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O piano e a química são paixões, mas fixou-se na segunda. É membro da Academia das Ciências da Áustria e recebeu o prêmio de Cientista do Ano. Não estou a dar nada de novo, quer tornar a química menos complexa e desmistificá-la depois de "Como se Transforma Ar em Pão", lança agora "Como Desvendar o Quebra-Cabeças de Origem da Vida", onde responde a 27 questões fundamentais sobre natureza, tecnologia, alimentação e o mistério da vida. Seja muito bem-vindo, Nuno Malive. Em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Disse tudo certo?
Tudo certíssimo.
Para já, tudo certíssimo, Nuno. Como é que do pianista passou a químico? Esta eu sei que deve ser daqueles perguntas que mais fazem, mas só para nós contextualizarmos.
Eu diria que não passei de uma coisa à outra.
Continua a ser-
Acabei por integrar. É isso mesmo. Passei de ser só pianista a ser pianista e mais umas quantas coisas, incluindo cientista e químico.
E tudo indicava que até podia seguir medicina, tendo em conta que os pais são médicos. Isto partindo daquela ideia de que tendo pais médicos, os filhos também vão seguir. Eu sei, porque minha mãe também é médica e há sempre aquela esperança.
Sobretudo quando há mais irmãos e se é o último, fica aquela expectativa de: é agora ou nunca.
É agora. Também me parece que é igual.
O problema ou a peculiaridade é que também é preciso, em Portugal, pelo menos, ter notas. E no meu caso, foi mesmo isso que acabou por ser o entrave. No ano em que eu fiz o concurso de admissão ao ensino superior, a média para entrar em medicina subiu consideravelmente e passou acima da média que eu tinha nesse ano. E foi um bocadinho por isso também que acabei por não entrar no curso que tinha posto em primeiro e segundo lugar nas opções de acesso ao ensino superior.
E a música não agradava muito aos pais, certo? Ou pelo menos pensar numa carreira.
E eu até compreendo, porque a pessoa não tem propriamente uma expectativa muito grande em termos de carreira. Sabe-se que há pessoas que fazem carreiras como pianistas profissionais e que dão concertos e viajam 50 semanas por ano, mas não é para todos. Há um grande fator de sorte, há uma componente que não é fácil de controlar. Eu compreendo que do ponto de vista dos meus pais, não fosse a coisa mais simples imaginar o que lhe vai acontecer se não conseguir ser o Maurizio Pollini ou a Martha Argerich. O que vai ser?
É um bocadinho como no futebol. Nem todos têm a sorte de ter o Ronaldo. Pronto.
Mas que parecenças é que há entre a vida de um pianista e a de um químico, por exemplo, nessas dificuldades que estava a enumerar?
Eu acho que tanto um como outro há uma certa solidão, na medida em que, pelo menos na música, eu senti isso muito de perto, em que a pessoa está oito horas por dia com o instrumento.
E convive bem com isso.
Foi uma das razões pelas quais me fui embora, foi precisamente esta solidão e esta ausência de contato social. Num laboratório há bastante mais contato social, estamos juntamente com outros alunos ao mesmo tempo, mas cada um tem o seu projeto, a sua batalha, a sua guerra e, portanto, acaba também por haver uma componente muito individualista naquilo que se está a fazer como trabalho de investigação. E tanto um como outro têm uma dimensão de performance. Ou seja, o pianista é tão bom quanto o último concerto que deu, isto dizia-me sempre a professora Tânia Chu, e um cientista, a certo ponto da carreira, também é tão bom como o último artigo que publicou ou a última conferência.
Eu tenho que fazer só uma provocação, que é: e nas duas pode ser também difícil de interpretar para o grande público. A música clássica é difícil de interpretar e o trabalho de um cientista também nem sempre é fácil.
Diz muito bem, tanto numa como noutra, há um certo estigma, que eu acho que está a começar a desaparecer, em abordagens que procurem aproximar ao grande público. Há de reparar que não há muitos pianistas profissionais de grande calibre que façam, por exemplo, concertos comentados, em que expliquem ao público aquilo que estão a tocar, em que desmontem as peças. E também no campo da ciência, apesar de haver bastantes cientistas que fazem divulgação de ciência, quando eu comecei, não era propriamente a coisa que as pessoas achassem mais valorizante em termos de carreira. Não é uma dimensão da carreira, do percurso científico, que seja considerada como: "Sim, isto é algo que faz parte integrante do teu trabalho". Há a investigação, há o ensino e agora começa em certas universidades a haver aquilo que eles chamam a third mission, a terceira missão, que é esta abordagem ao público em geral. Mas geralmente, quem faz divulgação de ciência, pelo menos aqui há 10 anos, quem fazia divulgação de ciência eram as pessoas que não tinham grande investigação e que também não davam assim muitas aulas, portanto, sobrava-lhes tempo.
E essa tem sido também a missão, precisamente do Nuno, de tentar aproximar a química das pessoas e quase deixar de ver. Eu, por exemplo, o meu filho, ainda só tem 10 anos, mas agora no quinto ano já começa com as ciências e já ouve falar na química e é aquele bicho-papão, que quase ninguém quer ouvir falar. Culpa de quê? Culpa dos professores, culpa, enfim.
Os professores, não, porque eu tenho percebido, sobretudo com o primeiro livro, e agora provavelmente com o segundo será a mesma coisa, que os professores são os maiores aliados de quem queira tentar desmistificar a dificuldade da mensagem da química. E eles abraçaram o livro, pegaram o livro, fizeram adaptações dos programas para poderem inserir capítulos do livro como leitura obrigatória. Recebi muitas mensagens, muitos e-mails, muitos contactos. Aliás, muitos dos professores até me convidaram para estar presente nas suas salas de aula, de forma virtual, porque não é possível estar sempre em Portugal. Mas fizemos uma série, eu acho que a determinada altura, entre fevereiro e junho, não houve uma semana em que eu não tivesse pelo menos um encontro via Zoom ou MS Teams, seja qual for a plataforma, com uma escola localizada do norte ao sul de Portugal. E tudo patrocinado por professores Carolas Ninguém lhes pagou mais para fazer aquilo, não é?
Sim.
Professores carovas que foram à procura, que escreveram e-mails. Eu, como deve imaginar, quando recebo muitos e-mails, tenho dificuldade em responder a todos.
Claro.
E os professores insistiam e mandavam de novo o e-mail e iam às redes sociais e procuravam, mandavam mensagem pelo Messenger, depois mensagem pelo Facebook e pelo Instagram, até conseguirem ter uma resposta que fosse mais ou menos positiva. E eu próprio fiquei sensibilizado. As pessoas têm tanta vontade de me ter a falar com os alunos das turmas deles, que se calhar não me custa nada fazer um esforço e marcar uma horazinha no meu calendário. Então tinha, organizado sempre com a editora Planeta, todas as semanas, havia uma hora em que eu me encontrava com uma escola e eles diziam, de forma muito descomplexada: "Fale de si, fale de química, fale daquilo que quiser. Nós queremos só um momento em que os alunos possam ouvi-lo falar."
E como é que nasceu essa paixão pela química?
Paixão pela química, eu diria, nasceu no final do ensino secundário, mas eu diria que sempre houve uma paixão pela ciência. Eu sempre quis muito explicar os fenômenos que observava e perceber por que o mundo funciona assim e não assado. Por que a água no ralo, quando vai embora, roda de uma determinada maneira. Por que o céu é azul, por que as coisas são como são, por que os sapos são verdes? Uma pergunta que finalmente tive a oportunidade de responder neste livro, que é uma pergunta que já me vem de há muitos anos. Por que não se pode tapar o buraco do ozono? O buraco do ozono já não é uma coisa tão atual como foi quando eu era criança, mas desde essa altura que me ficou a ideia de: "Então, mas se é um buraco, tapa-se. Faz-se o que é preciso fazer e põe-se." E esse tipo de abordagem sempre me apaixonou, sempre me fascinou. Poderia ter sido uma outra ciência qualquer, porque provavelmente saberá que eu cheguei à química um bocadinho às três pancadas, por acidente.
Sim.
Tive sorte de ter muito bons professores de físico-química e uma muito boa professora de química no 12º ano, a professora Manuela Correia. Eu tenho boa memória para certos momentos, datas e pessoas.
Momentos-chave.
Porque são chave. São aquelas coisas que mudam e a pessoa na altura não se apercebe, mas fazem toda a diferença. E essa professora Manuela Correia, se estiver a ouvir, um grande beijinho para si. Uma excelente professora de físico-química, no meu caso, só de química, e despertou em mim esta curiosidade pela explicação de fenômenos e fez aquilo que eu acho que os professores de físico-química cada vez mais tentam fazer, associar conceitos muito exóticos e abstratos a coisas concretas do dia a dia.
O Nuno há bocadinho falou, sabes por que os sapos são verdes?
Não sei.
Tem que ler o livro.
Pois, é isso.
Ah, queria tanto.
Fiquei com um spoiler pra agora ter que ir.
O Nuno vai dizer, mas pronto, a resposta está no livro.
Mas posso levantar um bocadinho o véu.
Então levante. Agora fiquei supercuriosa.
Uma grande parte dos sapos que são verdes, não é a pele que é verde, a pele deles é translúcida, e é o conteúdo dos sapos em si que é verde. E é verde por causa de uma substância chamada biliverdina, que nos seres humanos, em quantidades copiosas, geralmente leva à icterícia. Uma substância muito perigosa.
Sim.
No caso destes sapos, eles têm quantidades que são quatro a cinco vezes superiores àquelas que num ser humano poderiam levar à morte. E eles são sapinhos minúsculos. Como é que eles aguentam tanta biliverdina sem desenvolverem sintomas nefastos? É porque no caso deles, há uma proteína, eu tenho usado esta analogia agora com muita frequência, há uma proteína que se liga à biliverdina e quase que lhe põe uma trela ao pescoço pra manter sob controle, porque a biliverdina só é má se a gente deixar ela solta pra fazer das suas. Quando esta proteína a controla, permite-lhe ter a cor que tem, mas sem ter o efeito pernicioso ou nefasto que resulta em icterícia e esse tipo de doenças.
Muito curioso.
Até há uma questão mais interessante, mas é preciso ler o livro, que a biliverdina, como é verde, na verdade é um verde acastanhado, quando a proteína se liga à biliverdina, muda-lhe a cor. E dependendo da forma como se liga, faz ali uma nuance que muda de um verde acastanhado pra um verde menos acastanhado, pra um verde mais alface, e especula-se que isso estará associado à mudança da vegetação dos sapos em questão, que em determinadas alturas do ecossistema terá sido mais verde ou menos verde, e os sapos precisam de uma cor que os permita camuflarem-se.
Claro.
Portanto, terá havido ali uma seleção natural, dependendo de como está a cor do meio circundante, os sapos que mais se aproximam dessa cor são os que sobrevivem, que se reproduzem e que, portanto, perpetuam essa cor.
Pronto, e assim acabou por levantar mais do que o véu, mas sem dúvida, pelo menos ficamos aqui com a resposta a uma das muitas perguntas.
Ainda há mais 26.
Ainda há mais, exatamente, são 27 no total.
Eu só à conta dessa resposta ia perguntar, Nuno, se a questão da linguagem muitas vezes é o que afasta as pessoas da ciência. Isso consigo é inato ou às vezes até quando está a escrever, está preocupado com o: "Deixa-me lá sair da minha bolha da ciência, porque as pessoas lá fora não falam assim", ou é uma coisa inata?
Eu acho que é inato. Eu tenho muita tendência na vida, infelizmente, pra minha mulher, que tem que lidar com isso, de fazer analogias entre tudo. Sempre que estou a explicar alguma coisa ou a transmitir alguma coisa, imediatamente o meu cérebro começa a pensar o que é trivial e que não tem nada a ver com isto, mas que na verdade é análogo na forma de funcionar. Esta questão da trela.
Sim, pois foi aí que me despertou.
Uma proteína que se liga a uma molécula é uma coisa, mas a trela tem tantas conotações de controle, de impedir que saia desenfreado, que é uma analogia, na minha opinião, bastante bem conseguida. Há algumas mais bem conseguidas que esta. Esta correu bem.
Nuno, já agora só pra viajar aqui outra vez um bocadinho no tempo, ouvi dizer que há aqui uma história muito engraçada com os seus pais.
Só uma?
Que eu saiba, pronto.
Hoje vamos saber toda a verdade.
Toda a verdade aqui em 40 minutos, na Rádio Observador. Uma história dos €20 por cada 20 que tivesse. Afinal de contas, parece que não era bem um 20, porque o Nuno depois de um jantar acabou por dizer: "Ah, 19,5". A mãe disse: "Então passa para cá os 20".
É verdade. Lá em casa foi sempre assim: nós ouvíamos falar de colegas em que os pais davam incentivos para terem boas notas.
Essa é uma boa questão.
Que é uma técnica que eu não critico quem o faça, e eu acho que cada um tem que fazer aquilo que resulta para si. Mas de facto, crescer tendo médias altas, 18 e 19, ir para a universidade e ter muito boas notas, e ouvir que: "O meu pai ofereceu-me um carro porque eu passei de ano", a pessoa fica um pouquinho a pensar: então bolas, e nós provavelmente teremos exprimido isso, não só eu, mas os meus irmãos também, aos nossos pais: "Então, mas como é que é?"
Nós não temos direito a nada.
Porque os meus irmãos também eram muito bons alunos na escola e na universidade também. Então está aqui este pessoal a fazer os mínimos olímpicos e recebe prêmios fabulosos, e nós aqui a tentarmos ter boas notas sempre acima de certo nível e não resulta nada. E a minha mãe disse: "Pronto, olha, estás no Técnico, o Técnico é uma universidade difícil. Pronto, por cada 20..." E eu percebi logo que não ia ser fácil, porque entrar no Técnico está longe de ser fácil. E tive o primeiro 20 na cadeira de Química Orgânica, que se tornou a minha paixão e a minha profissão. A cadeira de Química Orgânica 2, foi um sacrifício, estudei muito para conseguir ter 20 nesse exame. E a minha mãe relutantemente me deu os 20 euros. Percebia-se que havia ali um certo: "Pronto, lá, tem que ser, eu prometi, está bem, toma lá". E eu depois revelei que não tinha tido 20, tinha tido 19,5, que, como é óbvio, arroonda para cima. E a minha mãe: "Dá cá o dinheiro de volta, porque eu dei-te aos 20 para 20, não era para cá para um 19,5". Portanto, é uma história interessante.
Uma das muitas, mas pronto, ficamos por esta.
Ficamos por esta.
Nuno, por que que emigrou?
Eu emigrei antes de ser fashion. Sabe que ali, a partir da crise de 2008, 2012, não sei o quê, as pessoas começaram mesmo a sair em massa. Quando eu saí, ainda me lembro de pessoas me dizerem: "Mas tens a certeza que queres ir embora? E isto aqui está tão bom e há uma perspetiva de emprego e podes ficar aqui na universidade e não sei o quê". E eu saí exclusivamente pela razão, sempre digo, que é sair da zona de conforto. Eu saí porque tive a impressão de que aqui não iria ter tão facilmente um estímulo para crescer, não só cientificamente, como pessoal e emocionalmente. E portanto, estar aqui em casa, temos amigos todos, tem um ambiente de conforto, tem a família que está sempre a apoiar. E nós somos uma família muito unida. A minha mãe entretanto faleceu, mas os meus pais sempre pesaram muito porque a família estivesse sempre próxima e esperavam sempre por toda a gente chegar a casa para jantar. Por exemplo, há muitas famílias em que cada um vai chegando e vai comendo. Lá em casa, nós esperávamos até o último de nós chegar e depois é que se jantava e todos em conjunto. E é bom, mas eu tive um bocadinho a noção de que: "Olha, se calhar, se saísses desta zona de conforto, era capaz de não ser má ideia para ti próprio, para o teu próprio crescimento como ser humano". Mas o que realmente explodiu foi um dia em que eu, apaixonado pela química orgânica, fanático da química orgânica, fui à biblioteca e não tinha nada para fazer, quer dizer, provavelmente tinha alguma coisa para fazer, também não se sabe. Tinha que estudar química física, pronto, como não queria, fui à biblioteca e decidi ler um artigo tirado à sorte, porque se eu sabia tanta química orgânica, era capaz de perceber qualquer artigo da química orgânica. De 1979, o ano em que eu nasci, deve ser a química orgânica mais fácil. Abri o livro, comecei a ler e não percebi nada. E foi aí que eu percebi: olha, se eu aqui tenho a impressão que sei tudo, mas na verdade nem sequer sei o suficiente para perceber uma coisa de 1979, se calhar é a melhor altura para ir à procura de sítios onde me desafiem em termos daquilo que eu sei. E a verdade é que quando cheguei à Bélgica, uma das coisas que mais impressão me fez foi ir a seminários de grupo em que eles falavam de coisas que para mim eram chinês. Apesar de serem seminários em que se falava de química orgânica, eles referiam-se a transformações, a reações, a processos, a nomes de coisas que eu nunca tinha ouvido. Dói, que a pessoa de repente passa de ser o melhor aluno para um sítio em que está sentadinho na última fila, à espera, espero que ninguém me pergunte nada, porque eu não percebo nada disto. É uma sensação um bocadinho desagradável. Eles têm cara de todos estar a perceber o que está a falar, eu não, espero que ninguém me pergunte a minha opinião, porque...
Para não passar já vergonha.
É tipo cena de filme, não é?
É, exatamente.
Mas, por outro lado, estimulou imenso. Eu saía desses seminários e eu dizia a um dos alunos em quem confiava: "Como é que vocês fazem para saber isto tudo? Onde é que está este saber tudo?" E ele dizia-me: "Há um livro que é assim, outro livro que é assado. Podes ler também este tipo de artigos, este tipo de artigos". E eu, dando-me um começo para eu pegar, eu faço o trabalho que eu preciso e pego.
E olhando para trás, sente que tomou a decisão certa? Não se arrepende?
Sim, não me arrependo. Lá está, porque fiz um percurso académico que não teria nunca sido possível.
Ficando por cá.
Nunca na vida eu teria chegado a professor catedrático com 33 anos em Portugal. E não digo isto por desprimor a Portugal, digo apenas que foi preciso passar por sítios diferentes para poder crescer tão rápido para o ponto de, nessa idade, uma universidade estrangeira achar que sim, esta pessoa já recolheu os louros necessários para justificar uma nomeação definitiva. Com 33 anos, tinha um contrato para a vida Um contrato por 32, é tempo de reformar. Praticamente metade da minha vida garantida, podia pôr os pés em cima da mesa e dizer: "Já tenho o contrato, a universidade pode me demitir se eu fizer alguma daquelas coisas muito más, tipo Harvey Weinstein."
Mas aí não estraga muito.
Não tem ar que.
Não entrando nesse tipo de coisas sórdidas, é muito difícil a universidade despedir-me. Mas eu entrei nisso numa de: agora estamos no ponto em que realmente temos que arregaçar as mangas e mostrar o que é possível fazer. Tenho um pouquinho esta tendência, não sei se é vantagem, se é desvantagem, de não me acomodar facilmente às coisas, que também vem com uma desvantagem de não parar muito tempo pra celebrar.
Ou seja, sempre a pensar um pouquinho mais à frente, certo? Muito bem. Sente diferença na perceção relativamente à ciência entre Portugal e, por exemplo, a Áustria?
Sim, é uma pergunta muito interessante, porque é paradoxal. Na verdade, na Áustria investe-se praticamente o dobro do PIB em ciência do que se investe em Portugal, porque nós estamos nos 1,5 e a Áustria está acima dos 3%. Independentemente do valor absoluto do PIB, é um compromisso da nação com a ciência que não existe aqui. Por outro lado, acho muito interessante que Portugal, eu sou apologista de não se dizerem só coisas más, acho que tudo tem tudo pra misturar. Portugal, nos últimos Eurobarómetros, apareceu como país da União Europeia, onde a população tem mais confiança na ciência. Apesar de, no mesmo Eurobarómetro de 2010, Portugal ter estado no último lugar dos países em que as pessoas não tinham afinidade nenhuma pra ciência, nem sequer confiavam nos resultados e nem sequer tinham uma perceção do valor e da importância da ciência. Sabe qual é o país que agora está em último lugar? A Áustria. Por isso é que eu acho que é um paradoxo. Investe imenso, há um compromisso político com a investigação e com a ciência e a tecnologia, mas esse compromisso não se transfere pra população em geral, que está no último lugar. E aliás, uma das coisas que eu tenho tentado dizer, até concorri lá a uma posição na Academia das Ciências. Há que aprender com Portugal como é que se faz pra passar do último lugar desse barômetro pro primeiro em 10 anos. É, sobretudo, um trabalho daquele programa Ciência Viva.
Sim.
As pessoas que tiveram essa ideia e que lançaram aquilo, fizeram muito bem. E há lá uma pessoa chamada Rosalia Vargas, que tem muito do mérito do que aconteceu. E eu acho que a Áustria devia aprender com Portugal pra perceber como é que se faz para envolver a população no fascínio da ciência, porque a ciência é isso, é fascinante.
Traduzir os livros do Nuno também pode ser uma ajuda.
Curiosamente, o primeiro livro, "Como se Transformar em Pão", foi escrito em alemão.
Eu vi.
Foi escrito pra Áustria. Teve muito azar no lançamento, porque foi lançado no dia 10 de março de 2020, e no dia 13 de março de 2020 foi o primeiro lockdown que foi anunciado na Áustria. Nós tínhamos muitos eventos, muitas entrevistas como esta. Nem sequer fizemos uma apresentação do livro, porque foi sempre tudo adiado. E acho até que acabou sendo cancelado, porque um livro de seis meses não se vai apresentar. E curiosamente, aqui em Portugal, o livro estava traduzido por volta de outubro do mesmo ano, mas a Planeta, muito inteligentemente, disse: "Vamos esperar". Esperamos quase um ano pra lançar uma coisa que já estava traduzida na gaveta. Esperaram a altura certa pra se poder fazer esta divulgação como deve ser. E talvez pela divulgação, mas também talvez pela população e pelo primeiro lugar no Eurobarómetro de afeição pela ciência, eu diria que a população portuguesa estava pronta para um livro destes.
E a pandemia não pode ter contribuído pra isso, pras pessoas valorizarem mais a importância do conhecimento e da ciência.
Dependendo dos países. Sabe que há países onde a pandemia foi explorada precisamente pra causar confusão.
Pois, eu ia perguntar isso mesmo, se podíamos confiar na ciência, porque eu acho que também com a pandemia levantou-se muito essa questão.
Mas em Portugal, com as taxas de vacinação nos 90+, não me parece que as teorias da conspiração sobre o chip do Bill Gates ia aparecer. Até algumas pessoas disseram que depois de levares uma vacina, se puseres uma moeda lá ao pé, a moeda fica colada.
Imensa gente.
Mas não tanto em Portugal.
Mas em Portugal também houve.
Mas não vingaram.
Sim, não é em larga escala.
Porque na Áustria-
O TikTok ainda estava a nascer aqui.
Nessa altura ainda era muito das mensagens.
Na Áustria eu vi isto de pessoas que acreditavam piamente nisso e que o propagavam. Não só recebiam a mensagem, como a difundiam, e tinha que tentar travar, mas pessoas que também tinham muita relutância em tentar entrar numa discussão lógica, porque todas as teorias da conspiração falham quando se adota uma discussão lógica baseada em fatos científicos. Uma hipótese. É como a famosa sociedade da Terra plana. Que organiza congressos, que tem eventos, que tem websites, tem uma associação em que as pessoas pagam cotas e que, na verdade, quando se vai a congressos deles, percebe-se qual é o problema. Eles não têm uma capacidade de aceitar o método científico, porque o método científico diz: a teoria A tem que ser falsificada. E temos que ir à procura de experiências que possam eventualmente resultar numa observação que falsifique a teoria. No fundo, o método científico nunca se satisfaz com certezas. Constantemente coloca questões e procura falsificar. Se procurar falsificar a teoria da Terra plana, muito rapidamente chega à conclusão de que a Terra não é plana. Mas se adotar a abordagem deles, que é uma abordagem de: eu vou recolher aqueles poucos dados científicos que poderiam apoiar Se eu olhar só para a eventualidade da Terra ser plana, então nunca mais saímos do lado nenhum. E as pessoas quase que entram naquela famosa bolha, e as redes sociais também contribuem para isso, que permitem que só ouçamos as opiniões, só lemos as opiniões de quem pensa como nós e, portanto, é um self-fulfilling prophecy.
Mas isso é um problema que eu acho que temos, que é de não conseguir ouvir a opinião, aceitar, respeitar. Acho que passa muito por ouvir. Podemos não concordar, mas às vezes também ao ouvir conseguimos mudar a nossa opinião em relação a determinados temas.
E sabe por que isso é? Porque as pessoas misturam opiniões, ciência e factos com aspetos pessoais.
Exatamente.
É um grande problema também na Áustria. Se eu lhe disser: a investigação que faz não tem impacto, eu não estou a dizer que é uma má investigadora, eu não estou a dizer que é uma pessoa má, eu não estou a dizer que é uma pessoa sem valor. Estou apenas a dizer que a investigação que faz não tem o impacto que poderia ter. Mas se tomar isso como um insulto à sua pessoa, obviamente que toma uma atitude muito mais defensiva do que tomaria se percebesse que a pessoa, Nuno Malo livre, sou eu, com os meus defeitos e as minhas virtudes. Aquilo que eu faço, o livro que eu escrevi, se me disserem: "O meu livro é uma porcaria", eu digo: "Olhe, explique-me onde é que acha que eu poderia melhorar". Até porque nesta vida, quem achar que já está no ponto certo, eu acho que é quem está mais longe. Eu acho que estamos todos sempre a aprender e este livro provavelmente tem muita coisa para melhorar, e ainda bem.
E já está a pensar no próximo?
Não, confesso que neste momento estou a pensar como é que vou sobreviver à sequência de entrevistas que tenho de fazer.
Esta é apenas uma de muitas. Já que o Nuno estava a falar do livro, o que é que pode desvendar um bocadinho mais acerca do livro? O que as pessoas podem esperar?
As pessoas podem esperar perguntas que vão de tudo até tudo, que vão da natureza, dos sapos verdes até aos mosquitos, que picam umas pessoas mais do que outras.
Olhe, é o meu caso.
Vão de fazer mousse de chocolate só com chocolate e água, até se é possível usar água como combustível para um carro. E são perguntas que vêm de pessoas como nós.
Eu ia lhe perguntar se eram dúvidas do Nuno ou se foi recolhendo das pessoas à sua volta ao longo dos anos.
Vou admitir que a do buraco do ozono é uma pergunta minha já há muito tempo.
Já que o livro é seu, tem que ter lá alguma coisa da pessoa.
Uma perguntinha minha. Mas as outras são perguntas que vêm, em parte de familiares e amigos, mas em grande parte de pessoas que não me conhecem de lado nenhum. É uma das coisas que eu acho mais fascinantes, é quando a pessoa aparece um bocadinho nos média, e o país não me conhecia. Quando eu apareci um bocadinho nos média, dei umas quantas entrevistas, apareci umas quantas vezes na televisão, a famosa grande entrevista na RTP, as pessoas começaram a escrever e-mails. Foram à procura na internet, encontraram o meu endereço de e-mail na Universidade de Viena e escreveram-me e-mails. Pessoas que não me conheciam de lado nenhum e que eu provavelmente nunca conhecerei em pessoa. E que nesses e-mails, muitas vezes colocavam perguntas. Algumas pessoas a quem eu respondia, depois começavam a estabelecer uma espécie de comunicação. Desde já, o meu pedido de desculpas a quem me escreva um e-mail e não obtenha resposta rapidamente, porque são muitos. São muitos e nem sempre é possível eu fazer o meu trabalho de investigação e de aulas e ainda conseguir dar vazão a toda das coisas. Eu tento responder a todas, demoro é um bocadinho. E às vezes estabelece-se uma comunicação que depois resulta em perguntas como estas: "Ó professor, já pensou porque é assim e porque é que não é assado? E acha que seria realmente possível termos um combustível amigo do ambiente?" E não gostava de investigar, eu até acabei de falar disso, porque as sequoias gigantes, que têm 150 m de altura, conseguem transportar água desde as suas raízes até às folhas lá em cima. Transportar água a 150 m, não é mau. Se calhar nós podíamos aprender como é que elas fazem isso pra replicar esse tipo de mecanismo nos prédios. E são perguntas de curiosidade desprendida, que eu chamo a curiosidade mais essencial e mais fundamental que se possa imaginar. E isso foi talvez a maior surpresa que eu tive. Que as pessoas escrevam e-mails é uma surpresa enorme, que as pessoas fiquem impressionadas com as balelas que eu digo em entrevistas, é ainda mais impressionante, mas que as pessoas façam prova da sua curiosidade, porque parece que aquelas perguntas estavam ali guardadas.
Acho que as perguntas que o Carlos sentiu isso, também de alunos.
Os alunos colocam as perguntas mais difíceis, aliás. Eu acho que quanto mais novo se é, menos limites.
Voltou a sentir-se outra vez na última fila.
Menos limites há, há menos aquela noção de: "Isto é impossível. Isto é um disparate". E pergunta-se tudo. Por isso é que as crianças também costumam colocar as perguntas difíceis.
O Nuno estava a falar disso, eu estava a lembrar-me, porque as crianças são mesmo assim, colocam essas perguntas sem qualquer medo de: será que esta pergunta faz sentido ou não faz?
Não estão sequer à espera do julgamento.
Exatamente.
Coisa que na universidade acontece imenso. Acho que não há nenhum aluno universitário que não diga: muitas vezes aconteceu-me ter uma pergunta na cabeça e não a colocar por medo.
Pois.
E depois às vezes há um colega que coloca exatamente a minha pergunta e o professor diz: "Uma excelente pergunta". E eu só digo: "Exato!"
Acho que todos nós já passamos por aí. Há pouco o Nuno estava a falar precisamente das alterações climáticas. Por exemplo, como poderá a química ajudar o mundo nesta questão?
A química tem certamente um compromisso muito grande com as alterações climáticas, porque, para todos os efeitos, as alterações climáticas resultam de uma desregulação de certos compostos químicos na nossa atmosfera. Ou seja, se um dos grandes problemas é o aumento da quantidade de CO₂ na atmosfera, o CO₂ sendo uma molécula química, eu não vejo ninguém melhor posicionado do que um químico pra tentar perceber como é que se retira este CO₂ da atmosfera de maneira produtiva e eficiente. No livro, há muitas perspetivas interessantes para resolver, ou pelo menos para tentar minorar os problemas das alterações climáticas. Um dos grandes problemas, talvez razão da nossa sociedade capitalista, são precisamente a viabilidade económica. Há ideias fabulosas, muito boas, que simplesmente não vão mais adiante porque alguém fez um cálculo e percebeu: isto nunca vai dar lucro E, na verdade, se pensarmos nas questões dos plásticos, os plásticos ganham porque são um material fantástico. Não há melhor maneira de empacotar alimentos e de permitir transportar alimentos a grandes distâncias do que o plástico. No dia em que quiserem substituir o plástico, têm que encontrar uma coisa alternativa que economicamente faça sentido, para que quem não quer saber do ambiente para nada, infelizmente, seja quase que convencido a mudar, porque percebe que tem a ganhar.
Sim.
E é isso que é uma das grandes dificuldades, porque fazer este tipo de mudança já não é fácil, ter a ideia e desenvolvê-la já não é nada fácil. Conseguir desenvolvê-la ao ponto de ser economicamente vantajosa é dose. Agora deixei-vos assim
Não. Dá que pensar. Não estamos perdidos. Mas é verdade, é que infelizmente passa tudo mesmo a partir do momento em que fica rentável, aí é que as pessoas começam a avançar. Já que estávamos a falar de química e eu que sou uma pessoa muito apaixonada. O amor é ou não é química?
Só não é. Claramente, o amor é um despoletar de certas hormonas, de certas moléculas, quando se vê a pessoa amada. Não é mais do que isso. No livro está também uma certa explicação.
Afinal é tão simples.
Não é nada simples. O problema é: nós conseguimos mais ou menos perceber quais são os fenómenos e quais são as moléculas, e eu explico no livro quais são as moléculas e em que quantidades e em que condições. Os porquês é que permanecem um bocadinho misteriosos. Por que é aquela pessoa e não a outra que desperta em nós esse sentimento? Isso é que seria interessante. Por isso é que havia aquele famoso livro, livro que deu filme, "O Perfume".
Sim.
Seria interessante conseguir ter uma substância química que despoletasse, em relação à pessoa que a transporta, sentimentos semelhantes ao amor. Mas isso eu acho que ainda estamos longe. E se calhar, ainda bem.
Sim, vamos deixar aí no mistério.
Eu, apesar de ser um cientista convicto, há coisas que não tem mal nenhum ficarem assim um bocadinho no domínio-
Do mistério.
Do mistério. Da magia.
Exatamente. E onde é que leva a curiosidade? Onde é que o leva a curiosidade, Nuno?
A curiosidade leva-me, por exemplo, a tentar perceber até que ponto é que em Portugal nós não seríamos capazes de reinventar a agricultura. Eu tenho já falado disto algumas vezes em algumas entrevistas, mas a agricultura como a concebemos é: entra semente, cultiva, colhe fruto, seja o que for, e vende. E neste processo há uma série de oportunidades perdidas, em que no processamento do alimento, se geram compostos químicos que muitas vezes vão para o lixo. O exemplo clássico é o do tremoço, de que eu já falei muitas vezes em várias entrevistas, mas não é uma coisa que tem que ser exclusiva de uma colheita. Se pensar, por exemplo, no cultivo da azeitona e na produção de azeite. Não sei se já foi alguma vez a um lagar de azeite ou se passou lá perto, porque entrar é capaz de ser complicado. Passa-se lá perto e sente que está ali um lagar de azeite. E portanto, isto são libertações de compostos químicos que cheiram mal, no processamento das azeitonas e no tratamento da azeitona. Por que não se tenta fazer disso uma oportunidade? No fundo, eu acho que a química está numa fase da sua maturidade e da sua compreensão, em que se calhar nós podíamos começar a olhar para tudo aquilo que deitamos fora e tentar ir à procura de oportunidades de o reaproveitar, com base em princípios químicos, e fazer disso material de valor acrescentado. Eu acho que, por exemplo, na agricultura, Portugal tem uma oportunidade muito grande em certos cultivos, em certas colheitas, de eventualmente ter uma agricultura que eu chamaria 2.0, que é uma agricultura que não é só fazer o produto final e vender, mas tentar criar uma cadeia. Estou agora a falar como os CEOs das startups. Uma cadeia de valor em que se possa eventualmente valorizar estes produtos secundários, estes efluentes.
Também é semana do Web Summit, vale. E aqui fazer uma ponte longa, mas que é uma palavra sempre utilizada a quem não vive em Portugal, que é as saudades, e se alguma coisa a faria voltar. Não sei se um grande projeto agrícola 2.0.
Olhe, vou-lhe confidenciar que a minha mulher, que é sérvia, adora Portugal e está farta de dizer: "Quando é que a gente se muda para Portugal? O que nós estamos a fazer na Áustria?" De que ela gosta, mas gosta menos, porque o clima não é o nosso, porque a comida não é a nossa e porque as pessoas também não são as nossas. E essas três coisas fazem muita diferença em Portugal. E eu digo-lhe sempre: "Podemos vir para Portugal, tu arranjas cá um emprego e eu venho à reforma. Reforma antecipada". Desde que nos haja um emprego que dê para pagar para os dois. Sabe que nunca me foram feitas ofertas, nunca me foram feitas propostas para eu voltar para Portugal. Não sei se bem, se mal, é o que é. Sou professor convidado em duas instituições. Mantenho com prazer e com afeição os laços ao país. Se seria capaz de voltar, teria que depender muito do projeto em questão, do convite em questão, mas em algumas coisas, se calhar agora vou ser um bocadinho politicamente incorreto. Às vezes é melhor estar lá fora e não fazer concorrência direta a ninguém aqui. E vir quase que uma pessoa que traz um valor acrescentado de tempos a tempos, e depois vai-se embora. Do que se calhar, voltar mesmo para o ecossistema, passar a estar em concorrência com todas as pessoas que aqui estão E se calhar podem se gerar ali sentimentos menos. Porque agora, neste momento, é sempre com muitos braços abertos que me recebem e eu gosto disso. E teria que se pensar muito bem se é possível melhorar para além disso ou se iria piorar com uma mudança definitiva para Portugal.
E o facto, por exemplo, o Nuno estava a dizer que nunca teve nenhum convite, o deixa triste? Ou pelo menos a questionar o porquê?
Não.
Ou já deixou em tempos.
Não, o que me deixaria triste era se o meu país não soubesse quem eu sou. Porque a pessoa, por outros efeitos, faz o melhor que pode lá fora ou tem uma série de reconhecimentos, de prêmios e de coisas. E na verdade, o país nem sequer tem uma ideia de que há esta pessoa que faz este trabalho, nesta área, que está lá fora e que pode ser uma mais-valia para o país. Há pessoas, neste momento, temos muitos projetos em colaboração com Portugal, em que as pessoas vão de Portugal para a Áustria, passam lá um mês, dois meses, três meses e regressam. Eu acho que com isso quem ganha é o país. O não saber quem eu era é que me deixava um bocadinho mais triste, não porque eu quero uma fama qualquer, uma popularidade qualquer, mas porque me sentia como há um desperdício de algo em que o país investiu. Eu vivi 23 anos em Portugal, fez agora há pouco tempo 20 anos desde que me expatriei, 22 anos e meio em Portugal e o país investiu, pagou sabe-se lá quanto dinheiro a fundo perdido, para as minhas aulas na escola preparatória, secundária, na universidade, e não recolhe nada de volta. E neste momento, sinto que pelo menos algo disso está a ser retribuído. O livro, este segundo livro, este tipo de abordagem em que permite-me se calhar ter uma contribuição pequenininha para a apreciação que os portugueses têm pela ciência.
Não sei se será assim tão pequenina.
E estas interações com colegas e com universidades, em que realmente se gera mais-valia para Portugal. Eu acho que quando as pessoas saem daqui e vão ver uma realidade diferente lá na Áustria e voltam, trazem algo que não teriam se não tivessem ido.
Ia fazer a pergunta a Cristiano Ronaldo, que é: é possível sair do técnico e ser o melhor do mundo? É uma universidade que já deu um secretário-geral da ONU também. Ou seja, existe essa necessidade, como o Nuno já referiu, ou deve existir essa necessidade de experimentar outras coisas e sair da zona de conforto. Mas é possível ser o melhor do mundo, lá está, no limite, partindo de uma formação em Portugal, na sua área.
Espero que não esteja a perguntá-lo na ótica de que eu seja o melhor do mundo, porque não sou, estou longe disso. Mas é claramente possível, com a formação de base de Portugal, sair. Eu acho que depende de cada um. Sair do país e ir à procura. É preciso ter muita sorte. É preciso as coisas certas acontecerem nos momentos certos.
Claro.
Uma grande parte de eu estar onde estou resulta de um congresso, já contei esta história várias vezes. De um congresso em que um senhor passou à frente do meu pôster e em que eu o agarrei. E se aquele senhor não tivesse passado à frente daquele pôster, nunca teria sabido quem eu era, nunca teria, três anos mais tarde, enviado um e-mail a perguntar se eu queria concorrer para umas posições no Max Planck, nunca teria sido grupo líder no Max Planck, e esse mesmo senhor ganhou o Prémio Nobel da Química o ano passado. Portanto, ali naquele momento, em 2005, eu conheci uma pessoa que 16 anos mais tarde ganharia o Prémio Nobel e que ficou a saber quem eu era, lá está, saber quem eu era numa ótica de: "Vamos dar a esta pessoa uma chance". Que se calhar não teria aparecido daquela maneira.
Mas é o fator sorte e é também o fator de ir atrás e de querer. Portanto, há aqui uma série de pontos. Estamos mesmo na reta final, mas antes queria fazer-lhe esta pergunta, Nuno. E o Nuno ainda toca piano?
Sim.
E se a nossa conversa aqui na Rádio Observador tivesse uma banda sonora, qual seria?
Seria, agora vou ter que ir à procura. Seria o estudo de um senhor ucraniano chamado Nikolai Kapustin, chamado "Intermezzo".
Pronto, muito bem. Eu pensei que ainda ia falar de Bach, que eu sei que tem uma admiração.
Gosto muito de Bach, mas neste momento, se tivesse aqui um piano nesta sala onde nós estamos, eu sentava-me e tocava essa peça.
Fica prometido para uma próxima, Nuno. Eu não me vou esquecer. Nuno, muito e muito obrigada por ter estado aqui na Rádio Observador. E de resto, não se esqueça que o livro já está à venda, "Como Desvendar o Quebra-Cabeças da Origem da Vida", 27 questões fundamentais sobre a natureza, a tecnologia, a alimentação.
Agora são só 26, porque já respondi.
Já respondeu dos sapos. Pronto. Mas vamos partir do pressuposto de que se calhar algumas pessoas não apanharam. Pronto. 27. Nuno, muito obrigada e até à próxima.
Até à próxima. Muito obrigado.