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Acho que hoje em dia já há muito pouca gente a falar do Big Brother no meio artístico. Mas eu também sei que ainda há pessoas que não me chamam pra coisas porque me associam ao Big Brother. Eu também sei que ainda há aquela conversa do: "Isso é aquela miúda, a Marta Gil, que esteve no Big Brother, não é?"

Mais uma vez, um rótulo que tu não gostas.

Sim, estive no Big Brother, mas e então? O que eu posso fazer? Continuar a lutar, continuar a remar contra a maré. Eu continuo, eu não desisto. Pessoal, a sério, não era mais fixe isso ser uma grande mescla de pessoas? Não era mais fixe o inesperado acontecer? Não era mais fixe um realizador de cinema pensar: "Chama lá aquela miúda que eu quero ver o que ela tem pra dar." Eu sou superextrovertida, eu falo com as mãos, falo, aconteço e chego, ocupo o lugar. Mas acham que é por causa disso que eu não sei viver na contenção?

Há vozes que se impõem pelo talento, outras pela coragem, e há quem reúna as duas coisas com frontalidade. Cresceu em cima dos palcos, entrou na casa dos portugueses pela televisão, mas foi quando parou pra se ouvir que encontrou a sua voz ainda mais poderosa. Uma mulher de princípios e uma alma inquieta que enfrentou muitos sacrifícios por amor à arte, uma grande aventura nos Estados Unidos e ainda a exposição 24 horas por dia num reality show. Temos muito pra falar com a Marta Gil em "40 Minutos". Sê muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Obrigada. Eu adoro estas intros, sinto que levo um ego boost incrível.

Pelo menos daquilo que vejo e daquilo que pudemos ver também, se calhar muito por força do reality show onde estiveste. Já vamos falar disso mais a fundo, mas tu és uma mulher muito frontal, sem filtros, sem medos também. Essa é a tua maior qualidade e já te trouxe mais vitórias ou dissabores? Porque existe sempre esta dualidade. E depende da perspectiva também.

Sim, depende da perspectiva também e depende também dessa história da frontalidade.

Não é ser bruto.

Não é ser bruto, nem é ser frontal de uma forma gratuita. Há pessoas que dizem: "Eu sou muito frontal" e de repente começam a dizer uma enxurrada de disparates que ninguém pediu. Eu acho que às vezes é preciso uma enxurrada de disparates que ninguém pediu. Eu acho que essa história do ser frontal e dizer as coisas como eu acho que devem ser ditas, também tem que ter algum bom senso, porque senão podemos cair numa situação em que ninguém nos pediu a opinião, estamos só a dar porque sim, achamos só que a gente nos quer ouvir.

Pode tornar-se algo muito gratuito?

Sim, pode tornar-se algo gratuito, até agressivo, pode causar dor nas outras pessoas. Portanto, acho que a frontalidade tem que sempre ser associada a um bom senso. E eu acho que por eu ter esse bom senso, que eu acredito que tenho, acho que isso traz-me sempre mais vitórias do que dissabores.

Há pessoas que dizem que tu és muito intensa, se calhar por essa frontalidade e por essa forma como tu falas, que é sempre muito direta. Isso pode implicar que as pessoas tenham, às vezes, uma opinião errada sobre ti?

Sim, completamente. Mas eu tenho que ter a noção disso. Eu tenho noção que sou superintensa, tenho a plena noção que eu quero viver tudo na mesma altura, tenho muita sede de viver, por isso é que eu acho que durmo pouco.

Quantas horas?

Durmo pouco, durmo à volta de cinco, seis horas por noite.

E sem olheiras.

A maquiagem ajuda. Mas sou uma pessoa que quer mesmo muito viver as coisas e cada vez mais tenho consciência à medida que vamos crescendo, que é um ano a menos. Nós não temos um ano a mais, nós temos é um ano a menos. E cada vez estamos mais perto do fim daquilo que nós andamos aqui a fazer, que é viver.

Pensas muito nisso, na questão da finitude?

Cada vez mais penso. Porque acho que nós, às vezes, parece que vivemos de uma forma infinita. Acho que se nós tivéssemos mais consciência que isto acaba, se calhar muitas das nossas atitudes não seriam as que nós temos. E eu cada vez mais tento pensar nisso de uma forma muito mais séria, porque faz com que eu dê cada vez mais importância aos outros, cada vez mais importância às situações em que vivo e cada vez mais importância às pessoas, porque as pessoas são o principal do mundo. Não são as histórias, não são os lugares, não são as viagens que nós fazemos, não são, são as pessoas. São as pessoas que fazem as histórias que depois se tornam memórias. E eu cada vez mais penso nisso. E a verdade é que esta minha coisa de viver de uma forma muito intensa, que eu sei que às vezes é até um bocado too much. Às vezes é um bocado tipo: "Marta, já não te aguento, para um bocado." Eu sei, eu sinto isso comigo própria às vezes. Tipo: "Marta, acalma-te, relaxa, respira." Mas é mais forte do que eu, a verdade é essa. E eu acho que isso também se deve muito ao facto de saber que estamos próximos do fim. Cada vez estamos mais próximos do fim. E também o mundo como ele está hoje em dia, é tão cruel, é tão violento, está tão cheio de coisas más, que eu cada vez mais quero preservar as coisas boas que nós temos.

Esta questão da finitude tem outra importância pelo facto de seres atriz, mulher atriz, e às vezes olhamos pra televisão e para a arte em si e vemos mulheres que a partir de uma certa idade começam a deixar de aparecer. Ou seja, esta questão fica mais presente por essa questão de teres esta profissão?

Sim, eu muitas vezes penso: será que eu vou ser atriz até morrer? Será que eu vou conseguir levar esta profissão até o fim dos meus dias? Não sei. Mas a verdade é que eu já ultrapassei tantas coisas más nesta profissão, que acho que será só mais uma isso. E também acho que à medida que nós envelhecemos, relativizamos muito mais essa história da profissão. Ou seja, se me perguntasse há 10 anos: "Ves-te a fazer outra coisa sem ser atriz?" Eu dizia: "Não, nem pensar, eu quero ser atriz pro resto da minha vida, não me imagino a fazer mais nada." Hoje em dia, se tu me perguntares: "Ves-te a fazer outra coisa sem ser atriz?" Eu vejo-me a fazer tudo Eu sou capaz de fazer tudo. Sei lá.

Tu já fizeste um bocadinho de tudo como actriz.

Eu já fiz um bocado de tudo. É preciso ir trabalhar para um restaurante? Eu vou. É preciso trabalhar para uma loja? Eu vou. É preciso ir trabalhar em publicidade? Eu vou. É preciso gerir uma produtora? Eu vou. Eu já tive uma produtora. Eu já estive a angariar marcas, eu já estive a angariar dinheiro para fazer coisas. Já estive a vender séries a canais de televisão. Claro que isto está tudo muito ligado à indústria do entretenimento, mas se for preciso sair desta indústria e ir para outra, eu também vou. Eu estudei direito, acho que nunca vou exercer. Hoje em dia teria que estudar outra vez para poder exercer Direito como é óbvio. As pessoas dizem: "Ah, mas se calhar um dia ainda vais usar o curso." Não, amigos, não vou. Eu já não me lembro de metade das coisas.

Mas é assim, a capacidade de adaptação está toda aqui.

Sim, a verdade é que eu acho que aprendo rápido, acho que facilmente posso ser colocada noutro lugar e fazer outra coisa, mas aquilo em que eu sou realmente completa é ser atriz, é aquilo que me faz feliz, é aquilo que eu tenho muita sede de aprender e acho que ainda não fiz metade daquilo que deveria fazer e que tenho capacidade para fazer. Portanto, não quero pensar que vou fazer outra coisa. Quero é pensar que daqui para a frente, faço 40 anos este ano, sei que não pareço, mas vou fazê-los. Às vezes as pessoas olham para mim e acham que eu sou uma miúda. No outro dia vi o podcast da Helena Caldeira, ela dizia isto, acham que eu sou uma miúda. Eu sinto exatamente isso. As pessoas acham que eu sou uma miúda, mas não sou. E a verdade é que a minha experiência pessoal muitas vezes pode ser importante para o facto de seres atriz, mas também é por nós sermos atrizes que não temos de ter passado por tudo aquilo que a nossa personagem passou. Eu acho que cada vez mais há essa ideia de que: "Ai, não, mas eu tenho de ir buscar um ator parecido com o que a personagem está a viver." Não. Quando é que nós começámos a pensar assim? Nós somos atores, somos versáteis.

Quando é que esta narrativa começou a virar desta forma?

Sim, quando é que de repente acham que temos que ir buscar atores parecidos com a vivência das personagens? Não temos. Temos só de fazer castings aos atores, que é uma coisa que falta fazer, é castings. Façam castings, vejam se eles são capazes de o fazer ou não. E depois, sim, então, decidam se eles são aptos para a personagem ou não.

Há uma coisa na qual tu és, eu acho que posso dizer que és muito crítica na questão dos castings e na questão dos papéis que são atribuídos, que é a questão de hoje em dia estarmos cada vez mais presente esta narrativa de seguidores, das pessoas serem conhecidas e de ser atribuído um papel com base nesse reconhecimento, que às vezes pode não corresponder com o sucesso de um projeto. Às vezes temos pessoas muito conhecidas num projeto e o sucesso não se mantém.

Porque eu acho que cada vez mais, eu não estou aqui para dar lições a ninguém, até porque quem dirige os canais de televisão deve saber disto não é do que eu, mas eu acho que é preciso perceber que não é por se buscar uma estrela do digital e colocá-la na televisão que esse projeto vai ter sucesso. O público do digital não tem nada a ver com o público da televisão.

Muito diferente.

E eu acho que é muito fácil perceber isto. Quem está agarrado ao digital são jovens, são miúdos. Quem está agarrado à televisão é um público muito mais idoso, em que a televisão é a sua companhia. São pessoas que passam muito tempo em casa, são pessoas mais idosas e essas pessoas provavelmente nem sequer têm Instagram. Não sabem quem são metade das estrelas do Instagram. Portanto, uma coisa é nós querermos tacar as bonitas, e isso já sabemos, é uma luta que não vale a pena continuarmos nesta luta. Queremos tacar as bonitas na televisão porque achamos que as pessoas já estão fartas do dia a dia. Já há muita coisa feia no dia a dia e querem ver pessoas bonitas. Está tudo certo. É uma luta que eu não estou para perder mais tempo a falar dela.

Mas continua a fazer sentido essa luta?

Eu acho que cada vez mais, se olharmos para os últimos projetos que foram feitos em televisão, como por exemplo, eu participei em um deles, foi o Festa é Festa da TVI, que não era feito com estrelas do Instagram, era um projeto feito com atores, muitos deles muito queridos do público, muitos deles até mais velhos. E é preciso perceber que as pessoas querem sentir proximidade, querem perceber que aquilo é um produto feito para eles e com as vivências deles do nosso país, de Portugal, que tem coisas muito características. Eu acho que deve ser feito formatos para todo tipo de público. Nós não podemos só dar, se nós estamos a sugar uma criança, ela vai querer sugar todos os dias. Por isso é que existem quatro canais, por isso é que existe uma RTP que é paga por nós e que tem o dever, se calhar, de fazer programas mais informativos, mais culturais, onde as pessoas aprendam.

Muito abrangentes, para todos os nichos.

Para todos os nichos. E depois, se calhar, há os canais privados que vivem do dinheiro e de fazer negócio, precisam de audiências e tentam dar aquilo que eles acham que o público quer. Porque se calhar, o que o público quer também não é só aquilo que eles acham, pode ser muito mais do que isso. Eu acho é que temos de perceber que o digital e a televisão hoje em dia são coisas muito diferentes. Podem se complementar? Podem.

Mas a forma que tu comunicas, por exemplo, no digital, não é a mesma.

Não tem nada a ver com aquilo que eu faço na televisão. Ou seja, o meu público do digital são maioritariamente mulheres. Maioritariamente mulheres da minha idade e até um bocadinho mais velhas. E, portanto, eu acredito que, se calhar, são mulheres que pensam mais ou menos como eu e que têm mais ou menos as mesmas vivências do que eu, que gostam de acompanhar aquilo que eu faço. Eu sei perfeitamente que essas mulheres que me seguem no digital provavelmente não veem Batanetes que eu faço na TVI. Provavelmente não veem. Provavelmente não veem o Festa é Festa. Provavelmente nunca sequer foram ver uma revista que eu fiz no Parque Mayer. São pessoas que têm outro tipo de interesses. São pessoas que, se calhar, gostam de ver os festivais de música onde eu vou, gostam de ver, se calhar, outro tipo de temas que eu falo no meu Instagram. Mas a questão é: eu também não sou uma pessoa que só penso assim. O meu nível de interesse é muito grande. Eu tanto estou numa pista de dança a dançar música eletrónica, como no dia seguinte estou no concerto do Caio Barreiros.

Estamos na altura dos Santos.

Estamos na altura dos Santos. Eu tanto estou a jantar num restaurante super fancy, como a seguir estou com uma sardinha no pão sentada no chão. Portanto, eu sou muita coisa. E portanto, essa coisa dos rótulos nas pessoas, que é uma coisa que me irrita solenemente. "Ai, ela faz Batanetes, então só faz Batanetes." Não! Eu fiz agora uma curta-metragem sobre saúde mental, em que abordo o tema do suicídio, está a percorrer os festivais e está a concorrer a festivais. Portanto, parem de nos colocar em caixinhas. Portugal é demasiado pequeno para nos colocar em caixas. E é uma pena que quem manda ainda não percebeu isso.

Vamos falar sobre essa curta-metragem, falaste aí da questão dos prêmios, mas isso não é o mais importante quando se fala de saúde mental, que é um tema que nós olhamos para as televisões, até mesmo para as rádios. Já se fala mais, ainda assim Há sempre tabus e há sempre questões que aprendemos todos os dias, até mesmo com testemunhos de pessoas. É mesmo importante falar sobre isto?

Nós começamos a falar sobre isto quando começamos a pensar na curta-metragem. Até foi por causa de um festival que aconteceu aqui em Portugal, no qual nós não entramos. Eu acabei por ser oradora no festival, que é o Future World Film Festival, que aconteceu agora há pouco tempo. E começamos a pensar: "Vamos falar". Nós partimos pedra até chegar à saúde mental. E se calhar, não fomos futuristas demais. Quer dizer, a meu ver, fomos, porque a saúde mental é um tema do presente, do futuro e do passado.

Vai continuar a marcar a agenda.

Mas, se calhar, não era bem esse o intuito do festival. E pronto, não interessa, não entramos, está feito, está arrumado, já estamos bem com isso. Estamos a concorrer a outros festivais. E acabamos por chegar a este tema. Tem tudo a ver com uma miúda, que neste caso sou eu. É um filme em que não existe diálogo, é um filme feito todo através de uma leitura de uma carta em que nós vamos ouvir a voz off desta personagem, que é a Beatriz, e a personagem está a ler uma carta que escreveu ao pai. E é toda uma viagem. E nas curtas-metragens eu acho que nós temos essa hipótese de viajar, de sermos mais metafóricos, de nos preocuparmos também muito mais com a estética daquilo que estamos a mostrar, sem nunca perder a essência da história. Mas nós fizemos claramente uma viagem. Essa pessoa é saúde mental, então vamos viajar pelo cérebro do que esta pessoa pode estar a pensar. E chama-se Matsutake, porque tem a ver com o cogumelo. O cogumelo que veio depois da bomba de Hiroshima, foi a primeira forma de vida que houve foi este cogumelo, e é um bocado uma metáfora relativamente àquilo que esta personagem está a viver. E eu acho que fizemos um filme muito bonito. Espero que este filme chegue a muitos sítios. Nós vamos estar no Shortcuts agora quando voltar a nova fase do Shortcuts em setembro, outubro, e vamos lá mostrar este nosso filme. Espero que muita gente apareça, porque tenho mesmo muito orgulho no que fizemos. O realizador é o Pedro Coelho, o director de fotografia é o Henrique Governo.

Produção portuguesa.

É uma produção portuguesa, uma produção feita com amigos, é uma produção feita sem dinheiro nenhum. Eu tenho a sorte de conseguir chegar a algumas marcas que nos ajudaram bastante a produzir o filme. Ou seja, não pagámos a location, não pagámos as refeições, que são coisas importantíssimas quando fazes isto, porque gastas imenso dinheiro a fazer este tipo de coisas. Só a pagares comida a uma equipa, já gastaste metade do orçamento. Só a pagar o sítio onde vais filmar, já gastaste. E eu tenho a sorte de conseguir chegar a esses sítios e por isso não tivemos que pagar esses sítios. Deixo aqui um obrigado à Mariana Barros, que foi ela que tratou disto tudo. E depois é com muita boa vontade e todos a quererem caminhar para o mesmo lugar, que se consegue fazer coisas assim. E eu agora depois de ter feito esta curta, quero muito fazer outras.

Há esta vontade. E com outros temas.

Com outros temas e continuar a fazer muito este tipo de coisas.

Nós já vamos falar mais da representação, mas eu queria ir aqui à tua infância e perceber se a mulher que eu tenho aqui hoje, quase a fazer 40 anos, na infância, eu sei que tu já tinhas esta aptidão e gostavas muito de falar. Não tinhas pudor nenhum com isso. Mas como é que se começou a perceber aos poucos e poucos que isto podia ser mais do que isso, ou seja, mais do que uma criança bem disposta e que gostava de falar com toda a gente para algo maior?

Eu acho que foi logo. Só que a diferença é que os meus pais, na altura, não apoiavam e depois tiveram que apoiar. Depois tiveram que se conformar.

Daí vem o curso de Direito.

Eu acho que foi logo, porque eu quando era pequenina, não há muito a dizer, eu era aquele clichê da miúda que cantava, dançava, fazia as peças de teatro da escola.

Ficavas sempre na fila da frente.

"Quer ser eu."

Ficavas sempre na fila da frente.

Não, porque isso era a boa aluna. Eu não era assim tão boa aluna.

Não, estou a dizer nos espetáculos.

Nos espetáculos, sim, era a protagonista. Cantava, dançava. E depois, quando a minha mãe me perguntou se eu queria ir fazer audição pro Teatro Politiama, lá fui eu, fiquei, e a partir daí nunca mais larguei esta área. A diferença era que realmente na altura os meus pais achavam que isto ia ser um hobby e eles gostavam porque era teatro. E teatro é diferente de televisão, teatro era uma coisa boa eu fazer. Teatro era mais intelectual. "Portanto, ela pode fazer teatro." Depois, quando de repente houve o convite dos Morangos com Açúcar, já foi: "Como assim? Novelas? Vais fazer novelas?", dizia o meu pai. "Mas as novelas não são boas, Marta." E eu: "Pai, mas eu quero fazer." E depois as coisas foram andando e eles tiveram que se conformar. E foi quando eu saí do mestrado Direito Penal, porque eu ainda cheguei ao mestrado, e decidi: "Já chega disto". Cheguei casa e disse: "Pai, mãe, vou acabar com isto, não vou fazer mais o mestrado e vou me dedicar a ser atriz a tempo inteiro". E assim foi.

E assim foi, e o caminho está aqui. Vamos falar dele ainda muito na segunda parte, porque isto passa a voar. A primeira parte já está.

Já voou.

Estamos à conversa com Marta Gil. Em 40 minutos voltamos já a seguir com a segunda parte. Até já.

Até já.

Estamos de regresso em 40 minutos com Marta Gil. Na primeira parte já falámos de muita coisa e até fomos à tua infância. Estávamos a falar aqui da questão da representação e aproveito esta segunda parte para começarmos com o tema que está na ordem do dia. Tivemos há poucos dias uma agressão a um ator, o Adérito Lopes, no Teatro A Barraca, por um grupo neonazi. Eu sei que tu estiveste na concentração da semana passada, que reuniu milhares de pessoas. Concentrações um pouco por todo o país a pedir justiça e para que este tipo de violência termine de vez. Enquanto atriz, como é que tu recebeste esta notícia no dia em que isto saiu e que tipo de resposta é que nós também, enquanto sociedade, devemos dar para que este tipo de ameaças não continue a existir em nome da arte, porque foi o que aconteceu.

Eu acho que a resposta que nós temos que dar é simples: o silêncio não é opção. E por muito que as pessoas não se queiram chatear ou não se queiram meter, ou porque acham que não devem falar, devem. Cada vez mais toda a gente deve falar e cada vez mais quem tem exposição pública deve falar. Eu fico chocada a ver a quantidade de pessoas que chegam a milhares e estão caladas em relação a este assunto. Fico chocada. Não só este assunto, como outros, mas estamos a falar deste, eu não vou-te expressar para outros. Mas esta concentração que aconteceu à porta do Teatro da Barraca não foi só sobre o ator, nem sobre esta situação que aconteceu.

E não foi só sobre a arte.

Não foi só sobre a arte.

A arte foi ameaçada agora.

Estendeu-se a muitos outros temas que estão todos eles a ser ameaçados. É impressionante, porque eu acho que o que aconteceu, e que cada vez mais tem vindo a acontecer, é uma questão de atos de violência e discursos de ódio que estão a começar a ser legitimados. E nós sabemos perfeitamente porque é que estão a começar a ser legitimados. Porque existe um partido na Assembleia da República, que o facto de estar ali presente, faz com que esta gente, que sempre esteve escondidinha no seu buraco e que achava que antes não podia falar, agora venha ao de cima e acha que tem legitimidade para dizer e fazer aquilo que bem lhe apetece, porque há um partido na Assembleia que faz o mesmo. Eu não estou a dizer que nós temos um partido na Assembleia que comete estes atos e que vem cá para fora e que é violento. Não é isso que eu estou a dizer. Mas o facto de eles estarem lá, agora representados com aquele número de deputados que estão, faz com que estas pessoas sintam mais legitimidade em vir cá para fora. Por quê? Porque há pessoas que pensam como eles. Há pessoas que usam as palavras: "Volta para a tua terra." Há pessoas que usam as palavras de: "Os imigrantes estão a roubar-nos o trabalho." Há pessoas que usam este tipo de frase e tudo isto faz com que estes discursos aumentem. E é isto que eu não consigo perceber, como é que políticos, que supostamente são pessoas pensantes, que supostamente são pessoas que observam aquilo que está a acontecer à nossa volta, como é que políticos não percebem isto? É uma coisa que me faz mesmo muita confusão. Depois, eu não percebo como é que este tipo de organizações ainda não são ilegais em Portugal. Eu não percebo. Já são em toda a Europa, menos em Portugal. O que está a acontecer? O que é preciso fazer mais para tornar estas organizações ilegais? O que aconteceu à frente do Teatro da Barraca foi mesmo muito bonito, foi uma concentração de muita gente. E atenção, uma coisa que eu acho que é importante dizer, eu não quero tornar isto uma coisa de esquerda ou de direita, porque eu acho que isto não é uma coisa de esquerda ou de direita. Direitos humanos é uma coisa de pessoas com bom senso. Direitos humanos é uma coisa de pessoas que têm empatia pelo outro, que pensam, que querem o melhor para a sociedade, que querem uma sociedade evoluída. Isto não é sobre esquerda ou direita, é sobre pessoas que têm os valores no sítio certo.

Mas há quem ainda faça essa divisão.

Mas não pode ser. Isto não é uma coisa de esquerda ou de direita. Eu tenho muitos amigos do lado da direita, tenho muitos amigos do lado da esquerda. Isto é uma coisa sobre pessoas que têm os valores no sítio certo e que pensam e querem o melhor para uma sociedade evoluída. E portanto, não se pode admitir que este tipo de coisas aconteçam. Ainda mais, e não se pode admitir que os nossos governantes não façam nada em relação a isto, porque vir fazer o discurso para a televisão é muito bonito, não é? Claro que quando é neste ato, vamos todos agora fazer um post a dizer que condenamos o ato horrível que o ator sofreu. O que isto serve? Não serve nada. Nós precisamos de medidas, precisamos de ações. E é isso que tem de acontecer rapidamente.

A cultura é um meio que tem aqui, se calhar, não diria mais projeção, mas é aquele que neste momento pode-se sentir mais ameaçado, tendo em conta estas ameaças e o ruído que está a ser.

O mais engraçado é que isto não está a acontecer só em Portugal, está a acontecer no mundo inteiro. E não sei se se lembram, mas nas últimas eleições nos Estados Unidos, em que o Trump ganhou, a maior parte da comunidade artística mobilizou-se toda para pedir para as pessoas não votarem no Trump. E o que aconteceu? O Trump ganhou. Em Portugal, a maior parte da comunidade artística juntou-se e pediu a toda a gente para não votar no partido Chega. E o que é que aconteceu? O partido Chega subiu. Portanto, isto não é só sobre Portugal. Isto é uma coisa que está a acontecer na Europa, está a acontecer no mundo.

Mas é preciso mudar a forma como se faz o discurso, as concentrações, as manifestações? Ou isto é um caminho?

Eu acho que isto são ciclos. Eu acho mesmo que isto são ciclos e a história mostra-nos isso. Eu acho que isto são ciclos. E agora estamos a passar por este ciclo e mais tarde o ciclo vai mudar. Tenho a certeza que vai mudar. Agora, se neste momento tenho algum receio que as coisas piorem? Tenho. Mas por isso é que é muito importante. E agora sim, eu acho que é uma questão de direita ou de esquerda. Agora sim, é muito importante que haja mais pessoas da direita a condenar estes atos, porque eu acredito que há muito boa gente na direita e na esquerda Eu não sou nada a coisa do: "A culpa é do sistema e os políticos são todos uma porcaria e ninguém quer saber." Não sou nada isso. Eu tirei Direito, eu admiro imenso políticos. Metade dos meus professores eram políticos. Eu admiro imenso políticos. Eu acho que quem vai pra política quer mesmo fazer algo melhor pelo país. Se quando chegam lá são corrompidos, alguns são, mas nem todos. Eu adorava um dia ser deputada. Se não pudesse ser atriz, eu adorava ser deputada. Portanto, eu acho mesmo que há gente muito boa na política, tanto na direita como na esquerda. Mas agora, com tudo isto a acontecer, era importante ver mais gente da direita a mobilizar-se para combater o que está a acontecer. E a falar mais sobre isto, e a combater estes atos, e a querer tomar medidas sobre estes atos. Agora sim, era mais importante, porque a esquerda nós já sabemos o que é que a esquerda faz. A esquerda posicionou-se logo e de uma forma muito assertiva. E a direita está ali assim num barco, não é? Estamos ali a navegar e parece que às vezes não há coragem suficiente para dizer as coisas como elas devem ser ditas.

Posicionamento, que é sempre importante. E nós mandamos daqui um abraço ao Adérito.

Um abraço ao Adérito e ao Teatro da Barraca e à Maria do Céu Guerra, que fez um discurso lindíssimo à porta do teatro.

Ela esteve cá no "Em 40 Minutos" há pouco tempo e é uma conversa que ainda tenho na memória, por muito do que ela disse. E precisamente ela esteve aqui para falar do espetáculo de Camões.

Exato.

E eu até partilhei um short sobre isso. E é importante falarmos sobre isto e a cultura não pode ser ameaçada desta forma e, portanto, é sempre bom falar. Agora deixamos aqui esta parte de lado, mas vamos continuar a falar de representação, mas eu quero ir a uma aventura que tu tiveste nos Estados Unidos, porque Estados Unidos nós pensamos sempre em algo muito grande e tu viveste uma grande aventura. Há bocadinho estavas a dizer que nunca tiveste pudor em trabalhar. Sei que trabalhaste em restaurantes, fizeste um bocadinho de tudo.

Fiz o típico sonho americano.

Exatamente. Porque na América não há muito esta questão de os atores trabalham no que for preciso.

Os atores trabalham em tudo. Los Angeles é uma cidade feita de atores, de realizadores, de produtores.

Há de tudo.

A pessoa que está ao teu lado a beber um copo é ator, a pessoa que está a servir o teu prato é realizador, a pessoa que é host do restaurante é uma produtora. Ou seja, Los Angeles é uma cidade feita de artistas, completamente. É um melting pot de pessoas que vêm de todo o mundo à procura de um sonho. E é por isso que eu acho que a energia daquela cidade é tão bonita e é tão boa, porque toda a gente ali está em prol de um sonho. Um sonho numa artística, seja qual for. Não há só ator, há realizadoras, há produtores, é tudo e mais alguma coisa, diretores de arte. E é muito bonito sentires isso todos os dias. E é muito bonito sentires que as pessoas todas têm muita ambição. E depois todas se apoiam muito umas às outras nesse sentido. Acho que são muito solidários uns com os outros no sentido de "go for it, you can do it, we all can do it."

Sente-se mais apoio entre a classe?

Sim, eu acho que há muito apoio entre a classe. Muito. Por quê? Porque são pessoas que estão praticamente todas na mesma situação. São pessoas que estão a trabalhar nos restaurantes, são pessoas que durante a manhã trabalham noutra coisa qualquer pra tarde poder ir em audições. Ou seja, they are all struggling. Estão todas a passar por muitas privações, por muitos desafios. E então sentem-se que todas estão no mesmo barco. E eu acho que é muito bonito, tu vives ali uma sensação de "wow, I'm living a dream." Mesmo que não estejas a fazer um filme com o Steven Spielberg.

Mas é tudo sempre em grande, não é?

Mas é tudo sempre em grande. E depois tu chegas lá e sentes que já conheces aquela cidade. Já viste aquelas autoestradas, já viste aquela avenida, já viste aquele café, porque já tudo apareceu nos filmes. Então tu chegas lá e sentes: "Eu já estive aqui." É impressionante sentires isso. Agora, é tudo muito grande. A cidade é muito grande. Eu acho que sou a única pessoa que eu conheço que andava de autocarro em LA. Toda a gente chega lá e compra um carro ou aluga um carro consoante o tempo que está lá. E eu decidi que a minha prioridade não era isso. Eu vivia numa zona mais central, mas mesmo assim o central não é como Lisboa, não é? "Ah, vives ali no Príncipe Real e estás no centro." Não, o centro de LA é: há vários centros, porque aquilo é tão grande, que há, sei lá, 30 centros. Mas eu vivia ali numa zona mais ou menos central e pensava: "Eu conseguia ir de autocarro aqui pros sítios." Conseguia, mas demorava três horas. Tinha de acordar três horas mais cedo do que normal. Eu tinha de acordar às 05:00 para estar no sítio às 08:30, para começar a gravar. Mas fiz, porque tinha de ser feito e porque eu acho que quando tu não estás no teu próprio país, já disse isso várias vezes, eu acho que a tua ambição e a força que tu tens pra fazer as coisas é muito maior.

A mentalidade também muda. Fica muito mais aberta.

Quando tu estás fora da tua zona de conforto, tu estás muito mais proativo pra tudo. E eu tenho saudades dessa proatividade que eu tinha lá. Às vezes tento tê-la cá, mas não é a mesma coisa. Acho que é um bocado hipócrita eu dizer: "Ai, agora é o mesmo." Não é. Não é, até porque eu aqui já conheço o meio, já conheço as pessoas. Uma coisa é certa, eu vim dos Estados Unidos com muito menos vergonha. Eu agora chego ao pé das pessoas e digo: "Olha, não me queres chamar pra casting?"

Com mais cara de lata.

Muito mais. Há pouco tempo eu vou a uma revista que se chama A Magazine, que é uma revista maravilhosa que já saiu há uns tempos, já tem uns anos, mas é recente mesmo assim. E eu encontrei o diretor da revista, que é o João Bacelar, e cheguei ao pé dele e disse: "João, eu amo a tua revista." A última capa da revista tinha sido a Benedita Pereira. E é uma revista sobre cultura, sobre design, sobre património. É uma revista muito portuguesa, nas duas línguas, e é uma revista portuguesa pro mundo. É a A Magazine, que é do João Bacelar e da Susana Jacobetti. E eu fui ao lançamento da revista da capa da Benedita Pereira e eu estava a folhear a revista, eu estava: "Meu Deus, eu quero fazer isto." Eu cheguei ao pé dele e disse: "João, eu quero fazer esta revista. Olha, não sei se me vais chamar ou não, mas eu quero. Eu quero fazer isto. Isto é incrível, a sua produção é inacreditável. É tudo lindo. Eu quero mesmo fazer isto." E ele: "Ok, Marta, eu depois ligo-te." E eu pensei: "Ok, depois ligo-te. Ele não me vai ligar, como é óbvio, mandou-me aquela pra eu me calar, mas eu daqui a uma semana vou lhe mandar uma mensagem e dizer que quero." E ele ligou-me E eu pensei: "Uau!" Nós temos uma coisa cá em Portugal que é: parece que quem pede trabalho é chato, que é uma coisa que eu não consigo perceber. As pessoas estão no direito delas de pedir trabalho. E tu estás no direito de dizer não ou de mandar pra um sítio qualquer. Ou também estás no direito de ser só politicamente correto e dizer: "Depois eu ligo, querida, está bem? Depois eu ligo, querida." Sabes? Que era o que devia ter acontecido. E nos Estados Unidos eu sinto que quem vai atrás é muito mais bem visto isso. É muito mais: "Esta pessoa não desiste, esta pessoa está aqui." E cá não, cá é: "Lá vem esta chata. Lá vem este chato pedir trabalho." Eu ainda ontem estava com o realizador e disse-lhe: "Olha, eu sei que estás a fazer castings, eu quero fazer casting pro teu filme. Põe-me só a fazer o casting, depois podes dizer não."

E disse esta palavra mágica, casting.

Castig. Eu disse: "Põe-me só a fazer o casting. Vê-me primeiro, depois dá-me um não, mas mete-me a fazer casting." E às vezes eu acho que nós temos muito problema em dizer isso, temos imensos problemas em pedir este tipo de coisas, quando nós não estamos a fazer nada de mal. Nada de mal mesmo. Portanto, realizadores que me estiverem a ouvir, chamem as pessoas pra casting.

Chamem a Marta Gil que ela vai, com toda a certeza. Tu depois voltaste para Portugal, dos Estados Unidos por causa da pandemia.

Sim.

Na altura até consultaste a Iva Domingues para perguntar o que é que devias fazer na altura, que isto te rebentou. E sei que depois, também na altura, quando vieste para Portugal, foste pra região de Alcobaça, para uma casa de férias dos teus pais. Depois chegaste a trabalhar num quiosque nas Amoreiras.

Exatamente.

Não tinhas percebido que ia tanta gente às Amoreiras. Foi ali que percebeste?

É sério. É que ainda por cima eu já estava fora. Voltei e realmente eu aqui, e quando era mim falo.

E já tinhas uma presença no digital também?

Já tinha uma presença. Não tão forte aí, porque ainda estava mais ou menos a crescer, mas eu não vou fingir uma coisa que não é verdade. Ou seja, é duro um ator estar a trabalhar num sítio e receber aquele comentário de: "Então, a menina já não é atriz?" É duro. Por muito que nós pensemos, eu não estou a fazer nada de mal, eu estou a ser honesta no meu trabalho, mas é duro. Bate aqui uma coisa dentro, tu ficas tipo... Não é por eu não estar a trabalhar como atriz que eu deixo de ser atriz. Eu sou atriz, ponto. Neste momento, eu não estou a trabalhar como atriz, mas eu sou atriz. E eu percebo as pessoas, é um comentário, eu tenho noção que não é maldoso. A pessoa não diz aquilo pra magoar, a pessoa não diz aquilo com intenção de te magoar, mas cá dentro tu sentes uma coisa de .

Foste ao ponto, mas não é uma questão de falhar.

Não, não é falhar, mas tu sentes aquela coisa de: "Epá, não, agora não estou. E quem me dera estar, e não estou, e tenho que estar aqui pra ganhar dinheiro e tenho que pagar contas." Mas dá só pra perceberem que-

Não se escolhe.

Não se escolhe. E se eu não estou a trabalhar como atriz, o que eu vou fazer? Eu tenho contas pra pagar, não nasci numa família rica, não nasci no Bairro do Choro. Tenho contas pra pagar, portanto, tenho que fazer outras coisas. Mas é engraçado que eu própria, que tento combater esse preconceito comigo própria, e sempre combati, porque sempre trabalhei noutras coisas, mas eu própria fico chateada comigo quando sinto que me senti mal por ouvir aquele comentário. Porque senti-me mal. Eu lembro perfeitamente, nunca mais me esqueço, que houve uma vez o Nilton. Nunca mais me esqueço. O Nilton apanhou-me nesse quiosque. Beijinho pro Nilton. E ele percebeu que eu estava ali a vender umas coisas. E ele foi superquerido. Ele chegou lá e comprou. Aquilo era uns pins, imagina, aquilo era bom para quem tinha diferentes filhos e não podias colocar aqueles pins na roupa e tu sabias logo de quem era o quê. Ou seja, este pertence à Madalena, este pertence ao João, para famílias que compram roupas iguais pros filhos, mas nunca sabem quem é de quem. E o Nilton comprou para os seus dois filhos ou três filhos diferentes, já não sei. E ele comprou imensa coisa e no final ele disse-me assim: "Tu ganhas comissão ou não ganhas?"

Que querido.

E eu disse: "Não, por acaso não ganho." E ele: "Achava que ganhavas."

Que querido.

E eu: "Não, por acaso não ganho, mas ainda bem, porque vendi." Porque era fixe, pelo menos estava ocupada a vender, porque aquilo não era uma coisa que tivesse assim tanta adesão, e na altura foi muito querido da parte dele. Eu senti ele mesmo. "Tu ganhas comissão?" E eu: "Não, Nilton, mas foi ótimo tu teres feito isto."

Muito bom. Olha, estamos aqui a falar de escolhas, de algum preconceito também. Vamos falar do Big Brother, dessa experiência que aconteceu na tua vida, e que escolhas e preconceitos está aqui também ligado, porque tu entraste num formato de famosos, com outras pessoas também igualmente conhecidas pelo público. A experiência em si, tu já falaste muitas vezes sobre ela, tu chegaste até à final, ficaste no quarto lugar, ficaste muito chateada com isso na altura. Enquanto atriz, esta experiência, porque existe muito este preconceito.

Existe e vai continuar a existir.

Em Portugal existe mais. Eu sei que no Brasil-

Não, no Brasil é diferente

...é completamente diferente a mentalidade e tu tens pessoas que participaram nos reality shows e que depois conseguem vingar muito até em televisão e noutras plataformas, até mesmo no digital.

E a Grazi, aquela atriz brasileira incrível, que veio do Big Brother.

Aqui em Portugal, tu sentiste esse preconceito de que forma?

Ou seja, eu para já quando entrei no Big Brother, eu pensei: "Não tenho nada a perder." Não tenho nada a perder porque-

Já tinhas estado no Festa é Festa

...já tinha estado no Festa é Festa antes e depois do Big Brother, e a minha personagem tinha saído, e depois por causa disso é que me convidaram para entrar no Big Brother. Pensei: "Não tenho nada a perder." Eu acho que o preconceito é muito mais dentro da classe artística do que do público. Atenção.

Sentes isso?

Sim, acho que o preconceito não é do público, até porque isto é tudo muito rápido. Quem hoje está no Big Brother e ganha o Big Brother, daqui a um mês já ninguém se lembra deles. Já vieram outros.

Há muitos.

Há muitos, é muito rápido. Esta coisa de as pessoas acharem que vão para o Big Brother e de repente vão ganhar uma fama para o resto da vida, é mentira, não vão.

E longe vão os tempos em que alguém ia para o Big Brother e ficava muito conhecido e com milhares de seguidores.

Sim, com milhares de seguidores. Isso já não acontece. Há tantos. Eu já nem sei quem é que lá está, por exemplo. Eu vi que comentei aqueles que comentei, lembro-me de alguns, outros já nem sequer me lembro. Agora, o famoso é uma coisa muito específica. E a questão é, eu acho que o preconceito é muito mais dentro do meio do que do público, porque eu ainda hoje tenho pessoas que vêm ter comigo a dizerem: "Eu amei vê-la no Big Brother, eu gostei tanto de vê-la no Big Brother, tanto." Mas eu sei que a Marta é atriz. Há pessoas que me dizem isto.

Pensavam que estavas a representar.

Não, é que eles dizem-me: "Eu sei que a Marta é atriz, eu sei que a Marta não veio do Big Brother." É isso que as pessoas me querem dizer.

Boa.

"Eu sei que a Marta é atriz, eu sei que a Marta não veio do Big Brother." E há muita gente a dizer-me isto na rua, é muito engraçado.

E é bom, não é?

E é bom, e é ótimo.

Porque te reconhecem enquanto atriz e não uma pessoa que se deu a conhecer ali num reality show.

Exatamente.

Praticamente se deu a conhecer numa outra vertente.

Mas eu acho que me dei a conhecer de uma forma que foi boa. Ou seja, eu acho que nós também devemos saber quem nós somos, e confiar naquilo que nós queremos. Se eu acho que eu valia uma ou duas vezes que me passei um bocado a cabeça? Acho.

Mas também é inevitável, viver 24 horas com pessoas que tu não conheces.

Sim, exatamente. E por um lado também penso assim: passei-me um bocado a cabeça, mas se não me passasse, o que é que eu ia para ali fazer? O Big Brother não é para nós.

É isso que eu ia dizer.

Pelo amor de Deus, nós sabemos o que é o Big Brother, nós sabemos para onde vamos. Por isso é que eu às vezes ficava um bocado estupefacta quando via as pessoas dizerem: "Mas eles são tão amiguinhos. Também é bonito vermos uma casa assim cheia de amigos." Não, não é. Toda a gente sabe que o Big Brother não é para isso. Querem isso? Vão ver outro programa, não é o Big Brother. As pessoas gostam de ver discussões, as pessoas gostam de ver as pessoas a serem levadas ao seu limite. Agora, eu acho que tudo o que é de mais enjoa. Acho que é preciso ter algum bom senso para equilibrar as coisas, para não ser um programa que está exaustivamente a mostrar discussões. Até porque já houve tantos.

E o lado mau.

E o lado mau. Até porque já houve tantos que eu acho que de repente cansa um bocadinho. Chega a um ponto em que começa a cansar. Como eu já era atriz antes e como continuei a fazer coisas depois, acho que me consegui distanciar um bocado disso. E acho que hoje em dia já há muito pouca gente a falar-me do Big Brother no meio artístico. Mas eu também sei que ainda há pessoas que não me chamam para coisas porque me associam ao Big Brother. Eu também sei que ainda há aquela conversa do: "Isso é aquela miúda, a Marta Shilton esteve no Big Brother, não é?"

Mais uma vez um rótulo que tu não gostas nada.

Sim, estive no Big Brother, mas e então? Eles já me disseram uma vez, eu não vou dizer o nome da revista, eu queria muito ter feito uma produção, que é uma revista meia alternativa, e por isso mesmo é que eu queria fazer essa produção para essa revista alternativa, para mostrar um outro lado meu, porque enquanto atriz tu podes dar muita coisa em fotografia, e eu adoro fotografia. E uma das pessoas pertencente a essa revista disse: "Marta, tu és muito comercial para estar aqui." E eu: "Mas o que é isso, ser comercial?" E ela: "Marta, és muito comercial. Tu estiveste no Big Brother, eu não posso pôr uma pessoa do Big Brother aqui." E eu: "Ok, o que é que eu posso fazer? Continuar a lutar, continuar a remar contra a maré? Eu continuo, eu não desisto." Mas às vezes é um bocado cansativo. Não era mais fixe isto ser uma grande mescla de pessoas? Não era mais fixe o inesperado acontecer? Não era mais fixe um realizador de cinema pensar: "Chama lá aquela miúda que eu quero ver o que ela tem para dar." Em vez de ser sempre aqueles atores muito incríveis que estão sempre associados ao cinema. Não era mais fixe de repente misturar isto tudo? E: "Não estava nada à espera de ver aquela pessoa naquele papel. Não estava nada à espera de ver..." Eu sou super extrovertida, eu falo com as mãos e falo e aconteço e chego e ocupo o lugar. Mas acham que é por causa disso que eu não sei viver na contenção? Acham que é por causa disso que eu não consigo fazer coisas mais dramáticas? Acham que é por causa disso que eu não consigo falar assim neste tom e fazer uma conversa toda neste tom? Eu consigo.

Está mais do que provado que consegues.

Percebem? Estas caixas, estes rótulos, eu estou tão saturada disso, mas ao mesmo tempo não posso baixar os braços, porque se eu baixo os braços, é que isto não muda. Eu sei que não vou mudar o mundo sozinha, mas sei que há mais pessoas a fazer o mesmo que eu faço e a tentar lutar contra isto, e portanto, é continuar.

O certo é que o Big Brother abriu aqui portas, tu depois voltaste para o Festa é Festa e para fecharmos ainda esta conversa, temos de falar de algo que terminou há muito pouco tempo, as gravações. Ainda vamos continuar a ver Batanetes, com o regresso que nos traz aqui também muita nostalgia.

Sim.

E quero te perguntar como é que tu te sentiste também neste registo mais cômico. Falávamos agora da calmaria, agora um registo cômico. Como é que foi este registo?

Eu vou dizer uma coisa, eu fui superfeliz a fazer Batanetes. Eu tenho tanta pena que tenha acabado, porque eu fui mesmo muito feliz. A minha personagem era a bedona do cabeleireiro. Dava para brincar tanto, para ser tão expansiva.

Para sair do guião às vezes, também?

Sim, também. Muitas vezes tínhamos essa liberdade, sem nunca perder a linha que estava definida. O elenco foi mesmo Foi um projeto que foi feito num tempo recorde, 20 episódios. Foi feito da noite pro dia. Toda uma equipa técnica deu o máximo, a produção, o elenco. Eu senti mesmo que era um projeto que toda a gente queria muito que funcionasse e toda a gente queria muito fazer aquilo bem. E acho que conseguimos, num tempo recorde, fazer as coisas de uma forma incrível. Eu fui muito feliz, porque estavam reunidas todas as condições para este ser um projeto feliz.

E foi.

E foi. E para além disso, eu saí de uma fase um bocado conturbada, em que tinha saído de um outro projeto de teatro, de uma forma super infeliz. E este projeto é tão leve, Os Batenetes é uma coisa tão leve. Como estava a dizer, eu acho que é necessário existirem produtos pra todo tipo de pessoas e para todo tipo de estados de espírito. Os Batenetes é uma coisa pra família toda, chegar em casa, não quer pensar, senta-se em frente à televisão, quer só rir, ouvir umas piadas e se calhar até lembrar-se de algumas e no dia seguinte ir contar aos amigos. E é isso que é Os Batenetes. E eu fui mesmo muito feliz. É uma coisa muito leve, muito descontraída e eu deixo aqui os parabéns a toda a equipe e ao elenco, porque nós conseguimos mesmo fazer uma coisa, em tempo recorde, muito bem feita.

Fica aqui esse agradecimento e vamos poder continuar a ver. Marta Gil, vamos fechar este "Em 40 Minutos". Neste caminho que estás a fazer em televisão, no teatro, falámos muito disso aqui ao longo destes 40 minutos, a dar-nos a conhecer, no fundo, a tua arte enquanto artista. Estás quase a fazer 40, mas daqui a muitos anos, como é que tu gostavas de ser lembrada? Que marca é que tu queres deixar?

Ai, não sei. Eu, acima de tudo, relativizo agora imensas coisas. Depois de uma pandemia, depois de eu ter voltado pra Portugal, depois de todas as coisas que já passei, depois de altos e baixos, depois de estar cheia de trabalho, depois não tenho trabalho. E a minha vida é sempre assim, é super insegura. E eu, por um lado, adoro esta insegurança, eu gosto de viver nesta coisa meio do limite, do não saber o dia de amanhã. Depois também gosto quando tenho as coisas mais controladas, mas eu tenho um bocado uma loucura dentro de mim, que é uma loucura saudável. Mas eu acho que para o futuro não quero fazer muitos planos, quero acreditar que agarro as oportunidades quando elas aparecem e quero ser lembrada como alguém que fez o bem. Não é tanto "foi uma atriz incrível, fez aquele filme maravilhoso que ficou pra história". Sei lá, pessoas que fazem coisas tão incríveis e depois na vida pessoal, se calhar, não deixam a marca mais importante que é terem feito bem pelos outros.

Marcar pessoas.

Marcar pessoas. Eu quero que as pessoas se lembrem de: "A Marta Gil tocou-me no coração. Aquela coisa que uma vez ela disse, nunca mais me saiu da cabeça." Sei lá, eu acho que nós andamos aqui pra tocar todos uns aos outros de certa forma. E eu só quero que as pessoas se lembrem de mim como uma boa pessoa.

Acho que é o mais importante.

Fui uma boa pessoa.

Marta Gil, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador, ao "Em 40 Minutos". Muitas histórias para contar aqui, pano pra mangas, e ficou muita coisa por falar também. Voltas um dia destes, fica combinado.

Volto para uma segunda parte. Terceira parte.

Um grande beijinho, muito sucesso.

Muito obrigada.