Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
No seu discurso esta manhã sentiu que isto estava ganho ou não?
Não, tenho a humildade para compreender que os congressos têm uma volutilidade enorme e que a fluidez do voto é constante. A realidade da dinâmica está a alterar discurso a discurso, os sentimentos estão à flor da pele. A única coisa que lhe posso dizer é que fiquei feliz com a reação, porque entendia como uma subscrição tácita deste projeto futuro que apresento para o partido. É sinal que quando conseguimos falar ao coração das bases do CDS, isso é sinónimo de que temos o discurso bem calibrado. E eu tenho a consciência que os notáveis deste partido são os 1.700 delegados que hoje vão eleger o próximo líder. Daí que isto dá-me alguma confiança na medida em que senti que houve um feedback positivo e que me permite antever que se as coisas se mantiverem nesta cadência, o resultado poderá ser positivo. Mas como digo, as coisas estão em constante mutação e a única coisa que eu desejo é que o debate mantenha a elevação, a urbanidade e que os diferentes projetos consigam decalcar bem a visão que apresentam.
Muito se tem falado de crispação. Não sente que há uma crispação entre todos, pelo menos entre os principais protagonistas?
Olhe, sou-lhe franco. Eu não tenho crispação pessoal com nenhum dos candidatos e já tive ocasião a dizer por diversas vezes que o adversário deste projeto, desta estratégia que proponho ao Congresso, é António Costa e o Governo socialista. Mas é natural que nas disputas internas existam algumas cotoveladas, apoiantes de um lado e de outro, porque é sempre uma concorrência muito acérrima, que faz parte e que também compõe a magia destes congressos. E o CDS é o único partido em Portugal que ainda mantém a metodologia de eleição do líder através deste modelo.
De facto, as caras mais conhecidas que têm ido ali falar têm maioritariamente apoiado o João Almeida. Os seis autarcas eleitos do CDS apoiam João Almeida, os deputados eleitos do CDS apoiam João Almeida. Se conseguir ganhar este congresso, como é que vai governar este partido desta maneira?
O facto de esse elenco de figuras mais proeminentes do partido estarem do lado do João Almeida não significa que tenham uma relação crispada comigo ou que não consigamos manter relações institucionais com vista ao superior interesse do partido. Em democracias, as coisas são mesmo assim, há a liberdade de escolha e eu aqui também tenho que entender que existe no passado um percurso pessoal, de caminho conjunto, que sei que ajudou a inclinar a decisão para o lado do João Almeida. Portanto, tenho que compreender, aceitar e com toda a liberdade, dialogar e ter pontos de contacto estruturado com esses organismos do partido, seja o grupo parlamentar ou até os seis presidentes de câmara, porque a verdade é que nós temos mais autarcas do que seis presidentes de câmara. Mas com base no respeito que mantemos uns com os outros, do facto de termos o mesmo tronco comum de valores, eu creio que temos todas as condições.
Acha que vai ser possível uma convivência sã com todos eles, com os deputados, por exemplo?
Eu mantenho essa convivência. É o caso da Cecília Meireles, é líder parlamentar. Eu disse que não queria exercer o meu mandato de deputado, porque poderia, eventualmente, em caso de substituição, vir a fazê-lo. Sou número dois pelo Porto. Acho que a senhora Meireles é uma brilhante parlamentar, quero que por lá se mantenha. A Cecília, tenho uma ótima relação pessoal com ela, enfim, somos amigos, política à parte.
Não teme uma debandada do grupo parlamentar se o Francisco for eleito?
Não, estou seguro de que isso não acontecerá.
Um dos pontos em que tem focado a sua crítica a João Almeida é na questão da batalha cultural e dos valores fundacionais do CDS. E o seu ponto é o de que com Assunção Cristas primeiro, e agora com João Almeida, a firmeza na defesa desses valores pode não ser tão grande. Mas nós vemos pessoas que estão claramente num lado mais conservador e assumidamente de direita, sem nenhum tipo de problema em dizer isso, como Nuno Melo e as pessoas que estão com ele, estamos a ver essas pessoas todas a apoiarem João Almeida. Isso não fragiliza um bocadinho o seu argumento de que João Almeida representa a direita de que a esquerda gosta?
Eu nunca qualifiquei o João como a direita que a esquerda gosta. Quando eu digo que a nossa direita tem que se assumir para travar uma batalha cultural com a esquerda, eu falo de um projeto para o CDS. Eu não digo que o João seja incapaz para o produzir. Eu considero é que conservadores, no CDS, há muitos, e eu não tenho o monopólio dessa corrente ideológica no partido, pela simples razão de que a minha candidatura não reproduz uma colonização de todas as pessoas que pensam como eu. Nós temos mais liberais, correntes mais conservadoras e até os democratas-cristãos que acompanham a nossa candidatura. É verdade isso que diz, de facto. As pessoas com mais exposição mediática estão do lado do João Almeida.
Neste caso, os conservadores, pessoas claramente conservadoras.
Mas nós também temos pessoas, por exemplo, a Filipa Anacoreta Correia é considerada uma conservadora, está do nosso lado, Silvo Serva, a mesma coisa. O doutor Alberto Lapão de Guimarães, que foi secretário do Conselho de Estado, também é uma pessoa eminentemente conservadora. Temos o presidente da Federação dos Trabalhadores Democratas Cristãos, idem. Eu creio que nesse aspecto a coisa está partida.
E o seu discurso na campanha tem desagradado, porque uma das críticas que lhe fazem é de que voltou atrás nalgumas posições. Na questão da lei do aborto, antigamente defendia uma reversão da lei para o que tínhamos antes e agora já não defende. E o que nós temos ouvido dizer é que as suas posições mais conservadoras se suavizaram um bocadinho e que foi um bocadinho mais para o centro. É assim ou não?
Quando fui confrontado em 2016 sobre a minha posição sobre aqueles que são considerados temas fraturantes, eu emiti a minha opinião. Uma coisa é o juízo de opinião e a valoração ética e moral que todos nós fazemos sobre esses temas. Emitimo-la. Outra coisa é dizer assim: eu, enquanto político, a minha agenda passa por colocar na ordem de prioridades esses mesmos temas. Eu nunca disse isso. O ponto é esse. O que acontece é que eu mantenho exatamente as mesmas posições que tinha.
Em relação ao aborto, não. Antigamente defendia uma reversão e agora já não.
Não, o que eu disse foi: eu disse em 2016 o seguinte, o aborto devia ser criminalizado em Portugal. Enfim, o aborto é criminalizado até às 10 semanas. O que eu quis dizer foi que, na minha opinião, me identificava mais com o modelo legislativo anterior do que este de agora.
Mas não defende um regresso.
Não defendo um regresso, isto nem sequer está nas nossas propostas.
Pois não, esse é o ponto.
Claro, mas também nunca esteve. Repare, eu fui presidente da Juventude Popular durante quatro anos. Na nossa agenda nunca esteve a reversão da lei do aborto, percebe? Isso nunca aconteceu. Portanto, não constitui uma novidade se eu agora pudesse ter identificado algum ponto em que eu disse: "Bem, vamos então apresentar ao grupo parlamentar do CDS uma proposta que devia ser referente, porque quando as posições nessas matérias são referendáveis, só podem ser alteradas pela mesma via." Agora, eu não mudei a minha opinião sobre esses temas, que isto fique muito claro. Eu só acho é que a atualidade recomenda que as prioridades sejam outras. E o meu discurso conservador tem outras dimensões. Eu assumo-me como uma pessoa conservadora e não tenho prioridades.
Que não apenas os sistemas fraturantes.
Exatamente, esse é que é o ponto. Quando eu defendo a coesão do território para mitigarmos assimetrias entre o litoral e o interior do país, onde tem que haver um choque fiscal, investimento público, uma reforma do sistema eleitoral, acho que são posições conservadoras. Quando eu defendo que deve haver liberdade de escolha para as famílias poderem optar entre os estabelecimentos de ensino que colocam os seus filhos a estudar, reconhece que é a família que deve ter autonomia na educação dos seus filhos.
Mas aí o que o distingue de João Almeida esvai-se. Passa a ser uma questão mais de personalidades, de saber quem é mais capaz de impor esta agenda do que propriamente uma batalha pelos corações e pelas mentes dos militantes.
Há aqui uns pontos que o João não aborda. Por exemplo, eu defendo um novo modelo de regulação bancária em Portugal. Eu defendo uma reforma do nosso sistema político. Eu defendo um novo contrato social entre gerações, para garantir que os mais jovens tenham acesso a uma reforma. Esses tópicos não vêm vertidos na moção do João Almeida. Portanto, o meu diapasão é mais alargado do que propriamente o do João. E depois, claro, também há diferenças de estilo. Eu acho que na política elas não são despiciendas, sobretudo numa altura em que o CDS está altamente descapitalizado na opinião pública. Eu creio que era muito mais vantajoso o CDS conseguir agora dar uma chicotada psicológica, produzir um efeito de novidade e reinventar-se para ser atrativo aos olhos dos eleitores. E nós já o experimentamos na história do CDS.
Mas não está a estreitar o leque de eleitores que podem apoiar o CDS? É disso que o acusam. Acusam-no de estar a falar pra menos gente.
É uma surpresa para mim, porque eu vou ser franco. Eu quando olho pra uma moção como aquela que nós escrevemos e que engloba política fiscal, liberdade de escolha, reforma do sistema político, coesão territorial, agenda verde, melhorias dos serviços públicos, designadamente na área dos transportes e na saúde. Bem, isto é estreitar o discurso ou é alargá-lo para temas que a direita espera que os partidos políticos apresentem soluções para o seu dia a dia? Eu creio que é um escopo alargado. Agora, há sempre uma tendência natural em acantonar em temas que são fraturantes, porque calhou uma vez, em 2016, eu ter dado a minha opinião.
Mas não acha que contribuiu um bocadinho para isso também?
Miguel, sou-lhe absolutamente franco. Não concordo com essa ideia. Porque eu, durante o percurso de presidente da Juventude Popular, só numa entrevista fui confrontado com esses temas, e foi a única vez que os abordei. Em todas as outras, veio na sequência de eu uma vez os ter tocado por intermédio de uma pergunta que me tinha sido colocada.
Mas outras frases como: "Não se combate o fogo com champanhe, temos que ir pro campo de batalha vencer esta guerra", isso é o Gonçalo de iniciou. Diga-me uma coisa. Pretende trabalhar com estes deputados, pretende trabalhar com estes presidentes de câmara? Onde é que vem a mudança dirigente consigo? Quem são essas pessoas e pra onde é que elas vão? Vai fazer essa mudança com quem? Vai trazer essas pessoas novas e vai colocá-las aonde?
Existem pessoas novas que estão na sociedade civil e que são militantes anônimas do CDS e que estão disponíveis pra integrar uma futura solução de governação do partido. Temos vários nomes que foram veiculados na imprensa, que posso até referir-lhe alguns. O médico António Maia Gonçalves, o próprio Bagão Félix também veio declarar-nos apoio. Tivemos o doutor António Galvão Lucas. O ex-chefe de Estado-Maior da Armada.
Não é um nome novo.
Certo, mas é um nome que ultimamente tem estado mais afastado. Mas, por exemplo, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada, Maceira Fragoso, também esteve disponível pra colaborar na nossa moção. O engenheiro Ricardo Rodrigues Gomes, que é CEO de um grupo internacional muito conhecido. Temos médicos de primeira água, que são referências nas suas especialidades, que colaboraram na redação desta moção.
E todos eles estão disponíveis pra colaborar consigo.
Exatamente, mostraram essa disponibilidade.
E as próximas batalhas eleitorais? O João Almeida disse aqui que já tem um nome pras presidenciais, caso o partido não queira apoiar Marcelo Rebelo de Sousa, e que já tem um nome ou vários nomes pra Câmara Municipal de Lisboa. Como é que está a sua cabeça em relação a isso? Presidenciais, autárquicas, já tem nomes, já tem estratégia?
Em primeiro lugar, devemos esperar pela clarificação do jogo democrático. As candidaturas presidenciais são uma declaração de vontade individual, não partem dos partidos. Manda a prudência e recomenda que esperemos para compreender se o candidato hipotético Marcelo Rebelo de Sousa decide avançar com uma candidatura ou não. Depois temos de consultar os órgãos próprios do partido e perceber para que lado é que pende a decisão do CDS. E sim, caso seja necessário, encontrar uma solução de recurso, que neste momento está tão em cima da mesa como um apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.
O que é que defenderia um apoio a Marcelo Rebelo de Sousa? Como é que acha que se deve fazer?
Eu acho que neste momento temos de fazer um balanço dos cinco anos de mandato. Vamos esperar que eles sejam concluídos e depois, internamente, eu acho que convém fazer esse exame e essa valoração. Agora, eu não quero, como no passado já aconteceu, precipitar uma posição do CDS à revelia dos seus órgãos máximos.
Foi o que a Assunção Cristas ao declarar o apoio imediatamente a Marcelo Rebelo de Sousa.
E acho que não foi feliz e a coisa não correu bem.
Mas também não podem esperar muito mais, não é? Porque está quase.
É verdade.
E se tiverem um candidato próprio, ele vai ter que ter tempo e espaço para se afirmar.
Exatamente. Mas eu preferia, pelo menos, que aguardássemos pelo timing.
E em relação à Câmara Municipal de Lisboa, já que as autárquicas é o primeiro grande desafio nacional próximo para o CDS.
Nós temos seis câmaras municipais, existem mais 302 municípios onde eu acredito que o CDS deve apresentar candidaturas competentes e competitivas. Por isso é que na nossa moção nós até defendemos um reforço da estrutura autárquica, com a criação da figura do coordenador autárquico distrital e a abertura do partido para fora. Porque se o CDS nesta altura, estreita em vez de alargar, nós não nos vamos conseguir abrir cá dentro. E se não nos abrirmos cá dentro, nunca vamos abrir para fora coisa rigorosamente nenhuma. Portanto, eu acho que a política do CDS também está muito pela captação de gente com valor, com currículo, com mérito da nossa área política, onde as estruturas do CDS forem manifestamente incapazes de apresentar candidaturas com base na nossa matéria-prima. Acho que essa é uma solução que pode vingar, desde que haja um trabalho preparatório prévio que obrigue a muito estudo, a muita preparação, a muita formação e a um trabalho de terreno, de campo, que será feito por uma estrutura autárquica nacional, que terá os seus pivôs em cada distrito.
E Assunção Cristas em Lisboa?
A Assunção Cristas em Lisboa... O nosso regulamento autárquico obriga a que nós, em primeiro lugar, tenhamos um diálogo estruturado com a nossa organização de base, que é a Concelhia de Lisboa. Se a Concelhia de Lisboa vir com bons olhos a recandidatura da Assunção Cristas, eu não vejo inconveniente rigorosamente nenhum para que isso possa acontecer. A Assunção Cristas não é presidente do CDS, mas continua a ser um excelente ativo do partido e provou em Lisboa ter um fantástico resultado eleitoral. Se no futuro mantiver o mesmo fogo, a mesma intenção, a mesma chama com que vimos preconizar e protagonizar aquela candidatura em 2017, e se a nossa estrutura do partido estiver em sintonia com essa declaração de vontade, eu acho que temos o casamento feito.
Estou a ouvi-lo e o Francisco é aqui o conciliador. Parece o conciliador.
Mas às vezes cria-se a imagem que não. Mas eu sou uma pessoa de compromissos.
Disse que era um homem de paz hoje no seu discurso.
Eu sou um homem de paz, sou um homem de compromisso. Todo o meu percurso o diz. Eu vou dizer-lhe uma coisa, há muitas caricaturas à volta da minha pessoa. E aqui o Miguel, de vez em quando, também faz algumas nos artigos de opinião. Eu acho que é dos principais.
Não viste nada, Miguel. Não venha contribuir para isso.
Mas eu quero dizer-vos uma coisa. Eu tive o percurso no associativismo académico. Eu fui sempre reeleito com maiorias esmagadoras e era sempre o órgão mais votado. E na organização, na composição do órgão, onde eu fui presidente da Mesa da Assembleia Geral de Alunos na Associação Académica da Faculdade de Lisboa. Tinha pessoas do Bloco de Esquerda e do PS. Eu era um tipo absolutamente consensual.
Sim, mas por falar nessas maiorias esmagadoras, uma das acusações que lhe foi feita por João Almeida é de messianismo, ser controleiro. E algumas pessoas interpretaram a grande emotividade com que foi recebido o seu discurso como alguma forma não totalmente espontânea de apoio. No Congresso de Lamego também tivemos aquela longa madrugada em que várias pessoas da JP subiram ao palco para exigirem que o Francisco fosse candidato a deputado. Existe esta crítica que lhe é feita de que utiliza um bocadinho as pessoas da JP como uma espécie de tropa de choque política. Acha que isso é injusto?
Miguel, eu vou lhe ser sincero. Eu uso de alguma probidade, de alguma ética no exercício da política, porque eu acredito na unicidade da pessoa. Eu não sou diferente na minha vida particular do que aquilo que sou na política. Procuro transportar exatamente as mesmas regras e os mesmos valores. A mim faz-me confusão como é que alguém durante quatro anos não abriu a boca sequer para denunciar comportamentos meus dessa ordem e que agora existem fontes anônimas que vão para a imprensa em vésperas do congresso para denunciar comportamentos que eu nunca testemunhei. Vamos lá ver, falou do Congresso. Para termos noção do que é que aconteceu no Congresso de Lamego, porque ainda hoje se diz que foi por culpa da Juventude Popular.
Pois diz. E aliás, as regras deste Congresso supostamente são regras anti-Francisco Rodrigues dos Santos para impedir a sua reeleição.
Exatamente. Há quem diga isso. Mas veja o seguinte, isto é uma habilidade que se usa nos congressos. A Juventude Popular tem uma cota de 135 delegados em Congresso e depois existem militantes da JP que são concomitantemente militantes também do partido, que são eleitos nas listas do CDS, portanto eles são militantes do partido. O que é que aconteceu? Nós, de facto, no Congresso de Lamego tínhamos muitos delegados, delegados ou que eram filiados no CDS, mas tinham menos de 30 anos, ou filiados pela via direta da Juventude Popular, compreendidos naquele diapasão dos 18 aos 30, quem está em condições de elegibilidade para um Congresso do CDS. O que é que aconteceu? Nós inscrevemo-nos rigorosamente ao mesmo tempo que todos os outros delegados, rigorosamente quando abriram as inscrições. Mas o que é que o nosso excelso presidente do Congresso fez? Colocou os militantes da Juventude Popular ou os militantes do partido, que também são militantes da Juventude, a falar depois da uma da manhã. Isto para quê? Porque já tinha a cartada de Passar um requerimento que depois inviabilizasse a continuidade dos trabalhos depois daquela hora. Conclusão: existiam ainda muitos delegados do CDS que não tinham falado, usado a palavra e aquele requerimento foi chumbado. Foi chumbado não só por causa da Juventude Popular, mas por toda a gente do partido.
Mas eles foram todos dizer a mesma coisa que se resumia a: "Queremos o Francisco Rodrigues dos Santos a deputado".
Miguel, eu sei que isto pode parecer suspeito da minha parte e admito que não acredite no que eu lhe vou dizer, mas quero que saiba isto: tem a minha palavra de honra que não foi dado esse briefing a nenhum militante. O que é que acontece? A Juventude Popular gostaria, em termos ideais, de ter representação parlamentar. Nós tínhamos um grupo com 17 deputados e não havia nenhum abaixo dos 30 anos. E sabemos que a nossa sociedade até aos 30 anos representa aproximadamente 20% da população. Ora, não é necessário dizer a ninguém da Juventude Popular para dizer: "Olha, tu vais lá e vais dizer que a JP tem que ter representação parlamentar." Uma estrutura que na altura tinha mais de 20 mil filiados, com uma implantação extraordinária a nível nacional e nas autárquicas deu a cara pelo partido em conselhos que o CDS não tinha listas próprias se não fossem os militantes da Juventude Popular, sindicar também essa oportunidade. Não é necessário que haja um guião propriamente.
E houve essa oportunidade, não é? Mas mesmo assim, mesmo indo o Francisco Rodrigues dos Santos em segundo lugar, não conseguiu a eleição. O que é que correu mal ali no Porto?
Eu vou-lhe ser franco, Miguel, e há estudos que dizem isto: a influência dos candidatos locais no crescimento marginal em votos do partido, em cada círculo, é muito pequena. Por quê? Porque os portugueses votam na pessoa que acham mais capaz para liderar o país.
A culpa foi da Assunção Cristas.
Não, eu acho que é uma avaliação do mandato nacional, compreende? E fomos todos penalizados, eu inclusivamente. Mas estou na política com total liberdade, porque não sou assalariado, eu tenho a minha atividade profissional. Não consegui ser eleito, mas o CDS há de ser sempre maior do que qualquer resultado eleitoral e o nosso papel não é o de fugir, é o de lutar. E eu cá estou, agora que ainda represento o partido, são coisas que acontecem e só quem se mete nelas é que...
Isto quase parece um azar, ser candidato à presidência.
Não, mas questão de ser eleito.
Não, a questão é das legislativas, não ser eleito.
Exatamente, nas legislativas não fui eleito, aquelas coisas acontecem, é a vida.
E se fosse eleito, o mérito teria sido também muito da Assunção Cristas. E acredita que é possível o partido sair daqui com alguma dose de consenso na segunda-feira e não sair totalmente partido ao meio?
Eu acho que o consenso é a linguagem entre gente moderada. Eu acho que é possível, desde que cada um de nós... Olhe, o Silvio Cerverás, esqueci-me de dizer, está agora a falar.
Sim, falou ele há bocado. Falou.
Para lhe dizer o seguinte: eu acho que, na verdade, eu até costumo dizer isto em tom de brincadeira, que o que nos une é caminhar juntos pelo futuro, para voltar a acreditar que Portugal tem esperança por Portugal e pelo futuro. Isto é, isto é uma síntese de todos os nomes das moções que são apresentadas, pelo menos como candidaturas à liderança do partido, aquelas cinco. Eu acho que nós temos muito mais em comum uns com os outros do que divergências ou diferenças de pensamento. Agora, depois de o projeto vencedor ser sufragado em congresso, eu acho que todos nós temos que ser militantes disciplinados e acatar a futura liderança. Eu não vou fugir, não vou para outro partido.
Nem vai fazer oposição interna.
De maneira nenhuma. Eu nunca farei oposição ao meu partido. E o Miguel aí, se calhar, far-me-á justiça. Eu penso nalgumas matérias diferentes da Assunção Cristas. Eu talvez tivesse seguido outra ordem de prioridades.
Até o podem criticar por isso, não é? Por não teres exprimido uma oposição suficientemente veemente quando a liderança era outra.
Tem razão. E é verdade. Mas eu quero lhe dizer uma coisa: se expressar oposição à liderança de um partido for prejudicar o CDS, os seus compromissos com os eleitores, a possibilidade de ter bons resultados eleitorais, estar constantemente na imprensa a apontar os defeitos e com conversas intestinas, sem apresentar uma única alternativa para a gestão interna do partido, eu não acho que isso seja positivo. O que é que eu procurei fazer? Eu procurei, através da Juventude Popular, ter uma gestão de dossiês e uma ordem de prioridades que era um pouquinho diferente da Assunção Cristas e tentar enriquecer o partido com esta visão, que era complementar àquela que existia por parte da Assunção Cristas e que, a nosso ver, era a mais indicada do ponto de vista estratégico. Foi assim que nós estivemos no Parlamento a apresentar o pacote de medidas de combate à corrupção, para dignificação da atividade política, para combater este colapso ético e moral que existe, essa mal de confiança. O grupo parlamentar, infelizmente, não chegou a aproveitar nenhuma destas propostas para apresentar em sede parlamentar, mas nós fizemos. Desenvolvemos o programa Semear Portugal com a Quercus, que era para reflorestar as áreas ardidas pelos incêndios. Achámos que era importante o CDS dar esse sinal à sociedade, assim como abolir a utilização do plástico de fim único nas nossas atividades. Também o fizemos. Recordo-me quando nós apresentámos um guião de medidas para combater o abandono escolar no caso do ensino superior. Até houve uma delas que veio a ser implementada pelo governo, que era o crédito estudantil para jovens que não estavam abrangidos pela ação social escolar e podiam ter esse apoio especial por parte do Estado. E outra proposta visava atacar o problema da habitação estudantil. Nós queríamos que ela fosse promovida e houve uma proposta que também veio a ser executada pelo governo, que foi a dedução fiscal das despesas com a habitação estudantil em sede de IRS. Também apresentámos propostas para combater a precariedade laboral, porque achamos que a precariedade não deve ser um chavão das esquerdas. Existem situações de exploração. A ACT deve ter mecanismos mais potentes para combater os falsos regimes verde, tem que ter um trabalho com direitos, mas também com deveres, que esta conciliação é fundamental.
Mas ali no seu primeiro discurso não falou muito disso.
Pois não, eu não tive tempo. Tem razão, Miguel. Mas eu tenho falado nisso em todas as entrevistas até aqui. E qual é que foi o critério? Eu fui muito interrompido por palmas, isso esvaziou um pouquinho o tempo útil da minha intervenção.
Até teve um desconto.
Depois tive que pedir. E quando eu cheguei à parte dos temas, eu optei por falar em alguns que não tinha dito durante a sequência de entrevistas que dei até chegar ao Congresso.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.