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E já que estamos na Rádio Observador para mais um encontro com a beleza, trazido pelo Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Meus caros.
Então vamos para os Estados Unidos?
Na verdade, não. Vamos a sítios como a Polinésia, Tahiti, Havaí, alguma África, alguma Ásia. Veremos.
Mas com ligação a Texas, porque o senhor que traz era natural do Texas.
Exatamente, é um americano. Vamos falar de Leslie Baxter, que nasce em 1922 e morre em 96.
Tem um ar muito bem-apessoado, não tem?
Muito bem-apessoado. É aqueles anos 50, perfeito gentleman dos anos 50. Quem é este compositor? Dos meus favoritos, devo dizer. Nunca o trouxe aqui e espero que seja também dos vossos favoritos a partir de hoje. É um tipo que recebe uma educação bastante clássica, acadêmica, etc., mas logo ali nos anos 40 começa a virar pro jazz e pras swing bands. Estamos no período de ouro de Artie Shaw, Nat King Cole, enfim, esses nomes grandes.
Era uma onda cult também da altura.
Completamente. E há aqui uma zona, por exemplo, Nat King Cole, que era um fenômeno muito popular, ele tinha uma formação muito competente. Ele tocava piano muitíssimo bem, lia partituras. Portanto, há aqui um pensamento riquíssimo musical, que depois, uma geração a seguir, por exemplo, o Elvis já não tem. A música vai se simplificar. E o Nat King Cole, se conhecem a discografia dele, ele tinha quase sempre orquestras por trás. Portanto, há uma secção ritmo, mas há sempre uma orquestra. E pra haver uma orquestra, tem que haver quem a dirija, quem escreva pra ela. E o nosso Les Baxter vai ser essa pessoa. Portanto, se conhecem temas como "Too Young" ou "Mona Lisa", do Nat King Cole, pra dizer dois dos que têm a orquestração mais exuberante, é deste homem. Em 1950, é ele que faz também a orquestração do primeiro disco de uma artista incrível, que é a Yma Sumac. Não sei se conhecem.
Não. Quem é Yma Sumac?
Vamos ter que ter aqui um episódio dedicado a ela. Yma com Y. Sumac, S-U-M-A-C. Vou tomar nota disto. É uma cantora peruana, uma cantora quechua, que está entre a ópera e a música folk. Dizia-se que era a cantora com a maior amplitude. Portanto, ela ia dos graves mais graves até lá em cima, um registro absolutamente avassalador.
Ficou no Guinness.
Exatamente. O primeiro disco dela, que é extraordinário, por favor, conheçam, chama-se "Voice of Xtabay", que deve ser um deus.
Também conhecida como Queen of Exotica.
Exatamente.
Quero muito saber sobre isso. Aponta, por favor.
Tens de tomar nota nas notas do iPhone. Yma Sumac. E de fato, se ela é a Queen of Exotica, ele vai ser o rei da exótica. O que é a exótica? É um gênero musical muito assente numa capacidade de transformar a orquestra num veículo de transmitir emoções tropicais, sons da floresta, da selva, coisas assim, sem ser necessário ir lá. Portanto, o Les Baxter não foi a estes sítios todos, provavelmente não saía do seu estúdio em Beverly Hills, mas escrevia música, lá está, pra aquelas tiki parties. Estão a ver aquelas canecas dos tiki bars, que sai fumo do nariz?
Polynesian Bar.
Exatamente, é tudo isso. Ele não vai logo encarreirar pra aí. Ele fazia uma coisa que era orquestrar canções que já existiam. Por exemplo, o primeiro disco dele a vender um milhão de cópias, foi uma orquestração dele da "Unchained Melody".
Dos Righteous Brothers.
Exatamente, que não é dele. Ele orquestrou até um fado, porque interessava-lhe tudo que era exótico e tropical, tudo que era distante dos Estados Unidos.
Ele fez o quê a um fado?
Orquestrou um fado do Raul Ferrão, que é o autor do "Lisboa, Não Sejas Francesa". Aquele que se chamou "April in Portugal", que é dos anos 40, onde inclui uma guitarra portuguesa. Portanto, teve que ir alguém tocar guitarra portuguesa para o estúdio de gravação dele na Califórnia. Mas o foco é, sobretudo, nestas latitudes de que falava: a Polinésia, o Havaí, alguma América do Sul, tudo aquilo que é tropical.
Será que se cruzou com Carmen Miranda?
De certeza que sim.
Espero bem que tenha acontecido.
Isto é incrível. Um outro subgênero de música em que ele se especializou, que é a música lunar.
What?
A música lunar.
O que isso significa?
Nos anos da ficção científica lunar, anos 50, 60, todo o cinema, os livros, tudo isto era a Lua. Conquista da Lua, o espaço lunar. Portanto, ele fazia a música para os filmes que se passavam na Lua.
Ok.
Portanto, tinhas que imaginar, tudo à volta do theremin, que é aquele instrumento uma coisa assim. Ele tinha essa criatividade.
Que homem tão viajado.
Sim, na cabeça dele. E isto tudo através de um domínio brilhante da orquestra, dos timbres, até da equalização, porque ele faz, por exemplo, tem secções de cordas muito grandes e depois tem uma flauta a tocar no registo grave. A flauta, em circunstâncias normais, seria atropelada por aquelas cordas, mas depois ele vai pro estúdio e faz ali uma equalização em que a flauta fica a um volume. Portanto, aquilo é mesmo uma boa orquestra a gravar em disco com bons engenheiros de som, tudo mais. Agora, isto pode não parecer clássico, porque tem uma secção ritmos, vamos ter uma bateria, vamos ter uma guitarra elétrica, às tantas, mas isto é escola clássica, orquestra clássica, orquestração clássica, isto tudo está escrito em partitura. Vamos ouvir uma canção. São muitas as que eu podia escolher. Foi uma das mais genéricas, chamada "Tropicando", que é de 1970. Eu acho que o título diz tudo, depois diremos em que tropicalia é que nos achamos.
Com que então tropical?
Queres mais tropical que isto?
Isto remete-me para um tropical mediterrâneo.
Ok, curioso. Ele tem coisas ainda mais exóticas. Uma das minhas preferidas chama-se "Jungle Flower", também podia ter trazido aqui essa, ou "Sophisticated Savage". Os nomes também são sempre assim, épicos. E tens naquelas capas, aqueles biquínis com cascas de coco e saias de palhota. É a escola dele. Ele fez mais de 100 filmes, mas muito série X. Era lindo fazer um ciclo só de cinema. Estão a ver aquele sexploitation dos anos 70?
Adoro.
Filmes de baixo orçamento, é ele a fazer as bandas sonoras deles.
Normalmente até tem música da Stax, não é?
Sim, exatamente.
Que é ótima para esse género.
Eu adorava que se fizesse um ciclo só disto. Acho que é uma coisa de culto, mas giríssima.
Fica a ideia.
Acho que envelheceu bem. Ele nunca ganhou um Óscar, coitado. Os filmes dele não eram esse tipo de filmes, não tinham esse orçamento, mas tem uma estrela no Passeio da Fama. E isso também é uma bonita homenagem.
Estava a ler que nos anos 80, o trabalho aqui nas bandas sonoras caiu um bocadinho na vida dele e ele teve que depois gravar música para parques temáticos, como por exemplo o SeaWorld.
O que também é lindo.
E também estou a imaginar aquele fundo sonoro naqueles tanques.
Exatamente, as orcas.
Acho que é ótimo.
É incrível. E isso, de facto, é uma escola que desapareceu, as orquestras de estúdio, já aqui falámos nisso a propósito do Max Steiner, desapareceram, são caríssimas. São poucos os compositores hoje em dia, como o Hans Zimmer, o Max Richter ou o John Williams, que têm à disposição estas grandes orquestras, porque é muita massa.
E depois também era aquilo que se tocava nos salões, não é? E no hotel, imagino isto em Miami ou Las Vegas, há uma big band com este tipo de som.
Sim, há uma música dele, que eu ouço aquela música e automaticamente sinto que estou a bordo de um iate numa noite quente no Mediterrâneo.
Qual é que é?
Tenho a camisa aberta, tenho vento quente na cara. Eu hei de cá trazer um dia. Um dia de inverno, que esteja assim um tempo miserável, trago-vos para o meu iate.
Les Baxter.
Les Baxter. Grande amigo.
Grande amigo e aqui destaque do episódio desta semana do "Encontro com a Beleza" com o Martim Sousa Tavares. Marcamos novo encontro com o Martim e com a beleza de hoje a uma semana. Um abraço, Martim.
Até lá estaremos.