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Eu vou num instante de Manhattan até Boston, onde está o Ricardo Ferreira Reis, que está a dar aulas nesta altura aqui nos Estados Unidos e que estava cá em 2001. Também é caso, Ricardo, para perguntar onde estava no 11 de setembro.

Olha, não estava em Boston, nem estou em Boston. Estava em Filadélfia e estou em Filadélfia.

Filadélfia. Exato.

Isto fica a cerca de 150 km de Manhattan, estamos a cerca de 150 km de distância, mais ou menos a distância de Leiria a Lisboa ou se quiser, de Pombal a Lisboa.

É isso mesmo.

E mais ou menos a cerca de 200 km de distância do Pentágono. E estou bastante próximo de Shanksville, posso procurar aqui rapidamente a distância que estou de Shanksville, que foi onde caiu o outro avião. Estava aqui no meio de um triângulo onde tudo aconteceu. Estava aqui, estava a fazer o doutoramento, aqui na Universidade da Pensilvânia. Estava a dois quarteirões de onde estou neste momento. Era terça-feira, à terça-feira não tinha aulas, não tive que ir à universidade, estava em casa, recebi uma chamada do Porto, da família, a dizer o que é que se passa. Liguei a televisão, vi em direto o segundo avião e depois deixei de conseguir contactar com Portugal. Uma das coisas que me lembro é que os sistemas de comunicação desapareceram e só coisas muito esporádicas, como o MSN da Microsoft, que havia um sistema de chat mais ou menos improvisado, que se usava, continuou a funcionar e foi dessa maneira que eu consegui mandar informações para a família em Portugal.

Exato.

Diretamente, obviamente, não fomos afetados porque nada veio para aqui, embora houvesse rumores de que alguns aviões poderiam estar a ser dirigidos para edifícios históricos, isto é uma espécie de Guimarães cá do sítio, o Independence Hall, onde foi assinada a declaração de independência. Eles fizeram um perímetro de segurança brutal à volta disso. Lembro-me bem desse dia, lembro-me de ter ficado em casa a ver as notícias e lembro-me também de uma coisa que combinamos entre nós aqui com os meus colegas americanos, que era que íamos tentar alterar o mínimo possível da nossa rotina para não dar uma vitória aos terroristas e procurar que a vida continuasse o mais possível. E à terça-feira nós jogávamos futebol. Fui jogar futebol.

Exato. Ricardo, esse é um ponto muito interessante. No fundo, deixar que a vida prossiga de forma normal perante estes ataques terroristas bárbaros, que no fundo também são um ataque à nossa forma de estar e de viver no Ocidente. Lembro-me perfeitamente, fazendo aqui um paralelo com os ataques em Paris, no Bataclan, que na noite a seguir não havia viva alma na rua em Paris, o que não é normal. E depois as pessoas regressaram às esplanadas precisamente num ato de desafio a dizer: "Não, esta é a nossa forma de viver e vamos continuar a vivê-la".

Pronto. No meu caso, o desafio foi jogar futebol e mal, como fazia na altura e continuei a fazer agora, mas também para relaxar um pouco de um dia de bastante estresse. Mas a ideia foi exatamente essa. A universidade fechou, passado poucas horas do primeiro embate. Eu não me apercebi disso, porque como disse, não tinha aulas, não tinha que estar na universidade, mas fechou. Mas houve um esforço da universidade reabrir o mais rapidamente possível logo a seguir. E portanto, em poucos dias a universidade estava reaberta e a funcionar com a máxima das normalidades possíveis. Estes 150 km de distância de Manhattan fazem com que muita gente viva a meio. Eu tinha colega de doutoramento casado com uma pessoa que trabalhava no World Trade Center e que estava numa das torres que não foi atingida pelos aviões, o World Trade Center não era só aquelas duas torres, mas que viu em primeira mão o avião a entrar pela torre dentro. Eles viviam a meio do caminho entre Filadélfia e Nova York, portanto ele vinha para sul e ela ia para norte todas as manhãs. Lembro-me também de no próprio dia ter telefonado a esse meu colega e perguntado: "O que é que se passa? Está tudo bem com a tua mulher?" E depois, uma das coisas que me apercebi bastante era da quantidade de gente que indiretamente, os tais seis graus de separação, ou dois ou três, neste caso, eram muito próximos, que diziam que "o meu tio está a ir a um funeral no Pentágono, por pessoas do Pentágono". Muita gente envolvida diretamente nesta situação. Três mil pessoas fazem com que isto nos toque muito proximamente. Os tais seis graus de separação tornam-se evidentes nestas alturas. E portanto, durante muitos dias a seguir, esses seis graus de separação, ou muito menos do que isso, tornaram-se evidentes que isto era uma coisa que estava aqui muito próxima, apesar dos 150 km de distância para as torres.

Exatamente.

Foram dias de bastante incerteza, sim. E é interessante revivê-los agora tão próximo, por coincidência estou cá outra vez, mas é interessante revivê-los agora tão próximo.