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Eu acho que a maternidade eu vejo como a maior viagem que nós podemos fazer como ser humano. Tu deixas de olhar para ti, para o teu ego, para a tua pessoa que vieste a construir durante estes anos todos, é assim que é, e de repente tu chegas a uma fase da tua vida que tu tens de partilhar isso. Tens de partilhar o teu conhecimento, tens que te redescobrir. Tu começas a ver naqueles pequeninos um bocado espelho. Então começas a perguntar quem tu és. E eu tenho uma premissa: tentar ser uma humana digna de ser repetida, de imitação.

Isso é ótimo.

Ser um adulto digno de imitação, é sempre o que eu penso.

É daquelas pessoas que têm graça sem fazer esforço, que entram na sala ou no ecrã e nos fazem sentir que estamos a falar com uma amiga. Atriz, mãe, mulher em construção e agora também arquiteta dos próprios sonhos, com direito a obras, algum caos pelo meio, mas sempre com tempo para contar uma história à Amélia ao final do dia. Da ficção ao teatro da vida real, ela mostra-nos que pode ser forte, delicada, intensa, leve, tudo isto ao mesmo tempo. E talvez seja isso que a torna tão próxima e querida de tantos portugueses. Sara Prata, sê muito bem-vinda ao "40 Minutos".

Muito obrigada, João. Estava aqui na expectativa do que sairia das tuas palavras e maravilhoso, não podia referir melhor ou enquadrar-me assim melhor, definir a minha pessoa, não encontraria melhores palavras do que tu.

Olha, isso é muito bom, mas é a visão que nós temos enquanto pessoas que te veem, tanto nas redes sociais, no teu trabalho, nas entrevistas que dás. Eu estava aqui a dizer em off que eras uma das convidadas que queríamos há muito tempo receber, porque tu és, de facto, uma pessoa que cria uma empatia muito especial no público. As pessoas gostam realmente do teu trabalho, gostam realmente de ti. Como é sentir esse amor todo que te chega, muito através de redes sociais, das pessoas que te encontram na rua e agora também muito pelo projeto em que estás, o fantástico.

Exato. Eu digo sempre que sou uma sortuda, que de facto eu sinto mesmo esse carinho da parte do público que acompanha o meu trabalho. Ao longo dos anos nunca senti algum medo, algum receio ou algumas palavras mais duras. De facto, eu recebo muito esse carinho. É bom fazeres-me pensar que eu também, se calhar, tenho uma quota parte nisso, que também cultivo essa verdade para com o público que me segue, que me vê, que me acompanha. Então depois eu também acabo por receber aquilo que se calhar dou um pouco e fico muito feliz com saber isso, que de facto, ao longo destes anos, que já vão sendo alguns, de facto tenho conseguido cultivar essa relação próxima com aqueles que me acompanham. Isso é maravilhoso, é tão raro, neste mundo é mesmo raro.

Eu falava aqui na introdução, arquiteta dos próprios sonhos, casa nova, como é que está esta saga? Já houve discussão, por exemplo, para perceber onde é que vai ficar o sofá na casa nova?

Não, acho que a Amélia resolveu isso muito facilmente. Sim, ela é ótima arquiteta de interiores. Ela disse logo ali onde é que as coisas iam ficar, portanto facilitou uma grande tarefa. Mas obras é sempre um desafio gigante. Nós de facto temos a JCC conosco a fazer esta obra, mas eles acabam por ser amigos. O Fábio na brincadeira já diz: "Sara, estás proibida de ir ao Pinterest, está bem? Nunca mais vais ao Pinterest".

Porque são ideias novas todos os dias.

Claro, nós temos aquela listinha perfeita do mundo da ficção. "Eu queria isto assim, eu queria isto assado". Depois vem a obra e de facto a realidade é mais pura e dura, mas acho que está a ficar assim perfeito ou quase. Eu por lá já não aguento mais, porque esta coisa da obra, esta expectativa, é muito engraçado veres uma coisa que projetaste, que sonhaste a ganhar corpo. Só que depois vem a outra parte, a parte em que não estás na tua casa, que não tens a tua rotina, ainda para mais quando temos miúdos pequenos. É giro porque me está a fazer assim quase uma viagem interior, a perceber que de facto, quando nós cultivamos o nosso espaço, a nossa casa, representa mais do que quatro paredes, a nossa energia, a forma como o sol entra na nossa casa, o facto de chegarmos a casa e metermos música ou não metermos música. Nós nem nos apercebemos que essas rotinas simples é que de facto nos moldam como pessoas e a forma de nós estarmos na vida. E quando tu tens esta situação positiva, que é estares a remodelar e a reconstruir uma casa e tens de ir para outra casa que não é a tua, de repente é que te apercebes do valor que essas rotinas diárias afinal têm para ti e para a tua vida. Acabas por significar aquelas coisas fúteis que nem dás valor no dia a dia. Então está a ser ao mesmo tempo uma viagem interna muito engraçada e intensa.

Isto está-te a preparar para algo novo, não é? Uma casa nova.

Curiosa também.

Uma nova fase também do crescimento da tua filha, da Amélia.

É isso, curiosa também para ver o que é que esta casa vem despertar na nossa dinâmica familiar. É mesmo giro como nós, seres humanos, nos adaptamos aos espaços onde estamos e tornamo-los nossos de uma forma que nós nem reparamos. Então estou curiosa para ver que novas histórias é que vão ser construídas ali naquelas paredes. Isso é a parte mais gira.

Certamente muito felizes. Quero também ir aqui para uma altura muito feliz da tua vida, a tua estreia na TVI, que foi há já 20 anos. Mas antes tu ainda participaste numa novela em 2003 na RTP. Foi aqui a tua estreia, depois já estás há 20 anos na TVI. São 20 anos.

20 anos, é uma loucura.

Estes números trazem, quando pensas nisso, não sei se também pensas nisso no teu dia a dia ou quando estás a trabalhar, se calhar essa questão vem mais ao de cima. Mas tu relativizas essa questão do número ou do passar do tempo? Como é que tu geres essa questão?

Dizem que quando chegamos à fase dos 40, que há quase uma retrospectiva sobre a tua vida.

Tu assumes-te como uma quarentona feliz.

Sim, sou. A parte do quarentona ainda estou a perceber até onde é que encaixa.

Ainda estás no início também.

Sim, porque na realidade é assim: "Ei, espera aí, como é que nós chegamos aqui tão depressa?" Porque havia uma perspectiva da vida, os 40 são lá à frente. Isto foi num piscar de olhos que chegamos aqui a este meio da vida, será? Não sei muito bem se podemos considerar ou se isso tem importância, percebermos que estamos a meio da vida. Mas é um bocadinho essa retrospectiva rápida, são flashs que tu pensas: "Mas eu ainda ontem estava a sonhar o que eu queria ser e de repente hoje já estou consolidada na vida?" É estranho. Ainda há tempo para fazer tudo. Então é um meio-termo que faz com que tu comeces a olhar para trás e te apercebas disso, que se calhar a tua carreira começou há 20 anos, mas de repente pensas assim: "Está bem, mas eu ainda posso fazer tudo, porque eu ainda não fiz nada". E vais tentando perceber se de facto estes 20 anos representam o quê? Ainda falta muito ou já vivi muito? Então ando nesta incerteza do que esses 20 anos significam. Sinto que, por exemplo, houve um momento que me marcou, porque eu saí de casa aos 15 anos para estudar teatro em Cascais. Deixei Setúbal, os meus pais, a minha família para trás. E lembro-me quando fiz 30, isso foi muito forte para mim.

Achas que os 30 bateram mais do que os 40?

Acho que sim. Eu senti um bocadinho assim: "Eu vivo sozinha há tantos anos quantos aqueles que vivi com os meus pais". E então tu sentes que enquanto estás com os teus pais, de certa forma estás em construção. E quando sais sozinho, de certa forma já estás responsável sobre os teus próprios atos. Isso teve muito impacto em mim. Do: "Eu estou há tantos anos a cuidar de mim, como os meus pais tiveram a oportunidade de cuidar de mim". Isso teve bastante impacto. Agora eu já estou nesta fase do: "Eu fui mesmo responsável por todas as fases da minha vida".

As mais importantes, as de grandes decisões.

Sim, e é tão bom sentires isso de prova superada, talvez, ou coisas menos boas que hoje em dia tu já consegues olhar para trás e ter uma visão diferente, como aquilo te moldou. Isso também é muito interessante, tu conseguires já quase observar quem é que foram estas Saras todas que viveram estas fases todas. Curiosa também para ver o que aí vem. Então eu estou a gostar desta quarentona.

Diz-me uma coisa, estávamos aqui a falar dos teus pais. Tu tiveste uma infância muito livre, muito ligada ao campo e fazes também por isso, até com a Amélia, que ela possa ter todas as experiências possíveis. Queria te perguntar que memórias é que tu guardas da tua infância e assumir, claro, acho que te levam para um lugar muito feliz.

Muito feliz. Levam para um lugar precisamente livre. E acho que isso hoje em dia é o maior luxo que nós podemos ter. Eu vivo a vida dessa forma. É de facto onde eu me sinto feliz, equilibrada, justa até para comigo, porque no dia a dia, na correria da cidade, muitas vezes nós começamos a sentir que estamos a falhar com qualquer coisa, porque chegamos atrasados, porque não fui ao supermercado comprar aquela fruta que queria. Ou seja, tudo é uma exigência gigante, coisas mundanas.

Parece que andamos sempre a correr contra o tempo, não é? Por mais que estejamos a tempo ou pontuais.

Às vezes pergunto-me assim: estamos a correr para onde? Tu sentes assim: mas a vida está a passar no meio dessa correria, portanto, nós queremos ir para onde? Para o fim do jogo? É que o fim do jogo não há mais nada para fazer, não é? É o fim. Portanto, para onde é que nós corremos? E o campo, e neste caso, quando conseguimos ir para o Alentejo, porque também não vivemos lá. Lá eu vou para o meu modo pausa, para o meu modo de observar, cheirar, respirar, brincar, comer.

Come-se tão bem no Alentejo.

Sim, e tudo tem mais tempo, ou pelo menos eu vou para lá com mais tempo. Isso acaba por ter um impacto em mim muito positivo. Por isso é que eu me sinto que aí sou mais justa para comigo, porque não tenho uma carga tão grande em cima e permite-me a ser mãe e permite às crianças, no caso da minha filha, a ser criança, que foi precisamente isso que eu vivi. A minha infância, o que mais me transmite ou aquilo que hoje em dia como adulta eu consigo olhar para trás, foi a liberdade permitiu-me sonhar, criar, imaginar, ir para além daquilo que eu estava a viver. Quando eu ia passear no campo sozinha com os meus cães, eu não ia só passear sozinha com os meus cães. Cada flor eu fazia uma história, cada nuvem eu imaginava um contexto. Permiti que a minha mente fosse para além daquilo que estava à minha frente. Hoje em dia, vivendo nesta sociedade, correria. Ainda para mais, se formos para o assunto um bocadinho controverso e tóxico, são os ecrãs e tudo mais.

Já lá vamos falar sobre isso também.

Ok. Nós não permitimos que a criança seja livre na sua Liberdade da mente, que é o que nós hoje em dia mais precisamos trabalhar.

Estimular nas nossas crianças.

Sim, estimular. E tu não precisas de estimular, isso está lá tudo nelas. Tu tens é de te permitir viver isso. Por exemplo, no apagão, uma das coisas que mais disseram foi: "As crianças estavam na rua a brincar". E eu só tenho vontade de dizer: malta, elas não vão todos os dias pra rua brincar porque vocês não as levam. Naquele momento, todos os pais decidiram: "Não vou ficar fechado em casa com os putos."

Sem nada pra fazer.

Exato. Vamos levá-los pra rua, vão brincar. Sim, isso é possível todos os dias.

Tu nesse dia sentiste à frente toda a gente a pensar do gênero: mas eu já faço isto.

Não. Olha, é engraçado, isso despertou em mim qualquer coisa aqui dentro que eu não percebi muito bem de onde é que aquilo veio, mas eu fiquei pronta pra tudo e mais alguma coisa. Eu preparei a casa pra tudo, eu imaginei todos os cenários na minha cabeça e resolvi-os a todos. Portanto, eu não estava nervosa nesse dia, mas imaginei tudo e resolvi tudo. Eu arranjei cama pra mais de 20 pessoas, eu arranjei alimento e já fiz as receitas pra três meses. Eu fiz o drama na minha cabeça e resolvi.

Estás preparada pra tudo, no fundo, que possa acontecer.

Pra tudo, qualquer pergunta eu já tenho a resposta, porque eu pensei em tudo. No dia a seguir, eu estava exausta.

Pois acredito.

Claro, fiquei uma semana a recuperar de tantos cenários que eu fiz na minha cabeça a tentar resolver. E é isso mesmo que eu sou. Ali eu pensei mesmo assim: Sara, isto é a imagem daquilo que tu és. Aquilo que eu imagino, meu Deus, o que se passa dentro desta cabeça é um mundo, de facto. E se calhar vem daí, dessa infância, que me permitiu imaginar tudo o que eu quis.

Criar tantos cenários na tua cabeça.

Sim, eu pude ser tudo o que quis. E por isso é que pude ser atriz. Se os meus pais vivessem nessa caixa fechada, na altura que foi, não me permitiriam sair de casa com 15 anos e ir estudar. Portanto, eles são, eu digo sempre, os meus primeiros grandes heróis da minha vida, foram eles que disseram: "Podes ir". Isso foi tudo na minha vida.

Tu adoravas ginástica, tu dançavas, cantavas, querias ser criadora de cavalos, ser atriz. Foi uma forma de alocar isto tudo.

Tudo.

Porque eu estou me a lembrar agora, tu tiveste uma novela.

Certo.

Que até tiveste contacto com cavalos, ou estou errado?

Com cavalos. É Belmonte. Todos tivemos contacto com cavalos.

Já está aqui tudo desenhado.

É muito engraçado, é porque depois se eu fizer essa observação de mim e da minha criança, de facto, atriz, eu posso continuar a ser tudo o que eu quiser ou aquilo que me permitirem ser, porque as personagens têm esses mundos escondidos e nós vamos explorando. Agora ser isto, agora ser aquilo. E de facto, ao longo da minha carreira, eu já pude ser bailarina, criadora de cavalos, não, mas andei lá perto. Pude ser tanta coisa e posso continuar a ser. Então, sim, é muito engraçado eu pensar nas mil coisas que eu sempre quis ser e queria ser com toda a convicção. Fazia logo, mais uma vez, todo o plano de ação pra poder ser bailarina, pra poder ser criadora de cavalos, pra poder ser tudo.

Tu estudaste na escola do Mestre Avilez, de onde já saíram grandes atores. Tu és uma delas, inclusive. Como é que tu recordas essa fase descoberta? Muita gente estuda teatro e vai estudar, mas depois até acaba por ter um pouco de desilusão, porque acaba por não corresponder. O que tu sentiste nessa altura acabou por corresponder às expectativas, àquilo que tu idealizavas e que querias?

A escola? Ou pós a escola?

A escola.

A escola. Olha, eu sinto que, de facto, eles me formaram. Eu tenho pra comigo ainda hoje uma lição que pra mim, se calhar, se eu tiver que resumir, foi isso que eu mais ganhei, que é a ética profissional, que hoje em dia, às vezes, está um bocadinho perdida e esquecida. E de facto, eu lembro-me que isso foi a grande ferramenta que eu levei pra comigo. O respeito pelo outro, o respeito pelo texto, pela profissão em si, a dignidade de mim como ator, não aceitar tudo, não me permitir a tudo, mas também estar disponível para me entregar às personagens de corpo e alma. Então permitiu-me essa viagem quase interna. Eu era muito miúda. Eu hoje olho pra trás e se calhar tive algumas frustrações como pessoa, como atriz. Referências, imagina, referências a textos. E tinha colegas da minha turma, claro, o Fofofó, não é? E eu: "Eu não faço ideia quem eles estão a falar". E na altura: "Sim, eu sei muito bem o que é o Xoxoxo". E não sabia. Então isso vai me criando assim alguns buracos. Hoje em dia eu penso assim: coitada, tinha 15 anos, 16, era uma miúda. Na realidade, a escola de teatro veio me quase formar como pessoa. E o mestre Carlos Avilez, teve-me sempre debaixo da sua asa. Isso é tão bonito perceberes ou eu sentir que, de facto, eu estou pra o teatro. Foi o teatro que me formou, que me criou como pessoa. Eu fui protegida por todo aquele monstro do que era fazer teatro e toda a dignidade que eu precisava de entregar a um texto, ele veio quase por dentro de mim. Construiu-me do interior. Isso é uma coisa que não perdes nunca, nem é palpável, é pra lá do material, é algo que ficou dentro de mim. Então, às vezes, por mais que eu pense assim: eu agora vou escolher outra profissão, porque esta é muito instável, insegura, eu vou escolher outra coisa. Não faço ideia.

Tu não te imaginavas neste momento a fazer outra coisa que não isto?

Eu acho que eu posso fazer tudo.

Ser atriz.

Eu acho que eu posso fazer tudo. Eu tenho capacidade pra me entregar a qualquer projeto ou a qualquer desafio da minha vida e agarrar-me com unhas e dentes, eu vou fazer. Agora, este lado de ser atriz é que eu não consigo tapar nunca.

A questão da realização profissional.

Sim, e pessoal, quase. É essa a grande diferença, por isso é que a escola pra mim não foi um fracasso Eu não estava à espera de algo. Eu fui disponível para ver o que aquilo trazia e trouxe uma mudança gigante na minha vida. Veio construir um pilar que me mudou para sempre. Às vezes eu penso, olho para trás e digo: "Que engraçado a minha vida, se calhar não era para ter sido isto". Eu, de facto, virei ali à direita e tudo isto veio construir tudo aquilo que eu fui daí pra frente, como pessoa, como colega, como profissional, como atriz, tudo. Isso é muito engraçado, sentir que três anos da tua vida, que foi o tempo do curso, de facto, podem te moldar para sempre.

E nós já vamos falar desse caminho, dessa estrada em que viraste à direita. É já a seguir. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com a Sara Prata. Até já. Segunda parte do "Em 40 Minutos", continuamos a conversa com Sara Prata, ou melhor dizendo, já sabe o que eu vou dizer.

Becas.

A eterna Becas.

A eterna Becas.

Ela só hoje não veio com a crista, deixou em casa. Deixou as tintas do grafite também em casa.

As luvas.

As luvas. Há tantas memórias deste tempo. Eu era muito pequeno nesta altura, tinha cerca de sete anos, mas lembro-me desta personagem e sei o quanto te marcou também e o quanto marcou também as pessoas, porque há pessoas que ainda te tratam por Becas.

Por Becas na rua e eu às vezes fico assim: "Mas como é que tu sabes?" São crianças tão pequeninas, e eu: "Como é que sabes?" "Estou a ver no canal não sei o quê." Vão repetindo os Morangos pelo mundo afora. E é tão engraçado como uma coisa que foi feita há 18 anos. Nós andamos sempre agora à procura de conteúdos que os miúdos se identifiquem, que o público goste. E de repente, estamos a falar de um projeto que tem 18 anos.

Eu acho que nós estamos a viver aqui uma, não sei se concordas.

E que os miúdos adoram. Como é que é? A linguagem era totalmente diferente.

Uma nostalgia.

Nós dizíamos coisas que hoje em dia era completamente impossível serem ditas. Mas a verdade é que os miúdos continuam a identificar. Será pela nostalgia?

Eu acho que sim.

Talvez seja. Ou curiosidade de viver uma coisa que hoje em dia, de facto, nós-

Que lhes é distante, se calhar, percebem como é que era na altura.

Que lhes é distante. Ou de facto foi muito bem escrito e muito bem conseguido, porque era uma linguagem muito direta com o público que nos assistia. E eu, sim, sempre fui a sortuda de ter muita gente na rua a chamar-me Becas ainda hoje.

Tu consegues ver as tuas imagens de ti mesma nessa altura?

Não, nem meesso. Só de imaginar aquele corte, de facto, dá-me muito gozo. Mas ao longo da minha carreira, sempre tive essa referência à Becas e continuo a ter. E guardo isso com muito carinho. Não tenho problema nenhum em ser associada à Becas. Às vezes fiquei a pensar assim: "A sério, esteve mal? Será?" Porque às vezes, ao longo da minha carreira, eu tenho muito orgulho no percurso que fiz e que continuo a fazer, e tenho muita curiosidade para ver tanta coisa que ainda posso ir a fazer. Mas às vezes fico assim: será que ser Becas foi um problema para alguém? É porque para mim, em termos profissionais, não foi.

Exato.

Mas às vezes fico a pensar: será que a Becas ainda está tão presente em algumas cabeças deste mundo que acham que eu ainda estou lá?

Sim.

Porque a verdade é que eu, como mulher, como pessoa, como atriz, sinto que evoluí bastante ao longo destes anos, que já me distanciei bastante daquela atriz que fez a Becas. Mas às vezes ainda fico a pensar: será que isso foi positivo ou foi algo que pesou, eu ter sido Becas? Não sei. Mas eu guardo com muito carinho e vejo sempre os miúdos ainda hoje em dia continuarem a me chamar Becas.

Um dia vais apanhar a Amélia a ver a Becas na televisão.

Ai, sim, de certeza.

Como é que achas que ela vai reagir?

Vai se rir. Cômica como ela é, de certeza que vai achar o máximo.

Ainda te vai pedir para fazer uma crista.

Isso acontecer. Está bem. Olha, se pedir, eu acho que vou permitir. Eu digo sempre: cabelo é cabelo, cabelo depois cresce. Se nós pudermos nos expressar através do cabelo, está tudo bem, está tudo certo. É como um pediatra que eu sigo, muitas vezes ele diz: as bolachas nunca são um problema, porque se uma criança pequenina come bolachas, é sinal que os pais compraram. Portanto, o problema é só deixar de comprar. Se em um adolescente, o problema for bolachas, ainda bem, é sinal que não fuma, não se droga, não tem outros vícios. Portanto, as bolachas nunca são um problema. E aqui é um bocado a minha versão, os cabelos, se for essa parte de transmitir a personalidade, está tudo certo por aí, eu permito tudo.

E quem sabe por uma personagem, também pode acontecer um dia.

Sim, muitas vezes eu ouço isso. "A Amélia vai ser atriz como tu". E eu penso: coitadinha, ela ainda é tão pequenina, na realidade.

Mas eu acho que é bem provável de acontecer.

Não, na realidade.

É tão expressiva. Tão esperta, tão inteligente, porque daquilo que vemos nas redes sociais, eu acho que é uma realidade tão próxima. E depois tem a mãe, não é?

Eu às vezes tenho essa dificuldade de reconhecer isso nela, e só quando depois revejo alguns vídeos é que percebo, realmente ela é mesmo engraçada. Era tão pequenina, como ela já se expressava. Mas a verdade é que ela vive nessa realidade lá em casa. Eu sou muito expressiva ao falar com a Amélia. Eu sou incapaz de contar uma história infantil. Eu sou uma apaixonada por livros infantis. Acho mesmo que refletem mensagens muito importantes e que todas aquelas imagens, se eles se debruçarem sobre um livro, a mente deles vai por ali fora. É mesmo uma delícia. E eu quase todas as noites conto, ainda hoje, histórias infantis à Amélia.

Ou a história de boca, não é?

Ou a história de boca. Sim, tão bom teres essa referência contigo. Sim, a história de boca.

Que é uma história inventada por ti.

Por mim, todas as noites. Ainda ontem foi uma história de boca.

Era sobre o quê?

Olha, a Amélia sempre foi apaixonada por lobos e todas as noites tinha que ser uma história de boca sobre lobos. Até ao momento em que ela disse: "Mãe, agora é uma história de boca sem lobos, porque eu estou a sonhar com lobos e eu não gosto".

Coitadinha.

Então agora pode ser sobretudo menos lobos. Ontem foi sobre uma menina que comia o quê? O que eu lhe disse que ela comia? Não sei, devo ter dito por aí cenouras e rabanetes. Tenta aproveitar as histórias de boca. Sim, para sossegar, que ela agora anda mais difícil para adormecer, então as histórias de boca têm que ser algo muito mágico, com fadinhas, que é para ver se ajuda.

Para ela depois viajar nos sonhos e ficar mais descansada.

Mas já não sei de onde é que a gente veio. Livros infantis, por quê? Ah, verdade, a Amélia e a Beatriz. Então é isso, eu conto as histórias infantis e também as histórias de boca com todo o drama que isso envolve. São gestos, são vozes. E então ela cresceu sempre nesta dinâmica, acaba por absorver isso e também ela ser assim. Isso não quer dizer que ela venha a ser isto ou aquilo, não faço ideia.

Sim, pode não se confirmar.

Certo.

Mas o certo é que tem essa sensibilidade para entender essas histórias, para querer ouvir mais.

Certo.

E, portanto, isso é um ótimo estímulo.

Sim, eu acho mesmo que nós devemos fazer isto com as crianças, entregar à arte. É das coisas mais importantes no desenvolvimento infantil, essa premissa de eles poderem explorar os seus limites, a sua capacidade criativa. Eu morro de medo, não morro de medo, mas fico a pensar assim: a inteligência artificial, que agora está a ser inserida, quando chegar à idade dos nossos filhos, isso já não vai ser uma questão sequer. Nós agora é que nos questionamos sobre tudo, porque está a surgir agora, mas para eles vai ser uma realidade. E eu penso: que realidade é que vai estar em contacto com a inteligência artificial? Porque eu sinto que o problema não é a inteligência artificial, é o que vai acontecer ao humano, não à inteligência artificial, porque nós hoje em dia, preciso ter uma ideia, não sei o quê, vais ali ao ChatGPT.

Até para preparar entrevistas.

Tudo.

Ele faz tudo.

Faz tudo. E então o que isso acaba por acontecer? O teu cérebro está cada vez mais pequenino. Não se expande, não explora, não há aqueles momentos de frustração em que uma pessoa ficava a batucar aqui com a caneta. "Ai, agora uma ideia para aquilo." Vais perder esse tempo. Foi-se, já está resolvido. Ou seja, a tua cabeça, a tua mente vai definhar. Vai ficar cada vez mais pequena.

E essa criatividade pode ficar cada vez mais comprometida.

Sem dúvida. Então eu penso que nós, cada vez mais, mais do que todo o resto das tecnologias, acho mesmo que devemos estimular as nossas crianças com arte, com dança, com música, com trabalhos manuais, com tear, com pinturas, que é para ver se a mente deles vai trabalhando antes de chegar lá mais à frente, em que parece que andamos a trabalhar para bloquear a nossa mente.

Estamos aqui a falar muito da Amélia, a tua filha, que está quase a fazer cinco anos em julho. Vamos falar sobre este desafio da maternidade.

Podemos falar.

Por vezes somos, como é que eu hei de dizer, assoberbados com uma ideia, às vezes um pouco romantizada, da questão da maternidade, muitas vezes que nos chega através das redes sociais. Como é que tu encaraste essa fase? Eu tenho ideia, e é aquilo que pauta a tua conduta nas redes e até na tua vida, é a questão da transparência e da verdade. Como é que tu geriste essa fase e tentaste também depois transparecer com as pessoas que te seguem, que também gostam de ti e do teu trabalho?

Às vezes eu fico a pensar que podia ter partilhado um pouco mais a minha visão sobre a maternidade ou como é que eu enfrento alguns desafios da maternidade. E fui acabando por não o fazer, porque na realidade estava mais focada em viver, em observar a mim mesma, o meu comportamento sobre cada momento. Eu acho que a maternidade, eu vejo como a maior viagem que nós podemos fazer como ser humano. Tu deixas de olhar para ti, para o teu ego, para a tua pessoa que vieste a construir durante estes anos todos, é assim que o é. E de repente, tu chegas a uma fase da tua vida que tu tens de partilhar isso. Tens de partilhar o teu conhecimento, tens que te redescobrir. Tu começas a ver naqueles pequeninos um bocado espelho. Então começas a perguntar quem tu és. E eu tenho uma premissa que vou tentando sempre me agarrar, que é tentar ser uma humana digna de ser repetida, de imitação.

Isso é ótimo.

É, um adulto digno de imitação. É sempre o que eu penso. E então eu vejo a maternidade um pouco como assim: nós estamos a crescer juntas, lado a lado, ela na sua exploração e no seu desenvolvimento, e eu também, porque eu também nunca estive neste papel. E mesmo que tenha outro filho, nunca irei estar no mesmo papel.

Nunca vai ser igual.

Nunca.

Até porque já tens essa experiência de teres tido uma filha e tens uma realidade diferente.

Sim, e eu tenho que observar aquele ser, não é com base na outra. Então eu sinto que a maternidade é sempre este caminho de procura. Não tenho certezas absolutas de todo, mas gosto muito de pesquisar, de saber. Acho que a informação deve mesmo vir de nós. Ainda há pouco tempo estava a falar com algumas amigas sobre partos e ela estava a dizer: "Pois, porque na primeira vez eu sujeitei-me a uma série de coisas que desta vez já não, precisamente por isso, porque adquiri conhecimento e agora senti-me mais segura, mais protegida." E então eu sinto que nós, mulheres, fizemos uma evolução brutal nos últimos tempos, que assim a sociedade também nos permitiu. Tenho muito orgulho de todo o caminho que nós fizemos. E a verdade é que hoje eu posso ir procurar essa informação, absorver, evoluir. E então, para mim, e a maior dica que eu tenho para com as minhas amigas e para com todas as mães que me ouvem, é informar, é saber, é partilhar, é conversar, é não nos esquecermos dessa aldeia. E então, às vezes, eu quando partilho algumas coisas da minha filha ou quando partilho algumas coisas sobre a maternidade, é nesse sentimento de aldeia que nós devemos ter uns para com os outros, não termos medo de ajudar uma amiga Uma mulher ao nosso lado, se calhar com o nosso exemplo ou com a nossa dúvida. Porque é isso, cada fase tem o seu fascínio, tem seu encanto. E eu penso sempre nisso: eu estou a aprender também. E sempre com esse foco de ser uma adulta imitável. Então mesmo quando é bebê, eu quero lhe dar todo o carinho, todo o colo, porque é tão bonito quando depois ela cresce e de repente ela está a fazer isso ao bebê dela, àquele boneco. Está a dar colo.

Esperemos que não seja um bebê reborn.

Ai, meu Deus. Mas sabes que a Amélia teve um bebê assim um bocadinho real.

A sério?

Que pediu à minha mãe para aí há dois Natais atrás.

É que esta febre está descontrolada. No Brasil, então.

Não é? Ao mesmo tempo, tu andas a lutar por direitos de igualdade e andas a lutar pela violência contra as mulheres e andas a lutar pelos direitos do teu parto, e as crianças, e o respeito e a dignidade das nossas crianças. E lá fora, então nem vou tocar nesse assunto da guerra e tudo. E de repente anda outro mundo a brincar, a tentar dar dignidade a bonecos. Tipo: "Espera aí, malta, nós ainda temos primeira dos humanos, não é?"

Exato.

Isto está muito disperso, dá para todo lado. E por isso às vezes acabamos por não nos focar em nada, porque o ser humano lá está, nós podemos ser tanta coisa. Mas a verdade é que ela depois que teve esse bebê, e ela brincava muito com esse bebê, foi recebido no Natal e sabes qual é que foi o nome que ela escolheu? Judas. Uai, por que que ele apareceu? Não faço a menor ideia.

A criatividade não tem limites, de facto.

Não tem limites, então nós achamos muito engraçado e até hoje está lá o Judas, que ela gosta muito de brincar.

Estamos aqui a falar em off que a Amélia vai ficando cada vez mais inteligente, vai crescendo. E queria te perguntar ao nível das redes sociais, como é que tu vais gerindo essa questão? Porque muitas pessoas abordam-te na rua a dizer que adoram a Amélia, que gostam imenso de ver os vídeos. Eu sou uma dessas pessoas. Como é que tu vais gerindo estes momentos de exposição, podemos-lhes chamar assim? Porque ela vai ficando cada vez mais crescida, inteligente.

Eu vou sempre pensar que enquanto for um lugar de carinho e de amor, eu vou continuar a partilhar, porque eu vivo na vida para viver o lado feliz, para viver o lado bom. Não tenho uma maldade, não tenho uma intenção acima de nada. Então enquanto for esse lugar bom e bonito, eu vou continuar a partilhar daquilo que me for permitindo. Eu não deixo de fazer coisas no meu dia a dia porque preciso de gravar, porque tenho o telemóvel como prioridade. Não. Então, às vezes esses momentos vão sendo cada vez mais escassos, porque a exigência dela é maior e hoje em dia também já é um: "Não, mãe, o que é que estás a fazer?" E então obviamente que eu vou respeitando também esse espaço dela. Mas depois eu sinto que também é bom para ir lhe explicando coisas da vida. Se tu pensares, é muito engraçado, ela vê-me na televisão ao mesmo tempo que vê uma princesa qualquer, a Aurora, na televisão. Então ela fica assim, às vezes ela faz-me pergunta assim: "Mãe, é de verdade? Esta princesa existe ou não existe?" Porque eu também lá estou na televisão.

Tu és a princesa Sara.

Eu sou a princesa Sara. Não, eu sou a mãe. Então ela fica com este mistério de como é que a minha mãe está no mesmo sítio onde está a princesa Aurora. Vocês encontram-se, vocês conhecem-se. Então é um mundo que eu também tenho que lhe explicar pelo meu dia a dia. Por isso explicar-lhe que aquela pessoa que nos cumprimentou na rua não é uma amiga, também faz parte do meu caminho como atriz, tenho que lhe explicar tantas outras coisas. Mas eu adoro conversar com a minha filha sobre todos os outros assuntos. Então, se calhar as pessoas perguntam ou questionam-se sobre isso. Eu se calhar, provavelmente já falei isso com a Amélia e já expliquei as coisas todas, porque eu gosto de lhe explicar a vida, a vivência, os planetas, o sol, a natureza, o mundo. Está tudo bem, falar. Nós temos todos é que falar, tudo se resolve a falar. Por isso, se isso for uma questão lá mais para frente, abordamos. Se não for confortável para ela, ela também irá falar comigo sobre isso, está tudo bem.

Há bocadinho falávamos aqui da dependência dos ecrãs, das crianças que cada vez mais cedo, por vezes, têm este contacto mais direto com os ecrãs. O que te preocupa mais nesta sociedade que parece que está a tornar-se cada vez mais digital e em que a Amélia está a crescer também a esse ritmo? Se bem que há crianças que, e como tu já falaste e foste dando a entender ao longo desta entrevista, é uma questão com que tu tens muita preocupação.

Eu acho que nós cada vez estamos a ficar mais alerta sobre o malefício. Nós somos da geração em que vimos a internet chegar. Eu ainda joguei Prince of Persia. Ainda somos do tempo que ligávamos o computador, íamos tomar banho. Tive I5, íamos tomar banho e depois só quando voltávamos do banho é que aquilo quase que já estava a ligar. Nós assistimos à chegada de tudo e quisemos experimentar tudo, consumir tudo e depois vêm as consequências ou não. Eu tenho a certeza que os nossos pais também ralhavam pelo tempo que nós víamos televisão, também ralhavam com a música que nós ouvíamos, os Eminems da vida e tudo mais, também era tudo mau. Então isto é a adaptação de uma geração a ir ao encontro de outra. E por aí eu permito isso. Claro, vamos experimentar, vamos ver o que é. Mas depois também temos que fazer uma avaliação daquelas coisas que nós perdemos. E então eu não sou tanto contra os ecrãs, mas sim tudo aquilo que nós perdemos quando estamos a olhar para um ecrã. E é aí que eu valorizo. E é aí que é o meu trabalho É que ela também seja uma apaixonada pela natureza, pelo tempo, pelo aborrecimento, pelas coisas concretas, que ela não tenha só os olhos fechados num mundo tão pequenino que é o do ecrã, que nós achamos que está lá tudo, vemos tudo, até viajamos através do ecrã, mas não, eu quero mesmo que ela ponha a mochila às costas e que viaje. Então pra isso eu tenho que fazer essa vida com ela, eu tenho que ter essa forma de estar. Muitas vezes me penalizo, porque os miúdos estão no ecrã, porque nós estamos no ecrã. Os miúdos estão no iPad porque nós damos um iPad. É a mesma história das bolachas, é mais ou menos igual. Então nós temos é que primeiro cuidar de nós e olhar pra nós, pra nossa rotina. Nós é que temos que estar disponíveis a viver a vida de outra forma. E é isso que eu tento transmitir. Não há melhor forma, por exemplo, de cuidarmos do nosso planeta. Nós podemos falar, por exemplo, da reciclagem, dos cuidados que temos que ter, do aquecimento global. Tudo isso falado, entra por um ouvido e sai no outro. Então eu digo sempre: eu tenho é que lhe explicar a paixão que ela tem de ter para com a natureza e para com os bens essenciais da vida. E só se ela for uma apaixonada e se aquilo lhe fizer bem, é que ela vai querer cuidar. Nós só cuidamos daquilo que amamos.

Sim.

Ou aquilo que tem valor pra nós. Então essa é a minha forma de ver a vida, é apaixoná-la, é levar a que ela tenha vontade de cuidar. Então se ela gostar desse tempo livre, sem os telemóveis, sem os iPads, ela vai cuidar de procurar arranjar forma de esse tempo ter valor pra ela ao longo da sua vida, seja num passeio de bicicleta, seja numa viagem de mochila às costas.

Em pequenas questões, até mesmo do dia a dia.

Certo. Então eu quero, mais do que tudo, eu quero que ela se apaixone por esse lado da vida, sem os ecrãs, porque os ecrãs vão estar lá, vão ser uma realidade.

Cada vez mais.

Sim, a minha responsabilidade para com ela e com todas as crianças que estão à minha volta é: "Deixa ela pintar aqui, vê se eles não gostam, porque eles gostam." Então nós é que temos que ser os responsáveis de lhes dar a experimentar coisas. Um exemplo muito simples: a alimentação. Eu sempre fiz BLW com a Amélia, que é eles comerem com a sua própria mão, pela sua própria vontade, respeitar esses tempos todos. E depois tinha outras amigas que a sopa cai aqui um bocadinho e vão limpar. Deixa sujar, deixa agarrar a banana e esmagar a banana toda. Já viste o quão fantástico deve ser pra uma criança que nunca experimentou nada, de repente, esborrachar uma banana? Quem me dera, não é? Aquela sensação física boa. Então eu vejo a vida toda assim: não andes a limpar a boca se te sujas. Não, deixa lá esmagar a banana. E é mais ou menos essa a forma como eu própria também vivo a vida, assim por dentro das coisas.

Aqui há uns 20 segundos, sem reparares, disseste uma palavra mágica.

Qual foi?

Fantástico.

Fantástico.

Sem querer, encaminhaste-nos pra onde querias. Programa de seis horas ao domingo, e tu estás lá enquanto jurada. O que tem trazido esta experiência? Muito talento que tens visto, e trabalhar com o Manuel Luís Goucha, claro, com João Patrício, com o António e o Ali Silva, como é que tem sido esta experiência?

Olha, tem sido mesmo quase inspirador. Quando me lançaram o desafio, eu pensei: "Uau, que é isto? Espera aí, que mistura, não é? Um programa talentos, eu estou lá no meio, o Manuel Luís Goucha, mais o António, o João". Não percebia. "Tá bem, mas ok, vamos". Fui assim um bocadinho a medo, confesso. E de repente, olha, são seis horas que passam a voar. As horas que nós passamos em estúdio a gravar são muitas mais, portanto ali até vivo aquilo de uma forma leve. Nós como colegas, como equipa, como amigos que já somos. É um momento, é um dia muito bem passado uns com os outros, estamos completamente à vontade. E de repente, aquele pequeno palco torna-se mesmo uma inspiração, porque ver pessoas desde a idade da minha mãe ou mais velhas, que de repente é agora que querem agarrar a vida e fazer valer, é incrível. Ao mesmo tempo, a seguir entra uma miúda de cinco anos que dança nas horas e tu ficas a pensar: "Uau, a vida já está a ser agarrada". Ou seja, isto é uma montanha-russa de vidas, de vivências, de pessoas. Então eu acima de tudo, eu digo sempre que sou um bocadinho bicho do mato, que eu tô sempre um bocadinho fechada na minha bolha, e de repente aquele programa permite-me olhar pra o outro e reconhecer que todos nós temos uma história, que todos nós temos uma vontade.

E que há tanto talento por aí, de diversas formas.

Tanto talento, incrível. E que Portugal, de facto, é pequenino, nós queremos nos armar em grandes e gigantes, mas nós de facto somos pequeninos pra tanta gente incrível que o nosso país tem. E é isso que eu ali vejo, não é? A esperança, a felicidade, a beleza de tanto talento, tantas artes, desde as artes circenses ao fado, é tanta coisa. É mesmo uma dinâmica muito especial. E depois, claro, ter o bicho, entre aspas, do Manuel Luís Goucha todos os domingos.

Bicho aqui no sentido de elogio, claro.

Sim, claro, de elogio. Nós dizemos o monstro. Aquele nome, aquela referência que nós há pouco falávamos, que de certa forma tu tens esse nome como referência e depois começas a trabalhar no dia a dia e depois acaba por haver essa proximidade com aquela pessoa. Então, tudo isso, esta oportunidade de poder experienciar também uma outra área, que mesmo dentro do meu mundo é outra área, porque não estou ali como atriz, estou ali também a partilhar opiniões e a tentar incentivar. Mas poder estar ali também ao lado do Manuel Luís, aprender, olhar, observar como é que ele trabalha. No backstage, como é que aquilo representa.

Há histórias inusitadas, engraçadas, bastidores.

Muitas.

Vocês pregam muitas partidas uns aos outros.

Muitas.

Tu és o cérebro dessas partidas?

Sim, já estou a descarrilar um pouco, mas sou. Eu digo sempre graças a Deus que o nosso microfone não tá sempre ligado, porque é muito disparate e dava outro programa. Sem dúvida nenhuma, já os desafiei, um dia nós podíamos nos sentar assim a uma mesa, só a deixar a conversa fluir, porque é muito engraçado também apercebermos desse lado pessoal de cada pessoa. Então depois também consegues ver a mudança pra o lado profissional. E eu sou muito apaixonada pelos profissionais do meu meio, pelos meus colegas. Tenho um grande fascínio por N pessoas, adoro vê-los a trabalhar e ficar ali muito atenta a perceber como é que, de facto, se constrói esse caminho do lado profissional.

Nós podemos saber de ti todos os domingos, a partir das 14h até perto das 20h. Esperamos em breve também ver-te numa novela, porque já temos saudades.

Verdade. Já começo a ouvir isso muitas vezes. "Temos saudades". Mas eu gosto sempre de ir equilibrando cada projeto e dedicar-me. Mas sim, em breve vai acontecer.

Em breve.

Certeza, sim.

Estamos a chegar ao fim. Tenho só mais uma última pergunta. Se pudesses dizer alguma coisa à Sara Prata aquando da sua estreia no grande ecrã, pode ser nos "Brancos com Açúcar", que foi aquele grande projeto.

Certo.

E tendo em conta o caminho que fizeste desde aí, o que é que lhe dirias?

Não sei, não pensei de todo.

Tu hoje, sentada em frente à Becas.

Imagina. Não sei, mas diria qualquer coisa de: "Confia que essa tua energia é positiva e que vai te conduzir por muitos anos. Não a apagues, não a escondas, deixa sair". Se calhar tinha conseguido viver as coisas de outra forma se não estivesse às vezes a apagar a minha energia. Deixa sair, confia em ti.

E a energia realmente positiva esteve aqui ao longo de 40 minutos. Sara Prata, um grande gosto receber-te aqui. Um grande beijinho, muito sucesso em todos os ramos profissionais e para a tua Amélia.

Obrigada.

Que é a grande luz da tua vida.

É verdade.

Um grande beijinho e até breve.

João, obrigada mesmo por todas as tuas palavras e também pelo feedback que foste-me dando ao longo da entrevista. Obrigada.

Obrigado e até breve.

Obrigada, até breve.