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Vamos retomar o contato com o secretário-geral da Sedes Europa, Vitória Gabriel Oliveira, que aqui esteve no arranque desta emissão. Vitória, falávamos ainda não eram conhecidas as projeções, agora sim, com esta aparente surpresa, projeção a apontar para a vitória da Nova Frente Popular. Que comentários lhe merecem estas projeções a confirmarem-se e a traduzirem-se em resultados finais e oficiais?

Como nós falamos há pouco, eram cerca de 18h00, aquilo que se previa verificou-se. Ou seja, a extrema-direita não se previa que talvez perdesse com esta dimensão, com este estrondo, mas previa-se que os dois blocos, o bloco presidencial e o bloco de esquerda, conseguissem maioria em relação à extrema-direita e em relação ao Rassemblement National. Queria deixar também esta declaração do presidente Emmanuel Macron hoje à noite. Ele disse hoje que o bloco central está vivo e de boa saúde e disse ainda, em resposta também ao que disse Mélenchon, que não se conseguem tirar ilações de quem irá governar. Emmanuel Macron, neste momento, se a política francesa fosse um tabuleiro de xadrez, mexeu o primeiro peão para tentar implodir. Ele já fez isso. Emmanuel Macron quando cria o partido République en Marche, que depois o levou a presidente francês, foi buscar muita gente ao centro-direita e ao centro-esquerda. É aquilo que ele vai, na minha opinião, tentar nos próximos dias, implodir a Frente Popular e criar uma maioria que lhe permita nomear um primeiro-ministro que consiga ser apoiado por uma maioria de deputados.

Portanto, tentar obter apoio junto dessa frente de esquerda.

Exatamente. As eleições não estão fechadas ainda, mas se apontarmos aqui para deputados na ordem dos 160, 170 deputados da maioria presidencial, para cerca de 60 deputados dos Republicanos, na área dos Republicanos que não esteve com o Rassemblement National, e sabendo que o Emmanuel Macron poderá ir tentar junto dos ecologistas e juntos os socialistas que apoiaram a Frente Popular, ir buscar também alguém. Portanto, 160 mais 60, temos 220 para 289, faltam 69. Sessenta e nove o Emmanuel Macron consegue ir buscar aos ecologistas e aos socialistas. Só para percebermos que Jean-Luc Mélenchon, ao contrário do que disse hoje à noite, não tem tudo na mão. Se percebermos Jean-Luc Mélenchon, se tentarmos ir mais longe do alcance das suas palavras, ele tenta puxar para si único e exclusivamente, e para a France Insoumise, único e exclusivamente a vitória hoje. Mas a vitória hoje é da Frente Popular, não é da France Insoumise. A France Insoumise nas eleições europeias ficou em quinto lugar. Os socialistas tiveram mais do que a France Insoumise. Agora, não podemos tirar o mérito a Jean-Luc Mélenchon. Jean-Luc Mélenchon estrategicamente e politicamente para a sua área e para o seu espectro eleitoral, conseguiu dominar esta coligação. E isso é que talvez vai ficar para os livros de Ciência Política, que é como é que ele consegue, tendo menos votação nas eleições europeias, darem-lhe a liderança da France Insoumise.

Que explicação encontra, Vitória, para isso?

Pese embora tecnicamente tenha anteriormente mais deputados na Assembleia do que o Partido Socialista, e tecnicamente pode ser visto por aí, na realidade, Coluche quase não apareceu na campanha. O Partido Socialista foi praticamente engolido por Jean-Luc Mélenchon e ele apropriou-se, como hoje se viu, do resultado quase na sua totalidade, o que não é verdade. Ou seja, este resultado da Frente Popular tem lá dentro socialistas, ecologistas, comunistas, France Insoumise, portanto extrema-esquerda, tem muitos partidos lá dentro, isso não é só Mélenchon. E o que eu acho que Emmanuel Macron vai tentar nos próximos dias é encontrar uma solução entre o centro moderado e o centro, e talvez o centro-direita, para evitar que Mélenchon consiga colocar alguém, neste caso o Manuel Bompard, por exemplo, como primeiro-ministro.

Sendo que o Partido Socialista francês, também François Hollande, já vieram sublinhar a ideia que hoje saiu derrotada a União Nacional, mas também a maioria cessante. Isto não invalida de alguma forma, não afasta os deputados eleitos pelo Partido Socialista francês dessa eventual coligação?

Não, eu penso que não. Eu penso que as declarações que ouvimos hoje ao início desta noite, ou seja, toda a gente está, menos o Rassemblement National, que teve uma derrota histórica. Aliás, Marine Le Pen não falou logo no platô, emitiu comunicado escrito. À parte do Rassemblement National, todos tentaram puxar para eles próprios louros das pequenas vitórias que se possam imaginar que tiveram, ainda não está fechado. Mas o fato, por exemplo, só chamar a atenção também para esse pormenor, François Hollande foi eleito na região da Corrèze. François Hollande foi talvez a segunda ou terceira figura nacional a falar logo. Ele hoje é só um deputado e foi logo a segunda ou terceira figura a falar. Não deixa de ter sido presidente de França. É uma pessoa de bom senso, é uma pessoa vista por vários socialistas e no centro. Na altura que ele foi presidente, até de certa forma acabou o mandato já com uma popularidade muito baixa, etc. Mas as pessoas não têm por François Hollande um voto de rejeição, ou seja, não é alguém que os franceses vejam como má figura. E François Hollande poderá não ser primeiro-ministro, mas poderá ter um papel importante para, junto do bloco central, do bloco presidencialista, conseguir articular e fazer esta Esta transição. Eu sei que ele disse isso, mas não nos podemos esquecer que ele mantém relações com Emmanuel Macron, que foi seu ministro. Emmanuel Macron saiu do governo de François Hollande um ano antes das eleições presidenciais para criar o partido En Marche, para depois ser eleito presidente francês. Ou seja, são pessoas que estão muito próximas no campo das ideias, no campo do bom senso, no campo do centro político, embora Emmanuel Macron, quando foi eleito, tivesse divergido um pouco mais para o centro e centro-direita, nomeadamente com o governo que constituiu nessa altura. Portanto, eu acho que os próximos dias vão ser desafiantes. Há pouco eu via vários comentários sobre isto. A França não tem um sistema parlamentar preparado e habituado a esse tipo de negociações. Mas deixando aqui uma nota mais de humor, provavelmente terão que aprender alguma coisa com os países latinos, nomeadamente com a Espanha e com Portugal, que ultimamente conseguiram dar a volta e fazer coligações nesta área. A França não está habituada a isso, até porque normalmente quando há eleições presidenciais, logo a seguir, passadas duas, três semanas, há eleições legislativas e os resultados muitas vezes replicam-se. Não há uma participação muito grande nas eleições legislativas por isso mesmo, porque as pessoas pensam que o resultado vai ser o mesmo e isso remove muitos eleitores de irem votar. O que não aconteceu desta vez. Desta vez, as eleições intercalares contrariam o presidente, ou seja, contrariam a maioria que elegeu o presidente. E isso é novo, ou seja, a França vai ter que se habituar a isso. Agora, acredito que Emmanuel Macron vai fazer tudo para conseguir ter um governo e vai provavelmente tentar colocar pessoas do centro-esquerda e do centro nesse governo. Vai tentar fazer tudo para que as pessoas se entendam, utilizando negociadores e pessoas muito próximas dele. Emmanuel Macron, legalmente e pela Constituição francesa, não pode convocar novas eleições legislativas no espaço de um ano. Estamos a falar que dentro de um ano, em meio de 2026, mais ou menos, haverá eleições municipais em França, que são eleições muito importantes para os orçamentos e nas regiões e para a economia francesa. Portanto, não acredito que Emmanuel Macron cole as duas eleições. E depois estamos em 2027, e em 2027 são as eleições presidenciais. Portanto, acredito que Emmanuel Macron vai dar tudo o que lhe é possível para conseguir constituir um governo e se for preciso fazer cedências, vai fazê-las para não deixar Jean-Luc Mélenchon tomar conta do governo, mesmo não sendo primeiro-ministro por trás, que isso pode significar um lançamento para 2027 de outra forma que Emmanuel Macron não quer.

E relativamente às ambições de Marine Le Pen de vir a ser presidente e de se candidatar em 2027 à presidência de França, este resultado, de alguma forma, abala esse objetivo de Marine Le Pen? Compromete a tendência crescente junto do eleitorado da União Nacional?

Tanto embora a bolha mediática diga hoje que Marine Le Pen não sai beliscada, eu penso que não. Eu penso que a Marine Le Pen sai beliscada e isso é uma vitória de Emmanuel Macron. Emmanuel Macron, ao contrário de todos, decidiu uma hora depois, no domingo passado, que iria haver eleições. No domingo passado, peço desculpa.

A 9 de junho, quando das eleições europeias.

Exatamente, quando das eleições europeias, convocou uma hora logo depois. Emmanuel Macron tinha este plano idealizado na cabeça dele e resultou. Ok, Emmanuel Macron não tem hoje a maioria. Ok, Emmanuel Macron não pode nomear o primeiro-ministro que quer. Ok, mas conseguiu o menor dos males, ou seja, conseguiu mostrar ao povo francês e às instituições da União Europeia, mais principalmente ao povo francês, que quando estamos perante a ameaça de passar a linha vermelha, para ele próprio, e ir para o campo político da extrema-direita, dois terços dos franceses disseram não hoje. E estamos a três anos das eleições presidenciais. Isso psicologicamente, para Marine Le Pen e para o Rassemblement National é brutal. Emmanuel Macron conseguiu, prejudicando-se ele próprio, provavelmente, ele podia ter mantido Gabriel Attal durante mais três anos sem problema nenhum, portanto a decisão foi dele, quase unipessoal. Aliás, ele foi criticado por Édouard Philippe, que é muito próximo dele. Ainda hoje o Édouard Philippe o criticou e disse que estávamos a abrir a porta à entrada de Jean-Luc Mélenchon no governo e que isso ele não queria. E apelou a que se juntassem a ele próprio. Ele é o líder do partido Horizons, que foi um partido que criou há relativamente pouco tempo. Provavelmente será ele o candidato com maior capacidade de ganhar o centro em 2027. Fala-se em três candidatos, Jean-Luc Mélenchon mais à esquerda, Édouard Philippe ao centro e Marine Le Pen à direita. Aquilo que terá que se ver em 2027 é quem são as duas pessoas que passam à segunda volta. E se Édouard Philippe não conseguir com Emmanuel Macron nestes próximos três anos ter um bom entendimento, poderá passar Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen. E aí os franceses têm que escolher entre os dois, aí não há nada a fazer. E eu penso que isto que fez Emmanuel Macron e a estratégia que adotou Emmanuel Macron, e eu falei várias vezes para o Observador sobre isso, achei que era uma boa estratégia, achei que ter coragem para dar a voz aos cidadãos é sempre de louvar, ou seja, ir às urnas é sempre de louvar. Emmanuel Macron não teve medo. E isso é um registo Nós temos que apontar é uma pessoa jovem, foi eleito com 39 anos, que gosta deste raros de coragem, isso é um apontamento que eu queria deixar esta noite.

Sendo que as dificuldades de encontrar uma solução de governo em França, se ficarmos aqui com uma situação algo pantanosa nos tempos mais próximos, isso não poderá ser terreno fértil para a União Nacional e para as ambições de Marine Le Pen?

Eu penso que não. Aquilo que Emmanuel Macron tentará, sobretudo, é afastar Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen do poder. Tudo o que não seja ter Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon no poder, é bom para Emmanuel Macron. Portanto, não é expectável, a não ser que para o ano, em 2025, o Rassemblement National consiga um grande resultado em grandes vilas e em grandes cidades nas eleições municipais. Hoje foi uma derrota importante, e quando se percebeu que Marine Le Pen não ia ao púlpito falar na hora seguinte, foi uma derrota infligida, na minha opinião, pela decisão de Emmanuel Macron. Ok, a Frente Popular e Jean-Luc Mélenchon advogam para ele a capacidade de ter ganho e o mérito de ele próprio ter ganho, e encostam Emmanuel Macron um pouco às cordas dizendo que ele tem que nomear alguém da Frente Nacional, da Frente Popular. Mas Emmanuel Macron, ao ter desferido este golpe na extrema-direita, consegue segurar, penso eu, as eleições de 2027. Até lá, muita água a decorrer, mas consegue segurar esta investida que vinha sendo alcançada por Marine Le Pen.

E relativamente a Bardella, que futuro político, de alguma forma, este revés, pelo menos tendo em conta as ambições da União Nacional, traduzem-se também num revés face ao futuro político ambicionado por Bardella, ou tendo em conta a parca idade de Bardella, nem por isso.

Bardella será sempre um ativo muito importante na Frente Nacional. Também hoje algumas pessoas questionavam, principalmente os meios de comunicação portugueses, questionavam como é que Bardella chegou ao lugar que chegou e por que Marine Le Pen foi escolher alguém numa família da classe média, etc. Jordan Bardella tem uma relação até pessoal e privada com pessoas da família da Marine Le Pen. Só dizer isto também, Marion Marechal, que é do partido de Éric Zemmour, era uma pessoa muito próxima de Jordan Bardella. Jordan Bardella tem 28 anos. Com 28 anos, ninguém perde para sempre na política. E Marine Le Pen, provavelmente, daqui a alguns anos precisará de novos ativos. Provavelmente poderá Marion Marechal regressar à Frente Nacional. Mas será que é a primeira figura fora do clã Le Pen com projeção. E não nos podemos esquecer que hoje ele perde as eleições, mas ganha as europeias. E o futuro de Jordan Bardella, penso eu, passará pelo Parlamento Europeu, provavelmente, onde conseguirá e onde tentará impor-se, não descurando o trabalho que terá que fazer com Marine Le Pen para a ajudar e para tentar ajudar em 2027 a ser eleita.

Sendo que a União Nacional, apesar de não ter sido a força política mais votada, a verdade é que consegue aumentar substancialmente o número de deputados face às eleições legislativas de 2022. Ao longo desta emissão especial aqui na Rádio Observador, questionámos quem poderá vir a ser convidado no seio da nova Frente Popular, a coligação de esquerda, para assumir a chefia do governo. Aventou-se aqui a possibilidade de François Hollande, o antigo presidente francês, poder desempenhar esse papel, sendo que Hollande garantiu há pouco em declarações à BFMTV que não é candidato à liderança do governo. Não sendo François Hollande, não sendo Mélenchon, não querendo Mélenchon como candidato, Vitor, pergunto se vislumbra alguma figura, personalidade que possa reunir os consensos necessários para chefiar o governo de França.

É difícil. Atenção que François Hollande, antes das eleições, ele hoje disse que não era candidato, mas antes das eleições ele disse que não seria um deputado normal. Portanto, François Hollande quererá ter uma influência direta sobre os entendimentos entre o Partido Socialista e o centro, e a maioria presidencial. Quererá ser um influenciador. Nessa medida, provavelmente será encontrado alguém dentro deste espectro de partidos que irão liderar, provavelmente, esse governo. E acredito eu, Emmanuel Macron tentará negociar vários lugares, porque o lugar de primeiro-ministro é muito importante, mas tem outros lugares que são extremamente importantes, como o ministro do Interior, que neste caso é Gerald Darmanin, como o ministro da Economia, que é Bruno Le Maire. Emmanuel Macron, se fizer uma negociação e se abdicar do lugar de primeiro-ministro para uma pessoa mais à esquerda do que o seu espectro presidencial, acredito que tentará colocar ministros da sua área política nas principais pastas. Acredito que é isso que irá acontecer, mas François Hollande terá uma influência grande nestas negociações.