Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O que me inquieta mais do que a maternidade são todas as questões de educar um ser humano. Eu quero educar um ser humano bom. Eu acho que o ser humano está cada vez mais egoísta, isola-se muito, e eu tenho noção que a inteligência artificial, telemóveis, tudo isto não ajuda. Às vezes também dou por mim a fazer scroll durante uma hora com o meu namorado sentado no sofá e fazemos os dois a mesma coisa e não comunicamos. Mas eu não sei como educar uma criança neste mundo cada vez mais egoísta. Não é só egoísta, eu estou à procura da palavra, desculpa.
Centrado em si próprio?
Sim, centrado em si próprio e sem se preocupar com o próximo.
Ela cresceu a observar o mundo de forma intensa, algumas delas em silêncio, às vezes através das perdas que marcam a sua história desde muito cedo. Viu a ausência transformar-se em força e a fragilidade tornar-se palco. Construiu um caminho longe da facilidade, enfrentou ideias feitas sobre o que é ser uma mulher bonita. Nunca quis ser só o que os outros viam. E foi, ao longo dos anos, afirmando-se como alguém que faz da inquietação a sua matéria-prima. Hoje falamos de amor, de escolhas e da liberdade de não ter tudo controlado. E de um novo desafio: narrar o novo podcast Plus do Observador. Estamos com a Vitória Guerra em 40 Minutos. Bem-vinda aqui à Rádio Observador.
Olá, que bonito!
Tentamos sempre fazer aqui uma reprodução fiel daquilo que o convidado também nos transmite.
E muito bonito. Obrigada.
E eu queria começar, Vitória, por pegar aqui numa frase da nossa introdução: construiu um caminho longe da facilidade e enfrentou ideias feitas sobre o que é ser uma mulher bonita. É um caminho para sempre, que não está estagnado e do qual te orgulhas ter feito ao longo destes anos?
Orgulho-me, sim, muito. E sim, eu acho que é um caminho que é para a vida, apesar de sentir hoje em dia que continuo a ter que provar muita coisa. Eu acho que nesta profissão, especialmente, eu não diria que somos tão bons como o último trabalho que fizemos, mas todos os dias somos postos à prova. Nem que seja para nós próprios, é uma coisa que o artista tem naturalmente, e nós atores temos isso, estamos sempre a pôr-nos à prova. Mas já não sinto tanta pressão como sentia se calhar quando iniciei, porque comecei muito nova, porque efetivamente, sim, a beleza, a imagem era o foco naquela altura, e eu acho que fui aos poucos provando muita coisa.
Essa pressão vinha mais do próprio meio artístico ou daquilo que circundava à volta daquilo que tu estavas?
Eu acho que vinha de mim mesma. Eu acho que é uma realidade à qual não podemos fugir. Trabalhamos com a nossa imagem e estaria a mentir se dissesse que ela não é importante. E sim, comecei a trabalhar porque era uma miúda bonita, e toda essa imagem que se cria, que faz parte, e eu tive essa sorte. Portanto, foi uma porta que se abriu. Mas depois eu acho que fui eu que pus essa pressão em mim.
E é preciso provar depois.
Todos nós temos que provar.
Todo o caminho que foi feito até aqui foi provado depois com todos os projetos que foram surgindo.
Eu acho que sim. Eu quero acreditar que sim, trabalhei muito para isso, mas todos nós temos que nos provar nesta área, em qualquer área. Temos que trabalhar muito.
Vitória, já vamos desfiar muito as memórias do teu percurso, da tua infância. Queremos muito também conhecer-te melhor em 40 Minutos. Antes, temos que falar deste teu mais recente projeto aqui em colaboração com o Observador, 1983: Portugal à Queima Roupa, é o nome do novo podcast Plus do Observador. Tu és a narradora, a banda sonora original do Os Linda Martini. Conta a história do ano em que dois grupos de terroristas internacionais atacaram o país, tudo no espaço de três meses. És a voz que nos conduz, que nos dá a conhecer esta história. É uma missão muito complicada. Quando começaste a ler o guião, quando começaste a ver toda esta história, ficaste surpreendida? Era algo que já conhecias? O que é que conhecias deste enredo e como é que recebeste esta ideia?
Eu não conhecia nada. Até me senti um bocadinho mal por não conhecer, porque o primeiro ataque foi no Algarve.
Sim.
Efetivamente, eu não era nascida.
Tens essa desculpa.
Tenho essa desculpa. Mas é uma história tão complexa, tão louca, que eu pensei assim: como é que eu não conhecia esta história e tão perto de mim? Mas eu recebi de braços abertos a notícia e o convite, porque nunca fiz nada do gênero e estava com muita curiosidade e com muita vontade de fazer. E o texto é magnífico.
O texto ajuda também a que tu própria te sintas parte da trama, daquilo que está a acontecer, a envolvência.
Eu gosto muito de ouvir podcasts e realmente estão na berra. Ainda bem. E este em específico é muito bom, este podcast do Observador. E esta história, poder contá-la é quase como um filme de ação, e eu sentia que estava num filme de ação, a ver as coisas enquanto estavam a acontecer e a narrá-las enquanto estavam a acontecer.
Que cuidados extra é que sentiste que precisavas ter, porque não havia o apoio de uma imagem. Tens de conduzir literalmente os nossos ouvintes, os ouvintes do Podcast Plus, apenas com a tua voz.
Só a voz, exato. Isso foi o mais assustador, mas o mais divertido. Com a minha voz eu tinha que passar a emoção certa para que o ouvinte sentisse aquilo que tinha que sentir ao ouvir a história. O que eu tinha que ter em atenção? Eu tive muita sorte. Tive uma equipe a trabalhar comigo fabulosa, o João e a Tânia, que são ótimos a dirigir, e nós divertimos muito.
Muitos takes?
Sim, isto não é rápido, mas há uma coisa muito engraçada, porque, por exemplo, nós começamos por gravar o primeiro episódio num dia, ou seja, cada dia gravávamos um episódio. E repetimos o primeiro. No final, repetimos o primeiro, porque no início estamos só a experimentar, a ver o que funciona, o que não funciona, onde a minha voz consegue ir, onde não consegue. Uma das coisas engraçadas que eles diziam era: não queriam que fosse muito bem dito e dizível, porque isso é uma coisa que os atores têm muito. Queriam que fosse uma coisa mais natural.
Uma coisa mais contada, não é?
Exatamente. E isso foi o mais difícil, mas depois quando consegui descontrair e fazer exatamente como eles imaginavam, eu acho que correu superbem. E foi divertido.
E como é que se faz esse exercício de te desprenderes dessa faceta de atriz, porque tu enquanto atriz também contas uma história, mas estás no fundo a interpretar uma personagem. Aqui é um caminho ligeiramente diferente.
É bastante diferente. O meu corpo, o meu olhar, dizem muita coisa. Muitas vezes eu não tenho que dizer muita coisa com o texto e através da minha expressão, a minha emoção, eu consigo transmitir uma emoção ao espectador. Aqui não. O texto ajudou, está muito bem escrito. Uma das coisas que nós fizemos foi encontrar palavras-chave e dar força nessas palavras. Depois eu acho que o trabalho de som do Pedro foi absolutamente incrível, da Linda Martini também. E eu acho que isso ajudou, por exemplo, eu ouvir, parece que estou a ouvir coisas pela primeira vez. E eu li aquele texto, eu conheço aquele texto.
Tu na tua cabeça enquanto gravavas e fazias esses takes, já no fundo imaginavas: "ah, isto se calhar vai ficar desta forma", e depois ficaste ainda mais surpreendida quando ouviste?
Fiquei muito surpreendida. Eu vou ser honesta, eu falei com a Inês Castelo Branco, que ela já tinha gravado um.
A casa distribuidora de som.
Exatamente. Somos muito amigas e eu disse: "Inês, vou gravar também, dá-me dicas, por favor". E ela: "Não vás com nada pensado, não prepares, porque eles são ótimos, eles vão-te dirigir", e foi o que aconteceu. Efetivamente, eu não preparei nada, não fui com uma ideia pré-concebida de como é que eu queria fazer ou não queria fazer. E depois de lá, a direção foi fantástica e foi só ler e sentir aquilo que estava a ler ou imaginar, visualizar aquilo que estava a dizer.
Dar o crédito a quem merece. A sonoplastia foi do Pedro Oliveira, como dizias há pouco, o guião foi escrito pelo Vasco Maldonado Correia. Um belo trabalho por parte dos dois e 1983: Portugal a Queima Roupa, o novo podcast Plus do Observador. Banda sonora dos Linda Martini, banda sonora original. Que também vão passar por aqui. Que também vão passar aqui em 40 minutos. A narração é da Vitória Guerra. Já está disponível para os assinantes do Observador e todas as semanas sai um episódio. Olha que terceiro fã. Exatamente. Queria-te ainda perguntar aqui sobre a questão do podcast. Tendo recebido este desafio, foi um sim imediato ou tiveste que pensar ali um bocadinho sobre esta decisão a tomar?
Foi um sim imediato. Foi fácil.
Mas pelo desafio ou pela...?
Pelo desafio.
Tu já fizeste dobragens para filmes, por exemplo?
Não fiz dobragens para filmes.
Porque aqui, claro que não é igual, mas é um trabalho também só com voz.
O que eu fiz foi: dobrei um jogo.
Qual é que era?
Não me recordo. Desculpe.
Vamos pesquisar.
Ok. Da PlayStation. E depois também fiz a primeira longa-metragem em stop motion, produzido pela Sardinha em Lata, Os Demónios do Meu Avô. Fiz a voz de uma das personagens, mas aí também era muito diferente.
Sim, são registros diferentes.
São registros completamente diferentes. Neste caso, eu gostei de jornalismo e eu acho que também havia assim um bichinho meu, apesar de isso não ser jornalístico, havia todo um lado mais formal, que eu achei que podia funcionar e que podia ser interessante trabalhar e experimentar.
E o que tu gostavas mais no jornalismo?
O que eu gostava mais? Eu sempre fui uma pessoa curiosa, portanto, eu acho que toda a pesquisa.
Mas mais texto, som, imagem?
Curiosamente, eu acabei por não seguir. Tive dois anos de jornalismo, portanto, não cheguei a perceber exatamente do jornalismo o que eu gostava. Eu gostava de tudo. Nós experimentávamos tudo, escrita, tanto jornal, revista, rádio, tínhamos mesmo lá um espaço de rádio, e também imagem, tudo. Eu gostava de experimentar tudo.
Olha, entretanto, estive aqui a ver. O nome Kara diz-te alguma coisa?
Sim, exatamente.
Foi essa a tua personagem na altura no Detroit: Become Human, foste uma humanoide.
Obrigada.
Chegamos lá, conseguimos.
Obrigada.
Entretanto, vamos aqui seguir. Estávamos aqui a falar do jornalismo, mas queremos ir ainda mais à tua infância no Algarve, em Loulé, com grandes praias, diga-se de passagem. Continua a ser um lugar muito especial na tua vida, acredito que sim, e com memórias que continuam assim muito presentes. Talvez a praia, essa já a memória mais presente, mas família e esse lugar de conforto.
Sim, as memórias de infância são todas lá. E curiosamente Praia, sim, porque três meses dos nossos verões eram passados na praia. Não tínhamos aquela coisa: "Vamos passar uma semana no Algarve, vamos fazer praia." Não, nós estávamos lá e passávamos três meses do verão na praia. Tenho as melhores memórias de infância no Algarve.
Eu sempre tive uma curiosidade, Zé, antes de passares à próxima. Como é que as pessoas do Algarve olham para aquelas pessoas que vão lá passar uma semana? Como é que as recebem? Porque estão habituados na altura dos meses de verão isso acontecer, não é?
Sim. O Algarve é uma zona turística e bastante abandonada e sazonal. E nesse sentido, a mim dá-me uma certa, não é pena, mas entristece-me ver uma zona tão esquecida e abandonada, não só pelas pessoas, mas também por políticos, por governos, e vista somente como uma zona balnear. Como é que nós víamos as pessoas? Desde que fossem bem-educadas, que não é o que acontece.
Não é pedir muito.
Não é pedir muito, mas muitas vezes não é o que acontece. Mas desde que fossem bem-educadas, é sempre bem-vindo e grande parte do trabalho vive desta altura do ano.
Como é que era a Vitória Guerra criança?
Como é que eu era?
Mais para o extrovertido, mais para o curioso. Esse riso leva-me a crer traquina.
Não, traquina, não. Eu era muito introvertida. Zero traquina, nunca subi uma árvore. Portanto, nunca parti uma perna. Não havia traquinice, não existia. Era bastante calma. Eu não quero dizer aborrecida, porque não vou tratar mal.
Reservada?
Reservada. Boa, reservada.
Por quê?
Por quê? Não sei. Francamente, não sei.
Talvez já pelo lado artístico e não saber como conseguir expressá-lo, vem daí ou ainda não?
A representação permitiu-me expressar-me de outra maneira e eu acho que, não vou dizer salvou-me a vida, é um bocado soleiro, mas sim, foi das melhores coisas que me aconteceu na minha vida. Não sei. Olha, não faço mesmo a menor ideia, mas era assim. Não era uma pessoa muito extrovertida.
Mais calminha.
Mais calminha, sim.
A tua infância fica marcada por perdas importantes. Tu sentiste em alguma altura do teu desenvolvimento que tiveste que crescer mais depressa do que os outros?
Não, isso não. Quando falas em perdas, de perder o meu pai, por exemplo. Eu já trabalhava nessa altura, já vivia em Lisboa.
Foi na altura dos Morangos com Açúcar ou depois?
Não, foi depois. Eu vim para Lisboa com 17 e o meu pai faleceu, eu tinha 25. Os meus irmãos eram muito mais novos, eles sim, tiveram que crescer. Eu acho que no meu caso, mais do que crescer, eu perdi um certo refúgio que tinha e um certo conforto. Existe uma coisa quando estamos a crescer, eu pelo menos tinha isso, apesar de viver em Lisboa e os meus pais no Algarve. Eu não tinha medo de experimentar, de fazer, porque eu sabia que se corresse tudo mal, isto claro, com peso e medida, não era completamente louca varrida, mas eu sabia que se corresse alguma coisa mal, tinha os meus pais, tinha aquele refúgio. Se sentisse que precisava de colo, tinha. Perder isso foi um bocadinho assustador e mais do que obrigar-me a crescer, porque já era crescida, eu acho.
Tiveste que ser o apoio para os teus irmãos?
Tive que ser apoio para os meus irmãos, sim. Fomos todos, atenção, a minha irmã tinha 16 na altura e acho que ela foi mais apoio para mim do que eu para ela na altura.
E o luto também é assim mesmo, é diferentes fases e se calhar numa fase é um que apoia mais.
Sim.
Manifesta-se de diferentes formas.
Sim.
Eu queria também perguntar, aos 25 anos, que foi quando perdeste o teu pai, como é que foi perder esse colo? Porque falavas aqui da questão do colo, ainda que com 25 anos, já não eras uma criança, mas é sempre um pai, e é sempre aqui uma questão, e depois a questão do luto também é diferente de pessoa para pessoa.
Luto é uma coisa muito curiosa, porque é uma coisa para a vida. É mesmo para a vida. Eu não consigo dizer fiz X meses ou fiz X anos de luto. O luto é para o resto da vida, a saudade é para o resto da vida. E é isso, vamos passando por várias fases. Por exemplo, eu sinto que hoje em dia tenho mais saudades do meu pai e da minha família do que naquela altura. É bizarro, coisas que acontecem na vida e que queres partilhar e a pessoa não está lá presente. Mas voltando à tua pergunta. O que era? Desculpa.
A questão do colo.
A questão do colo. É duro, é muito duro. Sim, é muito duro. E eu era muito próxima do meu pai, próxima dos meus pais. E ele era uma figura muito importante na minha vida.
Mas havia, se calhar, e se calhar vais compreender aquilo que eu vou dizer, muitas vezes os filhos não identificam-se Vêem no pai ou numa mãe uma maior proximidade. Ou seja, um filho, se calhar, mais com uma mãe. Isto pode mudar a uma filha com um pai e se calhar era isso que sentias.
Dizem isso, não acho que seja o caso. Tenho tanta proximidade com a minha mãe como tinha com o meu pai. Mas era diferente. Por exemplo, no caso do meu pai, ele torcia muito por mim. Eu falava muito com ele. Era um homem muito inteligente, com uma cabeça fora de série. Então era uma pessoa com quem eu intelectualmente conversava muito e que me ensinava muita coisa. E seguia muito o meu trabalho e dava-me muitas dicas. E nesse sentido, também houve uma perda, numa altura se calhar muito importante na minha vida, porque eu estava a trabalhar muito na altura.
Mas ele está a apoiar-te, de certeza.
Com certeza!
De longe, planeia. Acredito muito nisso e acredito que tu também. Entretanto, a nossa primeira parte vai ter de ficar por aqui. "Em 40 Minutos", mas já regressamos contigo, Vitória Guerra, até porque ainda temos muito para falar. Até já.
Até já.
Estamos de regresso para o "Em 40 Minutos", segunda parte com a narradora do novo podcast+ do Observador, "1983: Portugal à Queima Roupa". Vitória Guerra, bem-vinda mais uma vez.
Obrigada.
Vamos a isto, à segunda parte.
Vamos. Fechámos a primeira parte a falar um pouco do teu pai e na segunda parte queremos falar e conhecer também um pouco da tua mãe, que pela força da natureza que é e por tudo o que teve de suportar e continuar forte. A minha pergunta é muito simples: é a tua grande inspiração?
É, sem dúvida alguma, e cada vez mais. Sim.
Por quê?
Por tudo. As mães têm um significado enorme para toda a gente, obviamente, mas a minha mãe, em específico, é uma mulher muito incrível. Por tudo o que ela suportou, sim, e pela força da natureza que é, mas pela educação que me deu e pelo amor que me deu, pela liberdade que me deu. E quando eu digo hoje em dia cada vez mais, e não digo porque estou grávida e vou ser mãe. Não é por isso. É mesmo porque com a idade, a proximidade é cada vez maior. O respeito é cada vez mais.
Compreendes as decisões de uma maneira diferente? Algumas certas decisões?
Sim. Eu não culpo os meus pais por nada. Obviamente, há pessoas que tiveram infâncias horrorosas e isso são coisas diferentes. Agora, uma ou outra coisa que eu possa não ter concordado, faz parte.
Vais buscar muito, como tu própria disseste, vais ser mãe, vais buscar muito à tua própria mãe.
Vou.
Para a forma como queres criar.
Vou. Sei que o caminho que fiz ao longo destes anos todos, e quando eu falo em liberdade é porque é muito importante. A liberdade que eu tive e que eu tenho, que eu sinto, ainda hoje, veio dela. A minha mãe é inglesa. E isto pode parecer muito descabido, mas não é. Ela chegou a Portugal depois do 25 de Abril, pós-ditadura, mas ainda havia um país bastante cinzento. E eu não senti uma série de questões que, falando com amigos meus, sentiram com mães mais fechadas. A minha mãe falava comigo sobre tudo. E deu-me sempre muita liberdade. E isso, para mim, foi a base da minha educação. E muito amor.
Que também é sempre importante.
Muito.
Nós já vamos falar da maternidade, desta nova fase, até porque estamos aqui a chegar a uma fase quase final. Já lá vamos. Mas antes, e falávamos aqui de liberdade, e tenho a certeza que a tua mãe torceu muito pelo teu sucesso e pela tua vinda para Lisboa. Com 15 anos, não sei se calhar uma idade demasiado precoce para alguém que vem do Algarve para Lisboa.
Não, mas é demasiado precoce. Eu lembro-me quando a minha irmã tinha 15 anos, eu dizia à minha mãe: "Como é que tu foste capaz de me deixar vir para Lisboa com a idade que a mana tem? Tens de estar louca." Ela dizia: "Não, tu querias muito." Eu era bem-comportada, era uma coisa que eu queria. A minha mãe sabia que eu não queria ficar no Algarve. Se não fosse aos 15, seria mais tarde. E naquela altura encontrámos uma escola, encontrámos um sítio para ficar e era uma coisa que eu queria muito, vir para Lisboa. Então, para ela fazia todo o sentido.
E as saudades nunca foram um problema?
As saudades existem, claro, mas a casa estava lá e eu ia para casa todos os fins de semana. Eu sinto mais saudades hoje em dia do que naquela altura. É normal, com 15 anos, uma pessoa está a curtir a cidade, não está a pensar muito nisso e hoje em dia sinto muito mais falta da família.
Os Morangos com Açúcar foi aquele cheque que tu precisavas na tua vida, na altura, para perceberes que querias mesmo fazer representação?
Sem dúvida alguma, jamais me passaria pela cabeça seguir representação. A representação era uma profissão, era uma coisa assim muito
Abstrata, se calhar?
Abstrata, sim. Talvez abstrata. Pensar em seguir representação não era uma opção sequer. Nunca me passou pela cabeça. Não é desrespeito nenhum pela profissão.
Até que tu havias jornalismo, não era?
Sim, era. Ou seja, tinha as mesmas componentes. O meu lado curioso podia ser alimentado através do jornalismo.
E olhando para trás, consegues imaginar agora uma vida sem representação?
Não penso muito nisso, honestamente. Não sei. Teria sido outra coisa a minha vida. Também teria sido boa, tenho a certeza. Mas foi ainda melhor com a representação.
Tu no início, quando apareceste, e na altura ainda sem redes sociais, muito mais com a imprensa, que escrevia e fazia notícias, como era no início para alguém tão jovem, lidar com as críticas e com aquilo que se escrevia? Sentiste que tinhas sempre de provar algo mais, por causa de críticas que se faziam na altura, ou não sofreste muito com isso na altura?
Eu não sofri muito com críticas e também não liguei muito a críticas. Uma coisa são críticas construtivas. Eu quando comecei a trabalhar, era muito fraquinha como atriz, não vou mentir. Eu não sabia o que andava a fazer. E os meus pais, por exemplo, eram os meus maiores críticos. Eram os primeiros a ligar e dizer: "Vitória, não vais muito bem naquela cena, naquela novela".
Como é que recebias essas críticas?
Muito bem. Sim. Críticas construtivas.
Sim, claro.
Faz parte. Agora, críticas por criticar nas revistas, nunca liguei. Mas também nunca alimentei.
Nem mesmo agora, por exemplo, quando é escrita alguma notícia em que alguma coisa esteja descontextualizada, tu lidas sempre muito bem com isso.
Não lido muito bem, atenção, também seria completamente-
Não, lidas bem no sentido de não dar muita importância.
Eu não dou muita importância, não podemos dar nesta profissão. Por outro lado, eu também sempre fui bastante reservada. E eu acho que isso também ajuda para que a minha vida não seja escrutinada como muitos colegas meus. Eles, sim, sofrem bastante. Eu tenho perfeita noção disso. Se calhar se estivesse na posição deles, sofreria um bocadinho mais, sim.
Como é que consegues esse equilíbrio que procuras e consegues entre a privacidade do teu lar, da tua família, dos teus amigos, e a exposição pública?
Foi uma coisa que eu optei sempre por fazer desde muito nova. Quando comecei a trabalhar, era um bocadinho mais fácil do que hoje em dia. Hoje em dia é um bocadinho mais difícil as redes sociais e o mundo artístico mudou muito nesse sentido. Ou seja, a exposição da vida pessoal é muito maior e é muito mais importante do que era quando eu comecei a trabalhar. Mas para mim sempre me fez muito sentido proteger-me a mim, a minha família também, porque apesar de tudo, vivíamos no Algarve, em Loulé, numa zona muito pequena. Saía uma notícia minha nas revistas, coitados dos meus irmãos tinham que levar com aquilo, também não precisavam. Não tinham culpa de eu estar a trabalhar em televisão e em cinema. Portanto, foi uma coisa que eu fui trabalhando aos poucos.
É essa a mensagem que também gostavas de deixar aos mais jovens?
Não sei, porque não acho que seja uma mensagem, eu acho que é um estilo de vida e é uma forma de ver a vida. Não acho que o contrário seja absolutamente errado. Eu tenho pessoas próximas de mim na área que expõem muito da sua vida e fazem-no de uma forma que eu respeito imenso também. As coisas hoje em dia são muito diferentes de antigamente. As redes sociais funcionam de uma forma muito diferente. Eu respeito muito as redes sociais e a forma como as pessoas os trabalham. Agora, isso depende de cada pessoa. Eu acho que no meu caso fazia todo sentido não expor-me tanto. Se no caso de outra pessoa faz sentido expor, quem sou eu para dizer que isso está errado?
Mas temos assistido à questão dos jovens, uma certa dependência, vamos dizer assim.
Isso é outra questão.
Da questão das redes sociais.
Isso é outra questão. Sim, desculpa.
Ia-te perguntar isto porque tu vais ser mãe, muito em breve, e isto vai ser uma questão. E se calhar, na altura em que isto for uma questão, já vai ter proporções completamente diferentes.
Olha, posso-te dizer desde já, que é o meu, não vou dizer único medo, único receio na maternidade, mas eu tive bons exemplos, tenho bons exemplos. Já falámos da minha mãe, já falámos no pai, já falámos da minha infância. Tenho ótimos exemplos. Não tenho exemplos deste universo da inteligência artificial, porque não existia. Eu tive o meu primeiro telefone, já nem me lembro quando, e era a preto e branco e era com teclas, enfim.
Já nem te lembras da marca?
Lembro-me.
Boa. Não vamos dizer.
Não, mas lembro-me.
Era só para criar essa imagem mental na tua cabeça.
Não, lembro-me. Fizeste-me sentir velha. Obrigada. Não, mas é cómico, é engraçado, porque o mundo mudou muito e o meu maior receio na maternidade é precisamente esse. Quando falávamos há pouco, eu falava na questão das redes sociais em relação a atores, figuras públicas.
A quem está no meio, sim.
Aí eu acho que as pessoas têm que ter alguma noção e fazer o que se sentem confortáveis. Crianças é outra coisa.
É outra questão.
Isso é outra questão. Estamos a passar por uma fase muito assustadora. Porque vemos jovens deprimidos, vemos crianças tristes, preocupadas com uma imagem que, na minha altura, não tinha nada disso. Não havia essas preocupações, nós brincávamos na rua. Me parece tudo muito idílico. As coisas estão melhores hoje do que estavam. Eu quero acreditar nisso. E uma das coisas que a gravidez me trouxe foi uma certa esperança no futuro e nas futuras gerações. Era bastante mais fatalista antes de engravidar. E não posso ser. Não posso.
E porque sabes que também vais poder ter um papel importante na formação de alguém, tentar encaminhá-la, pelo menos nesse sentido.
Falo muito sobre isso com o meu companheiro, falamos muito sobre isso. Quando vemos uma notícia. Porque é uma questão que está muito em voga neste momento, graças a Deus, apesar de em Portugal eu achar que falamos disso, mas ainda estamos muito perdidos, não sabemos, mas falo muito com amigas também que têm filhos já adolescentes e que não sabem o que fazer. E é uma questão bastante preocupante. E eu acho que vai ter que passar por uma legislação, por leis do governo, porque senão sozinhos nós não conseguimos fazer tudo.
A questão da gravidez está aqui muito próxima. Vitória Guerra está prestes a ser mãe. Tu também disseste há cerca de um ano que não era um plano. Entretanto, a vida mudou.
Sim.
Como é que se está a materializar, no fundo, este projeto de vida, que acho que se pode chamar assim, e se já estão muitas coisas a mudar. Acredito que sim, porque estamos aqui a chegar a uma fase final, não é?
Está tudo a mudar.
Em que sentido?
Espiritual. Esse lado mais esperançoso e um lado mais positivo da minha parte no mundo que olhamos à nossa volta e que está, não quero dizer a ruir, mas bastante assustador. Eu tenho tentado encontrar alguma força e alguma coragem, porque tem que ser. E sim, obviamente, vai mudar tudo. Mas eu sou muito cerebral, não sou muito sentimental e era uma coisa que eu queria, está a materializar-se.
Sentes-te pronta?
Sinto. Acho que não vou sentir, depois vão ver dias terríveis.
Claro.
Como tudo.
Está prestes a começar.
Está prestes a começar.
Ou seja, o fim está a encaminhar-se para outro início, no fundo.
Sim, é isso. Sim.
O que já aprendeste sobre ti mesma pelo fato de teres engravidado?
Que eu sou capaz, que eu fui capaz e que o corpo da mulher é uma coisa incrível. Eu vou parecer bastante estúpida por dizer isto, mas todos os clichês fazem sentido e passei por todos. É uma força da natureza, é uma coisa que não tem explicação. A transformação do corpo, o facto de eu conseguir carregar uma criança, é uma loucura. Isso foi das coisas que mais me impressionou.
E já sabes que tipo de mãe é que queres ser? Já tivemos aqui pequenos apontamentos.
Sim, sei. Quero dar muito amor, porque eu acho que, obviamente, é muito importante. Muita liberdade, tal como os meus pais me deram. E vou cometer erros, obviamente, como qualquer pai, e tentar também não me martirizar pelos erros que for cometendo ao longo do tempo.
Está quase. E em breve vamos ter novidades sobre isto e sobre este projeto de vida tão bonito. Entretanto, já falámos aqui de representação, mas eu acredito que estás numa fase muito boa. Tu vais ser mãe. Fizeste uma novela, já acabaram as gravações, que é líder de audiências. Foste nomeada muito recentemente como melhor atriz, podes vencer mais um Globo de Ouro. Tudo isto aqui no meio de um rebuliço com muita coisa a acontecer. Queria te perguntar também como é que se recebe uma nomeação destas, que é, no fundo, o concretizar e o consolidar do trabalho enquanto artista.
É, foi muito bom. Não estava à espera. A gente diz isso, mas não estava mesmo, efetivamente. E foi mesmo bom estar ao lado da Joana, que também fez a novela, a Joana Ribeiro.
E que são pessoas completamente opostas na trama.
Foi uma novela que me deu um gozo imenso fazer. E foi graças a nove meses, 10 meses de um trabalho intenso com uma equipa maravilhosa. Eu cada vez mais aprecio e admiro as pessoas com quem eu trabalho.
É o melhor que se leva dos projetos.
É o melhor que se leva. É tudo. Para mim, cada vez mais. As pessoas com quem eu trabalho, sim. E se forem boas, e se forem esforçadas e trabalhadoras. Porque é um trabalho de equipa, vocês também têm isso aqui. Eu acho que as pessoas às vezes não têm bem noção da quantidade de pessoas que trabalham. Então numa novela é uma loucura.
E é uma máquina, porque é tudo muito rápido.
É muito rápido, mas eu que estou se calhar em 80% das cenas, e que agora fui nomeada, a minha nomeação é graças às 200, 300 pessoas que estiveram a trabalhar comigo. Por isso fiquei mesmo contente.
E enquanto atriz, sentes que há temas que têm mais urgência para ser representados, que precisam de mais tempo de antena e em cena, em Portugal?
Claro que sim. Óbvio.
Quais?
Tantos. Neste momento, tendo em conta o governo de direita que temos, acho que qualquer tema sobre as mulheres, que eu achava que já estava bastante. Nós temos sempre que lutar, vamos ter sempre que lutar, infelizmente, mas achava que estávamos num bom caminho e que havia temas que não teríamos que discutir outra vez. Eu acho que vários temas em relação à mulher, em relação à maternidade. Sim, estou grávida, portanto, estou muito mais atenta a isso, claro, mas sempre estive. E os últimos verões têm sido muito dramáticos no que diz respeito ao SNS.
E as urgências?
E as urgências.
É notícia todos os fins de semana.
Todos os fins de semana.
Aliás, todos os dias, às vezes, também.
Sim.
Partos que acontecem em ambulâncias.
Sim, eu vou para o Algarve para a semana, estou há algumas semanas e estou a ver os hospitais abertos, mas eu vou de férias, eu não vivo lá. Portanto, imagina viver lá. Viver em qualquer sítio que não seja o centro de Lisboa, neste momento. Ou seja, eu podia fazer uma lista de temas, mas eu acho que não esquecer qualquer tema social. Sim, há vários temas que têm que ser abordados.
Colocando as mulheres no topo dessa lista de prioridades.
Sim.
A lista de prioridades pode ir mudando ao longo da vida. Neste momento, é o tema que também sentes mais a necessidade de o fazer e de falar, porque é uma situação mais presente?
Não. Eu vou pôr as mulheres neste momento, como vou colocar os fogos, como posso colocar os direitos LGBT. Como posso colocar o racismo, a xenofobia, que está a acontecer cada vez mais em Portugal, que é uma coisa inarrável.
Há muitos temas que merecem a nossa atenção.
Há muitos, infelizmente, há demasiados temas. E como te disse, o facto de ser mãe não me faz só pensar nas mulheres. Faz-me pensar em todas, porque eu vou ter uma criança.
Vai ter que enfrentar tudo isso, vai entrar neste mundo.
E que vai ter que enfrentar tudo isso, exatamente.
Vitória Guerra, vamos fechar este "Em 40 Minutos". Falávamos aqui de coisas que nos inquietam. Agora vou te pedir só uma: o que te inquieta?
O que me inquieta?
Acredito que neste momento seja um pouco a gravidez.
Não!
Nota-se. Ou algum desconforto aqui também já por esta fase final da gravidez, ou não?
Já estou cansada. Deve estar muito calor.
É verdade.
É só isso.
E agradecemos-te mesmo assim.
Está ar-condicionado, está tudo bem. E estamos a ter uma conversa boa. Portanto, eu que agradeço o convite. O que me inquieta mais do que a maternidade é todas as questões de educar um ser humano. Eu quero educar um ser humano bom, porque eu acho que o ser humano está cada vez mais egoísta, isola-se muito. E eu tenho noção que a inteligência artificial, telemóveis, tudo isto não ajuda. Às vezes também dou por mim fazendo scroll durante uma hora com o meu namorado sentado no sofá e fazemos os dois a mesma coisa e não comunicamos. Mas eu não sei como educar uma criança neste mundo cada vez mais egoísta. Não é só egoísta, eu estou à procura da palavra, desculpa.
Centrado em si próprio?
Sim, centrado em si próprio e sem se preocupar com o próximo. Eu não quero educar um ser humano.
Um mundo com mais empatia, no fundo.
Um mundo com muito mais empatia, por amor de Deus, sim, obviamente. E eu quero educar uma criança para um mundo assim.
Vitória Guerra, agradecemos de ter vindo cá ao "Em 40 Minutos", narradora do novo podcast Plus do Observador, "1983 Portugal à Queima Roupa", narração da Vitória Guerra, banda sonora original dos Linda Martini. Foi um gosto. Uma hora pequenina, é o que estou a dizer, não é?
Sim.
Que corra tudo bem.
Obrigada.
Muito obrigado e até breve.
Até breve.
Até breve.