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Nuno Melo, boa noite. Obrigado por se juntar a nós.

Obrigado pelo convite.

Obrigado nós pela sua presença. Como é que se reconstrói um partido neste estado?

Em primeiro lugar, percebendo que o CDS, independentemente de não estar na Assembleia da República, tem hoje ferramentas que outros partidos que estão na Assembleia da República ainda não têm. A rede de autarcas do CDS no continente, nos Açores e na Madeira, os representantes nos governos regionais, nos Açores e na Madeira, a presidência na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, uma delegação no Parlamento Europeu. E se há crença que eu tenho muito profunda, é de que nós, nos próximos desafios eleitorais, e estamos a falar de todos eles, porque teremos eleições regionais nos Açores e na Madeira, teremos eleições europeias, eleições autárquicas e eleições legislativas, se tivermos tempo de o partido se reconciliar com o seu passado, com quadros capazes e ideias nítidas, poderá e deverá voltar à Assembleia da República, desde logo, manter o seu eurodeputado e ser um partido relevante da democracia que ajudamos a fundar.

Nuno Melo acredita que fez tudo o que era possível para que o partido não chegasse a este ponto?

Eu tenho a certeza que fiz tudo o que podia para que o partido não chegasse a esse ponto.

Não tem nenhuma responsabilidade nesta situação, não assume nenhuma dessas responsabilidades?

O que eu lhe digo é que eu quero projetar o partido no futuro e falar para fora e fazer oposição, desde logo, ao PS e às esquerdas. E por isso não vou perder um minuto a fazer avaliações sobre culpas do passado, de quem seja, porque isso não ajudaria em nada o CDS. O que eu quero é, insisto, reconciliar o CDS com sua história, com o seu passado, encontrar os melhores de cada uma das sensibilidades e acreditar, com todos, com ideias, que conseguiremos dar a volta a este momento difícil. E por isso não me interessa nada estar a fazer ajustes de contas, pedir cabeças, estar a fazer balanços sobre quem tem mais culpa ou quem tem menos culpa. Isso não interessa nada.

Nuno Melo, as ideias interessam mais do que as pessoas, mas Manuel Monteiro esteve aqui e deu também um conteúdo programático, digamos assim. Disse que Portugal não podia continuar a viver de subsídios, etc., com algumas nuances quase não diria eurocéticas, mas a lembrar esses tempos. Também falou do Processo de Bolonha, que devia ser revertido. Concorda com estas ideias?

O que eu lhe quero dizer sobre isso é o seguinte: o mais relevante para mim, depois de um ciclo em que o CDS viveu tão virado para dentro, perceber que alguém que foi líder de um partido, aqui chegado, faz um discurso a falar de política, a falar de Portugal, do contexto europeu, agarra o congresso, porque é isso que os nossos militantes, no caso os congressistas, querem. Que se fale de política, que se escutem ideias, mesmo que não sejam partilhadas em todo o sentido por todos nós. Se quer saber sobre aquilo que eu concordo, basta ler a minha moção.

Alguma ideia que o Manuel Monteiro disse ali que possa integrar?

Vamos cá ver. Eu acho que muitas das reflexões que o professor Manuel Monteiro fez hoje aqui nos levam a refletir, independentemente de concordarmos com elas ou não. Há muito no que tem a ver com o contexto europeu, que no pensamento do professor Manuel Monteiro, eu tenho como bom, no sentido de um CDS que é profundamente europeísta, mas acredita numa Europa que é de nações soberanas, que tem o princípio da subsidiariedade como uma vantagem. Aliás, é muito curioso como, mesmo nesse ciclo, quando se discutiu a adesão de Portugal ao euro, e Portugal pediu o referendo a tratados, muito do que na altura argumentamos e foi rejeitado, hoje foi uma constatação de facto, desde logo na sequência da crise das dívidas soberanas, quando a propósito do euro, se chegou finalmente à conclusão daquilo que o CDS dizia na altura, ou seja, com diferentes valores de moedas no momento da adesão, criando à nascença diferentes condições de competitividade dos países, Portugal seria prejudicado. E assim foi quando chegou a crise das dívidas soberanas. Agora diz-me assim: aqui chegados, vamos sair do euro? Claro que não.

Mas o seu CDS é europeísta ou euroentusiasta?

O meu CDS não é eurofrases feitas. O meu CDS tem um pensamento europeu muito estruturado, porque é o resto dos capítulos a que dedico mais atenção nesta moção. Sobre aquilo que deve ser nessa Europa, que é de nações, que reflete sobre a importância do direito de veto dos Estados, hoje em matérias residuais, como sejam os recursos próprios, como seja a política externa, como sejam as questões de cidadania. Eu recordo que o direito de veto nasceu no firmamento europeu, curiosamente, por imposição de um grande país da Europa, da União Europeia, que se chama França. Era presidente da França, de Gaulle, era primeiro-ministro, Giscard d'Estaing, e quando de Gaulle entendeu que os interesses vitais da França não estavam salvaguardados, crise das cadeiras vazias, surgiu o direito de veto. E hoje discute-se o fim do direito de veto. Discute-se, a propósito dos recursos próprios, a possibilidade do lançamento de impostos com uma máquina tributária através de Bruxelas. Discutem-se as listas transnacionais. Vamos ter eleições ao Parlamento Europeu daqui a dois anos e hoje, mesmo dentro do PPE, não faltam delegações que defendem as listas transnacionais. Curiosamente, quer eu, quer Paulo Rangel, estamos contra as listas transnacionais e batemos contra as listas transnacionais no Parlamento Europeu. Ou seja, mais até também a propósito da crise e da guerra na Ucrânia, há um Há uma disponibilidade para se fazerem reformas a pretexto que muitas vezes podem não ser suficientemente sopesadas naquilo que tem a ver com o trajeto futuro do nosso projeto europeu. Por exemplo, sob pressão da guerra, decidir se a Ucrânia deve ou não deve ser país da União Europeia, refletir sobre um alargamento que, eu entendo, deve ser essencialmente justificado nos critérios de Copenhague e, portanto, saber se os países têm condições democráticas, se os países têm instituições.

É contra uma adesão à pressa da Ucrânia?

Sou contra qualquer processo de adesão à pressa, vale para a Ucrânia como vale para a Turquia. Isto para dizer que o CDS é tudo isto, e não se trata de ser eurocalmo ou eurocético. Se quisesse fazer isso numa frase, eu diria eurorealista.

Eurorealista. A Margarida Bento Penedos, se calhar dizer o nome vai irritá-lo. Teve aqui na Rádio Observador e disse que depois de passar por Bruxelas, traz logo essas agendas LGBT, alterações climáticas. Concorda com esta crítica, com esta análise? Foi a Bruxelas e trouxe esta agenda para o CDS?

Eu acho que a pessoa em causa escreve muito bem, não concordo basicamente com quase nada do que diz e do que pensa. Quem não perceba que o mundo evoluiu, quem não perceba que causas como as da sustentabilidade, da economia verde ou da economia digital são causas de hoje e do futuro, não percebe nada do que está a acontecer à sua volta. Quem não entende que os bilhões de fundos comunitários que estão à disposição dos países, têm todos eles, em todos os projetos, indexados uma componente digital ou uma componente ambiental, e acha que isso é uma modernice de que os partidos em Portugal não devem falar, se calhar ajudaria certamente todos nós a refletir sobre muito. Mas eu não vou governar um partido que vai ser o Congresso na base das opiniões com que não concorde. Eu estou muito fixado naquilo que são-

Também chamou pessoas e queria ir aí, porque nós tivemos esse cuidado. Até podíamos ter dado uma novidade, que era: ligámos a todos os quatro que nomeou ali no palco, eu sei que estava a pensar em mais para regressarem ao partido.

Provavelmente não querem agora.

Não, exatamente. Mas todos eles podiam ter dito sim, e pronto, tínhamos uma boa notícia para si, que os quatro voltam. Mas os quatro, de uma maneira ou de outra, três deles disseram que não, outro preferiu não responder, mas nenhum disse que sim. Podemos pôr a questão assim: agradeceram o convite, naturalmente, desejaram as melhores felicidades. Disseram: "Pronto, OK, muito bem, mas conosco, neste momento, não". E não foi só neste momento que disseram não. Talvez o João Condeixa tenha sido aquele que mais se disponibilizou, mas muito claramente, António Pires de Lima e Francisco Mendes da Silva foram claros que não e que não pensam voltar, que são independentes. Isto aqui pode ser um fracasso se não conseguir que estas pessoas voltem, já que elas são boas e úteis.

Vou dar-lhe uma notícia. Se me tivesse perguntado, eu dizia-lhe a resposta deles, porque, como calculará, falei com cada um deles antes mesmo deste congresso, várias vezes. O que eu quero é aqui afirmar, quando alguns dos nossos melhores saíram, o que para mim é uma evidência, não se cresce subtraindo. Menos cresce subtraindo pessoas com talento. Cada uma destas pessoas é uma pessoa com talento e é sinal claro que quis dar para fora, através dos próprios. Quando me diz que não estão disponíveis para voltar, eu sabia disso, mas sei também que estão espiritualmente ainda ligados ao CDS.

E mais tarde podem dizer sim.

No que me impenda, sim.

Mas o que falhou também para não os conseguir convencer?

As pessoas decidiram sair por razão que tiveram sopesada, digamos assim, ponderaram muito bem a decisão e certamente entenderão que não será agora o momento. Não deixam de ser pessoas cheias de talento, pessoas que estão espiritualmente ligadas ao CDS. E o João Condeixa, por exemplo, participou na elaboração da minha moção, quer na área social, quer na área da saúde. O João Condeixa foi uma das pessoas que ajudou na minha moção. E para mim, o que é relevante é mostrar também que um partido moderno, que eu quero que o CDS seja, sabe que a inteligência não se reduz ao nosso universo partidário e, portanto, há pessoas fora como independentes, podem ajudar a transformar a sociedade e o CDS pode ser um instrumento. E é o caso, hoje, essas pessoas são independentes. Olhe, o João Condeixa é independente, não tenciona nem voltar para já, ajudou, colaborou nesta moção.

Quem não é é Paulo Portas. Vem cá amanhã. Que sinal é que é este? Não veio com Assunção Cristas, que até era a sucessora indicada por ele, ou pelo menos na altura quando falaram, julgo que em 2015, 2016, pelo menos preferiu Assunção Cristas a Nuno Melo, pelo menos foi isso que ocorreu na altura, e depois falaram os dois e a Léa que avançou. Nunca veio, desta forma tão ostensiva, participar num congresso com Assunção Cristas, muito menos com Francisco Rui dos Santos, por razões que se reconhecem, e agora vem aqui amanhã votar em si. O que isto significa?

Olhe, em primeiro lugar, sobre as questões da sucessão, saberá muito mais do que eu. Se nesse tempo eu quisesse ser candidato, tanto valia ter ou não ter.

Para o Filipe Lobo Alava era melhor nessa altura do que agora.

Se é para o Filipe Lobo Alava, para mim não é, como quem se candidata sou eu, as coisas são mesmo assim. Vamos falar uma coisa. Eu, a partir do momento em que hoje decidi candidatar-me, se tivesse tido a mesma vontade há alguns anos atrás, tinha-me candidatado, e como hoje, isso não dependeria-

Mas chegou a ter um princípio de vontade, pelo menos.

Não dependeria de apoios expressos, muito embora, obviamente, poder contar com o apoio de alguém como o doutor Paulo Portas não é para mim irrelevante. O doutor Paulo Portas, eu não escondo, é talvez a maior referência que eu tenho do ponto de vista das direções partidárias com que trabalhei e mesmo comparativamente com muitas outras com que não trabalhei. E se puder estar do lado do CDS e quiser estar do lado do CDS neste novo ciclo, na sua vida, mas dando sinais, isso é extraordinário para o CDS. Voltamos à mesma conversa dá há pouco. Quando o CDS liga-se à sociedade e justifica o voto dos eleitores, a partir do momento em que, nomeadamente através das pessoas, dos seus quadros, essa sociedade se revê no CDS. Nós sabemos como a sociedade Percebe, reconhece o talento de pessoas como o Paulo Portas, como o Manuel Monteiro, como muitos outros. Isso é ótimo, perceber que o partido, na sua fase mais difícil, saber que o CDS, na sua fase mais difícil, consegue ter aqui hoje o Manuel Monteiro a discursar. Amanhã, se a sua notícia for verdadeira, está-me a dar uma boa notícia e eu fico satisfeito com isso, quando eu estou o Paulo Portas aqui. Eu fico feliz da vida.

Mas se não tivesse estendido a passadeira a Assunção Cristas, acredita que a história hoje podia ser diferente? Foi essa a crítica que o Lobo d'Ávila lhe fez.

Mas é uma crítica profundamente injusta, porque não é verdadeira. Eu, nesse tempo, não tive vontade de ser presidente do CDS. Ser presidente de um partido tem que ser um ato de vontade muito bem pensado, com muita convicção, porque senão aquilo que nos pode animar passaria a sacrifício. Eu estou muito animado neste momento com as possibilidades. Tenho dito muitas vezes, nomeadamente na nossa conversa há dias na Rádio Observador, eu tendo a não me deprimir com as dificuldades, eu animo-me com as possibilidades. É isso que basicamente me importa.

E se amanhã sair daqui presidente do CDS, vai querer concorrer a todas as eleições ou está a pensar ir buscar umas Cecílias Meireles, como disse no palco, para, por exemplo, umas eleições europeias que estão aí a chegar?

Eu vou querer contar com os melhores que o CDS tenha em cada um dos desafios eleitorais, porque o CDS, ao contrário de muitos outros partidos, é um CDS que sempre foi mais forte quando tinha as tais ideias nítidas e quadros competentes, reconhecidos em cada área setorial. E eu sei que o CDS, quanto mais dessas pessoas consiga chamar para os desafios eleitorais, melhores resultados certamente terá. Eu não tenho nenhuma dúvida disso. E no que me impenda, eu quero, de novo, refazer um freze de credibilidade, ter o CDS como partido de quadros, com pessoas capazes, também independentes, em cada área, a permitirem que através desse talento, o CDS reconquiste um lugar que eu acho que é de justiça e de direito no Parlamento. Claro, o direito conquista-se nas urnas, não é? E teremos esse direito se tivermos os votos. Mas eu acho que realmente, se há justiça nas urnas, o CDS voltará à Assembleia da República desde logo.

E vai levar o mandato em Bruxelas até o fim?

Vou, por uma razão óbvia.

Ia deixar lá o Pedro Mota Soares e vir fazer mais a vida partidária, mas não tinha palco, cá.

Não tinha palco. Vamos cá ver. Se tivesse havido um congresso em outubro e eu tivesse vencido o congresso e tivesse sido eleito deputado à Assembleia da República, obviamente que eu viria para cá e cá faria o essencial da presidência do partido. As coisas são como são, não houve congresso. Não temos deputados à Assembleia da República. O nosso único palco parlamentar é estar em Bruxelas e em Estrasburgo, no Parlamento Europeu. E pode ser palco muito perigoso, porque muito do que hoje nos afeta acontece em Bruxelas e Estrasburgo. É evidente, se eu sou presidente do partido, preciso de palco, não estou na Assembleia da República, aproveitaria aquele que neste momento me é concedido e no qual tento afirmar o CDS todos os dias.

Vem aí, esta pergunta vai ficar, amanhã já está desatualizada, provavelmente. Mas Cecília Meireles, Pedro Mota Soares, podemos ver estes nomes na sua futura direção?

Poderá ver esses nomes nos órgãos nacionais do partido, independentemente desses órgãos, do meu lado, a dar credibilidade ao partido e a lutar pelo partido, com toda a certeza.

Portanto, não será de estranhar se os virmos como vice-presidentes no próximo mandato.

Ou até como presidentes de qualquer coisa, não se sabe. Eu não tenho ainda na minha cabeça fechado. Hoje, no fim deste ciclo, entre hoje e amanhã, o encerramento, se vencer o congresso… Primeiro tem que sair o resultado da moção e tendo já mais ou menos definido.

Mas não vai ter ninguém da direção de Francisco Rodrigues dos Santos na sua futura direção.

Eu fiz vários convites a pessoas, ou alguns convites a pessoas da direção de Francisco Rodrigues dos Santos, que sabem que o CDS, com estas pontes, é uma porta aberta a todos e no momento em que quiserem vir, virão. Neste momento, a disponibilidade, para já, como é normal, também não foi nesse sentido. Mas o que me interessa é dar esses sinais. Eu não acho que o talento lá está também se reconduza apenas à fação A ou B ou à sensibilidade C ou D. Em cada uma delas pode encontrar pessoas que são válidas e com quem eu gostaria de trabalhar. Agora, neste momento, também já tivemos essa conversa há dias, interessa-me as pessoas que tenham disponibilidade, que tenham talento e que estejam de boa fé. E infelizmente, os órgãos são muito pequenos para tantas pessoas como preencheria esses órgãos. O meu drama neste momento é saber que há tantas pessoas capazes que não vão estar nesses órgãos, porque os órgãos são exíguos para tanta gente que quer ajudar a mudar o CDS.