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Já está em modo fim de dia, ou melhor, fim de noite, nesta última fase do Congresso do PSD este sábado. As listas para os órgãos nacionais vão ser entregues até à meia-noite. O prazo foi sendo prolongado, era suposto terem sido entregues até às 18h. Ainda assim, os principais nomes foram já anunciados por Luís Montenegro. Destaque para Sebastião Mogalho, que sobe a vice-presidente do partido e porta-voz. Também Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto, e Carlos Moedas passam a ser vice-presidentes do PSD. Um congresso que decorre um dia depois da derrota da Reforma Laboral na Assembleia da República, com o voto contra da esquerda e do Chega. Miguel Pinheiro, que partido ou que estratégia é que o partido encontrou para responder a esta derrota e a esta relação com os dois maiores partidos da oposição, que são decisivos para aprovar as tais reformas na Assembleia da República, se é que encontrou alguma?
Acho que é a estratégia do não passa nada.
Seixas tem aplicado muito essa estratégia.
E com sucesso. Dizem que a AD andou hoje no bar o PS, que já nem sequer chama José Luís Carneiro para reuniões, que entende que o Partido Socialista não quer aprovar reformas nenhumas e, portanto, ignora o PS. Não, não passa nada. Nós continuamos a contar com o PS. O PS aprovou, foi forçado a aprovar alguma legislação. Até estamos agora a negociar a nova configuração legislativa para o Tribunal de Contas com o PS. Sim senhor, continuamos a contar com o PS. O Chega ontem fez uma traição que nem Brutos poderia fazer com o Código Laboral. Não passa nada, está tudo muito bem, vamos continuar a falar com o Chega, que remédio. Nós somos um governo minoritário, temos que falar com toda a gente. Está tudo bem, não estamos preocupados com nada, está tudo ótimo, está tudo incrível, está tudo igual. Nada mudou. Essa é a estratégia do PSD, é evitar uma aceleração do ciclo político, evitar que se comece já a falar em eleições antecipadas, que se comece já a falar num governo sem orçamento, que se comece já a falar em crise. Leitão Amaro em entrevista aqui ao Observador disse: "Deus nos livre de uma coisa dessas." É baixar o mais possível a temperatura, atirar um balde de gelo para cima desta gente toda e evitar que as pessoas se entusiasmem. Até Paulo Rangel, que a dada altura no discurso no púlpito estava a entusiasmar no ataque às oposições, depois disse: "Não, mas nós vamos continuar a dialogar com toda a gente." Onde se notou algum movimento não foi no governo, mas no partido. Mas será que queres falar sobre isso mais um pouquinho ou não?
Vamos primeiro ao Rui e já vamos.
Eu acho que ia ser boa ideia.
Rui, há aqui algum guião novo ou é esta a estratégia do continuar a lidar com os dois maiores partidos da mesma forma que vínhamos até aqui e esperar que não tendo resultado na reforma laboral, possa ter resultado noutros resultados, noutros diplomas e noutras reformas?
Sim. Houve sempre aqui um binômio complicado. Por um lado, dizer que os dois parceiros falharam e falham, porque são à maneira deles e cada um deles radicais. E depois, ao mesmo tempo, dizer que continua absolutamente disponível. O Hugo Soares, no discurso que faz, até diz uma coisa extraordinária, que é que não ficou mais desconfiado com o Chega depois do que aconteceu. Isso é impossível, porque a cada vez que o Chega rói a corda, tem que aumentar essa desconfiança. E, portanto, a mensagem que quiseram passar, como o Miguel estava a dizer, é que o governo continua inteiramente disponível porque foi para isso. E Montenegro, apesar de ser confuso, foi talvez o que disse melhor, que é: nós ganhamos e os outros dois estão abaixo de nós empatados, que é colocá-los num plano abaixo, mas os dois exatamente na mesma medida. Olhando para o primeiro governo de Montenegro e depois para o Montenegro um, tu dizes: bom, há aqui uma evolução, porque o Chega na altura já não havia uma cerca sanitária, mas ainda havia algum pudor em negociar com o Chega. Muitas das coisas eram negociadas quando eram às escondidas. Já nos parece uma coisa muito atrás. Eu lembro-me perfeitamente de estar a falar com uma pessoa bem posicionada no governo na noite eleitoral, quando se começa a perceber nesta segunda que o Chega pode ficar à frente do PS, depois só se confirmou no plano parlamentar e não em número absoluto de votos, a dizer: não há hipótese de não falarmos com eles. E para isso ter acontecido era porque antes, efetivamente, não falavam para muitas coisas. E não falavam. Nos parece já uma coisa muito distante, mas Luís Montenegro que ia decidir uma coisa no âmbito da NATO. Chamava o líder do PS. A partir daquele dia passou a chamar os dois. Isto depois veio tendo altos e baixos. Há matérias para as quais o PSD vai preferindo um partido ao outro. Qual era a sensação e a percepção de que o Chega era o partido que estava a ser o parceiro mais presente? É porque em matérias que eram de uma maior marca ideológica ou de posicionamento ideológico, pode não ter a ver com a esquerda e direita, pode ter a ver com conservadorismo, pode ter a ver às vezes até com alguns conceitos, não é de nacionalismo, mas de respeito pela nacionalidade. Por exemplo, a lei da nacionalidade, a questão da imigração, são tudo matérias que o PSD escolheu o Chega, porque com o PS era muito difícil. Há matérias que eles desejavam desde o início, nomeadamente a reforma laboral ou até, por exemplo, uma revisão constitucional, o PSD à partida ter-se sentado com o PS. E isso continuou a existir em algumas matérias. Eles acabaram por se entender Embora com uma solução um bocadinho estranha para aquilo que eram as posições iniciais dos partidos, na questão do Tribunal Constitucional e na questão do Provedor de Justiça, da qual também o Chega ficou de fora. Vamos ver se essa questão acaba resolvida, totalmente a questão dos cargos, mas se continua a existir, de facto, uma relação entre um e outro.
Hugo Soares, agora na questão da Provedoria de Justiça, disse que é uma lista do PS subscrita pelo PSD.
Qual é a grande questão? É que este governo tem duas grandes reformas. Para já, a reforma laboral e a reforma da modernização administrativa. Poderão estar outras a caminho, nomeadamente a sustentabilidade da Segurança Social, novos modelos de financiamento. Não sei o que poderá aparecer, mas parece-me que a ministra do Trabalho tem mais coisas em mente. Não é só a PSU, que pode ser o início de uma reforma mais alargada, mas agora temos duas. E dessas duas, naturalmente, se o Chega ia ser o parceiro parlamentar para uma delas, ia se destacar aqui com um primeiro desequilibrar da balança mais claro a favor do Chega, que antes tinha acontecido, é verdade, em matérias que podemos considerar de Estado ou de regime, porque estamos a falar de atribuir a nacionalidade, estamos a falar de haver o controle da imigração, o fim da manifestação de interesse, enfim, todas essas matérias. É verdade que acontecia, mas esta reforma era fundamental para o Chega passar à frente. E o que aconteceu foi, com a retirada do Chega, este congresso que devia ser todo a criticar a indisponibilidade do PS e o facto de o PS não ter uma oposição construtiva, passou a ser uma crítica a dois partidos e se confundiu um bocadinho, porque foi um ataque bicéfalo aos dois parceiros. E nestas coisas da política é sempre muito claro, nós vamos às discussões.
O interesse é polarizar.
É, vais atrás e vês as discussões como Seguro Costa, Sampaio, Guterres, Soares com a secretária. Tu tens sempre uma questão entre és mais à esquerda ou é mais ao centro, é mais à direita, Rui Rio com Pedro Santana Lopes e mais tarde com Luís Montenegro. Era sempre o que era mais ao centro-esquerda, havia a polarização. Em matéria entre um governo e a oposição também há. O que aqui veio alterar esta dinâmica? É que agora há dois partidos para dois sítios diferentes e o governo, querendo se afirmar como profundamente centrista, que eu acho que o governo de Montenegro é mais à esquerda do que aquilo que eu desejaria o posicionamento natural, por exemplo, de dois grandes pensantes do governo, que é o próprio Luís Montenegro e o Hugo Soares. Eu até acho que o poder tem esta coisa de recentrar muito as pessoas. Lembramos que eles dentro do PSD eram de uma ala, se quisermos, um bocadinho mais conservadora. Em matérias, o Hugo Soares foi quem, por exemplo, levantou o problema relativamente à adoção entre casais do mesmo sexo, por exemplo. E se formos ver o Luís Montenegro também sempre teve um posicionamento relativamente a essas matérias numa ala mais conservadora do partido. Com o poder e com o tempo isso foi se esbatendo. Mas aqui é difícil, não olhamos para este governo e dizemos: é mais provável que esteja junto do Chega ou é mais provável que esteja junto do Partido Socialista.
Cada um tenta planar entre os dois.
É isso.
Miguel, estavas a querer acrescentar?
Eu não, mas se me quiseres fazer alguma pergunta sobre isso.
Que pode haver uma divergência entre aquilo que o governo quer adotar e o partido.
Sim. Só para terminar a parte inicial do governo, ou seja, de estar a manter, no fundo, estar a passar a ideia de que nada mudou. Eu acho que foi isso que aconteceu, mas também acho que eles não tiveram tempo para pensar.
Devias ter adiado o congresso.
Não, foi muito em cima. Realmente, a mensagem deste congresso estava toda preparada para ser: nós somos um governo reformista. Aqueles quadros que iam passando enquanto o Luís Montenegro falava com listas.
Que não conseguimos ler.
Exato, com listas em letra mínima sobre os conseguimentos do governo, tudo isto estava pensado para passar essa mensagem, que na realidade era a grande resposta a Passos Coelho. Não somos reformistas? Nós? Mudámos agora o código laboral até com o Chega, imagine-se. E temos aqui isto, aquilo, vinham os ministros todos de assentada uns atrás dos outros em filinha a dizerem tudo o que fizeram até agora. Essa era a mensagem. E claro, e dizer: "E o PS, como veem, não quer reformas nenhumas. O PS é o partido do imobilismo." E de repente, em poucas horas, eles tiveram que ajustar um bocadinho o discurso. É por isso que parece um bocadinho contraditório eles dizerem: "Fizemos muitas reformas", e depois dizerem: "Não nos deixam fazer reformas." Porque eles tiveram pouco tempo. E a política não é feita por mágicos. E realmente, tudo mudou muito rapidamente. E o que eu quero dizer com isto é que não tenho a certeza de que esta mensagem que está a ser passada hoje aqui no Congresso seja necessariamente uma mensagem que vai durar muito tempo. Eu acho que à medida que o Luís Montenegro e o seu círculo mais próximo vai amadurecendo aquilo que aconteceu.
É que vai recentrar.
Esta mensagem pode não durar. Paralelamente a isso, e não querendo de maneira nenhuma fugir à tua pergunta. Onde se notou aqui alguma novidade foi no partido. Luís Montenegro chama para a vice-presidência Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, dois dos grandes vencedores das autárquicas e o partido repetiu muitas vezes que venceu as autárquicas, e assim entusiasmava muito as pessoas aqui, mas traz as duas figuras do PSD que estão à frente das duas principais cidades para, imagino eu, ter uma ligação mais direta ao que se está a passar. E depois, naquilo que é mais surpreendente, Sebastião Bugalho está lá longe, foi exportado, e coloca-o como porta-voz do partido. E isso, na entrevista ao Observador, Sebastião Bugalho disse que não muda nada.
Tem informação privilegiada sobre o Ébola.
Certo, mas pelos vistos na cabeça dele, ele vai ser porta-voz do PSD, mas vai estar em Bruxelas. Vai estar em Bruxelas, o porta-voz do PSD está em Bruxelas. Isso não vai ser assim. Não é possível ser assim. Se for assim, então nada disto faz sentido.
A verdade é que ele nas autárquicas foi quase um coordenador autárquico, o número de conselhos que percorreu, ou seja, é alguém que passeou bastante.
Passou muito tempo em Portugal. Certo. E inevitavelmente, imagino eu, vai ter que estar aqui, o cara é porta-voz do partido, se for para valer a sério, se for uma coisa genro governo de sombra de André Ventura, que é uma fantasia, então faz de qualquer maneira. Se for para ser um porta-voz a sério, para ser o rosto do partido, não vai ser o rosto do partido em Bruxelas ou em Estrasburgo, e tem que ter uma proximidade até física com Luís Montenegro aqui. Mas isto mostra-nos que Luís Montenegro está à procura ou está a preparar-se, melhor, assim é que é, está a preparar-se para a possibilidade de alguma rutura. Sebastião Bugalho é potencialmente alguém com capacidade de fazer um combate político mais agressivo. A ideia que me dá é que Luís Montenegro está já a pensar no que vai acontecer daqui a um ano e a preparar-se para como é que o país estará daqui a um ano, em que poderá ter que haver uma aceleração do calendário político. E depois vai ter que gerir esta ascensão em turbo de Sebastião Bugalho. Eu imagino.
Sendo ele irrequieto.
Irrequieto. Ele discursou antes de saber isto, e portanto teve assim um discurso relativamente apagado, se não fosse Miguel Albuquerque a chamar-lhe a atenção, a dizer que não havia estrelas no partido, acho que ninguém tinha dado pelo discurso. Por uma questão de timing, perdeu a oportunidade de começar já a mostrar aquilo que é capaz de fazer. Mas isso mostra que Luís Montenegro já está a olhar para daqui a um ano.
Rui Pedro, aqui quase com 30 segundos para cada um dos novos protagonistas, que sinais é que dá esta escolha ou esta ascensão de Carlos Moedas, Pedro Duarte e Sebastião Bugalho para o inner circle de Luís Montenegro no partido?
Eu acho que Carlos Moedas e Pedro Duarte é para dar alguma dimensão, porque os próprios são de duas grandes câmaras, que são quase ministérios, e também dá essa valorização às autarquias. Já no Conselho de Estado tinha havido essa divisão e portanto é também para, de alguma forma, puxar por eles e serem atores políticos. Depois tem circulado junto do montenegrismo Pedro Duarte como uma possibilidade ou o meu nome para a sucessão quando ela um dia ocorrer. Carlos Moedas parece retirar um bocadinho disso ao dizer que se recandidata e que vai fazer os três mandatos. Não sei se tem a ver com se é bluff, mas também é interessante ele chamá-los para mais próximo dele e para os comprometer também com a estratégia do próprio partido. E depois é de combate, todos eles têm presença pública mediática e quase diária. E Sebastião Bugalho pode ter, tem uma grande facilidade em comunicar. E parece-me que essa direção é uma direção de combate. No caso de Sebastião Bugalho, é mais difícil, mas de quinta a domingo, ele está em Lisboa, poderá eventualmente estar cá mais tempo, ou então está na cabeça dele regressar antes do fim do mandato. Ele garante que não e que pode responder aos jornais e rádios por telefone. Mas, por exemplo, para ir à televisão, que é um meio privilegiado de reagir, é difícil estar em Bruxelas e depois estar a reagir em nome do partido em Lisboa. Algumas que até têm que ser feitas na sede. Acho que esse cargo de porta-voz também dependerá muito do que o Luís Montenegro quiser que ele faça dele. Ele já tem um rottweiler, que é o Hugo Soares, que é quem vai para o embate. Eu acho que o Sebastião Bugalho pode ser mais um pastor alemão, mais um cão de guarda para essa função. Não sei se será fácil ou se ele confia assim tanto em Sebastião Bugalho nisso, mas o sinal que dá é que confia. E tem acontecido, se tiverem atenção, desde que está em Bruxelas, ciclicamente, para alguns assuntos em específico, em que o governo está a ser altamente criticado por ser um dos mais difíceis, foi testado Sebastião Bugalho, a pedido de Hugo Soares ou de alguém próximo de Montenegro, ir às televisões falar sobre esses temas. Portanto, é um pastor alemão já estudado e que eles, pelos vistos, gostaram do resultado daquilo que ele fez. E pode ajudar esse combate político, agora esse combate é de quem olha para dois anos e se calhar pensa, deseja e quer ter um ano tranquilo para depois vir um ano de combate político, quem sabe de eleições antecipadas.
Rui Pedro Antunes, Miguel Pinheiro, obrigado por esta análise ao primeiro dia do congresso. Nós voltaremos aqui ao Velódromo de Sangalhos amanhã, domingo. A partir das 11h vão ser conhecidos os resultados desta nova direção nacional com Carlos Moedas, Pedro Duarte e Sebastião Bugalho. Leonor Beleza mantém-se como primeira vice-presidente e também faremos nova edição de O Vencedor é a partir deste congresso e acompanharemos, naturalmente, o discurso de encerramento de Luís Montenegro.
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