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Muito boa tarde. Bem-vindos novamente à emissão especial do Observador, a partir da oitava Convenção Nacional da Iniciativa Liberal. Comigo, como sempre, ainda és André Figueiredo e hoje também a Mariana Leitão, líder parlamentar da Iniciativa Liberal. Obrigado desde já pela disponibilidade para se juntar a nós e à emissão especial do Observador. Mariana Leitão, começava cronologicamente por este congresso, depois de meses de trabalho e de discussão, acabaram por não aprovar novos estatutos. A não aprovação deixa a Iniciativa Liberal menos apta para os combates do futuro ou isso não se vai sentir lá fora?
Antes de mais, muito boa tarde a todos. Não acho que deixe a Iniciativa Liberal menos preparada. Aliás, os estatutos que temos em vigor foram os estatutos que nos trouxeram até aqui e que não condicionaram de forma alguma aquilo que tem sido o percurso da Iniciativa Liberal e as várias vitórias que fomos tendo ao longo do tempo. E também não será por se manterem estes em vigor que isso condicionará vitórias futuras e o crescimento da Iniciativa Liberal. É óbvio, podia ser uma oportunidade para melhorar alguns aspectos, nomeadamente a questão do quórum, que acho que é perceptível para todos, que nos traz aqui alguns constrangimentos logísticos no arranque das convenções, mas também não há nenhuma questão estrutural que impeça qualquer situação futura de crescimento ou qualquer outra de outro género.
Ainda assim, não há aqui uma derrota para a Direção Nacional, depois de Rui Rocha ter apelado à aprovação dos estatutos, de João Cotrim Figueiredo ter ido ao palco puxar dos galões dos resultados eleitorais para apelar a essa mudança. O facto de não ter conseguido os dois terços não é uma derrota para a liderança da Iniciativa Liberal?
Não, não acho que seja uma derrota da liderança. Acho que isto é um processo perfeitamente normal e num partido com este tipo de exigência, nomeadamente os dois terços para alterar os estatutos, sabíamos que seria difícil essa maioria e portanto vemos isto com completa naturalidade. Isto faz parte do processo democrático de qualquer partido. Aquilo que é importante é que a atual direção, que fez um compromisso com os membros na sua moção de estratégia global, a moção que foi aprovada, que era o de abrir esta revisão estatutária, essa promessa foi cumprida e por isso tivemos toda esta discussão no dia de ontem, que foi o culminar desse processo de revisão estatutária. E deu-se a palavra aos membros e os membros são soberanos nestas matérias, entenderam que se deveria manter os estatutos tal como estão, não deram a sua confiança a nenhuma das propostas alternativas apresentada e nada impede que no futuro não se abra novo processo de revisão estatutária.
E, por outro lado, pode-se fazer alguma leitura do fato de a proposta dos estatutos mais liberais ter conseguido menos de 30% nos tempos da corrida pela liderança, a última que houve na Iniciativa Liberal. Rui Rocha e Carla Castro tinham praticamente metade do partido cada um. Ontem não se viu essa mesma expressão. Pode haver aqui uma leitura sobre esses resultados?
Eu não acho que se possa comparar coisas que não são comparáveis. Uma coisa é uma convenção eletiva e disputas de liderança, como moções de estratégia global, que são obviamente documentos que definem toda a estratégia que o partido vai seguir. Outra coisa são questões estatutárias, que dizem respeito a documentos, ou neste caso a um documento, que defina um conjunto de regras de organização e funcionamento do partido. Portanto, são duas situações que não me parece que sejam sequer comparáveis.
As pessoas, pelo menos consideradas da oposição interna, têm estado sempre do outro lado, digamos assim, das propostas da direção, que foi o caso de ontem.
São visões diferentes, perfeitamente normal num partido liberal.
Não dá muito folga a Rui Rocha para a convenção eletiva que aí vai.
Eu acho que estamos a confundir duas realidades distintas. Uma coisa é a convenção estatutária. Ontem foi um momento de discutir estatutos, discutiram-se temas relevantes sobre o funcionamento do partido, visões diferentes e correu tudo com enorme urbanidade, com enorme civilidade. Foi de facto um exercício que eu acho que foi muito interessante desse ponto de vista, porque apesar de várias das pessoas aqui terem opiniões muito divergentes, conseguiram expressá-las com total à vontade e conseguimos ter uma discussão saudável sobre estes temas, que no fundo são temas algo mais burocráticos, chatos, digamos assim, e acho que se conseguiu fazê-lo com enorme urbanidade. Isso acho que é um ponto importante. Outra coisa será momentos de convenção eletiva, em que aí há toda uma definição de política que não tem a ver com as regras de funcionamento interno apenas, mas tem a ver com aquilo que é o nosso posicionamento para fora, em que aí, obviamente, há toda uma relevância dos temas nacionais, daquilo que é o futuro posicionamento do partido, que é muito diferente daquilo que tivemos ontem aqui e, portanto, tentar fazer essa ligação...
Não retire leituras uma coisa sobre a outra. Deixe-me ir ao mote desta convenção, sempre a crescer. Na entrada há também um placar gigante que mostra esses resultados. Ainda assim, nas legislativas não foram atingidos os objetivos. Na Madeira e nos Açores também ficaram aquém. Isto não é ver o copo só meio cheio?
Acho que face às circunstâncias desses vários atos eleitorais, a verdade é que nós temos tido sempre um aumento do número de votos. Isso é importante. Acho que é muito relevante olharmos para a história da Iniciativa Liberal, que é uma história ainda muito recente, e percebermos que essa trajetória de crescimento tem sido um crescimento sempre a crescer, mas sustentado.
E é possível ir sempre a crescer sem João Cotrim Figueiredo? Não está o partido muito dependente da imagem de João Cotrim Figueiredo?
Eu penso que não. Eu acho que é possível continuarmos a crescer. Nós temos muitos elementos dentro do partido com grande capacidade. Foi possível ver aqui vários dos nossos membros com enorme potencial, temos vários deputados e portanto eu acho que, neste momento, já estamos no nível em que não dependemos apenas de uma pessoa, ou de um presidente, ou de um deputado, ou o que quer que seja. Portanto, acho que é possível continuarmos nesta rota de crescimento, independentemente de João Cotrim Figueiredo, apesar de João Cotrim Figueiredo continuar a ser um elemento do partido e hoje em dia eurodeputado.
Deixe-me perguntar-lhe, estamos perto do debate do Estado da Nação, que serve normalmente para um balanço dos últimos meses. O governo está a cumprir as expectativas nestes primeiros meses de governação?
Eu penso que o governo tem ficado aquém das expectativas. O governo tem apresentado sucessivos planos ao longo dos últimos meses, vários planos com um conjunto alargadíssimo de intenções, mas na prática temos visto pouca coisa. Portanto, continuamos um bocado na dinâmica dos PowerPoints, que era uma característica do anterior governo. Este governo mantém essa lógica dos PowerPoints, mas a verdade é que não chega praticamente nada à Assembleia da República.
Não está solidária com Luís Montenegro quando diz que não é possível fazer tudo em três meses?
Eu compreendo que seja difícil fazer tudo em três meses, mas também ninguém está à espera que o governo faça tudo em três meses. Mas o governo optou por fazer anúncios com um conjunto alargadíssimo de intenções, de medidas, daquilo que quer fazer. Mas depois ele apresenta-as por iniciativa própria, ninguém lhes pediu que apresentassem tudo e mais alguma coisa, mas o governo entendeu que o devia fazer. Só que depois há, de facto, aqui uma diferença entre aquilo que é o apresentado e aquilo que depois é materializado na prática. E é essa materialização.
Não estão a chegar ao Parlamento as medidas do governo, é isso que está a dizer?
Não.
Mas tem uma visão mais negativa face, por exemplo, a João Cotrim Figueiredo, que até indicou ali que o PSD estava a ir nalgum caminho de pedir ao encontro daquilo que a IL pensa para o país. O próprio Rui Rocha não deixou muitas críticas no discurso de ontem. Ou seja, há aqui margem para trabalhar, para pensar, por exemplo, em votar favoravelmente o orçamento de Estado e ter lá medidas ou nem por isso?
Não, claro que há essa margem. Aliás, neste conjunto largo de intenções que têm sido apresentadas, muitas das quais são inclusivamente medidas que nós, a Iniciativa Liberal, temos defendido de forma muito acérrima nos últimos anos. E, portanto, sim, está a ir ao encontro daquilo que nós sentimos que é o caminho que é necessário ser percorrido para promover as mudanças que são necessárias para o país e que, em última instância, vão ser benéficas para as pessoas. Portanto, não sei ainda qual é que será o nosso posicionamento relativamente ao orçamento do Estado, até porque não conhecemos o documento.
Mas tem a expectativa de conseguirem impor algumas ideias da Iniciativa Liberal, mesmo sem ter os votos decisivos para viabilizar.
Até porque nós vamos continuar a apresentar, como sempre apresentámos em todos os orçamentos do Estado, propostas, inclusivamente em governos anteriores do próprio Partido Socialista ou suportados pelo Partido Socialista. Conseguimos ver algumas propostas aprovadas, portanto, temos toda a expectativa de apresentar essas medidas e que algumas delas sejam aprovadas.
E de não ficar à margem de uma negociação que a AD terá que fazer.
Sim, claro.
Que é minoritária.
Mas vamos apresentar as nossas propostas, independentemente da negociação ou não, é um direito que temos para o fazer na Assembleia da República e com a expectativa, obviamente, de algumas delas serem aprovadas. Mas aquilo que eu estava a dizer é, apesar de algumas destas intenções do governo irem ao encontro daquela que é a visão da Iniciativa Liberal, sendo que em algumas matérias menos ambiciosas do que nós gostaríamos, aquilo que está a faltar é exatamente essa materialização, que é para começarmos a ver, de facto, as coisas a mudar, e é isso que não temos visto até agora.
Na Assembleia da República. Veremos depois do Estado da Nação se melhora esse ritmo do governo. Mariana Leão, muito obrigada pela disponibilidade para se juntar a nós. Nós voltamos aqui à Convenção da Iniciativa Liberal dentro em breve, até porque para breve também Rui Rocha vai encerrar esta convenção. Nós estaremos aqui para acompanhar esse discurso de encerramento e também para uma análise destes dois dias de trabalho.