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Bem-vindos. Nas próximas duas semanas, uma equipa de seis cidadãos de várias partes do mundo vai simular como será viver em Marte.
E um deles é Pedro José Marcelino, nascido em Lisboa e que vive há vários anos no Canadá.
Quem é o Pedro?
E o que vai ele fazer nas próximas duas semanas no deserto do Utah, nos Estados Unidos, é o que vamos tentar descobrir na próxima hora.
Eu sou o João Miguel Santos e sou anfitrião da Rádio Observador.
Eu sou a Vera Novaes, sou jornalista no Observador, escrevo sobre ciência e estou a acompanhar a preparação desta missão há algumas semanas. Até 15 de janeiro, o Pedro Marcelino, documentarista da missão, vai contar-nos tudo sobre o dia a dia da tripulação e as experiências que vão desenvolver, como por exemplo, encontrar uma forma de facilitar a comunicação entre a Terra e Marte. Olá, Pedro.
Olá, Vera.
Olá, Pedro. Vais finalmente embarcar nesta missão. Sentes-te nervoso, entusiasmado?
Olá, Vera. Sinto-me entusiasmado, nervoso não, mas com um quê de antecipação e de dúvida relativamente aos próximos 10 dias e, portanto, há aqui algum nervosismo.
Pedro, qual é que vai ser a tua missão nesta experiência científica que vai ter lugar no deserto do Utah, nos Estados Unidos?
A minha entrada nesta missão aconteceu como documentarista e jornalista da missão. A minha função, na realidade, numa tripulação de oito pessoas, inicialmente, era de fazer uma crônica de toda a missão, diária e da missão completa. Ao longo dos últimos dois anos em que temos estado em treino e depois em compasso de espera, por causa de adiamentos sucessivos, nós tivemos várias alterações na tripulação por motivos diversos. Tivemos uma pessoa que não se pôde juntar logo desde o início. A agenda do comandante inicial também mudou e os objetivos profissionais mudaram. Tivemos uma astrônoma que acabou por ter que sair e, portanto, gradualmente, a minha função passou a ser também a função de primeiro oficial. Daí que eu tenha duas funções principais, uma, neste momento, a mais importante, como primeiro oficial, dando apoio à comandante da missão em todos os aspectos logísticos e organizacionais. E depois a minha missão pessoal, que é a original, é documentar aquilo que vamos estar a fazer via multimídia. Vou estar a documentar com áudio, com vídeo e com texto.
E tu não vais ser a única pessoa a contar histórias nesta missão, não é? Segundo sei, terás outra contadora de histórias, embora ela tenha um ângulo um pouco diferente. O que ela vai estar a fazer? Quem é ela e o que ela vai estar a fazer?
Nós temos uma segunda pessoa, que é a artista residente nesta missão. Chama-se Agnieszka Pokryjoka, ela é polaca, vive em Helsinki, e ela trabalha com, dentro daquilo que eu entendo, porque não é evidente, ela trabalha com colaborações com seres humanos e com bactérias. E cria uma história baseada um pouco naquilo que nós, a tripulação, fomos fazendo na missão, mas também aquilo que as bactérias e as culturas que ela vai criando em parceria com a oficial do Green Hub, da estufa, vai criar peças artísticas que descrevam a missão de uma forma bastante diferente da minha, obviamente. E além disso, temos a nossa comandante, que inicialmente entrou como jornalista da tripulação também, e que faz investigação sobre os aspectos de liderança em missões de exploração.
Pedro, como é que tu aterras nesta missão?
Boa forma de o perguntar. Eu diria que o meu início nesta missão foi praticamente por coincidência, mas se calhar nem tanto. Por coincidência, porque simplesmente estava um dia a ver uma coisa qualquer na internet e me apareceu à frente uma chamada para as pessoas se candidatarem a este projeto. Este é um formato que normalmente trabalha mais com instituições, sobretudo instituições de pesquisa e universidades. Normalmente são equipas institucionais e um par de vezes ao ano abrem chamadas para pessoas externas, que obviamente trazem uma variedade de capacidades técnicas, capacidades profissionais. Normalmente eles procuram pessoas que tenham múltiplas camadas de capacidades profissionais. E eu decidi concorrer exatamente para as áreas em que eu pensava que podia encaixar, que eram exatamente na área de liderança logística e de jornalismo.
Portanto, foi através de um anúncio, é isso?
Através de um anúncio, e devo dizer que muitas vezes, se vocês lerem os jornais e as revistas adequadas, muitas vezes há anúncios para astronautas também postados por aí. Ainda vi um anúncio para astronauta há poucos dias numa revista inglesa.
Há pouco tempo pediram astronautas portugueses. Tivemos um investigador que inclusivamente disse que se tinha candidatado, achava que a idade já não correspondia, mas que ia tentar na mesma. E tu próprio tiveste esse sonho, mais ou menos em criança, de seres astronauta, embora um sonho que já à partida é um pouco frustrado. Conta-nos lá como é que era esse sonho e se o vês realizado agora.
Desde muito miúdo Ao contrário da maior parte das crianças, não queria ser nem bombeiro, nem polícia. A minha mãe diz que às tantas eu queria ser polícia, mas eu não me lembro exatamente disso. Lembro-me de querer ser veterinário ou piloto aviador. Na altura, estamos a falar dos anos 80, era difícil para mim poder conceptualizar ser piloto aviador, porque estávamos numa época em que ainda havia poucos computadores a bordo. A minha visão não era 20/20 e não era realmente uma possibilidade efetiva. E eu acho que foi por volta dos 16 anos que concluí: "Ok, isto não vai funcionar". Mas obviamente que tinha, e continuo a ter, um interesse tremendo na aeronáutica. Ia seguindo sempre tudo o que acontecia em relação ao espaço, mas obviamente, para um miúdo que cresceu nos anos 80, no auge da Star Wars, digo a Star Wars política, não o filme, e da Guerra Fria, era muito claro para mim, como era muito claro para toda a gente, que os astronautas ou eram americanos ou eram soviéticos, ponto final. Nunca ninguém, penso eu, terá sonhado: "Olha, um astronauta português". Isso não acontece provavelmente até este século. E eu acho que apesar de ter tido sempre esse sonho, esse fascínio, não penso que alguma vez tenha realmente imaginado ou sonhado em ser astronauta. Pareceu-me sempre uma possibilidade muito remota.
Mas vias o teu futuro ligado à ciência de alguma forma ou ligado ao espaço nessa altura?
Ao espaço nem tanto, mas à ciência, talvez. Eu comecei muito cedo em grupos ambientais e em jornais na minha escola secundária e depois mais tarde na universidade e em algumas revistas portuguesas e mais tarde em revistas estrangeiras, sempre na área da sustentabilidade, do ambiente. Acabei por criar, através de um programa em que eu participei, que é bastante popular em Portugal, os Jovens Repórteres para o Ambiente, acabei por participar desde muito cedo na comunicação para a ciência. Estive sempre um bocado envolvido nesse âmbito e acabou por se propagar para a minha vida profissional durante bastantes anos.
Com que idade começaste nos Jovens Repórteres?
Eu penso que teria 16, salvo erro. A partir dessa altura, eu basicamente estive sempre a trabalhar de alguma forma, até hoje, nas áreas limítrofes à ciência exata. Mas obviamente a minha formação profissional levou-me noutra direção, na direção das ciências humanas e económicas. As ciências ambientais acabaram por ser um interesse que vem dos meus anos de adolescência e que é no fundo algo que adiciono ao meu perfil, mas que não é central àquilo que eu faço. Talvez seja central de uma forma subjacente, mas não é central na forma como eu penso sobre o meu dia a dia. Agora, quando eu fiz 40 anos, há muito pouco tempo, porque eu não conto estes dois anos de Covid. Quando eu fiz 40 anos, lembro-me de ter tido uma conversa com a minha mãe, em que falávamos de coisas, como se faz quando fazemos 40 anos e pensamos na vida. Já chegamos à metade. E eu falava das coisas que queria ter feito e que já tinha feito, e a minha mãe, nessa altura, disse: "Parece que te falta uma". E referia-se exatamente ao meu sonho de criança de ser piloto. E eu nesse mesmo dia decidi que não era tarde nem cedo e ingressei na escola de pilotos. Comecei a fazer o meu curso, mas infelizmente foi interrompido também pela Covid, está um pouco atrasado, mas entrei nesse processo e eu não sei se terá sido por causa dessas pesquisas no Google. No meio desse processo, apareceu um anúncio para uma missão análoga a Marte. Eu candidatei-me pensando: "Isto não vai resultar", mas às tantas, parece que eles estavam à procura exatamente de uma tripulação em que houvesse uma maior preponderância dos storytellers, dos contadores de histórias, do que dos cientistas, que são a maior parte das missões. E isto porque obviamente eles têm um ímpeto muito grande de comunicação com o público sobre aquilo que é a ciência da investigação espacial e investigação sobre Marte.
Muito bem. Fala-me de ti. Tu nasceste em Portugal, cresceste também em Cabo Verde e acabas no Canadá. Como é que é esse teu percurso de vida? Rapidamente, Pedro.
Eu nasci e cresci em Lisboa, passei muito tempo em Trás-os-Montes, de onde a minha mãe vem. Passei algum tempo em Cabo Verde, de onde vem meu pai. E depois, nos últimos 25 anos, vivi numa dúzia de sítios diferentes em quatro continentes. Tem sido um percurso, como dizia o Pedro Lamy, eu tenho cara de miúdo, mas já sou muito rodado. Tem sido uma vida relativamente agitada e presenteira. Às tantas, a Covid-19 deu-me uma hipótese de mudar de passo.
Sim. Tens viajado e tens vivido noutros países, sobretudo por causa do trabalho, é isso?
Sobretudo por causa do trabalho, sim. Eu estudei em três países diferentes e radicado numa série de países e trabalhei em muitos mais, em praticamente três dezenas de países.
O que é que fazes concretamente? Como é que nós poderíamos descrever a profissão do Pedro José Marcelino? Para além de ser astronauta no deserto do Utah nas próximas duas semanas.
Astronauta análogo.
Análogo, sim.
Ou cidadão astronauta, como às vezes se costuma dizer.
Soa um bocadinho melhor.
Sim. Eu comecei como jornalista e depois passei para a academia. Trabalhei como investigador durante alguns anos e rapidamente, por ter um interesse talvez mais político, passei para a consultoria política e acabei por trabalhar como conselheiro político e conselheiro de comunicação em várias agências internacionais, incluindo as Nações Unidas, a União Africana e várias outras. Isso durou durante vários anos, todas estas coisas praticamente em paralelo. E depois, em 2012, decidi que precisava de fazer uma outra coisa que já tinha querido fazer desde miúdo, que era estudar cinema, que obviamente não tinha sido uma hipótese muito popular quando eu disse à minha mãe que queria estudar cinema. E talvez ela tenha tido razão, mas em 2012 eu decidi que queria ir para a escola de cinema e estudei cinema documental, especificamente, porque era uma área em que eu poderia, de fato, aplicar aquilo que eu já estava a fazer na área de comunicação política, trazendo uma nova capacidade técnica. E depois de terminar o meu curso, eu na altura era chefe de comunicação na sala de situação do Departamento de Paz e Segurança da União Africana, em Adis Ababa, e na minha primeira reunião, a chefe de missão pergunta à volta da mesa de comunicação quem é que queria liderar um documentário que eles queriam fazer sobre 50 anos da construção de paz em África. E ninguém ergueu a mão. E eu acabado de sair da escola de cinema há um ano e pouco atrás e sem ter feito absolutamente mais nada.
Pensaste: "Isto é pra mim".
Eu ergui a mão porque ninguém se voluntariou. E dei comigo, um pouco mais tarde esse ano. Eles deram-nos dinheiro e deram-nos uma equipe de produção, uma das melhores equipes de produção na Etiópia, e nós voamos para Abidjan, na Costa de Marfim, onde tínhamos uma conferência de paz, com todas as eminências pardas da paz e da negociação de acordos de paz e Prêmios Nobels e presidentes. Basicamente deram uma suíte presidencial, uma equipe de produção e foram trazendo presidentes um a um pra eu entrevistar. Eu lembro de ter feito umas 20 entrevistas em dois dias ou mais. Foi a minha primeira experiência.
Que grande. Cinematográfica.
Sim, foi extremamente intenso.
Tratar um tema fácil que é a paz, num continente fácil que é a África, entrevistando pessoas fáceis que são presidentes africanos. Boa, Pedro.
Sim, mais ou menos isso, exatamente.
Tu és o verdadeiro homem dos sete ofícios. Dirás que esta missão que vais realizar nas próximas duas semanas no deserto do Utah, nos Estados Unidos, viver num edifício fechado como se viveria ou como se viverá um dia, quem sabe, em Marte, dirás que é o trabalho mais, como eu hei de dizer, difícil? Vera, ajuda-me. Entusiasmante, desafiador, por aí.
Mais contraditório daquilo que ele já fez até este momento.
Exato.
Não sei. Eu sou uma pessoa relativamente social, mas também preciso muito do meu espaço. Há um benefício central que vem anexo a ter sido promovido a primeiro oficial da missão, que é o fato de ter uma parte da estação que me pertence a mim. Tenho um bocadinho mais de espaço e um bocadinho mais de isolamento, se eu quiser, em relação ao resto da tripulação. Mas, de fato, é uma experiência diferente. É estranho pensar em estar dentro de um edifício fechado, em que não temos qualquer oportunidade de sair. Mesmo saindo, obviamente, nós vamos simular aquilo que seria feito em Marte. Não podemos apenas abrir uma porta. Antes de abrir uma porta, há todo um processo de 45 minutos de cheques de segurança e de colocar fatos espaciais e de fazer toda uma série, uma bateria de autorizações que acabam por tirar um bocadinho o gozo ao abrir a porta e sair para apanhar ar fresco. Não há ar fresco para apanhar.
Ninguém vai à janela fumar um cigarro, por exemplo. Isso não existe.
Não, ninguém vai, apesar de nós estarmos a encontrar agora um desafio particularmente importante, que se calhar começou nesta altura de Covid e até por ter havido um ímpeto muito grande na pesquisa espacial e todos estes foguetões da SpaceX e de outras companhias a serem lançados. As pessoas, o público em geral, como vocês sabem, têm mostrado um interesse muito grande em todo este processo. E durante o Covid, como as pessoas começaram a fazer muitas caminhadas, alguém decidiu fazer uns posts na internet que dizem que há sítios muito interessantes no Utah para visitar, entre eles uma estação análoga a Marte, em que as pessoas podem ir.
O que estás a dizer é que pode acontecer ires à janela, não sair à janela, mas ir à janela ver a paisagem e haver magotes de turistas a acenar.
Os ditos marcianos.
Nós decidimos que se isso acontecer na nossa missão, porque aconteceu na missão que se realizou em setembro, houve pessoas que realmente entraram em propriedade privada e que chegaram a bater à janela da estação.
A sério?
Agora foram colocados sinais que indicam que é propriedade privada e é um terreno bastante grande, mas nós decidimos internamente que se isso acontecer, nós vamos continuar a agir como se essas pessoas não estivessem, porque a única alternativa é fingir que eles são marcianos e entrar em modo de emergência.
Exato.
Tu nasceste em Portugal há 43 anos, vives há vários anos no Canadá, já viveste ou passaste por outros países. Vamos querer explorar isso nesta parte. Que bandeiras e símbolos é que vais levar no teu fato? Vais ostentar a bandeira portuguesa ou não?
Antes de mais, eu quero fazer uma correção. Eu indiquei que eu fiz 40 anos antes do Covid e mantenho, continuo a ter 40 anos. Recuso-me a contar os anos de Covid como anos reais. Não pedi, não encomendei. E portanto, eu vou ostentar a bandeira do Canadá, a bandeira de Cabo Verde e a bandeira da União Europeia, porque como a minha parte portuguesa sempre se identificou com o nosso continente, eu vou ostentar a bandeira da União Europeia e não a bandeira de Portugal. Mas temos a Vera a seguir esta tripulação.
Vai sim, senhor. E a dar-nos conta disso tudo também no site do Observador. Portanto, és um europeísta convicto.
Desde sempre.
Desde sempre.
Eu penso que quase todos nós que crescemos na geração de 90, na Europa, usufruímos de uma abertura imensa que aconteceu e que depois acabou por se contrair a partir do 11 de setembro e depois, muito mais tarde, a partir da crise econômica. Está aqui como uma mudança de paradigma, mas eu continuo no paradigma dos anos 90, que acho que era aquele que realmente encaixava mais naquilo que os grandes sonhos da Europa eram. E infelizmente, este momento em que estamos a viver, este momento em que o Covid começou a fechar as fronteiras, tem mostrado amplamente as vantagens claríssimas da abertura das fronteiras. Eu sinto-me neste momento a viajar. Acabo de viajar neste último mês, estive a viajar para uma produção, e a mim parece-me que estamos outra vez no início dos anos 90.
E para onde é que andaste a viajar?
Fui à Terra Nova, estive na Nova Inglaterra, portanto na zona de Boston, Cape Cod, e acabo de regressar da Islândia.
Foste fazer um trabalho sobre o bacalhau?
Mais ou menos. Não anda longe disso, mas mais na área das baleias, mas acaba por haver algum overlap com o bacalhau, sempre.
Muito bem. Eu tinha aqui uma pergunta rapidinha: há quantos anos é que estás fora de Portugal, Pedro?
Eu saí de Portugal quando tinha uns 19 ou 20. Portanto, serão, obviamente, como eu disse, tenho 40, são 20.
Vinte anos. E segues Portugal, a atualidade portuguesa, segues o que aqui se passa?
Sim, sigo. Eu sou cientista político de profissão e comentarista e analista, e portanto, eu sigo as notícias da Europa, de Portugal, da Alemanha, da França, do Canadá. Parei um pouco durante estes últimos anos loucos do Donald Trump, porque me estava a dar PTSD. Mas sigo com muita atenção a política africana, a política europeia, a política norte-americana e mundial.
Estavas a criar estresse pós-traumático.
Estresse pós-traumático.
A administração Trump.
Exatamente.
Só a seguir os Estados Unidos ou seguir a política a nível mundial?
A política a nível mundial é sempre estressante, mas ela acontece de forma previsível. Eu creio que o que me deu estresse pós-traumático, a mim e provavelmente a muitas pessoas, é a falta de previsibilidade e a loucura inerente aos anos por que passámos.
Mas tu estavas no Canadá.
Sim, mas aqui estamos muito perto. Infelizmente, como nós todos sabemos, o Donald Trump teve um efeito contaminador na política internacional.
Mas nestes últimos 20 anos, não foi só a política que te interessou, não é? Sais de Portugal aos 19 anos, e para onde é que foste? E o que é que foste fazer?
O primeiro sítio onde eu fui viver foi entre a escola secundária e a universidade. Eu decidi tirar um tempinho e fui para a Escócia. Ia ficar só três meses, mas acabei por ficar praticamente um ano, nas Highlands da Escócia.
Foi amor, Pedro? Foi amor?
Não, não é esse tipo de amor. Foi amor à paisagem.
Era isso que eu estava a referir.
Foi amor à paisagem, porque realmente, desde essa altura, tenho um fascínio enorme pela Escócia e são uma gente interessantíssima. E portanto, eu fiquei durante algum tempo, depois passei uma temporada relativamente curta na Holanda, outra na Suíça, e depois acabei por ir trabalhar na Expo 2000, em Hannover, na Alemanha. Voltei a Portugal brevemente, trabalhei numa ONG e depois voltei outra vez para a Alemanha, onde acabei por ficar durante algum tempo e comecei a trabalhar aí como foto repórter. Depois da Alemanha, comecei a minha transição gradual para o Canadá. Entretanto, fui estudar para o País de Gales.
Um verdadeiro globe trotter.
Sim. E foi aí a minha primeira oportunidade de viver realmente em Cabo Verde enquanto adulto e, portanto, no fundo, começar a construir uma raiz.
Era isso que eu te ia perguntar: como é que Cabo Verde, ou em que momento Cabo Verde entra na tua vida e como é que isso te marca?
Cabo Verde esteve sempre na minha vida, porque obviamente o meu pai era cabo-verdiano. A maioria da minha família é cabo-verdiana, porque a família do meu pai é muito maior do que a da minha mãe, portanto, todas essas referências estão na minha vida desde sempre. E viajámos para visitar a família e tudo isso.
Falas crioulo, Pedro?
Hoje em dia falo.
Boa! Então sabrás responder esta pergunta: quando é que me está a ver lá comer um prato de cachupa?
Quando é que ia?
É péssimo o meu crioulo. Estava-te a perguntar é quando é que ia à tua casa comer um prato de catchupa. Deixamos isso para outro momento.
Por acaso até podes ter sorte, porque eu até faço uma catchupa bem sabim.
Quem diria?
Aliás, vou cozinhar catchupa para a tripulação. É a minha contribuição.
A sério? Portanto, tu, português a viver no Canadá, vais cozinhar catchupa, prato nacional de Cabo Verde, no deserto do Utah, nos Estados Unidos, para uma tripulação internacional que vai simular vida em Marte.
Exatamente. Não é habitual sarar as coisas dessa forma.
Portanto, não pode ser mais louco do que isto.
Eu diria que até pode ser mais louco do que isto. E até tenho uma pergunta para te fazer. O que tu achas que é mais fácil ou mais difícil? Se é caminhar durante três horas com o fato de astronauta vestido ou se é subir a um vulcão ativo?
Porque uma já fizeste, não é?
Pois, uma já fiz, a outra não posso dizer qual será a exigência física de caminhar durante três horas com um fato pesadíssimo e com equipamentos nas costas e com pouca água, etc. Não sei qual será a dificuldade, mas subir um vulcão é difícil.
Onde é que subiste um vulcão? Ativo, não é?
O Vulcão do Fogo, em Cabo Verde.
Boa. Como é que é? Como é que se faz a subida? Descreve-nos, Pedro, como é que é.
Hoje em dia é relativamente fácil. O Vulcão do Fogo é um vulcão mais ou menos gémeo do ponto de vista geológico do Vulcão do Pico, nos Açores. São dois vulcões que podem ser subidos. Eles têm um platô, portanto a ilha inteira, tanto uma como a outra, são de facto macrovulcões, que foram criados há milhões de anos. Dentro desse macrovulcão, num planalto bastante elevado, tens um pequeno vulcão, em termos relativos. E no caso do Vulcão do Fogo, são talvez uns 700 m de altura a partir do platô. Esses 700 m são praticamente verticais e são compostos de escória vulcânica, tipo areia, mas uma areia que é aguçada como facas e que não permite uma subida muito fácil, porque nós damos um passo acima e deslizamos dois passos para baixo. Depois há uma série de rochas à volta que podem apresentar algum perigo. E depois depende também da altura em que vamos e qual é a atividade vulcânica que existe, além da rarefação do oxigénio, que obviamente a essa altitude, portanto a 2000 m de altura, 2300 para cima, porque o vulcão tem praticamente 3000, há pessoas que têm dificuldade, portanto depende um pouco da condição física de cada um e da genética de cada um, obviamente.
Não foi o teu caso, fizeste-o facilmente.
Eu diria que seria um pouco como uma cabra do Gerês, contentíssimo. E continuo a achar que o momento em que cheguei ao topo desse vulcão pela primeira vez continua a ser um dos maiores momentos de felicidade da minha vida. Lembro-me perfeitamente das endorfinas. Aliás, a subir qualquer montanha, é uma coisa que eu tenho sentido a minha vida inteira. Chegar ao topo de uma montanha é das coisas que me dão maior prazer do ponto de vista de uma felicidade pura e sem adulteração de seja o que for.
Muito bem. Pedro, tens viajado ao longo da tua vida, a viagem tem sido uma constante. Li na tua biografia que já viajaste ou que já visitaste 70 países, ilhas e territórios. Sublinhas isto, ilhas e territórios, por quê? Já andaste por ilhas remotas e territórios escondidos?
Sim.
Ou inóspitos? Ou misteriosos?
Andei por algumas, sim. O primeiro sítio que eu tive a sorte de viajar, ainda enquanto miúdo, foi exatamente com o programa Jovens Repórteres para o Ambiente, e foi a ilha de Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard, na Noruega, que fica a 500 km do Polo Norte.
Espetacular.
Continua a ser o sítio mais remoto.
Diz que é bom para o surf, não foste lá à procura de onças.
Diz que é bom para ser comido por um urso polar.
Viste ursos polares? Não.
Não vi um urso polar dessa vez. Já vi ursos polares desde essa altura. Não vi dessa vez, mas levantámos uma vez. Nós estávamos a passar o inverno, ou parte do inverno, dentro de um barco de exploração polar que basicamente assentava no gelo, e uma manhã acordámos e os dois cães huskies, que supostamente guardavam o barco para nos proteger dos ursos polares, estavam a dormir profundamente com o nariz escondido nas patas, e à volta deles havia pegadas de urso polar por todo lado.
Isso quando tu eras jovem repórter para o ambiente?
Sim, quando eu tinha 16 anos.
Uau!
Foi uma grande experiência. Mas já tiveste a oportunidade de ver ao vivo, dizias há instantes, ursos polares mesmo. Em que circunstância é que os avistaste? Porque é um animal para já escasso na natureza. E depois bastante esquivo.
E não te vai aproximar também.
Exato.
Não, eu vi ao longe.
É um predador.
É um predador. É talvez um dos nossos poucos predadores. Eu trabalhei já há vários anos com vários projetos no Ártico canadiano e portanto tive a oportunidade num deles, no território de Nunavut, que é por cima do Quebec, a norte do Quebec, território dos Inuit, que é o nome que utilizamos agora. Tive a oportunidade de avistar um ao longe e entretanto também já tive a oportunidade de usar uma parca feita de urso polar que me foi emprestada por um dito Inuit que caçou um dito urso polar, que continua a ser parte do sistema de sobrevivência.
Uma peça de história politicamente incorreta aos olhos de hoje, não é?
Não. Dentro da comunidade inuit ela é perfeitamente normal e tem a ver com as necessidades de sobrevivência.
Eu ia te perguntar se tinhas usado como disfarce para algum documentário. Porque às vezes usam os abrigos, se tinhas usado esse fato urso polar para disfarçar.
Na realidade, não. Usei porque nós fomos apanhados por intempéries que cancelaram vários voos. Por acaso, essa é uma história interessante. Houve intempéries que cancelaram vários voos e eu, como bom produtor, à medida que os voos vão sendo cancelados, eu imediatamente vou pensando no dinheiro que estou a perder todos os dias por ficar sentado no mesmo sítio. E portanto, ocorreu-me que quando estávamos a viajar, era uma comunidade chamada Igloolik, e nós tínhamos passado na viagem da capital do Nunavut, que é Iqaluit, para Igloolik, tínhamos passado num aeroportozinho em que paramos durante dois minutos, chamava-se Hall Beach. E ocorreu-me que, por acaso, eu tinha um amigo, um mountie, aqueles canadianos famosos da polícia montada de fato vermelho, que me lembrei que estava no destacamento de Hall Beach. E então eu pensei o que nós devíamos fazer, porque uma vez que o avião não parou aqui, por motivos de intempérie, nós devíamos tentar encontrar um caçador com GPS e com um skidoo, e tentar ir até à comunidade Hall Beach, porque o voo só demorou 10 minutos, não pode ser muito longe. E de fato, demorou praticamente um dia inteiro, mas encontrámos um caçador com GPS, e com um trenó, um kamutik para pôr por trás do dito skidoo. Então atravessámos o mar em direção a Hall Beach, que é muito menos suave do que aquilo que parece na televisão. Na realidade, é como se estivéssemos dentro de uma iogurteira. É uma coisa horrível. Eu saí com concussões graves, não tenho dúvida nenhuma. E atravessámos o oceano durante praticamente duas horas e meia no meio de uma borrasca, e chegamos a Hall Beach, à casa do meu amigo que eu tinha informado que vínhamos para jantar, e eu acho que ele pensou que eu estava a brincar. Ele não sabia que eu estava sequer lá. E exatamente à hora de jantar, eu bati à porta com o meu coprodutor e com este caçador inuíte, e chegamos para o jantar.
Muito bem.
Estas viagens que tu fazes são, sobretudo, de trabalho ou muitas das viagens são de lazer, ou misturas as duas coisas? Consegues sempre tirar proveito das duas coisas.
Eu praticamente nunca viajo por lazer, por vários motivos. Primeiro, porque não vejo motivo nenhum de gastar dinheiro em viagens de lazer, quando eu posso perfeitamente viajar de graça por trabalho, quando alguém é pagar a conta. E aquilo que se transformou em hábito para mim é que eu basicamente anexo dois ou três dias de lazer a praticamente todas as viagens que faço, assim que seja possível.
Isso é um luxo. E uma sorte enorme.
Um luxo, uma sorte enorme, um privilégio e, sobretudo, é um privilégio estar nestes sítios, que muitas vezes são sítios turísticos. Mas, por exemplo, a Islândia é um sítio em que as pessoas viajam como turistas e veem uma Islândia completamente diferente da Islândia que eu acabo de ver nesta última semana, a viajar com colegas islandeses, a conhecer velhos baleeiros e pescadores e, no fundo, a imiscuir-me na cultura de uma forma que não está ao alcance do turista. Para mim, obviamente, que perde-se um pouco do lazer, mas ganha-se muito em termos da experiência real do sítio em que estamos.
Qual foi a história mais incrível que ouviste durante estes últimos 20 anos a viajar e a trabalhar pelo mundo, Pedro?
A história mais incrível. Há aqui uma coisa que eu não contei. Quando eu era novinho, além de ter querido ser veterinário e piloto, mais tarde eu quis ser apresentador de programa de viagem, porque eu achava que era uma coisa incrível.
David Attenborough.
Não, é mais o Michael Palin. Eu via o Michael Palin na televisão, eu pensava: "Como é que alguém é pago para fazer isto?"
E faz muito bem.
No meu cérebro, não fazia sentido como é que alguém podia ser pago para fazer uma coisa daquelas. E depois, isto já a partir do momento que eu começo a ser um pouco mais alerta sobre as questões políticas, no meio da minha adolescência, comecei a interessar-me muito sobre os processos de paz e segurança e o jornalismo de guerra. E houve aí uma altura em que eu realmente quis ser repórter de guerra. Mas houve uma viagem em que eu estava a fazer um trabalho para o Ministério das Comunidades de Cabo Verde, na ilha da Boa Vista, e tinha acabado o meu trabalho e era o dia de voltar. Então cheguei ao aeroporto da Boa Vista e não me lembro o que é que aconteceu, mas lembro-me de ter havido um problema com o avião e ter passado 12 horas no aeroporto com duas pessoas idosas. Que era um casal chamado Makedoski, franceses. Ela teria uns 80 e muitos anos, ele teria uns 90, e eles eram dois repórteres de guerra famosíssimos da altura das independências. E eu passei 12 horas a conversar com estas pessoas como se nos tivéssemos conhecido a vida inteira. E lembro-me ter chegado ao meu voo em Lisboa e de me ter sentado no voo de Lisboa para Londres e ao meu lado estava sentado um repórter de guerra canadiano, da televisão canadiana, chamado Omar Sachedina, com quem eu conversei o voo inteiro. E no voo de Lisboa para Londres era um jornalista português cujo nome me escapa agora, mas que eu me lembro que cobria o Iraque nessa altura. E depois no voo de Londres para Toronto, o Omar Sachedina. Portanto, no prazo de uma viagem inteira, eu conheci quatro repórteres de guerra, fiquei fascinado e achei que era o universo a dizer-me que eu tinha que ser repórter de guerra. Assim que cheguei a Toronto, concluí que não era assim tão interessante e na realidade passei por duas ou três experiências que me indicaram que não é uma vida aliciante.
Olha, eu vou passar para um tema muito mais suave. Tu és um contador de histórias e já nos mostraste aqui que és um contador de histórias. E eu só te queria perguntar uma coisa: tu tens sobrinhos, tanto quanto sei, se tu lhes contas as tuas histórias, se lhes metes este bichinho das viagens, dos documentários e até da exploração espacial.
A minha irmã diz-me que sim, que o meu sobrinho, o Afonso, ele deve estar a ouvir isto, portanto olá Afonso, que o Afonso inerentemente já está a começar a ser como eu. Mas eu também o ando a treinar há 13 anos. Ando a dar mapas desde miúdo e aviões e a mandar postais de todo o mundo e notas da China e não sei o que mais. Portanto, o Afonso tem uma curiosidade inerente e nós temos a nossa primeira viagem juntos marcada para este ano, se o Covid permitir. Vamos explorar o interior de Trás-os-Montes de uma forma profunda, como eu gosto de fazer. E o outro, o Matei, quer ser astronauta, de facto. Ele é canadiano, quer ser astronauta e como parte desta missão, como tive ocasião de contar à Vera, nós estamos a fazer o teste de um sistema de comunicação, e nesse teste estamos a usar pessoas próximas a nós como pessoas com quem vamos comunicar usando este sistema de comunicação, que vai ser utilizado na NASA e na Estação Espacial. E então ele vai ser a pessoa do outro lado a testar algo que vai ser utilizado, dados que vão ser utilizados pela NASA. Portanto, como dizem os meus cunhados, na realidade eu sou a pessoa mais fixe que poderia existir à face da Terra. E eles dizem isso com algum sarcasmo. Eu sinto que há algum sarcasmo.
Muito bem. Olha, antes de fecharmos, tenho aqui uma pergunta rapidamente. Dizes que queres chegar até aos 91 anos para poder ver a humanidade em Marte. Tens 40, achas que vamos pisar o planeta vermelho nos próximos 51 anos, Pedro?
Eu não me lembro onde é que eu escrevi isso, mas bom trabalho de investigação. Acho que sim, porque a medicina está melhor.
Mas é verdade.
É verdade. Eu lembro de ter escrito num momento qualquer isso, não me lembro onde é que fiz. Mas sim, acho que sim, e acho que devo chegar lá, porque todos os meus avós viveram bem para os 90.
Isso tu já estás a tirar três anos.
Exato.
Portanto, eu acho que deve haver uma boa possibilidade de isso ocorrer.
Muito bem. Pedro, foi um gosto estar à conversa contigo.
Muito obrigado.
Vamos estar aqui a acompanhar o teu dia a dia na estação espacial, no deserto do Utah, nos Estados Unidos, aqui no Observador. Bom trabalho.
Obrigado, Vera. Obrigado, João Miguel e até breve.
Até à próxima. Obrigado.
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