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É músico, compositor e autor de bandas sonoras que todos conhecemos. Foi ainda criador de projetos como Sétima Legião e Madre Deus. Tem mais de 40 anos de carreira, 40 anos que contaram com várias colaborações e prêmios recebidos e recentemente ainda arranjou tempo para criar a banda sonora do mais recente podcast Plus do Observador. Hoje recebemos Rodrigo Leão em "40 Minutos". Bem-vindo, Rodrigo.

Bem-vindo, Rodrigo.

Muito obrigada por estares aqui conosco.

É sempre um prazer para mim.

Boa. Começamos com o podcast. Tu criaste a banda sonora deste "Matar o Papa". O que te levou a aceitar este desafio?

Primeiro que tudo, achei um convite muito interessante. E portanto, a partir daí resolvi aceitar, obviamente.

Não havia como dizer que não.

Porque eu acabo por fazer muitas vezes música para cinema, para teatro, para podcasts também. Penso que é saudável para mim também fazer este tipo de desafios.

Portanto, quando surgiu o convite e quando te disseram que o podcast seria sobre uma tentativa de assassinato do Papa e de um dos papas mais marcantes da história da Igreja Católica, quando soubeste da história por trás, como é que isso depois se transforma em música? Ou seja, logo na tua cabeça começas a ouvir os acordes, como é que isto se traduz para música?

Primeiro há sempre um pânico. "Mas o que eu vou fazer?" Depois de ter falado com o João Santos, percebi que o caminho a seguir era o caminho de alguma tensão. Andei ali, não sei, quatro, cinco dias à procura de ideias, das quais depois houve uma que para mim era a que fazia mais sentido. E depois acabei por trabalhar com o João Eleutério, um grande amigo de longa data, que é músico e ajuda-me a produzir praticamente todas as coisas que eu faço. E depois é um trabalho de procura de sons, de sintetizador, de fazer variações do tema ao longo dos três minutos e pouco.

Claro.

E depois acabou por ser muito interessante, porque não temos imagem, portanto não estamos presos, como em muitas bandas sonoras que eu faço, em que temos de respeitar o que estamos a ver. E, portanto, eu acabei por ficar muito feliz com o resultado final.

Há muita coisa sempre que vai, entre aspas, para o lixo, porque tu disseste que tiveste quatro, cinco ideias e que houve uma que foi a vencedora. Nesse processo há sempre, certamente, muitas ideias, muitas bandas sonoras que ficaram perdidas no papel e que não ouvimos.

Ficam guardadas no computador.

Tu guardas e reutilizas?

Eu não estou a escrever música, eu sou autodidata, portanto eu vou gravando as ideias que vou tendo com o sintetizador, que tem sons fantásticos de piano, de violoncelo, violino, e vou guardando. E guardo as ideias todas numa espécie de caos.

E já te aconteceu reutilizares alguma?

Já.

Vá que dá jeito para um outro projeto, não é? Mais vale estar ali.

Há muitas ideias que eu até gosto, mas não estão prontas ou falta-lhes metade. E eu vou sempre guardando essas coisas todas. E muitas vezes até me lembro passados meses ou até anos. Tu lembras-te de repente de uma ideia que trabalhaste, que não chegaste a desenvolver, e vais procurar e às vezes encontras ideias que depois voltas a pegar nelas e a desenvolver.

E há pouco estavas a dizer que fazer uma banda sonora para um podcast tem a diferença para os filmes de não teres a imagem para completar. Quais é que são os desafios principais de fazer uma banda sonora para um podcast?

Justamente, não tendo imagem.

Exatamente. É mais difícil?

É que tu davas a imaginação.

A inspiração que nós procuramos para o momento, quer seja com imagem ou sem imagem, para aquele tema, ser um momento feliz, ser triste. Aí é indiferente termos imagem ou não. Até porque depois, quando estamos a trabalhar para a imagem, estamos a procurar uma música, uma melodia, uns acordes que possam fazer sentido, mas não estamos propriamente ainda muito presos à imagem quando estamos a procurar a ideia base. Só depois de escolhermos essa ideia. Aliás, muitas vezes eu quando trabalho com realizadores, gosto de enviar duas ou três ideias para uma cena e depois de ficar escolhida, aí sim, trabalhamos com a imagem, porque há sempre pontuações que são importantes fazer com a mudança de planos, os diálogos, tudo.

E já que estamos no tópico das bandas sonoras, e principalmente do lado do cinema, foste tu que criaste as bandas sonoras dos filmes, por exemplo, do "Mordomo", "A Gaiola Dourada", filmes que foram um êxito a nível global em termos de bilheteira, de notabilidade. Quão importante é que achas que foi a banda sonora para o sucesso destes filmes e também para o sucesso dos filmes em geral? Um filme sem banda sonora, como é que é?

Qual a importância de uma banda sonora?

Para mim é difícil estar a avaliar uma situação dessas. Eu nunca iria dizer que a música que fiz, realmente se não tivesse lá a minha música, o filme seria pior.

É um pouquinho de desrespeito.

Eu fiquei muito contente por ter trabalhado a música para esses dois filmes, que são muito diferentes, mas trabalhei, como sempre, de uma forma muito intuitiva. Vamos falando sempre, o diálogo é muito importante. Vamos discutindo e chegando a um acordo em relação à música que eu vou enviando.

Os realizadores são muito chatos, normalmente? Volta para cá, volta para lá, vai para cá, volta para lá.

Sim, há uns que são-

Particularmente chatinhos.

São mais...

Têm ali uma visão para cumprir.

É, exatamente. Há outros que aceitam as coisas à primeira, há outros que não gostam. Eu lembro-me de fazer uma cena para o Mordomo num funeral que eu cheguei a enviar sete ideias.

Uau!

E o Lee Daniels não estava contente com nenhuma, já não sabia o que havia de fazer.

É tudo para trás.

Há alturas em que estou a dizer: "Chame outra pessoa para fazer a música deste filme."

Eu não estou capaz.

"Tirem-me daqui". Mas depois as coisas vão...

Depois há aquele desbloqueio, já não vale a pena vir outra pessoa. Olha, Rodrigo, vamos recuar um bocadinho no tempo. Tu vens de Lisboa. Esta vontade de trabalhar em música vem desde pequenino ou só apareceu mais tarde?

Que eu saiba, eu não tinha nenhum músico na família, quer do lado da minha mãe, quer do lado do meu pai, mas a minha mãe, e o meu pai também, mas a minha mãe fundamentalmente, ouvia muito música em casa, passava o dia a ouvir música, sobretudo música clássica, mas também música brasileira, francesa. Estamos a falar do princípio dos anos 70, que eu tinha 11, 12 anos. Mas a verdade é que eu comecei a ouvir música talvez com 11 anos e os grupos que eu ouvia na altura, alguns ainda gosto bastante, foi o rock progressivo, os Genesis, os Pink Floyd, King Crimson, Van der Graaf.

Isso fica sempre.

Eram grupos que tinham músicos com uma técnica impressionante.

Das melhores de sempre, se calhar, até agora.

Exatamente, eram todos músicos com uma formação musical muito grande. E eu comecei a tocar uma guitarra acústica, uma guitarra clássica. Eu sou canhoto, portanto, eu não mudava as cordas.

Pois, era isso que eu ia perguntar. Então viravas só e não trocavas as cordas.

Gostava de tentar improvisar. Acabei por aprender, sobretudo com os amigos, mas gostava muito de improvisar em cima desses discos que eu ouvia.

Portanto, eram ótimas referências.

Não era propriamente aprender a fazer exatamente a música que estava a ouvir, mas sobretudo a tocar por cima e a improvisar. E depois, é evidente que uns anos mais tarde formámos a Sétima Legião, em 81, 82. Portanto, eu tinha 16 anos.

Bem novinho.

E a nossa grande influência na altura já era a música pop britânica do início dos anos 80, os New Order, os Joy Division, portanto, a Sétima Legião aparece com uma influência muito grande em relação a esses grupos. Aliás, no primeiro single tínhamos essa mistura da música pop britânica ou da influência da música pop. Tínhamos também a gaita de fole e as percussões tradicionais, portanto, era uma mistura pouco óbvia.

E sentes que tens essas influências do rock progressivo, dessa pop do início dos anos 80, também agora, de certa forma, não se calhar tão notória, mas de certa forma também na composição que fazes?

Sim, sem dúvida, porque há coisas que ficam para sempre. Eu sinto que ainda há composições que eu faço e que têm alguma coisa dessa minha adolescência e de muitos desses grupos. E a verdade é que a minha música acaba por ter influências muito diferentes, que vão precisamente desde a música clássica, que eu depois acabei por ouvir muito em casa dos meus pais, a música pop britânica, a música francesa, a música brasileira. E isso também permitiu, de alguma forma, não estar preso a um estilo musical, a um formato.

Foi absorvendo referências e isso reflete-se.

E isso também me permitiu trabalhar e convidar músicos que eu admiro muito de áreas musicais completamente diferentes. Desde o Sakamoto, como pianista.

Já vamos falar disso mais à frente.

À Beth Gibbons, como cantora.

Não dá para não tocar nesse assunto. Mas olha, precisamente aqui em 82, foi quando estreaste na música, eras novinho, 16, 17 anos, cofundador da banda Sétima Legião Mas não percebemos como é que isto aconteceu. Já eram amigos, já se conheciam?

Éramos e somos muito chegados. Eu fui para o bairro das Estacas, onde conheci o Pedro Oliveira e depois o Nuno Cruz, o trio que começou depois com o Paulo Marinho. Éramos amigos desde os seis, sete anos. Portanto, havia ali uma amizade muito grande. Penso que ainda continuo a ter, mas há um lado otimista e eu acreditava que mesmo não sabendo música, podíamos tentar gravar as nossas ideias que íamos tendo. E isso acabou por acontecer em 82, quando gravamos o primeiro single, o "Glória", com letra do Miguel Esteves Cardoso. E a partir daí as coisas foram acontecendo.

Partiu do otimismo e que bem que correu.

Otimismo e às vezes aquele meu lado de ligar as pessoas: "Amanhã vamos ensaiar às 16h. Tragam uma guitarra ou um tambor, qualquer coisa". E pronto.

Correu bem. Poucos anos depois, voltaste a ser cofundador de outra banda, dos Madredeus. O que te levou a criar ou ajudar a criar mais um projeto?

Eu conheci o Pedro Ayres Magalhães, precisamente porque o Pedro, juntamente com o Miguel Esteves Cardoso e o Ricardo Camacho, fizeram na altura uma editora que se chama Fundação Atlântica, que já não existe, obviamente. Uma editora mais alternativa. E foi a editora que editou os primeiros dois trabalhos da Sétima Legião. Mais tarde, eu e o Pedro ficámos amigos, éramos vizinhos perto da Avenida Roma, e pensámos que poderia ser interessante fazermos um projeto que fosse muito diferente daqueles que tínhamos na altura, o Pedro os Heróis do Mar, e eu a Sétima Legião. Sobretudo, que não tivesse bateria, baixo, que fosse um projeto mais acústico. E foi assim que surgiram os Madredeus. Durante um ano eu e o Pedro tocámos. É evidente que correram bem os nossos primeiros encontros e por isso tentámos dar seguimento, apesar de o Pedro ter na altura muitos concertos e estar sempre muito ocupado, mais até do que eu. E durante um ano fomos compondo e fomos procurando músicos para formar este grupo.

E foi fácil essa procura?

Essa procura foi bastante difícil. Mas, por exemplo, eu sugeri o Gabriel para tocar acordeão, o Gabriel Gomes, que já tocava na Sétima Legião, e o Pedro sugeriu o Francisco Ribeiro no violoncelo. A Teresa, eu penso que foi talvez a sétima ou oitava cantora que apareceu ao longo de quase um ano.

Um ano? Passaram um ano à procura.

Fazíamos uma experiência de uma gravação de uma música, as coisas não eram exatamente aquilo que queríamos até chegarmos à Teresa.

E lá ficou e correu muito bem. Mais tarde acabaste por dar o salto a solo. Já vamos falar disso a seguir, mas antes gostava só de perguntar que memórias é que guardas destes anos com a Sétima Legião e Madredeus. O que se aprende a criar música em conjunto?

Eu guardo para sempre memórias extraordinárias desses anos. Os anos 80 foram uns anos muito especiais em Portugal, houve aquele boom da música portuguesa, o Rock in Rendez-Vous. E depois, obviamente, as viagens que tive a oportunidade de fazer com Madredeus pelo mundo inteiro, até à minha saída em 94. Acho que acabamos por aprender muito uns com os outros. Aprendemos a encontrar inspiração nos sítios onde vamos tocar, nas pessoas que vamos conhecendo e portanto ainda hoje estão muito presentes no meu universo musical. A Sétima Legião neste momento até está a fazer alguns concertos. Há marcas, penso eu, ao longo destes anos na minha música que eu editei a solo, dos Madredeus e da Sétima Legião, que eu acho que são importantes.

Claro que sim. Rodrigo, vamos fazer uma pequena pausa para atualizares a informação aqui na Rádio Observador. Já voltamos à conversa Em 40 Minutos com o Rodrigo Leão. Até já.

Até já.

Segunda parte de Em 40 Minutos. Hoje estamos à conversa com o Rodrigo Leão. Bem-vindo mais uma vez, Rodrigo.

Obrigado.

No final da segunda parte começámos a falar do teu início.

Da segunda, não, da primeira.

Da primeira parte, aliás. Agora é que vamos para a segunda parte. Começámos a falar da tua carreira a solo. Começou em 93, se não me engano. Continuavas na Sétima Legião, foi por mais um ano só? Continuava nos Madredeus. Na Sétima Legião, eu e o Gabriel já

Não conseguíamos conjugar os concertos que a Madre Deus fazia, principalmente entre 90 e 94. A Sétima Legião ainda fez alguns concertos em que o Lúcio Vieira, um grande músico, um baixista que tocava por mim.

Eram muitos projetos em mão, já não dava pra tudo. Mas o que é que te fez dar o passo pra querer ter uma carreira a solo? Com tanta coisa que já estavas a fazer.

Eu tive esta oportunidade de poder trabalhar com dois grupos durante 10 anos. Mas a verdade é que comecei quando percebi que com a ajuda do computador eu podia compor uma música com mais pistas, mais sinfônica. Eu estava fascinado, na altura, com a corrente minimalista de compositores como Michael Nyman, Philip Glass, Sakamoto. Eu comecei a compor, sem sequer pensar que seria pra um disco meu ou um disco a solo. Comecei a compor e a sentir que havia ali uma série de ideias que não cabiam nem nos Madre Deus, nem na Sétima Legião. E isso fez-me depois gravar o meu primeiro trabalho, que se chamava "É o Mundo Iluminado", sempre com a ajuda de imensos músicos e do produtor António Pinheiro e Silva, do Paulo Abelho.

Mas tocaste num ponto que foi a questão do surgimento também dos computadores, ou seja, essa revolução tecnológica na música também te levou a teres mais vontade de te aventurar sozinho?

Sim, pelo menos em termos de composição.

De experimentar coisas novas.

E quando estamos a trabalhar pra um disco, não estamos propriamente a pensar como é que isto depois vai ser ao vivo. Depois quando for para ser ao vivo, tu pensas e fazes arranjos diferentes. Mas isso deu origem a que depois eu tivesse de tomar essa decisão de sair de um grupo.

Dois grupos, neste caso.

Dos dois grupos. Se bem que a Sétima Legião estava a fazer muito menos concertos, menos discos, porque o Pedro estava a acabar o curso de Direito, o Ricardo era médico.

Uma vida paralela.

Exatamente. Mas eu tomei essa decisão de deixar os Madre Deus, que obviamente não foi fácil, porque estávamos a viver ali uns momentos extraordinários.

Claro!

Mas eu propriamente, se para eles, que eu acho que são mais músicos do que eu, fazer 60 concertos por ano, vão desenvolvendo ainda mais as suas técnicas a tocar. Eu toco aquelas coisas simples e tinha muitas saudades de estar, sobretudo em casa, a procurar ideias e ir gravando. E isso, independentemente, de claro, não ter a mínima ideia de como é que iria ser o futuro. Eu resolvi deixar os Madre Deus, claro, com muita pena.

Sim. Faz parte, seguires todo o caminho.

Permitia-me também, por outro lado, explorar outras influências musicais, juntar a música clássica com a música pop, que não seria possível nos Madre Deus.

Claro.

Já agora, uma curiosidade. Tendo em conta que foste cofundador das duas, como é que surgiu o nome Madre Deus e Sétima Legião?

A Sétima Legião, éramos um trio na altura e tínhamos, ainda antes de gravar, portanto, no princípio de 82, antes de gravarmos o primeiro single, havia a Grande Noite do Rock, um concurso de bandas portuguesas, e nós tínhamos um dia pra encontrar um nome pra o grupo. Éramos três, Terceira Legião não nos soava bem. Isto foi no Café Luanda, na Avenida Roma, no cruzamento com a Estados Unidos. E acabou por ficar Sétima Legião, porque soava-nos bem.

Soava melhor.

A verdade é que depois, neste momento somos oito, com o Francisco Mendes, que escreve as letras, éramos sete ao vivo.

Já era oito à vamos.

A pressão pra criar o nome.

A Madre Deus foi porque o sítio onde gravamos o nosso primeiro disco era em Xabregas, a Igreja da Madre de Deus.

Certo.

E portanto, até chamámos Os Dias da Madre Deus.

Da Madre Deus, pronto. Aí foi mais fácil.

E era no Teatro Ibérico, onde nós ensaiávamos e depois gravámos lá o nosso primeiro disco em duas ou três noites, porque passavam os elétricos, portanto, só podíamos gravar entre às 11 da noite e às 6 da manhã.

Estavam incondicionados. Olha, pouco tempo depois começaram a surgir prêmios, prêmio de animais, como o Disco do Ano, Artista do Ano, os prêmios de música BLITZ, entre outros. Eu sei que não se vive pros prêmios, obviamente, mas é bom ter esse reconhecimento do teu trabalho.

Claro.

Não podemos dizer que não, não vamos ser hipócritas.

Porque claro que eu fico sempre muito contente quando percebo que a música que faço chegou a mais pessoas.

É apreciada.

E é apreciada por mais pessoas. Mas a verdade é que há aquele momento, pra mim, o mais importante, que é o momento em que conseguimos encontrar aqueles Pequenos dias onde vamos buscar encontrar mais inspiração, não sabemos aonde. E depois conseguimos concretizar em estúdio essas ideias com os músicos, com os produtores e amigos de infância como o Pedro Oliveira, o Paulo Abelha, o Tiago Lopes, o João Louter. E esse momento, independentemente das músicas chegarem ou não a ter algum êxito.

Claro.

Esse momento para nós é o mais importante.

O mais importante, sim.

Se depois percebermos que chegou a mais pessoas, claro.

Sim, isso melhor ainda.

Claro, melhor ainda.

Mas realmente o importante é mesmo o que tu diz, esse momento, esse meter estúdio, a produção com os companheiros de música.

Claro.

Olha, em 2004, lançaste um álbum, Rodrigo, chamado "Cinema". Já aqui mencionaste alguns dos nomes. Tiveste colaborações como Beth Gibbons, também o Sakamoto, grandes referências da música contemporânea. Como é que surgiu também esta oportunidade, não só do disco, mas também de poderes contar com estes grandes nomes?

Isso eu acho que foi uma sorte. Quer dizer, foi um processo absolutamente normal mandar uma maquete gravada em casa para cantores, músicos que eu admiro muito, mas nunca me passaria pela cabeça que a Beth Gibbons, cantora dos Portishead, fosse aceitar esse convite.

Claro. Foste tu próprio que fizeste o convite?

Ou foi o António Cunha, um grande amigo com quem eu trabalho há muitos anos e faz o agenciamento, o management. Aliás, foi o António Cunha que sugeriu este nome da Beth Gibbons.

Tu nem sugeriste porque já estavas do género: "Não, não vai aceitar".

Eu peço ajuda às pessoas que estão perto de mim, que me são mais chegadas. E depois até criamos uma relação especial com a Beth Gibbons, porque acabou por fazer alguns concertos de colaborar, não só em Portugal, como em Espanha, em Itália. E isso foram momentos muito especiais para nós. E aliás, o Cinema faz 20 anos este ano que foi lançado e temos agora os Coliseus onde vamos celebrar um pouco esse disco e revisitar esse trabalho.

Ou seja, tu trabalhaste com estes dois nomes neste teu disco. Como é que foi o processo de estar a produzir estas músicas? Tu produziste, eles gravavam tudo à distância, chegaram alguma vez a reunir em estúdio?

Sim, quer dizer, nesse caso específico, a Beth Gibbons veio a Lisboa e escreveu uma letra para uma canção que eu enviei. O Sakamoto pediu que a gravação fosse em Nova York, num estúdio onde ele costumava gravar com os seus técnicos.

E lá foste tu.

E lá fomos gravar o piano. A Rosa Passos, que também entrou nesse trabalho, veio a Lisboa também, mas alguns anos mais tarde houve músicos que chegaram a gravar, por exemplo, estou me a lembrar do Scott Matthew, de alguns cantores que não puderam vir a Lisboa e gravaram noutro estúdio e enviaram.

E tudo se fez.

E, portanto, é tudo possível hoje em dia trabalhar à distância. Claro que é sempre melhor estar com a pessoa.

É mais especial. A não poder, também se faz, não é?

Exatamente.

Olha, em 2020, porque continuaste a compor também ao longo dos anos, mas em 2020, e há pouco até falávamos antes da entrevista, foste para Avis, no Alentejo, de forma mais definitiva, vamos assim dizer, na altura da pandemia, também para te focares, para estares um bocadinho mais isolado. E acabaste por criar também uma música com uma das tuas filhas, com a Sofi, a vocalista, no primeiro single do álbum, a Sofia.

A Sofia, sim.

"O Método". Foi fácil trabalhar, neste caso, com a tua filha, com a família?

Não, porque eles estão...

Normalmente dizem para separar o trabalho da família.

Exato. Ou seja, são as pessoas que estão mais perto da música que eu vou tentando fazer. Portanto, acabam por ser as primeiras pessoas a quem eu mostro as ideias que vou fazendo.

Aham.

E a verdade é que...

É um público difícil?

É um público difícil. Bom, todos eles tocavam muito melhor do que eu, porque estudam piano. O António está neste momento a acabar a licenciatura na ESMEL. A Rosa já fez o oitavo grau e a Sofia vai acabar este ano.

Vejo.

Mas penso que eles percebem a minha linguagem musical, apesar de obviamente ser diferente.

Sou própria pessoa, não é?

Porque eles estudaram. A verdade é que elas muitas vezes completam-se.

Claro.

Mas são os seus maiores críticos, será?

São, muitas vezes são.

São.

E muitas vezes eu aceito as críticas, outras vezes eu estou muito chateado com aquilo.

Provavelmente.

Preferes não ouvir. Olha, Rodrigo, tu não atuas só para público português, também já passaste por palcos internacionais. Como é que o público lá fora te recebe?

Quer dizer, eu acho que nos recebe bem. Nós tocamos muito em Espanha, na Europa, mas também já estivemos no Brasil, na Tailândia, estivemos recentemente na Argentina. Penso que às vezes pode haver algum público que pensa que vai ouvir fado.

É sério?

Não está muito presente na minha música. É evidente que temos um espetáculo que se chama Os Portugueses, onde só tocamos instrumentais e canções cantadas em português pela Ana Vieira ou pela Selma, mas pode haver um ou outro tema que tem um bocadinho de nada presente. Mas a reação tem sido boa, porque continuamos a tocar.

Isso é bom sinal.

Isso deixa-me feliz. Acho que sim.

Rodrigo, sentes que consegues exprimir melhor o que vais sentindo através da música, principalmente nas tuas composições?

É muito abstrato. Eu tenho uma vida muito agitada. Eu não consigo estar parado muito tempo, estou sempre de um lado para o outro, mas a verdade é que a minha música acaba por transmitir um bocadinho o oposto disso. Transmite, em grande parte dos casos.

Que era a calma que tu desejavas.

Transmite paz, transmite aquela calma que, a verdade é que eu não tenho no dia a dia. Claro que todos temos. Quando vou para o Alentejo e em um sítio sossegadíssimo, com aquele silêncio. Mas esta vida de andar nos ensaios, a correr de concertos.

Sim, não é nada calma.

Não é nada calma. É difícil estar a tentar encontrar objetivos para a música que faço, porque se calhar metade é mesmo muito abstrata, vem de dentro de mim. A outra metade vem do que me rodeia, das viagens que vou fazendo, das pessoas que conheço.

E é aí que vais buscar a inspiração.

E depois tudo isso se junta e eu quando estou a tentar encontrar ideias, não parto para uma ideia específica. Raramente. No caso aqui do Observador.

Claro, faz um tributo também.

Mas normalmente vou atrás das coisas que me vão aparecendo.

Claro. Olha, de todos os projetos que tu já produziste ou que já criaste, dos quais já fizeste parte, tens algum ou alguns que te tenham marcado mais? Por exemplo, um disco que tu guardes com muito carinho ou uma banda sonora que tenhas produzido, ou um concerto?

Um concerto que deu origem depois a um disco dos Madredeus, que se chama Lisboa. Foi um disco ao vivo no Coliseu em 91, penso eu, que depois saiu só em finais de 92 ou princípios de 93. Foi um concerto onde tivemos a participação do Carlos Paredes, um músico extraordinário. Esse é um dos concertos que eu me lembro sempre e que acho que me marcou muito.

Guardas com um especial carinho.

Mas há muitos momentos.

É impossível escolher só um.

Claro, o meu primeiro disco. Há sempre um carinho especial pelos primeiros trabalhos que fazemos.

É o nosso bebé.

O da Sétima Legião, o primeiro que eu fiz do Ave Mundo Iluminar, os dias da Madredeus.

Claro. Rodrigo, estamos quase a fechar. Isto passa sempre muito depressa. Para fechar, gostávamos de saber, Rodrigo Leão, há alguma coisa que ainda está por fazer a nível musical, algum projeto que ainda tenhas na cabeça?

Que queiras concretizar.

Sim, a música acaba por ter milhões de possibilidades de cruzar influências diferentes. Gostava de fazer um disco onde o canto alentejano pudesse ter alguma importância.

Que giro.

Olha!

Há muita coisa. Neste momento estou a preparar um disco novo que vai ter canções em português outra vez, e também instrumentais, claro, mas que poderá sair no final deste ano ou no princípio do ano que vem.

Muito bem, boa!

Está a apontar mais.

E neste momento estou a trabalhar a música para um documentário da Petra Costa, a realizadora brasileira do "Democracia em Vertigem". E pronto, as coisas vão surgindo.

Há muita coisa ainda por fazer. E agora fiquei curiosa para este disco. Pode chegar no final do ano ou no outro, vamos ver.

No início do outro.

Rodrigo, não temos tempo para mais, mas foi um gosto teres estado aqui conosco. Muito obrigada.

Muito obrigado.

Não esquecer de ouvir.

Exatamente, André, queres fazer aí a ressalva.

É isso, não esquecer de ouvir o Matar o Papa, o nosso podcast Plus, com a banda sonora do Rodrigo Leão.

Vale mesmo a pena ouvir.

É uma viagem também musical nessa história tão marcante na igreja em Portugal. E obrigado, Rodrigo.

Rodrigo, obrigada. Rodrigo Leão em 40 minutos, nós voltamos para a semana. Obrigada, Rodrigo.

Até para a semana.

Obrigado.