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Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal, levantai hoje de novo, o esplendor de Portugal. Entre as brumas da memória, ó Pátria, sente-se a voz, dos teus egrégios avós, que há de guiar-te à vitória. Às armas, às armas, sobre a terra, sobre o mar. Às armas, às armas, pela Pátria lutar. Contra os canhões marchar, marchar.
E hoje aqui na Rádio Observador conversamos com Pires João Firmino, compositor, guitarrista e vocalista dos Cassete Pirata, eles que foram desafiados aqui pelo Observador a fazerem a sua interpretação do Hino Nacional que acabamos de ouvir. João, bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, muito obrigado por me receberem.
Obrigada nós. João, começamos precisamente por este desafio aqui proposto pelo Observador. Como é que foi esta experiência de criar uma versão do Hino Nacional?
Eu gostei muito da proposta e do desafio. Nunca tinha pensado em imaginar-me a cantar o nosso hino. Das vezes que eu canto é sempre nestas ocasiões. De eventos desportivos com os amigos, já com uns copos. E desta vez foi uma situação diferente. Acabei por fazer uma versão a solo. Não tive tempo para reunir com a banda toda, mas gostei muito de fazer. Foi uma experiência muito calma, de manhã. Fiquei ali a dar umas voltas e a cantar, na verdade, pela primeira vez. E pronto, quando já achei que estava bonito e emocional, assim ficou. E portanto, obrigado pelo desafio. Gostei muito.
João, fizeste uma versão mais intimista do hino, mas sem perder a identidade dos Cassete Pirata. Como é que fizeste este equilíbrio?
Eu acho que, no fundo, é pôr sempre na receita as coisas que eu gosto e que também fazem parte dos Cassete. Tem umas alterações na harmonia e tem o som de guitarra característico, que eu também uso em Cassete Pirata. Quando fazemos estas versões, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer, já fizemos com uma ópera, já fizemos também uma música do Zé Mário. É sempre giro tentar transportar para o nosso universo e tentar pôr um bocadinho os ingredientes daquilo que são as nossas receitas mais típicas.
Claro. Tu tens acompanhado aqui o Euro 2024, achas que Portugal vai longe este ano? Como estavas a dizer ao início que só cantavas o hino quando estavas com os teus amigos, assim nestas ocasiões desportivas. Já agora pergunto se tens acompanhado.
Tenho acompanhado. Sou bastante fã de futebol. Sou benfiquista ferrenho.
Assumidíssimo.
Assumidíssimo, mas também gosto muito da seleção e confio muito nesta geração. Confio muito nesta mistura de experiência do Pepe e do Cristiano com a malta mais nova, o nosso João Neves e o nosso António Silva. E confio muito neles, acho que estão com os pés na terra. Está a ser um torneio meio estranho, com muitos autogolos, muitas equipas a defender muito. Mas eu sinto que o facto de sermos uma seleção que também está habituada a saber sofrer, que isso nos vai levar longe e estou entusiasmado para hoje. Espero que ganhe.
Vamos agora falar do vosso novo disco, "A Família". Sai numa altura em que os Cassete Pirata fazem oito anos. O que este disco traz de diferente?
Eu acho que não é tanto trazer diferente, mas continuar aquilo que tem sido o nosso caminho, que de disco para disco tentamos sempre, obviamente, descobrir o que ainda não fizemos. No caso deste disco, tanto as músicas mais pesadas como as músicas mais leves subiram de grau. Foram as músicas mais pesadas que já fizemos e foram as músicas também mais calmas que já fizemos.
Sai uma boa mistura.
Sim, um bocado procurar os extremos onde ainda não pisámos. Neste disco temos músicas com piano e com cordas. Na parte da temática, eu acho que os outros discos eram menos interiores, ou seja, acho que este disco acaba por focar mais Temas de autoanálise. No fundo, o tema central do disco é um bocadinho esta fase que eu estou a passar e que os meus amigos à minha volta estão a passar. Estamos a sair dos 30 e alguns de nós a entrar nos 40, a termos filhos, a termos de pagar a casa, a termos de continuar a renovar nas profissões e a pacificar com as profissões e com tudo o que elas nos trazem.
E isso reflecte-se na vossa música, não é?
Sim, eu acho que não há muita surpresa nesta relação dos artistas ou dos autores com as histórias e com os mundos que o rodeiam. E nesse sentido, é o que nós também nos propomos a fazer, é uma visão do mundo pelos nossos olhos.
Quanto tempo é que foi investido neste disco, "A Família"? Achas que tem sido fácil gerir tantas ideias de tanta gente quando estão em estúdio, por exemplo?
Eu acho que este foi, se calhar, o disco que o tempo que foi investido foi mais espaçado. E eu gostei muito disso. Ou seja, se calhar foi o disco que mais demorou em termos de alargamento temporal, mas, por outro lado, foi aquele em que eu senti que o tempo foi mais produtivo. Eu acho que este mundo acelerado de conteúdos a toda hora novos não nos tem trazido necessariamente arte melhor. E faço uma nota com muita pena e muita tristeza de hoje pela notícia da morte do Fausto e precisamente de sentirmos que não é só o Fausto que nos deixa, é um bocadinho este tipo de artistas e o legado que deixaram e a música que deixaram. O Pedro Abrunhosa fez um post muito interessante nas redes a propósito desta notícia triste. E, portanto, uma das coisas que eu sinto e que me tenho tentado obrigar, neste processo de criação, é precisamente a dar-me mais tempo, porque eu acho que tudo na vida precisa de tempo e melhora com o tempo. As relações, a comida, portanto a parte de cozinhar. E eu sinto que a música também, porque no processo de estarmos a fazer um disco, o caminho é um caminho de ir procurando as perguntas e as respostas. E às vezes para termos respostas, é impossível tê-las nessa semana. Às vezes precisamos de uma semana ou duas para nos distanciarmos e para conseguirmos olhar de novo. E às vezes é desse distanciamento que vem a solução ou a clarividência das coisas que queremos resolver. E nesse disco senti que me dei isso e senti que depois o resultado foi mais satisfatório para nós e que eu próprio saí do disco menos cansado.
João, já que falaste nisso, e era uma coisa que vos queríamos perguntar também, Fausto teve impacto na música que fazes e que os Cassette Pirata fazem?
Muito. É um dos autores portugueses que eu respeito mais, a par obviamente do José Mário Branco e do Zeca Afonso. Acho que o "Por Este Rio Acima" poderia perfeitamente ser aquelas histórias de ter de mostrar um disco a uma entidade qualquer alienígena ou a uma pessoa de um outro país, em que eu tivesse de escolher um disco para representar o meu país. Seria claramente um dos discos que eu poria no pódio para mostrar a todos os níveis, a nível da música, a nível das letras e quase de uma portugalidade que se foi perdendo. E eu sinto que há muito de Portugal na música de Fausto e, portanto, se calhar, não sendo uma referência direta e óbvia que as pessoas possam ouvir na música de Cassette Pirata, para mim é sem dúvida um dos maiores faróis da música portuguesa, uma grande referência e precisamente um autor, e no caso esse disco, um disco que eu volto sempre para me lembrar de não me esquecer dessa portugalidade que eu quero que esteja na minha música.
João, voltando ao novo disco, tens alguma canção favorita neste novo álbum?
É sempre difícil escolher uma canção favorita, porque elas vão ficando favoritas por várias razões. Há o favorito pra banda, há o favorito que se venha a tornar o favorito do público e que depois também são as canções. Eu sinto, por ser um álbum recente, e mais uma vez falando no tempo, é preciso dar-lhe algum tempo agora, das canções também serem tocadas ao vivo. Algumas canções mais calmas do disco nós não vamos incluir no nosso concerto ao vivo, mas que estamos a pensar mais pra frente, se calhar, tentar fazer uns três ou quatro concertos mais intimistas, onde podemos, se calhar, não ter esta versão tão enérgica do rock, mas ter uma coisa mais calminha, especial, para alguns fãs que também gostam muito dessa nossa parte mais intimista e que queiram ver ao vivo. Portanto, ainda é preciso dar-lhe algum tempo.
Ainda precisam de pensar e perceber também qual é que é a vossa favorita.
Mas há uma canção que tem sido muito presente gavada, quer pela banda, quer pelos fãs que nos seguem mais atentamente e que já ouviram, que é a "Primavera".
Ok, pronto.
E não foi escolhida como single. É sempre difícil escolher single.
É verdade.
Nunca sabemos o que as pessoas querem.
É isso mesmo.
Mas muita gente tem vindo mandar mensagens e a dizer que gostou muito dessa música.
Portanto, a "Primavera" a partir de agora, se calhar, é a favorita do público. Começámos a falar de concertos. Com a edição deste novo disco vem também o anúncio de uma digressão da apresentação do mesmo. Cassette Pirata, vocês vão passar pelo Porto, Braga, Torres Vedras, Leiria, Lisboa. Tu já levantaste um bocadinho do véu, João. O que é que podemos esperar destes concertos?
Eu acho que o que a malta pode esperar é a festa do costume. Nós fazemos sempre questão, nestas touras oficiais de lançamento do disco, de não deixar de ir aos clubes. Se calhar, não são concertos para milhares de pessoas, são concertos para centenas de pessoas, mas são concertos muito especiais. Embora a indústria esteja a mudar, e mudou muito desde os anos 90, e tenha aparecido este conceito dos festivais grandes, eu, como miúdo que cresceu nos anos 90 e como fã de música antiga e sendo uma pessoa meio nostálgica, continuo a adorar os concertos com essa atmosfera, com os clubes pequenos, escuros, com as pessoas ombro a ombro e cheira a cerveja. Portanto, essa nossa tour de outubro, vamos de novo passar pelo país com concertos nesse tipo de onda. Vamos incluir quatro, cinco músicas do disco novo, mas não queremos deixar de tocar aquelas que obviamente são a eleição dos nossos fãs.
Os vossos clássicos, por assim dizer.
Sim, exato. Sentimos que os concertos são uma festa do nosso público e nós estamos lá para desfrutar com eles e, portanto, faz-nos sentido continuar a tocar as músicas que, no fundo, foram eleitas por eles como bandas sonoras das suas vidas. É um privilégio para nós poder fazer parte das vidas deles. E, portanto, é isso. Há a novidade de nós sermos uma banda que tem oito anos, tocamos melhor agora do que tocávamos algumas vezes antes e temos músicas novas. É a festa do costume. Esperamos que o pessoal esgote as salas todas.
De certeza.
E é isso.
E era aí que eu queria chegar, João. Esta digressão vai começar a 11 de outubro nos Maus Hábitos, no Porto. Ainda falta algum tempo. Até lá, é possível encontrar os Cassette Pirata em alguma sala de espetáculos deste país?
É possível encontrar já esta semana, na sexta-feira, no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Vai ser ao ar livre, é às 19h e logo a seguir temos jogo de Portugal, se ganharmos hoje, que eu acho que vamos ganhar. Portanto, é entrada livre. Convido toda a gente que esteja pela capital a aparecer e a vir beber um copo connosco, saltar e dançar, e fazer já de preliminares para o jogo de Portugal.
É isso mesmo, é um ótimo plano. João, muito obrigada por teres estado aqui conosco na Rádio Observador. João Firmino, compositor, guitarrista, vocalista dos Cassette Pirata. O João fez uma interpretação do Hino Nacional, que lembro estar disponível no nosso site observador.pt. E para fechar esta conversa, temos "Tanta Vida Para Viver", não é Primavera, João, desculpa. É o tema que faz parte da "Família", o mais recente disco dos Cassette Pirata. João, muito obrigada mais uma vez.
Obrigado. Ó estranha amiga, vi-te lá fora. A escolha divide, a escolha devora. Guardo cá dentro, saio na hora. A escolha intriga, a escolha apavora. Vem sem convite, vem sem demora. Vem sem olhar para trás. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar. Com a sua razão, confronta a sorte. A escolha que ladra, a escolha que morde. Vou por prazer, pura desforra. A escolha domina, a escolha não chora. Vem sem convite, trazer alarme. Vem sem olhar para trás. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar. Eu tenho tanta vida para viver, mas só me deram uma para gastar.