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Cimeira da Indústria que decorre até ao final da tarde aqui no Teatro Circo em Braga. "O Observador" é o organizador desta cimeira, em parceria com a Associação Empresarial do Minho. Nos próximos minutos vamos olhar para o futuro, para as tendências. Luís Dinis, diretor de Strategy and Program Delivery Portugal da Tabaqueira, é o próximo convidado desta emissão da rádio Observador. Luís, bem-vindos.

Olá, tudo bem?

Luís, faz parte da cimeira. De manhã, fez uma comunicação ou participou num painel sobre tendências decisivas. Grande caderno de encargos este. Tendências decisivas. O que vai decidir o futuro da indústria nos próximos anos, Luís?

Há várias tendências.

Deixa-me começar. Inteligência artificial.

Essa, sem dúvida. Hoje em dia, a inteligência artificial, quase em qualquer tópico que a gente discuta, acaba por surgir e é uma grande tendência que a todos nós nos preocupa, uma vez que sabemos que é uma grande mudança e uma grande oportunidade, é a forma como eu acho que nós devemos olhar para a inteligência artificial. Fala-se hoje em muito em adoção e como é que as empresas e a indústria está a adotar ou não. Eu acho que é uma oportunidade belíssima para as empresas, mas até o próprio Estado olhar para a forma como gerar valor. Acho que aquilo que vai diferenciar as empresas que vão ser bem-sucedidas daqui para frente é a forma como elas vão utilizar a inteligência artificial para a criação de valor. Olhando para um caso muito simples, por exemplo, do setor público, se nós tivermos um processo de licenciamento em que nós vamos fazer uma transcrição de todo o processo de forma digital e auxiliado com ferramentas de inteligência artificial, isso é uma coisa. Nós devemos é olhar, pegar na inteligência artificial e de que forma é que a inteligência artificial nos pode mudar até a forma como nós temos todo o processo desenhado e de que forma é que nós conseguimos, por exemplo, neste caso do setor público, gerar mais valor para os cidadãos, ser mais céleres, mais rápidos, dar feedback.

Por exemplo, ser mais do que um consultor ou um colaborador, mas ser um agente que toma decisões.

Também, mas ser um agente que nos ajuda nesta forma mais estrutural, ou seja, a forma como as empresas e o setor público geram valor. E acho que a inteligência artificial tem todo o seu potencial aí, não só nesta parte de adoção, de só olharmos para estas atividades de baixo valor acrescentado, que se fala muito, e passarmos um pouco para a inteligência artificial. Acho que tem um potencial ainda melhor se nós olharmos de uma forma mais lata. Mas sem dúvida é uma tendência aí.

É uma tendência. Que outras tendências vão marcar o futuro, Luís Dinis?

Ainda há pouquinho, na intervenção anterior, eu falava com o António

António Bragança, da CPBC.

Exatamente, da CPBC. Um dos grandes pontos de interrogação que temos olhando para o futuro é qual é que vai ser a evolução do contexto geopolítico atual e que implicações é que eles têm, na realidade, para nós, Portugal, para a Europa.

Não podemos fazer nada, senão ser espectadores passivos.

Sim, mas por exemplo, nós podemos claramente tomar algumas decisões que nos reduzam, por exemplo, a exposição externa, que nos torne um pouquinho mais resilientes. Olhando para o setor da energia, nós, felizmente, Portugal, estamos numa boa posição. Comparamos muito bem com o resto da média europeia, porque houve investimento elevado, por exemplo, nas energias renováveis, que não começou agora, começou há 20 anos. E nós agora estamos a colher esses frutos.

Frutos desse investimento de muitos anos.

Certo, mas da mesma forma como a inteligência artificial, para nós colhermos os frutos, vamos ter que investir.

Tem que estar no topo da corrida. Na frente do pelotão.

Outra coisa que nós podemos fazer é claramente olharmos para as pessoas, para o capital humano, como falava hoje o primeiro-ministro na sessão de abertura. Olhar para o nosso capital humano, capacitá-lo e prepará-lo com competências que certamente serão críticas para o futuro. Estas dimensões, que têm mais power skills ou soft skills, como falava o querido António, nomeadamente o pensamento crítico, por exemplo, tudo aquilo que a máquina nos vai dar, nós temos que ter a capacidade de desafiar. E eventualmente perceber o que é que não está lá e deveria estar.

Hoje em dia é dramático. Nesta era da desinformação, ter pensamento crítico pode ajudar a fazer a diferença.

Sem dúvida. Portanto, pensamento crítico, a colaboração, que é algo que é crucial, a própria criatividade. Tudo isto são elementos que nós devemos começar a apostar agora, porque a verdade é que nós vamos ter, começando agora, nós vamos ter o fruto ou vamos colher os frutos muito mais para frente.

Luís Dinis, Portugal tem condições para se posicionar como um player industrial de futuro no contexto europeu?

Tem.

Aqueles países que contam.

Sim, nós temos agora tendências, dado o contexto geopolítico, em que nós nos temos aproximado às cadeias de valor, daquilo que em franco se chama nearshoring. Portanto, nós queremos ter as cadeias de valor mais próximas do local, basicamente onde ela é consumida.Parecendo que não, tem tido imensa estabilidade institucional, o que é algo fantástico, e tem um posicionamento na Europa, que o abre para uma posição única para África e América Latina. Portanto, nós temos uma posição única.

Estamos geograficamente de costas para a Europa, aqui no cantinho.

Certo.

Frente para o mundo através do Atlântico, é isso?

Certo. E esta posição, parecendo que não, que é periférica e que nós historicamente temos dito que tem jogado contra, a nosso favor, no contexto atual, eu acho que pode ser uma mais-valia. É uma vantagem. Aliás, temos visto nos media alguma intenção de algumas empresas, players mundiais, de fazerem investimentos avultados, precisamente por causa desta localização geoestratégica.

Podemos estar a repetir o que aconteceu no século XVI, não é? Em Portugal, final do século XV, início do século XVI, a virarmos para o mar e a garantir o nosso futuro. Luís Diniz é diretor da Tabaqueira, que é uma empresa que integra um grupo internacional, que é a Philip Morris. O que dizem os seus parceiros de grupo em relação a Portugal? O que distingue Portugal? Que mais-valias tem o país em relação aos outros?

Vou dar o meu exemplo. Eu estou a chegar de quatro anos na Holanda. Eu estive lá a trabalhar para a Philip Morris, para a nossa afiliada holandesa, aliás, para o Benelux. Regressei há dois, três meses. Algo que é distintivo em Portugal é a paixão e o commitment das nossas pessoas, a qualificação que nós conseguimos encontrar. Nós temos imenso talento em Portugal. Aliás, o meu diretor-geral, o Marcelo, é argentino, está conosco há cinco anos. Ele está sempre a dizer, quase a atirar para a cara, que Portugal tem imenso talento. Isso é algo que é distintivo. Tanto é assim que, olhando para o footprint da Tabaqueira hoje em dia, nós deixámos de ter uma base apenas industrial e de comercialização para termos polos basicamente de serviços globais, nomeadamente o IT Hub, que com 240 engenheiros fornece tecnologia para todo o grupo. E, por outro lado, temos também serviços globais sediados em Albuquerque, no âmbito financeiro, sustentabilidade e também estratégia. Se nós não tivéssemos acesso a este talento, mais este soft skills que eu referi há pouco, que são muito vincados aqui, e eu tenho a comparação com outra realidade interna, que são muito distintivos e únicos, certamente nós não teríamos este investimento da Tabaqueira ou da Philip Morris Internacional aqui baseados em Albufeira.

Com tanta coisa boa, tem que mandar um e-mail pra Holanda dizer para virem todos para cá investir em Portugal.

Isso eles querem.

Querem mesmo? Isso vai acontecer? Vão reforçar o investimento cá?

Não, estava brincando. Os holandeses gostam muito de Portugal.

Gostam.

Mas mais para a forma.

Nós temos aquilo que eles nunca vão ter, que é o sol. Talvez daqui a muitos milhares de anos.

Sol, boa comida, entre outras coisas.

Luís Diniz, muito obrigado, agradeço-lhe.

O prazer foi todo meu. Muito obrigado.

Luís Diniz, diretor de Strategy and Program Delivery Portugal da Tabaqueira, à conversa aqui no Teatro Circo em Braga, no dia em que o Observador organiza a Cimeira da Indústria. Até já.