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Ribatejana de gema, dizem que não tem papas na língua. Quis ser veterinária e advogada, estudou num colégio de freiras em Fátima, mas foi poucas vezes ao santuário. Apareceu muitas vezes nos ecrãs da televisão dos portugueses a cantar, a dançar, mas principalmente a representar. Das "Chiquititas" ao "Aqui não há quem viva", até ao "Projeto Alma". Hoje recebemos a atriz, cantora e muitas outras coisas: Marta Fernandes, em "40 Minutos". Bem-vinda.

Bem-vinda, Marta. Marta Fernandes e Kuma também.

E Kuma. Para quem está a ver esta entrevista no YouTube, espero que estejam, porque estão aqui a ver uma coisinha muito fofinha, uma bolinha de pelo, que é a Kuma.

É uma cadela. Para quem ainda estava

Uma cadela. A Marta é amorosa. Marta, eu não aguento, não dá, este peluchozinho aqui ao teu lado.

Muito fofinho.

Bem, primeiro que nada, bom dia, muito obrigada.

Obrigada nós por estares aqui.

No teatro costumamos dizer que nós, atores, nunca vamos conseguir competir com um animal e uma criança em cima do palco, porque eles capturam a atenção de toda a gente.

E comprova-se. Mas olha, Marta, nós quase que podíamos aqui resumir-te de outra forma mais simples. Uma atriz que canta bem, que marcou uma geração, que na ficção foi uma divertida ama de um grupo de crianças. Podemos resumir-te como a Mary Poppins portuguesa.

Olha, é um bocadinho. Na verdade, aquela série era inspirada nessa história da Mary Poppins, que na verdade é uma história que além de ser universal, percorre todas-- Isto já está aqui a fazer barulho.

A mesa não .

Eu fui avisada, mas estou aqui .

Não, mas é difícil.

É do entusiasmo, a pessoa depois toca na mesa e levanta o animal.

É uma história que já atravessou várias gerações. Essa história de que há uma mulher boa, com instinto maternal. Na verdade, eu acho que é o que nós todos gostaríamos que acontecesse na realidade. Que as crianças órfãs fossem todas salvas por alguém ou por muitas pessoas que as tirassem daquela situação. Portanto, eu acho que é um imaginário que vai sempre fazer parte dos nossos sonhos. E funciona sempre.

Provou que funcionou e que voltou a funcionar.

Isto é um produto argentino, é uma realidade um bocadinho diferente da nossa. A América Latina, especificamente a Argentina, mas a adaptação foi um bocadinho assustador e até um bocadinho preocupante, porque nós não sabíamos, de facto, elenco, se aquilo iria ser bem recebido, porque era uma linguagem tão diferente de tudo o que se fazia na televisão ou que já se tinha feito na televisão e que se fez, porque nunca mais se fez nada daquele gênero, que nós andamos um bocadinho assim às aranhas pra perceber que registro era aquele. Que forma de representar era aquela, que linguagem era aquela, até que finalmente conseguimos encontrar a nossa própria, muito inspirada no original, mas muito à portuguesa. Tentámos adaptar à nossa realidade e acabou por ser a mesma coisa excêntrica, mas dentro da nossa realidade portuguesa.

Mas tu falavas ali e estávamos a dizer que podias ser a Mary Poppins portuguesa. Tu também, já em várias entrevistas, disseste que gostas dos clássicos do cinema, da música também. Esses clássicos também, "Mary Poppins", "Música no Coração", Julie Andrews e toda essa geração, isso também te marcou, inspirou-te, pelo menos?

Muito.

Até porque és uma atriz quase musical, não é?

Sim.

Musical mesmo.

Sim, eu faço muitos musicais e acabei por trabalhar muito nos últimos anos nesse sentido de aperfeiçoar as três valências. Mas eu costumo dizer que sou uma alma antiga, porque de facto eu tenho uma ligação principalmente com os anos 50. Eu adoro tudo que é cinema, música dos anos 50.

Por algum motivo em particular?

Olha, primeiro porque eu acho que as mulheres eram todas lindas. Acho que eram todas muito delicadas e ao mesmo tempo muito corajosas, muito fortes. Tinham um olhar muito forte e penetrante. Eu acho sempre isso extraordinário no cinema, principalmente. O olhar das atrizes era sempre incrível. Os atores também, mas os atores não me convenciavam tanto . Não sei, havia ali qualquer coisa.

Eram mais as atrizes.

Não sei, eu achava sempre que aquele olhar de matador era um bocado too much. Mas nas mulheres, não, aquilo era lindo, havia ali uma verdade naquele olhar, sempre. A forma como elas posicionavam o rosto, o pescoço. Sou uma romântica. E sempre me fascinou muito. E a música é incrível. E os grandes musicais da Broadway, do West End, em Londres, desse período, e de Hollywood, do cinema mesmo. Fascinam.

E tu tens algum filme predileto, preferido, de infância? Algum que te tenha marcado na altura em que ainda estavas em Alcântara?

Olha, lembro-me muito, "E Tudo o Vento Levou", aquilo blew-me de uma maneira. Assim, de todas as formas, gostei muito e ao mesmo tempo odiei, tinha medo.

Gostei muito e ao mesmo tempo horrível.

Tinha muito medo, aquilo assustava-me imenso, mas ao mesmo tempo era tão lindo e tão romântico. A banda sonora era extraordinária. A luz, a fotografia, que na altura eu não fazia ideia o que era, só via que eram coisas bonitas. Ambientes muito lindos, o ambiente daquela casa. Tudo aquilo me fascinava e ao mesmo tempo me assustava muito e ficou marcado, esse filme ficou marcado para sempre.

Então vamos à infância. Tu nasceste em Santarém.

Sim, pois é. É verdade.

Lembrei-te agora.

Surpresa, Marta.

É que eu acho que só lá fui nascer.

Foste logo para Alcanena, não é?

E raramente lá fui. Santarém é o mesmo que aquele sítio para mim.

Foi só a maternidade.

Fui só lá nascer.

Depois foste viver para Fátima.

Sim, primeiro Alcanena, depois fui para Fátima.

E estudaste no Colégio do Sagrado Coração de Maria, que é um colégio de freiras. Como é que foi esta experiência?

Pelo riso da Marta.

Acho que é horrível de responder.

Foi tão bom, que namorei com o tipo mais terrível que passou pelas freiras lá pelo colégio. Foi de tal maneira que ele escreveu, acho que ninguém mais nunca fez, nem tinham feito até então. Já nem sei o que foi, sinceramente, já não me lembro, não estou a mentir, não me lembro mesmo. Mas ele escreveu de madrugada, fez um grafite nas paredes do colégio das freiras, que foi um escândalo.

Mas a dizer antes Marta?

Não, nada a ver comigo. Eram coisas assim mais de uma revolta qualquer, que ele era uma pessoa muito revoltada. Mas pronto, olha, foste aquele que eu escolhi.

Escolheste a dedo.

Sim, escolheste a dedo. Mas tu na altura eras religiosa?

Eu tive uma formação católica, minha família é toda católica, minha mãe era praticante e era uma pessoa com uma espiritualidade imensa, que ultrapassava os limites da religião, tem a ver mesmo com espiritualidade. E fui educada assim. Fiz o crisma e ia à missa todos os domingos até completar o crisma. Andei em um grupo de jovens, que foi muito importante para mim e para a minha formação na igreja. Nessa altura eu era uma adolescente, eu não pensava nisso. E eu fui para o colégio porque a minha mãe confiava muito, era uma boa escola naquela altura, e porque como ela dava aulas em Fátima, tivemos que mudar todos, foi uma questão de logística, e acabei por ir para ali. Não havia muitas alternativas em Fátima naquela altura. E elas eram amorosas. Eu gostei muito daqueles tempos que passei lá. Só que pronto, tive esta situação, foi um bocadinho constrangedora.

Com o namorado do grafite.

A minha mãe ficou, imaginem a vergonha. Eu era uma querida e era boa aluna e tudo, e as freiras gostavam de mim.

E namoravas com o rebelde.

Só que escolhi a pior peça que havia.

Mas olha, esta altura, achas que esta experiência teve um impacto em ti, para o resto da tua vida? Tu hoje em dia consideras-te uma pessoa crente, com fé em alguma coisa?

Eu tenho muita fé. Eu tenho desenvolvido a minha espiritualidade a cada ano que passa, faço um investimento mesmo nesse sentido. Educo-me para isso e pratico a minha espiritualidade, não necessariamente a religião. Mas sinto, por exemplo, uma atração muito grande por locais de culto, seja igrejas, seja mesquitas.

Apesar de não teres entrado muitas vezes no Santuário de Fátima, não foi, enquanto estiveste lá?

Não, eu cruzava-o para ir para casa, mas desprezava um bocadinho aquela. Já voltei lá mais vezes com espírito de fé.

Outra maturidade também, não é?

Sim, do que naquela altura. Estava ali ao pé de casa, desvalorizava-se um bocadito. Eu ia muito lá antes de viver em Fátima e voltei a ir lá muito depois de viver lá. Mas durante aquele período, passou a ser uma coisa normal. Mas eu confessava-me no santuário, que era uma coisa extraordinária. Já não fazem confissões mesmo na basílica, mas quando eu era adolescente faziam e aquilo para mim era um acontecimento. Primeiro porque o padre não me conhecia, o que era ótimo. Em Alcanena conheciam-me. E depois porque era um confessionário a sério e era um ambiente. Eu gosto muito do ambiente das igrejas e entro em todas por onde passo. Em qualquer sítio do mundo, entro. Entro e sento-me e penso. E penso e peço.

E como é que nesse, vamos dizer, meio mais conservador, pelo menos normalmente a ideia que nós temos de um colégio de freiras, algo desse gênero, é um meio mais fechado, mais conservador. Como é que de repente nasce aí uma luz tão progressista e tão liberal como são as artes, como é a música, a representação? Como é que foi também crescer essa paixão nesse meio?

Eu sempre dancei, a minha mãe pôs-me na dança desde muito pequenina, portanto, eu subia aos palcos pelo menos três vezes por ano, todos os anos, e eu adorava a sensação. Mas eu acho que tem a ver com a minha personalidade, porque eu de facto sempre fui muito, é uma mistura de, isto vale o que vale, eu nem acredito muito, mas pronto, para quem gosta de signos, isto pode explicar muita coisa. Eu sou do signo Escorpião, com ascendente em Leão. Eu sou muito introspectiva, mas ao mesmo tempo também sou muito comunicativa e sou muito exuberante. Então eu acho que tem a ver com o eu social que fui desenvolvendo e que me permite ter esta atividade, que é uma atividade ligada ao público, de comunicação. Exibicionismo, que todos os atores são, de certa forma, um bocadinho exibicionistas, no sentido em que nós temos que pôr cá para fora através do corpo, através da palavra, através da expressão. Mas ao mesmo tempo sou muito intimista e sou muito ligada ao lado mais obscuro e mais isolado da nossa existência. Então eu acho que isso fez com que eu fosse intimamente percebendo que eu queria muito utilizar a arte como forma de comunicação. E eu conseguia perceber sempre o lado mais escondido das coisas. E adorava, e ainda hoje gosto, eu adoro. Para mim é absolutamente fascinante, por exemplo, estudar personagens e estudar pessoas também. Eu gosto do que não se vê, do que está escondido pela carapaça. Mas ao mesmo tempo gosto de estar em público. Portanto, eu acho que foi a combinação perfeita e acabou por se desenvolver muito naturalmente na minha vida. E eu tinha 15 anos quando tive que optar por uma área. E nessa altura tive a sorte, mudei de escola, saí do Colégio das Freiras e fui para o Centro de Estudos de Fátima. E aí eles ofereciam a opção da variante de artes, agrupamento de artes com variante de oficina de expressão dramática, que tinha teatro e dança.

Não era muito comum?

Não. Houve escolas piloto que fizeram a experiência nessa altura e eles foram uma das escolas que fizeram. E eu achei que era a oportunidade. Eu estava: "Isso, teatro e dança é o que eu quero". E tive um professor de teatro que era muito ativo e que tinha muitas ideias e nos pôs a trabalhar muito. E eu tinha uma professora de História da Arte que era uma mulher extraordinária, a professora Anabela, que nos levou a todo lado em nome da arte, de ver coisas, de assistir, de absorver. E aquilo para mim foi muito inspirador. Ela foi uma das pessoas responsáveis. E eu fui ficando cada vez mais fascinada por este universo das artes. E pronto.

E o resto é história.

E pronto, e depois fui para a escola superior no Porto.

Mas olha, Marta, a advocacia e a veterinária ficaram pelo caminho.

Olha, ficaram.

Porque eu ouvi-me dizer aqui numa entrevista que tu, algures pelo caminho, querias ser advogada, querias ser veterinária, e depois olha.

A parte da veterinária ficou mais ou menos mais acentuada.

Adoro bichos e continuo a adorar.

A advocacia.

Olha, sou uma pessoa extremamente justa, continuo a ser até hoje.

Pronto, vai ficar aí esse pontinho.

Sim, é verdade, sou mesmo muito justa. E gosto de pessoas com sentido de justiça. E para mim justiça não significa que tem que estar tudo certo. Eu acredito no equilíbrio. Às vezes a minha filha diz: "Mãe, a vida não é justa". Eu disse: "Não é, isso é que é incrível, é que a vida não é justa. E temos que ser nós a encontrar a forma mais justa de viver, porque isto não é, de facto, justo. Se fosse justo, não havia crianças a sofrerem, nem animais que são indefensivos, nem adultos. Mas são mais responsáveis pelas suas..." Exato, o livre-arbítrio é uma coisa extraordinária, que os animais muitas vezes não têm. Os que estão acorrentados, por exemplo, não têm a hipótese de escolher. E as crianças também ainda não sabem, muitas vezes, optar. Portanto, se fosse justo, essas crianças não sofriam. Portanto, não é justo. Nós é que temos que encontrar a forma mais justa.

Portanto, por muito que não tenhas sido advogada, continuas com o sentido de justiça muito pronto.

Sim, mas eu acho que queria ser advogada, sabes por quê? Agora que penso. Porque eu adorava as séries americanas.

Nunca fizeste papel de advogada numa série?

Nunca.

Fica aqui o apelo.

Exato, por favor. Ainda me convidam para fazer aquilo lá dos juízes, não é? Um programa qualquer. Imagina, fazer um revival.

Está decidido.

Pronto, com Marta Fernandes, acho que sim. Olha, entretanto, por falar em papéis, nós temos aqui uma dúvida para ti, porque tu vais para o Porto, tiras a licenciatura em Estudos Teatrais entre 97 e 2002, e aí pelo meio, isto é o que diz o teu currículo. Tens a tua primeira experiência de representação no cinema, mas há aqui um mistério, que é: o teu currículo diz que essa primeira experiência foi em 2000 com o filme "Aysatu", de Khadija Mbalo.

Mbalo.

Muito bem, atriz.

Só que nós pesquisamos ao máximo e não encontramos nada. O que foi este "Aysatu"?

Onde é que isto está? Foi um projeto de final de curso.

Bem que nós podíamos pesquisar.

Ela era uma aluna de cinema, não lembro qual era a escola, e era um projeto de final de curso, portanto, provavelmente está nos registros da escola.

Mas era mais uma curta?

Era uma curta.

Nós tentamos ao máximo encontrar isto e sempre que pesquisávamos o nome, só aparecia Marta Fernandes. Ok, já sabemos que a Marta Fernandes está.

Não sei o que é feito dessa miúda, que por acaso era extremamente talentosa. E o filme era muito interessante, tinha um argumento bem interessante, mas deve estar nos registros da escola, provavelmente, porque isso foi um projeto de final de curso.

Estamos mais esclarecidos. Pronto. Marta, depois tu vieste...

Desculpem interromper, mas tinha sido fantástico eu ter inventado uma coisa dessas. Com um nome, não era? Assim, com um nome incrível.

Como se fosse um nome diferente.

Loucura. Kadi, como é que é? Já não me lembro.

Aysatu.

E ela chama-se Khadija, não é?

Khadija Mbalo.

Mbalo. Eu ter inventado assim uma coisa.

Sim. Mostrava já alguma criatividade.

Mas a dizer com imensa convicção, imensa confiança em nós dois.

Sim, da Marta Fernandes, claro.

Sei perfeitamente. Olha, Marta, depois tu vieste para Lisboa, ainda trabalhaste com a La Féria. Tu tens todas as características para seres uma atriz de musicais brilhante. Portanto, acredito que tenha sido um casamento fácil, esse, não foi?

Olha, o que me fez fazer o casting para a Canção de Lisboa, que foi o musical que me trouxe para Lisboa, foi precisamente querer vir para Lisboa. Eu nunca tinha visto nenhum espetáculo no Politeama do Filipe La Féria. Não tinha um apreço especial por aquela linguagem. Mas eu estava no Porto e já estava muito farta de, como nós dizemos, de fuçar, de estar à procura de trabalho. Eu fazia muito teatro, mas eu queria fazer mais do que teatro. Então fui um período pra casa da minha mãe. Estive assim num período sabático por aí de dois meses, até começar a ficar comichões por todo lado, porque eu odeio ficar parada. E foi uma coincidência, estava no café, de manhã, fui beber um café e li o jornal, o pequeno jornal que estava no café e estava um anúncio do casting. E era casting pra cantoras. E eu pensei: "Espera, se eu fizer o casting de cantora, não tenho que representar, portanto, não tenho que estar ali na linha da frente". Porque como eu não me identificava muito com a linguagem, não fazia muito sentido. Alguns preconceitos também que nós vamos ganhando com a formação superior, eu acho que depois vamos perdendo tudo com a experiência, felizmente, o preconceito vai diminuindo. Mas sim, nós somos um bocadinho formatados pra gostarmos mais de algumas coisas do que de outras. Mas até hoje continuo a gostar mais de algumas coisas do que de outras.

Claro, isso é normal.

Mas podia nem ser o caso, fui perdendo algum preconceito. Mas eu pensei nisso: "Olha, vou fazer o casting pra cantora e pode ser a minha oportunidade". E vim pra Lisboa, passei um dia inteiro, literalmente, de manhã à noite, ali numa fila, às portas do Politeama.

Parecia o Idolos.

Tal e qual. Era uma coisa impressionante. Eu nunca tinha visto nada assim. Mentira, tinha vindo a Lisboa uns anos antes para a audição. Lembram-se de uma série juvenil que houve que era o Riscos?

O Riscos, não. Atenção à nossa idade. Nós nascemos em 2000.

Não, vocês nem sequer estavam programados. Houve uma série que se chamava Riscos com a Paula Neves. Houve uma série, o elenco eram miúdos adolescentes. E eu nessa altura tinha vindo, foi pra aí 97 o casting. Tinha vindo também e tinha ficado assim surpreendida, porque nessa altura ainda vivia em Fátima, imagina. Eu nunca tinha visto tanta gente junta.

A viagem realmente foi mais curta.

Exato. Eu nunca tinha visto tanta gente junta. Exato, no santuário eu via muita gente. Mas nem isso, sabes por quê? Porque olha só, em Fátima, nos dias 12 e 13 de maio, não há escola. Era uma alegria. Então não íamos à escola nesse dia.

Agora é que eu sei disto.

Viste? Já devias ter ido a Fátima. Mas então vim fazer a audição. Fiz a audição de cantora, correu extremamente bem, eu fiquei toda feliz. Todas as audições que eu fiz e fiquei, eu fui pra casa a saber que ficava. Sempre.

Tinhas esse feeling.

Sempre, porque eu tenho uma visão muito objetiva do trabalho e eu sei quando faço uma coisa bem e sei quando faço uma coisa mal. E sou muito preto no branco, nem me vitimizo, nem sequer enalteço demasiado as minhas competências.

Tens plena consciência do que fizeste e do que fazes.

Sim, e cheguei a casa e disse à minha mãe: "Olha, eu sou capaz de ficar, eu acho que correu francamente bem". E fiquei, e fiz a temporada praticamente toda. Saí uns meses antes, porque fui fazer assistência de encenação ao Pidge num espetáculo que teve no Vilaré, da Ana Bola, um espetáculo divertidíssimo, uma comédia, chamava-se Avalanche. E saí pra isso, porque entretanto achei que já não fazia sentido estar lá tanto tempo, mas foi uma experiência muito interessante e aprendi muito. Nessa altura descobri que tinha que deixar de fumar, o que também foi uma coisa muito boa que aconteceu na minha vida.

Nunca mais fumaste?

Fumei muito pouco durante uns tempos e depois acabei por deixar passado algum tempo, porque eu cantava 17 temas. Mudava de roupa nove vezes e o meu camarim era no último piso e eram escadas. Fiquei com os glúteos, vocês não têm noção.

Só trabalhava perna.

Perna, sempre tão alto. Então, como eu cantava muito, a partir de uma certa altura, eu comecei a sentir que a minha voz, que o meu aparelho, estava a me falhar. Então decidi, foi uma decisão que tomei naquela altura. Sim, porque realmente isto quando se utiliza a voz assim a este nível, tem que se ter alguns cuidados. E eu na altura não pensava em nada, era muito miúda. Hoje eu sei, mas na altura não sabia. Mas foi aí que mudou tudo, depois vim pra Lisboa.

E o resto já vamos falar.

Exatamente. Vamos fazer aqui uma pequena pausa.

Ai, eu falo muito, não é?

Antes assim do que ao contrário. Pra nós tá ótimo.

Nem pensar.

Vamos aqui fazer uma pequena pausa. Estamos à conversa com Marta Fernandes no "40 Minutos". Até já.

Até já.

Até já. E vamos à segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Marta Fernandes. Bem-vinda novamente. Marta, deixa eu aqui dizer, tu em Lisboa escolheste o sítio perfeito pra morar, porque uns anos depois passas a dividir quarto com a Soraia Chaves, vizinha do lado do Diogo Morgado, vizinha de cima do Nicolau Breyner e Maria João Abreu, vizinha também de baixo do PP Rapazote, portanto, pontaria.

Na verdade, é um prédio que sim, senhor.

Estamos aqui a falar do Aqui Não Há Quem Viva. Voltaste a ter uma vizinhança tão boa como naquela série?

Nunca mais.

Que todos os nossos vizinhos fossem assim.

Eu tenho a certeza que nunca mais vou ter. Não é incrível?

É excelente.

Nem sei como é que eu fui, por acaso sei, eu sei perfeitamente como é que fui lá parar. Mas eu quando caí em mim De facto, esse projeto foi das coisas mais espetaculares que eu já fiz até hoje.

E do nosso lado eu adorava.

Enquanto espetadores, sim.

Adorava aquilo.

Também eu.

Adorava aquilo.

Aquilo era muito bom.

Está tudo no YouTube, já agora.

Está no YouTube?

Está tudo no YouTube.

Acho que sim. Porque até hoje as pessoas falam-me nisso. No outro dia fui ao cinema e um miúdo, que devia ser assim da vossa idade, disse-me: "Não és a Luísa?" Eu disse: "Sim, sou a Luísa."

Entre outras.

E ele: "Estou a ver tudo no YouTube! A gente junta-se lá em casa à noite e vemos juntos. Já é a terceira vez que estamos a ver."

Oh, meu Deus, que bom!

É verdade, as pessoas continuam a ver. Eu acho que aquilo está sim disponível, mas era muito bom. Aquilo era um produto extraordinário, original espanhol. Aquela série esteve no ar em Espanha mais de 18 anos. Passou por três estações de televisão.

Uau!

Impressionante.

E nós só fizemos duas temporadas, infelizmente.

Pois é, por que não teve mais?

Porque eles compraram duas e decidiram fazer duas e depois a final acabou.

Pois. Ajudou a lógica e pronto.

Foi uma escolha do diretor de programas.

Mas é que teve um mesmo imenso sucesso.

Sabes, eu acho que o que aconteceu foi que a série na altura não impactou. Acontecem estes fenómenos na televisão. E só passado alguns anos é que as pessoas, já através do YouTube, se deram conta de que aquilo era divertido. Na altura, aconteceram aqueles fenómenos.

Na altura achava divertido.

Eu ainda hoje uso frases como "Demita-se, senhor Costa." "Nós adora o senhor Costa, demita-se."

E aquele elenco?

Sim, espetacular.

Era excelente.

Não tem explicação, de facto. Para mim foi tudo bom. Eu lembro-me de sair de casa para ir gravar num x-tex. Eu chegava lá e eu sentia-me tão feliz.

Não havia aquele: "Hoje não me apetece ir."

Não, eu queria ficar lá. Nós só gravávamos três dias por semana e eu queria gravar todos os dias e dizia ao Nicolau: "Mas por que nós só gravamos três vezes?" E ele: "Calada, vem cá." Era esse mesmo: "Estou farto de ti e tu queres vir para aqui trabalhar todos os dias." E eu: "Mas eu quero, isto é tão bom!" Tive uma sorte realmente de trabalhar logo com esse elenco, o fixo e os que foram passando, que em todos os episódios havia atores convidados e eram todos espetaculares. Eu chegava lá no início da semana sempre: "Quem é que vem?" E era cada um melhor do que o outro.

Incrível.

E aquilo foi uma escola.

Só para destruir agora os sonhos e mitos, aquilo obviamente não era mesmo um prédio, não é?

Toda a gente me pergunta isso.

Este prédio, as partes exteriores, por exemplo, esse prédio não existe.

Não.

André, lamento. Tenta não verter uma lágrima agora.

Eu ia lá deixar um raminho de flores à porta.

É estúdio, é décor e cada andar é um...

É um cenário, não é?

É tudo resto show. Era muito giro, porque nós subíamos as escadas, depois tínhamos que ficar ali mais um bocadinho.

Que bom.

E até a cena acabar, demorasse o tempo que demorasse, ficávamos lá.

Sim, tinha a parte do elevadorzinho, depois as escadas.

Um vãozão de escadas, não é? Um pisozito de escadas, eram cinco mais cinco. E depois uma plataforma lá em cima e ficávamos ali à seca, um calor, à espera que a cena acabasse. E depois descíamos.

Incrível.

Depois foi...

Lamento, André.

Não, eu já estava à espera. Mas a Soraia Chaves é real e é uma mulher incrível. Ok, a Soraia Chaves já tivemos aqui.

Não, é só porque não quero destruir completamente o teu imaginário.

Não. Essa parte eu já vi ao vivo e a cores.

Já tivemos também a oportunidade de falar com a Soraia.

Aliás, devíamos reunir aqui todos.

Um revival de aquilo.

Uau, isso seria incrível.

Mas acho que seria insubstituível os papéis do Nicolau Breyner e da Maria João Abreu.

Não podíamos pôr mais ninguém a fazer aquilo.

Sim, a fazer aquele papel.

É verdade.

Olha, depois foi então o fenómeno "Chiquititas". Já aqui demos ao de leve. É uma série que marcou uma geração, a nossa geração, por exemplo. Estreou em 2007 na SIC. A pergunta que eu queria fazer em primeiro lugar é: há quanto tempo é que não te penteias com os totós?

Desde o último dia de gravações, graças a Deus.

Nunca mais?

O trauma ficou.

Era mau, era muito mau?

Tu não tens noção.

Eu não tenho, porque eu também, em termos capilares, estou com...

Para vocês terem uma ideia, eu tive que fazer um tratamento ao couro cabeludo, porque o risco da divisão do cabelo não saía.

Porque era risco ao meio, não é?

É uma ribanceira.

Era assim um bocadinho mais para o lado. E eu acordava e adormecia e passava o dia com aquilo, e estava dorido. Eu tive que fazer um tratamento ao couro cabeludo. Sim, fazer esfoliações e andei a fazer umas coisas com os vapores e a utilizar umas ampolas não sei das quantas de vitaminas. Todos os dias com aquele penteado, aquilo tinha imenso gel, puxado. Eram 12 horas, todos os dias.

12 horas só para...

Não há couro cabeludo que aguente.

E quanto tempo é que demoravas a fazer?

Olha, no início demorava um bocadinho mais, uns 40 minutos, mas depois começamos a fazer aquilo em 10 minutos.

Já era mais automático.

Sim. E havia dias em que eu tinha que fazer, tirar e voltar a fazer, porque eu fazia a personagem da Madalena.

Depois que tinha o cabelo liso para baixo.

Sim, exatamente. Então, às vezes o plano das gravações não conseguia garantir que eu fizesse só uma no mesmo dia, e eu tinha que mudar, às vezes mais do que uma vez. Fora as outras personagens todas que a Lili inventou durante a série e que eu andava sempre a ser caracterizada. De tudo e mais alguma coisa.

Cor cabeludo, não há couro cabeludo que aguente.

Se fosse hoje, acho que ficava careca, com este cabelo de quarentona já não dava.

Mas olha, está ótimo, Marta. Olha, as "Chiquititas" tiveram um alcance tremendo. Ainda hoje há páginas de fãs dedicadas à série. Qual é que foi a coisa mais louca que te aconteceu na altura?

Aconteceu-me tanta coisa.

Se as pessoas ouvirem falar contigo na rua, isso acredito que seja o nosso dia a dia.

Aconteciam coisas muito loucas. Uma vez houve uma senhora na FNAC. Porque as crianças não me conheciam.

Porque não estavas caracterizada.

Os pais chegavam, viam-me e diziam: "Olha, é a Lili, é a Chiquitita!" e os miúdos ficavam a olhar para mim.

Não é nada.

Um bocadinho desconfiados, tipo: "Quem é esta pessoa? Mas e esta conversa?" Eu nem me sentia à vontade de chegar perto deles, porque eles desconfiavam de mim.

"Quem é esta? Porque estás a dizer..."

Nem era eu que dizia, ficava caladinha. E eles falavam: "Vai lá, não vês que é ela?" Só quando eu falava é que às vezes me reconheciam pela voz. Mas houve uma mãe que obrigou o miúdo a vir ao meu colo e eu dizia: "Não, deixe lá". "Mas pegue lá, vai lá que é a Chiquitita". E ele veio ao meu colo na FNAC, no meio da loja, e começou a gritar tanto, mas a gritar, que eu fiquei a pensar: "Meu Deus, vão achar que eu estou a raptar esta criança". Porque ele gritou tanto e eu estava a dizer: "Tome, pegue". E ela: "Não, fica, não vês que é ela?"

Mas para tirar uma fotografia?

Para tirar uma fotografia.

Coitado do miúdo.

E ele a gritar-me ao ouvido, e eu: "Pronto". Eu a tentar fazer vozinha de Lili para acalmar.

Para ver se o reconhecia.

Foi tão constrangedor, até foi um bocado traumático.

Pois, acredito.

Eu nunca mais quis pegar em crianças. Eu tirava fotografias, mas não pegava neles ao colo. Até porque nem concordo com isso. Mas só tomei essa consciência depois deste evento. Nós fizemos uma sessão de autógrafos quando foi o lançamento do CD na Worten.

Já vai aperfeiçoar mais.

Tivemos quatro horas a dar autógrafos.

Quatro horas?

Fila infindável. Vocês não estão a ver. Eu cheguei a casa, eu sentia, sabe o que é ser babada dos pés à cabeça?

Os gafanhotos das pessoas.

Por quê? Porque as mães chegavam com os bebés de colo e punham os bebés no colo. Punham-nos assim: "Toma, pegue". E eu, muito inexperiente, e ainda meio abananada com aquilo tudo, recebia os bebés. Mas depois, de facto, nessa noite, eu fui para casa, tomei banho, descontraí um bocadinho e depois pus-me a refletir sobre o acontecimento, porque aquilo foi avassalador. E uma das coisas que pensei foi: não, isto não faz sentido. Eu não devo estar assim a pegar nas crianças ao colo dessa forma, até porque eles nem têm escolha.

Pois, são os pais.

E já tinha decidido que não ia acontecer, depois aconteceu essa situação na FNAC e eu decidi: acabou, não há mais colo. Querem tirar fotografias? Eu baixo, me abraço, agora colo não pego. E acho que isso foi o mais chocante durante esse processo todo. Todo o processo foi louco, porque gravar 12 horas por dia é de gente maluca. Um elenco cheio de crianças também é de loucos, é uma delícia, mas é uma loucura.

Tanto desgaste.

Crianças agora que já estão crescidas.

Adultos e já são pais.

Continuas a falar com eles?

Alguns. Tenho contacto com alguns. As redes sociais vieram facilitar muito esse contacto.

Como é que é agora esta chegada à Opto, a plataforma de streaming da SIC. Como é que reagiste também a essa novidade?

Eu fiquei muito contente, porque as pessoas pediam muito, eu recebia muitas mensagens nas redes sociais, como se eu tivesse alguma influência. Eu não tenho ligação nenhuma ao produto, prescindi dos direitos há muitos anos. Mas as pessoas pediam-me a mim pessoalmente e, por um lado, eu sentia uma certa esperança que fosse acontecer. Quando comecei a perceber que outras séries que foram postas na plataforma, pensei: talvez possa acontecer. E fiquei muito feliz e o feedback foi incrível. Ainda se repercute até hoje. Todos os dias ainda há pessoas que vêm deixar mensagens simpáticas e dizer que estão a ver. É bom, o produto é bonito, eu acho que é muito especial. Não há coisas para aquela idade na televisão.

Pois, é isso.

Mudou muito. Na altura havia a Floribela, havia as Chiquititas, havia a série de produtos.

E eu no outro dia disse isto numa entrevista e eu vou repetir, porque de facto acho que é verdade. As crianças, não os adolescentes, hoje em dia são muito empurrados para a adolescência, porque há muito poucas coisas pensadas para eles. Se nós formos a ver TikToks, Instagrams, tudo o que é disponibilizado naquelas redes é muito virado para a adolescência. A questão dos skin cares, das maquiagens, das danças, da moda, tudo é muito direcionado. Então uma menina com sete, oito anos acaba por ser licenciada a se comportar como uma adolescente de 13.

É suposto crescer mais rápido.

Faltam coisas direcionadas àquela faixa etária. E as Chiquititas é definitivamente um produto para essa faixa, entre os dois, três, quatro anos, até aos 12. Portanto, é mesmo para crianças, não para adolescentes, mas para crianças.

E numa altura em que existem tantos remakes de tanta coisa, tu aceitavas voltar a fazer Lili?

Não conseguia. Teria de ser a versão da tia Lili.

Mas por quê? Em termos de energia, achas que não?

Já não conseguia

Sim, era uma personagem muito enérgica.

Meu Deus, se era!

Eu nunca via aquilo, como devem imaginar. Eu gravava, mas não via. Nem sequer tinha tempo para ver. Mas não via. E agora, de vez em quando, identificam-me nalgumas cenas e eu vejo. Eu vejo as cenas e penso: "Menina maluca!" Eu vivia ligada à ficha, tinha uma energia e eu nunca consumi nada que me desse energia, nem vitaminas. Aquilo era tudo eu.

Mas há uma coisa engraçada, que é o teu riso, continua a ser o riso.

A esse não há como escapar.

Era tudo energia e felicidade. Eu estava muito feliz.

E fora das gravações, tu também eras essa pessoa enérgica?

Eu chegava a casa e

Estavas a sorrir.

Sentava.

A sorrir no sofá.

E o gato.

Recarregar a bateria.

Eu costumo dizer, e é verdade, eu ia a casa tomar banho, dormir e dar comida aos gatos. Tinha dois gatos naquela altura. Era o que eu ia fazer a casa. E organizar as cenas e fingir que estudava qualquer coisa, porque nem tinha tempo para estudar.

Estava assim a ler na diagonal.

Exato, as 20 cenas do dia seguinte.

Mas com tanta Lili na tua vida, obviamente, acho que isso é inegável, e já o disseste, a série tem um lugar especial no teu coração.

Sim, é inevitável.

Mas isso acontece também com muitos atores. À certa altura também não te fartaste um pouco da Lili, ou pelo menos de ficar sempre colada ao personagem?

Eu nunca me fartei da Lili, mas deixou-me constrangida e, nalguns momentos, bastante revoltada, que quem manda nas escolhas de elencos tenha durante tantos anos alegado essa situação, que eu estava muito ligada àquela personagem, que as pessoas ainda me associavam muito a um produto infantil, como se isso fosse um handicap.

Claro.

Como se isso fosse impeditivo que eu fizesse outro tipo de papéis. Isso provocou-me muito constrangimento e revoltou-me muito durante muitos anos. Revoltou-me até ao momento em que eu pensei assim: "Se calhar já inventavam outra coisa". Portanto, a partir de uma certa altura eu pensei assim: Eles dizem isto porque não sabem que mais dizer. Eles dizem isto porque não têm outra justificação. Durante muitos anos eu achei que era eu que estava errada, que eu tinha feito alguma coisa mal e isto foi um processo difícil e com algumas consequências a nível emocional. Questionei-me muito. A minha segurança fez-me questionar imensas vezes. Eu sempre fui muito segura de mim, porque eu sou muito crítica, portanto eu não me engano.

És a maior crítica a ti mesma.

Isso provoca muita segurança. E enquanto estive a fazer aquilo, eu sabia, eu estou a fazer isto muito bem. E sou uma boa profissional, e sou competente, e cumpro tudo, o produto é interessante, o produto é bonito, está bem feito, tem energia, tinha tudo o que era preciso. O público acredita, portanto, é tudo o que um produto de ficção precisa. Ficção e entretenimento. A partir de uma certa altura, quando aquilo acabou e eu comecei a perceber que havia muito pouco feedback da parte não só do canal como também das produtoras, comecei a questionar. Se calhar sou eu que fiz isto mal e estava enganada.

E como é que ultrapassaste isso?

Inicialmente, fui-me embora. Fui para Madrid uns tempos. Fui fazer formação, que eu adoro fazer formação, até hoje.

És professora também.

E sou professora, e sou aluna também, porque adoro ser aluna. Fui para Madrid uns tempos estudar e arejar. Depois voltei para cá, sofri um bocadito mais, andei aqui uns tempos a sofrer. Andar com a cabeça nas paredes, mudei de agente, porque achei que a minha agente não me estava a defender, porque quando uma agente aceita essa justificação sem ripostar, é porque de facto não é a pessoa certa para me defender. Mudei de agente, ganhei um bocadinho mais de esperança e depois decidi dedicar-me única e exclusivamente à minha carreira e fazer as coisas por mim e nunca mais esperei que me telefonassem. Foi um processo. E aceitei, porque a certa altura pensei assim: "Não vou estar a cuspir no prato de onde comi." As "Chiquititas" foi um bom trabalho, mudou a minha vida a todos os níveis, a nível pessoal, profissional, financeiro. Eu não vou agora fingir que isto foi uma coisa má para mim, porque não foi, ninguém me vai convencer disso. E acreditei que, de facto, as coisas são como têm de ser. E que quando tu não tens outra justificação, agarras-te àquilo. E agarraram-se a isso durante muitos anos.

Pois.

Quase que fizeram com que eu acreditasse.

Deste luta.

Mais forte.

Muito bem.

Portanto, valeu muito a pena fazer até hoje. Vale a pena.

Olha, Marta, entretanto, apesar de ainda manteres a ligação à representação, mas não seja como professora, voltaste a ligar-te à música. Tens o projeto Alma, com o Júlio Marques Vilela, Zeca Neves e o teu namorado Dinis Oliveira. Como é que nasceu este projeto?

O projeto já existia antes de mim. Eu fui convidada a integrar o projeto. Já existia, é um projeto muito bonito, música muito boa, original, uma mistura entre fado, flamenco. Houve uma vez uma pessoa que nos foi ouvir que nos disse que a nossa música soava a Mediterrâneo, e eu achei lindíssimo.

Uma ótima descrição.

Portanto, eu guardei. E pronto, fui convidada a integrar o projeto e estamos a trabalhar nisso.

E por que projeto Alma? Sabes?

Chamava-se Alma, mas na altura havia uma banda que se chamava Alma também acho que no Brasil e eu depois sugeri: "Por que não pormos projeto?", uma vez que isto ainda está nessa fase, de ser um projeto. E ficou Projeto Alma e sei lá, se calhar daqui uns tempos muda outra vez, mas para já é Projeto Alma. O alma é importante para nós. Eu gosto da palavra alma e acho que diz muito sobre a música e sobre nós. E a nossa cultura. Portanto, por muito que de hoje para amanhã possam mudar o nome, o alma vai ficar ali.

Vai ficar outra coisa qualquer, alma linda, alma boa.

Alma qualquer coisa.

É ouvir. No YouTube, por exemplo, estão lá algumas músicas muito boas.

Sim, está tudo no YouTube e no Spotify.

Marta, vamos ter de fechar, isto passa a correr. E já que falamos de alma e de projetos, tu aos 15 anos disseste à tua mãe que ias ganhar um Oscar. Esse sonho pergunto se te mantém e quais é que são os outros sonhos que tens na tua alma.

O bom de crescer é que vai-se ganhando uma consciência da realidade e dá-se um bocadinho mais valor à realidade. Os sonhos deixam de ser tão megalómanos e passam a ser mais realistas.

Eu também queria ser jogador da seleção nacional.

Se calhar não vais ser, mas podes continuar a jogar muito bem futebol.

Acho que essa parte também não vai acontecer. Mas lá está, terei outros sonhos.

Eu sei que não vou ganhar um Oscar.

Não sabes.

Não, provavelmente não irei, porque teria que fazer grandes mudanças na minha vida, que hoje em dia já nem sequer fazem sentido.

Nem sabes se queres.

Nem sei se quero. Eu sei que isso não vai acontecer, provavelmente, mas tenho outros sonhos e as coisas vão mudando e eu vou adaptando à minha vida. Eu nessa altura não era mãe, hoje sou mãe e também foi um sonho concretizado, portanto há coisas que são às vezes um bocadinho incompatíveis ou difíceis de conciliar e que exigem muito esforço e eu nem sempre estou disposta a fazer um esforço tão grande. Portanto, abdico de certos sonhos em prol de outros. E vai-se vivendo assim.

Essa tatuagem que tens no braço, no outro, do passarinho a sair da gaiola, acho que é exemplificativo disso também.

Sou eu. Muitas vezes me senti assim, um passarinho enjaulado que precisava de abrir a porta. E eu de vez em quando tenho que abrir a porta.

Então olha, vamos abrir a porta do programa. Até porque a seguir precisamos do estúdio e isto tem que acabar.

Tens de ir comer um caldo.

Isso para nós é ótimo.

Mas eu tenho mesmo uma questão para resolver.

Se tivesses uma consulta para as 10h a esta hora já estavas atrasada.

Tenho que abandonar.

Marta, muito obrigada por teres estado conosco aqui na Rádio Observador. Marta Fernandes no "40 Minutos" e obrigada também por teres trazido a tua fofinha Kuma.

Obrigada por me terem deixado trazer a minha Kuma, facilitou-me imenso a vida.

Claro que sim. Já juntamos para a semana. Obrigada, Marta Fernandes.

Obrigado, Kuma. Até para a semana.

Até, não. Tchau.

Volta, Marta!

Não, vocês não podem ouvir mais. Tchau.

Beijo