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Temos conosco um convidado muito especial e vou explicar por quê. É que Joe Salgado é o único sobrevivente português daquele dia que faz hoje 25 anos. Estava no 47º andar da torre norte, trabalhava num banco, no First Union, e virou à direita em vez de virar à esquerda e, portanto, conseguiu escapar. Joe Salgado, muito obrigada por estar conosco. Obrigada por vir ter conosco aqui a este café tão português. O que se lembra daquele dia? E eu sei que a sua memória é muito vívida desse dia. Lembra-se muito bem desse dia. O que se recorda daquela manhã pelas oito e pouco da manhã?
Bom dia a todos. Lembro-me que o dia era uma terça-feira. Acordar, andar para chegar a Nova York, Nova World Trade Center, apanhava o trem que é chamado PATH Train. E o dia era um dia maravilhoso. Não havia nada mal no dia, era um dia lindo. Era um dia normal pra gente. Chegamos lá como outro dia qualquer, começamos a trabalhar. Eu sempre chegava a trabalhar sete e meia, oito horas, dependia do trânsito, mas era o meu horário diário. Era um dos managers do banco e eu, como manager, sempre queria chegar lá antes do pessoal, para dar o apoio a eles e ir pra frente. Mas de manhã era um dia maravilhoso. Azul por toda a parte. A gente tinha uma vista da Estátua da Liberdade, linda. Era de manhã o que me lembrava mais de tudo.
E depois deu-se o atentado.
Eu estava numa reunião às oito e meia com a patroa e tivemos a reunião numa conferência com a gente de North Carolina, onde estava o headquarters do nosso banco. Normal, mas aí a gente ouviu, sentiu o impacto que entrou e a gente realmente não sabia o que era, mas o prédio balançou três vezes, à esquerda, à direita e à esquerda e depois ficou parado. A gente não sabia o que fazer. Eu saí do escritório da patroa, quando estava lá, a gente estava juntos lá, e eu chamei pela Port Authority, pra ver se a gente sabe o que tem que acontecer e o que é que a gente faz ou não faz. Sinceramente, infelizmente, eles não sabiam e daí a passar de quatro ou cinco minutos, a gente decidiu: "Ok, vamos embora, há que fechar o escritório e começar a descer pelas escadas". A gente dividiu-se em dois grupos, 10 ou 12 pessoas foram pra uma escada, outros 10 ou 12 foram pra outra e começamos a descer. Mas nessa altura, a gente ainda não sabia o que tinha acontecido, sinceramente. A gente pensava que talvez podia ser um avião pequeno, um helicóptero, a gente não percebeu o impacto de tudo. E a partir daí, começamos a descer as escadas. Chegamos mais ou menos no andar 22 e aí que a gente começou a ver e ouvir mais barulho, porque foi o impacto do segundo avião que bateu a torre.
Na torre Sul.
Exato, na Sul. E aí é quando a gente começou a ficar mais nervoso. E nessa altura é quando a gente começou a ver mais bombeiros a subir pra cima, todos carregados com tudo que eles levavam pra cima, e a gente ver para eles e dizer: "Oh my God, espero que eles estejam bem". Mas aí é quando a gente começou a andar mais um bocadinho, pensar que a coisa está mal. Os telefones celulares não estavam a trabalhar muito, então a gente não recebia todas as informações. A descer, daí a 20 e tal minutos mais, a gente chegamos ao primeiro andar. E no primeiro andar estava tudo desfeito, cheio d'água, o sistema d'água do sprinkler, pra apanhar o fogo, estava a trabalhar, os elevadores que estavam embaixo já não estavam a trabalhar. Ajudei uma amiga, colega, a sair e, por acaso, uma gentinha que estava lá, meteram numa cadeira de rodas e meteram-na numa ambulância e elas saíram. E nós decidimos sair à direita.
Por quê? Por que decidiram virar à direita?
Sinceramente, hoje em dia, não sei por quê. Eu penso que eu saí à direita porque a gente meteu a colega e ela saiu com tempo e eles foram pra esquerda. E a gente: "Vamos sair por lá. Não quero ir atrás deles e ficar atrás deles". Foi o meu pensamento nessa altura, realmente, mas para saber 100%, não sei hoje em dia. Foi 10. E a partir daí, a gente saiu, saí com dois colegas, saímos pelas portas e olhamos pra cima, cruzamos a rua e foi quando a segunda torre, a norte, começou a descer e a cair. Ouvimos o barulho e depois a gente é que começou a correr pela rua o mais rápido possível. Ficamos Sem ver nada por uns 10 ou 15 minutos e a partir daí apareceu um polícia ou um bombeiro, não me lembro, com uma garrafa d'água, deu a gente, a gente meteu pela cabeça, limpamos os olhos pra ver e conseguimos andar. Chegamos a Brooklyn, andei uma hora e tal, hora e meia de andar, e quando chegamos já era 11 e tal. E foi a primeira vez que eu liguei pra casa pra dizer à família: "Estou bem".
Eles não souberam durante esse tempo todo, não souberam se o Joe tinha conseguido sair ou não?
Não, ninguém sabia. Quando cheguei à casa, me contaram. Eles já tinham ligado, porque estavam vendo tudo na televisão. Eles ligaram pro meu escritório, conseguiram falar com colega minha, eu tava no telefone a tratar de falar com o Port Authority. E eles ouviram-me, mas não conseguiram falar. E só aí, às 11 e tal, quando cheguei a Brooklyn, entrei e peguei no telefone, havia que meter uma moeda antigamente, e cheguei a ligar pra casa pra dizer: "Olha, estou aqui, vou tratar, andar e quando vou chegando, já posso chamar e dizer: 'Olha, a ver se vocês podem chegar na parte de New Jersey pra apanhar-me'", porque os carros não andavam, o trânsito estava parado em tudo.
Como é que foi pra casa? Como é que conseguiu chegar à casa?
Andar sempre. Quando chegamos a Staten Island, houve uma carrinha, um moço que parou, viu a gente que estava todo coberto com tudo cheio que a gente apanhou e perguntou onde é que a gente ia. A gente falou: "Vamos a New Jersey". Ele apanhou-os, levou-nos até onde ele podia pra passar a ponte do Goethals Bridge. E a cruzar aí é que a gente, tava a minha esposa à espera, a mulher apanhou-nos e tava um colega conosco, fomos levar ele primeiro, depois às 9h é quando eu cheguei à casa, por fim. E eles aí, quando começaram a me contar o que eles sabiam, o que ouviram, porque realmente a gente não tinha informação pra nada. Só olhava pra trás e já não via a torre, só via o fumo. E era só: "Passou isto, passou outro. O avião em Washington tinha caído. Coisa assim. Vai meter uma bomba na ponte, é que escapar desta ponte". A gente realmente não sabia o que ia passando.
Quando conseguiu ligar pra casa e dizer que estava bem, qual foi a reação lá em casa?
A primeira reação foi: "falei com colega teu". Depois liguei outra vez, não havia contestação. E depois havia uma gratidão que estava cá, que ainda podia falar com todos. Um relief.
Um alívio.
Exato, um alívio muito grande. E a partir daí, o meu irmão, a minha irmã, a mãe tava de férias, tinha ligado pra casa e falou com a mulher a dizer: "Ele tá em caminho". Mas sabe, as mãezinhas não acreditam em ninguém. Eu só consegui falar com ela quando cheguei à casa. Mas era um alívio tremendo pra toda a gente. Mas eu, sinceramente, não sabia o impacto do que é que aconteceu, o que é que não aconteceu, até chegar à casa e aí é quando comecei a me informar.
Eu sei que hoje não vai estar no memorial aqui em Newark, exatamente é um memorial às vítimas portuguesas, mas também aos heróis que trabalharam como primeiros socorristas. Mas já fez a sua cerimônia hoje.
Hoje de manhã chamei vários colegas que estávamos juntos esse dia no escritório, falamos, falei algum ontem à noite. Hoje à tarde, depois do trabalho, vamos nos juntar e celebrar que a gente está cá, número um. Número dois, também fazer uma memória do pessoal, que a gente perdeu quatro colegas de trabalho, mas não só os quatro colegas, todos, toda a gente. E apoiar-nos um ao outro e apoiar a toda a gente que estamos à nossa volta também, especialmente a família e amigos.
Não vai ao Ground Zero. Por quê?
Hoje eu não vou porque a gente foi no aniversário número 10 e número 20. E infelizmente, já faleceram 13 colegas. Então, falando com outra malta que estávamos juntos, fizemos um voto, se a gente queria fazer outra coisa e a maioria não queria ir. Era muito choque pra eles, muito, sinceramente. Especialmente três ou quatro moças que ficaram bem chocadas. Toda gente tá chocada, mas eles ficaram. Então, tá bem, a gente vai fazer individual, não há problema nenhum e vamos pra frente. Pessoalmente, eu vou ao Ground Zero várias vezes e também não só isso, a gente também vai ao museu. Eu adoro ir ao museu. A gente meteu lá várias coisas que estão lá. Um dos meus colegas foi uma das últimas pessoas a sair do Ground Zero e ele é um dos empregados que trabalha lá no museu.
O museu é um sítio especial pra ir, mas não nesta data.
Exatamente. Não hoje. Hoje eu acho 25 anos é uma data muito especial, então a gente decidiu fazer coisas individuais.