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Temos a oportunidade de conversar com o nosso grande especialista, Gabriel Alves, comentador de desporto da Rádio Observador. Está já conosco em linha. Gabriel, estamos nesta altura ainda a apontar para resultados provisórios e para uma vitória de Villas-Boas. Eu não te vou pedir de imediato um comentário a isso, vou sim pedir um comentário a este ato eleitoral, que levou quase 27 mil sócios a votarem numa eleição no Futebol Clube do Porto, a pulverizar aquilo que era o recorde anterior de cerca de 10 mil sócios a votar. Como é que analisais esta saúde democrática no Futebol Clube do Porto?

Boa noite. Saúde democrática, exatamente, é uma vitória do Futebol Clube do Porto, para mim, numa primeira análise. 26.742 sócios naturalmente que foram às urnas decidir aquilo que vai ser o Futebol Clube do Porto neste 2024. Isto dá saúde e mostra que, de facto, é um clube que está vivo e que, obviamente, tem adeptos e sócios, naturalmente, e que têm cada um, um voto. É preciso ter isto em nota, é preciso sublinhar isto. Têm na mão aquilo que pretendem em termos de um Futebol Clube do Porto destas eleições para diante. Ou Pinto da Costa, a manutenção de 42 anos, ou uma nova fase com André Villas-Boas, que se candidatou a estas eleições contra aquilo que foi o maior mandato de sempre ao serviço de um clube, e neste momento, um clube português. Portanto, isso traz vida ao Futebol Clube do Porto, mostra que está vivo, dá à sociedade futebolística, à sociedade económica, que envolve o futebol, que na realidade este clube a norte de Portugal tem muita força, para além daquilo que é a força desportiva dele, com os troféus que tem vindo a conquistar ao longo das últimas décadas, quer a nível nacional, que são importantes, muito importantes, mas também em termos internacionais e que lhe dá a dimensão que tem ao nível dos rankings, quer da UEFA, quer da FIFA.

Tivemos, de facto, duas fortes candidaturas. Claro, tivemos três, a de Nuno Lobo também conta, mas tivemos duas grandes candidaturas de Villas-Boas e de Jorge Nuno Pinto da Costa, sendo que Jorge Nuno Pinto da Costa lutava mais pela continuidade, mas com espaço a algumas mudanças, e a candidatura avançou com isso, e Villas-Boas a apostar claramente numa mudança, numa rutura com alguns problemas que vinham sendo sinalizados no Futebol Clube do Porto. De tudo o que conheces e da forma como acompanhas o futebol também, e das pessoas que conheces que acompanham também o universo do Futebol Clube do Porto, parece-te que o sentimento nesta altura seria mais de mudança?

Notou-se isso ao longo, eu diria mesmo, dos últimos meses, não vou falar das últimas semanas, mas desde o momento em que arranca a campanha eleitoral, ou melhor, a pré-campanha eleitoral, que se notou esse desejo de qualquer coisa de novo, em termos de Futebol Clube do Porto. Estamos a falar só do Futebol Clube do Porto. Objetivamente, o Futebol Clube do Porto. É verdade que todos nós sabemos que em termos do futebol português, naquilo que é o conceito e o contexto do futebol internacional, com as novas medidas que estão a ser introduzidas pelos organismos federativos, isto é, internacionais, eu falo FIFA e falo UEFA, há coisas que têm que mudar no âmbito do futebol português. E obviamente que o Futebol Clube do Porto, através de um candidato que aparece novo, surge com essa vontade, com essa determinação e com esse aval aos sócios para pôr em contraponto aquilo que vinha sendo feito nos últimos anos. É óbvio que Jorge Pinto da Costa, que nunca teve oposição forte, consistente, densa, sentiu que essa oposição tinha chegado finalmente e mexeu-se naquilo que era uma posição, de modo também a mostrar-se vivo, dinâmico e capaz de alterar algumas posições face a um novo conceito. Porque a verdade é esta: Villas-Boas é um treinador que antes de ser treinador do Futebol Clube do Porto, já vinha da lista dos grandes clubes, porque ele acompanhou José Mourinho, não podemos esquecer que ele esteve na estrutura técnica de Mourinho, de onde depois acabou por sair. Mas essa estrutura técnica não se limitou única e simplesmente àquilo que é a parte futebolística. Não, ele também teve a dimensão, a capacidade de ver o que é que o futebol estava a evoluir. Depois treinou clubes estrangeiros, onde esteve desde o leste da Europa à Europa Ocidental, e também teve essa nota, essa etiqueta de algo que o futebol estava, naturalmente, a ter em termos de postulado moderno. Agora, a verdade é esta, que há muitas coisas de um momento para o outro, porque isto do futebol não está a parar, a indústria não para, o negócio está vivo, está com muitos interesses, quer ao nível daquilo que é o mundo árabe, mas não só, também o mundo norte-americano, os americanos também estão na Europa neste momento em busca deste jogo universal e que atrai as multidões. Temos também a própria FIFA naquilo que é um despique com a própria UEFA, naquilo que são as organizações de grandes provas. Portanto, este negócio está florescente. É um negócio em que tudo e todos apostam de uma forma forte, incisiva e sempre com Atualidade, mas com projeção de futuro. Ora bem, o Futebol Clube do Porto e não só, os clubes portugueses também têm que entrar nesta onda. Mas falamos do Futebol Clube do Porto. Aparece o Villas-Boas e traz essa etiqueta de que vai ter que haver grandes alterações no âmbito daquilo que é o conteúdo, o tecido económico, o tecido financeiro, o tecido do negócio daquilo que é o futebol. Nós sabemos que os clubes portugueses, depois de muitas situações ao longo das suas vidas em busca de dinheiro, acabaram por ir às sociedades, à bolsa. E normalmente o clube fica com a maioria da sociedade anônima, tem 51%, é dono. Mas isso eu penso que é chão que deu uvas. Já não chega o clube ser o dono da SAD. Não, a SAD vai ter que ser partilhada com outro tipo de investidores e é preciso ter, daquilo que é o futebol clube português, no particular e no global, algo atrativo para que atraia os grandes magnatas, as grandes empresas, os grandes países a investir. E claro, não queremos ser a liga inglesa. Temos a liga espanhola, que também está nesta altura em movimento e há clubes que estão em situação muito difícil. É ver o Barcelona, que é uma grande bandeira do futebol espanhol e a própria Itália. Portanto, isto vai mudar e é preciso que alguém arranque. E no Futebol Clube do Porto, veremos o que é que o Villas-Boas, se vencer, nós não sabemos ainda se venceu, o que fará. Ou Pinto da Costa, se ainda vencer, dentro daquilo que são os espaços que ele pretende dar de modernidade, o que é que fará e o que é que trará.

Gabriel Alves, temos confirmação, o observador já conseguiu recolher essa informação de que as primeiras mesas que foram contadas dão uma vantagem a rondar os 60% para André Villas-Boas. Há duas informações adicionais, que essa tendência acontece para as restantes mesas e que a vantagem pode mesmo ser maior no final. Várias informações a apontar, de facto, para a vitória de André Villas-Boas. Perguntar-te sobre o que achas que pode ser um processo de transição neste Futebol Clube do Porto.

Acho que tem que ser um processo dentro daquilo que é a democracia. Portanto, é a saída de uma direção, de uma vivência, de uma vigência para uma outra e a unidade do clube, essa não pode ser posta em causa. Venceu, foram os sócios, foram os adeptos, que assim decidiram aquilo que pretendiam, pretendiam uma nova direção. Se isso acontecer, se isso se vier a concretizar, a certificar-se, e portanto só há que fazer a transição de forma clara, transparente, objetiva e depois, se for Villas-Boas a ganhar, de facto, e confirmar essa vantagem dos 60%, esse voto dos sócios, Villas-Boas tem que falar claro, muito claro, daquilo que pretende fazer do Futebol Clube do Porto. Porque uma coisa é a promessa, outra coisa depois é a realidade do dia a dia.

Jorge Nuno Pinto da Costa teve muitas eleições ao longo destes anos e sempre com vitórias, sendo que na última teve 68% dos votos e foi a que teve uma margem mais curta. Perder desta forma, desta dimensão, a rondar os 60%, de que forma fica? Isto mancha a história de Jorge Nuno Pinto da Costa ou não há possibilidade sequer de deixar uma mancha naquilo que é o currículo de Jorge Nuno Pinto da Costa no Futebol Clube do Porto?

Esse currículo não sofre mancha, porque faz parte da história do clube, da história desse presidente. É uma envolvência factual, não é virtual, está tudo contado. Agora, a questão é esta, aquilo que tem um princípio, também tem um fim. Terá sido a melhor opção de Jorge Nuno Pinto da Costa querer manter mais um mandato face a algo que se notava no clube, de que poderia haver alguma ou motivações que abordassem uma mudança? Também se Pinto da Costa desistisse, também não seria bom face à primeira grande concorrência, porque André Villas-Boas é um concorrente muito forte. Primeiro porque ele é um adepto ferranho do Futebol Clube do Porto. Essa é logo a primeira. Depois tem obra feita no Futebol Clube do Porto, como treinador, naquilo que é a sua profissão, a tal cadeira de sonho. Isso é tudo muito emocional, é tudo muito forte entre adeptos, em todos os clubes, porque ele venceu, ele ganhou, ele trouxe títulos. Embora sobre a gerência de Jorge Nuno Pinto da Costa, mas André Villas-Boas está ligado também a uma fase desses mesmos títulos. E os adeptos, os sócios do Futebol Clube do Porto, viram nele que podia ser um farol de futuro. Agora, Pinto da Costa, na minha opinião, provavelmente poderia ter deixado não este Villas-Boas de mãos largas, mas se calhar, se não tivesse concorrido, poderiam ter aparecido outros candidatos e então, não sei se André Villas-Boas acabaria por vencer ou não. Os sócios é que teriam que decidir, mas com outros que também postulariam a modernidade e o futuro para o clube Dragão.