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Imagina, eu sinto que não tenho a liberdade de andar como eu quero. Imagina, por exemplo, eu aos 20 anos, quando comecei a sair à noite, eu usava uma T-shirt larga, umas calças largas, porque tinha medo. Se calhar queria usar uma minissaia, mas tinha medo. Tinha medo porque achava que os homens, achava não, tinha a certeza que iam olhar, ainda por cima por ser conhecida, e que ia chamar mais a atenção, e eu não queria essa atenção sobre mim. Outro exemplo: estava em ensaio era um espetáculo, o ano passado, e saí à meia-noite, era ali nos primeiros sintomas, na Graça. Saí da Graça para Alcântara à meia-noite. Estacionei o carro meia-noite e meia. Eu tinha medo. Isto é horrível. Tinha medo e pedia ao meu marido: "Olha, quando eu estacionar o carro, vou te ligar e vou ao telefone". Mas por que eu hoje, ainda hoje em dia, tenho que me preocupar com isto? Com medo de ser assediada por alguém, por um homem. É triste.
Se isto fosse um filme, começava assim: Lisboa, 1985, uma rapariga que prefere ouvir a falar, que cresce a observar as pessoas com uma atenção que as pessoas não sabem que têm. Começou como modelo, mas depressa percebeu que não queria ser olhada, queria habitar. Já foi a vila perfeita, a mulher capaz de fazer o público odiar a personagem e adorar a atriz. A televisão fê-la conhecida, o cinema fê-la livre, o teatro deu-lhe a precisão e agora a voz, só a voz, sem o corpo, sem a câmera, está a contar um crime que Portugal conhece, mas ainda não se esgotou. É atriz de corpo inteiro, como ela própria diz, e ainda assim, quando lhe perguntam quem é, hesita um segundo antes de responder, como se a resposta certa ainda estivesse a ser escrita. Joana Santos, em 40 minutos.
Boa descrição.
Sê muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.
Obrigada.
É um gosto. Nova narradora do novo podcast do Observador, os Cheiros do Caso Carlos Castro. Eu queria pegar aqui na introdução. Ainda hesitas muito em dizer ao que vens, aquilo que és, por uma espécie de timidez que ainda existe dentro de ti.
Existe, sim. Eu normalmente sou mais observadora do que faladora.
Consegues perceber de onde é que isso vem?
Eu acho que é mesmo de personalidade. Eu sinto que já em miúda lutava muito contra isto, também. Até mesmo na escola, o ter medo de falar e de o professor fazer uma pergunta e eu saber a resposta, mas ouvir a minha voz e sentir que toda a gente olhava pra mim. Isto parece muito estranho, não é? Porque de repente agora sou atriz.
A tua profissão, não é?
Mas eu acho que foi realmente isto que me ajudou também a vencer um bocadinho a timidez.
Mas é bom tu estares a falar sobre isto, porque nós temos muita tendência de achar que os atores, as pessoas que trabalham no espetáculo, são pessoas altamente extrovertidas.
Superseguras.
Superseguras, que adoram o palco. Mas é bom também desconstruir essa ideia, que vocês são pessoas tal como nós e têm inseguranças, não é?
Completamente.
Ainda há inseguranças, por exemplo, não digo da tua personalidade, mas que ainda se mantêm, como no primeiro dia, de uma forma também de te protegeres daquilo que é a tua profissão?
Podes repetir a pergunta, por favor?
Estava-te a perguntar se há inseguranças que se mantêm para te protegeres ao nível da tua profissão, também para manteres sempre os pés no fundo assentes na terra.
Sim, eu normalmente, por exemplo, falar de mim, da minha vida privada, sou sempre muito mais resguardada. Quando não estou a trabalhar, sou bicho do mato. Gosto muito de estar em casa, gosto muito de cozinhar, gosto muito de ir pro campo e estar desligada.
O que gostas de cozinhar? Agora fiquei curioso.
Olha, gosto muito de inventar coisas, gosto muito de comida asiática.
Agora há todo um novo mundo também.
Agora, ainda por cima, já consegues comprar muita coisa.
Sim, é isso.
Mesmo em supermercados normais, não tens que ir ao Martim Moniz de propósito. E eu gosto de estar em casa, porque quando estou a trabalhar, não tenho quase tempo pra nada.
Claro.
Então é quase uma terapia, cozinhar, pra mim. E gosto de estar ali na minha cozinha, a experimentar coisas, a fazer uns crepes vietnamitas.
Já estamos a ficar com água na boca. O campo traz também a serenidade que precisas para uma profissão que tu convives com muita gente. Em set, sendo protagonista, gravas muitas horas. Traz-te aquela serenidade e o desligar que é preciso nesta profissão?
Sim. A minha sogra tem uma casa em que não há rede, no Alentejo.
Que privilégio.
E é, é mesmo. Hoje em dia, isto é mesmo visto como um privilégio. Não há rede, portanto, adultos não vão ao telemóvel, crianças não vão aos tablets, não vão ver desenhos. Então estamos em contato com a natureza, inventamos o que dá pra fazer, lemos, mergulhamos, cozinhamos. E consegue estar presente.
Uhum.
Uns com os outros. Não há ali outros objetos para nos distrair.
Nós hoje em dia recebemos muitos estímulos. Ia te perguntar, sendo tu mãe, como é que se lida com esses estímulos, com a necessidade de muitas vezes querer estar presente, mas recebermos muitas mensagens no sentido de redes sociais, tudo que está a acontecer. És uma pessoa que consegue desligar facilmente desse mundo, dessa realidade que existe neste momento?
Tento. Às vezes não é fácil, porque é o que tu dizes, não é só os Instagrams, há um WhatsApp em que tu de repente tens milhares de grupos e estás constantemente a receber mensagens e de repente: "Vou só responder a esta". E depois recebes outra. E de repente está o teu filho a tentar falar contigo e tu não estás a ouvir, porque estás focado naquela mensagem. Isso já me aconteceu.
Quando isso acontece, o que é que tu fazes? Consegues te aperceber no momento?
Consigo me aperceber. "Mãe, eu estou a falar contigo", e eu: "Espera". Ele tem toda a razão, porque aquela mensagem não é assim tão importante. Eu posso responder depois, quando ele já estiver a dormir, por exemplo. Quando estou em casa, sinto que tenho que lhes dar atenção a eles.
E é difícil para uma mãe, neste momento, com esta questão dos ecrãs, fala-se muito, até propriamente das redes sociais, uma idade mínima de limite para uma pessoa, neste caso uma criança ou um adolescente, estar nas redes sociais. Como é que tu lidas com toda essa questão que existe neste momento? E há debates também sobre isso.
É assim, os meus filhos ainda são pequeninos. O meu filho tem nove anos e a minha filha vai fazer agora seis. E felizmente, ainda não tenho esse problema. Já há aquela pergunta: "Quando é que eu vou ter um telemóvel?"
Claro. Quanto mais não seja porque veem outros miúdos com um telemóvel, não é?
E eu tenho que explicar que há tempo para isso e que mais tarde, daqui a uns anos, depois logo se vê, quando fizer sentido. Que eu acho que para mim deve ser aos 16 anos. Se for mais cedo, se tiver que ser mais cedo, não é um iPhone de certeza, é um telemóvel Nokia 3310.
Que dê para enviar mensagens e fazer chamadas.
Pronto, é isso que eles precisam.
Eu ainda acho que vamos voltar a essa febre desses telemóveis outra vez. Mais simplistas.
Sim, eu acho que estamos agora numa panela a fervilhar. E a panela vai explodir. E eu quero acreditar que, porque realmente vivemos com tanta informação, e até mesmo como mãe, no Instagram, há uns que têm uma opinião disto, outros têm uma opinião daquilo, e de repente começas a baralhar tudo e depois já quase não consegues pensar por ti própria. E é: "Não, chega. Eu tenho que acreditar nos meus instintos como mãe e confiar nisso". Porque há realmente muita informação, às vezes é mesmo demais.
Tu és uma pessoa com um sentido de justiça muito grande, e isso é presente através da forma como tu te posicionas. Nem estou a falar das redes sociais, mas estou me a lembrar daquele célebre discurso que fizeste nos Globos de Ouro, que gerou muito burburinho à volta daquilo que falaste e que disseste sobre Gaza, num prémio que venceste nesses Globos de Ouro. Falaste aqui da questão da informação. Como é que tu te informas e te posicionas? No fundo, como é que te instruís para também tomares conta das tuas próprias opiniões? Numa era com tanta informação, como estávamos aqui a dizer.
E lá está, o Instagram acaba por estar um bocado presente e às vezes é assustador. Porque depois tens um algoritmo que se tu acabas por pesquisar uma coisa, de repente és completamente bombardeado por aquilo.
Sentes-te engolida por esse algoritmo?
Engolida? Às vezes, sim. Às vezes tento procurar mais receitas para enganar ali um bocadinho o algoritmo, porque é importante estares informado, mas às vezes consome-te. Mas em relação ao meu discurso nos Globos de Ouro, eu achei que era a oportunidade certa para marcar uma posição e para não ter medo de dar a minha opinião. Foi logo o primeiro prémio, portanto, foi logo assim a abrir.
Sim. Foi marcante também por isso mesmo, porque era a altura, se calhar, de maior audiência.
Talvez, sim. E fui muito criticada também nas redes sociais. Tentei não ver muitos comentários, porque hoje em dia as pessoas destilam ódio. Dizes uma coisa que não agrada alguém e...
Sim, é de extremos. Há o bom e há o mau.
Mas achei mesmo importante marcar ali uma posição e dar a minha opinião. E foi engraçado, agora lembrei-me. Eu estive há pouco tempo nos Prémios Goya. E fiquei muito admirada, para um lado positivo. Tanto apresentadores como artistas sentiam uma união tão grande ali. Todos tinham crachás com Palestina Livre, todos falaram das guerras que estão a acontecer. Os próprios apresentadores tinham também crachás. Toda a gente falou, teve uma palavra a dizer do que se está a passar no mundo. E eu acho que isso é mesmo importante, nós não termos medo de falar e darmos a nossa opinião.
Há quem diga que a arte está a ficar demasiado politizada. O que é que tu tens a dizer às pessoas que têm essa opinião e pensam na arte dessa forma?
Eu acho que tudo o que nós fazemos é político. E acho que temos que pensar assim, porque se não formos nós a decidir a nossa vida, há quem decida por nós. E as coisas neste momento estão perigosas e temos que lutar pelos nossos direitos. E eu acho que a arte também serve para isso, para nos ajudar. Por exemplo, agora vou falar do "On Falling". É um filme-
Que traz uma temática muito importante
...super político. Nem todos os filmes têm que ser políticos, como é óbvio. Mas, neste caso, mostra-nos uma realidade que se calhar nós não tínhamos bem noção e que é necessária. Chaplin mostrou-nos "Os Tempos Modernos" há 100 anos. E se fores fazer uma comparação entre "Os Tempos Modernos" do Chaplin e o "On Falling" da Laura Carreira, consegues ver aqui muitas semelhanças. Embora o Chaplin tenha conseguido dar um tom cômico à coisa, aqui não temos a comédia, temos uma realidade muito dura. Eu acho que é necessário mostrarmos o que é que se está a passar no mundo, com as pessoas, porque acho que estamos cada vez mais individualistas.
Dar outra perspectiva àquilo que se debate, mas com situações que podem ser reais ou não.
Sim.
Muito bem. Falaste aqui da questão da imigração, que está presente neste filme, no "On Falling" é um tema central. Tendo em conta aquilo que se conta no filme, falaste aqui também dos tempos modernos e eu queria fazer uma analogia, que tempos modernos são estes que vivemos? O que te assusta nas ameaças? E tendo também tu dois filhos, ainda que sejam pequenos, mas já há pequenos gestos em que tu também já procuras instruí-los ou tentar guiá-los, entre aspas, para o caminho certo.
Sim, completamente. Sobretudo, acho que a palavra-chave é o respeito. Porque acho que anda aí muita falta de respeito, principalmente nas redes sociais. As pessoas escondem-se atrás de um telemóvel para dizer mal de tudo. Eu quando fiz o discurso sobre Gaza, de repente vi um comentário: "Por que não falas dos incêndios?" Se eu fosse falar de tudo o que está mal, eu tinha ali uma lista que nunca mais acabava e começava a orquestra.
Sim, quando o discurso começa a ficar demasiado longo, não é?
Pois. Parece que tudo o que tu dizes hoje em dia, parece que não podes cometer erros. Por exemplo, hoje, estamos aqui a gravar isto, quando isto for para o ar, vai haver alguém que vai dizer que eu disse mal qualquer coisa. Não sei, as pessoas hoje em dia deviam mostrar mais amor. E acho que está o contrário, porque as pessoas andam muito individualistas.
Isto não tem a ver com o ideal de liberdade. Nós há 50 anos queixávamo-nos que não havia liberdade para se dizer aquilo que sentíamos, aquilo que pensávamos, era tudo muito escondido. Claro que havia, mas era tudo muito escondido e havia censura e repressão. Hoje é estranho pensar nisso, porque hoje temos essa liberdade, mas ao mesmo tempo não a procuramos para o fazer o bem ou não aplicamos da melhor forma, é isso que sentes?
Sim, porque uma coisa é dares a tua opinião sobre um tema. Outra coisa é só por dizer mal. De fazer comentários sobre o corpo de uma pessoa, sobre: "Ai, porque ela não falou bem, é burra". Não sei, primeiro não me faz sentido, eu ir pro Instagram, fazer comentários, por exemplo, nas notícias. Por exemplo, em relação a este podcast. As pessoas às vezes põem comentários que eu não consigo perceber.
Sim, até mesmo a ridicularizar o caso, não é?
Exatamente. Guarda essa opinião pra ti. Ou então partilha com os teus amigos. Tens um grupo de WhatsApp. Eu não sou púdica, mas se calhar, se eu quero dizer alguma coisa, digo no meu círculo de amigos.
Mas todos temos opiniões, às vezes é saber onde é que as podemos dar e com quem as podemos fazer.
Sim, eu acho que as pessoas escondem-se. Como têm ali o telemóvel, estão ali protegidas, então agora vou dizer aqui verborreia.
Como é que tu lidas a questão das críticas? Há as críticas ao teu trabalho e há as críticas às tuas posições, àquilo que tu dizes. É mais difícil lidar com alguma delas ou estão ao mesmo nível?
Não, as críticas em relação ao meu trabalho, normalmente são construtivas. Não me importo nada, não tenho que agradar a toda a gente. Não sei, eu acho que tento também não ligar muito, porque se eu começar a absorver todas essas críticas, se calhar vou ficar triste, vou ficar em loop com aquilo. Então tento afastar.
E sempre foi assim?
Sim, eu acho que nesse aspecto ouço, absorvo E agora deixa ir.
Uma espécie de catalisador, mas que sabe, no fundo, dosear aquilo que é preciso ficar também contigo.
Senão fica obsessiva.
E não queremos isso.
Não.
Joana Santos, nós já vamos falar do novo podcast Plus. Há muito para contar. Quero perceber também como é que foi narrar esta experiência, porque temos aqui só a voz. Possivelmente uma experiência nova, ter algo tão imersivo e tão bem estruturado. É já a seguir, na segunda parte. Até já. Segunda parte do "Bem 40 Minutos". Esta semana estamos com a atriz Joana Santos, que dá voz ao novo podcast Plus do Observador, "Os Fecheiros do Caso Carlos Castro". É assim que se chama este novo podcast Plus. Uma série de seis episódios de true crime. É algo que os portugueses estão a gostar cada vez mais. Tu sentes isso também?
Sinto.
Há uma espécie de sede por saber novos detalhes, novas informações sobre casos mediáticos.
Sim. É mais uma coisa importada pela América, mas que funciona muito bem. Porque este tipo de podcast, tu queres sempre tentar perceber qual é que é o passo seguinte, o que motivou a pessoa a fazer X. Não sei.
Tu, antes de receberes este projeto em mãos, já gostavas deste tipo de séries? Porque temos séries, temos livros, temos podcasts também dedicados a isso. Já era algo que tu consumias?
True crime?
Sim.
Nem por isso. Eu sou muito maricas.
Então quais são os gêneros que tu gostas?
Eu fico a pensar muito nas coisas. Por exemplo, filmes de terror, raramente vejo. É muito engraçado, porque ao mesmo tempo é aquela coisa, não vou ver, mas por exemplo, se o meu marido já estiver a ver um filme de terror, eu não consigo não começar a ver.
Exato.
Mas depois estou com uma almofada à frente, super tensa, com os músculos todos tensos, e depois fico uma semana a pensar naquilo. Portanto, às vezes penso: porque é que eu me faço isto a mim própria?
Então seria um desafio enorme para ti fazer um filme desse gênero.
É engraçado, porque também já pensei nisso. Adorava.
Mas ia ser diferente na ótica, até se calhar, ia te ajudar, de certa forma, a perceber como é que funciona.
Sim, porque eu acho que é diferente.
E o susto ia ser mais real.
Eu acho que ia ao contrário. É ao contrário porque sabes que estás a interpretar alguma coisa. Quando estás a ver, estás no papel de observador. Parece que entras mais na história.
Este podcast fala de um caso muito mediático. Eu estava a dizer-te em off que é um dos casos que eu tenho sempre muita curiosidade. Lembro-me quando isto aconteceu, procurar muita informação, porque nós queremos depois sempre fazer, nós próprios, cada um à sua maneira, uma reconstituição. Tentar perceber o que levou a que isto tivesse acontecido. É um caso sensível. O que sentiste ao narrar esta história daquilo que já conhecias e para estes novos contornos que agora temos também com a ajuda de toda esta equipa que produz este podcast?
Primeiro que tudo, fiquei muito contente quando recebi este convite. Já tinha tido algumas amigas minhas, a Inês Cristina Branca, a Soraia Chaves, a Vitória Guerra, o Zé Mata, que tinham gostado muito da experiência. E quando me convidaram, fiquei: "Que fixe!" E quando soube qual era o caso, parece que foi voltar outra vez a 2010 e lembrar-me o quão mediático isto foi e o quanto isto chocou muitas pessoas.
Porque esta é uma daquelas histórias que, se calhar de todas do podcast Plus, umas estão mais presentes do que outras na vida das pessoas, mas esta marcou muito, talvez por ser um crime também feito fora de Portugal.
Com portugueses.
Com portugueses. E uma situação que não se esperava. Alegadamente, havia uma relação saudável entre os dois, ainda que houvessem relatos, e nós temos isso no podcast, mas chocou o país e até a própria América.
Sim, exato. Eu tinha um amigo meu que estava nessa altura a viver em Nova York e lembra-se de passar em frente ao Intercontinental e aquelas faixas da polícia, tipo: "O que aconteceu aqui?" E de repente: "Ui, portugueses? Um crime de português aqui? O que é isto?" Ainda me lembro que na altura chocou-me muito, e era isso que tu estavas a dizer. Fui à procura na altura também de alguma informação, mas achei que era tudo muito confuso. Porque as revistas cor-de-rosa davam umas notícias, os jornais iam dar outra. E como não é habitual isto acontecer em Portugal ou com portugueses, acho que foi esmiuçar o caso até ao tutano, mas ficou muito confuso. O que eu acho que este podcast faz? Conta-nos a história De uma forma organizada. Acho que o trabalho que a Tânia fez é incrível.
Tânia Pereirinha.
Exatamente. Porque ao mesmo tempo viajamos ao passado do Renato, da família dele, de como é que eles se conheceram, e vamos viajando entre esse passado e os acontecimentos quando aconteceu o crime.
Sim.
Eu acho que está muito bem organizado o podcast, porque é quase como, por exemplo, quando o Renato apanha o táxi para ir para o hospital. Nós, como ouvintes, eu acho que nós conseguimos quase entrar, é como se estivéssemos ali com ele. Não sei, é um caso que é difícil falar sobre isto.
Sim, porque estamos a falar aqui de-
É uma coisa muito sensível, realmente, é um homicídio
É algo que implica aqui também perceber todos os pontos e aquilo que levou até isto, e isso é muito importante, aquilo que tu disseste. Faltava, se calhar, mais contextualização da parte do Renato Seabra, perceber, no fundo, as origens e o que levou até chegarmos a este ponto. E se calhar, ainda vamos ter, com certeza, pessoas que ao ouvir o podcast vão ter diferentes percepções daquilo que aconteceu e da realidade. É isso que também é mágico, não é?
Pois é isso, lá está.
Cada um tira a sua interpretação.
Sim, as interpretações e as opiniões de cada um. O que é certo é que o que aconteceu naquele quarto, só eles é que, pronto, uma pessoa já não pode falar sobre isso. E o Renato assumiu, mas agora o que o levou a fazer isso é complicado. Acho que nunca vamos perceber, porque o rapaz teve um surto psicótico, provavelmente. Teve.
Exato. É um tema muito sensível.
É muito sensível.
Ia-te perguntar, narrar um podcast. Eu sei que tu já fizeste dobragens.
Mas é diferente.
É diferente. Aqui só tens a tua voz e enquanto, por exemplo, numa dobragem, corrige-me se eu estiver errado, tu tens a imagem à tua frente.
Tenho a imagem e normalmente já tenho a música.
E consegues ver as reações.
Já tenho a música também. Então, aí acaba por ser diferente porque vais atrás do tom da música.
É mais fácil de te encontrares.
Sim. Aqui, a Tânia e o João, as indicações que eles me deram, imagina, eu estava a tentar fazer uma voz mais grave.
Eu acho que é sempre essa a tendência das pessoas com quem falo aqui, é tentar dar um tom mais de dramatismo, não é?
Exato, sim. E eles: "Não, Joana, tenta uma coisa mais leve". E eu na altura fiquei: "Mais leve? Então, mas isto é uma coisa tão pesada". Claro, faz todo sentido, isto já é um tema tão duro, tão pesado, que se calhar uma voz mais calma e mais leve, faz um contraponto.
E foi difícil encontrar esse tom, porque estás muito habituada à questão da representação, quer seja televisão, cinema. É difícil encontrar aquela cadência certa.
Foi difícil, até porque-
Estamos a falar aqui de muitas horas de gravação. Eu passava por aqui às vezes nos estúdios e a Joana ficava lá bastantes horas. Ia almoçar, claro, mas depois voltava.
Sim, foi difícil, até porque eu tive que acabar por dar um tom mais neutro. Se eu estivesse a interpretar completamente a narração, era diferente. Por exemplo, com descrições, a ler frases da mãe do Renato, aquilo toca-te, tu ficas sensibilizado.
É uma mãe.
É uma mãe. Se ficas sensibilizado a ler aquilo. E ao mesmo tempo tens que, estás a ser profissional, e tens que dar um tom neutro, até nas descrições daquilo que se vê no quarto. Tive que encontrar aqui, respirar fundo e dar um tom neutro. O contraponto foi o ambiente. O ambiente naquele estúdio com a Tânia, com o Bernardo e com o João, foi incrível, mesmo. Eu fiquei com vontade de ficar aqui a trabalhar mais tempo.
Pois, é o que todos dizem.
Sim.
O João Santos Duarte, que é o responsável aqui pelos nossos podcasts, é editor de podcasts. O Bernardo Almeida é o sonoplasta deste trabalho que participa a Joana Santos. Se tu tivesses que definir, vá, não vou ser mau, em três palavras, este projeto, quais é que seriam? Ia dizer uma, mas uma, se calhar, é pouco, não é?
A primeira que me apareceu foi desafiante.
É um dos teus maiores desafios destes últimos tempos, enquanto atriz? Se bem que aqui o papel, lá está, dizer papel de atriz é-
Aqui o desafio foi, como foram muitas horas de gravação, chegas a uma altura em que já não dizes pão.
Há bloopers? De certeza que há, pela tua cara.
Eu acho que há.
Também era interessante um dia termos acesso a esses bloopers.
Só que eu depois sentia-me muito mal quando começava a rir. Pensava: "Que horror, isto é um assunto tão sério", mas ao mesmo tempo é isso, tens que aligeirar, porque senão ficas ali com um peso. O assunto já é tão sério Então vamos dar este contraponto. Ao mesmo tempo, puxávamo-nos uns aos outros, uma animação. Quando começava a bater as 17h, eu já não conseguia dizer nada. Era complicado.
Então, desafiante.
Desafiante. Agora estão a faltar-me adjetivos.
Queres pensar sobre isso e já voltamos a isso. No final, vamos voltar a esses dois adjetivos que faltam. Este novo podcast Plus já vai no segundo episódio. Se nos está a ouvir hoje, domingo, dia 19 de abril, "Os Segredos do Caso Carlos Castro" vai no segundo episódio, narração da atriz Joana Santos, banda sonora original do Júlio Resende, que também vai estar aqui conosco no "Em 40 Minutos", já na próxima semana. É um desafio em que tu te sentes em casa e isso já é perceptível por aquilo que nos dizes. E se surgir outro convite destes, é um sim garantido.
É um sim garantido, nem penso duas vezes.
Muito bem. Tu estás há muitos anos, olhando aqui para a representação, a entrar na casa dos portugueses. E a imagem que se calhar paira no imaginário de toda a gente que te vê há muitos anos, é que tu és uma vilã.
É que eu sou má como as cobras.
És má como as cobras, é verdade. As pessoas, se calhar, na rua dizem-te isso, não é?
Não, é engraçado que as pessoas ficam a olhar para mim. E depois eu, de repente, começo a sorrir para a pessoa: "Ah, tem um sorriso tão bonito!"
Eu até gosto de sim, mas você na novela.
É, essa é a frase que eu escuto. Sim. "Você é tão mázinha, mas faz aquilo tão bem." Muito obrigada.
Fazer esse tipo de papéis, e há muitos, lembro-me perfeitamente de "Laços de Sangue", acho que fica na memória de toda a gente, mas há muitos mais. É o papel, eu não quero dizer que tu te sentes mais confortável, mas é aquele que é mais desafiante no sentido de a pessoa que eu estou a conhecer aqui não tem nada a ver com aquela Joana atriz.
Obrigada! Esse é dos melhores elogios que me podem dar. De repente, ser completamente diferente daquilo que eu sou no meu dia a dia.
E quero acreditar que não existem pessoas assim.
Não existem? Há tanto, hoje em dia.
De certa forma, não é?
Não sei, é mesmo um desafio e ao mesmo tempo podes brincar.
Porque há sempre esse lado. Nós achamos que as vilãs são muito focadas no lado mau, mas há sempre aquele lado mais ácido, que dá sempre para brincar e dar um tom mais irônico, de sarcasmo.
Sim, e depois é outra coisa também, que eu acho que cada vez mais, se faz isso também em televisão. Antigamente, se calhar, tinhas a má, era mesmo má, ponto, do início ao fim. Não, as pessoas não são só uma coisa. Eu também tento passar isso nestas personagens. Por exemplo, nos "Laços de Sangue", a Diana, coitada, ela de repente viveu uma vida, já não me lembro que idade ela tinha, isso já foi há 14 anos, mas foi quase uma vida inteira a achar que tinha uma mãe e afinal tinha outra. E aquilo mexia muito com ela. Depois os meios para atingir os fins, aí já é outra coisa. Aquela rapariga era uma psicopata.
Conhecemos isso e essa história que ainda se mantém no nosso imaginário. Tu, estando há tanto tempo nesta indústria e começaste também muito cedo, notas transformações, coisas que estão a mudar. Tu há bocadinho, e na primeira parte, falaste sobre o papel da mulher, que muitas vezes, e quando falamos de arte, é tão menosprezado, seja por críticas à forma como se vestem, como se apresentam. Há transformações que têm acontecido ao longo destes últimos 20 anos?
Sim, mas eu ao mesmo tempo, acho que realmente há muita coisa para lutar, mas se eu for falar de mim, na minha profissão, eu não ligo nenhuma, eu visto o que eu quero. Não foi sempre assim. Mas hoje em dia, visto o que eu quero.
Quando é que sentiste que não era assim?
Isso aí não tinha a ver com a profissão, aí tem mesmo a ver com o dia a dia. E mesmo assim, eu ainda sinto isso. Agora, analisando bem, às vezes sou um bocadinho impulsiva na resposta. Imagina, eu sinto que não tenho a liberdade, se calhar, de andar como eu quero. Imagina, por exemplo, eu aos 20 anos, quando comecei a sair à noite, eu usava uma T-shirt larga, umas calças largas, porque tinha medo. Se calhar, queria usar uma minissaia, mas tinha medo, porque achava que os homens, achava não, tinha a certeza, que iam olhar, ainda por cima por ser conhecida, e que ia chamar mais a atenção, e eu não queria essa atenção sobre mim. E hoje em dia, se calhar, se quero sair à noite como eu quero, vou, mas se estiver sozinha. Outro exemplo: estava a ensaiar um espetáculo o ano passado e saí à meia-noite, era ali nos primeiros sintomas, na Graça. Saí da Graça para Alcântara à meia-noite. Estacionei o carro Meia-noite e meia. Eu tinha medo. Isto é horrível. Tinha medo e pedia ao meu marido: "Olha, quando estacionar o carro, vou te ligar e vou ao telefone". Mas por que hoje, ainda tenho que me preocupar com isto? Com medo de ser assediada por alguém, por um homem. É triste.
Tu falavas aí desse episódio. Foi nos primeiros anos, quando começaste a aparecer. Essa questão da sexualização ainda te assusta ou, como dizias, foi mais uma questão dos primeiros tempos? A questão é que hoje, por exemplo, voltamos outra vez ao velho assunto das redes sociais, é muito fácil termos acesso a tudo. E a tudo ser motivo de comentários. O que eu te queria perguntar é se essa sexualização da imagem da mulher sofreu alterações, está hoje mais aprofundada no sentido de ser cada vez mais explorada? O que tu sentes também dentro da própria indústria e daquilo que o meio transparece? Eu sinto muito que tu sempre fugiste a isso e sempre deste a volta a isso.
Sim, porque eu comecei como modelo. Então sempre quis marcar uma posição de: eu não sou só um corpo, nem sou só uma cara bonita. Eu consigo ser muitas coisas. Consigo, sim. Consigo ser a mulher sexy e isso tudo, mas também consigo ser o outro lado. E eu acho que porem-nos em gavetas, é a pior coisa que nos podem fazer. Sempre tentei fugir um bocadinho a isso. Agora, pronto, a maturidade também nos faz alguma coisa e faz-nos pensar de maneira diferente. Mas quando comecei, era um preconceito. Deixa eu ver se consigo explicar. Eu punha a mim própria este preconceito, raramente senti de outras pessoas. O facto de eu não ter ido para o conservatório, era modelo e fui fazer um casting e fico com aquele papel. Provavelmente, não era porque eu era uma grande atriz. É porque tinha realmente uma carinha bonita.
Tu sentias isso?
Senti. Sim, eu fui fazer um casting. Lá está, eu já estou aqui a pensar que foi só por causa da cara bonita. Provavelmente não foi só isso, mas na altura, provavelmente, foi isso. Então eu achei que tinha que provar que eu não era só isso. E que o facto de não ter ido estudar, que eu também conseguia. Agora estão-me a faltar as palavras. Mas foi uma altura difícil pra mim, porque eu fugia muito a entrevistas. Imagina, sequer nem fazia workshops, isto era ridículo. Achava que não tinha o direito.
De estar ali.
Sim. Como não tinha. "Eu não estive a estudar, eu não estudei teatro, então eu não tenho o direito. E se eu for pra lá, a maior parte vão ser atores que estudaram na escola de teatro." E era horrível pra mim.
Ou seja, tu sentias-te sempre em constante avaliação dos outros àquilo que tu fazias.
Sim, mas isto eram coisas da minha cabeça. Eu tenho uma síndrome do impostor. Eu tenho que lutar muito contra isto, porque ainda hoje em dia. Por exemplo, quando fiz o casting do "Unfalling".
Que foi numa altura difícil.
Estive quase pra não fazer, porque achava que não ia conseguir. E foi o meu marido, o Simão Caetano, que disse: "Não, Joana, vamos lá, tu consegues fazer isto." "Não, não, não vou." E ainda bem que tenho pessoas que acreditam em mim. Sim, às vezes tenho um bocadinho de falta de confiança. Um bocadinho.
E para os outros? És a primeira pessoa a estar na fila da frente e a incentivá-los a ir?
Completamente, sim. É isso, às vezes damos muito aos outros e às vezes esquecemos de nós.
Tu esqueceste de ti em alguma parte? Não digo de cuidar, talvez de cuidar, sim. Não digo cuidar da tua imagem, não é isso, mas até mesmo de te valorizar mais, de reconhecer. Estamos aqui a falar com uma atriz com mais de 20 anos e que tu já fizeste imensos papéis de protagonista. Ou seja, há essa valorização de quem te escolhe pra ali e do público. Não digo que seja consensual, aliás, ser consensual é uma seca.
Sim.
Há sempre opiniões, mas há, de facto, essa valorização.
Sim, eu nestas alturas em que a síndrome do impostor aparece, eu fico: "Joana, vamos lá ver uma coisa. Tens quase 20 anos de carreira, já provaste muita coisa, já fizeste muitos papéis em televisão, cinema, teatro. Então para com estas coisas. Valoriza-te." Sim. Tento agarrar-me a isso.
É a sua boia, não é?
Sim.
O que tu te orgulhas mais de ter construído ao longo destes últimos quase 20 anos, neste trajeto? Porque é muito rico. Tu falas de teatro, televisão, cinema e tu consegues ir a todos os gêneros e fazer tudo. Não digo ao mesmo tempo, mas consegues te desdobrar nessas artes todas, vamos chamar assim, e impor sempre a tua essência. É isso que tu te orgulhas de carregar?
Sim, porque vendo bem, quando começo a fazer esta análise, fiz uma novela na SIC que se chamava "Amor, Amor", em que era uma cantora romântica. E de repente, estou a fazer um espetáculo com a Mónica Calle, as cartografias, não sei se sabes desse espetáculo.
Sim.
E de repente eu vou fazer o "Unfalling". Isto é espetacular.
Tudo com camadas completamente diferentes, não é?
Completamente diferentes. E consigo. Portanto, Joana, estás de parabéns.
Foi um exercício, Joana Santos. Foi um exercício este que fizemos aqui agora.
Sim.
Pensa-se muito, e acho que um ator pensa muito nisto, se calhar, numa parte da sua vida, a questão de voar. Internacionalização.
Sim.
Temos casos que conhecemos. Se calhar agora vou ser injusto, porque vou dizer alguns nomes e vou me esquecer de outros. Mas a Daniela Ruah, a Daniela Melchior.
A Alba.
A Alba Baptista, o Joaquim de Almeida, temos muitos casos desses. Portugal é suficiente para ti ou ainda há esse desejo de um dia voar mais alto?
Ainda bem que me perguntas isso, porque há uns tempos eu fui fazer uma conversa a uma FNAC com o José Paiva. Foi na FNAC de Alfragide. Agora estou me a lembrar. Não tivemos ninguém. Isto foi um bocadinho... Mas é isto, as pessoas não aparecem nestas situações. Ainda por cima foi na FNAC de Alfragide, foi estranho e ao mesmo tempo foi: "Olha, vamos continuar com a conversa, a conversa vai estar filmada." Estava eu, o Edgar Medina, como produtor, e o Pedro Cabreira, o realizador do "Entroncamento". E o José Paiva faz-me a pergunta mais ou menos como a tua: "Agora fizeste o 'Unfalling', projetos internacionais." E eu às tantas disse: "Ainda não me sinto preparada." E lá está, às vezes é esta minha impulsividade na resposta, fico mais nervosa e respondo a primeira coisa que me aparece na cabeça. E tenho que ter calma, respirar fundo. Não é bem assim. Imagina, eu fiz o "Unfalling" e voltei para Portugal. E depois eu sou mãe, eu tenho duas crianças. Eu tenho que pensar aí, não posso ser impulsiva. Eu tenho que pensar muito bem se vale a pena, se não vale. Claro que se me aparecer uma proposta novamente para fazer um filme. Imagina, eu com o "Unfalling" estive dois meses fora. E conversei muito com o meu marido se fazia sentido ou não eles irem ter comigo. E achei que não. Custou-me horrores tomar essa decisão, mas achei que isto era uma oportunidade tão grande, era uma responsabilidade tão grande que eu tinha em mãos, porque eu entrava da primeira à última cena do filme. Não há uma única cena em que eu não entre. E eu tinha que estar completamente focada. Era a minha bolha. E se os meus filhos aparecessem ali, iam furar essa bolha e o meu foco ia virar para eles.
A tua energia já ia ser diferente.
Exatamente. Então fizemos videochamadas, que também tentei não fazer tantas, porque é muito difícil o adeus. Então tentei fazer mais chamadas normais, que era como fazíamos antigamente. Mas houve uma videochamada em que eles estavam mais tristinhos e eu tentei passar-lhes uma mensagem positiva, que foi: "Eu estou feliz, a mãe está tão feliz, eu estou a fazer aquilo que eu gosto." E eu lembro-me dos olhinhos deles, muito focados, a dizerem que sim com a cabeça. E é isto. Eu quero que eles saibam que eu sou feliz a fazer aquilo na minha profissão, a fazer aquilo que eu gosto. Eu acho que é mesmo importante também passarmos essa mensagem.
E acima de tudo, o ideal de felicidade, não é? Eles perceberem que a mãe está feliz.
Embora tenha muitas saudades, eu estou feliz aqui a fazer aquilo que eu gosto. E vamos falando e quando chegar vamos estar juntos. E tentar passar essa mensagem positiva. Mas imagina, se agora me chamassem para um outro filme em que tivesse que estar mais tempo fora, aí eles só iriam ter comigo. Mas aí tenho que pôr na balança e ver os prós e os contras. Porque lá está, não tenho 20 anos e agora tenho uma família e não de repente: "Ok, agora vou me embora, tchau."
E há sempre aquela sensação de que estamos a perder uma parte, como eles são tão pequeninos ainda. Há partes tão importantes nesta fase que sente sempre, se calhar: "Ai, se calhar estou a perder aqui."
Exatamente. Sim. E eu tento gerir muito bem isso. Eu ano passado estava a fazer uma novela, fiz uma participação num filme, então as férias de verão, basicamente, tive muito pouco tempo com eles. Sempre que podia, um fim de semana, ia ter com eles. Pronto, não estive tão presente. Acabei a novela em novembro e foi a dedicação total. E vou gerindo.
Voltamos aos dois adjetivos. Podcast+. Não me esqueci. Já disseste desafiante.
Desafiante.
Faltam mais dois.
É porque desafiante é mesmo aquela palavra.
Podemos ficar com essa. Se achas que é o que resume a experiência. Podemos ficar com essa.
É, porque é desafiante a vários níveis. O encontrar o tom, o desafio por ser este podcast, sobre o tema. É um desafio a vários níveis.
Vou deixar passar. Não sei se os nossos ouvintes, não, mas eles vão deixar.
Os ouvintes que vamos fazer um
Um jogo.
Um jogo. Eles têm que dar um.
Exato. É isso mesmo. Fazemos o jogo inverso com eles.
Exato.
Eles vão gostar. Aos 40, o que é que ainda te assusta fazer?
O que é que me assusta fazer? Imagina, às vezes sou impulsiva quando falo, mas no trabalho não sou assim tão impulsiva. Tendo de ver se faz sentido ou não. Falta-me fazer comédia. É isso.
No amor, já fizeste um bocadinho.
Não, a minha personagem era muito-
Mas estando no registo cómico, não te sentiste mais abraçada por esse género?
Não, porque ela era a cantora romântica dramática.
Sim.
Era toda cheia de brilhos, mas ela não era muito cómica.
Uhum.
Não. O Ricardo Pereira tinha mais essa vertente. Mas agora gostava de fazer um papel cómico.
Seria interessante.
Não é? Eu acho que é muito difícil fazer alguém rir.
Nós achamos que é fácil.
Não é. É muito mais fácil pôr alguém a chorar, a meu ver, atenção. Mas acho que é mais fácil pôr alguém a chorar do que pôr alguém a rir.
Uhum. Porque às vezes não vai tanto, não quero menosprezar aqui, mas pela escrita, mas sim pela forma, até pela própria personalidade de quem está a interpretar, não é?
Sim. Ter tempos de comédia não é para qualquer um.
Uhum. Ter esse palco.
Sim. Também se trabalha.
Claro.
Mas acho que é um dom.
Também acho que sim. Podemos ouvir-te nos ficheiros do caso Carlos Castro, que já vai no segundo episódio. Além disso, onde é que te podemos ver agora? Projetos futuros, coisas que nos tenhas para contar.
Agora vão poder ver em teatro.
Uhum.
Vou fazer um espetáculo com o Mickael Oliveira, que se chama "Promised Valley and Conference Center".
Uhum.
Vamos começar a ensaiar em agosto e estreamos em setembro, ainda não sei as datas exatas.
Sim.
Mas depois, entretanto, hei de partilhar.
Redes sociais são boas nesse sentido, não é?
Exatamente.
É uma boa utilidade.
Sim. E depois vou começar a ensaiar outro espetáculo em outubro, com o Nuno M. Cardoso, mas ainda não posso falar muito sobre isso.
Ok.
Mas vai ser mais dedicado a teatro.
Boa. E para quem ainda não viu o "On Falling", é ver, porque é um dos papéis da tua vida?
Sim. Fez-me crescer muito.
Uhum.
Foi incrível.
Uhum.
E na altura eu não sabia. Eu quando fiz o casting, eu não fazia ideia.
Da densidade?
Da densidade. Não fazia ideia que produtora inglesa é que estava por trás.
Uhum.
Foi só quando já estava com o guião na mão e estava com o meu marido na cozinha, a dizer: "Eu não acredito que fiz." E ele: "Deixa-me lá ver isso." E diz: "Joana, tu tens noção que produtora inglesa é esta? Sixteen Films? A produtora do Ken Loach." E eu: "Não pode ser." Eu não estava a acreditar. Ainda bem que eu não tinha consciência disso enquanto estava a fazer o casting, porque se calhar podia ter-
Tirou a responsabilidade do ombro, não é?
Tirou-me uma responsabilidade. Exatamente. Sim.
Para terminar, Joana Santos, o que é que te inquieta?
O que é que me inquieta? Olha, os tempos em que vivemos.
Os tempos modernos.
Os tempos modernos.
Mas diferentes.
Exatamente. Sim. Porque vemos tanta coisa má acontecer. Lá está, é aquilo que também estávamos a falar há bocado, há tanta informação, que ao mesmo tempo é bom, mas também saber filtrá-la.
Hoje em dia é uma qualidade.
Exato. Sim. Mas sim, é isso, é estes tempos em que vivemos. Inquieta-me um bocadinho e tento ser otimista, mas às vezes é difícil. Sim.
É um exercício diário, quase.
É, exatamente.
Joana Santos, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos".
Obrigada eu.
É a narradora do novo podcast+ do Observador, os ficheiros do caso Carlos Castro. Na próxima semana recebemos quem idealizou a banda sonora. Vamos também perceber os bastidores, como é que tudo isto funciona. Sabemos que o Júlio Reis não é uma pessoa que gosta muito, ou seja, a temática não o deixou assim muito contente, mas vamos perceber ainda melhor como é que tudo isto funciona.
Mas está incrível a banda sonora.
Está muito boa. A banda sonora está incrível e a narração também. Joana Santos, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. És sempre bem-vinda.