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A cada criança que tu sabes que conseguiste salvar, entre aspas, muitas é literalmente salvar, não há problema de usar, porque é verdade. E os pais que tu conseguiste, os vizinhos, os amigos, os professores, todas as pessoas que tu conseguiste deixar atentos. Às vezes uma simples dor de barriga. Eu lembro-me de uma altura, andar atrás de um número de telefone de uma educadora de infância, porque havia uma criança que tinha dor de barrigas constantes. Eu consegui o número de telefone daquela educadora, liguei-lhe e disse-lhe: "Veja bem o comportamento da criança, olhe, esteja atenta, porque dor de barriga pode ser um indício de abuso sexual." As pessoas também têm a ideia do abuso é a violação, é dor, é penetração. Não, há muitos tipos de abuso. O nível de crueldade e de doença é tanta que ninguém imagina o que é que se pode fazer.
Descobriu muito cedo a sua arte, e quando digo muito cedo, foi perto dos quatro anos de idade. Nessa altura, ainda que inconscientemente, já sabia o que queria e que gostava de estar em palco. Hoje olhamos para trás e percebemos que tudo teve o seu propósito. Do norte, traz a simpatia, a alma da festa, a honestidade e a vontade de a cada dia ser melhor atriz, apresentadora, mãe, mas acima de tudo, uma melhor pessoa. Melânia Gomes, em 40 minutos. Muito bem-vinda aqui à Rádio Mina.
Obrigada.
Ficaste, gostaste desta introdução?
Adorei.
Acertou em tudo?
Acertou em cheio.
Foi? Boa.
Foi, fiquei muito feliz.
Então já tens aqui um, quando quiseres te apresentar.
O meu marido bem diz que eu sou muito transparente. Eu acho sempre que não, mas obrigada, fiquei muito feliz.
Nós andamos cá pra isto, para sermos melhores pessoas todos os dias. É nisso que gostas de acreditar.
Sem dúvida, porque senão perdemos uma oportunidade única, porque que eu saiba, só temos esta vida, portanto, senão não devíamos estar.
Até ver só temos esta.
Até ver, ainda ninguém veio cá dizer o contrário. Por isso, é dar tudo todos os dias e evoluirmos nesse sentido.
Melânia, tu és uma pessoa que é naturalmente muito sorridente. Desde que entraste neste estúdio, ainda não paraste de sorrir, a verdade é essa. Estás também muito habituada ao contato com o público. Quando estás na rua, quando alguém te reconhece, o que é que te dizem e como é que reages?
Normalmente dizem-me sempre coisas muito simpáticas. "Gosto muito de si, gosto tanto do seu trabalho" ou "faz-me companhia todos os dias" ou "todos os domingos, eu não perco um domingão só pra ver a Melânia tocar bombo". As pessoas são sempre tão simpáticas, ou mesmo que não digam nada. Às vezes não dizem, mas olham pra mim com aqueles olhos a sorrir e esboçam um sorriso que equivale a 10 abraços e é o maior cachê do mundo, é o carinho do público.
E às vezes quando essas pessoas ficam tímidas e até tu percebes que estão a olhar pra ti e há esse troca de olhares, tu até dizes alguma coisa só pra desbloquear a conversa?
Sim.
"Ah, dá cá um abraço."
Sim. É sempre bom e é tonto. É tonto não dizer nada.
Sim.
Também já aconteceram, regra geral, são bons sorrisos e é um bom feedback, mas também já aconteceu olharem pra ti no comboio, uma viagem Lisboa-Porto, como se tu não estivesses lá. E aquele olhar e que tu fazes, e a pessoa não reage, é muito estranho. Aconteceu pra mim uma vez, mas pronto.
Ok, boa.
Foi marcante.
Tu descobriste a paixão pelo teatro com apenas quatro anos e não te calavas. Isto não são palavras nossas, são as pessoas que dizem. Eras daquelas crianças que ia a qualquer lado e que dava espetáculo em qualquer sítio que fosse?
Sim, era. Eu não parava. E eu acredito que fosse muito soberba.
Exaustiva.
Exato. A minha família já só dizia: "Melânia, por favor, cala-te só um bocadinho", porque eu não parava. E depois, lá está, era tipo cassete. Eu sabia literalmente as cassetes todas do Raul Solnado: a ir ao médico, a ir à guerra. E são cassetes de sketches de 20 minutos. Portanto, entre isso, anedotas, músicas do Quim Barreiros, sketches da Marina Mota e por aí fora, tinha repertório para muitas horas.
Guardas boas memórias dessa infância em que eras uma criança super cheia de energia.
Guardo. Guardo memórias, por exemplo, também de cantar na rua tipo Amália. Só mais tarde é que eu percebi, porque na altura aquilo pra mim era perfeitamente normal, cantar na rua e receber pesetas de espanhóis. E eu depois: "ei, é fixe, tenho que contar as pesetas e guardar." Só podia usar aquilo quando fosse à Espanha, mas usava, era espetacular, era um ponto alto das minhas férias.
E usavas no quê?
Gelados.
Gelados era-
Claro
...o sonho de qualquer criança.
Gelados, chocolates, o sonho. É, mesmo.
Quando somos crianças, os gelados eu acho que é uma realidade tão distante que pra nós é como se fosse um tesouro.
Nunca fui de caramelos.
Eu era mais gomas.
Eu sei que nós íamos à Espanha e eu sempre queria gomas.
Eu depois fui mais tarde gomas, mas primeiro os gelados.
Ai, não, gomas eu bem me esforcei a gostar, mas não conseguia.
Bem, Melânia, à medida que foste crescendo, foste percebendo que as oportunidades e muito daquilo que querias ser levava-te até uma cidade com mais oportunidades, como Lisboa. Como é que encaraste essa realidade e teres de mudar o teu habitat, digamos assim?
Olha, tinha que ser.
Portanto, uma pessoa que gosta muito de casa. Casa Viana.
Sim, mas tinha que ser. Eu já tinha ido para Braga, estava na Universidade do Minho, a tentar tirar Sociologia. Digo tentar, porque foi uma péssima experiência, não gostei, porque de fato não era o que eu tinha que fazer. Eu não estava no sítio certo a fazer o que era suposto fazer. Portanto, nada correu bem, foi terrível. Até que eu percebi e vim-me embora. E depois, uma data de acontecimentos No decorrer de ter tomado a decisão de não, não é isto. Eu vou voltar para trás, eu vou para teatro, eu vou estudar para Lisboa, eu vou fazer qualquer coisa, porque já tinha essa vontade e tinha os meus professores todos a dizer-me o mesmo. E depois vi um casting na televisão, no próprio dia que chego a Viana, vi o casting, telefonei, liguei, marquei. Não pensei muito, vim e depois quando fiquei: "Ok, agora que eu tenho que..."
Agora é que são elas.
Fiquei em casa de familiares os primeiros tempos, mas depois aconteceu tudo muito rápido. Seis meses depois de estar em Lisboa, eu passo de teatro amador para teatro profissional.
A estadia acabou por ser curta, mas também te deu muitas mais-valias e era precisamente por aí que eu queria ir. Tu começaste por fazer teatro amador, que é uma escola em todos os sentidos, porque não se é só ator. Tu fazes tudo, um bocadinho de tudo, e tu percebes também como é que o espetáculo funciona por dentro e por fora.
Foi aí que aprendi a fazer os sapatos que estão no Museu São João da Madeira, que é a tua terra.
É a minha terra.
Fui fazer teatro amador e perceber como é que se colavam os brilhantes dos sapatos com cola quente e ficar com os dedos. Que era o desafio e consegui.
E conseguiste. E neste teatro amador, falávamos aqui da questão de conhecer o espetáculo por dentro e também por fora, ter outra visão daquilo que é um espetáculo, não só enquanto ator. O que te deram esses ensinamentos? E também perguntar se esse contacto tão terra a terra te fez também não te deslumbrar tanto no início com esta profissão, em que tens contacto com muitos atores e com muitas pessoas já com trabalho reconhecido.
Claro. O teatro amador ensinou-me a ter respeito e noção de que temos que funcionar num todo, porque senão o espetáculo não acontece. Porque o próprio ator que está em cena também é, se for preciso, o que abre a cortina e o que desce o telão e o que vai apontar o colega que está a precisar e, se for preciso, também ainda dança e no fim ainda vai guardar as cadeiras. Portanto, todos fazemos tudo. E além desse respeito e dessa noção, deu essa desenvoltura de nós termos que fazer acontecer. E não encucar muito com questões e evoluir. Tínhamos muitos papéis, muitos textos, muitas personagens. É chato estar e não pode ser sempre a mesma, não pode ser a atriz em cena a dizer. Não, temos que construir. Com base em quê? Em nada, em zero. Inventa, faz. Era o que o Francisco Nicholson me dizia: "Ó filha, inventa, procura, faz."
A questão dos cenários também, não é?
Sim, a roupa. Portanto, essa ligação. O texto passa-se onde? É na rua. O que eu digo? O texto diz, mas quando não diz, diz a roupa, diz o cenário, diz o ambiente, o que eu posso fazer diferente. Claro que estamos a falar em caricaturas, em bonecos, podemos esticar um bocadinho mais, podemos sem tanto medo. E então o teatro amador deu-me isso tudo e comecei, antes de ser profissional, de facto, a lidar com vários nomes, várias referências que iam à Academia de Santo Amaro, iam ver espetáculos. E depois quando comecei a trabalhar com eles, eu acho que tive bons professores, bons padrinhos, e uma noção se calhar muito terra a terra de que eu agora estou aqui, está a correr bem, mas pode não depender só de mim.
E quem é que foram esses padrinhos?
O Paulo Vasco foi meu padrinho de teatro, o empresário Hélder Freire Costa, que fez agora este ano 60 anos de teatro, o Mário Rainho, a Marina Mota, Maria João Abreu, José Raposo.
Tudo pessoas tão reconhecidas e que têm uma notoriedade no meio para as pessoas.
Joaquim Benite.
Que receberam-te bem.
Rui Carvalho. Todos.
Que te receberam da melhor forma, tendo vindo de teatro amador.
Sim. E eu, se calhar também muito por isso, pelo teatro de revista, eu ficava sempre a ver os colegas ensaiar. Ficava a ver os ensaios dos outros e depois mais tarde na televisão, os takes dos outros. E fui sempre absorvendo por ver, por ouvir, por perguntar. E sempre tive essa generosidade dessas pessoas todas que se foram cruzando, tanto no teatro, como no teatro de revista, como em televisão, como depois mais tarde em cinema com o Nico. Foi sempre muito bom, graças a Deus.
Ainda assim, Milena, também tiveste o lado mau, digamos assim, tiveste alguns períodos sem trabalho. E o facto de teres passado por essa situação, saberes o que te custou para alcançares o que acabaste por alcançar e teres agora também alguma estabilidade, isso leva com que dês ainda mais valor ao que tens neste momento?
Sim, e ensinou-me, sobretudo, a não ficar muito dependente, porque ao início, e graças a Deus, agora as redes sociais abriram um bocadinho essa possibilidade, mas ao início nós ficávamos muito dependentes. Tínhamos trabalho em televisão ou não, teatro ou não, íamos fazer um casting, como é que era. E de repente, depois de ter um contrato de exclusividade, quando tive esse período mais difícil que tu falas, em que eu, de facto, não estava a fazer nada. Foi um período em que eu aprofundei, aproveitei para estudar, para me conhecer melhor, para perceber até que ponto é que isso me afetava, por que me afetava. É a importância do outro, é a validação do outro, é o ser amada, é o mostrar, é o ter ou não ter valor, significa que tenho, que não tenho. E depois tudo fez sentido. De facto, isto tudo são ciclos. Às vezes há, outras vezes não há. Quando há, é de aproveitar, quando não há, é de aproveitar que não há, fazer outras coisas e não ficar também na vitimização.
Não desesperar.
Não, e foi aí que eu criei a minha Silvina Godinho. Foi no momento que eu criei aquela velha maravilhosa, louca, esquizofrênica, que eu adoro e que deu um monólogo, deu um documentário, e eu sei lá mais o que pode dar, porque a profundidade dela é tanta e tem uma vastidão de-
Camadas, não é?
Exato, que ninguém me tira. Posso não ter tido trabalho e financeiramente pode ter sido difícil, mas em termos de criatividade, de cura e de conhecimento, foi ótimo.
Tu tens uma filha muito pequena, vai fazer anos agora em maio, não é?
Sim.
Cinco?
Seis.
Seis. Muito bem. Eu sei que viste a série Adolescência, fui buscar as tuas redes sociais.
Boa, fizeste muito bem.
Tu fizeste um post nas redes sociais sobre isso. Tendo tu uma filha, pergunto, esta série levanta aqui muitas questões e é um murro no estômago, também cheguei a dizer isto. Que preocupações é que tens hoje, tendo tu uma filha neste mundo completamente novo e em que estamos todos à distância de uma simples partilha, de uma simples mensagem que pode mudar a vida de alguém? E as crianças estão muito focadas e às vezes também vulneráveis a este novo mecanismo.
Estão se nós quisermos e estão se nós deixarmos, porque se nós não as expusermos desde cedo nas redes-
Tens essa preocupação com Mafalda?
Óbvio, sempre. Eu talvez tenha ao início publicado algumas coisas. Lembro-me que a saída do hospital, sim, pus logo toda contente. E depois comecei a perceber os perigos, comecei a ouvir a nossa polícia judiciária, a Polícia de Segurança Pública, comecei a seguir psicólogos, comecei a seguir o Instituto Apoia a Criança, uma data de instituições, e comecei a perceber o perigo que é expor os nossos filhos nas redes sociais. Portanto, imediatamente acabei com isso, nem sequer de costas, nem sequer a voz, nem sequer coisa nenhuma, nem rotinas, nem nada. Porque nós temos que ser inteligentes e utilizarmos as redes sociais para nosso favor, não contra nós. E expor os filhos eu acho que é assustador. Ainda bem que muitas pessoas na sequência dessa série estão a deixar de o fazer.
Pode levar aqui a repensar alguns hábitos que são dados como adquiridos.
Este ano, 2025, ai, da última vez que eu disse isto aconteceu o Covid.
Vamos com calma.
Se calhar abdicamos da próxima frase.
Vamos abdicar da próxima frase.
Eu vou perguntar-te: ser mãe deu-te uma outra visão da vida e também o que é que tens aprendido com a tua filha, a jovem Mafalda?
Olha, a maternidade é uma oportunidade de nos curarmos, porque ninguém fala, ninguém sabe exatamente o que é, e acabamos todos, ou pelo menos eu falo de mim. Eu não fui tão preparada como poderia ter ido, mas fui-me preparando rapidamente. É como se fosse um comboio, que está em andamento, tu tens que correr e apanhá-lo, assim também é um pouco a vida. E foi logo a primeira decisão ou das primeiras decisões, assim como muitas outras. Lá está, o estar presente, mas presente. Porque isto é terrível.
A Melânia estava no telemóvel, para os nossos ouvintes.
Eu estava no telemóvel, pois é.
Aqui a simular.
Só nos estão a ouvir.
Porque nós não tivemos isto. Eu não imagino. Não tivemos isto e mesmo assim temos uma data de problemas, todos nós precisamos de ser amados e validados, e não tivemos isto. Agora, eu imagino o que seja para uma criança crescer com esta pressão, de terem de rivalizar com o telefone. Chamar a atenção dos pais, porque isto consome, é o trabalho, e isto consome. Então, eu nunca estou com o telefone. Quando estou com ela, eu não estou com o telefone. O telefone é uma ferramenta, ela sabe que é uma ferramenta de trabalho, usa-se para trabalhar e pousa-se, e estamos, e conversamos, e validamos. E a infância é uma oportunidade ótima de ensinar novos seres humanos que os gostos não se discutem e que temos que ter respeito, temos que nos respeitar a nós e exigir que os outros nos respeitem. Eu acho que é tão bom.
E aos cinco anos ela já consegue perceber esses conceitos?
Completamente. Porque se eu lhe digo que ela é a mais linda e eu amo-te, coração, não. Primeiro tens que te amar a ti. Tu és a mais linda, depois sou eu. E eu não posso. "Ai, filha, mas isso custa." "Mas é assim, mãe." É o saudável.
Alguma coisa estás a fazer bem, de certeza, porque esses valores...
Olha, é assim, também, lá está, não há receitas certas. Não é porque isto é assim, linear. Ninguém sabe. Mas só o facto de teres este discurso, esta sensibilidade, dares estas ferramentas, criar as crianças com esta bagagem, com esta inteligência emocional. Para já, não vão ter aquela coisa, que já existia e sempre existiu. Não é preciso, mas não ter o escalar das redes sociais para se validarem, para lidarem com a sua autoestima, a sua beleza, essas questões todas, porque eu fico doida. Cosméticos para crianças.
A questão da skincare, que agora muitas crianças fazem isso nas redes sociais e gravam vídeos a fazer essas rotinas de pele.
Mas isto faz sentido? Olha, começo já a ficar com calor. Deixa-me mesmo muito irritada.
Acho que está a pedir uma pausa, João.
Não entra.
Antes de terminarmos aqui a nossa primeira parte, perguntar-te também se começaste a encarar a tua profissão por seres mãe, que é um papel que tens na tua vida, de uma forma diferente, se mudou alguma coisa.
Penso que não. Eu sempre fui muito intensa e sempre me entreguei completamente a cada momento, porque a única certeza que eu tenho é o aqui e agora. Portanto, seja em casa agarrada à cria, seja no trabalho agarrada ao trabalho, eu acho que só talvez tenha intensificado isso mais. E sim, inconscientemente tu queres trabalhar mais e mais, porque sabes que tens ali uma cria e por muito que tu não queiras, a nossa profissão é instável, tens que aproveitar, tens que ter trabalho, porque eu ainda sou da geração que trabalhar significa ter dinheiro. Pagar as contas, ter uma vida equilibrada, saudável. Eu estou a dizer isto porque às vezes a gente vive em mentalidade pobre, não interessa. Para mim é o que é saudável.
Exatamente.
Se eu não tenho, não vou gastar e, portanto, para ter e assegurar o crescimento de um filho e o bem-estar, tenho que trabalhar. Às vezes tenho que também fazer um pouquinho mais de pausa, essa tal pausa que tu precisas, que eu às vezes também preciso e não respeito.
Vamos fazer essa pausa aqui no "Em 40 Minutos" para atualizarmos as notícias, mas já voltamos para a segunda parte no "Em 40 Minutos" com a Melânia Gomes. Até já.
Até já.
Estamos de volta ao "Em 40 Minutos" com a atriz e apresentadora Melânia Gomes. Muito obrigado por teres vindo mais uma vez.
Obrigada eu.
Vamos continuar a conversa e vamos falar aqui sobre um episódio que, desde já, é um assunto sensível e vamos até ao ponto em que te sentires mais confortável. Tu em 2023 foste muito corajosa e partilhaste uma história que te marcou e que continua presente, acredito, nos dias de hoje. Um relato sobre abuso sexual que sofreste de alguém da tua família. E mais uma vez digo que vamos até ao ponto em que te sentires mais confortável para falar sobre isto. É uma história pesada. Tu eras só uma criança e na altura tu própria dizes que ninguém te ajudou, porque foi a questão de tu pedires ajuda, mas esperavam que tu esquecesses aquele momento quando fosses adulta. Esse episódio da tua infância marcou-te em que medida?
Olha, eu acho que me marcou em relação à minha autoestima, que foi um trabalho que eu fiz mais à frente. Marcou-me no sentido de que sempre fui muito cuidadora de mim, ou seja, sempre tentei prever situações, tentar antecipar cenários, não pedir ajuda, fazer tudo sozinha. Hoje em dia, depois de fazer terapia e depois de ver as consequências disso, é o que eu observo. Portanto, todo o meu trabalho tem sido desfazer isso, entre aspas, não é desfazer, mas trabalhar nesse sentido de eu posso dizer que não. Isto por acaso em relação ao trabalho, estás a ver, fazer. Eu posso dizer que não, o não é uma palavra como o sim. Eu posso descansar. Eu posso pedir ajuda. Existem pessoas que me podem ajudar. Eu não preciso fazer tudo sozinha. E isto também entrou pela maternidade adentro, porque obviamente vocês não sabem, não são mães, mas às vezes as mães vivem a maternidade de uma forma muito sozinha, com medo de serem julgadas pelos outros e pela família. Eu também tive isso. E noites e noites a minha filha só dormir.
E ninguém fala muito dessa parte ou ensina essa parte.
Não, foram dois anos sem dormir. E eu achava que eu tinha, porque eu tinha, que era eu, que era minha obrigação. Esta dureza, esta coisa também acho que pode ter vindo daí, mas também pode não ter, porque há pessoas também que são assim e não têm. Esse episódio, e eu falei sobre ele no "Alta Definição" ao Daniel, depois de ter sido mãe e foi numa altura em que eu achei que: "Ok, tem que ser agora." Estavam a acontecer coisas na Comunidade Europeia, decisões, prazos, era aquele momento e é preciso que se fale mais e que se tragam essas conversas, porque ninguém sabe efetivamente. Se uma criança chegasse ao pé de ti e dissesse isto, sabias o que é que havias de fazer?
Não.
Não.
Nem sei o que é estar na pele dessa criança.
Ninguém sabe o que há de fazer.
O que ela está a sentir.
A primeira coisa é agarram as crianças, abraçam-nas, errado. Ou então dizem: "Tens a certeza? Achas mesmo?" Aquelas perguntas que não se pode dizer. As pessoas não sabem, os educadores não sabem, os pais não sabem, a sociedade não sabe o que é que há de fazer. Vai pondo isto para baixo do tapete quando uma em cada cinco crianças são ou vão ser vítimas. Portanto, os números estão aí, não sou eu que digo. Sim, OK, é mais no seio da família, então bora falar de educação sexual nas escolas adaptado à criança, ao conhecimento da criança. A ideia é prevenir, não é traumatizar. Portanto, vamos validar a criança, porque o que tu percebes com isto tudo é que tu vives numa sociedade em que a criança não está no centro. Guardas partilhadas, por exemplo, também é uma coisa que agora ou está com a mãe ou está com o pai e é isto, e é aquilo. As guerras, o virar um contra o outro. Paga, não paga, fica comigo, não fica Ninguém pensa no bem-estar. Em primeiro lugar é a criança. O bater, os castigos corporais, tudo isso que já há leis desde 1984 que não são respeitadas, os castigos nas escolas. Tu começas a olhar e tu percebes. Workshops de deixar o bebê a chorar pra dormir e não sei o quê. "Não, porque é mimo, não dá colo." E tu pensas: "Meu Deus, estamos em 2025, um mundo tão evoluído, tão avançado e ninguém percebe nada do cérebro da criança, nem do adolescente, a propósito também. O cérebro humano só está todo pronto a partir dos 25 anos. Portanto, seja o que for, são cérebros imaturos. Não é birra, não é querer atenção, é uma necessidade. Qual é? Não sei. É uma necessidade. Percebes? Tem que ser acolhida. E por aí fora, tanto nos abusos sexuais, como depois no namoro, como consentimento. Consentimento de quê, se não há consciência? Como a comunicação social, vários títulos errados, prostituição de menores, é uma coisa que me deixa doida. Não há prostituição de menores, há abuso sexual. Casamento infantil, não há casamento infantil, há abuso. Percebes? Namorada de 12 anos e ele tem 25. Não é namorada, tem 12 anos, não é namorada, está a ser vítima de abuso sexual por um jovem. É a forma como se escreve, como se romantiza, como não se tem conhecimento nenhum. E isso trouxe diálogo. É preciso formação. A criança pede ajuda, mesmo sem palavras. Temos que estar atentos aos-
A todos os sinais
...aos sinais e temos que ensinar a criança a ter autonomia, a ter o seu não, é o seu corpo. Como é que tu podes ensinar educação sexual se é ok os pais baterem nos filhos? Se é ok o professor pôr de castigo encostado a uma parede, impedi-lo de ir ao recreio, que é quando as crianças precisam se regular, se mexer. Enfim, é só começares a pegar por uma ponta e puxar e percebes que se a criança estivesse no centro, se as leis, poucas que existem, mas pelo menos se essas estivessem a ser catadas, tudo o resto à volta ia se desenvolver de outra forma.
Esta é uma história bastante pesada, Melânia. Quando partilhaste este episódio, que retorno é que recebeste? Sentiste apoiada?
Milhares de mensagens. Milhares, milhares e milhares. Ainda hoje-
O que é assustador
...ainda hoje, passados estes anos, eu tenho uma pasta com mais de mil. Claro que não vou nunca divulgar as pessoas, as coisas que me contaram, mas a quantidade de pessoas que estava pela primeira vez a ter essa conversa, às vezes até com elas próprias, no desencadear dessa conversa, valeu todo o objetivo de falar sobre aquilo. Porque o meu primeiro objetivo foi logo imediatamente alcançado, que foi as pessoas falarem sobre isto, nem que fosse com elas próprias.
Estar mais atentas também aos comportamentos dos próprios filhos. Alguma coisa que pudesse estar-
Sim. E depois disso, quantas e quantas vezes eu já não fui a ter repartições de Segurança Social, cafés, restaurantes, hotéis, e que me disse: "Graças à sua entrevista, conseguimos salvar uma menina que veio falar conosco" ou "Conseguimos salvar um menino", porque os rapazes é mais difícil de falar, demoram mais tempo. E isso também trouxe a discussão de estes casos prescreverem, não podem prescrever, demora-se muito tempo.
Essas pequenas vitórias ultrapassam a mágoa que deixou?
Ultrapassam. E há tanta coisa ainda pra fazer, mas a cada criança que tu sabes que conseguiste salvar, entre aspas, muitas é literalmente salvar, não há problema de usar, é porque é verdade. E os pais que tu conseguiste, os vizinhos, os amigos, os professores, todas as pessoas que tu conseguiste deixar atentos. Às vezes uma simples dor de barriga. Eu lembro-me de uma altura, andar atrás de um número de telefone de uma educadora de infância, porque havia uma criança que tinha dores de barrigas constantes. E eu consegui o número de telefone daquela educadora e liguei-lhe e disse: "Olhe, não me chame doida, por amor de Deus, mas se quiseres chama, não faz mal, estamos cá pra isso. Veja bem o comportamento da criança. Olhe, esteja atenta, porque dor de barriga pode ser um indício de abuso sexual." O estresse, os nervos, não só a dor.
Manifesta-se de diferentes formas.
Há muita coisa, uma ida ao dentista. Porque o próprio abuso, as pessoas também têm a ideia do abuso é a violação, é dor, é penetração. Não, há muitos tipos de abuso. Há um escalar de abuso. Há um abuso que é no meio de uma brincadeira, as crianças nem percebem que estão a ser abusadas. O nível de crueldade e de doença é tanta que ninguém imagina o que é que se pode fazer. Até debaixo d'água, até numa aula de natação, à frente de toda a gente.
E ninguém se apercebe.
Ninguém se apercebe.
Com este episódio arrumado ou não na tua vida, acho que vai continuar sempre presente e é muito bom termos testemunhos destes, que a forma como tu impactaste as pessoas e deu-se com certeza mudanças também na sociedade e na forma como as pessoas olham até para os próprios filhos e pra as crianças de uma maneira diferente.
Agora é preciso os juízes olharem e não continuarem a forçar crianças vítimas de abuso a contactar com os progenitores, porque por lei e tal, e essa lei tem que ser mudada e essas mentalidades têm que ser, porque é aquilo que nós, enquanto cidadãos, não conseguimos fazer. Conseguimos fazer pressão, mas ainda não conseguimos mudar leis, não conseguimos fazer com que os juízes parem Agora, no imediato, de obrigar, porque é o que se está a passar. Nós estamos a falar e neste momento há uma criança que está a ser entregue a um pai que está provado em tribunal que abusou dela e mesmo assim ela tem que estar com ele. Portanto, imagina o que não está acontecendo no nosso país a cada segundo.
Há muito trabalho para fazer nesse sentido.
Muito.
Dizes muitas vezes que a tua filha te conta tudo e existe essa preocupação para que a vossa relação seja muito de partilha, de afeto, mas acima de tudo também de muito respeito. Como é que expressas esse orgulho que tens pela família que estás a construir e pelo bom trabalho que estás a fazer?
Olha, para já estás a pôr-me tanta pressão que eu fico já nervosa. Ela é que se estou a fazer um bom trabalho, estou a tentar.
Acho que sim.
Ela diz que é tagarela. Eu sou tagarela. Eu sou tagarela. Eu gosto de falar.
Herdou essa parte também.
Pronto, eu acho que sim. Quando tu pões uma característica que tu queres como evidência, lá está, começas a estudar, é muito mais fácil. Tu dás, tu dizes: "Ai, tu falas tanto, tu dizes tudo." Começas a puxar exatamente o que tu queres. Tu não dizes: "Tu não me contas nada, tu não falas." Não, senão depois a criança: "Então eu é que não falo. Então eu é que não conto." Tens que dar os elogios daquilo que tu queres que ela faça, daquilo que tu queres que ela seja. E depois tens que dar o exemplo. Tens que falar, tens que falar, legendar. Por exemplo, na rua, as pessoas falam comigo e eu explico: "Olha, filha, eu estou a tirar uma fotografia porque eu sou adulta, OK? A pessoa gosta do meu trabalho e quer tirar uma fotografia comigo. Eu tiro porque eu sou adulta. A ti ninguém te pode tirar fotografias." Portanto, ela sabe. Se alguém, ela diz-me. Por exemplo, estamos num carrossel ou qualquer coisa, e isto é outra coisa que fico doente, que é tiram fotografias a torto e a direito às crianças todas e nem perguntam autorização aos pais e é do povo, é tudo nosso. E ela diz: "Tiraram-me uma fotografia." E ela já sabe que eu vou lá e eu quero o telefone e apaga à minha frente a fotografia, porque senão, deste-me ali uma miúda.
A quantidade de fotografias em que nós devemos aparecer sem saber, é assustador pensar nisso, não é?
Depois tu andas assim, andas com o telefone assim e vais filmando tudo, que eu também já fiz isso para me proteger de outras coisas. Vais filmando tudo, é assustador. Mas quando tu começas a ter essa consciência também é mais fácil. Eu trago muitos ângulos, eu estou sempre a bloquear.
Ninja.
Ninja, exatamente.
Lola Cox.
Mas é bom, é muito bom. É fazer, puxar e dar exemplo. Não vai lá só com: "Tens que falar tudo." Eu sou uma chata.
Dizerem que és boa mãe é o melhor elogio que podes receber.
É. E atriz. Mãe e atriz.
Por essa ordem?
Sim.
Por quê?
Porque depois de seres mãe, por mais amor e respeito que tu tenhas pela tua profissão, há um legado, há uma coisa muito forte que é uma pessoa, é uma vida. Tu não sabes o que aquela vida vai fazer a este mundo. E teres a responsabilidade de seres mãe dessa vida, é maior do que seres mãe de todas as outras personagens que tu fizeste. Também podes impactar e impactas muito com as personagens que tu fazes, mas é como se fosse um bocadinho mais distante. Não tens tanto a noção do imediato como um filho, acho eu.
Falavas aqui da representação e é disso que vamos falar. 21 anos de carreira, porque tu começaste-
Em 2003
...muito cedo. Tu andas agora pelo país com a tua peça. Mostra lá a tua capa de telefone para os nossos ouvintes que estão a ver no YouTube. "Solteira, Casada, Viúva, Divorciada", quatro facetas muito distintas. Queria te perguntar, para além desta peça, já vais explicar um bocadinho como é que isto funciona, mas andar pelo país, conhecer diferentes públicos, é algo que também te dá outra dimensão e outra bagagem enquanto atriz? Gostas muito dessa parte?
Adoro. É assim, eu venho dos Monólogos da Vagina, que foram quatro anos em digressão com a minha querida Teresa Guilherme e Marta Andrino, para quem eu mando um grande beijinho. E não deve ter havido, não existiu, de certeza, sala nenhuma que nós não fôssemos. Foram quatro anos, várias temporadas no Politeama, vários coliseus do Porto, Casino do Estoril e ilhas, Açores, Madeira, tudo. Nós esgotamos tudo. E eu sempre gostei de fazer digressão. Sempre. Já tinha outras produções também que já tinha feito muitas digressões, mas os Monólogos da Vagina foi um projeto muito especial. Isto foi o meu marido. O meu marido é que me pica para fazer estas coisas. E ele começou a se aproximar. Eu estreei-me em 2003. Portanto, em 2023 foi quando foi os 20 anos. E ele começou, sei lá, 2021 ou 2022, a picar-me: "Temos que fazer qualquer coisa." E eu cheguei e falei com o meu agente do Brasil, o Montenegro, o Marcos, para quem também mando um beijinho, e ele falou-me deste espetáculo, porque isto são quatro textos de quatro autores brasileiros. Foi um megasucesso no Brasil, porque nós cá, infelizmente, não temos tanta tradição de termos mulheres sozinhas em palco a fazer monólogos.
Isto é um monólogo.
É um monólogo com quatro mulheres: a solteira, a casada, a viúva, a divorciada.
Sendo que tu fazes todas.
Eu faço todas. Portanto, há uma descrição muito engraçada que é uma atriz em estado de graça que vai pôr tudo em estado de sítio. É assim uma coisa. E fiz este primeiro projeto em 2023, no Festival Teatro de Viana, porque eu queria estrear em Viana e queria que fosse naquele ano e tudo mais. E depois aconteceram uma data de coisas que atrasaram a produção, mas foi uma oportunidade para melhorar a imagem, melhorar o conteúdo, melhorar tudo. Até que estreei oficialmente nos 25 anos da Casa do Artista, no novo Teatro Armando Cortez, este espetáculo, que foi um sucesso e correu muito bem, e depois temos estado a fazer digressão pelo país, que é uma coisa que eu tanto amo. Vou agora dia 24 de maio ao Fórum Braga e vou estar, eu sei que a malta do norte, tu estreias um espetáculo em Lisboa e a primeira coisa que perguntam é: "E não vem ao Porto?" Vou ao Porto, sim, senhora, Meninha.
Com esse sotaque.
Vou ao Porto dia 18, 19, 26 e 27 de setembro São só quatro datas, porque o Sá da Bandeira, como sabem, é gigante.
Vai esgotar rapidamente, não acredita. Aliás, tu tens esgotado várias salas um pouco por todo o país.
Graças a Deus, onde eu vou esgoto. Mas o Sá da Bandeira são quatro datas, portanto, temos a oportunidade de esgotar quatro vezes.
Um grande desafio. Estás a falar com muita paixão sobre teatro. Sentes que é um meio que abraça mais do que a televisão ou hoje em dia também um pouco porque existem as redes sociais, acaba por estar ao mesmo nível?
É só porque é a minha casa. Foi onde eu comecei. Toda a minha formação, toda a minha base é teatro. Depois, profissionalmente, comecei rapidamente a fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas o teatro não para. No teatro tu não tens cortes.
Não tem take.
Não. E tens o feedback imediato, tens a plateia à tua frente, tens o timing que não para, a cortina abre e até que fecha, não para. Aconteça o que acontecer, tu tens que resolver, tu tens que andar. Já tive pássaros em cena, já tive cortinas a arder, já tive plateias geladas que não se riam de nada.
Como é que a cortina arde?
Uma ponta de um cigarro perto de uma cortina e tudo inflamado.
Interrompes?
Não, não interrompes. Uma vara perto de um projetor que pega fogo. Nessa situação tentamos levar até o máximo possível, até que depois tivemos mesmo que evacuar a sala por causa do fumo e abrir as janelas, porque imediatamente temos extintores e o fogo foi resolvido. Mas o fumo na sala era preocupante, porque eram só velhotes, e não queríamos que ninguém desmaiasse com inalação de fumo. Portanto, vamos embora, fazemos uma pausa e depois continuamos. Mas a televisão é diferente.
O ritmo é mais frenético também.
É.
Muito acelerado.
É para ontem.
E ao domingo são muitas horas.
Ao domingo são muitas horas.
Vamos ao domingo, ao Domingão. São cinco, seis horas em direto, às vezes sem rede. Vocês estão a entreter as pessoas no domingo à tarde e o objetivo é que a pessoa que está em casa, muitas delas às vezes sozinhas, e vocês no fundo são a companhia e se calhar muito do carinho que tu recebes na rua é muito também por causa deste projeto.
É, e dos nossos emigrantes, que veem o Domingão religiosamente todos os domingos e que é aquela ponte, aquela oportunidade de ver um bocadinho do seu país, da sua comida, do folclore. É maravilhoso. É, de facto, curioso.
Foi um bombom que te deram e que tu na altura nem sabias que ia ser tão bom.
O Daniel tem estas coisas. Ele junta pessoas improváveis, vai buscar pessoas para fazer coisas que ninguém lembra. Só ele, da cabeça dele. E quando veio a primeira vez o convite, era um especial Marchas Populares. Eu fui madrinha da Marcha de São Vicente, que é o padroeiro da cidade de Lisboa durante praticamente 10 anos. Fazia sentido. Depois era o aniversário. Também faz sentido.
Começou ali o charmezinho de vez em quando.
E depois, de repente, tive um tempo que tive que sair, porque estava a gravar o "Amor, Amor", estava a fazer os monólogos em digressão, tive que parar, mas depois voltei. E de facto, é engraçado, como é que quem está de fora, como é que ele percebeu que eu ia me dar tão bem, quando eu própria não fazia ideia que eu ia gostar tanto de apresentar o Domingão. Porque são seis horas em direto, sempre a dançar. Eu segunda-feira não me sento.
A tocar bombo.
A tocar bombo. Eu segunda-feira, cada vez que eu vou ao doutor Fábio fazer tuina, eu fico: "Pronto, já sei que houve um bombo". Porque é bombos, é concertinas, é dançar, é pular, é saltar, é comer. Ai, meu Deus! A parte da comida é uma desgraça. Mas pronto, e agora temos o "Terra contra Terra", volta e meia temos despiques saudáveis, claro. Tu nem dás pelo tempo passar. É muito cansativo, não vou dizer que não, porque são seis horas sempre. E não há pausa, porque embora haja, caso, intervalos, nós lá não temos intervalos, temos as pessoas à nossa frente que viajaram, saíram da camionete às 6 da manhã, estão ali para estar conosco. E ai, vai ter que ir à casa de banho, por amor Deus, já vai, tem tempo para ir.
Nós não demos pelo tempo passar, mas entretanto vamos ter de terminar. Ainda assim, Melânia Gomes, e para fechar esta conversa, perguntar-te o que é que ainda há daquela menina que cresceu e viveu toda a infância em Viana do Castelo. O que é que ainda há dela?
A alegria. A vontade de abraçar este mundo e o outro, e de comunicar. Porque faz a retrospectiva toda e foi sempre isso que eu fiz, foi picar o outro, puxar pelo outro, atrair o outro, levá-lo comigo nesta brincadeira que é a vida.
Foi uma conversa muito bem disposta e em que falámos de temas também muito importantes. Muito obrigado, Melânia Gomes.
Contem comigo sempre para vir cá falar sobre eles, que eu não largo.
Muito obrigado por isso e pela tua partilha, que é sempre muito generosa e acima de tudo, pode encorajar também outras pessoas a darem outro passo no sentido de pedir ajuda. Muito obrigado por isso. Foi um gosto receber-te aqui. E vão ver a Melânia com a peça, diz-me lá outra vez.
"Solteira, Casada, Viúva, Divorciada".
Vai estar em Braga e no Porto. Consultem tudo nas redes sociais da Melânia Gomes. Um grande beijinho e até breve.
Obrigada.