Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Eu não tenho grandes desejos de nada. Eu gostaria que houvesse um país bonito, que não dessem cabo nos incêndios como deram, que os bosques fossem uma realidade, e não são, é tudo eucaliptos, que as pessoas vivessem lendo e curtindo a vida de uma maneira feliz. E de repente, estou num país em que metade do país odeia a outra metade. Não é metade, um terço do país.

Uma parte.

Uma partezinha, ainda. Espero que sejam devalladas essas coisas em breve.

Na infância, era uma menina séria, sisuda. O pai até lhe pedia que sorrisse para as fotografias e talvez tenha sido aí que aprendeu o poder do riso. A casa era feita de regras, mas também de uma certa beleza, a da disciplina, da música, da palavra. Saiu de casa cedo, ainda a descobrir o que era ser livre, e percebeu que a liberdade não se encontra. Constrói-se todos os dias à custa de coragem. Fez do palco o seu abrigo e da arte o seu modo de estar no mundo. Teve papéis que a transformaram e personagens que lhe ensinaram mais do que qualquer escola. Hoje é uma mulher que olha para a vida de frente, com ironia, ternura e memória. São José Lapa.

Olha, tão querido.

Em 40 minutos. Bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Tão bonito esse epitáfio.

É como a vemos, no fundo. Acho que é perceptível o carinho que as pessoas sentem por si ao longo de tantos anos.

Alguns.

E gostam realmente.

Isto agora está muito polarizado.

Sente isso ao longo do tempo?

Eu exponho-me muito nos Facebook, exponho-me sem qualquer pudor, porque gosto da democracia. Vivi em ditadura 21 anos. Foi ao fim de 21 anos que eu saí de casa dos meus pais, não sairia antes porque não tinha liberdade para o fazer. Na altura dava-se a carta aos 19, veja lá. Não ficava independente, não tinha a independência cívica. Portanto, era só para fazer a carta. E o meu pai deu-me para poder aos 19 anos tirar a carta. E saí aos 21. Ainda me estou a lembrar, aluguei uma carripana com o topo aberto, aquela coisa atrás, com um senhor, e depois fui buscar uns móveis à casa de não sei quem.

Andava a correr as freiras e as rotas.

Ainda é a mesma casa em Lisboa. Foi em 71 pra 72.

Já são mais de 50 anos.

54 anos a viver no topo de Lisboa, que é uma vista admirável. Não interessa. Fiz obras, etc.

Nesse dia, quando saiu de casa e partiu nessa carripana que me estava aqui a descrever, lembra-se do semblante dos seus pais?

A minha mãe estava horrorizada, a ser uma deusa genial. Horrorizada.

Mas horrorizada por perdê-la?

Coitadinha, como é que ela ia? Eu ia para o conservatório, tinha feito uma entrevista. Eu só tenho uma do sétimo, uma ou duas, já nem sei, não me lembro qual é que são as duas que tenho do sétimo. Depois fiz o ad hoc para o conservatório. E a minha mãe dizia: "Como é que ela vai conseguir sobreviver?" Para além de tudo mais, ainda dependia alguma coisa deles. E dividi a casa com mais duas amigas, e foi assim, mas a cara da minha mãe era o dizer adeus. A minha mãe tinha duas vertentes: tinha muito humor, mas era absolutamente séria nos seus princípios. A minha mãe tem o curso superior de piano e o curso superior de canto do conservatório, filha de dois professores. O meu pai era um homem com um sorriso, a ironia nele fazia-se sentir muito mais e gostava de viver. Ambos viveram até aos 94 a minha mãe, 92 o meu pai.

Uma vida cheia.

Três meses de diferença. Tinham momentos de tensão, mas tinham outros de alegria enorme e portanto, eu orgulho-me imenso de ser filha deles. E a partir daí, deu-se uma vida.

A vida de liberdade, depois.

A vida de liberdade na Bela Vista, onde eu ainda vivo.

Exatamente. Eu queria lhe perguntar, só para não sairmos ainda daqui. Estava aqui a dizer que a sua mãe era mais séria. A parte sisuda, se calhar até aos quatro anos, quando o seu pai lhe pedia para vir anda aí.

Provavelmente. Estas coisas remetem-te muito pra psique. Cada um de nós. Provavelmente, eu brincava com as miúdas, mas era a austeridade que a dona Palmira fazia sentir. E é interessante ver que são sete anos de diferença entre mim e a minha irmã. Eu não era esperada, foi uma coisa que aconteceu. Aliás, uma vez com alguns copitos, meu pai disse: "Mas por que me fizeram há 27 anos, oito anos?" "É, foi um preservativo roxo".

E ter essa vontade também para partilhar.

Não, o meu pai partilhava, era enorme. E ela também, não havia grandes tabus. Tinha é que se tratar o tabu de outro modo, tratar de outra maneira, porque são outra geração.

E sentia-se de alguma forma.

O embaraço.

Cresceu com pais, e acho que não tem vergonha nenhuma de dizer, até porque não é vergonha nenhuma, pais conservadores.

Não, eram conservadores, não acreditavam na ditadura, não eram salazaristas, mas tinham muitos amigos que o eram. Os meus pais ambos cantaram no Coro de São Carlos.

Aliás, foi aí que começou?

Não, o namoro não foi.

Não, estou a dizer, a primeira vez que apareceu, não sei se está ligado com os seus pais, a fazer de pastora.

Pois, não, mas isso era a minha mãe que fazia peças de teatro.

Exatamente.

Na escola onde dava aulas, isto já foi mais tarde. Deu aulas no Liceu, Canto Coral, o famoso Canto Coral, e mais tarde deu aulas num colégio durante muitos anos. E eu, na primeira classe, estive no debut como atriz, que era pastora. Se calhar é por isso que eu gosto tanto do campo.

Pois, pode estar ligado, não sabemos. Há coisas que nos marcam na infância.

Eles eram muito verdadeiros na natureza. Eu tive uma grande oscilação: durante dois meses íamos para o Estoril, para casa de uma tia que tinha muito dinheiro, que era mesmo por trás do cassino, na Avenida Antônio Oliveira Salazar, que mais tarde se tornou a Avenida 25 de Abril. E aí consegui dar é mundo e vivência das pessoas, com todo o gênero de pessoas, sobretudo com o pessoal que ali no Estoril era o pessoal da narda, do dinheiro, do pilim.

Sim. Estávamos aqui a falar da questão de crescer com pais conservadores e de terem esta ligação a pessoas que eram salazaristas, não é, na altura?

Sim, e já agora, veja o que aconteceu à minha irmã. A minha irmã estava no curso de assistente social. Era a Fernanda Lapa, estava a tirar o curso de assistente social, já tinha conhecido o Bernardo Santareno, que era um médico que ia com os pescadores à cena do bacalhau, lá à pesca do bacalhau. E ela engravidou, quem a casou? O secretário do Cardeal Patriarca do Cerejeira, que era um amigo de infância da minha mãe, da Beira. E, entretanto, engravidou antes do tempo, pecado. Engravidou antes do tempo, isto agora parece que toda a gente ri, mas na altura era mesmo pesado. Engravidou e quando casou já estava grávida de dois meses. E na escola, porque a escola era ligada, lá a escola, não, o Instituto Superior era ligado ao patriarcado na altura. Agora é uma coisa civil, aliás, pela Constituição, a igreja não tem nada a ver, ainda bem, com a Constituição. Uma coisa que está separada, a igreja para um lado, a religião está para um lado e a parte política para outro da sociedade. E então o que acontece? Acontece que há uma que vai fazer queixas, uma beata, colega dela, que vai fazer queixa à direção e chamam a minha irmã a dizer que ela não pode continuar o curso. Ela conta, chega à casa lavada em lágrimas, o marido já estava na Guiné a lutar pela pátria e entretanto o meu pai: "Não, eu vou lá falar". E foi lá falar com o senhor, que era padre também, e disse: "Não, a minha filha vai continuar". E agarrou-lhe assim um bocadinho nos colarinhos e disse: "Vai continuar, até porque eu vou fazer queixa do senhor ao secretário do Cardeal Patriarca". E continuou. Portanto, quando há uns partidos que dizem que não existe corrupção, só havia corrupção. E neste caso, corretamente, uma boa corrupção, porque coincidiu com uma coisa absolutamente inacreditável, não poder continuar o curso, estava no segundo ano, já a caminho do terceiro, etc. Isto é a diferença de idade entre sete anos antes e sete anos depois, venho eu.

Como é que era ser mulher antes e depois do 25 de abril? Eu sei que há essa mudança, não é? Acaba por viver sozinha na casa que vive há mais de 50 anos.

Eu em dois anos vivi sozinha, mas eu comecei muito cedo a sentir. Eu fui para Londres, era sempre o habitat do pessoal que se queria pôr a milhas.

Mas esteve lá pouco tempo, não foi?

Estive lá dois meses. Era para ir um ano inteiro, com as amigas, que eram as netas do diretor do colégio onde a minha mãe dava aulas. E não aguentei, porque estava em casa de alguém, por acaso eram muito simpáticos, e comia à mesa com eles, era a garota, aquela que tomava conta dos bebês. Só que eu fazia noitadas. E eu não aguentei a pedalada.

Ainda aguentou dois meses.

Ainda aguentei dois meses. E vim-me embora e com quem vim embora foi com um grande amigo, é um querido, é músico. E depois isto foi uma série de coisas que aconteceram, não vale a pena contar que são tantas.

Quando é que sentiu que se começou a empoderar?

O empoderamento das mulheres. Eu acho que foi logo aos 17, 18, 19 Por aí. Eu era católica, fortemente católica. Tive crises de amar Cristo, de amar a própria religião. E as primeiras relações sexuais que tive, perdi a fé. Por quê? Não foram só as primeiras relações sexuais, foi também com a guerra, coincidiu com a guerra. Comecei a especular: "Então, mas o que é isto? Eu peço a paz". Tive um padre maravilhoso, que era o Felicidade Alves, que mais tarde foi expulso, que era o que estava à frente dos Jerónimos. Como é que se chama? Já nem sei o nome. Ai, meu Deus. Eu às vezes falho o nome das coisas. O Alzheimer já a atingir.

Nada disso.

E o Felicidade Alves era fantástico, dava umas prédicas fantásticas e, de facto, com a especulação das diversas coisas. Mas o que é isto? Fazer a interrogação, a afirmação do ser feminino, desvaneceu-se a fé em Jesus Cristo e em Deus. E sou uma agnóstica.

Ou seja, houve essa transformação na sua vida.

Absolutamente.

E de questionamento da fé, não é?

Exatamente. E não só da fé, e do que é isto de estar vivo. E a partir daí devorei muitos livros de filosofia e muita coisa, porque indo para o conservatório permitia-me ler tudo e mais alguma coisa que tudo interessava para fazer e para poder estudar e para levantar papéis. Levantar papéis.

Sim, muito grandes.

Levantar papéis é uma coisa engraçada.

Sim, estou a pensar agora na-

Estou a pensar que o outro senhor andou aos papéis na Assembleia da República, andar aos papéis. O senhor andou aos papéis.

São José, falava-se que a revolução e esse desejo havia, não é?

Não, o que se falava é que se tinha que acabar com a guerra.

Exatamente.

Isto é profundamente pra uma juventude que não queria ir lutar, que não queria morrer. E foram milhares que morreram. Ainda não está levantada a quantidade de soldados portugueses, de jovens, que morreram, milhares. Fora os outros que mataram, os ditos terroristas, que agora são nossos irmãos. Convém nunca esquecer que um terrorista passa a ser irmão passado uns anos. E foi um horror. Eu sou pacifista, sempre fui, sou contra as guerras, etc. Não podem é puxar pela não podem ser um interveniente da coisa, na discussão e na conversa, que deturpe e traga falácias para a conversa. Mas não é consigo, atenção.

Não, mas o que eu queria perceber, e acho que quem a conhece, e também há bocadinho falava aqui da questão do Facebook, é uma pessoa que não tem medo de expor a sua opinião.

Não, não tenho. Até agora.

É uma pessoa que sempre foi, até por ter tido uma opinião numa altura da sua vida, mas que se a mudar, também não tem pudor em dizê-lo.

Não, não tenho. E estou convencida que arranjo, aliás, para haver essa mudança, tem que haver convicções muito fortes para que ela aconteça.

Claro.

Convicções e razões, mais razões do que convicções. Razões fortes. E sim, e é isso.

E nunca sentiu, talvez ao ser mulher e ao ter opiniões muito convictas, que a tentaram silenciar de alguma forma?

Durante um tempo. Não, porque eu dava com muita gente da mesma geração.

Estou a falar mais nessa altura, sim. Não para agora.

Os 21 anos, 22, 23, era tudo gente...

Revolucionária?

Pode-lhe chamar, o medo da palavra é dos outros que não são revolucionários.

Sim.

Pode-lhe chamar, mas convicta que a paz era uma coisa e que devia acontecer, convicta que os costumes da ditadura do antigo regime, que estava a continuar, apesar de já ter caído o Salazar, que nessa altura já estava o padrinho do Marcelo Rebelo de Sousa, o Marcelo Caetano. E convicta que isso tinha que acontecer mais dia, menos dia, porque a juventude não era capaz de ser silenciada há tanto tempo. E toda a gente com quem eu me dava era malta do mesmo gênero. Tive uns momentos de atitude partidária do MRPP, e da UDP, ao princípio, e depois silenciei toda a atividade de clubista, de partidária. Absolutamente, nunca mais tive um partido, nem fiz parte de um partido. Simpatizava com umas coisas de uns, simpatizava com outras de outros e, aliás, disse isso naquilo que eu escrevi.

Sim, naquilo que escreve. Nós já vamos aprofundar melhor esse tema, vamos só aqui fazer uma curta pausa na nossa primeira parte.

Muito bem.

Já voltamos em 40 minutos. Esta semana com São José Lapa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com São José Lapa.

Diria só José, é o meu nome.

Se preferir.

Nada, não . Eu vivi com uma pessoa que tinha uma voz fininha e telefonava lá para casa e dizia: "Só José?", era o Fernando. E quando era para mim: "Fernando!".

Continuamos com São José Lapa, em "40 Minutos". Há bocadinho e no final da primeira parte, estávamos a encaminhar para o tema da política. Falamos já do 25 de Abril, aquilo que viveu, as experiências que teve, as boas, as más. Já viveu muitas transformações nesta nossa política, que tem vindo a conhecer também várias transformações.

Eu acho que houve pouca transformação. Isto tem tudo a ver com uma coisa: se os ordenados são poucos, se nunca se deu muita atenção a que os ordenados do proletariado, que agora já não se chama proletariado, tem outro nome, o pessoal que trabalha no duro e o pessoal rural tivessem melhores capacidades para poderem viver sem estar afogados em dívidas, etc. Isto não estava a acontecer o que está a acontecer agora. Haver um partido que se formou, que só diz mal, que transporta o ódio, etc. Nessa altura, o que se passou foi: havia a esperança. Como eu há bocado disse, a guerra não passou para tema que devia ter emergido, porque se queria esquecer. Os que andaram a batalhar lá e deram tiros, queriam era esquecer aquilo tudo o que se passou, porque matar não é fácil, com certeza, só se for agora, através dos jogos de morte que a América nos impinge e que toda a gente compra. Há muita malta que acha que é fácil. Como o caso agora da criatura de 14 anos que matou a mãe, como o caso da outra que disse que matou o pai e não matou. Enfim, isto são coisas que nunca me tinha percebido que tenha existido. Provavelmente existiu.

Ou se tem outro éxito, se calhar, até na comédia social.

Exatamente. A barbárie é sempre uma coisa que existe, que coexiste. Desculpa, eu agora perdi-me.

Estávamos a falar da questão da política e de todas as transformações que viveu, a levarem a ser, se calhar, uma pessoa muito preocupada com esse tema.

Sim, eu devia ter feito uma carreira política.

Eu sei desse desejo, que me ter seguido, não é?

Eu devia ter feito uma carreira política, agora já não. Mas devia ter feito. Mas não consegui, porque o teatro é muito forte. O teatro é uma coisa que das duas, uma: ou tu dás-te por entrega completamente o teu dia para estares lá e para interpretares um papel bem feito, ou então não vale a pena. Então estás a escrever à máquina, é melhor estar numa secretaria a escrever qualquer coisa. Já não se diz secretaria, já não se diz office.

Não, mas ainda se diz secretaria hoje em dia.

Agora é tudo inglesismo. Mas tenho pena. Isso é das coisas, como também tenho pena de não ter feito uma carreira cantora.

Entre uma e outra, qual é que escolhia?

Tinha a impressão que a política.

E que tipo de política, que tipo de personalidade é que teríamos se São José tivesse seguido esse papel?

Não sei. Estar contra a guerra, ou os aumentos de ordenados do pessoal que vive mal para não dar em hecatombe, como nos estamos agora a sentir. São os principais. Contra a guerra, sempre contra a guerra e sempre a favor da malta mais nova e com muita cultura, que é uma coisa que eu não vejo nos tempos que correm.

Eu ia lhe perguntar precisamente isso, que é uma área que lhe é querida, não é? Está nesta área há bastantes anos.

Há muitos anos, mais que 54 anos, porque a minha irmã convidou-me para fazer o "Desejo de Sonhar" do Almada Negreiros, e aí conheci Almada Negreiros e estive muitas vezes em casa dele, isso aí com 16, 17 anos. Ouvi-lo em, por exemplo, temas como numerologia, que é uma coisa que ele tem naquela entrada da Gulbenkian, tem ali umas bolas e uns números. Houve uma das vezes que eu lhe perguntei: "Mas por que é?", as respostas foram inúmeras e engraçadíssimas. Fomos ver a estreia, chamava-se Ponte Salazar, Ponte 25 de Abril, todos, os meus pais, ele, minha irmã, meu cunhado, etc. E tinha uma filha, que era a Paula, que foi madrinha de uma das minhas sobrinhas. Ambas já se foram. É incrível. Vi muito teatro, porque estreamos na Casa da Comédia. O Dr. Fernando Amado, que era o líder-mor daquilo, maravilhoso, é um tipo de figuras... pense, é o conde não sei o quê. Mas era de uma inteireza, de uma graça. Era daquelas pessoas que fazia as tábuas de desporto. E queria encenar, fez várias encenações. E eu vi muito teatro pela mão, porque os meus pais não deixavam a minha irmã ir ver fazer teatro.

Ir sozinha, não é?

Era eu que tinha que ir a reboque. Portanto, desde os meus 10 anos vi teatro até mais não, como a minha neta vê.

Tem de seguir esse desígnio. Mas o que estávamos a falar?

Não sei se se dará esse desígnio.

Não, estava a falar de si, neste caso. Teve de seguir e acabou por ser depois mais tarde uma realidade, ainda que não fosse na altura, e também sabemos disso. Ou seja, a São José não tinha como perspectiva de vida ser atriz, foi um mero acaso.

Não. Aliás, eu queria era viver a vida.

E assim vivia, viveu muitas personagens. Viveu milhares de vidas.

Sim, depois, mais tarde. Eu não estudava muito. Eu lia o que me apetecia. Portanto, além do que me apetecia, tinha facilidade em fazer alguns exames de português, etc. Mas tudo notas "res vers camp turmeric".

Adoro essa expressão, "res vers camp turmeric".

É muito antiga. Não sei por quê. Por que será "res vers camp turmeric"? Alguma razão há.

Vou lhe dizer uma coisa, nós temos um podcast aqui na Rádio Observador, chama-se "Português Suave", do qual eu faço parte, com um linguista, e ele explicou essa expressão. Por isso faço aqui também a promoção para irem ouvir esse episódio, que está lá a explicação. Há bocadinho, quando falava aqui da arte, eu queria ir para os tempos de hoje, porque tem-se falado muito a cada orçamento de Estado, da importância da cultura, neste caso, para Portugal. Acha e acredita que a arte, neste momento-

Eu não fui muito bem tratada durante os tempos do domínio do PS. Já me queixei várias vezes, a quem fosse, porque sou amiga de algumas pessoas do PS, não fui bem tratada. Não sei o que acharam, acharam que eu, por ter sido mandada embora com toda a companhia do Teatro Nacional, devem ter pensado que eu tinha ficado rica. Com aquilo que me deviam, porque aí está. Agora, podem mandar embora as pessoas ao fim de X tempo, que eu considero, sem direitos nenhuns, as pessoas ficam sem direitos nenhuns, considero um erro e pagá-lo-emos mais tarde. O apoio que tive da Europa foi sempre daqueles 20, 22 e 20 não sei quantos, aquelas coisas que a minha filha é que sabe tudo, que eu não sei, que eu verdadeiramente passo ao lado dessas coisas. E desse dinheiro, desse apoio que eu tinha para ir às escolas, retirávamos um bocadinho para fazer as peças de teatro. Há 20 anos que estamos nas Amoncheiras a fazer todos os anos espetáculos. Tive uns apoios pontuais da Câmara, tive algumas coisinhas pontuais.

Mas é sempre difícil juntar.

E da Direção Geral das Artes, chumbaram-me sempre os apoios anuais. Eu nem acho que quadrienuais fiz. No entanto, agora fico espantada que os apoios quadrienuais deste ano passaram sem fazer concursos nenhuns. Acho fantástico, tiro o chapéu ao primeiro-ministro por ter aceite essa coisa, ou à ministra, mas não parece justo para os outros que não tenham e que não tiveram. E que foi graças à antiga ex-ministra, que eu gosto muito, Dalila Rodrigues, que tivemos este apoio que estamos a fazer sobre Luís Vaz de Camões.

E este espaço que me falava, muito perto do Meco, pelo que sei, é um projeto de vida e que lhe dá muito prazer.

Sim, já me deu mais, porque eu estou muito cansada, porque eu entro lá para trabalhar a terra, para limpar aquilo tudo. Tem palha, tem tudo, não temos dinheiro. Temos um senhor que nos vai lá limpar a parte para fazer as faixas, por causa dos fogos, mas o resto somos nós. A Inês faz os decors, a Inês faz tudo e mais alguma coisa, é atriz, etc. E eu estou velha, tenho que entregar agora tudo, já esta é a última coisa que faço. Deixem-me escrever as minhas coisinhas. As minhas coisinhas que eu acho que têm importância para mim e acho que podem servir como importância para alguns que venham depois. As minhas memórias, não é coisinhas.

Nós vamos falar dessa questão, porque falávamos aqui em off, a São José deu conta que está a escrever memórias para um dia, quem sabe, ter aqui uma memória futura para quem fica, para quem a conhece e para, se calhar, para quem a quer conhecer melhor.

É sempre importante ter coisas escritas. Já tenho algumas, mas é sempre importante ter coisas escritas, porque apesar do pessoal estar cada vez mais boçal e brutal e não ler. É verdade, eu própria tenho momentos de boçalidade enorme. Como dizia o labrinho Lúcio: "Entre nós, temos que ver que temos cada um um bocadinho de fascismo". É verdade. Então a velha geração, com 74 anos. Perdi-me outra vez.

Não, falámos primeiro das aguncheiras, mas agora estávamos a falar da questão da escrita.

Sim, evidente.

Das memórias, da importância das memórias.

Haverá sempre a minha filha que ficará com as memórias todas e que escreve muito bem, melhor que eu. Mas eu vou na parte em que ela não escreve, que ela não habitou, não estava viva ainda, não tinha nascido, e chamar-se-á "A Casa das Peles Humanas".

Queremos muito, Luísa.

Eu também. Tenho que te dar a caneta.

Com a devida calma, vai ver a luz do dia. Falava aqui há bocadinho da questão do envelhecimento e a São José é conhecida, aliás, fez um papel numa novela, "Queré Viver?", na TV.

Sim.

Em que viveu o envelhecimento sem medo. E também é a forma como a vemos, eu acho que na realidade, aquele papel.

Claro, mas é que não vale a pena andar a fazer grandes nuances à pele. Quer dizer, eu devia tratar melhor a pele, porque eu apanho muito sol, etc. Mas isso é outra coisa. Estou cheia de manchas já. Mas porque é a saúde que se põe em causa. Mas não vale a pena andar a fazer grandes modificações.

Encontra beleza também ao envelhecer?

Pouca.

Sem medos, sempre.

Pouca. É uma grande chatice, como dizia a outra, uma grande merda. Aquela que canta, a americana, a Cher.

Se bem que a Cher já fez alguns procedimentos.

A Cher está cheia de procedimentos. Dá muitos anos para trás.

Não pode falar desta forma.

Mas está bem, mas diz de uma maneira absoluta. Qualquer dia silenciam. Como silenciaram a Meryl Streep, nitidamente.

Ainda assim, falamos aqui da forma como fala do envelhecimento. Como é que lida quando há um preconceito em relação a si por causa da sua idade? Aí já é diferente a história?

Só se for alguém buçar no Facebook e me diga alguma coisa. Porque do resto, sinceramente, não tenho tido nenhumas tensões com ninguém. Se calhar depois desta coisa vou ter. Mas um aviso: se conseguirem chegar aos 84 e bem-dispostos e a trabalharem naquilo que gostam, de facto há uma reforma, se conseguirem, dou-vos os parabéns, porque dou os parabéns a mim própria.

São José, nós já falámos muito aqui de política, das mudanças no país em termos de política. Muito em breve vai estrear uma série na RTP2, da qual faz parte, e que fala aqui de uma abordagem do fenómeno da direita radical. Chama-se "Cara a Cara", tem vários atores, a Inês Castelo Branco, a Joana Seixas, o Filipe Vargas.

A minha querida Joana Seixas, que foi minha filha no "Queré Viver?".

É verdade. O que nos pode contar sobre esta história e sobre o fenómeno que vocês vão tentar explicar, não é, no fundo?

Eu, sinceramente, não li tudo. Eu li muito pouco, porque a minha personagem perde a capacidade de falar. Portanto, para mim foi uma coisa maravilhosa não ter que meter um texto na cabeça.

Mas é um texto diferente.

Mas tinha que entender. É um trabalho que eu considero tão valoroso como aquele que ao meter um texto.

Claro.

Porque pensei nas coisas. Era alguém que tinha tido um passado com alguém que tinha estado preso, político, portanto, a pessoa emudeceu. Há uma peça do António José da Silva que é: "Imudeceste quão oráculo". O António José da Silva era um tipo que foi abordado pela Inquisição fortemente. Enfim, é um homem muito interessante a escrita dele. Depois, do Luís Vaz de Camões, que essa então, para mim, foi a descoberta máxima. Eu faço parte de uma geração, e toda a gente da minha geração sabe, que nos liceus tínhamos que dividir em orações e era uma chatice aquilo. Não havia interesse nenhum em saber quem era o Luís Vaz de Camões. Era porque tinha que ser.

Era obrigatório.

Pois, era a figura mítica do fascismo, era o escritor. Era um disparate, quando o homem é interessantíssimo. Foi um maluco, foi um grande maluco. Passou uma vida inteira a amar A, B e C, amava imenso, escreveu com as coisas todas, na altura ele ia buscar os nomes, os Boccaccios e os outros todos, os poetas todos que na altura, agora não me lembro do nome. Deus.

Não se preocupe com isso.

Pronto, não me preocupo com isto.

Não, a questão dos nomes, nós estamos aqui à conversa e falo por mim, muitas vezes também me esqueço de muita coisa. E depois quando vamos ouvir é quando percebemos: "Como é que eu me esqueci disto?"

Não, o pessoal está a ficar com falência memorial por causa das internets, do Google. Nós recorremos tudo ao Google.

E depois parece que o cérebro também acaba por não estimular.

Amolece. A leitura é uma coisa que produz leitura, que produz mais. E eu ultimamente não tenho lido muito.

Está mais dedicada a escrever, se calhar.

E ao Luís Vaz de Camões. E há o Luís Vaz de Camões, neste caso, o levantamento de um texto por João Paiva e encenado comigo e com a Inês, que faz a cenografia das diversas fases. Isto foi um projeto muito giro. A etapa do Luís Vaz de Camões sai de Lisboa, vai para Marrocos, para Ceuta, leva uma murfatada, não foi bem cuspida, foi uma murfatada, um murro, fica cego de um olho. Vai para a Índia. Nós já estamos na Índia, acabámos de fazer a Índia. E vai depois para Moçambique, vai depois para Macau, de Macau vai para Moçambique outra vez e volta a Lisboa sem dinheiro nenhum. Absolutamente, e só com um único jovem, que é o apoio dele, que não sabemos se houve amores entre eles os dois. Como é que ele se chama? O escravo. Também não me lembro do nome do escravo. Ai, meu Deus.

Vamos lá, passamos à frente.

Credo, passamos à frente.

Eu queria lhe perguntar, porque ao ser uma mulher tão bem-disposta, e parece-me, quando olho para si, de bem com a vida.

Sim, e de bem com a morte, porque ao pensar que irei morrer, tenho que ter calma. Não posso entrar em... como hei de dizer? A morte é um fim que é para todos. E se começamos a sentir a morte como primordial, como o elemento primordial para acabar a vida. Não, tem que se afastar a morte. Pensar que isto é uma única etapa que estamos ainda cá. Pode ser que haja alguma coisa, não sei.

Mas eu queria lhe perguntar, nos dias maus, a quem é que se agarra?

A mim própria, não tenho outra hipótese. A mim própria. Digo: "Tenho que acalmar". Eu não tenho muitos dias maus. Andei meia deprimida no verão, por causa da vizinhança que não se sabe comportar. E de repente, era uma coisa que via tudo à volta e houve um senhor que quis reproduzir muito dinheiro e vendeu por avos, e tenho seis pedinhos de terra, e há um senhor que insiste em pôr, no verão, um gerador de construção, que é um barulho que me chega à casa, que é num sítio mais baixo, aí que sobe. Enfim, portanto, eu deprimi mesmo. E é proibido, a lei do silêncio existe. Já bati o pé, mas enfim. E é assim, essas são as coisas que para mim são rudimentares. Eu não tenho grandes desejos de nada. Eu gostaria que houvesse um país bonito, que não dessem cabo nos incêndios como deram, que os bosques fossem uma realidade e não são, é tudo eucaliptos, que as pessoas vivessem lendo e curtindo a vida de uma maneira feliz. E de repente, estou num país em que metade do país odeia a outra metade. Não é metade, um terço do país.

Uma parte.

Uma partezinha, ainda. Espero que sejam devalladas essas coisas em breve. E é assim.

Uma mulher livre, independente, irreverente, que não tem medo de dar a sua opinião, ainda tem preconceitos?

Tenho alguns.

E ainda tenta limá-los?

Não me interessa muito. Ainda tenho, mas não me interessa muito limá-los. Com a idade com que estou, mais sob o ponto de vista comportamental, esses sim, não aceito a brutalidade como aposta na vida. Não aceito de maneira nenhuma e não aceito o ódio. Aceito, se calhar, por ter tido um começo de Igreja Católica. O comunismo está muito perto do catolicismo, da comunidade. No início dos inícios, não agora. As pessoas confundem o Putin com o comunismo. Não, o Putin não tem nada de comunista. O Putin é um capitalista em grau exacerbadíssimo. Assim como o senhor Trump também não tem nada de democracia. É aquilo que se vê com aquela polícia agora a apanhar as pessoas como se fossem gado. Eu espero que isto nunca aconteça em Portugal. Espero que não, que estamos numa Europa ainda mais ou menos. Se bem que a Inglaterra tenha havido as contestações e apanharem velhos agarrados, mas têm outro cuidado. Não são as bestas dos HTF. Não, isso é dos alemães. Isto é muita coisa.

Eu acho que já me respondeu, mas para terminar, São José Lapa, o que é que a inquieta?

As lutas fratricidas, as lutas de classes, que já não têm esse nome, têm outro nome. A luta da maldade. Isso inquietou-me sempre e vai me trazer sempre. A ida dos jovens, da quantidade de jovens que podem ir lutar por uma razão que não é a deles. Os 5% que o Trump exigiu, que nos vai retirar a nós uma quantidade de capacidade do Serviço Nacional de Saúde poder melhorar, e de tudo, das coisas do dia a dia, da alimentação. E da ascensão de uma classe muito próxima de uma coisa que se chama fascismo. Isso aí incomoda-me imenso. Incomoda-me e não acho bem.

São José Lapa, foi uma grande conversa, uma grande viagem pelas suas memórias com tantas histórias por contar.

É muito simpático, devo lhe dizer.

Muito obrigado por vir aqui à Rádio Observador.

Nada, não tenho nada que agradecer.

E muito sucesso. Tenho a certeza que ainda vamos ouvir muitas histórias contadas por si. Obrigado.

Nada. Obrigada eu.