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Muito bom dia, Manuel Alegre. Obrigado por aceitar o nosso convite para estar aqui conosco nesta emissão especial na Rádio Observador, a propósito desse momento também difícil para si, a morte de Jorge Sampaio. Já hoje disse ou escreveu, além desse ponto de vista mais pessoal, que também Jorge Sampaio foi o presidente que melhor exemplificou os poderes de um presidente. O que quer dizer com isso? Até porque o próprio Manuel Alegre foi também alguém que concorreu à Presidência da República. Foi com muito agrado que viu os dois mandatos de Jorge Sampaio?
Ele tinha uma noção muito correta e muito ponderada do que era o semipresidencialismo. E com dois atos provou o que era o exercício dos poderes presidenciais num quadro do semipresidencialismo. Primeiro, não dissolvendo a Assembleia, contra a vontade dos seus amigos e dos seus apoiantes, num ambiente, aliás, muito tenso, e nomeando Pedro Santana Lopes, porque havia uma maioria na Assembleia da República que o sustentava. Quando saiu do MEJ, de que tinha sido um dos fundadores, com o grupo a que chamava o GIS, teve um papel muito importante em aliança com o Partido Socialista e com o grupo dos Nove na consolidação da democracia e depois no Partido Socialista, destacando-se imediatamente e subindo depois a secretário-geral numa situação muito difícil. Foi pena que as circunstâncias não lhe fossem favoráveis, porque acho que ele poderia ter sido, e seria com certeza, um excelente primeiro-ministro. Mas recordo também o momento numa reunião da Comissão Política do Partido Socialista, em que ele veio ter comigo e disse: "Vou tomar uma decisão muito importante, não te posso dizer qual é, mas em nome da nossa amizade e dos combates que travamos, peço que votes a favor." Essa decisão foi a sua candidatura à Câmara de Lisboa, que representa uma viragem na vida política, porque é a primeira vez que há uma aliança de esquerda e que há uma nova visão para a Câmara de Lisboa. Enfim, foram muitos momentos. Nem sempre estivemos do mesmo lado. Muitas vezes não estivemos do mesmo lado, mas estivemos sempre do mesmo lado no que respeita ao combate pela liberdade e à defesa dos valores da democracia. E ele tinha também uma visão moderna e uma visão cosmopolita da democracia. Ele sabia línguas, não só o francês, que todos nós falávamos bem nessa altura, mas o inglês.
Aliás, hoje há um site, um jornal que faz um título que é: "Jorge Sampaio, o homem que tocava piano e falava inglês."
Sim, falava inglês e tinha até jeito pro teatro. Ele até tinha jeito pra o teatro e para representar. Fazia muitas coisas. Mas tinha uma visão de um Portugal aberto ao mundo, tinha uma visão estratégica das relações externas de Portugal, não uma visão paroquial de um país fechado em si mesmo, nem politiqueira. Ele tinha esse perfil, mesmo quando éramos novos, ele tinha esse perfil mais britânico, digamos assim. E que era, no fim ao cabo, o perfil de um estadista que se estava a formar e que ele mostrou que era depois quando exerceu esses cargos.
E isso conferia a ele também um ar um pouco mais circunspecto?
Não, ele era uma pessoa muito bem-educada. E boa educação num sentido amplo, que passa também por uma certa contenção e pela discrição. Tinha uma certa aristocracia de comportamento nas suas relações pessoais que faziam dele uma pessoa especial nas relações com os outros. Como digo, não me lembro de nenhum combate político importante em que não tivesse havido um contato. Muitas vezes de acordo, outras vezes em desacordo, mantendo sempre uma amizade fraterna. A última mensagem que recebi dele foi em resposta aos parabéns que lhe dei pela vitória do Sporting, em que ele me agradeceu.
Já falamos também desse lado de sportinguista e alguém que acompanhava de perto a realidade do clube. Manuel Alegre, deixe-me só perguntar-lhe para finalizar a nossa conversa. Há pouco falávamos também dessa história que ambos têm em conjunto. Conheceram-se há mais de 60 anos. A minha pergunta há pouco ia nesse sentido, quando lhe perguntava se vislumbrava esse futuro para Jorge Sampaio, ia neste sentido, que é: percebeu logo que era alguém com quem poderia contar para o resto da vida nesse momento, nas várias lutas que foram tendo dois homens de esquerda bem conhecidos da sociedade portuguesa?
Sim, nessa altura, as lutas estudantis abalaram o país. Despertaram muito a consciência, quer entre a juventude, quer mesmo nas classes médias. E houve pessoas que se distinguiram, uns em Coimbra, foi o meu caso e de outros, outros em Lisboa, o Jorge Sampaio, o Eurico Figueiredo, Vítor Hugo Robbins, etc. Mas obviamente que isso criou entre nós laços especiais, laços de confiança e de entendimento, mesmo quando não estávamos de acordo. E a partir de certa altura, a maneira como fomos projetados na vida pública, apesar da clandestinidade, da ditadura, da repressão, etc, criou laços que se entendiam que se iam projetar para além da ditadura, se é que um dia chegássemos a derrubar a ditadura. Porque nós não tínhamos a certeza, nem sabíamos que tínhamos confiança que isso aconteceria, mas não sabíamos quando é que isso aconteceria, nem se estaríamos vivos quando isso acontecesse.
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