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Juventude na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, a Raquel Abecasis e o António Costa. Temos de falar sobre os dados mais recentes revelados pelo INE sobre a população nacional e a porcentagem de imigrantes. Também vamos falar sobre imóveis do Estado que o governo opta por vender, perante algumas críticas que dizem que estes imóveis deveriam servir para habitação. E também temos de falar sobre mais um caso terrível de violência doméstica deste fim de semana, que levou à morte de uma criança de quatro anos. Mas vamos começar pelo fundo soberano anunciado pelo primeiro-ministro durante o congresso do PSD, que teve lugar este fim de semana e há pouco aqui na Rádio Observador, no Explicador desta tarde, explicámos o que era um fundo soberano. Para quem não ouviu, Antônio, numa pincelada, explica o que é isso de um fundo soberano.

Boa tarde. Um fundo soberano é exatamente o contrário daquilo que foi anunciado pelo Luís Montenegro. A começo de conversa.

Começa bem.

Acho que ficamos elucidados. Ouviram o que disse Luís Montenegro? Um fundo soberano é outra coisa. Vamos lá ver, agora detalhando com rigor. O Luís Montenegro anunciou de forma surpreendente num congresso partidário, uma coisa que deveria ser uma coisa de facto, e é anunciada como tal, de Estado, um fundo soberano. Há vários fundos soberanos pelo mundo e, regra geral, são fundos de países que têm recursos naturais e que, porque têm recursos naturais, criam um instrumento, eu diria, uma espécie de justiça intergeracional. Isto é, com os recursos naturais que têm, aplicam esses resultados para garantir para a posteridade, para as gerações futuras, os benefícios de um ativo natural que não é de uma geração em particular.

O dinheiro do petróleo vai para aquele fundo, que é uma almofada.

Para ser aplicado e ser rentabilizado para gerações futuras. Nós, na verdade, até temos um, posso lhe chamar, fundo soberano, que é o das pensões. O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social é um fundo soberano que todos os anos é carregado, digamos, reforçado com excedentes do sistema e que visa garantir que as gerações futuras vão ter direito a pensões se em algum momento o sistema entrar em colapso.

Esse dinheiro é investido, está investido, sobretudo em dívida, não é?

Sobretudo em dívida pública, mas também em empresas, apesar do que se diz, também no mercado de capitais. E seria muito mais rentável se houvesse não uma liberdade total para investir tudo em mercado de capitais, que obviamente seria um erro, mas um pouco mais de autonomia para investir um pouco mais do total em empresas cotadas.

Numa referência que os menores de 50 vão ter dificuldade de entender, não havendo petróleo no Beato, o que vamos ter?

Pois o que vamos ter? Vamos ter três referências. Vamos atender ao que disse o primeiro-ministro: "Será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos. Quero, dentro deste projeto, destacar que a intenção é termos participações acionistas, de forma a garantir um veículo de poupança para as gerações futuras e um instrumento de efetivar a soberania nacional. Estamos a falar de áreas como a energia, mas não excluímos a banca, as comunicações ou mesmo as infraestruturas." Mistura aqui tudo e eu acho que não é por acaso, é de propósito, porque mistura o conceito original de criar poupança e riqueza para as gerações futuras, com a participação nas ditas empresas estratégicas, que para mim serão umas. Eu acho que não há nenhuma, mas admitindo que haja quem considere que existem, para mim serão umas, para ti serão outras, para o governo serão outras e portanto, entramos aqui num domínio muito difícil, que é de saber o que são empresas estratégicas. E depois, por quê? Porque, na verdade, o primeiro-ministro que anunciou é que vai decidir a entrada do Estado português no capital, na estrutura acionista de empresas. Ora, isto levanta logo vários problemas, porque o fundo soberano, tal como foi anunciado, vai ser gerido pelo IGCP, que é um instituto que já existe. Portanto, o fundo soberano é pouco soberano, porque não é um fundo do ponto de vista jurídico. Um fundo para ser levado a sério, tinha que ser uma entidade autónoma, tinha que ter um conselho de supervisão, tinha que ter estatutos, tinha que ter um mecanismo que nós todos, contribuintes, que somos quem paga aquilo, porque aquilo vai ser financiado pelo orçamento de Estado, pudesse avaliar o que está a ser feito com aquele dinheiro, quanto é que se ganha com aquele dinheiro, em que é que se investiu, por que se investiu. Admitindo quem defenda que o país deve ter um fundo soberano. Eu acho que não, menos ainda para isto. Eu diria, até arrisco dizer, gostava que alguém pudesse apanhar Pedro Nuno Santos por estes dias na Assembleia e lhe perguntar se concorda, porque eu acho que vai ser o maior apoiante do Luís Montenegro, vai ser Pedro Nuno Santos e vamos ter belos títulos. Pedro Nuno Santos apoia Luís Montenegro no fundo soberano. Aposto aqui, vamos ver quem é que consegue dar primeiro este título ouvindo Pedro Nuno Santos nos corredores da Assembleia. Mas não é um fundo porque não está constituído como tal. É escolhido o IGCP, que é quem gere a dívida pública e não tem competências para gerir participações. Quando nós já temos uma empresa que tem participações.

Parpública.

Parpública. Temos outra, que é o Tesouro Também tem participações. E até temos outra, que é o Banco de Fomento, que também tem fundos públicos para ter participações. Nós temos um quarto fundo. Vamos lá ver, as pessoas são inteligentes. O primeiro-ministro quando anunciou, eu acho que obviamente já podemos falar um pouco disso, eu acho que o Congresso correu-lhe particularmente mal, entrou derrotado, no contexto da lei laboral, mas parece-me que pela forma como foi anunciado, aquilo já estava preparado. Não foi uma coisa que eles inventaram na sexta-feira para dizer no domingo. Aquilo já estava preparado e seria sempre anunciado. Portanto, eu assumo, parto do princípio, com a pouca informação que temos, mas lendo o que se passa no mercado em Portugal, que o primeiro-ministro já tem operações em concreto pensadas para este fundo e portanto fez ao contrário, anunciou um fundo, que na verdade não é um fundo, juridicamente, é uma autorização que a gestão do IGCP vai ter para investir em empresas públicas. Não é um fundo no sentido da Noruega.

Empresas públicas.

Perdão, empresas privadas e de capital. Não é um fundo à norueguesa, não é um fundo à espanhola, que ao contrário da norueguesa também serve para a intervenção na economia, chama-se SEPI, com S, e serve para o governo espanhol, todos, fazerem interferência total e como querem na economia, da forma que entendem. Só para terminar, arrisco dizer, e nos próximos meses cá estarei para responder por esta especulação que vou fazer agora. Acho muito estranha a referência do primeiro-ministro à banca. Acho estranha. Por quê? Porque o Estado já tem um banco, que é só o maior banco do mercado, que tem 30% do mercado, que já influencia o mercado como quer. E é até o mais rentável, ainda por cima. E ainda bem, de facto, bancos com buracos, estávamos nós, contribuintes. Quando o primeiro-ministro fala na banca, eu arrisco dizer que suspeito, de facto suspeito, e vou dizê-lo com cautela, mas suspeito que o primeiro-ministro esteja a antecipar a entrada do Estado no capital do BCP. Por quê? Porque o BCP, sabe-se, está num processo de mudança acionista. Eu já, aliás, trouxe aqui há umas semanas esta discussão dizendo que era um tema muito importante, embora um bocadinho distante para as pessoas, mas estrategicamente, politicamente, muito relevante. E eu arrisco dizer que com a saída da Fosun, dos acionistas chineses, a confirmar-se que querem sair e que estão em processo de venda.

O Estado pode entrar através deste fundo.

O Estado pode. Eu creio que o primeiro-ministro arranjou aqui um mecanismo político e anunciado para justificar por que vamos ver o Estado no BCP. Eu espero que não, porque seria o regresso ao passado, mas infelizmente desconfio que sim.

Já te vou pedir a nota para o fundo, aproveitando os conhecimentos de economia da Judite de França também.

O António já disse.

Não sei se partilhas do otimismo do António.

Partilho desse enorme otimismo do António, porque como o Eco disse, o fundo a ser financiado anualmente pelo orçamento de Estado não é poupança, não é receita, é despesa orçamental recorrente ano após ano para o Estado comprar ações. A Noruega, por exemplo, não tem um cêntimo de dívida no fundo.

E não tem empresas norueguesas.

E não está em empresas-

É empresas fora da Noruega, precisamente para evitar uma coisa óbvia.

70% são ações do fundo.

É uma intervenção.

Sim, estão a meter-se na economia.

Portanto, o fundo também tem ações.

Tem muitas.

Muitas ações, são 70%.

E aliás, é dos maiores investidores na bolsa portuguesa, nessa passagem.

Mas atenção, faz isso, como há pouco nos explicava o Pedro Lino, a longo prazo.

Sim.

E portanto, como é a longo prazo, o risco é muito baixo.

Por isso é que pode meter em ações, porque é a longo prazo e portanto investir em ações é, regra geral, no longo prazo, um ótimo investimento.

O Canadá também acaba de criar um fundo.

É óbvio, tem ativos naturais.

Mas que é o único que é financiado por empréstimo. Já está a ser apontado também como uma exceção um bocado bizarra.

Sim.

E portanto, a nossa também arrisca-se a ficar colada a essa exceção bizarra. Só por causa da questão dos setores estratégicos e daquilo que agora falavas do BCP e da Fosun. Isso fez-me logo lembrar o José Sócrates e os PIN, fez-me logo lembrar os Projetos de Interesse Nacional. Foi a primeira coisa que eu pensei, que foram criados em 2005 e não eram fundo acionista, atenção.

Não.

Eram licenciamentos mais rápidos, incentivos a fundo perdido, benefícios fiscais para aqueles que eram considerados estratégicos. E no fundo, o Estado é que escolhe e depois abre a carteira. Como é que acabou na altura? Muito mal.

Muito mal.

Acabou muito mal. Sócrates pôs a primeira pedra da La Seda em Sines, na fábrica de baterias da Nissan em Aveiro, andou a posar para fotografias da fábrica de aviões em Évora. Lembram-se de alguma que tenha sobrevivido? Nenhuma sobreviveu. Somos ótimos a escolher setores estratégicos, como se vê. Ainda estamos a tentar reaver 100 milhões de euros de incentivos que se evaporaram com as falências. O próprio governo ainda não resolveu o problema da TAP e já tem a Parpública e como dizia o António Costa, tem o Banco de Fomento, já controla a CGD. Isto seria, no fundo, mais uma entidade para comprar participações. Não há detalhes sobre isto. Foi anunciado no meio de fundo de catástrofes, a linha de comboios de Cascais, o Amália-

E as comemorações dos 700 anos

e os 900 anos de Portugal.

Outra reforma estrutural.

E num domingo em que de facto a manchete podia ser um Congresso manchado pelo chumbo da reforma laboral, podia eventualmente ser esse, passou a ser sobre um fundo soberano. Se era para mudar de assunto, enfim, isso conseguiu.

Mas- E deixa-me acrescentar uma coisa só muito rápida, o que disse Luís Montenegro Em 2024, da ideia que também critiquei, de Pedro Nuno Santos à data, ainda era líder do PS e candidato, mas tinha vindo da pasta das infraestruturas, que dizia que o Estado, para pôr os CTT em sentido para renegociar um acordo de serviço público de correios, podia ter até 2% dos correios. 2%! O que disse Luís Montenegro de Pedro Nuno Santos sobre a interferência na economia, sobre a forma estatizante como o PS e Pedro Nuno Santos veem as empresas e instrumental. Então agora quer criar um fundo soberano.

Então vamos à nota.

Três.

Três. Judite.

Eu como isto pode ser a quarta entidade a comprar participações, dou um quatro.

Uhum. E Raquel, Congresso do PSD. Foi um bom congresso?

Eu como acho que sou, autointitulo-me uma veterana dos congressos do PSD, tive o fim de semana todo a estranha sensação de que já tinha visto este filme, mas com profissionais.

Sim.

Portanto, pareceu-me o mesmo guião, mas a performance era bastante amadora.

Era assim uma sequela mais fraquita.

Era assim uma coisa mais lá para o bairro, lá para casa, e menos para o país. De facto, este congresso não começou da melhor maneira, por mais que se tenha virado o discurso para a vitimização e para aquela ideia de que o governo quer fazer reformas, mas a oposição é que não deixa. A verdade é que eu acho que logo no discurso de abertura, Luís Montenegro disse uma coisa e o seu contrário, porque fartou-se de falar de reformas que já fez, nas circunstâncias políticas existentes, e depois na segunda metade queixou-se de que não consegue fazer reformas porque a oposição não deixa. E portanto, nós ficamos sem saber, afinal, se estamos mesmo certos quando o ouvimos falar daquela longa lista de reformas que são apresentadas, se isso são reformas, se estão no terreno, se estão a ter algum efeito, porque é uma realidade da qual o primeiro-ministro fala, mas que não se vê. E aí ele, de facto, tenta representar o papel de Cavaco Silva, que é o seu grande mentor, mas também de Passos Coelho, apesar de não ter sido um nome muito referido durante o congresso, também é o outro primeiro-ministro desta área política que foi muito criticado, mas tinha trabalho para mostrar. E eu acho que o problema de Luís Montenegro é que ao fim de dois anos aquilo de que ele fala não é visível nem palpável ainda no terreno. E depois vieram as atrizes ainda mais secundárias, sobretudo a ministra da Saúde, que tentou replicar o papel da famosa Leonor Beleza, mas que depois também conta uma história de que ela já fez imensa coisa, nós é que não percebemos porque entretanto há muitos imigrantes. Vamos falar disso daqui a bocado.

Na saúde, Sá Carneiro na política e Leonor Beleza na saúde. Toda a gente invoca a Leonor Beleza.

Exatamente. Portanto, vamos falar disso daqui a bocado, mas a verdade é que o PSD chega a este congresso com dois anos de governo, interrompidos, é certo, por um ato eleitoral, mas com dois anos de governo, sem ter dados objetivos, números, mudanças objetivas que as pessoas possam ouvir e dizer: "Sim, isto já reparei. Sim, isto está a acontecer." Portanto, as pessoas estiveram a ouvir falar de uma coisa que não sabem o que é. Eu não estou a dizer com isto que algumas das coisas que foram entretanto colocadas no terreno, na área da saúde, noutras áreas, não venham a produzir resultados lá mais para a frente. Mas a verdade é que estamos aqui numa fronteira, porque os tempos em política contam, porque os resultados em política contam e, portanto, estamos aqui a entrar num terreno, num momento que eu acho que é crítico para o PSD. E depois aquelas encenações típicas de congresso, também elas cheiraram bastante a déjà vu. Aquela entrada de Pedro Santana Lopes, que já teve, todos nos recordamos, entradas mais fulgurantes, e aquela não chegou para animar as hostes, nem para animar o Congresso, até porque ele não provocou ali nenhum volte face, que era normalmente aquilo em que ele era bom. E a ascensão do jovem Sebastião Bugalho também ficou bastante aquém daquilo que costumam ser aqueles números preparados, até porque eu acho e suspeito que levantará bastantes invejas e bastantes críticas daqui para frente, esta ascensão fulgurante de Sebastião Bugalho, que ainda há um ano e pouco não era sequer militante do PSD. E depois os anúncios finais, o António já falou daquilo, da questão do fundo soberano, mas estes anúncios finais também são poucochinho. É tradicional e é típico guardar boas notícias para anunciar nos discursos finais do Congresso.

No discurso de encerramento.

Mas quer dizer, privatizar a linha de Cascais, que aliás já nasceu privada, um fundo soberano que não é um fundo soberano e já nem me lembro bem mais o que era.

Fundo de catástrofes.

O fundo de catástrofes. E a celebração dos 900 anos

E o Amália?

Sim, e o Amália. São tudo iniciativas um bocadinho coladas com cuspo para anunciar alguma coisa no fim do congresso. Eu achei poucochinho.

Queres dar uma nota?

Esperava que houvesse mais trunfos na manga de Luís Montenegro para isto parecer uma coisa profissional. E portanto, eu vou dar um oito ao Congresso PSD.

António, queres dar um lamiré sobre o congresso rapidamente?

Só para dizer rapidamente que esta conjugação de uma nova direção do PSD com o Carlos Moedas, com o Pedro Duarte e depois com o Sebastião Bugalho, de facto uma ascensão fulgurante, tendo em conta que não tem cargo executivo, não tem obviamente o peso que têm os outros dois, faz lembrar aquela fase em que António Costa decidiu meter todos os candidatos do PS, todos dentro daquelas comissões que mandavam.

Já estamos a assumir que Sebastião Bugalho é candidato à liderança.

Sim, será. Terá o seu tempo. Ninguém diria que ele seria porta-voz do partido ao fim de um ano, um ano e meio em Bruxelas, e é.

Vamos aos dados do INE, António.

Vamos aos dados do INE, são dados importantes. É, para já, a confirmação oficial de números que o governo já tinha anunciado pela IMA. Os números são impressionantes. De facto, 14% da população estrangeira é mesmo muito impressionante.

Divulga finalmente os dados também.

Sim, mas também se vem dizendo atenção que são dados administrativos, são dados apurados que nos foram enviados, que é uma coisa um bocado inédita da parte do INE, porque em rigor, todos os dados são administrativos. O INE vai procurar dados nas suas várias dimensões, mas nesta faz questão de dizer que são dados administrativos. Esta nuance não é de somenos no contexto político em que vivemos a discussão sobre a imigração e aquela confusão que houve no início sobre, afinal, parecer que o governo estava a enganar sobre os números de imigrantes. O INE faz uma comparação 2021 a 2025 e é muito expressivo o aumento, de facto. Mas eu acho que vale a pena detalhar o que foi a realidade 2021 a 2024 e 2024 e 2025. Porque, de facto, eu creio que talvez a mudança legislativa política efetiva e com resultados face ao que foi anunciado, foi mesmo a lei dos estrangeiros. Enfim, da nacionalidade é mais recente, veremos como é que vai correr, mas a dos estrangeiros. E estes números provam que a lei que entrou em vigor, nomeadamente, lembram-se que o fim da manifestação de interesse e a necessidade de haver registo de pedido de entrada no país, nos consulados dos países de origem e contrato de trabalho, produziu mesmo os efeitos que eram anunciados. Isto é, em 2025 entraram mais de 59 mil imigrantes, que é um número muito limitado face aos números dos anos anteriores. Em 2022 entraram quase 350 mil, foi em escala de 300 e tal mil, 200 e tal mil. Em 2024 ainda entraram 150 mil, 170 mil, dos quais dois terços no primeiro semestre. Portanto, de facto, esta legislação produziu efeitos, tem um efeito muito rapidamente económico, para o qual eu também sou mais sensível. Enfim, esta imigração de que estamos a falar é economia. O país foi crescendo, cresceu até acima da média da União Europeia. Estávamos muito contentes, mas não tínhamos os dados sobre o total da população que estava a trabalhar. O que é que isso conduziu com estes novos dados? É que somos mais pobres, em termos comparativos, do que aquilo que pensávamos que éramos. E portanto, nós achávamos que nos estávamos a aproximar da média comunitária e afinal estamos a afastar-nos da média comunitária. É verdade, os números são estimativas do ECO, não são oficiais, a Eurostat vai dar esses números nas próximas semanas e meses, mas creio que com estes dados atualizados, em vez de estarmos em cerca de 80 a 81% da média comunitária, em termos de riqueza por habitante, estamos em 74, 75%. Somos mais pobres do que o que pensávamos e não sabíamos.

Mas ficamos sempre mais ricos quando temos boa informação e dados.

Exato.

E Judite, ainda quero ir à questão da violência doméstica, por isso peço-te aqui num minutinho sobre-

Sobre a questão dos imóveis

...dos imóveis do Estado, que o Estado mantém a intenção de vender, nomeadamente em Lisboa, e não, segundo alguns, não deviam ser vendidos, deviam ser convertidos em habitação pública.

É isso. São edifícios desocupados, dois já foram vendidos, outros seis estão à espera este ano ainda de serem vendidos. Davam cerca de 450 casas públicas. É evidente que é a transformação daquilo que eram ministérios, por exemplo, escritórios ou salas de escritório, em habitação, e não é a mesma coisa, não é pôr cortinas, é preciso fazer obras, obviamente, mas há dois pormenores aqui: é mais fácil renovar do que construir de raiz. E estas estão construídas. Portanto, isso é uma grande coisa. A outra coisa é que o governo nunca diz quanto é que custaria fazer essas obras. Chama-lhe custos adicionais que não estão demonstrados. Não estão demonstrados porque não foram estudados. Portanto, se o problema é o custo dessa obra, era bom que o governo fizesse essa conta para saber se valeria a pena ou se não valia a pena. E entretanto, há a questão dos dois imóveis que já foram vendidos, um deles na Visconde de Valmor, e que o governo diz que foram vendidos acima da avaliação. Mas isso é brincar com as palavras, porque acima da avaliação é uma coisa, acima do valor de mercado é outra. São coisas totalmente diferentes. E, portanto, aquilo que se percebe é que os imóveis foram vendidos por cerca de, um deles 15 milhões, que pode ser acima da avaliação, mas é claramente abaixo da avaliação de mercado.

Houve leilão.

Houve leilão.

Então é mercado. Se houve leilão, é mercado.

Não, mas a questão é esta: a questão é que tu podias perfeitamente ter vendido sem ser em hasta pública e podias ter posto um valor de mercado, podias ter posto 20 milhões.

Mas o leilão é mercado, vamos lá ver, hasta pública é-

É, mas tu também sabes como é que funcionam os leilões

São leilões. Portanto, isso bem é. Vamos lá ver se chegamos à conclusão.

Eu vou atropelar-vos. Temos mesmo que atropelar.

Atropela.

Porque eu ainda quero ir à Raquel. Tivemos mais um caso terrível este fim de semana com a morte de uma criança. Já morreram quatro crianças este ano. Raquel, que comentário queres fazer sobre esta matéria?

O comentário que eu quero fazer é que é uma tragédia nacional, é uma doença, uma pandemia nacional. E andamos há anos a ouvir falar nisto, ainda agora no Congresso do PSD voltou a ser um tema de destaque, mas não se faz nada. A Ministra da Justiça já colocou isto como uma das suas grandes prioridades. Não vi que tivesse acontecido nada. E, na verdade, eu nem sequer sei bem se o tema é legislação ou se o tema é prevenção e denúncia, porque mais uma vez nos confrontamos com um homem que já tinha um processo desde 2024, que já tinha sido alertada a PSP para situações de violência naquele apartamento e a polícia não aparecia. Já havia histórico e há uma criança que morre nestas circunstâncias. Eu acho que isto é quase tão grave, ou é mais grave do que os dramas dos incêndios e das inundações e tudo isso. Eu acho que nós devíamos ter campanhas permanentes nos meios de comunicação social a alertar as pessoas para isto, a dar os números repetidamente de 15 em 15 dias. Já morreram quatro crianças, abrir canais de denúncias, ou seja, tudo o que são coisas que se podem pôr rapidamente no terreno para evitar que estas coisas aconteçam. Quer dizer, como é que em menos de uma semana morreram duas crianças pequenas vítimas de violência de adultos que, na sua maior parte, ou estavam sinalizados ou se não estavam, deviam estar. Porque sabemos também que há muita gente que não denuncia e acho que essa é uma pedagogia que nós devemos fazer, mas que devemos fazer com aquela vivacidade e violência que às vezes as pessoas já tivemos sobre acidentes de viação, sobre outras causas e dramas complicados. Eu acho que este é talvez o drama mais complicado que nós temos neste momento no nosso país.

Raquel, obrigada. Raquel Bocasis, António Costa e Judite França. Está feito o vencedor de hoje. Amanhã há mais, nas manhãs 360. O Rui Pedro Antunes junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.