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Universal Images Group via Getty

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Antony Beevor: "A Guerra Civil Russa criou o círculo vicioso do medo na Europa. E Rasputin foi fundamental"

O camponês siberiano que se tornou um dos homens mais influentes da Rússia imperial e que contribuiu para a queda dos Romanov é o protagonista do novo livro do historiador. Falámos com ele.

Era alto, tinha cabelo escuro e barba longa. Os olhos eram azuis claros, profundos e penetrantes. A voz era suave a rouca. Era desleixado, mas gostava de se vestir bem. Gabava-se que as suas camisas eram feitas à mão pela própria imperatriz de toda a Rússia. Andava regularmente bêbedo e visitava prostitutas. Em casa, costumava receber as damas da alta sociedade, que tratava com cuidado ou com desdém, dependendo do humor. Tinha fama de ser sexualmente insaciável e foram várias as mulheres que denunciaram terem sido violadas por ele. Esteve envolvido em negócios corruptos e costumava ajudar quem lhe batia à porta em troca de pequenos favores. Mas Grigori Rasputin, o “homem simples, analfabeto, grosseiro”, que se coçava e que costumava cheirar a álcool, era também “um profeta inspirado”, como o descreveu uma das mulheres que com ele conviveu, um homem de Deus que pregava a humildade e o amor entre aqueles que o seguiam e que dava aos outros quase tudo o que tinha.

São estas e outras contradições que, na opinião de Antony Beevor, fazem de Rasputin uma figura tão fascinante. E foi por causa delas que o importante historiador militar britânico decidiu dedicar-lhe o seu mais recente livro, Rasputin e a Queda dos Romanov, que chega às livrarias portuguesa pela Bertrand Editora, quatro anos após Rússia — Revolução e Guerra Civil (1917-1921), publicado em Portugal pela mesma chancela. Os livros estão, obviamente, ligados, mas o interesse de Beevor por Rasputin é muito anterior a qualquer um deles. Em entrevista ao Observador, o historiador explicou que, além da personalidade contraditória e fascinante do camponês siberiano, interessa-lhe estudar o seu papel enquanto conselheiro de Nicolau II e de Alexandra Feodorovna e como a sua influência sobre a família imperial russa acabou por ditar a sua morte, às mãos de um incompetente grupo de conspiradores, e a da própria dinastia.

▲ Título: "Rasputin e a Queda dos Romanov" | Autor: Antony Beevor | Tradução: António Costa Santos | Editora: Bertrand | Páginas: 352

Diz na introdução que sempre se sentiu fascinado por Rasputin. Porquê? O que é que o atrai nele?
Fascina-me como pessoa, como personagem. Como sabe, a maioria dos meus livros falam sobre conflitos que ocorreram no século XX. O meu livro anterior é sobre a Revolução e a Guerra Civil russas [Rússia — Revolução e Guerra Civil (1917-1921)]; então, tratou-se de olhar para trás, para o comentário fundamental de Alexander Kerensky, líder do governo provisório após a queda da dinastia Romanov, segundo o qual não poderia ter havido Lenine sem Rasputin. É importante estudar esta figura, porque a contribuição de Rasputin para o fim da dinastia Romanov é fundamental. E aqui, temos dois pontos principais. Foi a Guerra Civil Russa que criou o círculo vicioso do medo na Europa. Entre esquerda e direita, entre vermelhos e brancos, o medo que conduziu à Guerra Civil Espanhola e à Segunda Guerra Mundial, e que, de uma maneira ou de outra, tem dominado os conflitos desde então. Por isso é que acho que é extremamente importante [estudar Rasputin e o seu tempo]. Também é importante perceber a importância dos boatos, das fake news, porque foi a ideia totalmente falsa de que Rasputin ia para a cama com a imperatriz [Alexandra Feodorovna] que fez com que o czar [Nicolau II] passasse por cornudo e parecesse um homem fraco e complacente. Foi por isso que, durante os tumultos de 1917 — que foram uma revolução de rua genuína, não foram como o coup d’état bolchevique de outubro —, até os oficiais dos regimentos da Guarda Imperial se recusaram a puxar as espadas em defesa do czar. É muito mais fácil fazer uma revolução nessas circunstâncias. Esse foi um dos grandes contributos de Rasputin para a queda da dinastia Romanov.

O que significa que houve mais contributos, é assim?
Exato. Outro contributo importante, muito mais direto, foi que ele e a imperatriz nomearam ministros enquanto o czar estava na frente, no Stavka, o quartel-general. A mais desastrosa foi a de [Alexander] Protopopov, o ministro do Interior, que estava meio louco por causa da sífilis. Ele insistiu em ficar encarregue das linhas ferroviárias [e do transporte e fornecimento de alimentos] e foi precisamente isso que levou à Revolução de 1917, porque as linhas estavam tão caóticas que as locomotivas congelaram no meio daquele inverno terrível e, embora houvesse muitos alimentos naquela altura, nada chegava às cidades, sobretudo a Petrogrado [o nome de São Petersburgo durante a Primeira Guerra Mundial].

Mas voltando à personalidade de Rasputin: cito a famosa frase de Feodor Tyutchev, segundo a qual a Rússia não pode ser compreendida apenas com a mente. Isso é mesmo verdade quando falamos de Rasputin, porque ele encarnava muitas contradições. Era incrivelmente generoso, mas também corrupto. Era arrogante, mas também bastante nervoso. Era espiritualmente inocente, de uma maneira  muito curiosa; no entanto, era extraordinariamente dado à luxúria, para por a coisa de maneira ligeira, porque, na verdade, na sua obsessão sexual, era um violador. É muito interessante como se tornaram tão defensivos na Rússia em relação à reputação de Rasputin. Sentem que, no ocidente, enfatizamos demasiado a sua faceta de camponês siberiano bêbedo e a sua luxúria. Eles, claro, enfatizam mais o seu lado espiritual, algo que, no ocidente, ninguém é verdadeiramente capaz de compreender em relação à Rússia.

Falou das contradições de Rasputin. A Rússia também era, e continua a ser, um país de muitas contradições.
Sim, mas nenhum país é mais prisioneiro do seu próprio passado do que a Rússia. É por isso que a crença de que uma certa crueldade tem de ser visível ainda domina o pensamento militar russo.

Quanto mais lemos sobre a história da Rússia, mais chegamos à conclusão de que pouco mudou?
Sim, sem dúvida. Absolutamente. Está totalmente certa. É impressionante como tendem a repetir os mesmos erros. Sei que muitos países também o fazem. O Reino Unido é definitivamente culpado de o fazer, mas não ao ponto em que a Rússia o faz.

"Em São Petersburgo, dizia-se que Rasputin ia para a cama com as filhas adolescentes [de Nicolau II], o que, mais uma vez, não era verdade, mas foi suficiente para minar completamente a reputação do czar, e foi por isso que o exército, e sobretudo os regimentos da Guarda Imperial, nem sequer ponderaram defendê-lo quando começou a Revolução de Fevereiro. Até os cossacos se viraram contra a polícia."

Rasputin era um simples camponês, nascido numa pequena aldeia da Sibéria, que mal sabia ler e escrever. Não era muito diferente da maioria da população russa daquele tempo. No entanto, conseguiu alcançar o que mais ninguém conseguiu. Como é que podemos explicar o seu sucesso?
Primeiro, o timing. Foi muito importante, e já vou explicar porquê. Mas, primeiro que tudo, temos de nos lembrar que o czar tinha uma grande falta de imaginação. Ele e a mulher já tinham caído nas mãos de um trapaceiro, Monsieur Philippe [um hipnotizador de Lyon que fingia ser médico]. E porque se tinham isolado do resto da sociedade e se mantinham apenas rodeados pela família, tinham uma espécie de anseio por uma pessoa comum que lhes pudesse dizer a verdade, porque desconfiavam dos cortesãos e de todas as pessoas à sua volta. O problema de pessoas como Monsieur Philippe e, depois, Rasputin, é que nunca poderiam dizer a verdade, porque, obviamente, não ganhariam nada com isso.

Em São Petersburgo, Rasputin foi apresentado a um bispo muito importante e, depois, à família real, por intermédio do grão-duque Nikolai [Nikolaevich] e das princesas montenegrinas [Militsa e Stana]. Foi o momento perfeito. Depois da Guerra Russo-Japonesa e das revoltas de 1905, para salvar o trono, o czar foi obrigado a permitir a convocação de uma Duma e, com o Manifesto de Outubro, a libertar-se de certos poderes. Foi uma humilhação terrível. Para ele e para a mulher, o surgimento de um camponês siberiano que achavam que dizia a verdade e que era profundamente espiritual foi uma espécie de dádiva dos céus. E isso foi antes da crise de hemofilia [do único filho rapaz de ambos, Alexei]. É importante não esquecer isso. O poder de Rasputin não aumentou de forma dramática só porque era capaz de aliviar o sofrimento de Alexei, causado pela hemofilia. Existia uma espécie de fantasia Romanov, da qual Nicolau gostava muito — a ideia de que havia uma afinidade espiritual entre o czar e os camponeses. De repente, apareceu Rasputin, o camponês honesto. E o resto é história.

É óbvio que a família real acreditava que ele tinha algum tipo de poder, mas e o próprio Rasputin? Acreditava mesmo que possuía todas as capacidades pelas quais era conhecido?
Vamos por a coisa desta forma: ele achava que era um homem de Deus. Estava convencido disso. E acho que a espiritualidade dele era genuína. Por outro lado, também tinha aquele impulso sexual… Não sei muito bem o que lhe hei de chamar… Algumas pessoas dizem que era uma obsessão. Existem vários relatos de mulheres que dizem que ele tão depressa estava a tentar rasgar-lhes as roupas como de joelhos no chão a rezar, o que talvez não fosse a melhor estratégia de sedução, não sei… Mas também era terrivelmente hipócrita na forma como tratava as mulheres. Se fossem importantes ou pertencessem a uma família importante, no início, era muito respeitador. Mas assim que as seduzia, tratava-as como lixo. Era como um culto e ele era o líder desse culto e explorava-as de determinada forma. Quando a guerra começou, começaram a aparecer-lhe à porta mulheres que lhe pediam ajuda para salvar o filho ou o marido do exército. Rasputin explorava isso de maneira muito cínica — elas tinham logo de ir para a cama com ele e, um ou dois casos, foram literalmente violadas por ele. Se uma das suas acólitas, as mulheres que o rodeavam e que estavam sempre no seu apartamento, se queixasse, nunca mais o viam. Havia uma hipocrisia horrível em Rasputin, sobretudo porque dava a entender que falava em nome dos pobres e oprimidos.

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▲ Antony Beevor: "É importante estudar esta figura, porque a contribuição de Rasputin para o fim da dinastia Romanov é fundamental"

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Também era corrupto. Estava envolvido em vários negócios obscuros com conhecidos charlatães de São Petersburgo. Fala disso no livro.
Sim. Ele atraía pessoas corruptas por causa da influência que tinha na corte. Houve aquele caso do contrato de fornecimento de roupa interior para o exército. Eram  milhares de peças de roupa. Havia muito dinheiro envolvido. Mas ele não era avarento, dava o dinheiro todo. Quando o seu apartamento foi revistado depois do seu assassinato, só descobriram algumas centenas de rublos. Não havia muito ouro. Encontraram vários objetos que eram presentes de aniversário. Aqueles que procuravam o seu favor costumavam oferecer-lhe objetos em ouro, mas ele provavelmente deu a maioria desses presentes. Às vezes, oferecia-os a mulheres. Porque ele podia ser generoso, mas também era um explorador. Era uma personagem um bocado instável e é por isso que é fascinante. Não podemos dizer que fosse inteiramente bom ou mau. Era uma mistura dos dois.

Boa parte do poder de Rasputin provinha da czarina, a imperatriz Alexandra Feodorovna, com quem mantinha uma relação um pouco estranha…
Sim, era estranha. Ela decididamente estava apaixonada por ele, no sentido em que o adorava, mas penso que não houvesse algum relacionamento sexual. Ela era totalmente dedicada ao czar. O problema foi que ela escreveu uma carta, que foi roubada pelos inimigos de Rasputin, em que ela dizia que queria adormecer para sempre nos seus ombros. Muitas pessoas assumiram que existia um relacionamento e foi por isso que o czar perdeu todo o respeito e, mais tarde, o poder. O que é certo é que perdeu a capacidade de convencer os políticos. Na realidade, ele desconfiava tanto e tinha uma antipatia tal pelos políticos que acabou por perder o apoio dos conservadores liberais, que podiam ter mantido a autocracia ou a dinastia Romanov. Mas ele ofendeu-os e tratou-os tão mal que era impossível recuperar o seu apoio. Depois, à medida que a atmosfera se tornou mais revolucionária, aconteceu o mesmo que em França, antes da Revolução Francesa, quando surgiram aquelas fantasias pornográficas com a Marie Antoinette e a princesa de Lamballe [Marie-Therese-Louise de Savoie-Carignan; dizia-se que eram amantes]. Em São Petersburgo, dizia-se que Rasputin ia para a cama com as filhas adolescentes [de Nicolau II], o que, mais uma vez, não era verdade, mas foi suficiente para minar completamente a reputação do czar, e foi por isso, como disse no início, que o exército, e sobretudo os regimentos da Guarda Imperial, nem sequer ponderaram defendê-lo quando começou a Revolução de Fevereiro. Até os cossacos se viraram contra a polícia.

"O poder de Rasputin não aumentou de forma dramática só porque era capaz de aliviar o sofrimento de Alexei, causado pela hemofilia. Existia uma espécie de fantasia Romanov, da qual Nicolau gostava muito — a ideia de que havia uma afinidade espiritual entre o czar e os camponeses. De repente, apareceu Rasputin, o camponês honesto. E o resto é história."

Falou da influência política de Rasputin. Ele tinha, de facto, uma opinião política? Ou limitava-se a repetir as opiniões da czarina?
Muito do que ele dizia era a sua própria opinião. Também nos devemos questionar até que ponto é que ele a influenciou. Acho que trabalhavam em conjunto. Estamos a falar de 1915, quando o czar se mudou para o Stavka e eles ficaram mais ou menos a mandar, o que foi desastroso. Ele tinha as ideias dele, que eram muito semelhantes às da czarina. Rasputin percebeu, de maneira muito acertada, que a guerra com a Alemanha seria terrível para os camponeses, porque, obviamente, seria o sangue deles que seria derramado e seriam carne para canhão. A czarina também estava contra a guerra, em parte por ser alemã [era filha de Luís IV, grão-duque de Hesse e do Reno], mas também porque sabia o quão terrível seria para a Rússia. Curiosamente, o czar tinha a mesma opinião. Não queria a guerra, mas foi empurrado para ela pelos seus ministros, que disseram que a Rússia não podia permitir que a Sérvia fosse humilhada e que tinham de mobilizar os exércitos contra o Império Austro-Húngaro. Mas, quando foi preciso fazer a declaração de guerra, o czar mudou completamente de atitude, porque uma multidão em frente ao Palácio de Inverno se [ajoelhou perante ele e a czarina] e começou a cantar [o hino] “Deus Salve o Czar”. Ele começou a achar que a guerra era maravilhosa, porque unificava o país sob o seu comando. Foi muito ingénuo, tendo em conta que achou o mesmo durante a Guerra Russo-Japonesa e aconteceu exatamente o contrário. Não foi capaz de aprender essa lição em particular, o que foi desastroso. Mas assim que a guerra começou, era quase impossível voltar atrás.

Quando é que Rasputin se tornou um alvo a abater?
Houve uma tentativa de assassinato contra ele no verão de 1914, mas isso não teve nada a ver com política, mas com o facto de o monge Iliodor [antigo aliado de Rasputin] e a sua acólita, [Khionya] Guseva, desaprovarem a sua vida sexual. Mas houve quem tivesse pensado em matá-lo. Houve um ministro do Interior que ficou furioso por não ter sido nomeado primeiro-ministro e quis mandar matar Rasputin. Houve alguém que disse que “a Rússia é uma autocracia limitada por assassinatos”. Foram muitos os grão-duques e czares que foram assassinados com bombas ao longo do tempo, mas, neste caso, foram um grão-duque [Dmitry Pavlovich, primo de Nicolau II] e um príncipe [Felix Yusupov] que levaram a cabo o assassinato. Obviamente, a reação dos camponeses foi que Rasputin tinha sido o único camponês que tinha chegado perto do trono e do czar e que eles o tinham matado. Não acho que, naquele momento em particular, se pudesse evitar a Revolução, mas, se tivessem matado Rasputin no início da guerra, podia ter feito diferença. O problema é que Rasputin ajudava com o czarevich. Para a imperatriz, o que aconteceu em Spała, na Polónia, em 1911, foi um milagre [Alexei esteve às portas da morte e só recuperou depois de receber a visita de Rasputin]. Toda a corte sabia que, a partir dali, seria impossível desafiar o poder dela e o poder dele.

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▲ Rasputin em 1917, rodeado pelos seus seguidores

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Mas teria sido mesmo possível mudar alguma coisa com a morte de Rasputin?
Bom, não acho que fosse por se tratar de alguém com tanto poder e influência sobre uma pessoa em particular. Foi por isso que o assassinato se tornou praticamente o único caminho imaginável, porque o czar se recusava a ouvir qualquer história sobre o comportamento e a vida de Rasputin. Considerava-o um homem santo, que realmente lhe dava bons conselhos. Não quer dizer que ouvisse sempre Rasputin, porque, no que dizia respeito aos assuntos militares, não queria que um camponês lhe dissesse o que tinha de fazer. Mas em relação a tudo o resto na sua vida, sobretudo a vida familiar, e quando estava relacionado com política interna, [escutava o que ele tinha para dizer], porque ele odiava tanto ter de lidar com políticos que preferia passar isso à imperatriz e a Rasputin, e, claro, eles só escolhiam pessoas que lhes eram devotas e não necessariamente dedicadas ao czar.

A história do assassinato de Rasputin é inacreditável.
É ridícula! É uma farsa russa. Quando eles finalmente o matam… Na verdade, foram as balas da arma de [Vladimir] Purishkevich que o mataram, como ficou provado na autópsia. Mas a ideia de atirarem o corpo para dentro de um buraco no gelo, que depois seria levado [pela corrente do rio] para o golfo [de Kronstadt, onde o Neva desagua], é ridícula! Eles compraram correntes pesadas, mas esqueceram-se de as enrolar em volta do corpo. Quando perceberam que se tinham esquecido de as usar, limitaram-se a deixá-las em cima do cadáver. E a história do cão, de terem matado o cão [de Felix Yusupov] a tiro [para disfarçar] o sangue na neve… É ridículo!

E puseram uma mesa com bolos envenenados e Rasputin nem sequer gostava de doces…
O que eles também não sabiam era que o açúcar dos bolos diminuía o efeito do cianeto.

Que se calhar já não estava bom.
O cianeto era provavelmente demasiado antigo. Tudo o que podia ter corrido mal com o plano, correu mal.

Acha que foi a morte de Rasputin que realmente o tornou famoso? Fora da Rússia, pelo menos.
Acho que sim, acho que provavelmente tornou. Apesar de não ser referida na música, acho que eles [os Boney M] sabem muito sobre ele. É fascinante a forma como entrou para o imaginário popular, embora nem sempre com grande precisão. Infelizmente, esse é um dos problemas. Mas definitivamente as pessoas sabem quem ele é.

"A Sra. Thatcher nunca confiou verdadeiramente no Ministério dos Negócios Estrangeiros e quis ter os seus próprios conselheiros. Esse é um dos perigos, sobretudo nas democracias em que os líderes podem ser desviados, e se não ouvirem opiniões externas suficientes e confiarem apenas num ou dois aliados ou conselheiros, isso em si é perigoso. Essa é a lição mais importante que podemos tirar da história de Rasputin."

Em 1918, durante a derradeira viagem para Ecaterimburgo, a família real passou pela aldeia de Rasputin e visitou a sua casa. Foi uma espécie de última despedida.
Sim. Na verdade, ele previu que isso ia acontecer. Ele muitas vezes achava que conseguia prever o futuro, mas não era muito bom nisso. Nesta, realmente acertou. Ele disse-lhes que veriam a sua aldeia antes de morrerem e isso provou ser verdade. Por isso é que começo o livro dessa forma e com o desenho que a grã-duquesa Maria fez da casa [de Rasputin]. É extraordinário que o desenho ainda exista. Ela deu-o à filha dele [Maria Rasputina], que o incluiu no seu livro [sobre o pai].

Ele também previu que, se morresse, a dinastia chegaria ao fim.
Ele dizia isso, pelo menos, desde o início da guerra. Não sei se era de facto uma profecia ou uma ameaça; ou seja, que o que ele queria mesmo dizer era que se o descartassem ou se permitissem que fosse assassinado, isso também significaria o fim do regime. Era uma forma de pressionar os Romanov a tomarem conta dele.

Com o passar do tempo, Rasputin tornou-se numa espécie de personagem. Sinistra e com um olhar aterrador, mas ainda assim uma personagem.
Uma coisa sobre os olhos: sim, é verdade, ele tinha um olhar assustador, mas acho que a voz é que era importante. Infelizmente, não temos nenhuma gravação, mas acho que havia alguma coisa na voz dele que acalmava as pessoas e que fazia baixar a tensão arterial, diminuindo a dor.

O que é que podemos aprender com a história deste camponês que chegou tão perto do poder?
Podemos aprender sobre os perigos dos conselheiros não oficiais. Claro que tinham existido antes, sobretudo em França, por exemplo, o famoso Cardeal Richelieu, que era mais ou menos o éminence grise do rei e que tinha o seu próprio éminence grise, o Padre José. Portanto, o perigo existia. Duvido sempre das comparações históricas, mas a ideia de um conselheiro não oficial é sempre perigosa. Existem muitos líderes que gostam de ter um outsider a trabalhar com eles. A Sra. Thatcher nunca confiou verdadeiramente no Ministério dos Negócios Estrangeiros e quis ter os seus próprios conselheiros. Esse é um dos perigos, sobretudo nas democracias em que os líderes podem ser desviados, e se não ouvirem opiniões externas suficientes e confiarem apenas num ou dois aliados ou conselheiros, isso em si é perigoso. Essa é a lição mais importante que podemos tirar da história de Rasputin.

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