trouxe valências para agora estares na posição em que estás.
Pois é, também é verdade. Por isso é que depois também foi fácil eu estar ao lado dos atores e dirigi-los e perceber tudo que ia na cabeça deles, ajudou-me a perceber porque tive aqui esta experiência toda. Ou seja, estou muito orgulhosa do sítio onde estou agora.
Muito bem. E vamos poder ver mais sobre este projeto em 2027. Vamos ter de esperar um bocadinho, mas temos aí projetos também no forno. Joana Machado Madeira, hoje é Dia da Mãe. Tu tens duas crianças em casa, a Leonor e a Carolina. O que te inquieta neste mundo que estamos a construir e a deixar para as gerações mais novas?
Vou tentar explicar isto de uma só vez. Fala-se muito da empatia hoje em dia e há muita falta de empatia, mas mais do que falta de empatia, acho que há muita falta de lealdade. Eu estou sempre a dizer às minhas filhas, sobretudo à mais velha, que a pequenina ainda não percebe, à Leonor: mais do que nos pormos no lugar do outro, que é muito importante pormos sempre no lugar do outro, é sermos fiéis ao outro. Ou seja, se uma amiga te conta uma coisa, se uma amiga sabe que tu sabes de uma coisa, tu tens que ser leal a ela. A lealdade é fundamental. A empatia é muito importante, mas a lealdade também é. E hoje em dia eu sinto que ganhamos todos a empatia, mas perdemos todos um bocado a lealdade. E acho que era importante voltarmos a ganhar, porque é muito importante. Se eu sou tua amiga, tu saberes que podes confiar em mim pra tudo. Não sei se está a fazer sentido o que eu estou a dizer.
Sim.
Portanto, eu acho que é a lealdade e a empatia. E outra coisa que eu também estou a sentir, ainda agora esta semana, ela esqueceu-se que tinha um ensaio à noite e ficou cheia de: "Meu Deus, eu esqueci-me, porque fomos pro skate park, eu esqueci-me." Leonor, só tens que chegar lá e pedires desculpa. Dizes ao professor: "Peço desculpa, esqueci-me, acontece, errei, falhei." E às vezes sinto que também as pessoas têm muito medo de pedir desculpa, ou então erram e não conseguem pedir.
É um sinal de fraqueza, não é?
Não conseguem pedir essa desculpa. Se nós admitirmos.
Hoje em dia é considerado um sinal de fraqueza ou não?
Mas eu acho que é.
Eu não estou a dizer que é, estou a dizer que à luz dos outros. Aos olhos dos outros, aliás.
Acho que sim, mas acho que é tão mais fácil chegarmos e dizer: "Olha, eu errei, falhei, peço desculpa." E a partir daí, se a outra pessoa reagir mal, tu já não podes fazer nada, porque estás a pedir desculpa. Portanto, eu acho que temos que recuperar a lealdade, o pedir desculpa, o dizer que gosto muito de ti. E acho que às vezes nós encontramos pessoas boas na vida, mas por causa disto, da falta de lealdade, deixamos que essas pessoas fujam, porque lá está, temos medo de pedir desculpa, temos medo de ser leais. E se encontrarmos uma pessoa boa na nossa vida, acho que temos que agarrá-la e não a deixar fugir.
Tu tens conhecido muitas pessoas boas, Joana.
Graças a Deus, tenho conhecido.
E pessoas más.
Pessoas más também.
O que fazes com elas?
Pessoas más também tenho. Mas as pessoas más, deixa estar lá no sítio delas. Agarra-te às pessoas boas.
Ensinaram-te alguma coisa também?
Olha, neste processo todo da Leonor, houve muitas mães e muitos pais lá do colégio que eu achava que eram meus amigos. Achava, porque eram aqueles pais assim que eu achava que eram meus amigos. E quando foi tudo isto da Leonor, muitos deles disseram que eu estava maluca, que eu estava a exagerar. E houve outros pais, que eu se calhar não estava tão à espera, não tinha tanto como amigos, que foram os que me agarraram, que foram os que disseram: "Não, tu tens razão. Vocês não estão a fazer isto, isto é pior que a Júlia Pinheiro."
Nós não estamos a fazer nada. És tu, Joana, tu é que és assim.
Vocês estão piores que a Júlia Pinheiro. E ensinaram que se calhar, não sei, se calhar às vezes.
As surpresas vêm de onde menos se espera, não é?
Sim, se calhar as surpresas vêm.
E as tantas expectativas, às vezes, também, não é? Em relação às pessoas. Esperamos sempre o melhor das pessoas, que se calharGostamos mais e às vezes desiludimo-nos.
E às vezes desiludimo-nos, mas aí não há nada a fazer, é seguir em frente, deixar cair as pessoas que foram más e agarrar as pessoas boas. Já agora, deixa-me dizer que a Carolina está a fazer terapia por causa disto e entretanto agora descobri, a Leonor começou a ter aulas de skate, meti a Carolina também a fazer aulas de skate e isso está a lhe a dar uma autoconfiança e uma autorregulação das emoções, porque ela vive aquelas adrenalinas todas. E, por exemplo, o professor de skate da Carolina e da Leonor, que percebeu que a Carolina tinha este transtorno e tem muita paciência e ajuda, e a Carolina depois não quer ir pro meio da confusão e ele ajuda. Que é isto, que às vezes as pessoas boas aparecem, e as pessoas más é deixá-las ir.
Muito bem. Olha, para acabarmos em bom, não queremos que chores mais.
Está bem, obrigada.
O que tu te imaginas daqui a cinco anos ter um check, um visto na tua lista de objetivos? Daqui a cinco anos, nem ponho a 10, vou ser mais modesto.
Daqui a cinco anos gostava de fazer estes dois projetos que eu apresentei agora.
Os tais dois filmes.
Um é um filme, o outro é uma série.
Ah, ok.
Um deles é uma série pra Netflix. Portanto, uma série pra Netflix, mais um filme pro currículo a juntar a este. Olhe, por que não, estar eu em Hollywood a falar com vocês de lá pra cá.
Leva-nos, por favor. Nós queremos ir.
Está bem, vão lá entrevistar.
Muito bem, está combinado daqui a cinco anos.
Está combinado.
Portanto, dia 3 de maio de 2031.
Pronto, porque se nós acreditarmos, nós conseguimos.
É essa a mensagem.
É essa a mensagem.
Muito bem, Joana.
Joana Machado Madeira, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos", uma grande conversa.
E um beijinho ao Eduardo.
Está bem, vou mandar.
Até breve, obrigado.