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Estamos de regresso a Aveiro, ao RAIZ, Instituto de Investigação da Floresta e Papel, e estamos a fazê-lo precisamente neste que é o Dia Mundial da Floresta. Estamos também já em plena primavera. Começou ontem, às 21h01. A um reflorescer da natureza. Comigo, durante os próximos minutos, está a Catarina Gonçalves. Catarina, muito obrigado por se juntar aqui a nós nesta emissão da Rádio Observador. É investigadora em pragas e doenças florestais. Vamos falar um bocadinho destas questões. A floresta portuguesa tem pragas e doenças que são mais identificáveis com a nossa realidade?

Sim.

Quais são?

Cada tipo de árvore tem as suas pragas e tem as suas doenças e, desse ponto de vista, diferentes espécies vão ter características próprias. Para além disso, a nível das ameaças biológicas à floresta, temos que lidar com a questão das espécies invasoras, de plantas invasoras, como as acácias.

Como é que esse trabalho é feito? Porque hoje em dia caminha-se para, se possível, uma total ausência de produtos químicos no tratamento destas pragas. Isto já é possível de fazer também por meios biológicos?

Pode, sim, senhor, ser feito e deve ser feito, e onde nós investimos mais é precisamente no que nós chamamos a luta biológica. O que é a luta biológica? É quando nós usamos um organismo vivo, que chamamos o inimigo natural, um organismo benéfico, às vezes como as pessoas chamam, nos termos mais do dia a dia, um bicho bom, que usamos para controlar os organismos que são prejudiciais, que são as pragas.

O eucalipto, qual é a principal praga que tentam combater, por exemplo?

Nós temos trabalhado muito, nos últimos anos, com o gorgulho do eucalipto.

O que é que isso faz à árvore propriamente dita?

O gorgulho é um inseto, como diz o nome, é um gorgulho, como o gorgulho do feijão, que se alimenta das folhas do eucalipto. Portanto, ele consegue destruir completamente a copa do eucalipto. O eucalipto simplesmente seca, fica completamente comido e a produtividade do eucaliptal fica seriamente comprometida.

Como é que isso se combate?

Há várias formas de combater. Pode-se selecionar eucaliptos que sejam menos afetados. Há, de facto, a possibilidade do uso dos inseticidas, mas a nossa aposta aqui é precisamente a tal luta biológica. Ou seja, o eucalipto não é nosso, é australiano. As pragas que o atacam também não são nossas, são específicas do eucalipto e, como tal, são australianas.

Podiam ter ficado lá essas pragas, na Austrália.

A quem o diz. O eucalipto esteve em Portugal muitos anos sem problemas, era fantástico.

Para questionar se isto vai mudando ciclicamente, se as alterações climáticas têm que ver alguma coisa com novas pragas que vão surgindo, pragas que existem agora que poderiam não existir há alguns anos atrás.

Aqui a questão principal para o aparecimento das pragas será mais o acumular com o trânsito global. Circulação de bens e de pessoas, vão-se acumulando as pragas exóticas, novas em Portugal. As alterações climáticas têm o grande problema de, como nós não conseguimos verdadeiramente prever como é que isso vai afetar a fisiologia da planta, a ecologia das espécies, deixa-nos sempre um pouco sem saber qual é que vai ser o passo seguinte, qual é que vai ser a praga que vai ficar mais grave ou, eventualmente, até pode haver alguma praga que fique menos importante. Mas a imprevisibilidade eu acho que até é a parte mais complicada.

Como é que se olha para uma floresta portuguesa, que tem muito eucalipto, obviamente, mas tem outras espécies também. Como é que se olha para esse cuidado que é preciso ter, porque, não sei se isto faz sentido o que vou dizer, mas às vezes podemos estar a tentar combater uma praga e a criar uma outra, porque há um determinado bicho que entretanto se tornou invasor. Isso acontece na floresta portuguesa?

Na floresta portuguesa, temos a tranquilidade de dizer que não. Por quê? Como estamos a falar de espécies exóticas, todo este complexo é um complexo de espécies exóticas, australianas. E há, no imaginário coletivo, a memória de muitas asneiras que se fizeram no passado e introduções que não deviam ter sido feitas.

Isso já aconteceu, não é?

Já aconteceu. Há muitas histórias, por exemplo, a introdução do coelho na Austrália, é uma introdução ao contrário e fomos nós que demos aos australianos um problema, do ponto de vista ecológico.

Tornou-se uma praga.

Tornou-se uma praga.

Ok.

Sim. Neste caso, das plantas australianas. Portanto, quando nós estamos a fazer luta biológica, quando estamos a introduzir um inseto, por exemplo, tipicamente trabalhamos com insetos, temos que ter total certeza de que aquele inseto só vai atacar o organismo que nós queremos combater. Imaginem que introduzimos um inseto para combater outro inseto. Ele era tão eficaz, que ia levar à extinção da praga. Nós temos que ter a certeza que, na ausência da praga, aquele inseto, que é nosso amigo, não vai encontrar condições para atacar mais nada.

Isso acontece com a vespa asiática, que tanto se fala, ou não?

A vespa asiática é um caso diferente. Neste caso, a praga é a espécie invasora que entrou em Portugal e que está muito descontrolada.

Tem impactos na nossa floresta?

Tem, de forma indireta, através da apicultura, porque a vespa asiática ataca abelhas.

As outras.

Sim, ataca as abelhas, ataca os apiários, as colmeias e, como tal, está a ter um impacto grande sobre os apicultores.

E as abelhas não asiáticas são mais amigas da floresta?

As abelhas não asiáticas estão em equilíbrio. É tudo uma questão de equilíbrio ecológico. À nossa volta, até no vaso que nós temos no nosso apartamento, há um ecossistema que está em equilíbrio. Temos as plantas, depois temos os bichinhos que comem as plantas e depois temos os bichinhos que comem os bichinhos que comem as plantas e há equilíbrio. O problema está quando entra uma espécie nova e que não tem nada que a controle, então ela prolifera descontroladamente e ficamos com uma praga, ficamos com uma espécie invasora.

Há algum desses bichinhos mais preocupante nesta altura para a floresta portuguesa?

Para o eucalipto, temos uma praga muito recente, que se chama traquímela, que é um inseto que come as folhas e que estamos neste momento a braços com uma situação em que temos muito ataque por esta praga e não temos um inimigo natural ainda identificado, que nós tenhamos ideia de que seja eficaz. Estamos neste momento a tentar encontrar na Austrália, precisamente. Só que imagine que uma praga que está a ser gravíssima em Portugal, na Austrália é uma espécie raríssima. Por quê? Porque temos que ir encontrar quais é que são os nossos amigos australianos que podemos trazer para cá para nos ajudarem.

Esse trabalho é muito interessante. A Catarina Gonçalves é investigadora em pragas e doenças florestais. Não queria deixá-la ir embora sem satisfazer uma curiosidade pessoal. Por que é que nos últimos anos, em nossas casas, há tanta mosca da fruta?

Olhe, eu realmente não lhe sei responder.

Mas é algo que nos últimos anos muita gente se queixa. Nas nossas casas temos aquele bicho da fruta.

É uma mosquinha.

É uma mosca.

E depois ficam os casulinhos na fruteira.

Talvez a Catarina consiga desenvolver ou investigar um outro inseto que trate desse nas nossas casas.

Eu acho que é um bom desafio.

Catarina Gonçalves é investigadora em pragas e doenças florestais. Muito obrigado por ter vindo a esta emissão especial da Rádio Observador. Daqui a pouco, aqui no Raiz, vou receber o Alexandre Gaspar, é coordenador de desenvolvimento de novos negócios do Raiz. Vamos tentar saber que novos negócios são esses. Até já.